{"id":1073,"date":"2020-08-18T08:00:35","date_gmt":"2020-08-18T11:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/?p=1073"},"modified":"2021-01-19T02:58:43","modified_gmt":"2021-01-19T05:58:43","slug":"viagem-ao-passado-o-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/2020\/08\/18\/viagem-ao-passado-o-livro\/","title":{"rendered":"Viagem ao passado: o livro*"},"content":{"rendered":"<p><em>Por J\u00e9ferson Alves<\/em><\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Como dizem Coelho e Rezende (2010), as emo\u00e7\u00f5es nos servem como modos de dar significados \u00e0s narrativas, sejam elas biogr\u00e1ficas ou n\u00e3o. O momento acerca do qual reflito \u00e9 o de encontro com um objeto. Este \u00e9 de fato o mais importante nessa descri\u00e7\u00e3o. Isso porque as mem\u00f3rias s\u00e3o fragmentadas e incertas e a origem do objeto e seu desaparecimento s\u00e3o um mist\u00e9rio gostoso de ser relembrado. Trato aqui do livro <i>Descanse em paz, meu amor<\/i>, de Pedro Bandeira.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Escolho esse livro e o momento passado com ele por dois motivos: foi o primeiro e \u00fanico livro completo que li antes de ingressar na gradua\u00e7\u00e3o (isto \u00e9, o \u00fanico livro que li nos primeiros 19 anos de minha vida) e as emo\u00e7\u00f5es que senti quando o li s\u00e3o ainda muito vivas, t\u00e3o vivas que hoje, relendo o livro, sinto todo o sabor delas, quase de forma inalterada.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">As marcas deixadas por essas emo\u00e7\u00f5es (AHMED, 2014) em mim datam de um tempo que n\u00e3o rememoro. N\u00e3o sei ao certo quantos anos tinha, mas imagino que algo entre os nove e os doze anos. Lembro que esse livro foi emprestado, primeiramente, ao meu pai por minha (anos depois) madrinha de crisma. O porqu\u00ea de meu pai se interessar por um livro infanto-juvenil, ou o porqu\u00ea de minha madrinha acreditar que meu pai gostaria de ler um livro infanto-juvenil, ou ainda o porqu\u00ea de ela mesma o ter lido, eu n\u00e3o sei. Mas isso me mostrava que o livro era relevante.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">A primeira vez em que vi o livro foi na sala de casa, na estante principal, onde havia uma porta com tudo que meu pai julgava importante para ele: carteira, agenda, contas a pagar, pastas, caixas e livros. Aquela era a \u201cgaveta do pai\u201d. Por si s\u00f3 j\u00e1 era m\u00e1gica. Lembro at\u00e9 mesmo de um dicion\u00e1rio de ingl\u00eas que ele guardava ali, dos tempos em que estudava no ensino m\u00e9dio. Era lindo, velho, gasto, com p\u00e1ginas caindo, mas era de ingl\u00eas, l\u00edngua que na \u00e9poca me remetia aos videogames que eu jogava, e era de meu pai. E, junto com isso tudo, o <i>Descanse em paz, meu amor<\/i>.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Em um fim de dia, momento depois do trabalho do meu pai, em que eu conseguia conversar com ele, vi que ele abria a estante e pegava o livro. Perguntei que livro era, ele me mostrou e perguntou se eu queria emprestado pra ler. Nossa! Que alegria! Imagina ler um livro da \u201cgaveta do pai\u201d? Aceitei. N\u00e3o sei quanto tempo levou at\u00e9 que o livro parasse em minhas m\u00e3os, mas eu o recebei eventualmente. Hoje, lembro apenas que, at\u00e9 recentemente, sabia apenas do <i>plot<\/i> da hist\u00f3ria e de todas as emo\u00e7\u00f5es que senti lendo-o. Sei, tamb\u00e9m, que essas emo\u00e7\u00f5es est\u00e3o intimamente ligadas por toda essa m\u00edstica de empr\u00e9stimo do livro, de quem ele veio e de ter depois \u201cdesaparecido\u201d. Mas as hist\u00f3rias que ele conta me deixaram profundamente emocionado.