Por Taylor Pedroso de Aguiar
Quando perscrutamos nossas mais caras memórias, inevitavelmente sentimos uma necessidade de reviver com paixão aqueles mitos fundadores que contribuíram para inaugurar nosso sentimento de pertença a este mundo. Decerto ninguém pode ser capaz de lembrar seu primeiro choro ou o momento de sua concepção; é dos anos iniciais de socialização no mundo, entretanto, que nos vem a impressão de que fizemos uma passagem de seres humanos a seres idiossincráticos – e por isso mesmo especiais. Separados da indistinção do processo embrionário, na infância assumimos vida a partir do que nos funda fora do ventre de nossas mães. Tudo o que nos acontece a partir daí é dádiva, novidade, aprendizado e construção. E é também mito e memória.
Nessa composição do ser, como rememorar os mitos que me fizeram ser quem sou? Na tentativa de responder a esta indagação, o primeiro caminho que encontro por trilhar é o reconhecimento de que sou feito por aquilo que vivi. Em seguida, posso vasculhar em minhas lembranças os acontecimentos que marcaram esta feitura, modelando hábitos e tendências que se projetaram em minha vida como disposições duradouras e que não importaram apenas em episódios pretéritos. É nos mitos de minha infância – elaborações mais que concretas e verdadeiras, posto que eficazes – que minhas memórias adultas encontram hoje os seus fundamentos mais genuínos. Para escrever este texto sobre mito e memórias que constroem meu ser, inicialmente pensei em partir de uma pergunta de corte profissional: como me tornei um antropólogo? A ideia era simplesmente elaborar uma genealogia mnemônica de minha relação com a antropologia. Contudo, meus mitos relembrados me convenceram de algo muito importante: é impossível demarcar uma linha divisória entre o antropólogo adulto que sou e o antropólogo criança que fui. Ambos são um e o mesmo.
Ademais, o construto que hoje dá forma à minha pessoa não pode ser resumido à experiência que tive e tenho com a antropologia. Apesar disso, a ideia da genealogia mnemônica gerou bons frutos. Eu queria encontrar algum momento especial em minha trajetória de vida que dissesse algo sobre como vim a me tornar um antropólogo e acabei descobrindo que comecei minha formação – assim como suponho que muitas outras pessoas também tenham começado seus processos formativos – muito antes de ler Malinowski. Mais exatamente, sem que o soubesse, posso ter encontrado o “espírito” antropológico enquanto construía meus mitos de infância. Para os efeitos de um relato sucinto a este respeito, ainda que prazeroso, destacarei apenas um deles. Trata-se de uma sociedade por mim imaginada e planejada em um dos cômodos da casa onde eu morava. Nela, quase tudo acontecia. Eu era uma espécie de Administrador, Deus ou Soberano que manipulava brinquedos os mais diversos em interação comigo mesmo e com eles. Bonecos em miniatura, caixas de sapato, utensílios domésticos, sucata e veículos de tamanhos variados compunham a minha sociedade encantada, instalada em uma sala apelidada desde os primórdios de “sala dos brinquedos”, pois que servia unicamente a esta finalidade mitológica.
Em cima do tapete central da sala, havia um campo onde aconteciam as atividades desportivas da cidade. O desenho retangular do tapete, com marcações em quatro linhas ao longo de suas extremidades, facilitou a minha tarefa de transformá-lo em um lugar propício para a realização de partidas de futebol. Apenas tive que utilizar fundos de caixas de fósforo para erguer as goleiras e uma bola minúscula de plástico para fazer os jogos acontecerem. O círculo do meio-campo era imaginário e os jogadores eram compostos só de pernas – os dedos de minhas mãos, que alternavam entre um time e outro. Ao redor do estádio, no chão da sala, estavam as quatro ruas centrais da cidade. Por nelas trafegarem os cidadãos em seus veículos automotores – em minha filosofia desenvolvimentista, eu não pensava em calçadas e muito menos em ciclovias -, meus planos para a construção das arquibancadas do estádio nunca se efetivaram. Sua realização atrapalharia o trânsito daquela sociedade.
Em minha criação, eu realmente pensava no quanto aqueles cidadãos, bonecos e bonecas de diversos tamanhos e espécies, desde Smurfs até Flintstones, passando por brindes de Kinder Ovo, viviam felizes nesse mundo imaginário e tão cheio de concretude pela organização das instituições que o engendravam. Em algumas caixas de sapato, estavam localizados estabelecimentos cruciais para a vida na cidade, como o banco, o presídio e a prefeitura. Constato hoje, abismado, que não havia ali escola alguma, porque poucos de meus bonecos eram crianças. Mais tarde inventei um hospital, mas este não estava concretizado em uma caixa de sapato, mas sim situado em um bairro imaginário fora das quatro ruas. Que não fiquem os/as colegas e o professor com uma má impressão minha ao verem que eu era o projetista de uma sociedade muito pouco humanista. Saibam que o que me movia a construí-la era uma vontade enorme de ver uma organização social funcionando. Mais do que ver, tratava-se de tomar parte e projetar a condução de seu funcionamento, a sua política. Aliás, funcionar pode ser tomado como um verbo-chave para entender outras coisas que elaborei naqueles tempos de sociedade mitológica de infância. Todas as pessoas nela residentes tinham nomes e funções, bem como estavam associadas às instituições em que trabalhavam. Assim era que um certo leão assumia o nome de José e se elegia sempre como prefeito, ou ainda que havia um sujeito que eu considerava um tanto quanto estranho e ao qual, por isso mesmo, atribuí o nome-função de Detetive.
