{"id":1071,"date":"2020-08-11T08:00:20","date_gmt":"2020-08-11T11:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/?p=1071"},"modified":"2021-01-19T02:59:15","modified_gmt":"2021-01-19T05:59:15","slug":"o-mito-da-sociedade-encantada-reverberacoes-em-memorias-adultas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/2020\/08\/11\/o-mito-da-sociedade-encantada-reverberacoes-em-memorias-adultas\/","title":{"rendered":"O mito da sociedade encantada: reverbera\u00e7\u00f5es em mem\u00f3rias adultas*"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por\u00a0Taylor Pedroso de Aguiar<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando perscrutamos nossas mais caras mem\u00f3rias, inevitavelmente sentimos uma necessidade de reviver com paix\u00e3o aqueles mitos fundadores que contribu\u00edram para inaugurar nosso sentimento de perten\u00e7a a este mundo. Decerto ningu\u00e9m pode ser capaz de lembrar seu primeiro choro ou o momento de sua concep\u00e7\u00e3o; \u00e9 dos anos iniciais de socializa\u00e7\u00e3o no mundo, entretanto, que nos vem a impress\u00e3o de que fizemos uma passagem de seres humanos a seres idiossincr\u00e1ticos \u2013 e por isso mesmo especiais. Separados da indistin\u00e7\u00e3o do processo embrion\u00e1rio, na inf\u00e2ncia assumimos vida a partir do que nos funda fora do ventre de nossas m\u00e3es. Tudo o que nos acontece a partir da\u00ed \u00e9 d\u00e1diva, novidade, aprendizado e constru\u00e7\u00e3o. E \u00e9 tamb\u00e9m mito e mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa composi\u00e7\u00e3o do ser, como rememorar os mitos que me fizeram ser quem sou? Na tentativa de responder a esta indaga\u00e7\u00e3o, o primeiro caminho que encontro por trilhar \u00e9 o reconhecimento de que sou <em>feito <\/em>por aquilo que vivi. Em seguida, posso vasculhar em minhas lembran\u00e7as os acontecimentos que marcaram esta feitura, modelando h\u00e1bitos e tend\u00eancias que se projetaram em minha vida como disposi\u00e7\u00f5es duradouras e que n\u00e3o importaram apenas em epis\u00f3dios pret\u00e9ritos. \u00c9 nos mitos de minha inf\u00e2ncia \u2013 elabora\u00e7\u00f5es mais que concretas e verdadeiras, posto que eficazes \u2013 que minhas mem\u00f3rias adultas encontram hoje os seus fundamentos mais genu\u00ednos. Para escrever este texto sobre mito e mem\u00f3rias que constroem meu ser, inicialmente pensei em partir de uma pergunta de corte profissional: como me tornei um antrop\u00f3logo? A ideia era simplesmente elaborar uma genealogia mnem\u00f4nica de minha rela\u00e7\u00e3o com a antropologia. Contudo, meus mitos relembrados me convenceram de algo muito importante: \u00e9 imposs\u00edvel demarcar uma linha divis\u00f3ria entre o antrop\u00f3logo adulto que sou e o antrop\u00f3logo crian\u00e7a que fui. Ambos s\u00e3o um e o mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ademais, o construto que hoje d\u00e1 forma \u00e0 minha pessoa n\u00e3o pode ser resumido \u00e0 experi\u00eancia que tive e tenho com a antropologia. Apesar disso, a ideia da genealogia mnem\u00f4nica gerou bons frutos. Eu queria encontrar algum momento especial em minha trajet\u00f3ria de vida que dissesse algo sobre como vim a me tornar um antrop\u00f3logo e acabei descobrindo que comecei minha forma\u00e7\u00e3o \u2013 assim como suponho que muitas outras pessoas tamb\u00e9m tenham come\u00e7ado seus processos formativos \u2013 muito antes de ler Malinowski. Mais exatamente, sem que o soubesse, posso ter encontrado o \u201cesp\u00edrito\u201d antropol\u00f3gico enquanto constru\u00eda meus mitos de inf\u00e2ncia. Para os efeitos de um relato sucinto a este respeito, ainda que prazeroso, destacarei apenas um deles. Trata-se de uma sociedade por mim imaginada e planejada em um dos c\u00f4modos da casa onde eu morava. Nela, quase tudo acontecia. Eu era uma esp\u00e9cie de Administrador, Deus ou Soberano que manipulava brinquedos os mais diversos em intera\u00e7\u00e3o comigo mesmo e com eles. Bonecos em miniatura, caixas de sapato, utens\u00edlios dom\u00e9sticos, sucata e ve\u00edculos de tamanhos variados compunham a minha sociedade encantada, instalada em uma sala apelidada desde os prim\u00f3rdios de \u201csala dos brinquedos\u201d, pois que servia unicamente a esta finalidade mitol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cima do tapete central da sala, havia um campo onde aconteciam