{"id":53,"date":"2017-06-22T10:15:00","date_gmt":"2017-06-22T13:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/gaepppgas.wixsite.com\/gaep\/single-post\/2017\/06\/22\/Uma-etnografia-sobre-suic%C3%ADdio-assistido-quando-a-experi%C3%AAncia-de-doutorado-sandu%C3%ADche-vai-al%C3%A9m-do-v%C3%ADnculo-institucional"},"modified":"2020-06-21T17:04:02","modified_gmt":"2020-06-21T20:04:02","slug":"uma-etnografia-sobre-suicidio-assistido-quando-a-experiencia-de-doutorado-sanduiche-vai-alem-do-vinculo-institucional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/2017\/06\/22\/uma-etnografia-sobre-suicidio-assistido-quando-a-experiencia-de-doutorado-sanduiche-vai-alem-do-vinculo-institucional\/","title":{"rendered":"Uma etnografia sobre suic\u00eddio assistido: quando a experi\u00eancia de doutorado sandu\u00edche vai al\u00e9m do v\u00ednculo institucional"},"content":{"rendered":"<div>\n<div><strong>Por Aline Lopes Rochedo<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O antrop\u00f3logo Marcos Freire de Andrade Neves, doutorando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), retornou ao Brasil em abril, ap\u00f3s passar quase dois anos e meio realizando sua etnografia sobre suic\u00eddio assistido na Europa. Durante o doutorado sandu\u00edche financiado pelo Servi\u00e7o Alem\u00e3o de Interc\u00e2mbio Acad\u00eamico (DAAD), o pesquisador esteve ligado \u00e0 Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, e percorreu o cen\u00e1rio do direito \u00e0 morte seguindo fluxos internacionais de pessoas, informa\u00e7\u00f5es e medicamentos. Como procedimentos do g\u00eanero s\u00e3o proibidos no Brasil, mas legitimados e praticados em outros contextos, ele atravessou o Atl\u00e2ntico antes do final do primeiro ano de doutorado, pois estar em solo europeu era necess\u00e1rio para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho de campo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esta n\u00e3o \u00e9 a sua primeira incurs\u00e3o na tem\u00e1tica da morte. Em 2014, Marcos defendeu a disserta\u00e7\u00e3o Por Onde Vivem os Mortos: O processo de fabrica\u00e7\u00e3o da morte e da pessoa morta no segmento funer\u00e1rio de Porto Alegre, orientado pelo Dr. Arlei Sander Damo, mesmo professor que acompanha o atual trabalho. A pesquisa de mestrado foi eleita melhor disserta\u00e7\u00e3o daquele ano por professores do PPGAS\/UFRGS e ser\u00e1 lan\u00e7ada em forma de livro em breve. Hoje, al\u00e9m de se dedicar \u00e0 escrita da tese, que ser\u00e1 defendida em 2018, Marcos integra o Grupo de Antropologia da Economia e da Pol\u00edtica (GAEP), vinculado ao N\u00facleo de Pesquisa sobre Culturas Contempor\u00e2neas (NUPECS).<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcos, poderia falar um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica e sobre o seu atual tema de pesquisa no doutorado?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Eu tenho gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais pela UFRGS e mestrado em Antropologia Social tamb\u00e9m pela UFRGS. O professor Arlei Sander Damo, meu orientador hoje, me orienta desde a gradua\u00e7\u00e3o, quando fiz uma pesquisa sobre forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as comunit\u00e1rias no espectro do Or\u00e7amento Participativo, mais especificamente na Vila Chocolat\u00e3o (em Porto Alegre). Na hora de escrever o TCC, acabei focando na Vila Chocolat\u00e3o, porque ela seria removida para a periferia, e peguei bem esse momento. Quando fiz a sele\u00e7\u00e3o do mestrado, propus ao Arlei uma pesquisa sobre rela\u00e7\u00e3o entre afeto e dinheiro, e expliquei que seria no contexto da morte. Arlei pensou que