Por volta de meus sete ou oito anos, quando a sociedade encantada esteve em seu apogeu — ou seja, na Idade de Ouro e em pleno funcionamento –, eu comecei a expandir os limites dos territórios imaginários da cidade. As quatro ruas que ladeavam o campo de futebol já eram muito pequenas para abrigar a multiplicidade de edificações e aparelhos dos quais dependia a vida urbana. Colonizei, então, os outros cômodos da casa. Se não materialmente, impedido de levar mais brinquedos aos quartos, cozinha, banheiro e à outra sala da casa por divergências com os integrantes adultos que comigo residiam – meus avós –, ao menos o fiz simbólica e graficamente. Elaborei um mapa onde cada caminho da casa equivalia a um logradouro e recebia um nome. Por exemplo: o corredor que ligava a “sala de brinquedos” à porta dos fundos, passando pela sala central e pela cozinha, foi inscrito no mapa como “Avenida Getúlio Vargas”. Os móveis que a rodeavam se tratavam de edifícios onde, supostamente, outras dinâmicas da vida social aconteciam. O hospital ficava assim estabelecido na mesa da cozinha, suprindo as limitações que o espaço inicial impunha. O núcleo antigo das quatro ruas acabou por se tornar apenas um dos bairros da cidade.
A complexidade que tomava conta da sociedade em minha imaginação foi tomando forma através de outras inovações, como a formulação de relatórios específicos das secretarias que compunham a gestão pública municipal. Neles constavam itens como os projetos desenvolvidos em cada área, os gastos necessários para levá-los a cabo e a assinatura de cada secretário – por sinal, todos bonecos em suas funções correspondentes. Obviamente, havia aí um interesse intenso pela política institucional que advinha de meu contato com o mundo das eleições. Até hoje tenho guardadas centenas de “santinhos”, como são conhecidos os folhetos distribuídos em campanhas eleitorais, sejam eles de eleições municipais ou estaduais/federais. Esta mania de coleção acabou gerando em mim uma certa fixação com o mundo da política. Colabora para isso também o fato de que um dos primos de minha avó materna foi vice-prefeito de Antônio Prado em duas gestões diferentes à época, o que tornou para mim a política ainda mais “familiar”, no sentido menos nepotista da coisa.
Dir-se-ia que toda essa experiência inusitada poderia apontar para algumas “vocações” profissionais que neste momento de minha vida estavam sendo condicionadas? Não creio. Não me tornei nem político, nem arquiteto, nem geógrafo, nem outras possibilidades que poderiam ser associadas aos meus interesses fortes da infância. Se me tornei antropólogo, isso foi menos por uma determinação unívoca de minhas preferências “vocacionais” e mais pela contingência das circunstâncias que foram aparecendo pelo caminho, ao longo de outras épocas posteriores a esse momento específico da infância. Mas me parece que, de fato, encontro o mito fundador de minha existência como pessoa pensante e independente, ou a âncora daquilo que me é mais caro em termos de valores de vida e daquilo que me compõe enquanto ser idiossincrático, naqueles dias tão criativos em que me tornei o Construtor do mito da sociedade encantada. Inconscientemente, eu poderia estar reproduzindo na infância um durkheimiano perfeito ao projetar e zelar pela coesão social mais do que nunca na minha vida. Mas de lá para cá muita coisa mudou. E que bom que não penso mais em banco, presídio e prefeitura em primeiro lugar! Procurei, no entanto, manter em minha mitologia sagrada aquilo que de bom aprendi com a “sala de brinquedos”: que a imaginação e a criatividade, bem como a antropologia, podem nos fazer ver, interpretar e construir mundos improváveis, mas bastante reais.
* Esse é o segundo dos textos que foram escritos durante a disciplina Seminário de Doutorado, ministrada no semestre letivo 2020.1 pelo professor Dr. Ruben George Oliven no PPGAS – UFRGS. Essa disciplina tem o objetivo de abrir os horizontes de pesquisadoras e pesquisadores em formação, desafiando-os a produzir notas de leitura, reflexões pontuais e coesas bem como monografias sobre algo que não se tenha cogitado investigar até então.
O jovem anarquista que a ministra costuma encerrar o semestre letivo com sua querida “caminhada etnográfica”, um passeio guiado pela cidade de Porto Alegre em que sociabilidade urbana e memória se entrecruzam. Em 2020, devido à COVID-19 e às suas medidas de mitigação, essa atividade teve de ser reelaborada e, em seu lugar, o professor propôs a escrita de reflexões de pequena extensão que caminhassem por veredas da memória ou que vertessem o olhar sobre as vias pandêmicas que nos cercam.
(Imagem: Steve Buissinne/Pixabay).
