Integrantes do GAEP apresentam trabalhos na XIV Reunião de Antropologia do Mercosul

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Seis integrantes do GAEP apresentarão trabalhos na XIV Reunião de Antropologia do Mercosul. Intitulada “Reconexões e desafios a partir do sul global”, esta edição do evento ocorre entre os dias 1 e 4 de agosto de 2023, em formato presencial, na Universidade Federal Fluminense (UFF/Niterói/RJ).

As atividades planejadas para a XIV RAM buscam refletir sobre os marcos e formas de produção do conhecimento desde o Sul Global, ou seja, a partir de conhecimentos e epistemologias outrora pouco evidenciadas, ou menos hegemônicas, como as epistemologias ameríndias, afro-brasileiras, afro-americanas, de populações originárias, com cruzamentos de gênero, raça, entre outras abordagens fundamentais para o atual momento das ciências humanas, em que se torna obrigatório comtemplar as diversas perspectivas de apreensão e de soluções para o planeta e de seus desafios.

Abaixo, acesse maiores informações sobre os trabalhos que serão apresentados por integrantes do GAEP. 

GT Mercados culturais e trabalho: desafios e fazeres etnográficos
Coordenadores/as: Marina Frydberg (UFF), Victoria Irisarri (CONICET)

Título do trabalho: Apontamentos etnográficos para a compreensão da mediação de leituras como um trabalho do setor cultural

Resumo: Nesta pesquisa de caráter etnográfico, tenho o objetivo de explorar os sentidos emergentes da mediação de leituras no trabalho cultural realizado em clubes de leitura e bibliotecas comunitárias brasileiras. Tomo como ponto de partida as anotações provenientes da observação participante no ciberespaço que realizei em 2021 e 2023, em quatro cursos de formação de mediadores de leitura, ofertados por uma biblioteca comunitária de Fortaleza (CE), uma rede de bibliotecas comunitárias de Manaus (AM) e duas entidades do terceiro setor brasileiro. Proponho uma discussão que enfoca a compreensão das mediadoras de leitura com quem interagi sobre agenciamentos do mercado literário, como suas próprias fabulações do que seja a leitura por lazer e, principalmente, as noções de “mediação-como-arte” e “mediação-como-técnica”. Essas concepções operam no trabalho cotidiano que elas desempenham na construção de um circuito alternativo de divulgação e consumo de livros e literatura, bem como de afetos em redes de apoio comunitárias. Essa investigação, portanto, se insere nos debates sobre novas formas de trabalho na cultura, economia criativa e as formas pelas quais o capitalismo contemporâneo incorpora críticas e se renova, através da vida por projetos e da construção de redes colaborativas de trabalhadores.

GT Políticas etnográficas no campo da cibercultura: abordagens sociotécnicas das sociabilidades, consumo, política e ativismos contemporâneos

Título do trabalho: O “paradigma” da Ciência Aberta: Uma leitura antropológica dos debates da comunidade científica a partir da Área de Humanidades na Coleção SciELO Brasil

Resumo: O movimento Ciência Aberta surgiu no início dos anos 2000, na esteira das iniciativas por Acesso Aberto e Arquivos Abertos. No Brasil, integra a construção do 5º Plano de Ação da Parceria para Governo Aberto (OGP), ação internacional da qual somos um dos membros-fundadores. No ambiente editorial científico, tem sido capitaneado pelo SciELO por meio de seu Programa de Ciência Aberta (PCA), que prevê a abertura do processo de avaliação por pares, o depósito de dados de pesquisa em repositórios de dados abertos, o uso de servidores de preprints e a prática de comentários abertos à pesquisa publicada. Este trabalho se foca nos discursos, experimentações e controvérsias que envolvem a abertura da revisão por pares em periódicos da área de Humanidades e suas imbricações com plataformas de gerenciamento editorial como o Open Journal System (OJS). Com base nas noções de paradigma e comunidade científica (KUHN, 1998), nas discussões sobre Academia e culturas de auditoria (STRARHERN, 2000; KIPNIS, 2008; SHORE, 2009) e na ideia da ciência como empreendimento em uma rede sociotécnica estendida (LAW, 2012), analisa debates ocorridos em 2021 e 2022 envolvendo editores, SciELO e Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC Brasil). Reflete sobre o que vem sendo colocado como “novo paradigma” e analisa aspectos que permeiam sua construção e estabelecimento a partir das reações, interações, interpelações e organização de um grupo que se entende como comunidade.

