{"id":45,"date":"2017-09-07T20:37:37","date_gmt":"2017-09-07T23:37:37","guid":{"rendered":"http:\/\/gaepppgas.wixsite.com\/gaep\/single-post\/2017\/09\/07\/Antrop%C3%B3loga-desvenda-o-mercado-de-casamentos-um-fen%C3%B4meno-em-que-o-sonho-n%C3%A3o-tem-pre%C3%A7o"},"modified":"2020-06-21T17:04:46","modified_gmt":"2020-06-21T20:04:46","slug":"antropologa-desvenda-o-mercado-de-casamentos-fenomeno-em-que-o-sonho-nao-tem-preco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/2017\/09\/07\/antropologa-desvenda-o-mercado-de-casamentos-fenomeno-em-que-o-sonho-nao-tem-preco\/","title":{"rendered":"Antrop\u00f3loga desvenda o mercado de casamentos, fen\u00f4meno em que o sonho n\u00e3o tem pre\u00e7o"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/static.wixstatic.com\/media\/e75c4e_de8b8bf1c75e4f839dfad382f9eb84b7~mv2.jpg\" alt=\"\" width=\"187\" height=\"140\" \/><\/p>\n<div><strong><em>Por Aline Lopes Rochedo<\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A cearense \u00c9rika Bezerra de Meneses Pinho chegou a Porto Alegre no in\u00edcio de 2013 para cursar doutorado em Antropologia Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Naqueles dias, a inten\u00e7\u00e3o era dar prosseguimento a uma trajet\u00f3ria de pesquisa comprometida politicamente com a quest\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o em Fortaleza, tem\u00e1tica que havia desenvolvido no \u00e2mbito da Comunica\u00e7\u00e3o Social, durante a gradua\u00e7\u00e3o, e da Sociologia, no mestrado, ambas as experi\u00eancias na Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC). Na faculdade, seu trabalho de conclus\u00e3o de curso (TCC) recebeu o t\u00edtulo &#8220;No Amor e na Batalha &#8211; Rela\u00e7\u00f5es Afetivas na Zona de Baixo Meretr\u00edcio do Farol do Mucuripe&#8221; e foi defendido em 2005, com orienta\u00e7\u00e3o de Francisca Ilnar de Sousa. A disserta\u00e7\u00e3o &#8220;O tempo bom do Farol: transgress\u00e3o, sociabilidade e afeto nas trajet\u00f3rias de ex-prostitutas idosas&#8221;, defendida em 2012, foi orientada por Ant\u00f4nio Cristian Saraiva Paiva.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Poucas semanas em Porto Alegre foram necess\u00e1rias para ela perceber os desafios impostos pela dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica em rela\u00e7\u00e3o ao seu tema original de pesquisa e pelas burocracias e exig\u00eancias do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social (PPGAS) da UFRGS. Com o apoio do orientador Ruben Oliven, ela decidiu colocar em pr\u00e1tica um plano que, no fundo, nem era t\u00e3o B assim &#8211; tratava-se de uma ideia sedutora, mas que implicava uma virada nos rumos dos interesses acad\u00eamicos: pesquisar o mercado de casamentos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em julho deste ano, \u00c9rika, que integra o Grupo de Antropologia da Economia e da Pol\u00edtica (GAEP), obteve o t\u00edtulo de doutora em Antropologia Social com a tese &#8220;&#8216;Um sonho n\u00e3o tem pre\u00e7o&#8217;: uma etnografia do mercado de casamentos no Brasil&#8221;. Mais do que um trabalho original, trata-se de uma pesquisa que exp\u00f5e o engajamento, a coragem e a dedica\u00e7\u00e3o de uma doutoranda disposta a experimentar na pr\u00f3pria pele o sonho das interlocutoras e o esfor\u00e7o daqueles que se envolvem no processo que faz &#8220;tudo acontecer&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9rika, voc\u00ea come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria profissional na Comunica\u00e7\u00e3o e, aos poucos, migrou para as Ci\u00eancias Sociais. Como se deu esse movimento?