{"id":2592,"date":"2021-06-08T16:59:14","date_gmt":"2021-06-08T19:59:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/?p=2592"},"modified":"2021-06-14T08:32:49","modified_gmt":"2021-06-14T11:32:49","slug":"a-crise-hidrica-e-a-nossa-capacidade-de-resposta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/2021\/06\/08\/a-crise-hidrica-e-a-nossa-capacidade-de-resposta\/","title":{"rendered":"A Crise H\u00eddrica e a nossa Capacidade de Resposta"},"content":{"rendered":"\n<p>por <strong>Guilherme Fernandes Marques <\/strong>(1) e <strong>Ana Paula Dalcin <\/strong>(2)<\/p>\n\n\n\n<p>As not\u00edcias recentes sobre a possibilidade de Perda do Controle Hidr\u00e1ulico na bacia do Paran\u00e1 e risco de restri\u00e7\u00f5es no atendimento energ\u00e9tico nos subsistemas Sul e Sudeste\/Centro-Oeste, indicam que estamos em um cen\u00e1rio excepcional. Mas afinal, o que transforma um cen\u00e1rio excepcional em uma crise h\u00eddrica?<br><br>Sistemas com balan\u00e7o h\u00eddrico desfavor\u00e1vel j\u00e1 s\u00e3o vulner\u00e1veis, e a combina\u00e7\u00e3o com baixos investimentos em infraestrutura e per\u00edodos de baixa precipita\u00e7\u00e3o podem resultar em crises. Neste contexto, a capacidade de resposta do sistema \u00e9 fundamental para dar \u00e0 sociedade capacidade de enfrentar eventos cr\u00edticos, que s\u00e3o inevit\u00e1veis.<br><br>Nesta postagem mostramos alguns elementos importantes neste processo, associados \u00e0 Gest\u00e3o de Recursos H\u00eddricos.<\/p>\n\n\n\n<p>(1) professor associado IPH\/UFRGS e coordenador do Grupo de Pesquisas em Planejamento e Gest\u00e3o de Recursos H\u00eddricos; <\/p>\n\n\n\n<p>(2) Engenheira Ambiental, Doutoranda em Recursos H\u00eddricos e Saneamento Ambiental (IPH\/UFRGS);<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">* * * <\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<h3><strong>Situa\u00e7\u00e3o atual<\/strong><\/h3>\n<p>Diversas not\u00edcias veiculadas pela m\u00eddia reportam o cen\u00e1rio cr\u00edtico de estiagem em v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil, que vem sendo acompanhado de perto pelo excelente Monitor de Secas da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA) (<a href=\"http:\/\/monitordesecas.ana.gov.br\/\">http:\/\/monitordesecas.ana.gov.br\/<\/a>). O Monitor informa a situa\u00e7\u00e3o atual (e n\u00e3o uma previs\u00e3o futura) e as cores no mapa classificam a <strong>intensidade<\/strong> da seca de forma <strong>relativa<\/strong> ao hist\u00f3rico de dados de cada esta\u00e7\u00e3o de monitoramento utilizada.<\/p>\n<p>Quanto mais escura a cor no mapa, mais distante a situa\u00e7\u00e3o atual se encontra do hist\u00f3rico de cada esta\u00e7\u00e3o. A cor mais escura, classificada como <strong>Seca Excepcional (S4), <\/strong>significa que os registros de monitoramento resultaram em valores que est\u00e3o entre os 2% mais secos do hist\u00f3rico observado para as esta\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o, enquanto a cor mais clara, classificada como <strong>Seca Fraca (S0)<\/strong> reflete registros cujos valores est\u00e3o entre os 30% mais secos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"722\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1-722x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2620\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1-722x1024.png 722w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1-212x300.png 212w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1-768x1089.