{"id":63,"date":"2016-03-31T14:28:25","date_gmt":"2016-03-31T17:28:25","guid":{"rendered":"http:\/\/gaepppgas.wixsite.com\/gaep\/single-post\/2016\/03\/21\/Quando-a-economia-%C3%A9-um-ato-de-criatividade-alguns-pontos-para-pensar-a-Economia-Criativa"},"modified":"2018-09-15T20:07:50","modified_gmt":"2018-09-15T23:07:50","slug":"quando-a-economia-e-um-ato-de-criatividade-alguns-pontos-para-pensar-a-economia-criativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/2016\/03\/31\/quando-a-economia-e-um-ato-de-criatividade-alguns-pontos-para-pensar-a-economia-criativa\/","title":{"rendered":"Quando a economia \u00e9 um ato de criatividade: alguns pontos para pensar a Economia Criativa."},"content":{"rendered":"<div>\n<p><img src=\"http:\/\/static.wixstatic.com\/media\/e75c4e_d4034250d8ae442a9fc0a0a7fb8bbabe.jpg\" \/><\/p>\n<div><strong>Texto: Louise Scoz Pasteur de Faria<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o tradicional da economia \u00e9 como os indiv\u00edduos utilizam recursos finitos para saciar necessidades infinitas, enquanto buscam maximizar sua utilidade calculando racionalmente custos e benef\u00edcios de suas decis\u00f5es sujeitos a constri\u00e7\u00f5es legais, sociais e monet\u00e1rias que limitam sua a\u00e7\u00e3o dentro de uma economia de mercado. Um problema econ\u00f4mico come\u00e7a a ser definido por perguntas como: o que produzir? Quando produzir? Em que quantidade produzir? Para quem produzir?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Isso d\u00e1 corpo \u00e0 institui\u00e7\u00e3o da Economia Moderna enquanto um ramo \u201cn\u00e3o-\u00e9tico\u201d do estudo do comportamento humano. Economistas passaram a se ocupar com tem\u00e1ticas de \u201cengenharia\u201d, como bem assinala Amartya Sen (1999): diagn\u00f3sticos qualitativos, ferramentas de interven\u00e7\u00e3o e instrumentos econom\u00e9tricos ou, nos termos dos pr\u00f3prios economistas, &#8220;tecnologias de interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Essas quest\u00f5es s\u00e3o distantes, a princ\u00edpio, do universo da cria\u00e7\u00e3o. Agentes mobilizados pela l\u00f3gica da criatividade n\u00e3o parecem se questionar vividamente sobre \u201co que produzir\u201d, \u201cquando produzir\u201d, \u201cem que quantidade e para quem se destina essa produ\u00e7\u00e3o\u201d. Dificilmente enxergam a si mesmos como indiv\u00edduos divididos entre escolhas racionais, pensadas de modo a maximizar sua utilidade. A l\u00f3gica da criatividade tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser pensada em um registro similar a da economia de mercado, mas como parte de um sistema opera atrav\u00e9s de inst\u00e2ncias de consagra\u00e7\u00e3o que legitimam as trocas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Durante a etnografia ainda em curso que realizo junto a agentes envolvidos em empresas Startup, que s\u00e3o arranjos empresariais flex\u00edveis e experimentais que s\u00e3o fundamentados em uma ret\u00f3rica fortemente atrelada ao fazer acontecer e na no\u00e7\u00e3o de empreendedorismo (AB\u00c9L\u00c8S, 2002) iniciada no ano de 2014 &#8211; t\u00e9cnicos, empres\u00e1rios e investidores que atuam dentro e fora das fronteiras do Brasil &#8211; tive extenso contato com policy-makers envolvidos na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas ligadas a setores de tecnologia e informa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o economistas, consultores e profissionais ligados ao Minist\u00e9rio da Cultura e do Desenvolvimento engajados em cont\u00ednuo di\u00e1logo por meio de institui\u00e7\u00f5es de ensino p\u00fablicas articuladas nos Observat\u00f3rios de Economia Criativa, criados a partir de 2012 pela ent\u00e3o Secretaria de Economia Criativa e extinta em 2015 pela gest\u00e3o de Juca Ferreira. Todos estavam especialmente interessados em uma categoria emergente da economia, a chamada Economia Criativa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A incorpora\u00e7\u00e3o de ativos intang\u00edveis no c\u00e1lculo da performance econ\u00f4mica<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Desde a d\u00e9cada de 1970, a economia compreendia a dimens\u00e3o simb\u00f3lica da a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica por meio da no\u00e7\u00e3o de Economia da Cultura. Um estudo paradigm\u00e1tico que marca o estabelecimento desse corpus te\u00f3rico foi realizado por William Baumol e William Bowen, pesquisadores contratados pela Funda\u00e7\u00e3o Ford para analisar a performance econ\u00f4mica do setor de teatros e apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo na Broadway em 1969. As contribui\u00e7\u00f5es dos autores marcaram profundamente o estabelecimento da Economia da Cultura, que se volta para a an\u00e1lise de institui\u00e7\u00f5es culturais &#8211; tais como teatro, cinema, galerias de arte &#8211; e desenvolvimento de indicativos de produtividade desses setores &#8211; o PIB da cultura.