Ontologia e finitude: uma investigação a partir de Strawson, Wittgenstein e Cavell

 

Responsável: Jônadas Techio

Resumo:

  • Peter Strawson foi um dos principais responsáveis pela reabilitação da metafísica na tradição analítica. Ele o fez propondo uma “metafísica descritiva” (por oposição a validadora ou revisionista), pautada pela busca de uma visão geral e sistática dos traços mais fundamentais ou básicos de nossa “estrutura conceitual” – i.e., dos conceitos que constituiriam certo “nucleo maçiço central do pensamento humano que não tem nenhuma história” (IN 10). A metodologia adotada para obter esses resultados situa o projeto filosófico strawsoniano como uma espécie de meio-termo entre a investigação metafísica tradicional (sobretudo em sua roupagem kantiana)e as pretensões da “filosofia da linguaguem comum” que ainda dominava o cenário filosófico no momento em que Strawson publicou sua obra prima, Individuais (1959). A presente pesquisa visa estabelecer uma avaliação crítica dessa proposta partindo do confronto (sugerido pelo próprio Strawson)entre a metodologia defendida por esse autor e os procedimentos “terapêuticos” que caracterizam os escritos mmaduros de Ludwig Wittgenstein. Para tanto – e por razões que serão identificadas no desenvolvimento deste projeto – a pesquisa privilegiará uma interpretação particular desses procedimentos, articulada de maneira seminal e exemplar na obra de Stanley Cavell. Uma aspecto fundamental dessa interpretação – que também caracterriza a obra cavelliana de maneira mais geral – é a atenção dada ao ceticismo e a insatisfação como finitude humana, particularmente com a nossa condição de seres encarnados, e como tais separados das outras pessoas e do mundo que nos rodeia. Embroa tal insatisfação tenha nos acompanhado desde sempre, ela foi reforça da pela revolução científica e cultural dos séculos XVI e XVII, dando lugar a um sentimento caracteristicamente moderno de isolamento e perda de contato com a realidade externar. Na base desse sentimento de perda Cavell diagnostica uma fixação com o idela do conhecimento como certeza baseada no que recebemos pelos sentidos, resultando em uma imagem de nosso contato com o mundo que é a de um espectador olhando passivelmente para objetos desprovidosde qualquer valor. O cinema, de acordo com este autor, é a arte que melhor captura essa imagem. O envolvimento de Cavell com a base fotográfica de cinema, em sua primeira obra dedicada ao tema, permitiu-lhe reconsiderar o ceticismo em função da nossa condição de espectadores de uma “sucessão de projeções automáticas do mundo”(1971, p. 72); mais especificamente, segundo ele, o advento da fotografia teria satisfeito o desejo de superar a subjetividade e o isolamento metafísico – portanto, a finitude – precisamente na forma como o ceticismo moderno previa, a saber, por meio da remoção do agente humano da tarefa de reprodução do mundo, tornando-o puramente mecânica e, nessa medida supostamente objetiva. Contudo, o preçon a ser pago por essa liberdade recém adquirida é alto: transformar o sujeito em alguém completamente passivo e ausente do mundo (como que vendo-o por detrás de uma câmera), em vez de parte dele. Ao tornar-se cientes dessa consequência, o envolvimento com a ontologia do cinema habilita-nos a perceber que o sentimento moderno de isolamento é grande parte nossa própria culpa, já que a posição de espectadores passivos é algo que temos de assumir. Esta constatação, por sua vez, será crucial para a finalidade terapêutica de tentar superar o impulso cético, permitindo-nos reconhecer que, ainda nossa condição finita imponha limites sobre o nosso conhecimento do mundo e de outras pessoas, esses limites não precisam ser vistos como confinantes;pelo contrário, são justamente esses limites que, em primeiro lugar, possibilitam nosso contato com a realidade externa. Ao sublinhar a importância desses pontos, chamando atenção para suas consequências metodológicas em relação ao projeto de esclarecimento de nosso “esquema conceitual”, a presente pesquisa pretende dar continuidade a uma reflexão iniciada em minha tese de doutoramente, que tinha entre seus objetivos gerais o estabelecimento de uma investigação metafísica característica pela autoconsciência em relação à finitude humana e às ansiedades que dela decorrem, e que, por conseguinte, deveria avançar lançando mão de uma metodologia adequada a esse propósito. Esse projeto compartilha (e de fato radicaliza) o aspecto descritivo da metodologia strawsoniana, mas prescinde do ideal de generalidade máxima e da busca sistemática por “categorias fundamentais” (e estáticas) de nosso pensamento, substituindo-os por uma análise mais atenta às condições efetivas complexas e mutáveis do uso de nossos conceitos, os quais são tão (e tão pouco) estáveis quanto os próprios interesses e necessidades humanas a que dão expressão.

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