{"id":2569,"date":"2021-06-07T17:11:25","date_gmt":"2021-06-07T20:11:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/?p=2569"},"modified":"2021-06-14T09:48:42","modified_gmt":"2021-06-14T12:48:42","slug":"economia-ecologica-o-basico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/2021\/06\/07\/economia-ecologica-o-basico\/","title":{"rendered":"Economia ecol\u00f3gica: o b\u00e1sico"},"content":{"rendered":"<p>por<strong> Ipor\u00e3 B. Possantti <\/strong>(1) e <strong>Guilherme F. Marques<\/strong> (2)<\/p>\n<p>Olhar para a \u00e1gua pelo \u00e2ngulo econ\u00f4mico \u00e9 essencial para a gest\u00e3o e planejamento de recursos h\u00eddricos. Mas ainda se percebem tabus na sociedade para falar sobre isso, como se a \u00e1gua n\u00e3o fosse um recurso escasso. O objetivo desse post \u00e9, assim, trazer conceitos fundamentais para futuras discuss\u00f5es sobre \u00e1gua e economia. E para isso precisamos falar sobre o b\u00e1sico da economia ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>(1) engenheiro ambiental, Mestre em Recursos H\u00eddricos e Saneamento Ambiental (IPH\/UFRGS); (2) professor do IPH\/UFRGS e coordenador do Grupo de Pesquisas em Planejamento e Gest\u00e3o de Recursos H\u00eddricos<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h2>Valorando a \u00e1gua<\/h2>\n<p>O relat\u00f3rio de 2021 das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a \u00c1gua apresentou como tema o <strong>valor da \u00e1gua<\/strong>. \u00c9 uma \u00f3tima leitura, que pode ser <a href=\"https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000375724\">acessada gratuitamente<\/a>.<\/p>\n<p>Olhar para a \u00e1gua pelo \u00e2ngulo econ\u00f4mico \u00e9 essencial para a gest\u00e3o e planejamento de recursos h\u00eddricos. Mas ainda se percebem tabus na sociedade para falar sobre isso, como se a \u00e1gua n\u00e3o fosse um <strong>recurso escasso<\/strong>.<\/p>\n<p>O objetivo desse post \u00e9, assim, trazer conceitos fundamentais para futuras discuss\u00f5es sobre \u00e1gua e economia. E para isso precisamos falar sobre o b\u00e1sico da <strong>economia ecol\u00f3gica<\/strong>.<\/p>\n<p>O texto cont\u00e9m muitos conceitos obtidos no livro <em>Ecological Economics<\/em> de Herman Daily e Joshua Farley (segunda edi\u00e7\u00e3o, 2011) que \u00e9 uma \u00f3tima refer\u00eancia da \u00e1rea. Como o texto tamb\u00e9m manifesta opini\u00e3o em certas passagens, \u00e9 preciso estabelecer que ele n\u00e3o reflete uma vis\u00e3o institucional da UFRGS nem do IPH. De qualquer sorte, estamos abertos para cr\u00edticas e coment\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Mas o que \u00e9 economia?<\/h2>\n<p>Economia \u00e9 uma disciplina que estuda a <strong>aloca\u00e7\u00e3o de recursos escassos entre fins alternativos<\/strong>. Podemos escolher, por exemplo, alocar a\u00e7o na fabrica\u00e7\u00e3o de tratores ou na fabrica\u00e7\u00e3o de tanques de guerra. Ou alocar \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o ou produ\u00e7\u00e3o de energia (como pode ser o caso hoje no Brasil!).<\/p>\n<p>Na verdade, economia tem muito a ver com <strong>escolhas<\/strong>. Nesse sentido, as tr\u00eas perguntas fundamentais para n\u00f3s, humanidade, s\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li>Quais s\u00e3o os objetivos finais que n\u00f3s desejamos?<\/li>\n<li>Quais recursos limitados precisamos para atingir esses objetivos?<\/li>\n<li>Quais objetivos recebem prioridade e qual \u00e9 o limite dessa prioridade?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Uma resposta poss\u00edvel para a primeira pergunta \u00e9: maximizar o <strong>bem-estar humano<\/strong>, ou \u201cutilidade\u201d. Assumindo que o bem-estar humano \u00e9 revelado por aquilo que indiv\u00edduos compram e vendem (<strong>valor de troca<\/strong>) e assumindo tamb\u00e9m que seres humanos s\u00e3o insaci\u00e1veis, o <em>crescimento<\/em> da produ\u00e7\u00e3o de bens e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os (<strong>fluxo de valor de troca<\/strong>) \u00e9 um bom indicador de que estamos marchando coletivamente em dire\u00e7\u00e3o ao nosso objetivo final. De fato, <strong>fluxo de valor de troca<\/strong> define o Produto Interno Bruto (PIB) de uma economia. Se o PIB aumenta de um ano para o outro, presume-se que foi um ano <em>bom<\/em>.<\/p>\n<p>Essa resposta e as premissas subjacentes s\u00e3o os fundamentos da <strong>escola neocl\u00e1ssica<\/strong> de economia. Essa escola parte do princ\u00edpio que nossos desejos s\u00e3o manifestados por transa\u00e7\u00f5es de mercado e que a maior parte dos recursos escassos s\u00e3o <em>mercadorias <\/em>(<em>market goods<\/em>, em ingl\u00eas). Assim, boa parte da aten\u00e7\u00e3o na escola neocl\u00e1ssica \u00e9 devotada para o mecanismo de aloca\u00e7\u00e3o de mercadorias: o <strong>mercado<\/strong>. Em certas condi\u00e7\u00f5es, o mercado soluciona (pelo <strong>sistema de pre\u00e7os<\/strong>) a aloca\u00e7\u00e3o de mercadorias de forma que <em>nenhuma mudan\u00e7a deixaria pelo menos algu\u00e9m melhor sem deixar outro pior<\/em>, situa\u00e7\u00e3o que se chama <strong>Pareto-eficiente<\/strong>.