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Economia Criativa, por sua vez, \u00e9 um conceito que adquiriu for\u00e7a a partir da d\u00e9cada de 1990. Esse modelo acabou compondo a abordagem oficial ao qual o Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as do Reino Unido aderiu em 2005, no Departamento de Cultura, M\u00eddia e Esporte do Reino Unido. Um movimento paralelo foi a incorpora\u00e7\u00e3o do conceito ao painel de a\u00e7\u00f5es da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Com\u00e9rcio o Desenvolvimento que, em 2008, lan\u00e7a o Programa de Economia Criativa[i] com o lan\u00e7amento do primeiro relat\u00f3rio de Economia Criativa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O argumento central daqueles dos economistas era que o investimento em Criatividade era uma sa\u00edda vi\u00e1vel a m\u00e9dio e longo prazo para quest\u00f5es estrat\u00e9gicas relacionadas ao desenvolvimento, que n\u00e3o era mais compreendido em um registro simplesmente num\u00e9rico de performance de setores da economia, mas sim um paradigma que englobava necessariamente os desafios contempor\u00e2neos relacionados ao meio ambiente, ao social e \u00e0 cultura. Tornar o mercado mais \u201chumano\u201d, diziam eles, passava necessariamente em refletir sobre como absorver a dimens\u00e3o substantiva e adjetiva da experi\u00eancia humana para dentro da economia e, assim, estimular ferramentas capazes de tornar o mundo um lugar mais diverso, inclusivo e pr\u00f3spero.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Setores art\u00edsticos n\u00e3o deveriam mais ocupar um lugar perif\u00e9rico na economia de mercado. A Economia Criativa prop\u00f5e um modelo conc\u00eantrico de ind\u00fastrias criativas, cujo n\u00facleo \u00e9 composto por setores ligados \u00e0s artes visuais, da literatura, da m\u00fasica e das artes perform\u00e1ticas, que passaram a ser chamados de \u201cn\u00facleo criativo\u201d. Em um segundo plano afastado do n\u00facleo, est\u00e3o \u201coutras ind\u00fastrias culturais\u201d como cinema, museus e livrarias e, no terceiro plano, \u201cindustrias culturais mais amplas\u201d como patrim\u00f4nio, editoras, empresas de audio-visual, televis\u00e3o e r\u00e1dio, v\u00eddeo e games e, por fim, o que chamam de \u201cind\u00fastrias relacionadas\u201d: propaganda, arquitetura, design e moda.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em tempos em que nos deparamos com quest\u00f5es ligadas \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o, flexibiliza\u00e7\u00e3o, tecnologiza\u00e7\u00e3o e crescente especula\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros, a narrativa da Economia Criativa parece um tanto atraente ao primeiro olhar. Entretanto, n\u00e3o pude evitar de questionar: o que exatamente os economistas querem dizer com criatividade?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A criatividade em seu sentido econ\u00f4mico e pol\u00edtico<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Criatividade \u00e9 uma categoria de an\u00e1lise bastante problem\u00e1tica. Poliss\u00eamica, \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o fundante do pensamento Ocidental que remete \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre cria\u00e7\u00e3o e t\u00e9cnica como p\u00f3los opositores. \u00c9 associada a mitos de cria\u00e7\u00e3o, enredos nos quais um mundo anteriormente ca\u00f3tico e amorfo se torna intelig\u00edvel, ordenado e pleno de sentido. Criatividade tamb\u00e9m \u00e9 um elemento fundamental da constru\u00e7\u00e3o da figura do g\u00eanio rom\u00e2ntico e de uma \u00e9tica de autorrealiza\u00e7\u00e3o e descoberta individual, inventividade e singularidade. (TRILLING, 1972; CAMPBELL, 1987)<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Como