GT Masculinidades incorporadas: Gêneros, hegemonia, dissidências e intercessões

Título do trabalho: Puta ou santa: as relações com mulheres enquanto elemento constituinte das masculinidades do funk brasileiro

Resumo: Assim como o dinheiro, a ostentação, a violência e o crime, as relações sexuais e afetivas com mulheres compõem a masculinidade funk. Na grande maioria das letras escritas e interpretadas por homens, as mulheres são descritas enquanto objetos sexualizados descartáveis, que conferem status aos seus “proprietários”. A análise e a categorização de letras de funk brasileiro dos últimos 15 anos, aliadas a entrevistas com Mc’s, possibilitam, entretanto, observar o tratamento completamente contrário de outra figura feminina: a mãe. Em diversas canções inscritas no chamado “funk consciente”, cantores declaram seu amor por suas genitoras, caracterizado por uma certa devoção e um forte desejo de proporcionar a elas um futuro com segurança e estabilidade financeira. A partir de tais observações, esta pesquisa destina-se a identificar as diferenças existentes na aparente oposição entre a figura da mãe e das demais mulheres no que se refere às letras de funk interpretadas por homens, tendo como pano de fundo as discussões antropológicas acerca das dicotomias pureza/impureza (DOUGLAS, 2010), público/privado (OKIN, 2008) e casa/rua (DAMATTA, 1997). A este eixo central, adicionam-se questionamentos sobre os conceitos de masculinidades hegemônicas e subalternas (KIMMEL, 1998; CONNELL, 2003; CONNELL, MESSERSCHMIDT, 2013), compreendendo a construção das masculinidades como um processo relacional (BROD, 1994; PINHO, 2014) e interseccional (VIGOYA, 2018).

GT Políticas públicas e engajamentos artístico-culturais nas margens urbanas: perspecticas etnográficas

Título do trabalho: “A cidade é nossa!”: engajamentos políticos a partir do carnaval de rua

Resumo: Desde os anos 2010, observa-se a ampliação do fenômeno de retomada das ruas como lugar de fazer carnaval, sobretudo nas capitais brasileiras do eixo sul-sudeste. A efervescência promovida pelos blocos coloca em xeque um modelo de cidade segregador, reivindicando a potência política de experiências urbanas mais plurais e democráticas. A festa e o uso da rua como repertórios de contestação política aparecem como celebração da alegria e da ancestralidade afro-brasileira, subvertendo a ordem do cotidiano com sonoridades e corpos em dança. O carnaval de rua é o encontro da cidade com seu povo e suas tradições. O Estado, no entanto, tem agido no sentido de disciplinar a festa, tornando-a espetáculo, e de dificultar que ela aconteça, por meio de burocracias e exigências que não condizem com a realidade dos coletivos. Neste trabalho, fruto de pesquisa de tese em andamento, faço uma reflexão sobre as tensas relações que os blocos mantêm com o poder público, nas cidades de Porto Alegre e do Rio de Janeiro. Por um lado, há reivindicação por políticas públicas de incentivo ao carnaval de rua, principalmente por meio de editais de fomento mais abrangentes e permanentes. Concomitante a isso, muitos dos blocos fazem duras críticas às parcerias público-privadas que promovem a inserção de interesses mercadológicos na realização do carnaval. Busco, assim, a partir de pesquisa etnográfica tratar das formas de engajamento político em que o carnaval de rua está entremeado.