seria diferente, que seria sobre disputas familiares sobre heran\u00e7a, tema cl\u00e1ssico na Antropologia. Expliquei que n\u00e3o, que faria em funer\u00e1rias, no complexo funer\u00e1rio de Porto Alegre. E o meu orientador achou que n\u00e3o daria certo (risos). Ele conta isso no pref\u00e1cio do meu livro que vai sair agora. Porque \u00e9 um mercado mal-afamado e fechado. O Arlei achou que ningu\u00e9m gostaria de ter um antrop\u00f3logo bisbilhotando esse mercado, que as empresas n\u00e3o me deixariam entrar e tal. Mas entrei e me dei conta de que n\u00e3o dava para falar s\u00f3 em mercado, que eu tinha que trabalhar com a produ\u00e7\u00e3o da pessoa morta, um estatuto jur\u00eddico espec\u00edfico de uma pessoa que transita pelo mercado funer\u00e1rio. Depois, para o doutorado, propus eutan\u00e1sia volunt\u00e1ria e suic\u00eddio assistido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso implicava, j\u00e1 no projeto, uma pesquisa no Exterior&#8230;<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sim, implicava sandu\u00edche, implicava uma pesquisa de longo prazo fora. A pesquisa, idealmente, come\u00e7aria na Su\u00ed\u00e7a, e eu larguei a ideia de eutan\u00e1sia volunt\u00e1ria, ficando na de suic\u00eddio assistido. A Su\u00ed\u00e7a \u00e9 o centro motor disso. E eu queria trabalhar com a ideia de mobilidade, porque muita gente vai para l\u00e1 para fazer o suic\u00eddio assistido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea come\u00e7ou a pensar no doutorado sandu\u00edche?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Comecei a ver as possibilidades na produ\u00e7\u00e3o do projeto para a sele\u00e7\u00e3o de doutorado. Eu ainda estava no mestrado. A sele\u00e7\u00e3o para a bolsa do DAAD foi junto com o in\u00edcio do doutorado. As aulas do doutorado (na UFRGS) come\u00e7am em mar\u00e7o; em abril, enviei os documentos para o DAAD; em setembro, fui aprovado; no final de novembro eu tinha que estar l\u00e1 (na Alemanha). \u00c9 que a sele\u00e7\u00e3o para o financiamento s\u00f3 abre uma vez por ano, se esperasse pelo ano seguinte, n\u00e3o poderia ficar o tempo que queria. A minha pesquisa exigiria um tempo maior l\u00e1 fora.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que buscar financiamento no DAAD?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Eu conhecia o DAAD, conhecia algumas pessoas na Alemanha, professores, colegas da Antropologia. Eu n\u00e3o tinha familiaridade com as ag\u00eancias de financiamento na Su\u00ed\u00e7a. Ent\u00e3o pensei em ficar perto da Su\u00ed\u00e7a, de maneira que eu pudesse ir para l\u00e1 fazer a pesquisa, mas que n\u00e3o fosse um pa\u00eds t\u00e3o caro. Na Alemanha, eu tinha mais possibilidades de conseguir financiamento. Sabia que o DAAD oferece uma modalidade de bolsa sandu\u00edche de 24 meses, mais um curso de alem\u00e3o, que pode ser de dois, quatro ou seis meses. Fiz esse pedido e ganhei os 24 meses, al\u00e9m de quatro meses de curso de alem\u00e3o. Esse edital do DAAD era em parceria com a CAPES e o CNPq.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Poderia explicar melhor o que \u00e9 o DAAD?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o de fomento \u00e0 pesquisa que oferece bolsa de v\u00e1rias modalidades, de gradua\u00e7\u00e3o a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u00c9 enorme em quest\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e em n\u00famero de bolsistas e se dirige a pessoas com interesse de estudar na Alemanha. Fui para l\u00e1 durante a gradua\u00e7\u00e3o pelo DAAD com a ideia de dar uma continuidade depois. O edital do qual eu participei no doutorado tem uma chamada anual.