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">O livro conta pequenas hist\u00f3rias de horror para adolescentes. \u00c9 uma hist\u00f3ria de um grupo de jovens que est\u00e1 em uma cabana, em uma montanha, e falta luz devido a uma tempestade. N\u00e3o podem sair da cabana, porque a ponte que os liga \u00e0 estrada foi destru\u00edda pela chuva. Assim, \u00e0 luz de velas, decidem contar hist\u00f3rias de horror para se entreterem. Lembro que na \u00e9poca senti medo ao ler, mas n\u00e3o o medo comum que tenho dos filmes de terror e horror \u2013 sou extremamente afetado por hist\u00f3rias de esp\u00edritos diab\u00f3licos, talvez pela produ\u00e7\u00e3o de sentidos \u201cp\u00fablicos\u201d (SIQUEIRA; V\u00cdCTORA, 2017) que essas hist\u00f3rias trazem. Era um medo gostoso, mais simples, uma emo\u00e7\u00e3o que me ati\u00e7ava e me fazia querer ler cada vez mais, para saber o fim de cada um dos contos. Li o livro em um tempo que n\u00e3o sei. N\u00e3o lembro se demorei, se li r\u00e1pido, se li aos poucos ou \u201cnuma sentada\u201d. Por\u00e9m, o livro me marcou.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Para ver como o medo era de fato gostoso, aqui um trecho do livro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">&#8212; O que o senhor est\u00e1 dizendo? Minha filha est\u00e1 morta!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Foi como um soco. Para ele, aquela menina deveria ter se tornado eterna, sempre crian\u00e7a, como vivera por tr\u00eas d\u00e9cadas em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">&#8212; Oh, eu sinto muito! Que trag\u00e9dia! Uma menina t\u00e3o linda\u2026 Como foi que ela\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">O velho n\u00e3o desviava os olhos rubros do visitante e explodiu:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">&#8212; Ela j\u00e1 estava morta um ano antes do in\u00edcio da guerra!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Estavam ambos paralisados, um olhando para o outro. De repente, uma compreens\u00e3o louca tomou conta dos dois. (BANDEIRA, 2011, p. 77).<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Uma hist\u00f3ria de terror atr\u00e1s da outra, mas sempre com uma mensagem gostosa. Aqueles que v\u00e3o, os que ficam e os que voltam est\u00e3o sempre se apoiando. O medo de que existisse algo sobrenatural me dava ainda mais prazer na leitura. Embora eu ainda tenha medo de imaginar coisas desse tipo, esse livro me acalenta em momentos de tens\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">A marca (AHMED, 2014) deixada por uma intera\u00e7\u00e3o social com esse objeto tamb\u00e9m caracteriza meu modo de perceber a leitura e os livros. Sempre busquei, sem saber, algo que se assemelhasse \u00e0quela leitura, inclusive em meus livros preferidos: <i>Alice no pa\u00eds das maravilhas<\/i> e a sequ\u00eancia<i> Alice atrav\u00e9s do espelho<\/i>. Penso que isso se deve \u00e0 simplicidade da escrita e do modo de contar hist\u00f3rias, mas que traz consigo uma profundidade enorme nas quest\u00f5es levantadas ao se contar as aventuras da uma pequena menina e sua grande imagina\u00e7\u00e3o. Para quem ainda n\u00e3o o leu, deixo um trecho do segundo livro aqui e recomendo que os leia o quanto antes. \u00c9 indispens\u00e1vel a leitura dessa obra. No trecho, Alice est\u00e1 olhando pelo espelho acima da lareira da sala de estar, e do outro lado ela v\u00ea um