{"id":2730,"date":"2023-09-06T17:32:50","date_gmt":"2023-09-06T20:32:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/?p=2730"},"modified":"2023-09-07T11:47:06","modified_gmt":"2023-09-07T14:47:06","slug":"o-recado-que-as-cheias-nos-trazem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gespla\/2023\/09\/06\/o-recado-que-as-cheias-nos-trazem\/","title":{"rendered":"O (duro) recado que as cheias nos trazem"},"content":{"rendered":"\n<p>por Ipor\u00e3 Possantti\u00b9 e Guilherme Marques\u00b2<\/p>\n\n\n\n<p>O inverno de 2023, um ano de El Ni\u00f1o pronunciado, trouxe consigo chuvas intensas que desencadearam diversas cat\u00e1strofes naturais no Rio Grande do Sul. A \u00faltima delas ocorreu no dia 4 de Setembro, resultando em 27 v\u00edtimas fatais confirmadas at\u00e9 o momento. Com isso, a natureza nos traz um duro recado: <strong>n\u00e3o podemos mais ignorar a maneira como lidamos com o risco e a incerteza clim\u00e1tica e hidrol\u00f3gica para criar solu\u00e7\u00f5es que v\u00e3o proteger recursos materiais e, acima de tudo, vidas humanas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><!--more--><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A incerteza da natureza<\/h3>\n\n\n\n<p>No caso do evento ocorrido em 4 de Setembro, os danos causados foram mais acentuados na \u00e1rea da escarpa da Serra Geral, uma paisagem com vales de rios profundamente encaixados na topografia, como o vale do Rio Taquari-Antas. A combina\u00e7\u00e3o de montanhas \u00edngremes, vales profundos e clima \u00famido \u00e9 sabidamente perigosa, resultando em respostas dos rios muito r\u00e1pidas aos eventos de chuva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, o escoamento dos rios surpreendeu pela sua magnitude extrema. Por exemplo, a barragem Castro Alves verteu uma vaz\u00e3o que <strong>excedeu a recorr\u00eancia estimada para 10 mil anos<\/strong>, conforme reportado pela opera\u00e7\u00e3o da barragem. Em uma cena impactante, uma imponente ponte hist\u00f3rica foi completamente varrida pelas \u00e1guas do Rio das Antas. Esse valor de 10 mil anos significa uma probabilidade muito baixa (de 0.01%) de esse evento ocorrer em um ano qualquer. Ou seja, se estima que esse tipo de evento ocorreria em m\u00e9dia a cada 10 mil anos. S\u00f3 que esse j\u00e1 \u00e9 o terceiro evento clim\u00e1tico extremo do ano. Onde est\u00e1 o problema?<\/p>\n\n\n\n<p>A estimativa desse risco n\u00e3o est\u00e1 tecnicamente errada. O problema \u00e9 que ela se baseia na <strong>suposi\u00e7\u00e3o de que as informa\u00e7\u00f5es que temos sobre o passado s\u00e3o suficientes para prever o futuro<\/strong>. Essa suposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 profundamente arraigada pela no\u00e7\u00e3o de ordem natural. Mas em um mundo <strong>din\u00e2mico<\/strong>, essa suposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 trar\u00e1 resultados desastrosos, especialmente diante das atividades que usam de recursos naturais (ex: \u00e1gua e solo), modificam o meio (ex: estradas e barragens) ou promovem a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o (ex: uso de plan\u00edcies de inunda\u00e7\u00e3o). A <strong>incerteza<\/strong> imposta pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos obriga a abandonar essa suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mas o que \u00e9 incerteza?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A incerteza ocorre quando n\u00e3o podemos estabelecer com exatid\u00e3o um resultado, um fato, um enunciado. Ela se manifesta tanto pela <strong>falta de informa\u00e7\u00f5es precisas e confi\u00e1veis<\/strong>, quanto pelo <strong>desconhecimento<\/strong> dos processos envolvidos. Ou seja, a incerteza apresenta outras facetas que precisamos aprender a reconhecer para al\u00e9m dos dados que temos acesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica, como o projeto de uma ponte sobre um rio, n\u00e3o se pode prever com exatid\u00e3o a altura m\u00e1xima que a \u00e1gua poder\u00e1 alcan\u00e7ar. Essa incerteza traz consigo um risco quando decis\u00f5es importantes, como a constru\u00e7\u00e3o da ponte, s\u00e3o tomadas. Para lidar com essa incerteza e minimizar esse risco, as equipes de engenharia buscam obter informa\u00e7\u00f5es mais abrangentes e confi\u00e1veis, aprofundam seu conhecimento sobre os processos envolvidos e implementam medidas de seguran\u00e7a adicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, <strong>aquilo que \u00e9 desconhecido n\u00e3o pode ser quantificado como risco<\/strong>. No contexto das chuvas e dos rios, ainda n\u00e3o compreendemos completamente todos os processos, especialmente aqueles relacionados \u00e0 circula\u00e7\u00e3o da \u00e1gua na atmosfera. A resposta hidrol\u00f3gica dos solos tamb\u00e9m \u00e9 fortemente condicionada pelos eventos anteriores de chuva e tempo seco, e isso acontece de uma forma n\u00e3o intuitiva. Para completar, frequentemente enfrentamos a car\u00eancia de dados confi\u00e1veis sobre esses processos. Reconhecer isso imp\u00f5e a necessidade de um novo paradigma para a engenharia moderna e para a tomada de decis\u00f5es relacionadas ao uso da \u00e1gua e das \u00e1reas sujeitas a inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O que fazer ent\u00e3o?