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Falar alem\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-requisito?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o. Dependendo da \u00e1rea, podem te cobrar um conhecimento pr\u00e9vio, sim. Mas n\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-requisito. Tanto que at\u00e9 te pagam um curso de alem\u00e3o. \u00c0s vezes, o orientador na Alemanha pode escrever na carta de aceite dizendo que tu tens conhecimento suficiente para assistir \u00e0s aulas. Muitas das aulas s\u00e3o em ingl\u00eas. Conhe\u00e7o gente que foi com pouco aprimoramento desses idiomas e conseguiu rapidamente. O ideal, claro, \u00e9 ter conhecimento de ingl\u00eas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea precisou qualificar o seu trabalho antes de embarcar para o sandu\u00edche?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sim, pela UFRGS, s\u00f3 pode ir para o sandu\u00edche depois de qualificar, e a gente tem at\u00e9 o quinto semestre do curso para fazer isso. Como a qualifica\u00e7\u00e3o exige dois cap\u00edtulos da tese, assim que saiu o resultado do DAAD, em setembro, eu tive dois meses e pouco para escrever os dois cap\u00edtulos, qualificar e viajar. Fiz isso com o que eu tinha na \u00e9poca, que era mais te\u00f3rico, e havia uma pesquisa com pessoas envolvidas na \u00e1rea, gente com quem eu falava por Skype. Fiz a qualifica\u00e7\u00e3o em novembro com uma banca formada com a Juliana Lopes de Macedo (ent\u00e3o p\u00f3s-doutoranda no PPGAS\/UFRGS), o Emerson Giumbelli (PPGAS\/UFRGS) e a Rachel Aisengart Menezes (Instituto de Estudos em Sa\u00fade Coletiva da UFRJ [IESC\/UFRJ]). No dia seguinte, embarquei para Berlim. Fiz a qualifica\u00e7\u00e3o no final do segundo semestre porque, se eu esperasse para fazer no ano seguinte, ficaria s\u00f3 um ano no sandu\u00edche, no m\u00e1ximo. No meu caso, n\u00e3o precisava apenas de um sandu\u00edche com v\u00ednculo institucional, para escrever, ter orienta\u00e7\u00f5es, assistir a aulas. Eu tinha que fazer campo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea foi para Berlim, mas seu campo seria na Su\u00ed\u00e7a&#8230;<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Foi um pouco mais complicado (risos). A ideia inicial era come\u00e7ar na Su\u00ed\u00e7a, porque \u00e9 o pa\u00eds que mais se associa ao suic\u00eddio assistido. \u00c9 legal em outros contextos, em outras jurisdi\u00e7\u00f5es, mas a Su\u00ed\u00e7a tem um cen\u00e1rio de organiza\u00e7\u00f5es que trabalham com isso, que aceitam estrangeiros. Cheguei \u00e0 Su\u00ed\u00e7a e vi que l\u00e1 era a etapa do procedimento t\u00e9cnico, e muita coisa interessante acontece em outros lugares. S\u00e3o coisas que as pessoas fazem antes de ir l\u00e1. Ficando s\u00f3 na Su\u00ed\u00e7a, eu n\u00e3o veria a mobilidade, o processo, nada. N\u00e3o teria acesso a mais do que 20 minutos que antecedem ao procedimento, que \u00e9 quando a pessoa assina os pap\u00e9is. Seria o m\u00e1ximo que eu poderia acessar. Tive que reformular (o projeto). N\u00e3o era ficar em Berlim e ir para a Su\u00ed\u00e7a, porque essa din\u00e2mica n\u00e3o \u00e9 territorializada. Eu precisava entender quais conex\u00f5es faziam as pessoas irem para a Su\u00ed\u00e7a. Tentei mapear isso. H\u00e1 v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es naquele pa\u00eds, eu fiz contato com tr\u00eas, visitei duas, mas meu trabalho se centrou mais em uma.