categoria emp\u00edrica, a id\u00e9ia de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 intimamente ligada com a no\u00e7\u00e3o de valor enquanto dimens\u00e3o incomensur\u00e1vel da experi\u00eancia humana e a potencialidade de interven\u00e7\u00e3o no mundo em que nos cerca. Como bem coloca Tom Boellstorff (2010), essa \u00e9 \u201cuma vis\u00e3o Ocidental profundamente arraigada da vida humana como consistindo da necessidade de cria\u00e7\u00e3o, fundada em uma cultura de constante aperfei\u00e7oamento e predicada em um tipo de pessoa divis\u00edvel que atrela seu self criativo em objetos como meio de transformar trabalho em valor\u201d. (BOELSTORFF, 2010: Kindle Location 4443)<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Quando falamos de Economia Criativa, a id\u00e9ia de criatividade passa a ser investida n\u00e3o somente de sentido moral, mas sobretudo econ\u00f4mico e pol\u00edtico e a operar como modo espec\u00edfico de produ\u00e7\u00e3o, governan\u00e7a e subjetiva\u00e7\u00e3o. Essa nova economia n\u00e3o seria mais impulsionada por economistas e ind\u00fastrias, mas por sujeitos em busca de autorrealiza\u00e7\u00e3o criativa que, ao fazer uso de um potencial abundante e comum ao humano, expandem os limites da a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 na no\u00e7\u00e3o de criatividade que a experi\u00eancia aparentemente t\u00e3o distante de agentes que &#8220;performam&#8221; a economia como empreendedores e economistas confluem: enquanto os primeiros pensam modelos de neg\u00f3cio que buscam absorver a experi\u00eancia cotidiana sens\u00edvel a partir de uma l\u00f3gica proveniente do marketing e da gest\u00e3o, economistas, por sua vez, pensam a formula\u00e7\u00e3o de m\u00e9tricas e modelos avaliativos capazes de trazer para dentro do mercado tudo aquilo que, para eles, \u00e9 considerado uma externalidade, toda a\u00e7\u00e3o humana que n\u00e3o pode ser convertida imediatamente em dinheiro.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Muito da literatura que toca quest\u00f5es relativas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, trabalho e valor na contemporaneidade adv\u00e9m de uma leitura sobre grandes teorias estruturais do capitalismo, em conson\u00e2ncia com o que Luc Boltanski e \u00c8ve Chiapello (2009) chamam de novo esp\u00edrito do capitalismo. Minha perspectiva \u00e9, mais do que construir uma meta-narrativa do neoliberalismo, elucidar os modos concretos atrav\u00e9s dos quais esse projeto pol\u00edtico econ\u00f4mico \u00e9 edificado na vida concreta de agentes de economia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse breve texto faz parte desse projeto. Busco colocar em quest\u00e3o alguns aspectos centrais para come\u00e7armos a pensar a Economia Criativa que, mesmo sendo questionamentos de ordem te\u00f3rica, s\u00e3o postos a partir das lentes de meu trabalho de campo, muitas delas t\u00f3picos de longas conversas com meus interlocutores, temas de diversas piadas e ironias e, at\u00e9 mesmo, uma maneira atrav\u00e9s da qual os agentes encontravam meios de refletir sobre sua pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edtica econ\u00f4mica da criatividade<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O primeiro passo \u00e9 pensar sobre o pr\u00f3prio conceito de Economia Criativa. Esse termo aparece pela primeira vez no discurso \u201cCreative Nation\u201d, proferido em 1994 pelo ent\u00e3o primeiro ministro australiano. A fala defendia a import\u00e2ncia de aproveitar as oportunidades geradas pela globaliza\u00e7\u00e3o e pelas m\u00eddias digitais como forma de informar a criatividade das pessoas e estimular sua contribui\u00e7\u00e3o individual para o desenvolvimento do pa\u00eds.