<\/p>\n<p>Em termos de escala nacional ou global, a escola neocl\u00e1ssica aposta em um <em>modelo macroecon\u00f4mico<\/em> estruturado em <strong>fam\u00edlias <\/strong>de um lado e <strong>empresas<\/strong> de outro. Esses dois agentes interagem de forma <em>virtuosa<\/em>, produzindo um <strong>fluxo circular de valor de troca <\/strong>que se <em>auto-refor\u00e7a<\/em>, resultando assim em uma espiral de <strong>crescimento econ\u00f4mico <\/strong>e, por consequ\u00eancia, de bem-estar (Figura 1 a).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Contexto hist\u00f3rico da economia ecol\u00f3gica<\/h2>\n<p>Os anos 60 e 70 foram marcados pelo auge da guerra fria, a corrida espacial e a revolu\u00e7\u00e3o cultural nos pa\u00edses ocidentais. Isso resultou na \u201cconsci\u00eancia planet\u00e1ria\u201d in\u00e9dita que hoje temos como garantida, mas que n\u00e3o existia at\u00e9 pouco tempo.<\/p>\n<p>Essa atmosfera cultural induziu certos economistas nos Estados Unidos a tentar incluir o meio ambiente no modelo econ\u00f4mico neocl\u00e1ssico. Mas foi a\u00ed que <strong>eles<\/strong> <strong>perceberam que o modelo neocl\u00e1ssico estava fundamentalmente errado<\/strong> e precisava ser profundamente reformado. Isso resultou na <strong>economia ecol\u00f3gica<\/strong>.<\/p>\n<p>A economia ecol\u00f3gica, assim, \u00e9 uma <em>ramifica\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/em> da economia neocl\u00e1ssica. Importante ressaltar: economia ecol\u00f3gica <strong>n\u00e3o \u00e9<\/strong> <em>ecossocialismo<\/em>. A economia ecol\u00f3gica reconhece o fato de que, sob determinadas condi\u00e7\u00f5es, <strong>o<\/strong> <strong>mercado \u00e9 o mecanismo mais eficiente para alocar <em>mercadorias<\/em><\/strong>. Ainda assim, ela refuta os fundamentos macroecon\u00f4micos da economia neocl\u00e1ssica e aponta para um caminho alternativo ao crescimento econ\u00f4mico: o <strong>desenvolvimento sustent\u00e1vel<\/strong>. Tamb\u00e9m veremos que ela converge para um aspecto comum ao ecossocialismo, pois n\u00e3o \u00e9 socialmente poss\u00edvel desenvolvimento sustent\u00e1vel sem a <em>redistribui\u00e7\u00e3o de renda<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Macroeconomia neocl\u00e1ssica e a f\u00edsica<\/h2>\n<p>O modelo macroecon\u00f4mico neocl\u00e1ssico est\u00e1 errado porque ele <strong>viola as leis da termodin\u00e2mica<\/strong>. Se voc\u00ea aceita essas leis, voc\u00ea precisa abrir m\u00e3o do modelo macroecon\u00f4mico neocl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>A f\u00edsica te\u00f3rica presume a exist\u00eancia de mat\u00e9ria e energia (ou as <em>cordas<\/em>) como os \u00fanicos componentes do universo, al\u00e9m do tecido estrutural das dimens\u00f5es espacial-temporais. E a primeira lei da termodin\u00e2mica diz o seguinte: <strong>mat\u00e9ria e energia se conservam<\/strong>. J\u00e1 a segunda lei da termodin\u00e2mica diz que <strong>mat\u00e9ria e energia tendem a se dissipar<\/strong>. Em outras palavras: tudo que existe tende a se dispersar de um estado ordenado (heterog\u00eaneo) em dire\u00e7\u00e3o a um estado desordenado (homog\u00eaneo). O universo \u00e9 um fen\u00f4meno dissipativo.<\/p>\n<p>Assim, ordem s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ser mantida <em>localmente<\/em>, \u00e0s expensas de fontes externas de <strong>energia livre<\/strong>. \u00c9 preciso trabalho para manter a ordem. Nessa perspectiva, podemos conceber o planeta como um <strong>sistema energeticamente aberto mas materialmente fechado<\/strong>.<\/p>\n<p>A primeira implica\u00e7\u00e3o disso para a economia \u00e9 que <strong>n\u00e3o existe crescimento material real<\/strong>, j\u00e1 que a mat\u00e9ria <em>se conserva<\/em>. O m\u00e1ximo que podemos fazer \u00e9 <em>reordenar<\/em> a mat\u00e9ria dispon\u00edvel do planeta <strong>\u00e0s custas de energia e<\/strong> <strong>de<\/strong> <strong>res\u00edduos<\/strong> dispersos no ambiente.<\/p>\n<p>A segunda implica\u00e7\u00e3o para a economia \u00e9 que <strong>n\u00e3o existe crescimento de bem-estar, <\/strong>j\u00e1 que mat\u00e9ria e energia s\u00e3o tudo que existe, nada al\u00e9m. O que chamamos de \u201cbem-estar\u201d \u00e9 na verdade um fen\u00f4meno psico-fisiol\u00f3gico atuando em sinapses no c\u00e9rebro (tanto que medicamentos analg\u00e9sicos e antidepressivos <em>funcionam<\/em>). Essa sensa\u00e7\u00e3o prazerosa de bem-estar n\u00e3o se acumula indefinidamente, mas apresenta picos de intensidade e logo desvanece, \u00e0 medida as subst\u00e2ncias estimulantes se dispersam e o c\u00e9rebro se ocupa pensando em outras coisas.<\/p>\n<p>Como bem coloca o historiador Yuval Harari, a resposta para o seu bem-estar pode estar na comida, nos exerc\u00edcios f\u00edsicos, nas rela\u00e7\u00f5es sociais, ou simplesmente na farm\u00e1cia. Esse pensador tamb\u00e9m sugere que um bem-estar mais sutil e perene tem a ver diretamente com a <em>fic\u00e7\u00e3o<\/em> que voc\u00ea confere para a sua trajet\u00f3ria de vida. Nenhuma dessas explica\u00e7\u00f5es baseadas na psicologia e na biof\u00edsica permitem \u201ccrescimento de bem-estar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A macroeconomia ecol\u00f3gica<\/h2>\n<p>Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 economia neocl\u00e1ssica, os fundamentos macroecon\u00f4micos da economia ecol\u00f3gica s\u00e3o baseados na f\u00edsica. No modelo ecol\u00f3gico, o sistema econ\u00f4mico, ou <strong>antroposfera<\/strong>, est\u00e1 <em>incrustado<\/em> na <strong>biosfera <\/strong>(Figura 1 b). A biosfera, por sua vez, \u00e9 um sistema material esf\u00e9rico e delgado que est\u00e1 confinado entre o manto e o topo da atmosfera. Em uma escala temporal humana, esse sistema \u00e9 fechado para a mat\u00e9ria mas aberto ao fluxo de energia livre solar e geot\u00e9rmica (entrada) e de calor (sa\u00edda).