{"id":875,"date":"2020-06-09T14:00:15","date_gmt":"2020-06-09T17:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/?p=875"},"modified":"2020-08-10T10:27:12","modified_gmt":"2020-08-10T13:27:12","slug":"qual-e-a-sua-mascara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/2020\/06\/09\/qual-e-a-sua-mascara\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 a sua m\u00e1scara?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Aline Lopes Rochedo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Est\u00e1 mais constrangedor tirar a m\u00e1scara do que a roupa \u00edntima em p\u00fablico&#8221;. Esse foi um dos coment\u00e1rios bem-humorados que minha amiga M\u00e1rcia publicou em uma rede social, quando j\u00e1 acumulava dias de quarentena na sua casa, na Toscana, por causa da pandemia do novo coronav\u00edrus. Embora a curva de cont\u00e1gio ainda n\u00e3o tivesse ganhado velocidade no Brasil, eu preparava meu esp\u00edrito para um inevit\u00e1vel distanciamento social, assistindo \u00e0s suas <em>lives<\/em> e trocando mensagens. Eram encontros <em>online<\/em> que tamb\u00e9m a ajudavam a enfrentar sua ansiedade \u2013 minha amiga estava confinada com o filho, um cachorro e dois gatos numa regi\u00e3o do pa\u00eds onde sair \u201csem necessidade\u201d rendia multas de 200 euros (cerca de 1.120 reais). &#8220;Aqui na It\u00e1lia, n\u00e3o usar m\u00e1scara \u00e9 considerado um comportamento antissocial&#8221;.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rcia me recomendava o acess\u00f3rio para ir ao supermercado e \u00e0 farm\u00e1cia, antes mesmo de se tornar item obrigat\u00f3rio em locais p\u00fablicos no Brasil. \u201cFalo do futuro. Estou duas semanas \u00e0 frente\u201d, alertava-me ela, que j\u00e1 tinha os exemplos das estrat\u00e9gias de combate \u00e0 COVID-19 na China e em pa\u00edses pr\u00f3ximos. Era a segunda semana de mar\u00e7o, a It\u00e1lia ultrapassava os mil mortos pela doen\u00e7a e despontavam as primeiras confirma\u00e7\u00f5es da presen\u00e7a do novo coronav\u00edrus do lado de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico. Em uma breve sa\u00edda para buscar itens do <em>kit<\/em>-corona para iniciantes, comprei duas m\u00e1scaras PFF2, descart\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passaram-se poucos dias, registrou-se a primeira morte no Brasil e se iniciou um apelo pa\u00eds afora, para que m\u00e1scaras como as minhas fossem cedidas a profissionais de sa\u00fade, por estarem mais vulner\u00e1veis. Ou seja, equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (mais comumente referidos como EPIs) eram racionados nos hospitais, pois tinham virado objetos de disputa internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu irm\u00e3o, m\u00e9dico na rede p\u00fablica, confirmou que reutilizava uma m\u00e1scara descart\u00e1vel por quase uma semana. Quando lhe ofereci as duas PFF2 ainda ensacadas e j\u00e1 em falta nas lojas, ele n\u00e3o hesitou em peg\u00e1-las, demonstrando al\u00edvio. Enquanto isso, minha m\u00e3e reavivava sua m\u00e1quina de costura e buscava moldes na <em>internet<\/em>. Carecia de perfei\u00e7\u00e3o a leva inaugural, por\u00e9m, como insistia a M\u00e1rcia \u2013 minha amiga do futuro \u2013, &#8220;melhor sair com boca e nariz cobertos&#8221;. Intensificamos a produ\u00e7\u00e3o caseira e doamos algumas \u00e0 portaria do edif\u00edcio e a vendedores ambulantes da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O futuro logo chegou ao Brasil. Deparou-se com o agravante de o governo Bolsonaro classificar a pandemia como \u201cgripezinha\u201d e desqualificar medidas de preven\u00e7\u00e3o recomendadas pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS). A curva de cont\u00e1gio decolou, muitos profissionais de sa\u00fade e pacientes obtiveram equipamento emergencial gra\u00e7as \u00e0 