as atividades desportivas da cidade. O desenho retangular do tapete, com marca\u00e7\u00f5es em quatro linhas ao longo de suas extremidades, facilitou a minha tarefa de transform\u00e1-lo em um lugar prop\u00edcio para a realiza\u00e7\u00e3o de partidas de futebol. Apenas tive que utilizar fundos de caixas de f\u00f3sforo para erguer as goleiras e uma bola min\u00fascula de pl\u00e1stico para fazer os jogos acontecerem. O c\u00edrculo do meio-campo era imagin\u00e1rio e os jogadores eram compostos s\u00f3 de pernas \u2013 os dedos de minhas m\u00e3os, que alternavam entre um time e outro. Ao redor do est\u00e1dio, no ch\u00e3o da sala, estavam as quatro ruas centrais da cidade. Por nelas trafegarem os cidad\u00e3os em seus ve\u00edculos automotores \u2013 em minha filosofia desenvolvimentista, eu n\u00e3o pensava em cal\u00e7adas e muito menos em ciclovias -, meus planos para a constru\u00e7\u00e3o das arquibancadas do est\u00e1dio nunca se efetivaram. Sua realiza\u00e7\u00e3o atrapalharia o tr\u00e2nsito daquela sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minha cria\u00e7\u00e3o, eu realmente pensava no quanto aqueles cidad\u00e3os, bonecos e bonecas de diversos tamanhos e esp\u00e9cies, desde Smurfs at\u00e9 Flintstones, passando por brindes de Kinder Ovo, viviam felizes nesse mundo imagin\u00e1rio e t\u00e3o cheio de concretude pela organiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es que o engendravam. Em algumas caixas de sapato, estavam localizados estabelecimentos cruciais para a vida na cidade, como o banco, o pres\u00eddio e a prefeitura. Constato hoje, abismado, que n\u00e3o havia ali escola alguma, porque poucos de meus bonecos eram crian\u00e7as. Mais tarde inventei um hospital, mas este n\u00e3o estava concretizado em uma caixa de sapato, mas sim situado em um bairro imagin\u00e1rio fora das quatro ruas. Que n\u00e3o fiquem os\/as colegas e o professor com uma m\u00e1 impress\u00e3o minha ao verem que eu era o projetista de uma sociedade muito pouco humanista. Saibam que o que me movia a constru\u00ed-la era uma vontade enorme de ver uma organiza\u00e7\u00e3o social funcionando. Mais do que ver, tratava-se de tomar parte e projetar a condu\u00e7\u00e3o de seu funcionamento, a sua pol\u00edtica. Ali\u00e1s, <em>funcionar <\/em>pode ser tomado como um verbo-chave para entender outras coisas que elaborei naqueles tempos de sociedade mitol\u00f3gica de inf\u00e2ncia. Todas as pessoas nela residentes tinham nomes e fun\u00e7\u00f5es, bem como estavam associadas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es em que trabalhavam. Assim era que um certo le\u00e3o assumia o nome de Jos\u00e9 e se elegia sempre como prefeito, ou ainda que havia um sujeito que eu considerava um tanto quanto estranho e ao qual, por isso mesmo, atribu\u00ed o nome-fun\u00e7\u00e3o de Detetive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta de meus sete ou oito anos, quando a sociedade encantada esteve em seu apogeu &#8212; ou seja, na Idade de Ouro e em pleno funcionamento &#8211;, eu comecei a expandir os limites dos territ\u00f3rios imagin\u00e1rios da cidade. As quatro ruas que ladeavam o campo de futebol j\u00e1 eram muito pequenas para abrigar a multiplicidade de edifica\u00e7\u00f5es e aparelhos dos quais dependia a vida urbana. Colonizei, ent\u00e3o, os outros c\u00f4modos da casa. Se n\u00e3o materialmente, impedido de levar mais brinquedos aos quartos, cozinha, banheiro e \u00e0 outra sala da casa por diverg\u00eancias com os integrantes adultos que comigo residiam \u2013 meus av\u00f3s \u2013, ao menos o fiz simb\u00f3lica e graficamente. Elaborei um mapa onde cada caminho da casa equivalia a um logradouro e recebia um nome. Por exemplo: o corredor que ligava a \u201csala de brinquedos\u201d \u00e0 porta dos fundos, passando pela sala central e pela cozinha, foi inscrito no mapa como \u201cAvenida Get\u00falio Vargas\u201d. Os m\u00f3veis que a rodeavam se tratavam de edif\u00edcios onde, supostamente, outras din\u00e2micas da vida social aconteciam. O hospital ficava assim estabelecido na mesa da cozinha, suprindo as limita\u00e7\u00f5es que o espa\u00e7o inicial impunha. O n\u00facleo antigo das quatro ruas acabou por se tornar apenas um dos bairros da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade que tomava conta da sociedade em minha imagina\u00e7\u00e3o foi tomando forma