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Bom, prestei vestibular para Jornalismo na UFC e comecei a faculdade em 2002. Fiz o curso em quatro anos. No meio da gradua\u00e7\u00e3o, eu me encantei com pesquisa. Na verdade, n\u00e3o fui bolsista de pesquisa, at\u00e9 porque n\u00e3o era uma \u00e9poca de muitas bolsas como tivemos h\u00e1 pouco, e que agora tamb\u00e9m j\u00e1 mudou. Enfim, no quarto semestre, numa disciplina de Assessoria de Imprensa, a professora prop\u00f4s que fiz\u00e9ssemos assessoria para uma ONG. Era o auge do terceiro setor no Brasil, e era imperativo que jornalistas tivessem alguma experi\u00eancia nesse segmento, mesmo na faculdade. No meu est\u00e1gio, eu j\u00e1 tinha trabalhado com uma ONG ligada a direito de inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, focando no combate \u00e0 viol\u00eancia sexual, o que me levou a trabalhar com quest\u00f5es ligadas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o me interessei em conhecer prostitutas adultas, o cotidiano dessas mulheres e seus engajamentos pol\u00edticos na luta contra a viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes. Pois o trabalho da disciplina era prestar assessoria gratuita a uma ONG, e eu fiz para essa associa\u00e7\u00e3o de prostitutas do Cear\u00e1. Fiz contatos dentro dessa rede politicamente engajada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas n\u00e3o ficou s\u00f3 na disciplina, certo?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Isso. Do quarto ao oitavo semestre, trabalhei com essa rede. Para meu TCC, a pesquisa foi uma experi\u00eancia etnogr\u00e1fica nesse contexto. N\u00e3o ousaria chamar de etnografia, mas foi um trabalho denso com as prostitutas da regi\u00e3o portu\u00e1ria de Fortaleza que n\u00e3o estavam no movimento pol\u00edtico. Durante seis meses, fui todas as sextas-feiras a um cabar\u00e9, a um prost\u00edbulo, e passava as tardes l\u00e1 ouvindo hist\u00f3rias e prestando aten\u00e7\u00e3o aos fluxos transnacionais, \u00e0s migra\u00e7\u00f5es e aos sonhos de migrar, de ter um pr\u00edncipe sueco, finland\u00eas, sei l\u00e1 de onde.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Em geral, um \u201cpr\u00edncipe\u201d europeu?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sim. Mas tinha uma coisa curiosa. Descobri que os filipinos n\u00e3o estavam no sonho de casamento, mas eram clientes muito cobi\u00e7ados por elas porque eram considerados gentis. E fui descobrindo esse universo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>O que aconteceu quando voc\u00ea se formou?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Terminei a faculdade, acabou o est\u00e1gio e, eu, jornalista rec\u00e9m-formada, acabei distribuindo curr\u00edculos. Ent\u00e3o um professor me chamou para trabalhar na assessoria de imprensa da prefeitura de Fortaleza. Era uma gest\u00e3o do PT que dava muita \u00eanfase \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o popular, e eu tinha experi\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea fazia?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Cuidava da assessoria de comunica\u00e7\u00e3o externa, levando informa\u00e7\u00e3o da ponta do executivo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, como campanha de vacina\u00e7\u00e3o ou fumac\u00ea contra o mosquito da dengue. Tamb\u00e9m comunicava a\u00e7\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o para a imprensa. Era bem puxado. Fortaleza \u00e9 dividida em seis regionais administrativas, e eu trabalhava na regional seis, que \u00e9 a mais populosa e a mais pobre. Um tempo depois, fui chamada para o gabinete da prefeitura para coordenar o portal de not\u00edcias. Era uma \u00e9poca em que havia necessidade de se criar um portal da transpar\u00eancia. Fiquei uns dois anos nesse portal. Ao todo, passei seis anos na Prefeitura. At\u00e9 que sa\u00ed para fazer o mestrado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que resolveu voltar \u00e0 academia?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sentia saudades da vida acad\u00eamica, da possibilidade de desenvolver uma pesquisa sobre um tema \u00fanico. Eu queria me dedicar a um assunto s\u00f3. Porque, no cotidiano do jornalismo, o tempo \u00e9 muito mais r\u00e1pido, \u00e9 outra temporalidade. Voc\u00ea precisa entregar entre cinco e dez mat\u00e9rias por dia, dependendo do dia. Eu sentia saudade de uma experi\u00eancia mais dedicada, com tempo mais espa\u00e7ado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi uma transi\u00e7\u00e3o tranquila?