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1-1084x1536.png 1084w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig1-1-1445x2048.png 1445w\" sizes=\"(max-width: 722px) 100vw, 722px\" \/><\/a><figcaption>&nbsp;<br>&nbsp;<br><strong>Figura 1. Acompanhamento do Monitor de Secas, ANA (<\/strong><a href=\"http:\/\/monitordesecas.ana.gov.br\/\"><strong>http:\/\/monitordesecas.ana.gov.br\/<\/strong><\/a><strong>)<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Outro aspecto importante \u00e9 que <strong>o Monitor reflete apenas a informa\u00e7\u00e3o f\u00edsica<\/strong>, a partir de dois indicadores meteorol\u00f3gicos (indicador padronizado de Precipita\u00e7\u00e3o \u2013 SPI, e indicador padronizado de precipita\u00e7\u00e3o-evapotranspira\u00e7\u00e3o \u2013 SPEI) e um indicador hidrol\u00f3gico (indicador padronizado de escoamento \u2013 SRI).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta abordagem deixa de fora outras informa\u00e7\u00f5es como o n\u00edvel dos reservat\u00f3rios e capacidade local de gerenciamento e resposta, que <strong>normalmente n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis nas v\u00e1rias regi\u00f5es brasileiras<\/strong>. Trataremos deste aspecto mais adiante neste texto.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quais os nexos do problema e as consequ\u00eancias?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Os reservat\u00f3rios de armazenamento s\u00e3o elementos chave em nosso parque de infraestrutura h\u00eddrica, pois nos d\u00e3o a capacidade de armazenar \u00e1gua para garantir energia nos per\u00edodos secos, bem como adequar a sua disponibilidade aos v\u00e1rios usos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, devido ao <strong>forte nexo \u00e1gua-energia-alimento que temos no Brasil<\/strong>, os desdobramentos de uma estiagem se refletem em diversos setores, especialmente naqueles que compartilham a mesma infraestrutura de armazenamento. Um nexo \u00e1gua-energia-alimento significa que utilizamos \u00e1gua para gerar energia e irrigar culturas, ao mesmo tempo em que tamb\u00e9m precisamos de energia para produzir \u00e1gua nos sistemas de abastecimento e alimento na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e agroindustrial.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica no Brasil (que responde por 64,9% da matriz el\u00e9trica, segundo balan\u00e7o em 2019) depende fortemente de como os reservat\u00f3rios do Sistema Interligado Nacional (SIN) s\u00e3o operados. Nesta opera\u00e7\u00e3o, <strong>onde volumes de \u00e1gua armazenados s\u00e3o tamb\u00e9m tratados como armazenamento de energia<\/strong>, busca-se uma solu\u00e7\u00e3o que permita <strong>gerar energia ao menor custo poss\u00edvel<\/strong>. Cabe ao Operador Nacional do Sistema (ONS) a coordena\u00e7\u00e3o e controle da opera\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de energia no SIN para otimizar a gera\u00e7\u00e3o em busca do menor custo.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, em um sistema onde 64,9% da eletricidade \u00e9 produzida via hidr\u00e1ulica, <strong>ter \u00e1gua armazenada \u00e9 um importante aspecto para manter o equil\u00edbrio da gera\u00e7\u00e3o e os custos reduzidos<\/strong>. \u00c9 curioso verificar que, embora outras fontes de gera\u00e7\u00e3o tenham custos menores que a pr\u00f3pria hidr\u00e1ulica (a gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica gerou a um custo de R$195\/MWh em 2019, enquanto a hidr\u00e1ulica gerou a R$280\/MWh, segundo a CEEE) a capacidade instalada atual da gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica \u00e9 insuficiente para cobrir a lacuna de gera\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, se n\u00e3o houver \u00e1gua armazenada).<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, na medida em que <strong>os reservat\u00f3rios devem atender aos usos m\u00faltiplos da \u00e1gua<\/strong>, conforme preconiza a Pol\u00edtica Nacional de Recursos H\u00eddricos (PNRH), temos um problema de ordem gerencial e operacional a resolver.