Pesquisadoras e pesquisadores do GAEP apresentam trabalhos na 34ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA)

Eventos

Entre os dias 23 e 26 de julho de 2024 ocorre em Belo Horizontes (MG) a 34ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA). Com o tema Territórios vivos, corpos plurais. Antropologia e saberes críticos esta edição alude às diferentes lutas sociais e resistências em defesa da vida, dos territórios e dos corpos plurais diante dos contextos de crise e violências vividos e observados no Brasil e no mundo, na contemporaneidade.

Devido aos efeitos da crise climática no Rio Grande do Sul, que influenciam na mobilidade e nas condições financeiras de grande parte da população, os participantes poderão apresentar seus trabalhos no formato presencial e em vídeo enviado previamente. Confira abaixo as e os integrantes do GAEP que terão trabalhos no evento.

Angícia Gomes Pereira Mourão (SEDUC-CE)

GT 071 – Mercados culturais e trabalho: desafios e fazeres etnográficos

Título do trabalho: Números e leituras no Brasil: uma discussão sobre legitimidade e agência no mercado editorial brasileiro

Neste trabalho, proponho uma análise da agência dos números (Desrosières, 1993; Scott, 1998; Foucault, 2021) expressos na quinta e última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2020. Esta pesquisa é um diagnóstico realizado, na maioria das vezes, a cada quatro anos pelo Instituto Pró-Livro, com o apoio da Câmara Brasileira dos Livros (CBL), do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e da Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros). Além de evidenciar a imbricação entre Estado e mercado no setor cultural brasileiro, os números dessa pesquisa costumam ser apresentados como de importância fundamental para a compreensão e promoção dos hábitos de leitura dos brasileiros. Em última instância, é a eles que se costuma atribuir legitimidade tanto aos argumentos em prol da leitura, quanto ao senso comum de que “o brasileiro não lê”. Dessa forma, este trabalho contribui para as discussões a respeito das relações entre poder público e privado no mercado cultural brasileiro, das políticas públicas como práticas sociais e discursos culturalmente situados e da formulação de indicadores culturais no Brasil.

Joanna Munhoz Sevaio (UFRGS)

GT035 – Cidades e citanidades: questões de Antropologia Urbana

Título do trabalho: As cidades do carnaval de rua

Em minha pesquisa de doutoramento, tenho analisado as dimensões políticas do carnaval de rua contemporâneo, a partir de trabalho de campo realizado nas cidades de Porto Alegre e Rio de Janeiro, com passagem por Lisboa, onde realizei doutorado-sanduíche. Mais especificamente, considero os usos e contra-usos das ruas como parte de um repertório de contestação de vivências urbanas segregadoras, que preconizam interesses privados. O fenômeno carnavalesco em questão, notadamente a partir dos anos 2010, coloca em evidência a ocupação dos espaços públicos, de modo que praças, monumentos, ruas e avenidas são tomadas por multidões em festa e movimento. Na catarse coletiva promovida pelos blocos, os foliões fazem-cidade, contestando a lógica imperativa das cidades-mercadoria e protagonizando processos de reencantamento do mundo. A festa é uma experiência coletiva, pública, e potencialmente insurgente. Neste trabalho, busco compor um quadro analítico sobre como os citadinos-foliões produzem as cidades observadas a partir do carnaval, apreendendo os espaços públicos pela cadência dos tambores, trompetes, xequerês e tamborins. Entendo, assim, que a dança, a música, a alegria e a liberdade dos corpos formam uma combinação poderosa a favor de cidades voltadas para a pluralidade, nas quais a citanidade dos sujeitos é uma possibilidade, entremeada por relações complexas e ambíguas dos blocos de carnaval com o poder público. Minha experiência etnográfica é sobretudo corporal: coloco-me no meio dos milhares de foliões, vivenciando a cidade junto a eles, observando os fluxos e trajetos que vão sendo configurados pelas sociabilidades carnavalescas. Ademais, tenho entrevistado representantes dos blocos que acompanho nas ruas, a fim de aprofundar o entendimento dos vieses que fundamentam as práticas de fazer-cidade dos grupos observados. Este trabalho resulta, portanto, em uma análise situacional das relações entre festa, cidade e política.