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, a volta para vida acad\u00eamica n\u00e3o foi f\u00e1cil (risos). Eu queria fazer o mestrado na Sociologia da UFC. O projeto teve uma nota legal, mas n\u00e3o passei na prova te\u00f3rica. Resolvi tentar no ano seguinte, s\u00f3 que com outro grau de planejamento. Porque eu subestimei a prova, n\u00e3o estudei direito. Resolvi procurar uma professora de teoria sociol\u00f3gica no mestrado. Disse a ela que queria entrar no curso, mas que precisava assistir \u00e0s aulas dela para passas na prova. Fiz um semestre, bem dedicada. Ela tirava as minhas d\u00favidas, me ajudou. Era a professora Alba Carvalho, uma pessoa \u00f3tima.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>E passou na segunda tentativa?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Passei e larguei meu emprego no jornalismo. Fazia esporadicamente algum trabalho como freelancer. Isso foi em 2010, e terminei a p\u00f3s em 2012.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual era o projeto?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Um desdobramento da pesquisa de gradua\u00e7\u00e3o, permanecendo na zona portu\u00e1ria. S\u00f3 que, ao inv\u00e9s de pesquisar as mulheres com a minha idade, em torno dos 25 anos, eu queria ver trajet\u00f3rias de vida de prostitutas idosas. Usei a hist\u00f3ria oral para recolher material com nove delas. Tamb\u00e9m fazia observa\u00e7\u00e3o participante nesses contextos, conversando com as fam\u00edlias, observando rela\u00e7\u00f5es. Por exemplo, percebia que algumas mantinham rela\u00e7\u00f5es com clientes recebendo n\u00e3o dinheiro, mas outros tipos de bens, tipo uma geladeira. Precisava estar perto para ver quem eram os homens que elas se recusavam a chamar de clientes, mas com quem mantinham rela\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas disso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual era o seu referencial te\u00f3rico nesse trabalho?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Trabalhei com a d\u00e1diva, com Viviane Zelizer, sempre atenta a trocas entre mulheres e homens no universo da prostitui\u00e7\u00e3o. Quais eram os pap\u00e9is que se assumiam? Trocas afetivas, sexuais, monet\u00e1rias, materiais. Isso chamava a minha aten\u00e7\u00e3o. Afetividade e interesse s\u00e3o as categorias que me guiaram e me levaram para o doutorado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s a defesa, em 2012, o que aconteceu? Como veio parar em Porto Alegre, na UFRGS?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Decidi fazer a sele\u00e7\u00e3o sem pressa, em 2013, para entrar em 2014 no doutorado. Parei tudo e fiquei um ano estudando, me preparando. Participei da sele\u00e7\u00e3o para o doutorado em Sociologia na UFC \u2013 eram uns dez ou doze livros inteiros! \u2013 e tentei a Antropologia na UFRGS. Esta \u00faltima era uma possibilidade, e parecia distante. Acabei passando nas duas institui\u00e7\u00f5es e decidi vir pra c\u00e1 para me aproximar da Antropologia Econ\u00f4mica. E eu queria ir para a Antropologia, porque eu j\u00e1 estava fazendo etnografia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual era o projeto para o doutorado?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Propus seguir trabalhando com aquelas mulheres idosas, mas numa perspectiva diacr\u00f4nica, olhando para a constru\u00e7\u00e3o de Fortaleza e para a constru\u00e7\u00e3o delas enquanto sujeitos naquela cidade nos anos 1960, 1970. No entanto, eu tinha muitas inseguran\u00e7as quanto \u00e0 quest\u00e3o de olhar para o passado. J\u00e1 no in\u00edcio do doutorado, ficou claro para mim que eu n\u00e3o conseguiria executar aquele projeto, tamb\u00e9m por uma ordem pr\u00e1tica. Para come\u00e7ar, meus cr\u00e9ditos do Cear\u00e1 n\u00e3o foram aceitos no PPGAS porque eram de Sociologia, e eu imaginava que seriam aceitos. Assim, tive que fazer 44 cr\u00e9ditos, mais a minha pesquisa, passando temporadas longas no campo, no Cear\u00e1. Quando vim, achava que faria poucas cadeiras e iria embora fazer meu campo l\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi a\u00ed que decidiu mudar o campo para o mercado de casamentos?