outro mundo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Bem, se voc\u00ea ficar s\u00f3 ouvindo, sem falar tanto, vou lhe contar todas as minhas ideias sobre a Casa do Espelho. Primeiro, h\u00e1 a sala que voc\u00ea pode ver atrav\u00e9s do espelho, s\u00f3 que as coisas trocam de lado. Posso ver a sala toda quando subo numa cadeira\u2026 fora o pedacinho atr\u00e1s da lareira. Oh! Gostaria tanto de poder ver <em>esse<\/em> pedacinho! Gostaria tanto de saber se eles t\u00eam um fogo aceso no inverno: a gente nunca <em>pode<\/em> saber, a menos que o nosso fogo lance fuma\u00e7a, e a fuma\u00e7a chegue a essa sala tamb\u00e9m\u2026 mas pode ser s\u00f3 fingimento, s\u00f3 para dar a impress\u00e3o de que t\u00eam um fogo. Agora, os livros s\u00e3o mais ou menos como os nossos, s\u00f3 que as palavras est\u00e3o ao contr\u00e1rio; sei porque segurei um dos nossos livros diante do espelho e eles seguraram um na outra sala. (CARROLL, 2013, p. 118-119).<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Esse trecho \u00e9 t\u00e3o marcante, t\u00e3o cheio de significados, que se tornou ep\u00edgrafe de minha disserta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, j\u00e1 escrevi alguns textos \u2013 n\u00e3o publicados \u2013 acerca disso e sempre retomo esse trecho quando penso, por exemplo, as quest\u00f5es em torno da corporalidade em minhas pesquisas. O que mais pode ser o \u201colhar no espelho\u201d, como Alice olha, do que imaginar a mim e aos que seguram um livro na outra sala, ou que tentam imitar o fogo fazendo fuma\u00e7a?<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Os livros que hoje leio n\u00e3o me fazem, na extensa maioria das vezes, chegar perto daquela emo\u00e7\u00e3o da leitura do livro de Pedro Bandeira. Talvez da\u00ed o conto popular de que a \u201cprimeira vez \u00e9 sempre inesquec\u00edvel\u201d fazer sentido. A cada p\u00e1gina que passava, a cada conto que lia, a emo\u00e7\u00e3o que me vinha junto com o medo, exprimia em minha mente um \u201cbah! Que massa!\u201d, \u201cbah! O que vai ser a pr\u00f3xima?!\u201d. Nunca pude imaginar que palavras escritas fariam isso comigo ou com qualquer pessoa.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">O livro ficou nas minhas m\u00e3os pelo tempo que levei para l\u00ea-lo. Depois disso, devolvi para meu pai e o objeto simplesmente desapareceu. Eu n\u00e3o sei quando foi devolvido, nem se foi devolvido. Lembro de minha madrinha, l\u00e1 em casa, perguntando ao meu pai do livro \u2013 n\u00e3o sei se sobre o que ele achou ou se j\u00e1 tinha terminado de l\u00ea-lo. E depois, adeus. Nunca mais tive contato com ele.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Durante anos quis ler de novo, mas por motivos diversos \u2013 como falta de dinheiro, falta de tempo, esquecimento, gradua\u00e7\u00e3o, mestrado, atropelos da vida \u2013 nunca o fiz. Esse ano, em pandemia, com uma turbulenta conjuntura emocional, com uma despadroniza\u00e7\u00e3o de meus h\u00e1bitos, resolvi fazer um curso de escrita criativa e comprei um exemplar do livro de Bandeira em um sebo online. Ah, que maravilha! Eu deveria ter feito isso h\u00e1 muito! Como \u00e9 gostoso ler esse livro. E hoje ainda sinto aquela alegria e todos aqueles \u201cbah!\u201d de antes, com pouca perda de intensidade.