iniciativa de estudantes e professores de escolas de moda (que lidaram com mat\u00e9ria-prima doada e receberam apoio de costureiras volunt\u00e1rias) e m\u00e1scaras caseiras se tornaram compuls\u00f3rias em espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio, essas barreiras f\u00edsicas aterrorizavam, provocavam riso nervoso e resist\u00eancia. Lembravam-nos de que havia algo de perigoso no ar. Diversificaram-se seus significados em <em>selfies<\/em>, redes sociais, televis\u00e3o, jornais e revistas, cal\u00e7adas, \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, mercados e transporte. Agora, s\u00e3o objetos sanit\u00e1rios, emblemas de prote\u00e7\u00e3o individual e coletiva, estandartes de respeito pelo Outro, s\u00edmbolos de combate \u00e0 pandemia, artefatos \u00e9ticos, marcadores de classe, express\u00e3o da individualidade, bandeiras pol\u00edticas, oportunidade de neg\u00f3cios, compromisso c\u00edvico e, em alguns circuitos, artigos <em>fashion<\/em> e de luxo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_885\" aria-describedby=\"caption-attachment-885\" style=\"width: 679px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-885 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2020-06-05.png\" alt=\"\" width=\"679\" height=\"685\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2020-06-05.png 679w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2020-06-05-297x300.png 297w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2020-06-05-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 679px) 100vw, 679px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-885\" class=\"wp-caption-text\">Foto: D\u00e9bora Fanton (2020).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e1scara \u00e9 um artefato eficaz contra o cont\u00e1gio, desde que combinada com outras medidas preventivas, como o distanciamento f\u00edsico e a limpeza das m\u00e3os. Tapam bocas, mas n\u00e3o as calam. Nem todos as acolhem. Aus\u00eancias, ali\u00e1s, servem de recado ideol\u00f3gico. Basta acompanhar as andan\u00e7as de Bolsonaro, ministros e seus seguidores pelo pa\u00eds. Estes raramente levam m\u00e1scaras e frequentemente cospem bravatas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precoce dizer que a m\u00e1scara esteja <em>na moda<\/em> no Ocidente. Trata-se de um acess\u00f3rio (em geral) t\u00eaxtil que se imp\u00f4s e se imp\u00f5e no nosso cotidiano por imperativo sanit\u00e1rio. Sei que grifes do hemisf\u00e9rio norte j\u00e1 inclu\u00edam esses objetos em cole\u00e7\u00f5es apresentadas nas passarelas em temporadas passadas, com monogramas, transpar\u00eancias, brilhos, estampas variadas, pedrarias, rendas e bordados. A \u00eanfase, naqueles cen\u00e1rios pr\u00e9-COVID-19, estava nas dimens\u00f5es est\u00e9tica, ambiental e protetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale recordarmos que rostos semicobertos se proliferaram no Oriente, no in\u00edcio do mil\u00eanio, pela s\u00edndrome respirat\u00f3ria grave causada por outro coronav\u00edrus (a SARS). Na sequ\u00eancia, part\u00edculas t\u00f3xicas conhecidas como PM2,5 \u2013 resultantes da queima de carv\u00e3o para calefa\u00e7\u00e3o \u2013 causaram graves danos aos pulm\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o na China e em adjac\u00eancias. Via-se, de fato, a produ\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras t\u00eaxteis e em materiais tecnol\u00f3gicos voltados para esse mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o ocidental, a ades\u00e3o \u00e9 t\u00e3o recente quanto imediata e massiva. Usos se disseminaram rapidamente, n\u00e3o foram de todo compreendidos e as atribui\u00e7\u00f5es de sentido s\u00e3o diversas e incessantes. Diferentemente do invis\u00edvel novo coronav\u00edrus, as m\u00e1scaras s\u00e3o notadas. Por esses artefatos, somos alertados