<\/p>\n<p>Para <em>manter<\/em> o <strong><em>estado<\/em> <em>de bem-estar<\/em><\/strong> psico-fisiol\u00f3gico de indiv\u00edduos, o sistema econ\u00f4mico converte materiais dispon\u00edveis na biosfera em <strong>bens e servi\u00e7os<\/strong>. Essa convers\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel \u00e0s custas de energia livre e da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o intencional de res\u00edduos materiais e calor. Esse \u00e9 o chamado <strong>fluxo de atravessamento<\/strong> (<em>throughput<\/em>, em ingl\u00eas), que quando aumenta em intensidade os economistas neocl\u00e1ssicos chamam de \u201ccrescimento econ\u00f4mico\u201d. Em oposi\u00e7\u00e3o ao virtuoso fluxo circular de valor de troca da economia neocl\u00e1ssica, esse fluxo \u00e9 <strong>material<\/strong>, <strong>linear <\/strong>e termina em <strong>res\u00edduos in\u00fateis<\/strong> dispersos na biosfera.<\/p>\n<p>Parte das estruturas dispon\u00edveis na biosfera s\u00e3o convertidas em <strong>capital antropog\u00eanico<\/strong>, isto \u00e9, estruturas capazes de produzir um <strong>fluxo de bens e servi\u00e7os<\/strong>. Essas estruturas est\u00e3o constantemente se dissipando pela a\u00e7\u00e3o da segunda lei (<strong>deprecia\u00e7\u00e3o<\/strong>) e precisam ser reparadas (<strong>manuten\u00e7\u00e3o<\/strong>) sob o custo de mais materiais e energia.<\/p>\n<p>Outra parte da biosfera nos proporciona bem-estar <em>diretamente<\/em>, o que faz dessas estruturas receberem o r\u00f3tulo de \u201c<strong>capital natural<\/strong>\u201d. Os bens e servi\u00e7os produzidos pelo capital natural recebem os r\u00f3tulos de \u201c<strong>recursos naturais<\/strong>\u201d e de \u201c<strong>servi\u00e7os ambientais<\/strong>\u201d. Algumas dessas estruturas s\u00e3o tidas como \u201c<strong>renov\u00e1veis<\/strong>\u201d por se autorrepararem contra a deprecia\u00e7\u00e3o (<em>autopoiese<\/em>) pelo consumo de energia solar, como os ecossistemas. Outras s\u00e3o ditas \u201c<strong>n\u00e3o-renov\u00e1veis<\/strong>\u201d por n\u00e3o serem autopo\u00e9ticas na escala temporal humana, como os combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<div id=\"attachment_2572\" style=\"width: 544px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1.png\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2572\" class=\"wp-image-2572\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-300x118.png\" alt=\"\" width=\"534\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-300x118.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1024x404.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-768x303.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1.png 1406w\" sizes=\"(max-width: 534px) 100vw, 534px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2572\" class=\"wp-caption-text\">Figura 1 | Diagramas esquem\u00e1ticos da macroeconomia neocl\u00e1ssica (a) e da macroeconomia ecol\u00f3gica (b).<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>N\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis na biosfera<\/h2>\n<p>Quando fazemos escolhas, precisamos sacrificar algo. Dizer \u201csim\u201d para um \u00e9 dizer \u201cn\u00e3o\u201d para muitos. Na economia isso se chama <strong>custo de oportunidade<\/strong>: a melhor alternativa sacrificada quando uma escolha \u00e9 feita.<\/p>\n<p>Se a primeira lei da termodin\u00e2mica \u00e9 v\u00e1lida, \u00e9 preciso <em>desmontar<\/em> a infraestrutura existente de capital natural para <em>construir<\/em> capital antropog\u00eanico. Isso resulta obrigatoriamente em um sacrif\u00edcio de bem-estar provido diretamente pelos recursos naturais e servi\u00e7os ambientais. A antroposfera s\u00f3 pode crescer <em>\u00e0s expensas<\/em> da biosfera. No jarg\u00e3o econ\u00f4mico: existe um <strong>custo de oportunidade para o crescimento econ\u00f4mico<\/strong>. Ou ainda: <em>n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis na biosfera<\/em>.<\/p>\n<p>E esse \u00e9 o cerne da economia ecol\u00f3gica: a <strong>macroeconomia possui uma escala \u00f3tima<\/strong>. A partir de certo ponto, o crescimento de capital antropog\u00eanico passa a ser<strong> antiecon\u00f4mico<\/strong> pois os benef\u00edcios econ\u00f4micos adicionais (ou <strong>marginais<\/strong>, no jarg\u00e3o econ\u00f4mico) ofertados n\u00e3o conseguem suplantar os custos de oportunidade adicionais decorrentes da perda de capital natural (Figura 2).<\/p>\n<div id=\"attachment_2573\" style=\"width: 589px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2.png\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2573\" class=\"wp-image-2573 \" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1024x482.png\" alt=\"\" width=\"579\" height=\"273\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1024x482.