&nbsp; Por um lado, os avisos do ONS sobre a <strong>Perda do Controle Hidra\u00falico <\/strong>na bacia do Paran\u00e1 no segundo semestre de 2021 mostram que, se mantidas as deflu\u00eancias atuais dos reservat\u00f3rios, os mesmos n\u00e3o ter\u00e3o armazenamento suficiente para gerar energia no 2\u00ba segundo semestre. Estes avisos foram formalizados em Nota T\u00e9cnica encaminhada pelo ONS no Of\u00edcio n\u00ba 13\/2021 do CMSE, \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas e Saneamento B\u00e1sico \u2013 ANA.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, este aspecto tem <strong>tr\u00eas desdobramentos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Um primeiro \u00e9 o risco de d\u00e9ficit na gera\u00e7\u00e3o de energia. Em resposta ao cen\u00e1rio de pouca chuva e baixas vaz\u00f5es, o ONS j\u00e1 havia avaliado e proposto medidas de aumento na disponibilidade de energia desde 2020, incluindo autoriza\u00e7\u00e3o para aumento na gera\u00e7\u00e3o termel\u00e9trica e articula\u00e7\u00e3o com outros \u00f3rg\u00e3os (ANA, ANEEL, MME e \u00f3rg\u00e3os ambientais) para flexibilizar as regras de libera\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e preservar as condi\u00e7\u00f5es de armazenamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Um segundo envolve o aumento na gera\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica. Este aumento permitiu uma redu\u00e7\u00e3o na gera\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica e economia da \u00e1gua armazenada nos reservat\u00f3rios j\u00e1 em janeiro de 2021 na bacia do Paran\u00e1. Desta forma, o objetivo foi aproveitar ao m\u00e1ximo o per\u00edodo \u00famido para enfrentar o per\u00edodo de estiagem de 2021. Um <strong><em>tradeoff<\/em><\/strong> (perdas e ganhos) desta opera\u00e7\u00e3o foi o aumento nos custos de gera\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da entrada das termel\u00e9tricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um terceiro envolve a flexibiliza\u00e7\u00e3o mencionada. Reservat\u00f3rios operam seguindo <strong>restri\u00e7\u00f5es operativas <\/strong>que determinam, dentre outros aspectos, o m\u00ednimo de \u00e1gua a ser liberada para atender a demandas de jusante (por exemplo, manter o calado para navega\u00e7\u00e3o, preservar a ictiofauna, ou o n\u00edvel de \u00e1gua necess\u00e1rio para que estruturas de capta\u00e7\u00e3o de abastecimento de \u00e1gua possam operar). <strong>Estas restri\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o definidas pelo ONS<\/strong>, mas sim por \u00f3rg\u00e3os gestores e operadores dos reservat\u00f3rios ao avaliar as condi\u00e7\u00f5es de jusante. O ONS entretanto aplica as restri\u00e7\u00f5es como condi\u00e7\u00f5es de contorno para definir a melhor forma de operar todo o sistema e gerar energia com o menor custo. Tamb\u00e9m temos aqui um <strong><em>tradeoff<\/em><\/strong><em>. <\/em>Reduzir as vaz\u00f5es m\u00ednimas pode trazer impactos para usu\u00e1rios de jusante, dentre estes as demandas ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>A Nota T\u00e9cnica do ONS \u00e0 ANA informou que<strong> a \u00e1gua poupada nos reservat\u00f3rios em fun\u00e7\u00e3o do aumento na gera\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica n\u00e3o foi suficiente para recuperar satisfatoriamente os n\u00edveis nos mesmos<\/strong>. Na avalia\u00e7\u00e3o do ONS, os reservat\u00f3rios deste sistema passaram pela terceira pior sequ\u00eancia hidrol\u00f3gica no intervalo maio-setembro do hist\u00f3rico de dados. Os mapas do monitor de secas da ANA na Figura 1 corroboram esta avalia\u00e7\u00e3o, com manchas de criticidade de seca variando de grave \u00e0 excepcional sobre a bacia do Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado foi uma previs\u00e3o de <strong>Perda do Controle Hidr\u00e1ulico<\/strong> em alguns reservat\u00f3rios na bacia do Paran\u00e1, trazendo consigo o risco de restri\u00e7\u00f5es no atendimento energ\u00e9tico nos subsistemas Sul e Sudeste\/Centro-Oeste. <strong>Para evitar este cen\u00e1rio, o ONS prop\u00f4s um conjunto adicional de recomenda\u00e7\u00f5es, com flexibiliza\u00e7\u00e3o de outras regras operacionais em reservat\u00f3rios do sistema<\/strong>, buscando manter armazenamento de \u00e1gua suficiente para garantir a gera\u00e7\u00e3o. A Figura 2 ilustra, de forma simplificada, os principais elementos da cadeia causal deste contexto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"388\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1-1024x388.