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na ocasi\u00e3o, com o objetivo de fazer frente \u00e0 crescente competitividade econ\u00f4mica global, o governo brit\u00e2nico do ent\u00e3o Primeiro-Ministro Tony Blair criou uma for\u00e7a tarefa multissetorial encarregada de analisar tend\u00eancias de mercado e vantagens competitivas nacionais. O fruto desse trabalho, realizado em parceria p\u00fablico-privada, foi a identifica\u00e7\u00e3o de 13 setores com maior potencial para a economia brit\u00e2nica, um conjunto de segmentos din\u00e2micos cujo com\u00e9rcio global cresceria a taxas mais elevadas do que o restante da economia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Todos eles estariam estavam \u00e0 m\u00eddia, pesquisa e inova\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o cultural, tecnologia e arte. Esse desempenho foi tomado como um efeito de produtos e servi\u00e7os baseados em \u201ccriatividade e conhecimento&#8221;, que, segundo economistas que compuseram o painel, possuiriam elasticidade-renda elevada[ii] de tal modo a n\u00e3o serem afetados t\u00e3o negativamente durante abalos financeiros ao longo do final do s\u00e9culo XX e a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI.[iii]<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O principal eixo de conex\u00e3o entre tais campos \u00e9 a possibilidade de gera\u00e7\u00e3o de valor econ\u00f4mico por meio de direitos de propriedade intelectual. Esse \u00e9 o aspecto central que marca a passagem de uma Economia da Cultura para outra Criativa: a possibilidade de gera\u00e7\u00e3o de produtos e servi\u00e7os escal\u00e1veis, posse, valora\u00e7\u00e3o e mensura\u00e7\u00e3o de ativos intang\u00edveis.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Isso significa considerar setores ligados \u00e0 propaganda e branding[iv]; ao cinema; empresas digitais, de games, software e tecnologia; empresas Telecom; design e arquitetura; m\u00fasica; editoras; pesquisa e desenvolvimento; moda; filme e v\u00eddeo e artes[v]. No centro dos setores produtivos agora considerados criativos est\u00e3o aqueles ligados a campos reconhecidos como culturais: artes visuais, literatura, musica e artes perform\u00e1ticas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A isso deu-se o nome de \u201cind\u00fastrias criativas\u201d, o que permitiu ao governo brit\u00e2nico propor medidas de interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente econ\u00f4micas e industriais, mas educacionais, culturais e relativas \u00e0 malha urbana: se a criatividade \u00e9 a mat\u00e9ria prima de desenvolvimento econ\u00f4mico, o mecanismo de fomento por excel\u00eancia est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o e aloca\u00e7\u00e3o de pessoas enquanto recursos produtivos indispens\u00e1veis.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse modelo acabou compondo a abordagem oficial ao qual o Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as do Reino Unido aderiu em 2005, no Departamento de Cultura, M\u00eddia e Esporte do Reino Unido. Um movimento paralelo foi a incorpora\u00e7\u00e3o do conceito ao painel de a\u00e7\u00f5es da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Com\u00e9rcio o Desenvolvimento que, em 2008, lan\u00e7a o Programa de Economia Criativa[vi] com o lan\u00e7amento do primeiro relat\u00f3rio de Economia Criativa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O Brasil foi, desde 2004, foco de interesse da UNCTAD. Sob a gest\u00e3o Gilberto Gil do Minist\u00e9rio da Cultura, confer\u00eancias internacionais foram realizadas em junho de 2004 e maio de 2005 nas cidades de S\u00e3o Paulo e Salvador, respectivamente, para promover a agenda da Economia Criativa e angariar apoio governamental para seu lan\u00e7amento oficial. No ano de 2012 foi institu\u00edda a Secretaria de Economia Criativa no Minist\u00e9rio da Cultura, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por pensar o modelo brasileiro de desenvolvimento estrat\u00e9gico da criatividade, cuja grande iniciativa foi a cria\u00e7\u00e3o de Observat\u00f3rios de Economia Criativa em Universidades Federais entre os anos de 2013 e 2014.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre economia e desenvolvimento<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria epist\u00eamica que culmina na no\u00e7\u00e3o de Economia Criativa n\u00e3o \u00e9 necessariamente recente. Essa perspectiva \u00e9 fomentada desde a d\u00e9cada de 1980, com a introdu\u00e7\u00e3o de teorias provenientes da sociologia no campo econ\u00f4mico em uma tentativa de incorporar elementos relacionais e intang\u00edveis na an\u00e1lise de performances econ\u00f4micas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A primeira tentativa de impacto foi a cria\u00e7\u00e3o do popular conceito de &#8220;capital social&#8221; a partir do trabalho do soci\u00f3logo Robert Putnam em seu livro Making Democracy Work, publicado em 1988, no qual