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m. Enquanto eu cursava o mestrado, ouvia pessoas falando sobre como seria importante pesquisar interesse e afeto em casamentos. Quando ouvi isso, era um per\u00edodo em que amigos e amigas estavam se casando. Um per\u00edodo que atrapalhou muito os meus estudos nos finais de semana (risos). Sempre tinha um casamento na sexta-feira ou no s\u00e1bado, o que tamb\u00e9m afetava as minhas finan\u00e7as, j\u00e1 que tinha que dar presente e tal. Nessas festas, eu ficava impressionada, porque eram gigantescas. E essas pessoas n\u00e3o eram ricas, era gente de classe m\u00e9dia. A minha sensibilidade foi se agu\u00e7ando nessa \u00e9poca. Da\u00ed, na sele\u00e7\u00e3o do doutorado do PPGAS, a quest\u00e3o da prova pedia para a gente criar um projeto sobre algo sobre o qual nunca hav\u00edamos pesquisado. Como eu j\u00e1 tinha pensado muito a respeito do mercado de casamento e das trocas, escrevi um projeto sobre isso. Usei a bibliografia do mestrado e alguma coisa do Marshall Sahlins que aparecia na lista de refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas. E, quando precisei dar um novo rumo \u00e0 minha pesquisa, por quest\u00f5es pr\u00e1ticas, essa prova estava latejando na minha cabe\u00e7a. Conversei com o professor Ruben Oliven, e ele aceitou me orientar. Deu tudo certo, porque consegui conciliar quest\u00f5es te\u00f3ricas com um campo que me interessava.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu campo foi onde?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Fiz o campo em Porto Alegre, Fortaleza e S\u00e3o Paulo. Foi uma etnografia do mercado brasileiro de casamentos. Queria pensar sobre esse jeito brasileiro de viver esse ritual influenciado pelo consumo, pelo crescimento da classe m\u00e9dia na d\u00e9cada anterior. Conforme minhas conveni\u00eancias e possibilidades, eu fiz adequa\u00e7\u00f5es no projeto. Estava fazendo o doutorado em Porto Alegre, as 44 cadeiras, ent\u00e3o n\u00e3o conseguia ir para Fortaleza no in\u00edcio. S\u00f3 que o campo n\u00e3o podia ficar parado. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o podia virar noites em festas em Porto Alegre, porque tinha as aulas, tinha uma carga de leitura imensa, os trabalhos, as provas. Da\u00ed eu n\u00e3o conseguia fazer uma rede. Eu sou de fora, e as pessoas que eu buscava me dispensavam educadamente, n\u00e3o demonstravam interesse, e o tempo ia passado. Ent\u00e3o fui a algumas feiras de casamento em Porto Alegre e estive na maior feira do pa\u00eds, em S\u00e3o Paulo. At\u00e9 que, aqui no sul, entrei em campo gra\u00e7as a informantes apresentadas por colegas do PPGAS. Mas eu ainda n\u00e3o me sentia inserida. Eu precisava de uma inser\u00e7\u00e3o mais participativa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa inser\u00e7\u00e3o mais participativa aconteceu, de fato, em Fortaleza?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Exato. Uma amiga me apresentou a cerimonialista do casamento dela, a Regina. Eu falo sobre isso na tese, sobre o casamento da Catarina. Acompanhei a prepara\u00e7\u00e3o do in\u00edcio ao fim. Como eu j\u00e1 tinha terminado as disciplinas no PPGAS, consegui ir para Fortaleza, e a Regina me deu muito espa\u00e7o, muita abertura. Eu virei a sombra dela. Eu passava tr\u00eas meses l\u00e1, voltava para Porto Alegre, ficava um m\u00eas aqui, da\u00ed voltava para l\u00e1 e passava mais um tempo. Foram per\u00edodos longos, mas excelentes. Como ela n\u00e3o dirige e n\u00e3o tem carro, eu me tornei a motorista dela. Desta forma, participei de todas as reuni\u00f5es dela no per\u00edodo, trabalhei voluntariamente e a ajudei a organizar 12 casamentos. Entrei em todas as portas que foram se abrindo. Fui conhecendo noivas, fornecedores, e colhi material at\u00e9 demais, que tamb\u00e9m \u00e9 um problema. Tudo aconteceu rapidamente depois que o campo \u201cse abriu\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fazia di\u00e1rios de campo? Como registrava a pesquisa?