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2622\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1-1024x388.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1-300x114.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1-768x291.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1-1536x582.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fig2-1.png 1578w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption><strong>Figura 2. Cadeia do problema e os <em>tradeoffs<\/em> (perdas e ganhos)<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quais os componentes de uma crise e como responder?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Todo o contexto apresentado, e as decis\u00f5es j\u00e1 tomadas, indicam que estamos em uma condi\u00e7\u00e3o excepcional. <strong>Mas afinal, o que transforma uma condi\u00e7\u00e3o excepcional em uma crise h\u00eddrica?<\/strong> Em seu <strong>Relat\u00f3rio de Conjuntura<\/strong>, a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas aponta que sistemas h\u00eddricos com balan\u00e7o h\u00eddrico desfavor\u00e1vel j\u00e1 s\u00e3o vulner\u00e1veis, e a combina\u00e7\u00e3o desta caracter\u00edstica com baixos investimentos em infraestrutura h\u00eddrica (especialmente em sistemas produtores de \u00e1gua) e per\u00edodos de baixa precipita\u00e7\u00e3o podem resultar em crises.<\/p>\n\n\n\n<p>A<strong> capacidade de resposta do sistema<\/strong> \u00e9 fundamental para dar \u00e0 sociedade mais alternativas de enfrentamento aos eventos cr\u00edticos, que s\u00e3o inevit\u00e1veis. Quanto maior a capacidade de resposta, menores os riscos, menores os <em>tradeoffs<\/em> da Figura 2, e menores os impactos da crise sobre as pessoas e o meio ambiente. <strong>A capacidade de resposta<\/strong> depende da infraestrutura h\u00eddrica, das informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis e do <strong>desenvolvimento do sistema de gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade de resposta depende tamb\u00e9m da prote\u00e7\u00e3o dos sistemas naturais, respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e de diversos outros servi\u00e7os que o meio ambiente nos fornece. <strong>A integra\u00e7\u00e3o da infraestrutura tradicional com o meio ambiente, na forma de Solu\u00e7\u00f5es Baseadas na Natureza (SbN) \u00e9 uma forma de melhor a nossa capacidade de resposta neste aspecto<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Resposta Institucional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como exemplo de resposta para lidar com eventos hidrol\u00f3gicos cr\u00edticos, a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas criou Salas de Crise e Salas de Acompanhamento. A opera\u00e7\u00e3o destas salas \u00e9 feita por reuni\u00f5es em videoconfer\u00eancia, onde atores envolvidos dialogam para identificar solu\u00e7\u00f5es para prevenir ou mitigar eventos cr\u00edticos, como secas e cheias. Dentre estas, a Sala de Crise do S\u00e3o Francisco discutiu e redefiniu novas restri\u00e7\u00f5es operativas reduzindo as vaz\u00f5es liberadas no reservat\u00f3rio de Sobradinho durante a estiagem a partir de 2012, permitindo manter n\u00edveis de armazenamento suficientes para a gera\u00e7\u00e3o futura de energia. Este trabalho tamb\u00e9m permitiu identificar os pontos cr\u00edticos \u00e0 jusante afetados pelos n\u00edveis mais baixos de \u00e1gua no rio e definir estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o, evitando que as capta\u00e7\u00f5es fossem afetadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe destacar que <strong>por tr\u00e1s da opera\u00e7\u00e3o de um instrumento como uma Sala de Crise existe todo um arcabou\u00e7o de gest\u00e3o<\/strong> que vai da coleta e processamento de dados hidrometeorol\u00f3gicos aos sistemas de informa\u00e7\u00e3o, passando pelo engajamento dos usu\u00e1rios em Comit\u00eas de Bacia, defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas h\u00eddricas e implementa\u00e7\u00e3o de instrumentos de gest\u00e3o, que d\u00e3o suporte \u00e0s decis\u00f5es tomadas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Resposta \u00e0 Crise ou Resposta ao risco?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Muitas crises h\u00eddricas s\u00e3o desencadeadas por eventos cr\u00edticos de precipita\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida em que as demandas aumentam, bacias s\u00e3o conectadas com obras de transposi\u00e7\u00e3o e temos que atender a usos m\u00faltiplos, com nexos entre si, <strong>os sistemas h\u00eddricos se tornam mais complexos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tornar sistemas complexos mais bem preparados para os pr\u00f3ximos eventos cr\u00edticos <strong>depende da evolu\u00e7\u00e3o em nossa capacidade de aprendizado e resposta. <\/strong>Esta evolu\u00e7\u00e3o deve ser constante e \u00e9 fundamental para evitar que os pr\u00f3ximos eventos cr\u00edticos se transformem em crises severas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a capacidade de resposta da sociedade envolve n\u00e3o apenas aquilo que fazemos durante a crise, mas sobretudo antes da mesma. <strong>Antes da crise devemos implementar medidas de adapta\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o, prepara\u00e7\u00e3o, previs\u00e3o e alerta<\/strong>, a partir do aprendizado na \u00faltima crise. Estas s\u00e3o as medidas que dar\u00e3o \u00e0 sociedade a capacidade de gerir os riscos. Quanto melhor a gest\u00e3o dos riscos, menores os impactos da crise e menos complexa, e cara, \u00e9 a gest\u00e3o da crise. Durante a crise avaliamos o impacto, disparamos medidas de recupera\u00e7\u00e3o, reconstru\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o do aprendizado p\u00f3s-crise: o que deu certo? O que falhou? Quais os principais gargalos? O que deve ser modificado antes do pr\u00f3ximo evento cr\u00edtico?<\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto importante \u00e9 que a tomada de algumas decis\u00f5es em momentos de crise \u00e9 sempre mais complexa politicamente. A sociedade encontra-se sob uma situa\u00e7\u00e3o de estresses m\u00faltiplos (riscos de desabastecimento de \u00e1gua, racionamento de energia e aumento nas contas) e as necessidades das pessoas em tempos de estresse h\u00eddrico mudam (Walker et al, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto do problema atual de seca, destacamos os tr\u00eas pilares de prepara\u00e7\u00e3o e resposta apresentados em Gutierrez at al. (2014) e citados no excelente trabalho de Martins et al (2019):<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>Monitoramento, previs\u00e3o e alerta precoce<ol><li>Definir um plano de seca<\/li><li>Definir \u00edndices e indicadores associados aos impactos<\/li><li>Definir os gatilhos de a\u00e7\u00e3o<\/li><li>Definir qual o desenvolvimento e produ\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, bem como ferramentas de suporte \u00e0 decis\u00e3o<\/li><\/ol><\/li><li>Vulnerabilidade\/resili\u00eancia e avalia\u00e7\u00e3o de impactos<ol><li>Identificar quem est\u00e1 em risco e por que<\/li><li>Monitorar os impactos para melhor caracterizar a seca<\/li><\/ol><\/li><li>Mitiga\u00e7\u00e3o e planejamento da resposta e medidas<ol><li>Definir programas pr\u00e9-seca e a\u00e7\u00f5es de curto e longo prazo para redu\u00e7\u00e3o de riscos<\/li><li>Definir programas de resposta operacional e negocia\u00e7\u00e3o