{"id":1546,"date":"2019-07-09T15:49:31","date_gmt":"2019-07-09T18:49:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/?p=1546"},"modified":"2021-03-09T14:07:56","modified_gmt":"2021-03-09T17:07:56","slug":"o-debate-em-torno-da-producao-de-agua-e-o-reflorestamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/2019\/07\/09\/o-debate-em-torno-da-producao-de-agua-e-o-reflorestamento\/","title":{"rendered":"O debate em torno da produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e o reflorestamento"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">por Eng. Ambiental <strong>Ipor\u00e3 Brito Possantti<\/strong>, PPGRHSA, IPH\/UFRGS<\/span><\/p>\n<p>Um debate cient\u00edfico que permeou a hist\u00f3ria da hidrologia desde o seu surgimento e hoje ainda est\u00e1 presente em aplica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e pol\u00edticas orbita em torno do<strong> impacto de florestas sobre o regime hidrol\u00f3gico<\/strong> de bacias hidrogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">As informa\u00e7\u00f5es postadas refletem a opini\u00e3o do(s) autor(es) e n\u00e3o necessariamente da Institui\u00e7\u00e3o (IPH\/UFRGS).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Resumo:<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>\n<blockquote><p>Florestas tendem a reduzir a quantidade de \u00e1gua em rios pois as \u00e1rvores tendem a remover a \u00e1gua por processos de transpira\u00e7\u00e3o e intercepta\u00e7\u00e3o;<\/p><\/blockquote>\n<\/li>\n<li>\n<blockquote><p>O solo de floresta \u00e9 respons\u00e1vel por altas taxas de infiltra\u00e7\u00e3o, mas parte da \u00e1gua que se infiltra tende a ser absorvida pelas \u00e1rvores da floresta;<\/p><\/blockquote>\n<\/li>\n<li>\n<blockquote><p>A \u00e1gua que consegue se infiltrar profundamente em solos de floresta tende a melhorar a qualidade da \u00e1gua dos rios;<\/p><\/blockquote>\n<\/li>\n<li>\n<blockquote><p>Justamente por evaporar de volta parte da \u00e1gua para atmosfera pela transpira\u00e7\u00e3o e intercepta\u00e7\u00e3o, florestas interferem nos fluxos atmosf\u00e9ricos de \u00e1gua em escala continental e global;<\/p><\/blockquote>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr>\n<p>Um debate cient\u00edfico que permeou a hist\u00f3ria da hidrologia desde o seu surgimento e hoje ainda est\u00e1 presente em aplica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e pol\u00edticas orbita em torno do<strong> impacto de florestas sobre o regime hidrol\u00f3gico<\/strong> de bacias hidrogr\u00e1ficas. De acordo com McCulloch e Robinson (1993), as tr\u00eas principais ideias que mobilizam esse debate s\u00e3o as seguintes:<\/p>\n<blockquote>\n<ol>\n<li>&nbsp;\u201c<em>florestas aumentariam as chuvas<\/em>\u201d;<\/li>\n<li>&nbsp;\u201c<em>florestas reduziriam as inunda\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d; e<\/li>\n<li>\u201c<em>florestas aumentariam as vaz\u00f5es m\u00ednimas<\/em>\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<\/blockquote>\n<p>No jarg\u00e3o atual, a ideia central seria algo como \u201c<em>florestas ofereceriam o servi\u00e7o ambiental de regula\u00e7\u00e3o da disponibilidade de \u00e1gua<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>De fato, conforme colocado por Andr\u00e9assian (2004), ideias semelhantes a essas foram levantadas mesmo na Antiguidade por Pl\u00ednio, O Velho, e passaram a ser alvo de constante especula\u00e7\u00e3o, discuss\u00e3o e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Europa a partir do final do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>O principal m\u00e9todo experimental para abordar essa quest\u00e3o de forma cient\u00edfica passou a ser, ao longo do s\u00e9culo XX, estudos com <strong>bacias pareadas<\/strong> (Andr\u00e9assian, 2004). Em poucas palavras, esse m\u00e9todo consiste em (1) calibrar uma<strong> curva de correla\u00e7\u00e3o<\/strong> entre duas bacias hidrogr\u00e1ficas florestadas muito parecidas em termos geomorfol\u00f3gicos, (2) aplicar um \u201ctratamento\u201d para umas das bacias (isto \u00e9, <strong>desmatar<\/strong> uma delas) e (3) <strong>observar a diferen\u00e7a<\/strong> entre a nova curva de correla\u00e7\u00e3o com a calibrada anteriormente ao tratamento. Com esse e outros tipos de experimentos, o debate em torno dessa quest\u00e3o passou