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Usei muita tecnologia a meu favor. Olha, menina, se n\u00e3o fosse o smartphone, teria sido bem dif\u00edcil. No in\u00edcio do doutorado, eu n\u00e3o tinha essa tecnologia. Vinha de um per\u00edodo de satura\u00e7\u00e3o de internet pelo tempo em que eu trabalhei com isso como jornalista. Naquela \u00e9poca, tinha obriga\u00e7\u00e3o de estar conectada 24 horas por dia, atender ao telefone a qualquer hora, e tudo o que eu queria era me desconectar, entrar numa biblioteca e ficar l\u00e1, s\u00f3 eu e o meu livro. S\u00f3 que eu precisava comprar o smartphone, porque era a comunica\u00e7\u00e3o dessas pessoas. Enfim, foi nessa \u00e9poca mais corrida, quando eu dirigia muitos quil\u00f4metros, escrevia muito e voltava do campo depois das 3 da manh\u00e3, que usei muito as notas de voz. Entrava no carro, ligava o dispositivo e come\u00e7ava a registrar tudo que tinha acontecido. Acostumei a ligar o carro e ligar o gravador, e ia narrando at\u00e9 em casa. Assim que poss\u00edvel, passava os principais pontos a limpo. Eu vivia exausta nesse ritmo, mas a tecnologia me ajudou demais. Fez com que os tr\u00eas meses que eu passei como sombra da Regina se transformassem em uns dez anos, de tanta informa\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Pode explicar melhor?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Enquanto eu dirigia, a Regina estava gravando \u00e1udios para as clientes e ouvindo os \u00e1udios das clientes. Era como se eu ouvisse reuni\u00f5es dela explicando coisas sem parar. Eu pedia os \u00e1udios, ela me repassava e eles entravam como documentos. Depois veio a quarta e \u00faltima etapa da pesquisa. A Regina \u00e9 muito sagaz nas rela\u00e7\u00f5es dela. Quando me apresentava para as clientes, ela dizia que, al\u00e9m de antrop\u00f3loga, eu era uma \u201cfutura p\u00e9rola\u201d, uma futura noiva da Delicadeza, a sua empresa de organiza\u00e7\u00e3o de casamento. As noivas me viam como mais uma noiva no futuro, como uma pessoa pr\u00f3xima delas, e, como eu disse, eu vinha planejando uma festa de casamento com meu namorado. Essa forma de me apresentar \u00e0s clientes criou muita intimidade delas comigo. E, mesmo que eu ainda n\u00e3o fosse noiva, as p\u00e9rolas da Regina me diziam \u201cvou te mostrar o caminho das pedras\u201d, \u201cvou te mostrar como \u00e9 esse mercado\u201d, \u201cvem comigo\u201d. E eu fui com elas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea ficou noiva?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na virada do ano de 2015 para 2016. A\u00ed assinei contrato com uma casa de festas para fazer o evento e passei a viver tudo o que as minhas entrevistadas estavam vivendo. E essas trocas ficaram ainda mais intensas, pois eu ingressei numa communitas de noivas. \u00c9 uma das coisas que eu trabalho na tese.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi escrever nesse processo todo?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na verdade, eu nunca parei de escrever, nem mesmo nos meses em que estava mais absorta no campo. Escrevi minha tese desde o primeiro ano do doutorado. O PPGAS tem uma coisa genial que \u00e9 exigir fichas de leituras dos alunos. Ent\u00e3o, toda semana, se voc\u00ea tem tr\u00eas cadeiras, voc\u00ea tem pelo menos umas nove p\u00e1ginas escritas para fazer. E eu sempre tentei escrever em cima do meu tema, e isso era retrabalhado o tempo todo. Nunca larguei as fichas. Tinha tudo no computador, porque eu ia puxando, colando, copiando. Apesar de a minha casa ser uma bagun\u00e7a, nesse aspecto sou bem organizada. Eu abria um documento e escrevia: &#8220;Setembro com Regina&#8221;. Depois fazia um para outubro, outro para novembro, para todos os meses. Da\u00ed eu ouvia esses \u00e1udios em casa e digitava. Mesmo que repetisse assuntos, eu escrevia, retrabalhava. Quando eu sentei para escrever, j\u00e1 tinha muita coisa feita. As pessoas ficavam impressionadas que eu escrevia muitas p\u00e1ginas por dia, mas, na realidade, eu tinha muita coisa j\u00e1 escrita. Eu n\u00e3o parava, eu n\u00e3o fazia uma entrevista e a deixava l\u00e1. Quando eu encerrei o campo, o que nunca aconteceu completamente, ia para a biblioteca e ficava oito horas l\u00e1, todos os dias. Ficava das 8 horas ao meio-dia, parava para o almo\u00e7o, comia no restaurante da frente, voltava para a biblioteca e passava a tarde ali. Porque, se n\u00e3o fosse assim, n\u00e3o tinha como fazer 44 cr\u00e9ditos e ter escrito tudo. As pessoas me apavoravam: &#8220;Voc\u00ea ter\u00e1 s\u00f3 sete meses para escrever? N\u00e3o vai dar!