de que a COVID-19 nos ronda. Se os olhos est\u00e3o descobertos, a pandemia \u00e9 vis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei quantas vezes fui interpelada, via WhatsApp, na \u00faltima semana, por conhecidos pedindo minha opini\u00e3o sobre qual modelo e estampa comprar ou para me mostrar como ficaram seus rostos cobertos at\u00e9 os olhos. Da janela, enxergo catadores de lixo, engravatados, mulheres de salto, crian\u00e7as, velhos, garis, seguran\u00e7as de lojas, policiais, entregadores de comida, todos e todas vestindo m\u00e1scaras&#8230; Ops! Espanta-me o ciclista e sua face \u00e0 mostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Facebook, atacam-se usos inapropriados: lugar de m\u00e1scara \u00e9 no rosto. Algumas pendem no pesco\u00e7o, ornam testas, escapam dos bolsos. Que indec\u00eancia colocar o nariz para fora em p\u00fablico! \u201cMeu maior medo: esquecer minha m\u00e1scara e ser confundida com um bolsom\u00ednion&#8230;\u201d. \u00c9 moralmente aceit\u00e1vel transformar esse acess\u00f3rio em artigo de luxo? Controlamos, julgamos, identificamos aliados, desmascaramos opositores, integramo-nos e nos diferenciamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda n\u00e3o sabemos se m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o contra a COVID-19 \u201cvieram para ficar\u201d, como reza o clich\u00ea. O cen\u00e1rio \u00e9 novo e, sem vacina contra o v\u00edrus, \u00e9 prov\u00e1vel que essas barreiras acompanhem nossa indument\u00e1ria por um longo per\u00edodo, assim como todo um aprendizado da chamada \u201cetiqueta respirat\u00f3ria\u201d \u2013 a prop\u00f3sito, h\u00e1 cursos <em>online<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ado\u00e7\u00e3o desses acess\u00f3rios por diferentes estratos sociais e suportes nos faz rever nossas rela\u00e7\u00f5es com nossos corpos e com os objetos que a eles acoplamos. Grifes, contornos, dizeres, mat\u00e9rias-primas, bem como usos sociais e antissociais de m\u00e1scaras escancaram diferen\u00e7as econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais. A recusa a elas levanta suspeitas de genoc\u00eddio. A maquiagem discreta em rostos, agora cobertos por tecidos lisos ou estampados, se apresenta inversamente proporcional \u00e0 maquiagem carregada sobre n\u00fameros manipulados pelo governo federal, para camuflar a gravidade da pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed? Qual \u00e9 a sua m\u00e1scara?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 640px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-875-1\" width=\"640\" height=\"640\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/FlorencaVillanova2020.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/FlorencaVillanova2020.mp4\">https:\/\/www.ufrgs.br\/gaep\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/FlorencaVillanova2020.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 de 7 de junho, recebi o v\u00eddeo que compartilho acima. \u00c9 um cart\u00e3o musical de Floren\u00e7a registrado pela M\u00e1rcia Villanova, a minha amiga do futuro. Lembran\u00e7a de sua primeira sa\u00edda para almo\u00e7ar fora desde o final de fevereiro. \u201cAqui n\u00e3o pode apoiar a m\u00e1scara na mesa do restaurante, porque tem multa. [&#8230;] Estamos esperando outubro pra ver se vem uma segunda onda. Mas fica firme a\u00ed. Esse sacrif\u00edcio vai valer a pena.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Aline Lopes Rochedo &#8220;Est\u00e1 mais constrangedor tirar a m\u00e1scara do que a roupa \u00edntima em p\u00fablico&#8221;. Esse foi um dos coment\u00e1rios bem-humorados que minha amiga M\u00e1rcia publicou em uma rede social, quando j\u00e1 acumulava dias de quarentena na sua casa, na Toscana, por causa da pandemia do novo coronav\u00edrus. 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