a ter mais evid\u00eancias e menos especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\t\t<style type=\"text\/css\">\n\t\t\t#gallery-1 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 100%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-1546 gallery-columns-1 gallery-size-full'><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/2019\/07\/09\/o-debate-em-torno-da-producao-de-agua-e-o-reflorestamento\/bacias_pareadas\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"721\" height=\"476\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/bacias_pareadas.jpg\" class=\"attachment-full size-full\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-1550\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/bacias_pareadas.jpg 721w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/bacias_pareadas-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 721px) 100vw, 721px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt>\n\t\t\t\t<dd class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-1550'>\n\t\t\t\tExperimento de bacias pareadas. Adaptado de:\u00a0http:\/\/data.hubbardbrook.org\/photos\/picture.php?\/279\/category\/7\n\t\t\t\t<\/dd><\/dl><br style=\"clear: both\" \/>\n\t\t<\/div>\n\n<p>Segundo <strong>137<\/strong> experimentos de bacias pareadas revisadas por Andr\u00e9assian (2004), <strong>todos<\/strong> apresentam um<strong> aumento na produ\u00e7\u00e3o anual de \u00e1gua<\/strong> ap\u00f3s o tratamento. Em um estudo de revis\u00e3o mais recente, Filoso et al. (2017) sustentam que em <strong>79%<\/strong> de <strong>308<\/strong> estudos de caso (que envolvem alguma forma de expans\u00e3o ou redu\u00e7\u00e3o da cobertura florestal) <em>quanto menos floresta, mais \u00e1gua se verifica no rio em termos anuais<\/em>. Ou seja: as observa\u00e7\u00f5es apontam que <strong>florestas tendem a reduzir a quantidade total de \u00e1gua<\/strong> <em>na rede de drenagem<\/em> de suas bacias hidrogr\u00e1ficas. O mecanismo proposto para explicar esse fen\u00f4meno \u00e9 que florestas apresentam uma<strong> taxa de evapotranspira\u00e7\u00e3o<\/strong> (isto \u00e9, a <em>evapora\u00e7\u00e3o<\/em> decorrente da&nbsp;<em>intercepta\u00e7\u00e3o<\/em> e<em> transpira\u00e7\u00e3o <\/em>de \u00e1gua) relativamente <strong>mais alta que outras coberturas do solo.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>A chuva cai, mas parte da \u00e1gua volta para a atmosfera gra\u00e7as \u00e0s \u00e1rvores da floresta. Sobra menos \u00e1gua nos rios.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\t\t<style type=\"text\/css\">\n\t\t\t#gallery-2 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-2 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 100%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-2 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-2 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-2' class='gallery galleryid-1546 gallery-columns-1 gallery-size-full'><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/2019\/07\/09\/o-debate-em-torno-da-producao-de-agua-e-o-reflorestamento\/filoso\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"803\" height=\"344\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/filoso.jpg\" class=\"attachment-full size-full\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-2-1552\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/filoso.jpg 803w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/filoso-300x129.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/filoso-768x329.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 803px) 100vw, 803px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt>\n\t\t\t\t<dd class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-2-1552'>\n\t\t\t\tRevis\u00e3o da resposta\u00a0ap\u00f3s reflorestamento na produ\u00e7\u00e3o anual de \u00e1gua de 308 estudos (A) e no fluxo de base de 53 estudos (B). Fonte: Filoso et al (2017)\u00a0 https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article\/figure?id=10.1371\/journal.pone.0183210.g003\n\t\t\t\t<\/dd><\/dl><br style=\"clear: both\" \/>\n\t\t<\/div>\n\n<p>Com tais constata\u00e7\u00f5es cada vez mais s\u00f3lidas, a ideia do reflorestamento como uma panaceia para a promo\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos servi\u00e7os ambientais passa a ficar mais fr\u00e1gil, principalmente quando se trata do <strong>plantio extensivo de \u00e1rvores ex\u00f3ticas<\/strong> tais como<strong> pinus e eucalipto<\/strong>. Por exemplo, Jackson et al. (2009) sugerem que se perdem benef\u00edcios da disponibilidade de \u00e1gua quando se busca maximizar o <strong>sequestro de carbono<\/strong> com reflorestamento e, por isso, tomadores de decis\u00e3o precisam conhecer melhor tais <em>trade-offs<\/em> antes de participar do mercado de carbono.