&#8221;. Mas eu sabia que era poss\u00edvel, at\u00e9 porque sou jornalista e tenho certa facilidade com a escrita. Teve outra coisa: eu virei quase funcion\u00e1ria da biblioteca! Todos os dias eu estava l\u00e1, e brigava com quem fazia barulho (risos). No total, a tese teve perto de 400 p\u00e1ginas. Defendi no dia 15 de mar\u00e7o de 2017, e me casei em 6 de julho de 2017. Foram os dois dias mais felizes da minha vida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 a vida p\u00f3s-tese e a vida p\u00f3s-casamento?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">(Risos) Olha, vi casos de depress\u00e3o p\u00f3s-casamento. Ali\u00e1s, \u00e9 um termo que existe, pode procurar no Google! E faz todo sentido, principalmente quando \u00e9 o projeto \u00fanico de uma pessoa. No meu caso, nunca foi. Ou melhor, foi durante dois meses. Quando terminei o doutorado, tive que correr atr\u00e1s de um preju\u00edzo imenso de tempo. Mas n\u00e3o era a \u00fanica coisa que eu estava resolvendo, porque houve uma pessoa doente na minha fam\u00edlia nessa \u00e9poca e eu me envolvi com isso tamb\u00e9m. Era muita coisa, muito contrato. Tudo isso se d\u00e1 num mercado informal onde a desconfian\u00e7a \u00e9 uma constante. Ent\u00e3o eu tinha muitas checagens para fazer e assegurar que o casamento seria bom. At\u00e9 porque tinha um investimento de dinheiro. Tamb\u00e9m n\u00e3o tive depress\u00e3o p\u00f3s-defesa de tese porque n\u00e3o tive um dia para pensar sobre isso. Na sequ\u00eancia, depois da banca, eu precisei organizar o casamento.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi a rea\u00e7\u00e3o das noivas que voc\u00ea conheceu no campo \u00e0s v\u00e9speras do seu casamento?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ah, sim, no dia seguinte \u00e0 minha defesa, eu tinha tantas noivas me ligando&#8230; N\u00e3o era sobre a tese, era por causa da consolida\u00e7\u00e3o de um status, de uma posi\u00e7\u00e3o prestigiosa que eu adquiri em fun\u00e7\u00e3o do meu potlatch (risos). N\u00e3o que meu objetivo fosse esse, eu queria apenas uma festa bonita, bacana. Mas, como meu processo de noivado foi t\u00e3o longo \u2013 durou mais de um ano \u2013, e por eu ter conhecido uma rede muito grande de fornecedores e de noivas ao longo da minha pesquisa, me tornei uma noiva famosa. A palavra \u00e9 essa: famosa! Eu participava de uns 20 grupos de WhatsApp, alguns com umas 200 noivas. \u00c9 claro que a minha hist\u00f3ria se espalhou. Diziam at\u00e9 que eu era uma noiva \u201cexperiente\u201d e que sabia dar as dicas &#8220;de dentro&#8221;. E as pessoas me mandavam muitos \u00e1udios com d\u00favidas! Quando eu queria desintoxicar do tema casamento, as noivas n\u00e3o deixavam (risos). Eu pensava na ironia disso, lembrava-me da \u00e9poca em que eu estava no in\u00edcio do campo, implorando por entrevistas. E chegou ao minha vez de ser procurada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Conseguiu firmar amizades com algumas noivas?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sim, tinha um dos grupos em que as mo\u00e7as se tornaram minhas amigas, sa\u00edmos juntas, foram \u00e0 minha casa, algumas s\u00e3o feministas. Temos afinidades, principalmente por quest\u00f5es de g\u00eanero que perpassam esse mercado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>E agora? Quais s\u00e3o os planos?