defende o conceito como a \u201caspectos da organiza\u00e7\u00e3o social, como confian\u00e7a, normas e redes, que podem melhorar a efici\u00eancia da sociedade por facilitar a a\u00e7\u00e3o co-ordenada\u201d. Uma cr\u00edtica dirigida a Putnam diz respeito \u00e0 sua estreiteza conceitual. Isso n\u00e3o impediu sua ado\u00e7\u00e3o pelo Banco Mundial junto a suas ag\u00eancias de assist\u00eancia ao desenvolvimento por ver, nesse corpo conceitual, um mecanismo para encorajar e reconhecer a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria na economia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O pano de fundo dessas mudan\u00e7as seria a intencionalidade em atuar dentro do campo de pol\u00edticas de desenvolvimento, tornando aspectos da vida social pass\u00edveis de serem tomados como elementos da formula\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas, instrumentos econ\u00f4micos, bem como mecanismos de obten\u00e7\u00e3o de valor econ\u00f4mico.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A subjetividade como campo de interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O antrop\u00f3logo Douglas Holmes, que realizou uma extensa etnografia no Banco Central Brit\u00e2nico, prop\u00f5e uma id\u00e9ia interessante que uso como inspira\u00e7\u00e3o para pensar essa quest\u00e3o: o conceito de Economia das Palavras. Esse \u00e9 um termo que busca sensibilizar os leitores para um processo t\u00e9cnico importante dentro contexto econ\u00f4mico contempor\u00e2neo: a aten\u00e7\u00e3o dada para o modo como id\u00e9ias econ\u00f4micas s\u00e3o comunicadas ao grande p\u00fablico. Relat\u00f3rios t\u00e9cnicos, palestras, eventos, documentos e declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o simples processos de divulga\u00e7\u00e3o, mas sim de persuas\u00e3o. Economistas enxergam palavras como ferramentas importantes na implementa\u00e7\u00e3o de regimes econ\u00f4micos e monet\u00e1rios, escolhendo termos para compor relat\u00f3rios, mat\u00e9rias jornal\u00edsticas e apresenta\u00e7\u00f5es que provocam grande repercuss\u00e3o para estimular os indiv\u00edduos a investirem, pouparem, se lan\u00e7arem em novos empreendimentos, buscarem forma\u00e7\u00e3o em uma determinada especialidade t\u00e9cnica \u201cpromissora\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ele nos diz que \u201ctratar a audi\u00eancia como protagonistas \u00e9 fundamental para entender as not\u00e1veis quest\u00f5es comunicativas [da economia contempor\u00e2nea] (\u2026) Modelos anal\u00edticos &#8211; a maquinaria do conhecimento como Karin Knorr Cetina coloca &#8211; que orquestra pr\u00e1ticas de pesquisa nessas institui\u00e7\u00f5es devem ser vistas tamb\u00e9m como maquin\u00e1rios de associa\u00e7\u00f5es, capazes de articular pol\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o tanto \u00e0s circunst\u00e2ncias distintivas e compartilhadas de indiv\u00edduos e empresas que est\u00e3o continuamente modelando e transacionando rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas.\u201d (HOLMES, 2014: Kindle Location 241)<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Pensar a Economia Criativa, portanto, \u00e9 tamb\u00e9m refletir sobre os modos atrav\u00e9s dos quais o projeto econ\u00f4mico se materializa atrav\u00e9s da dimens\u00e3o da subjetividade e do sens\u00edvel.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Economistas criam o Sujeito Criativo na expectativa de criar uma Economia Criativa fazendo uso de concep\u00e7\u00f5es muito arraigadas no horizonte imaginativo Ocidental e da experi\u00eancia de agentes art\u00edsticos e culturais, no entanto traduzindo quest\u00f5es da experi\u00eancia concreta desses indiv\u00edduos para termos econ\u00f4micos: indicadores, modelos de gest\u00e3o, fun\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o, estat\u00edsticas de impacto. Ao tornar o mundo mais criativo, inclusivo e diverso, economistas na verdade economicizam a subjetividade e padronizam a expressividade humana em fun\u00e7\u00e3o de sua capacidade de ser traduzida em mecanismos de valora\u00e7\u00e3o e mensura\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias te\u00f3ricas<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">AB\u00c9L\u00c8S, Marc. \u201cLes Nouveaux Philanthropes\u201d. In: Les Nouveaux riches \u2013 un ethnologue dans la Silicon Valley. 