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-300x141.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-768x362.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2.png 1321w\" sizes=\"(max-width: 579px) 100vw, 579px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2573\" class=\"wp-caption-text\">Figura 2 | O problema da escala \u00f3tima da macroeconomia ecol\u00f3gica em termos de valor marginal.<\/p><\/div>\n<p>Para estimar o custo de oportunidade da expans\u00e3o do capital antropog\u00eanico \u00e9 preciso <strong>valorar<\/strong> o benef\u00edcio marginal do capital natural. Uma das primeiras estimativas globais para esse valor, feita por <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/229086194_The_Value_of_the_World%27s_Ecosystem_Services_and_Natural_Capital\">Costanza et al. (1997)<\/a>, foi de <strong>33 trilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano<\/strong>, que na \u00e9poca era cerca de duas vezes maior que o PIB global. Segundo os autores, foi uma estimativa <em>por baixo<\/em> em fun\u00e7\u00e3o das incertezas nos dados dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas sem a valora\u00e7\u00e3o podemos conceber o problema da escala macroecon\u00f4mica, em termos de <strong>bem-estar<\/strong> ou <strong>utilidade<\/strong>: o limite \u00f3timo do crescimento do capital antropog\u00eanico \u00e9 quando a sua utilidade marginal se iguala \u00e0 sua desutilidade marginal (Figura 3).<\/p>\n<div id=\"attachment_2574\" style=\"width: 589px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig3.png\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2574\" class=\"wp-image-2574 \" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig3-1024x735.png\" alt=\"\" width=\"579\" height=\"416\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig3-1024x735.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig3-300x215.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig3-768x551.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig3.png 1172w\" sizes=\"(max-width: 579px) 100vw, 579px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2574\" class=\"wp-caption-text\">Figura 3 | O problema da escala \u00f3tima da macroeconomia ecol\u00f3gica em termos de utilidade marginal.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Vazio ou cheio?<\/h2>\n<p>Se a macroeconomia tem escala \u00f3tima, a pergunta mais relevante que a economia ecol\u00f3gica busca responder \u00e9 se estamos perto de passar o limite da escala \u00f3tima, ou<strong> limite da sustentabilidade<\/strong>. \u00c9 uma pergunta relevante j\u00e1 que, se for confirmada, a\u00e7\u00f5es urgentes precisariam ser tomadas para reduzir os danos do colapso.<\/p>\n<p>Mas aqui as opini\u00f5es divergem. Por exemplo, existe a hip\u00f3tese de que o <strong>mundo \u00e9 vazio<\/strong>, e n\u00e3o <strong>lotado<\/strong> (detalhe <em>e<\/em> e <em>f<\/em> da Figura 3). Essa hip\u00f3tese otimista sustenta que ainda h\u00e1 muitos recursos naturais a serem explorados e a biosfera \u00e9 resiliente, vai suportar os impactos por muito mais tempo.<\/p>\n<p>Uma vers\u00e3o mais radical da hip\u00f3tese do mundo vazio defende que n\u00e3o h\u00e1 motivo para preocupa\u00e7\u00e3o, pois a <strong>inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica<\/strong> ir\u00e1 revelar formas in\u00e9ditas de acabar com a escassez de energia livre e isso permitir\u00e1 neutralizar os custos de oportunidade do crescimento de capital. Nessa linha, n\u00e3o existe o problema de esgotamento de recursos naturais, pois eles s\u00e3o tidos como perfeitamente<strong> substitu\u00edveis<\/strong> pela engenhosidade humana.<\/p>\n<p>De fato, segundo a <strong><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Kardashev_scale\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escala Kardashev<\/a><\/strong>, que mede a quantidade de energia de civiliza\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas hipot\u00e9ticas, civiliza\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas seriam capazes de consumir a energia de <em>estrelas inteiras<\/em>. Nessa escala, a humanidade estaria praticamente ainda na Idade da Pedra.<\/p>\n<p>Mas se \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio que a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nos reserva um futuro digno de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, onde est\u00e3o as <em>outras<\/em> civiliza\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas? Considerando a idade do universo (13 bilh\u00f5es de anos) e se a vida \u00e9 um fen\u00f4meno comum, a gal\u00e1xia deveria ser um lugar bem agitado. Mas n\u00e3o \u00e9. O sil\u00eancio do c\u00e9u talvez seja uma advert\u00eancia sinistra do destino ef\u00eamero das civiliza\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que j\u00e1 existiram em outros planetas. Por outro lado, se a vida \u00e9 rar\u00edssima no universo, ent\u00e3o n\u00e3o seria irracional desmontar a biosfera do \u00fanico planeta que abriga a vida? Essas perguntas profundamente objetivas consistem no chamado <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Fermi_paradox\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Paradoxo de Fermi<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Redistribui\u00e7\u00e3o de renda<\/h2>\n<p>Como dito antes, economia ecol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 ecossocialismo, pois reconhece o sistema de pre\u00e7os (mercado) como o mecanismo de aloca\u00e7\u00e3o mais adequado para mercadorias, como veremos adiante. Mas a economia ecol\u00f3gica converge com o ecossocialismo no sentido de que a desigualdade social precisa ser reduzida pela <strong>redistribui\u00e7\u00e3o de renda<\/strong>.