para quando a seca iniciar<\/li><li>Definir programas de rede de seguran\u00e7a social, pesquisa e extens\u00e3o<\/li><\/ol><\/li><\/ol>\n\n\n\n<p><strong><em>Caminhos para o futuro \u2013 A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na forma como nos relacionamos com o meio ambiente<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No contexto brasileiro como um todo, \u00e9 importante que instrumentos como o Monitor de Seca sejam bem apropriados pelos sistemas de gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos e evoluam para incorporar outras camadas de informa\u00e7\u00e3o como n\u00edveis de armazenamento de \u00e1gua e capacidade local e operacional de resposta. <strong>Este aspecto tornaria a implementa\u00e7\u00e3o de medidas de ajuste operacional durante a crise, como aquelas aqui discutidas, mais org\u00e2nicas ao sistema, emprestando mais agilidade \u00e0 nossa capacidade de reposta<\/strong>. Um exemplo de mudan\u00e7as nesse sentido foi feito com a mudan\u00e7a nas regras de opera\u00e7\u00e3o do Para\u00edba do Sul, que passaram a incorporar n\u00edveis intermedi\u00e1rios no sistema de opera\u00e7\u00e3o dos reservat\u00f3rios, para que as vaz\u00f5es liberadas pudessem ser alteradas seguindo a regra j\u00e1 definida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Finalmente, eventos de crise h\u00eddrica sempre suscitam discuss\u00e3o sobre impactos ambientais e a condi\u00e7\u00e3o de sistemas ambientais j\u00e1 comprometidos<\/strong>. Afinal, quando falta \u00e1gua para o ser humano, normalmente o meio ambiente \u00e9 o primeiro a ceder espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, n\u00e3o devemos ter uma dicotomia entre preservar e gerar energia (ou outros usos quaisquer). Se avan\u00e7armos com o conhecimento sobre o meio e sua rela\u00e7\u00e3o com as atividades do ser humano, sermos capazes de desenhar solu\u00e7\u00f5es capazes de integrar a opera\u00e7\u00e3o da infraestrutura existente com os sistemas naturais, utilizando conceitos como o das Solu\u00e7\u00f5es Baseadas na Natureza, dentre outras. Aqui, precisamos pensar a longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o caminho que contribui para reverter e mitigar impactos nos ecossistemas, tornando-os menos fragilizados e mais resilientes. <strong>Quando mais resilientes os sistemas naturais, mais alternativas teremos durante as crises h\u00eddricas, e melhor a nossa capacidade de resposta.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Refer\u00eancias<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Banco Mundial. Monitor de Secas do Nordeste, em busca de um novo paradigma para a gest\u00e3o&nbsp;de secas \u2013 1a Edi\u00e7\u00e3o \u2013 Bras\u00edlia \u2013 2015 ISBN: 124p. ISBN 978-85-88192-16-4. I &#8211; Autores: Eduardo S\u00e1vio P.R. Martins, Erwin De Nys, Carmen Molej\u00f3n, Bruno Biazeto, Robson Franklin Vieira Silva e Nathan Engle.<\/p>\n\n\n\n<p>Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (Brasil). Conjuntura dos recursos h\u00eddricos no Brasil 2017:&nbsp;relat\u00f3rio pleno \/ Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas. &#8212; Bras\u00edlia: ANA, 2017. 169p. : iI.<\/p>\n\n\n\n<p>Walker, W.E.; Loucks, D.P.; Carr, G. Social Responses to Water Management Decisions. Environ. Process. (2015) 2:485\u2013509. DOI 10.1007\/s40710-015-0083-5<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong><a href=\"http:\/\/monitordesecas.ana.gov.br\/\">http:\/\/monitordesecas.ana.gov.br\/<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Guilherme Fernandes Marques (1) e Ana Paula Dalcin (2) As not\u00edcias recentes sobre a possibilidade de Perda do Controle Hidr\u00e1ulico na bacia do Paran\u00e1 e risco de restri\u00e7\u00f5es no atendimento energ\u00e9tico nos subsistemas Sul e Sudeste\/Centro-Oeste, indicam que estamos em um cen\u00e1rio excepcional. 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