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Minha vinda para Porto Alegre n\u00e3o foi sozinha, foi com meu namorado, que agora \u00e9 meu marido, e que tamb\u00e9m veio fazer o doutorado na Antropologia. S\u00f3 que ele \u00e9 concursado da Funda\u00e7\u00e3o de Economia e Estat\u00edstica (FEE), e estamos esperando a defini\u00e7\u00e3o se a funda\u00e7\u00e3o ser\u00e1 extinta de fato pelo governo do Sartori. A\u00ed decidiremos se ficamos por aqui ou se retornamos para Fortaleza. Enquanto isso, eu vou revisando textos e prestando consultorias de mercado de casamentos e festas. Inclusive, recentemente, prestei uma consultoria para uma advogada feminista. A ideia dela \u00e9 revisar contratos para dar mais seguran\u00e7as \u00e0s noivas. Temos um mercado informal, com contratos prec\u00e1rios. E \u00e9 muito dinheiro investido. Para acontecer, um casamento pode ter uns 30 fornecedores. E esse \u00e9 um trabalho de constru\u00e7\u00e3o de lastro de significado para o que ser\u00e1 simbolizado como uma nova fam\u00edlia \u2013 n\u00e3o estou dizendo que \u00e9 uma nova fam\u00edlia, mas \u00e9 simbolizado socialmente como uma nova fam\u00edlia \u2013, um trabalho que sobra para as mulheres. Os homens n\u00e3o se dedicam \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dessas festas, e isso afeta a seguran\u00e7a dessas mulheres. E o que acontece quando elas se estressam? S\u00e3o chamadas de noivas loucas, de mulheres surtadas, de estressadas. \u00c9 sempre uma desqualifica\u00e7\u00e3o ligada ao fato de serem mulheres, e isso aparece naturalizado. \u00c9 apagado nesse discurso o fato de que essas pessoas est\u00e3o submetidas a uma situa\u00e7\u00e3o de estresse imenso e que os homens est\u00e3o fazendo outras coisas, est\u00e3o no bar, no futebol, no happy hour com os amigos. Essa consultoria que eu presto \u00e9 para ajudar as mulheres nesse processo. No caso de casas de festas, elaborei um projeto para melhorar a rela\u00e7\u00e3o do consumidor com o prestador de servi\u00e7o, pensando nas fragilidades e nos agenciamentos. N\u00e3o \u00e9 pesquisa superficial, n\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>A vida acad\u00eamica, ent\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 no seu horizonte no momento?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Olha, a academia \u00e9 uma possibilidade de trabalho, mas n\u00e3o \u00e9 o limite. Nesta semana, entrando no LinkedIn, at\u00e9 vi uma vaga para antrop\u00f3logo! \u00c9 raro! Mas era para a Rede Globo (risos)&#8230; Eu sei, \u00e9 uma coisa que interessa muito pouco a alguns antrop\u00f3logos (risos). Mas \u00e9 s\u00e9rio! \u00c9 uma vaga para avaliar as rea\u00e7\u00f5es das pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 programa\u00e7\u00e3o da emissora (risos). Bom, durante o doutorado, fiz alguns trabalhos pontuais com pesquisa de mercado e fiquei bem satisfeita, porque \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do que voc\u00ea aprende. Na verdade, n\u00e3o vejo dem\u00e9rito nenhum em atuar no mercado. Nesse mercado de casamento, sobre o qual posso falar com propriedade, a presen\u00e7a de antrop\u00f3logos \u00e9 importante em fun\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o de g\u00eanero, do sofrimento feminino, da press\u00e3o. Podemos facilitar esses processos na vida dessas pessoas. Inicialmente, eu mesma tinha inseguran\u00e7as sobre como seria vista, pelos meus pares, uma pesquisa sobre consumo e ritos contempor\u00e2neos de casamento. Felizmente, tive como orientador o professor Ruben Oliven, que enxergava muito mais longe que eu e me tranquilizava a esse respeito. T\u00ea-lo como orientador fez toda a diferen\u00e7a.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Aline Lopes Rochedo A cearense \u00c9rika Bezerra de Meneses Pinho chegou a Porto Alegre no in\u00edcio de 2013 para cursar doutorado em Antropologia Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Naqueles dias, a inten\u00e7\u00e3o era dar prosseguimento a uma trajet\u00f3ria de pesquisa comprometida politicamente com a quest\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o em Fortaleza, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1019,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45\/revisions\/1019"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}