<\/p>\n<p>Na escola econ\u00f4mica neocl\u00e1ssica, a solu\u00e7\u00e3o para acabar com a mis\u00e9ria e a pobreza humana \u00e9 inequ\u00edvoca: <em>mais crescimento econ\u00f4mico<\/em>. Segundo essa linha, n\u00e3o \u00e9 preciso interferir na estrutura social: basta <em>fazer o bolo crescer<\/em> que os mais pobres ter\u00e3o amanh\u00e3 uma fatia maior que hoje \u2013 ainda que o fatiamento continue sendo injusto. \u00c9 a chamada <strong>promessa da fatia maior<\/strong>. Quando funciona, poucos reclamam e muitos saem felizes. Quando n\u00e3o funciona, as tens\u00f5es sociais se acumulam, especialmente se a desigualdade social for muito grande.<\/p>\n<p>Mas se a macroeconomia tem uma escala \u00f3tima, cedo ou tarde o crescimento econ\u00f4mico dever\u00e1 encontrar o limite da sustentabilidade. Se formos capazes de identificar esse limite e resolvermos respeit\u00e1-lo, o que vamos prometer para os pobres? Pedir para aceitar a desigualdade social eterna? A \u00fanica sa\u00edda para esse dilema \u00e9 fatiar o bolo de forma justa. Por isso, a economia ecol\u00f3gica sustenta que <strong>o<\/strong> <strong>desenvolvimento sustent\u00e1vel s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a partir da redistribui\u00e7\u00e3o de renda<\/strong> e redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Mercado<\/h2>\n<p>O grande m\u00e9rito da economia neocl\u00e1ssica foi ter desvendado os princ\u00edpios de como mercados funcionam \u2013 os <strong>princ\u00edpios microecon\u00f4micos<\/strong>. Esse conhecimento \u00e9 preservado pela economia ecol\u00f3gica. A diferen\u00e7a, contudo, consiste no reconhecimento de que <em>mercadorias<\/em> s\u00e3o um subconjunto muito espec\u00edfico de recursos escassos.<\/p>\n<p>Mas <strong>o que \u00e9 um mercado? <\/strong>Um mercado \u00e9 <strong>um sistema espont\u00e2neo e descentralizado de comunica\u00e7\u00e3o e aloca\u00e7\u00e3o de recursos escassos entre consumidores e produtores<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 comum as not\u00edcias confundirem o conceito econ\u00f4mico \u201cpuro\u201d de mercado com o <em>mercado de a\u00e7\u00f5es<\/em>. Outra confus\u00e3o comum \u00e9 confundir o conceito \u201cpuro\u201d de mercado com <em>capitalismo<\/em> ou com <em>neoliberalismo<\/em>. \u00c9 fundamental acabar com essas confus\u00f5es.<\/p>\n<p>Consta que o com\u00e9rcio de mercadorias remonta \u00e0s origens do <em>homo sapiens<\/em> e floresceu em muitas as culturas pr\u00e9-industriais. \u00c9 claro que o com\u00e9rcio existente entre os ilh\u00e9us polin\u00e9sios que usavam pontas de flecha e porcos como moeda de troca n\u00e3o se equipara em complexidade com os mercados modernos, mas era um mercado incipiente.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m cria ou projeta um mercado, ele simplesmente acontece, basta existir uma <em>demanda<\/em>. O m\u00e1ximo que \u00e9 poss\u00edvel fazer \u00e9 melhorar as <em>condi\u00e7\u00f5es<\/em> para um mercado surgir. E ainda que seja poss\u00edvel <em>reprimir<\/em> um mercado, tudo indica que \u00e9 muito dif\u00edcil <em>suprimir<\/em> um mercado, mesmo que as mercadorias sejam ilegais ou consideradas tabus. Para um mercado efetivamente desaparecer, <strong>\u00e9 preciso que a demanda acabe<\/strong>, seja por uma mudan\u00e7a cultural ou por que o recurso simplesmente deixou de ser escasso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Efici\u00eancia e distor\u00e7\u00f5es de mercado&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/h2>\n<p>Mercados s\u00e3o o resultado de milhares de decis\u00f5es individuais, independentes e sem planejamento central. Da mesma forma que a sele\u00e7\u00e3o natural age cegamente e produz organismos adaptados, a \u201c<strong>m\u00e3o invis\u00edvel<\/strong>\u201d do mercado produz a aloca\u00e7\u00e3o eficiente de recursos escassos. Isso acontece porque o <strong>sistema de pre\u00e7os<\/strong> comunica a escassez do recurso no sistema, resultando em um <strong>pre\u00e7o de mercado<\/strong> que \u00e9 <strong>Pareto-eficiente<\/strong>, uma condi\u00e7\u00e3o em que nenhuma mudan\u00e7a deixaria pelo menos algu\u00e9m melhor sem deixar outro pior.<\/p>\n<p>Mas existem certas condi\u00e7\u00f5es para os mercados funcionarem com <em>efici\u00eancia de Pareto<\/em> e sem <em>distor\u00e7\u00f5es<\/em>. Essas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>Muitos produtores<\/strong>. Um mercado precisa ser <em>competitivo<\/em>, isto \u00e9, sem monop\u00f3lio. Os princ\u00edpios da microeconomia demonstram que sistema n\u00e3o produz pre\u00e7os de mercado sob a influ\u00eancia de produtores desproporcionalmente grandes (monopolistas).<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel a todos<\/strong><em>.