Minicurso

MC01 – Entre o terreno e o campo: perspectivas do fazer-etnográfico entre Brasil e Portugal

Entre o terreno e o campo: perspectivas do fazer-etnográfico entre Brasil e Portugal

Coordenação:
Handerson Joseph (UFRGS)
Rita Ávila Cachado (ISCTE)
Este minicurso estrutura-se a partir da noção de pesquisa de terreno, a qual perpassa o fazer-etnográfico antropológico numa perspectiva transdisciplinar, que se desenvolve em Portugal, em certa medida dialogando também com o cenário da antropologia brasileira. O objetivo é oferecer às/aos participantes um quadro de referências teóricas, metodológicas e empíricas, que permita uma reflexão crítica sobre as práticas de pesquisa no contexto português e brasileiro. A proposta emerge a partir do diálogo entre pesquisadoras/es brasileiras/os e portuguesa/es, com vistas a ampliar os debates acerca do tema e contribuir para a consolidação de redes pesquisa internacional e de reflexão sobre o fazer-etnográfico.
O minicurso divide-se em três eixos: 1) introdução à pesquisa de terreno, demonstrando as práticas e técnicas características deste modo de conceber a pesquisa etnográfica; 2) experiências de pesquisa no Brasil e em Portugal; 3) a produção de conhecimento antropológico articulado a partir das dinâmicas de mobilidade e de migração e as questões éticas da pesquisa de terreno.

Sessão 1 – Entre o terreno e o campo: perspectivas do fazer-etnográfico entre Brasil e Portugal

Ministrante:
Otávio Raposo (ISCTE)

Sessão 2 – Pesquisar de terreno: uma abordagem do fazer-etnográfico

Ministrante:
Maria Carmencita da Felicidade Job (UFRGS)

Sessão 3 – Dentro e fora do terreno: a ética na pesquisa etnográfica

Ministrante:
Joanna Munhoz Sevaio (UFRGS)

Vicente Magno F. Cardoso (UFRGS)

GT 13 – Antropologia das práticas esportivas e de lazer

Título do trabalho: A eleição para presidência e Conselho Deliberativo do Sport Club Internacional em três tempos

O presente resumo se propõe a apresentar trecho da pesquisa em andamento sobre mercadorização de um clube de futebol. O texto é um etnografia do que chamo três tempos da eleição realizada pelo Sport Club Internacional, em 2023. O clube porto-alegrense travava debates internos sobre ações que deveriam ser tomadas pela instituição visando sua existência e competitividade esportiva.
Os três tempos envolvem a pré-eleição, quando grupos políticos colorados confrontaram seus pontos de vista e debateram sobre modelos de Sociedade Anônima de Futebol, sobre qual proposta de associação a uma liga de futebol profissional adotar (dois modelos foram apresentados ao clube), mas também a votação no Conselho Deliberativo (o segundo tempo) e, por fim, a realização do ‘pátio’, a votação com a participação dos associados (o terceiro tempo).
A eleição traz luz ao faccionalismo presente no clube e permite que se observe a complexidade de agentes e seu encadeamento de ações em meio aos rituais políticos do Internacional que visam chegar ao poder na instituição. Os diferentes perfis de indivíduos envolvidos põem em pauta elementos ligados à cultura torcedora, mercadorização e financeirização da instituição.

Victoria Perfeito dos Santos (UFRGS)

GT 13 – Antropologia da Economia

Título do trabalho: Onde comprar história em quadrinhos: uma abordagem etnográfica dos mercados

Este trabalho parte de uma etnografia que seguiu os fluxos das histórias em quadrinhos na cidade de Porto Alegre/RS. O que implica dizer que a etnógrafa, em construção de campo empírico, seguiu as HQs por onde elas circulavam. No entanto, as HQs não fluem ao acaso se não intermediadas por diferentes “agenciamentos” (Callon, 2013) que orientam estes fluxos materiais e sociais ensejados por relações de troca de tipo mercantil. Dito isso, a etnografia tomou forma e se sucedeu em arenas de mercado – sebo, gibiteria e feira de quadrinhos – que organizam encontros que qualificam variadas HQs – usadas, editoriais-tradicionais e independentes – e engendram distintas modalidades de valoração e vínculo entre os atores engajados na troca – livreiros, gibiteiros, quadrinistas e público consumidor. Desse modo, neste trabalho, busco argumentar como as arenas mercantis são capazes de produzir dissonantes práticas de venda, consumo e diferenciação de bens e mercados.