<\/h3>\n\n\n\n<p>A nova abordagem, al\u00e9m de reconhecer a insufici\u00eancia das informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, deve pensar solu\u00e7\u00f5es em termos de <strong>robustez<\/strong>. Esse conceito consiste na capacidade de um sistema (ex: uma cidade) permanecer inabalado diante das grandes perturba\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e hidrol\u00f3gicas. A robustez se desenvolve n\u00e3o somente ao se <strong>resistir<\/strong> aos efeitos negativos causados pelos desastres, mas principalmente ao se <strong>evitar a exposi\u00e7\u00e3o ao perigo<\/strong>. Resistir implica sustentar um sistema eficiente de redu\u00e7\u00e3o de danos que atue antes, durante e ap\u00f3s a crise. Evitar o perigo, por outro lado, \u00e9 muito mais dif\u00edcil, pois envolve tanto remover a exposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 consolidada quanto permanecer vigilante para que novas exposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam criadas, mesmo que isso custe caro.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, devem ser pensadas op\u00e7\u00f5es que ofere\u00e7am maior <strong>flexibilidade<\/strong> e escolhas para a popula\u00e7\u00e3o. Isso significa afastar-se das abordagens convencionais, que se concentram em estruturas r\u00edgidas, como diques e barragens. Essas estruturas s\u00e3o projetadas com base em riscos quantific\u00e1veis, o que limita sua efic\u00e1cia a longo prazo, uma vez que n\u00e3o podemos prever todas as incertezas futuras. Em contrapartida, abordagens mais <strong>adapt\u00e1veis<\/strong> incluem medidas como a delimita\u00e7\u00e3o de zonas de inunda\u00e7\u00e3o, ajustes nos Planos Diretores para reduzir a vulnerabilidade das edifica\u00e7\u00f5es e das pessoas em \u00e1reas inund\u00e1veis, bem como a implementa\u00e7\u00e3o de sistemas de alerta hidrol\u00f3gico para melhorar a capacidade de resposta da sociedade a eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma linha auxiliar, mas imprescind\u00edvel, \u00e9 importante adotar m\u00e9todos avan\u00e7ados de planejamento e gest\u00e3o que combinem an\u00e1lise de decis\u00e3o, planejamento baseado em cen\u00e1rios e modelagem explorat\u00f3ria. Esses m\u00e9todos utilizam simula\u00e7\u00f5es computadorizadas que permitem testar diferentes estrat\u00e9gias em uma ampla gama de cen\u00e1rios poss\u00edveis para o futuro. Isso ajuda na <strong>identifica\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios cr\u00edticos<\/strong> para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e estrat\u00e9gias que sejam robustas. Por exemplo, o que aconteceria se todas as piores chuvas j\u00e1 observadas na s\u00e9rie hist\u00f3rica ocorressem ao mesmo tempo no vale do Rio Taquari, ap\u00f3s um inverno excepcionalmente \u00famido? Talvez nessa avalia\u00e7\u00e3o de \u201cpior cen\u00e1rio poss\u00edvel\u201d nos mostraria exatamente o que estamos presenciando em 2023.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Em resumo:<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>A natureza \u00e9 din\u00e2mica, em constante mudan\u00e7a;<\/strong><\/li><li><strong>N\u00e3o podemos confiar apenas no passado para prever o futuro;<\/strong><\/li><li><strong>A incerteza inclui facetas desconhecidas n\u00e3o quantific\u00e1veis como risco;<\/strong><\/li><li><strong>Novas solu\u00e7\u00f5es devem visar a robustez dos sistemas;<\/strong><\/li><li><strong>Solu\u00e7\u00f5es robustas precisam ser descobertas via an\u00e1lise de um grande universo de possibilidades<\/strong>;<\/li><li><strong>M\u00e9todos avan\u00e7ados podem identificar cen\u00e1rios cr\u00edticos.<\/strong><\/li><\/ul>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" id=\"block-e339c95d-9729-4b77-928f-11539ffce850\"><li>Ipor\u00e3 Possantti \u00e9 doutorando no PPG Recursos H\u00eddricos e Saneamento Ambiental (IPH\/UFRGS);<\/li><li>Guilherme Marques \u00e9 professor do Instituto de Pesquisas Hidr\u00e1ulicas da UFRGS<\/li><\/ol>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Foto de capa: Maur\u00edcio Tonetto\/Secom<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Herman, J. D., Reed, P. M., Zeff, H. B., &amp; Characklis, G. W. (2015). How should robustness be defined for water systems planning under change?.&nbsp;<i>Journal of Water Resources Planning and Management<\/i>,&nbsp;<i>141<\/i>(10), 04015012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ipor\u00e3 Possantti\u00b9 e Guilherme Marques\u00b2 O inverno de 2023, um ano de El Ni\u00f1o pronunciado, trouxe consigo chuvas intensas que desencadearam diversas cat\u00e1strofes naturais no Rio Grande do Sul. A \u00faltima delas ocorreu no dia 4 de Setembro, resultando em 27 v\u00edtimas fatais confirmadas at\u00e9 o momento. 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