<\/em> Um mercado precisa tamb\u00e9m ser um sistema de <em>comunica\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os <\/em>entre todos fornecedores e consumidores. Por exemplo, se o quadro da Monalisa for leiloado sem aviso pr\u00e9vio em Morungava, interior rural do Rio Grande do Sul, \u00e9 prov\u00e1vel que o maior lance seja muito abaixo do pre\u00e7o de mercado.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sem especuladores<\/strong>. O benef\u00edcio marginal das mercadorias precisa ser <em>decrescente<\/em> \u00e0 medida que os consumidores as acumulam, o que \u00e9 conhecido como o <strong>princ\u00edpio da utilidade marginal decrescente<\/strong>. Quando acumular mercadorias traz <em>cada vez mais benef\u00edcios<\/em>, surge uma bolha especulativa que distorce o mercado e desestabiliza o sistema de pre\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Sem propaganda<\/strong>. Propaganda visa a produ\u00e7\u00e3o subliminar de uma necessidade de bem-estar ou utilidade <em>que n\u00e3o existia antes<\/em> na mente de consumidores. Se propaganda fosse meramente informa\u00e7\u00e3o, o <strong><em>pre\u00e7o<\/em><\/strong> seria apresentado, o que geralmente n\u00e3o acontece. Considerando que um mercado objetiva alocar recursos escassos de forma eficiente, a propaganda distorce esse objetivo, pois o produtor n\u00e3o produz somente o recurso, <em>mas tamb\u00e9m a necessidade por ele<\/em>.<\/p>\n<p>Mercados s\u00e3o eficientes para alocar mercadorias somente quando todas essas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o satisfeitas. Mas poucos bens e servi\u00e7os ofertados pelo capital natural podem ser considerados <em>mercadorias<\/em>. E quando o s\u00e3o, mercados <em>n\u00e3o<\/em> s\u00e3o capazes de <strong>aloca\u00e7\u00e3o intergeracional<\/strong> de recursos naturais n\u00e3o-renov\u00e1veis, o que tamb\u00e9m \u00e9 uma distor\u00e7\u00e3o de mercado se considerarmos as <strong>futuras gera\u00e7\u00f5es<\/strong> como consumidores. Considere o que aconteceria nos pre\u00e7os de combust\u00edveis f\u00f3sseis se delega\u00e7\u00f5es vindas do futuro aparecessem para negociar conosco!&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A natureza dos recursos<\/h2>\n<p>Antes de continuar, algumas defini\u00e7\u00f5es conceituais sobre recursos se fazem necess\u00e1rias. Recursos podem ser classificados em dois tipos que diferem profundamente em sua natureza:<\/p>\n<ul>\n<li>Recursos tipo <strong>estoque-fluxo<\/strong>: s\u00e3o transformados materialmente naquilo que produzem. Podem ser armazenados para uso posterior e usados em virtualmente qualquer taxa de consumo. S\u00e3o esgot\u00e1veis. Exemplos: os gr\u00e3os em um silo (produzem farinha), o min\u00e9rio em um dep\u00f3sito (produzem metal), a madeira em uma floresta (produzem lenha).<\/li>\n<li>Recursos tipo <strong>fundo-servi\u00e7o<\/strong>: causam a transforma\u00e7\u00e3o de produtos sem serem transformados no processo. N\u00e3o podem ser armazenados para uso posterior e prov\u00eam servi\u00e7os em uma taxa definida. N\u00e3o s\u00e3o esgot\u00e1veis, mas se depreciam. Exemplos: o moinho de farinha, a fornalha metal\u00fargica, as \u00e1rvores da floresta.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O capital natural pode ser de um tipo ou de outro. <strong>Mas tamb\u00e9m pode ser ambos<\/strong>, como o exemplo da floresta. As florestas s\u00e3o um estoque-fluxo de madeira. Mas tamb\u00e9m s\u00e3o um fundo-servi\u00e7o de diversos servi\u00e7os ambientais. E aqui o problema da escala macroecon\u00f4mica se faz evidente: o benef\u00edcio econ\u00f4mico de desmontar a floresta vem junto com o custo de oportunidade dos servi\u00e7os ambientais sacrificados. As florestas s\u00e3o, felizmente, um sistema que se autorregenera com energia do sol (ecossistema), o que implica que podemos encontrar um <strong>fluxo sustent\u00e1vel<\/strong> de obten\u00e7\u00e3o de madeira sem abrir completamente m\u00e3o dos servi\u00e7os ambientais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Exclusividade e rivalidade<\/h2>\n<p>Recursos podem apresentar <strong>exclusividade<\/strong>. Na pr\u00e1tica isso significa <strong>direito \u00e0<\/strong> <strong>propriedade<\/strong>, que \u00e9 garantido por alguma <strong>institui\u00e7\u00e3o<\/strong>, como o <strong>Estado<\/strong>. Nada \u00e9 exclusivo na aus\u00eancia de uma institui\u00e7\u00e3o para garantir esse direito. Sem uma institui\u00e7\u00e3o garantidora, s\u00f3 resta ao possuidor do recurso desencorajar outros de n\u00e3o tom\u00e1-lo de si.<\/p>\n<p>Recursos tamb\u00e9m podem apresentar <strong>rivalidade<\/strong>. Ao contr\u00e1rio da exclusividade, que \u00e9 garantida por uma institui\u00e7\u00e3o, a rivalidade \u00e9 uma caracter\u00edstica f\u00edsica <em>intr\u00ednseca<\/em> de um recurso. O uso de um recurso rival por algu\u00e9m impede o uso desse recursos por outros. Tanto estoque-fluxos quanto fundos-servi\u00e7os podem ser rivais. Se uma padaria consome a farinha de um silo (um estoque-fluxo), ela impede outra padaria de fazer o mesmo. Se uma ind\u00fastria usa a atmosfera para diluir suas emiss\u00f5es (servi\u00e7o ambiental de dispers\u00e3o, um fundo-servi\u00e7o) ela impede outras ind\u00fastrias de fazer o mesmo (n\u00e3o com o mesmo ar!). &nbsp;<\/p>\n<p>Mas alguns recursos do tipo fundo-servi\u00e7o s\u00e3o<em> <strong>n\u00e3o-rivais<\/strong><\/em>: a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 um exemplo (um servi\u00e7o p\u00fablico), assim como a prote\u00e7\u00e3o oferecida pela camada de oz\u00f4nio (um servi\u00e7o ambiental). O consumo por um n\u00e3o impede o consumo por outro. Recursos n\u00e3o-rivais, apesar de <em>esgot\u00e1veis<\/em>, n\u00e3o s\u00e3o <em>aloc\u00e1veis<\/em> entre consumidores.