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A organiza\u00e7\u00e3o oferece \u201co assistido\u201d, o aux\u00edlio ao procedimento do suic\u00eddio. Fiquei sabendo que estrangeiros iam para uma dessas organiza\u00e7\u00f5es e que havia uma m\u00e9dica com quem tinham muito contato na Esc\u00f3cia. A\u00ed eles me colocaram em contato com essa m\u00e9dica, e eu comecei a enxergar a mobilidade. Tinha outro m\u00e9dico na Alemanha que me recomendaram. Ent\u00e3o fui \u00e0 Esc\u00f3cia, falei com essa m\u00e9dica, e ela tamb\u00e9m me recomendou o mesmo m\u00e9dico da Alemanha. Da\u00ed eu comecei a triangular e ver os fluxos. A partir desses tr\u00eas contextos \u2013 Alemanha, Su\u00ed\u00e7a e Esc\u00f3cia \u2013, achei advogados, m\u00e9dicos, leigos, pol\u00edticos e comecei a seguir tudo isso e a viajar. Ia bastante para Hamburgo, por exemplo, onde tem uma organiza\u00e7\u00e3o. Viajava para encontrar pessoas que iam fazer o procedimento, ia para a casa delas. E ia para a Holanda, para a Fran\u00e7a, para outros lugares em busca desses fluxos. A ideia inicial da Su\u00ed\u00e7a mostrou que o cen\u00e1rio \u00e9 din\u00e2mico. N\u00e3o dava para ficar l\u00e1. Fui mapeando diferentes fluxos, mobilidades de pessoas, de medicamentos e de informa\u00e7\u00e3o para fazer o suic\u00eddio assistido acontecer. As pessoas se conectam para fazer e agilizar tudo isso, e isso acabou sendo o foco.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>E o foco ficou na Europa?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sim. Fui a um congresso especializado em eutan\u00e1sia, em Amsterdam. Foi interessante, porque a maior parte das pessoas com quem eu falava na Alemanha, na Esc\u00f3cia, na Su\u00ed\u00e7a, estava l\u00e1. Eu as vi todas no mesmo lugar. E tinha gente de outros pa\u00edses, do Jap\u00e3o, tinha um brasileiro. Eu tinha uma ajuda do DAAD para fazer trabalho de campo tamb\u00e9m. Mas tinha que focar em algum cen\u00e1rio, em algo que fosse vi\u00e1vel, e que j\u00e1 era grande, ent\u00e3o optei pela Europa. A cada contexto que incluo (na pesquisa), preciso colocar a legisla\u00e7\u00e3o, o hist\u00f3rico. Seria imposs\u00edvel fazer algo mais amplo ainda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Pode-se dizer que a pr\u00e1tica do suic\u00eddio assistido \u00e9 mais concentrada na Europa?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Acho que sim. At\u00e9 porque \u00e9 um dos poucos lugares com contextos de suic\u00eddio assistido institucionalizado. A Col\u00f4mbia permite certo tipo de procedimento, o Canad\u00e1 tamb\u00e9m, assim como alguns estados nos Estados Unidos. S\u00f3 que s\u00e3o legisla\u00e7\u00f5es recentes. A lei na Holanda \u00e9 da d\u00e9cada de 1980. A Su\u00ed\u00e7a n\u00e3o tem uma lei positiva espec\u00edfica \u2013 n\u00e3o permite, mas n\u00e3o pro\u00edbe \u2013, mas tem uma legisla\u00e7\u00e3o do come\u00e7o do s\u00e9culo XX.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea conheceu o Dr. Hansj\u00f6rg Dilger, seu orientador em Berlim?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 tinha visto algumas coisas dele, que trabalha com antropologia m\u00e9dica e da religi\u00e3o. Antropologia m\u00e9dica \u00e9 uma \u00e1rea que est\u00e1 crescendo bastante em pa\u00edses de l\u00edngua alem\u00e3, como Alemanha, Su\u00ed\u00e7a e \u00c1ustria. Eu sabia que eu queria ficar em Berlim, ent\u00e3o fui ao site do Departamento de Antropologia M\u00e9dica da Universidade Livre de Berlim, vi esse professor l\u00e1 e entrei em contato. Expliquei por e-mail qual seria a pesquisa, ele gostou, mas tinha muitos orientandos. Coincidiu de eu ir para a Alemanha naquele ano, encontrei com ele pessoalmente e ele me aceitou. O que conta muito para conseguir o financiamento \u00e9 ter uma boa carta de aceite do orientador. Depois, ele acompanhou a pesquisa bem de perto, e