<\/p>\n<p>Por outro lado, ainda que a no\u00e7\u00e3o de que \u201cflorestas atraem chuva\u201d esteja equivocada quando se trata da escala de <em>pequenas<\/em> ou <em>m\u00e9dias<\/em> bacias hidrogr\u00e1ficas, <strong>justamente<\/strong> pelo fato da evapotranspira\u00e7\u00e3o se manifestar de forma acentuada em florestas que <strong>a \u00e1gua pode ser transferida pela atmosfera para locais mais distantes<\/strong>. Conforme argumentado por Ellison et al. (2012), o debate da rela\u00e7\u00e3o de florestas com a hidrologia <strong>precisa ser colocado em uma perspectiva de escala continental ou mesmo global.<\/strong> Nessa escala, os autores ressaltam, as <strong>florestas emergem como atores cruciais do ciclo hidrol\u00f3gico nos continentes<\/strong>, transferindo \u00e1gua para regi\u00f5es que de outra forma seriam \u00e1ridas. \u00c9 o caso da rela\u00e7\u00e3o entre a floresta amaz\u00f4nica e o sudeste do Brasil.<\/p>\n<p>Na perspectiva da <strong>produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua<\/strong> em escala de bacia, a conclus\u00e3o geral que se pode chegar \u00e9 que, apesar do <em>solo de floresta<\/em> permitir uma alta taxa de <em>infiltra\u00e7\u00e3o<\/em>, parte da \u00e1gua infiltrada \u00e9 \u201c<em>sequestrada<\/em>\u201d pelas plantas e <em>transferida de volta para atmosfera<\/em>. Conforme Neary et al. (2012) destacam, o maior provedor de servi\u00e7os ambientais relacionados \u00e0 \u00e1gua, em especial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 melhoria da qualidade, \u00e9 o <strong>solo da floresta<\/strong> \u2013 e n\u00e3o necessariamente as plantas da floresta. Esse aparente paradoxo pode ser mais bem entendido quando colocado em uma <strong>\u00f3tica evolutiva<\/strong>: a sele\u00e7\u00e3o natural favorece \u00e1rvores que maximizam a infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, que criam um solo rico em mat\u00e9ria org\u00e2nica e macroporos para beneficiar seu sucesso reprodutivo. Essa estrat\u00e9gia evolutiva n\u00e3o tem nada a ver com regular a vaz\u00e3o de rios ou beneficiar seres humanos e suas economias. Boa parte da \u00e1gua fica para as \u00e1rvores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>ANDR\u00c9ASSIAN, V. <em>Waters and forests: from historical controversy to scientific debate<\/em>. <strong>Journal of Hydrology<\/strong>, v. 291, n. 1\u20132, p. 1\u201327, 31 maio 2004.<\/p>\n<p>ELLISON, David; FUTTER, Martyn N.; BISHOP, Kevin. <em>On the forest cover-water yield debate: From demand- to supply-side thinking<\/em>. <strong>Global Change Biology<\/strong>, 2012.<\/p>\n<p>FILOSO, Solange et al. <em>Impacts of forest restoration on water yield: A systematic review<\/em>. <strong>PLoS ONE<\/strong>, 2017.<\/p>\n<p>JACKSON, Robert B. et al. <em>Trading Water for Carbon with Biological Carbon Sequestration<\/em>. <strong>Science<\/strong>, [s. l.], v. 310, p. 1944\u20131947, 2009. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/science.sciencemag.org\/&gt;<\/p>\n<p>MCCULLOCH, J. S. G.; ROBINSON, M. <em>History of forest hydrology<\/em>. <strong>Journal of Hydrology<\/strong>, v. 150, n. 2, p. 189\u2013216, 1993.<\/p>\n<p>NEARY, D. G.; ICE, G. G.; JACKSON, C. R. <em>Linkages between forest soils and water quality and quantity<\/em>. <strong>Forest Ecology and Management<\/strong>, v. 258, n. 10, p. 2269\u20132281, 30 out. 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Eng. Ambiental Ipor\u00e3 Brito Possantti, PPGRHSA, IPH\/UFRGS Um debate cient\u00edfico que permeou a hist\u00f3ria da hidrologia desde o seu surgimento e hoje ainda est\u00e1 presente em aplica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e pol\u00edticas orbita em torno do impacto de florestas sobre o regime hidrol\u00f3gico de bacias hidrogr\u00e1ficas. 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