2002.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">BOELLSTORFF, Tom. Coming of age in Second Life: An anthropologist explores the virtually human. Princeton University Press: Princenton, 2008.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, \u00c8ve. O novo esp\u00edrito do capitalismo. S\u00e3o Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">CALLON, Michel; M\u00c9ADEL, M\u00e9adel C\u00e9cile; RABEHARIOA, Vololona. L&#8217;\u00e9conomie des qualit\u00e9s. In: Politix, vol. 13, n\u00b052, Quatri\u00e8me trimestre 2000. pp. 211-239.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">HOLMES, Douglas R.; MARCUS, George E. Fast Capitalism: Para-Ethnography and the Rise of the Symbolic Analyst. Duke University Press: Durham, 2006.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">HOLMES, Douglas. Economy of words: communicative imperatives in central banks. The university of Chicago Press: Chicago, 2014.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">MCCLOSKEY, Deirdre. Bourgeois Dignity: Why Economics Can&#8217;t Explain the Modern World. University of Chicago Press: Chicago, 2011.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">MENGER, Pierre-Michel. The Economics of Creativity: art and achievement under uncertainty. Harvard University Press, Cambridge: 2014.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">ONG, Aihwa; COLLIER, Stephen J. Global Assemblages: Technology, Politics and Ethics as anthropological problems. Blackwell Publishing, Malden: 2005.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">SEN, Amartya. Sobre \u00e9tica e economia. Companhia das Letras: S\u00e3o Paulo, 1999.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[i] Desde o ano de 2004, a UNCTAD promove pain\u00e9is de discuss\u00f5es com altas lideran\u00e7as nacionais a respeito do potencial que a criatividade representaria ao desenvolvimento social e econ\u00f4mico. Isso ser\u00e1 discutido mais pontualmente na introdu\u00e7\u00e3o do conceito no contexto brasileiro.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[ii] A elasticidade-renda da demanda \u00e9 a varia\u00e7\u00e3o percentual da quantidade demandada dada uma varia\u00e7\u00e3o percentual da renda do consumidor. Atrav\u00e9s da aferi\u00e7\u00e3o da varia\u00e7\u00e3o do consumo em rela\u00e7\u00e3o a renda \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar bens e servi\u00e7os que permanecem a fazer de diferentes extratos de despesa em cen\u00e1rios de queda ou aumento de renda.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[iii] (IPEA, 2013: 7)<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[iv] Branding se refere ao campo emergente do marketing destinado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas e estrat\u00e9gias de constru\u00e7\u00e3o de valor de marca. Enquanto, tradicionalmente, esse setor se ocuparia de manejar l\u00f3gicas de pre\u00e7o, pra\u00e7a, promo\u00e7\u00e3o e produto, denominados pela literatura especializada de \u201c4 P\u2019s\u201d, o Branding se dedica a analisar os \u201cativos intang\u00edveis\u201d das organiza\u00e7\u00f5es. O valor de marca entra no composto total do valor da organiza\u00e7\u00e3o e \u00e9 calculado de acordo com par\u00e2metros determinados.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[v] Essa topografia das ind\u00fastrias criativas \u00e9 fornecida por institutos oficiais ligados ao setor, particularmente o Instituto PwC e o Sistema Firjan.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Desde o ano de 2004, a UNCTAD promove pain\u00e9is de discuss\u00f5es com altas lideran\u00e7as nacionais a respeito do potencial que a criatividade representaria ao desenvolvimento social e econ\u00f4mico. Isso ser\u00e1 discutido mais pontualmente na introdu\u00e7\u00e3o do conceito no contexto brasileiro.[vi]<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Louise Scoz Pasteur de Faria A preocupa\u00e7\u00e3o tradicional da economia \u00e9 como os indiv\u00edduos utilizam recursos finitos para saciar necessidades infinitas, enquanto buscam maximizar sua utilidade calculando racionalmente custos e benef\u00edcios de suas decis\u00f5es sujeitos a constri\u00e7\u00f5es legais, sociais e monet\u00e1rias que limitam sua a\u00e7\u00e3o dentro de uma economia de mercado. 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