Quando escrevi a minha tese, lá em 2012 eu tinha colocado um prólogo, pensei em uma explicação simples de minhas aspirações pessoais de modo que as pessoas pudessem “ver a tese pelos meus olhos”. Lembro que na época a banca de avaliação da qualificação achou melhor não colocar esse texto por achar ele pessoal de mais. Ainda bem que este site do grupo de pesquisa também usa uma abordagem de divulgação científica. Deste modo, quase 10 anos depois penso que esse texto é o ideal para apresentar a minha tese. Segue o texto na íntegra abaixo, acredito que mesmo passados todos esses anos ele ainda representa muito do que pensei e senti ao fazer esse trabalho.
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PRÓLOGO
Algumas explicações são necessárias para entender a proposta dessa tese. Nesse ponto, peço permissão do leitor até mesmo para modificar a pessoa. Acredito que uma explicação pessoal é mais adequada. Embora se espere em uma tese um rigor científico, sem a paixão pelo objeto de estudo não existe a força suficiente para passar por todos os desafios decorrentes das buscas por respostas de uma tese. Quem já fez ou está fazendo uma tese sabe que só pensamos nisso. E como não pensar?
A primeira explicação que eu gostaria de dar é sobre o objeto de estudo: ele é pessoal sim. Até Popper, sempre lembrado por seu racionalismo “defende” em seu livro lógica das ciências sociais que o pesquisador deve sentir paixão pelo seu tema de estudo. Não estou afirmando que não se deva manter a objetividade em uma pesquisa científica, não é isso. Simplesmente acredito que devemos trabalhar com os problemas que encontramos, citando Popper (1902:25): “[…] não podemos roubar o partidarismo de um cientista sem também roubá-lo de sua humanidade, e não podemos suprimir ou destruir seus juízos de valores sem destruí-lo como ser humano e como cientista.”.
Sou um pedestre, sempre caminhei para realizar todas as minhas atividades e, com o tempo, fui percebendo que existem diferenças entre as ruas (sim, demorou um tempo!) enquanto algumas são cheias de “vida” com grande movimento de pessoas usando o espaço e sociabilizando, outras são totalmente desprovidas de vida, como se não existisse propósito para sua existência. Quando comecei as cadeiras de urbanismo na faculdade percebi que muitas vezes éramos ensinados a ver a cidade como se projetássemos para aviões ou helicópteros, não importava naquele momento como as pessoas utilizariam o espaço, como arquitetos deveríamos pensar no desenho por si só. Deveríamos criar um desenho bonito que ficasse interessante e compusesse bem em uma prancha para ser exposto pelos corredores do curso. Esse pensamento até hoje me assusta. Ao tirar do arquiteto a obrigação de pensar como a sociedade utiliza o espaço estamos também tirando o sentido da própria existência de um projetista. Acredito que devemos entender o que estamos projetamos. Acho louváveis as várias iniciativas existentes nessa área (mesmo que alguns afirmem que não existem pesquisas práticas para ajudar em projetos urbanos).
Tudo isso que falei até agora é para explicar que, ao contrário do que se acredita, não pude escolher o tema de minha tese. Ele me escolheu. Preciso entender as necessidades das pessoas para que, se não eu, outros arquitetos tenham ferramentas para criar espaços mais adequados. Onde as pessoas se sintam seguras ao caminhar, que tenham um mínimo de conforto. E mais importante ainda, que os projetistas não destruam comunidades através de intervenções mal feitas, acabando com a vivência de partes da cidade. Acho que é imprescindível ter responsabilidade pelas decisões tomadas, ainda mais pelas decisões espaciais que afetam a vida de tantas pessoas. Estes motivos que levaram a composição dessa tese, assim, espero que ela ajude de alguma modo a discussão desse tema tão interessante.