<\/p>\n<p>Certos recursos s\u00e3o <strong>congestion\u00e1veis<\/strong>. Esses recursos oscilam rapidamente entre abund\u00e2ncia e escassez. Parques, estradas e praias p\u00fablicas s\u00e3o exemplos de recursos que aparentam ser n\u00e3o-rivais em condi\u00e7\u00f5es normais mas, \u00e0 medida que a intensidade de uso ou consumo aumenta, a rivalidade do recurso passa ser evidente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O problema do acesso livre<\/h2>\n<p>\u00c9 evidente que <strong>mercadorias precisam apresentar<\/strong> <strong>rivalidade<\/strong> <strong>e<\/strong> <strong>exclusividade<\/strong>. Ningu\u00e9m est\u00e1 interessado em fazer com\u00e9rcio de um recurso n\u00e3o-rival; e \u00e9 muito arriscado comprar ou vender bens sem a garantia do direito \u00e0 propriedade.<\/p>\n<p>Assim, <strong>o mercado n\u00e3o \u00e9 capaz de alocar recursos <em>n\u00e3o-exclusivos<\/em> ou <em>n\u00e3o-rivais<\/em><\/strong>. Tais recursos geralmente s\u00e3o rotulados como \u201c<strong>bens p\u00fablicos<\/strong>\u201d (<em>public goods<\/em>, em ingl\u00eas) ou \u201c<strong>bens comuns<\/strong>\u201d (<em>common goods<\/em>, em ingl\u00eas). Na verdade n\u00e3o s\u00e3o apenas bens mas tamb\u00e9m servi\u00e7os, o que sugere um r\u00f3tulo melhor, como \u201crecurso p\u00fablico\u201d ou \u201crecurso comum\u201d.<\/p>\n<p>Em um artigo seminal, Garret Hardin (1968) prop\u00f5e a ideia de que recursos comuns est\u00e3o destinados a um fim tr\u00e1gico pela sobrecarga de uso, j\u00e1 que indiv\u00edduos agem racionalmente mas por interesse pr\u00f3prio. Ele chamou isso de \u201c<em>A<\/em> <em>Trag\u00e9dia dos Comuns<\/em>\u201d. Essa proposi\u00e7\u00e3o implica que as decis\u00f5es individuais e descentralizadas n\u00e3o somente criam uma \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d eficiente que aloca mercadorias, mas tamb\u00e9m criam um \u201c<strong>p\u00e9 invis\u00edvel<\/strong>\u201d destrutivo que esgota os bens comuns.<\/p>\n<p>Esse problema \u00e9 melhor rotulado por \u201c<strong>problema do acesso livre<\/strong>\u201d, pois <em>propriedades comunais<\/em>, que pertencem n\u00e3o a um \u00fanico indiv\u00edduo mas a uma comunidade espec\u00edfica, geralmente possuem mecanismos para evitar esse problema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Evitando a trag\u00e9dia<\/h2>\n<p>Considerando um dado recurso comum, quais s\u00e3o as maneiras de evitar a trag\u00e9dia? Existem tr\u00eas maneiras alternativas, de acordo com Donella Meadows:<\/p>\n<p>A primeira delas \u00e9 <strong>privatizar<\/strong> o recurso comum. N\u00e3o queremos dizer aqui <em>monopolizar<\/em> o recurso, mas <em>parcelar<\/em> o recurso <em>entre<\/em> os consumidores. Nesse caso, o problema do acesso livre desaparece porque <em>n\u00e3o existe mais acesso livre<\/em>. \u00c9 como fazer o que Alexandre, o Grande, fez ao n\u00e3o conseguir desatar o complicado n\u00f3 G\u00f3rdio: frustrado, ele cortou o n\u00f3 com sua espada. Mas para existir exclusividade de uso (leia-se direito \u00e0 propriedade) \u00e9 necess\u00e1rio uma institui\u00e7\u00e3o para a garantir, como o Estado. Al\u00e9m disso, essa estrat\u00e9gia simplesmente n\u00e3o funciona para recursos comuns que s\u00e3o <em>n\u00e3o-rivais<\/em>.<\/p>\n<p>A segunda maneira \u00e9 <strong>regular<\/strong> o uso do recurso comum por uma institui\u00e7\u00e3o. O acesso continua livre, mas o abuso \u00e9 desencorajado pela <em>a\u00e7\u00e3o coercitiva <\/em>da institui\u00e7\u00e3o reguladora. \u00c9 o caso das propriedades comunais mencionadas anteriormente. \u00c9 o caso de bens p\u00fablicos n\u00e3o-rivais t\u00edpicos que vemos ao caminhar na rua. E <em>pode<\/em> ser o caso de certos recursos naturais e servi\u00e7os ambientais: basta que institui\u00e7\u00f5es reguladoras sejam criadas e mantidas por pol\u00edticas p\u00fablicas. \u00c9 aqui que habita o <strong>planejamento e gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos<\/strong>.<\/p>\n<p>A terceira alternativa, apontada por Meadows, \u00e9 <strong>educar<\/strong> os usu\u00e1rios para n\u00e3o abusar do recurso, ou seja, a serem <em>altru\u00edstas<\/em>. Se o respeito aos limites do recurso comum \u00e9 internalizado culturalmente, o abuso \u00e9 desencorajado por uma reflex\u00e3o moral na mente de cada consumidor. Essa estrat\u00e9gia dispensa, teoricamente, a presen\u00e7a de uma institui\u00e7\u00e3o, necess\u00e1rias nas outras. Na pr\u00e1tica, como a educa\u00e7\u00e3o precisa ser refor\u00e7ada continuamente, essa abordagem funciona mais como uma linha complementar \u00e0s outras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A promessa de um pr\u00f3spero decl\u00ednio<\/h2>\n<p>De acordo com a economia ecol\u00f3gica, o desenvolvimento sustent\u00e1vel promete para a humanidade a <strong><em>manuten\u00e7\u00e3o<\/em> do bem-estar humano de forma socialmente justa por alguns mil\u00eanios<\/strong>. N\u00e3o crescente, tampouco para sempre, pois nada cresce e nada \u00e9 para sempre. \u00c9 uma promessa bastante s\u00f3bria comparada com a promessa da escola neocl\u00e1ssica, que promete &#8220;crescimento sem limites de bem-estar humano&#8221;.