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, hoje o leio tamb\u00e9m como escritor, o que me d\u00e1 ideias e percep\u00e7\u00f5es totalmente outras. \u00c9 quase como reviver integralmente uma experi\u00eancia passada, mas com camadas adicionais que apenas a tornam melhor. \u00c9 um livro bem escrito, como j\u00e1 disse. Talvez Pedro Bandeira entregue um pouco mais do que ele gostaria j\u00e1 no terceiro ou quarto cap\u00edtulos, mas acredito que isso \u00e9 s\u00f3 porque j\u00e1 sei da hist\u00f3ria. No geral, o livro me ajudou n\u00e3o apenas a rememorar toda aquela emo\u00e7\u00e3o passada, aquele marco na minha vida, mas tamb\u00e9m a tra\u00e7ar rumos para minhas novas experi\u00eancias, agora de escrita, n\u00e3o mais apenas de leitura.<\/p>\n<p class=\"Pargrafonor\" style=\"text-align: justify;\">Se antes o livro era um mist\u00e9rio, hoje \u00e9 uma realidade gostosa. Se era passado, \u00e9 agora presente e futuro. Se era \u201cdo meu pai\u201d, agora \u00e9 meu. Muitos \u201cse\u201d surgiram e outros mais vir\u00e3o, mas confirmo uma coisa: <i>Descanse em paz, meu amor<\/i> \u00e9 parte de mim, com a presen\u00e7a f\u00edsica do livro ou n\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AHMED, S. <strong>Willful subjects<\/strong>. Durham: Duke University Press, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BANDEIRA, P. <strong>Descanse em paz, meu amor<\/strong>. 7 ed. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CARROLL, L. <strong>Aventuras de Alice no pa\u00eds das maravilhas &amp; atrav\u00e9s do espelho<\/strong>. Ilustra\u00e7\u00f5es originais John Tenniel. Maria Luiza X. de A. Borges (trad.). 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COELHO, Ma. C.; REZENDE, C. B. <strong>Antropologia das emo\u00e7\u00f5es<\/strong>. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SIQUEIRA, M. C.; V\u00cdCTORA, C. <strong>O corpo no espa\u00e7o p\u00fablico<\/strong>: emo\u00e7\u00f5es e processos reivindicat\u00f3rios no contexto da \u201cTrag\u00e9dia de Santa Maria\u201d. sexualidad, salud y sociedad, v. 25, p. 166-190, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www. scielo. br\/scielo. Php&gt;. Acesso em: 08 de outubro de 2019.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Esse \u00e9 o terceiro dos textos que foram escritos durante a disciplina Semin\u00e1rio de Doutorado, ministrada no semestre letivo 2020.1 pelo professor Dr. Ruben George Oliven no PPGAS \u2013 UFRGS. Essa disciplina tem o objetivo de abrir os horizontes de pesquisadoras e pesquisadores em forma\u00e7\u00e3o, desafiando-os a produzir notas de leitura, reflex\u00f5es pontuais e coesas bem como monografias sobre algo que n\u00e3o se tenha cogitado investigar at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem anarquista que a ministra costuma encerrar o semestre letivo com sua querida &#8220;caminhada etnogr\u00e1fica&#8221;, um passeio guiado pela cidade de Porto Alegre em que sociabilidade urbana e mem\u00f3ria se entrecruzam. Em 2020, devido \u00e0 COVID-19 e \u00e0s suas medidas de mitiga\u00e7\u00e3o, essa atividade teve de ser reelaborada e, em seu lugar, o professor prop\u00f4s a escrita de reflex\u00f5es de pequena extens\u00e3o que caminhassem por veredas da mem\u00f3ria ou que vertessem o olhar sobre as vias pand\u00eamicas que nos cercam.<\/p>\n<p>(Ilustra\u00e7\u00e3o: Pixabay).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por J\u00e9ferson Alves Como dizem Coelho e Rezende (2010), as emo\u00e7\u00f5es nos servem como modos de dar significados \u00e0s narrativas, sejam elas biogr\u00e1ficas ou n\u00e3o. O momento acerca do qual reflito \u00e9 o de encontro com um objeto. Este \u00e9 de fato o mais importante nessa descri\u00e7\u00e3o. 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