ele me ajudava. Era uma rela\u00e7\u00e3o que, no come\u00e7o, foi diferente. Eu vinha de muitos anos de orienta\u00e7\u00e3o com o Arlei, que \u00e9 uma pessoa pr\u00f3xima e que foi bastante presente. No in\u00edcio, minha rela\u00e7\u00e3o com o orientador da Alemanha foi bem institucional. Eu mandava e-mails para a secret\u00e1ria, a gente marcava com anteced\u00eancia. Mas ele foi atencioso com a minha adapta\u00e7\u00e3o. Com o tempo, a gente saia para almo\u00e7ar, debatia o trabalho. Ele imaginava que eu faria a pesquisa na Su\u00ed\u00e7a, e pareceu um pouco em d\u00favida se a pesquisa seria vi\u00e1vel quando falei que seguiria as redes (risos). Mas n\u00e3o interferiu. Sempre me deu apoio, me chamava para participar de eventos, para o grupo de Antropologia M\u00e9dica. Lia os meus textos, comentava, dava indica\u00e7\u00f5es de leitura.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Como era a rotina acad\u00eamica em meio a tantas viagens?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O primeiro ano foi basicamente de adapta\u00e7\u00e3o no instituto, que tem v\u00e1rios grupos de pesquisa. Circulei por alguns, conheci professores, colegas&#8230; Criei uma rotina de trabalho e fui atr\u00e1s das pessoas para entrevistar e fazer campo. Cheguei l\u00e1 sem nenhuma porta aberta no campo. Fui atr\u00e1s de tudo, de gente, de organiza\u00e7\u00f5es. Uma m\u00e9dica de uma organiza\u00e7\u00e3o me respondeu dizendo que poderia me receber, mas ela me deu uma s\u00e9rie de li\u00e7\u00f5es de casa \u2013 eu tinha que ler um livro, ver um document\u00e1rio, outras coisas. Fiz tudo, liguei para ela e disse \u201ct\u00e1 feito!\u201d. Ela me recebeu, e, a partir da\u00ed, me abriu as portas da organiza\u00e7\u00e3o, me apresentou a m\u00e9dica na Esc\u00f3cia, o m\u00e9dico na Alemanha, ela foi me chamando para presenciar coisas e eventos. Ela abriu as portas para essa rede de pessoas que acabei etnografando depois. O primeiro ano foi isso. No segundo ano, comecei a aproveitar isso, a viajar para entrevistar, fazer observa\u00e7\u00e3o participante nas organiza\u00e7\u00f5es. Na metade do segundo ano, eu j\u00e1 n\u00e3o estava mais correndo atr\u00e1s das entrevistas, mas eram as pessoas que vinham me procurar. A organiza\u00e7\u00e3o passou um e-mail para seus membros falando sobre a pesquisa e meu telefone n\u00e3o parou mais, passei a receber e-mail o tempo inteiro. E eu passei a ter uma carga de viagens pesada. Embora falasse com as pessoas por Skype e telefone, n\u00e3o era o ideal, e eu preferia ir at\u00e9 elas. A maior parte das conversas, a partir da\u00ed, ocorriam presencialmente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Essas pessoas eram quem? As que fariam o suic\u00eddio assistido?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nessa segunda metade do segundo ano, sim, eram majoritariamente pessoas que estavam se preparando para fazer o procedimento, e algumas fizeram. At\u00e9 a metade do segundo ano, meus participantes de pesquisa eram mais especialistas. Eram m\u00e9dicos, pol\u00edticos, advogados, assistentes, gente que dava assist\u00eancia. Eu tinha poucos membros de organiza\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cMembros de organiza\u00e7\u00e3o\u201d, ent\u00e3o, seriam pessoas que fazem o procedimento?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sim, porque eu n\u00e3o as chamo de pacientes. Elas n\u00e3o s\u00e3o pacientes. N\u00e3o estamos falando em organiza\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, embora possam ser mantidas por m\u00e9dicos. N\u00e3o s\u00e3o cl\u00ednicas. Na Alemanha, por exemplo, o dono da organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 advogado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi lidar com quest\u00f5es emocionais num contexto desses e longe do Brasil? A dist\u00e2ncia foi um problema?