<\/p>\n<p>Para isso acontecer, a antroposfera precisaria funcionar como um <strong>subsistema em estado estacion\u00e1rio<\/strong> (em ingl\u00eas, <em>SSSS: steady-state sub-system<\/em>). Nesse sistema, os servi\u00e7os ambientais seriam conservados na medida em que complementariam os bens e servi\u00e7os produzidos pelo capital antropog\u00eanico. A necess\u00e1ria <strong>manuten\u00e7\u00e3o do capital antropog\u00eanico<\/strong> seria vi\u00e1vel pelo consumo de recursos naturais em uma velocidade sustent\u00e1vel (no caso dos recursos renov\u00e1veis) ou em uma velocidade que permitiria a <strong>aloca\u00e7\u00e3o inter-geracional de longo prazo <\/strong>(no caso dos recursos n\u00e3o-renov\u00e1veis).<\/p>\n<p>A imagem final do desenvolvimento sustent\u00e1vel \u00e9 de que, ao longo de mil\u00eanios, certos recursos insubstitu\u00edveis (como o f\u00f3sforo dos solos, por exemplo) iriam ser lentamente esgotados, mas sem os colapsos catastr\u00f3ficos de um mundo lotado, violento e desconfort\u00e1vel. Enquanto isso, a humanidade teria bastante tempo para se <em>desenvolver<\/em> e amadurecer como esp\u00e9cie viva diante do universo. Nas palavras de Odum: <strong>um pr\u00f3spero decl\u00ednio.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Refer\u00eancias<\/h2>\n<p>Costanza, R., d&#8217;Arge, R., de Groot, R. et al. (1997). <strong>The value of the world&#8217;s ecosystem services and natural capital<\/strong>. Nature 387, 253\u2013260. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/387253a0\">https:\/\/doi.org\/10.1038\/387253a0<\/a><\/p>\n<p>Daily, H. &amp; Farley, J (2011). <strong>Ecological Economics <\/strong><strong>: principles and applications<\/strong>. 2nd ed. Island Press, Washington, 2011.<\/p>\n<p>Hardin, G. (1968). <strong>The Tragedy of the Commons<\/strong>. Science, 162, 1243-1248. http:\/\/dx.doi.org\/10.1126\/science.162.3859.1243&nbsp;<\/p>\n<p>Meadows, Donella H (2009). <strong>Thinking In Systems : a Primer<\/strong>. London ; Sterling, VA :Earthscan, 2009.<\/p>\n<p>Harari, Yuval N. ( 2015). <strong>Sapiens : a brief history of humankind<\/strong>. New York : Harper,<\/p>\n<p>Harari, Yuval N. (2019). <strong>21 Lessons for the 21st Century<\/strong>. London, England: Vintage.<\/p>\n<p>Odum, H., &amp; Odum E. C.. <strong>A Prosperous Way Down: Principles and Policies<\/strong>. Boulder, Colo: University Press of Colorado, 2001.<\/p>\n<p>Webb, Stephen (2015). <strong>If the universe is teeming with aliens &#8230; Where is everybody? Seventy-five solutions to the Fermi paradox and the problem of extraterrestrial life.<\/strong> 2 ed. Heidelberg : Springer, 434 p. (Science and Fiction &#8211; A Springer Series).<\/p>\n<p>Imagem de capa: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/photos\/Q1p7bh3SHj8\">https:\/\/unsplash.com\/photos\/Q1p7bh3SHj8<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ipor\u00e3 B. Possantti (1) e Guilherme F. Marques (2) Olhar para a \u00e1gua pelo \u00e2ngulo econ\u00f4mico \u00e9 essencial para a gest\u00e3o e planejamento de recursos h\u00eddricos. Mas ainda se percebem tabus na sociedade para falar sobre isso, como se a \u00e1gua n\u00e3o fosse um recurso escasso. O objetivo desse post \u00e9, assim, trazer conceitos<\/p><\/div>\n<div class=\"blog-btn\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/2021\/06\/07\/economia-ecologica-o-basico\/\" class=\"home-blog-btn\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2586,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[67,66,68,64,69,70,65],"class_list":["post-2569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conceitos","tag-crescimento-economico","tag-desenvolvimento-sustentavel","tag-economia","tag-economia-ecologica","tag-macroeconomia","tag-microeconomia","tag-valor-da-agua"],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/nasa-Q1p7bh3SHj8-unsplash-1-scaled.jpg",2560,1703,false],"thumbnail":["https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/nasa-Q1p7bh3SHj8-unsplash-1-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/nasa-Q1p7bh3SHj8-unsplash-1-300x200.jpg",300,200,true],"medium_large":["https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/nasa-Q1p7bh3SHj8-unsplash-1-768x511.jpg",696,463,true],"large":["https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/nasa-Q1p7bh3SHj8-unsplash-1-1024x681.jpg",696,463,true],"1536x1536":["https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/nasa-Q1p7bh3SHj8-unsplash-1-1536x1022.jpg",1536,1022,true],"2048x2048":["https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/nasa-Q1p7bh3SHj8-unsplash-1-2048x1363.jpg",2048,1363,true]},"uagb_author_info":{"display_name":"Ipor\u00e3 Possantti","author_link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/author\/ipora-possantti\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"por Ipor\u00e3 B. 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