atrav\u00e9s de outras inova\u00e7\u00f5es, como a formula\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios espec\u00edficos das secretarias que compunham a gest\u00e3o p\u00fablica municipal. Neles constavam itens como os projetos desenvolvidos em cada \u00e1rea, os gastos necess\u00e1rios para lev\u00e1-los a cabo e a assinatura de cada secret\u00e1rio \u2013 por sinal, todos bonecos em suas fun\u00e7\u00f5es correspondentes. Obviamente, havia a\u00ed um interesse intenso pela pol\u00edtica institucional que advinha de meu contato com o mundo das elei\u00e7\u00f5es. At\u00e9 hoje tenho guardadas centenas de \u201csantinhos\u201d, como s\u00e3o conhecidos os folhetos distribu\u00eddos em campanhas eleitorais, sejam eles de elei\u00e7\u00f5es municipais ou estaduais\/federais. Esta mania de cole\u00e7\u00e3o acabou gerando em mim uma certa fixa\u00e7\u00e3o com o mundo da pol\u00edtica. Colabora para isso tamb\u00e9m o fato de que um dos primos de minha av\u00f3 materna foi vice-prefeito de Ant\u00f4nio Prado em duas gest\u00f5es diferentes \u00e0 \u00e9poca, o que tornou para mim a pol\u00edtica ainda mais \u201cfamiliar\u201d, no sentido menos nepotista da coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dir-se-ia que toda essa experi\u00eancia inusitada poderia apontar para algumas \u201cvoca\u00e7\u00f5es\u201d profissionais que neste momento de minha vida estavam sendo condicionadas? N\u00e3o creio. N\u00e3o me tornei nem pol\u00edtico, nem arquiteto, nem ge\u00f3grafo, nem outras possibilidades que poderiam ser associadas aos meus interesses fortes da inf\u00e2ncia. Se me tornei antrop\u00f3logo, isso foi menos por uma determina\u00e7\u00e3o un\u00edvoca de minhas prefer\u00eancias \u201cvocacionais\u201d e mais pela conting\u00eancia das circunst\u00e2ncias que foram aparecendo pelo caminho, ao longo de outras \u00e9pocas posteriores a esse momento espec\u00edfico da inf\u00e2ncia. Mas me parece que, de fato, encontro o mito fundador de minha exist\u00eancia como pessoa pensante e independente, ou a \u00e2ncora daquilo que me \u00e9 mais caro em termos de valores de vida e daquilo que me comp\u00f5e enquanto ser idiossincr\u00e1tico, naqueles dias t\u00e3o criativos em que me tornei o Construtor do mito da sociedade encantada. Inconscientemente, eu poderia estar reproduzindo na inf\u00e2ncia um durkheimiano perfeito ao projetar e zelar pela coes\u00e3o social mais do que nunca na minha vida. Mas de l\u00e1 para c\u00e1 muita coisa mudou. E que bom que n\u00e3o penso mais em banco, pres\u00eddio e prefeitura em primeiro lugar! Procurei, no entanto, manter em minha mitologia sagrada aquilo que de bom aprendi com a \u201csala de brinquedos\u201d: que a imagina\u00e7\u00e3o e a criatividade, bem como a antropologia, podem nos fazer ver, interpretar e construir mundos improv\u00e1veis, mas bastante reais.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Esse \u00e9 o segundo dos textos que foram escritos durante a disciplina Semin\u00e1rio de Doutorado, ministrada no semestre letivo 2020.1 pelo professor Dr. Ruben George Oliven no PPGAS \u2013 UFRGS. Essa disciplina tem o objetivo de abrir os horizontes de pesquisadoras e pesquisadores em forma\u00e7\u00e3o, desafiando-os a produzir notas de leitura, reflex\u00f5es pontuais e coesas bem como monografias sobre algo que n\u00e3o se tenha cogitado investigar at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem anarquista que a ministra costuma encerrar o semestre letivo com sua querida &#8220;caminhada etnogr\u00e1fica&#8221;, um passeio guiado pela cidade de Porto Alegre em que sociabilidade urbana e mem\u00f3ria se entrecruzam. Em 2020, devido \u00e0 COVID-19 e \u00e0s suas medidas de mitiga\u00e7\u00e3o, essa atividade teve de ser reelaborada e, em seu lugar, o professor prop\u00f4s a escrita de reflex\u00f5es de pequena extens\u00e3o que caminhassem por veredas da mem\u00f3ria ou que vertessem o olhar sobre as vias pand\u00eamicas que nos cercam.<\/p>\n<p>(Imagem: Steve Buissinne\/Pixabay).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Taylor Pedroso de Aguiar Quando perscrutamos nossas mais caras mem\u00f3rias, inevitavelmente sentimos uma necessidade de reviver com paix\u00e3o aqueles mitos fundadores que contribu\u00edram para inaugurar nosso sentimento de perten\u00e7a a este mundo. 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