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Desde 2008, tenho uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com a Alemanha. \u00c9 terra estrangeira, mas me \u00e9 familiar. Tenho suporte afetivo, tenho amigos l\u00e1. Mas, sim, era pesado. Havia casos mais dif\u00edceis, outros menos. Dependia da rela\u00e7\u00e3o que desenvolvia com as pessoas. Teve vezes que fiquei bem mal, outras n\u00e3o me afetaram muito. Era imprevis\u00edvel. No final do trabalho de campo, eu estava mal, cansado. Estava mal porque sa\u00eda o tempo todo com pessoas que eu admirava, sobretudo pela coragem, mas que estavam passando por isso. Houve casos que me deixaram muito desanimado. E o \u00faltimo trabalho de campo foi uma coisa t\u00e3o emocionalmente pesada e, ao mesmo tempo, t\u00e3o pr\u00f3xima, t\u00e3o bonita, uma rela\u00e7\u00e3o legal que me deu um g\u00e1s, que me tirou o des\u00e2nimo. Foi com uma senhora que ser\u00e1 o fio condutor da tese. Ficamos pr\u00f3ximos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Ela fez o procedimento?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Fez. No dia 20 de outubro do ano passado. Eu estava junto. Assisti a outros, mas o caso dela foi o \u00faltimo e o mais intenso para mim. Era algu\u00e9m com quem eu sa\u00ed para comer, e ela me ligava todas as semanas. Ela me ligava para perguntar se eu estava bem, para me dar um \u201coi\u201d. Ela me mandava cartas. Foi um tipo de rela\u00e7\u00e3o diferente, mais pr\u00f3xima, e ela queria que eu fosse junto ao procedimento. Dia 19 de outubro, eu cheguei \u00e0 Su\u00ed\u00e7a \u2013 ela chegou l\u00e1 no dia anterior \u2014 e fui para o hotel onde ela estava hospedada. Jantamos juntos, s\u00f3 n\u00f3s dois, e conversamos bastante sobre tudo. No dia seguinte, teve o procedimento. Eu diria que foi o ponto de inflex\u00e3o da pesquisa, e era o \u00faltimo dia do trabalho de campo. \u00c9 algo que estou trabalhando. Preciso ver como vai impactar na tese.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>A sua tese ter\u00e1 uma vers\u00e3o em ingl\u00eas?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ela ser\u00e1 em ingl\u00eas, por causa de um acordo que fiz com meus interlocutores na Alemanha, na Su\u00ed\u00e7a e na Esc\u00f3cia. Porque todas as pessoas com quem eu falei na minha pesquisa falam ingl\u00eas. Se eu escrever em portugu\u00eas, eles n\u00e3o poder\u00e3o ler e n\u00e3o teriam o retorno. H\u00e1 muitos pa\u00edses tentando aprovar legisla\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o tudo o que \u00e9 produzido pode ser usado na discuss\u00e3o. Escrever a tese em ingl\u00eas foi um compromisso \u00e9tico que assumi para eles acessarem a pesquisa, o que \u00e9 urgente. Depois posso pensar em desmembr\u00e1-la em artigos em portugu\u00eas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas a defesa ser\u00e1 na UFRGS, em Porto Alegre, certo?<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sim, e o meu orientador da Alemanha quer vir. N\u00e3o sei como ser\u00e1 a quest\u00e3o do idioma, mas ele quer participar.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Aline Lopes Rochedo O antrop\u00f3logo Marcos Freire de Andrade Neves, doutorando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), retornou ao Brasil em abril, ap\u00f3s passar quase dois anos e meio realizando sua etnografia sobre suic\u00eddio assistido na Europa. 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