GT Antropologías Latinoamericanas del Trabajo: construcciones desde el Sur

Título do trabalho: O trabalho “viciante”: sentidos sociais do dinheiro entre motoristas de aplicativo em Porto Alegre (Brasil) e Atlanta (Estados Unidos)

Resumo: Nesse texto, desenvolvo um dos temas discutidos em minha tese de doutorado: a relação subjetiva e objetiva de motoristas de aplicativo com o dinheiro. Avaliei as maneiras com as quais essas pessoas se referiam a seus ganhos, calculavam suas economias cotidianas, estabeleciam metas diárias de trabalho e pensavam o financiamento, a compra e o aluguel de carros. Tive como base para essas reflexões o material produzido durante a pesquisa etnográfica que realizei entre motoristas de aplicativo nas cidades de Porto Alegre (Brasil) e Atlanta (Estados Unidos). Argumento que o trabalho via plataformas digitais de transporte estabelece uma relação particular das pessoas com o dinheiro, que tem como algumas de suas características a “temporalidade do imediato” e a “visualização” do valor em uma tela. Reflito sobre como esse setor de trabalho digital e suas formas de valorização do dinheiro criam modos de ação específicos, que implicam nas formas como os/as motoristas fazem a gestão das temporalidades e espacialidades das cidades que percorrem. Por fim, estabeleço uma conexão entre o dinheiro e as maneiras pelas quais os trabalhadores e as trabalhadoras projetam o futuro, articulam seus desejos de mobilidade social e profissional e de obtenção de uma vida digna.

GT Técnica, conhecimento e poder: contribuições etnográficas contemporâneas na América Latina

Título do trabalho: Entre controvérsias tecnopolícas: os fab labs como espaços de disputa pelo imaginário sociotécnico
 
Resumo: A partir de uma pesquisa etnográfica proponho me dedicar ao já clássico dilema/controvérsia da relação entre humano e máquina, pelo menos nas sociedades ocidentais. As máquinas viriam para assumir as tarefas penosas das atividades laborais e assim liberar o humano para as atividades criativas? A técnica como espaço social pode abrir novos imaginários sociotécnicos pouco prováveis até o desenvolvimento de certas tecnologias. Diante disto, teríamos aí um novo campo de disputa social, tanto político quanto epistemológico? O imaginário moderno do desenvolvimento tecnológico no contexto capitalista assume que este, sob princípios capitalistas, como sinônimo de progresso stricto sensu. Assim se configurou um imaginário sociotécnico de possibilidades limitadas para as formas de relação entre o humano e a máquina, privilegiando principalmente dimensões relacionais mercadologicamente mediadas. Partindo de espaços dos fab labs da rede pública da cidade de São Paulo, busco compreender as disputas e potencialidades tecnopolíticas que emergem do aprendizado e desenvolvimento de conhecimentos técnicos nestes espaços. Os fab labs são espaços que estão em meio a uma disputa ideológica que flerta desde narrativas de soberania tecnológica até os clichês neoliberais do discurso empreendedor, que visam em última instância assumir a hegemonia sobre os futuros possíveis produzindo um imaginário sociotécnico baseado nas infraestruturas técnicas e suas formas de desenvolvimento no presente.

GT Mercados culturais e trabalho: desafios e fazeres etnográficos

Título do trabalho: Gibiteca e Feira de Quadrinhos: um encontro entre iniciativas do poder público e mercados culturais
 
Resumo:  Vinculada à Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, a Gibiteca BPE, além de possuir um acervo de histórias em quadrinhos, é responsável por promover atividades como exposições, bate-papos, oficinas e feiras de HQs. No país, a proliferação das feiras de quadrinhos ocorreu a partir de 2010, de forma que tal movimento criou um circuito específico de distribuição e venda de HQs. Pois esses eventos passaram a figurar como palcos para quadrinistas e pequenas editoras comercializarem suas produções por conta própria, em contraponto às bancas de jornal e às prateleiras de livrarias e comic shops – além da crescente venda de HQs em plataformas de e-commerce -, circuitos de comércio dominados por médias e grandes editoras. Dito isso, propus refletir sobre as relações entre iniciativas do poder público e processos de operação de mercados culturais a partir de dados etnográficos construídos juntos a Gibiteca e a realização das Gibizeiras. Meus objetivos consistiram em descrever os arranjos que qualificariam e singularizariam a dinâmica dessas feiras, assim como analisar a atuação da Gibiteca enquanto um ator relevante em meio a produção e consumo de HQs na região metropolitana de Porto Alegre. A Gibiteca fomenta e valora a produção local de quadrinhos na mesma medida em que engendra, e abre espaço, para relações de compromisso e pertencimento entre artistas, editores e entusiastas, bem como movimenta uma economia de prestígio e interesses que não são só pecuniários.

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