Fase I – 2013-2015

A primeira fase da pesquisa em rede (2013-2015), envolveu onze grupos de pesquisa, de dez universidades e centros de pesquisa, em três países: Brasil, França e Argentina. Esta fase teve financiamento do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (National Counsel of Technological and Scientific Development), do Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil. O objetivo desta fase foi alargar as bases epistemológicas da descrição dos processos criativos, visto a expansão dessa prática entre artistas e estudiosos da cena nos últimos anos. O trabalho investigativo partiu de uma preocupação crescente no campo das Artes Cênicas no Brasil, na França e na Argentina, países em que se desenvolveu a pesquisa: como descrever os processos de criação em práticas performativas? Problematizou-se os limites, os desafios e as possibilidades do ato de descrever como ferramenta da pesquisa, quando esse está empenhado em apreender os aspectos efêmeros das práticas performativas. Como resultado, tratou-se de descrever esse movimento, entre um estado no qual os artistas não estão aptos a realizar uma performance e outro, diametralmente longe no tempo desse primeiro, no qual podem realizar a performance programada. O que acontece no entre, no espaço-tempo entre não conhecer e conhecer, entre não possuir no corpo a possibilidade de performar e o espetáculo propriamente dito? É isso que a descrição procura apreender. É aí que nos deparamos com um conjunto significativo de questões difíceis de serem circunscritas. Antes de nos perguntarmos o que é o processo criativo, pergunta deveras estranha e impossível de responder, perguntamos: como descrever o processo criativo? A partir dessa questão inicial emerge toda sorte de impasses, dúvidas e limitações que a própria linguagem oferece à tarefa de descrever o indescritível, de descrever algo que é efêmero, descrever o movimento, descrever o inapreensível, o processo, o devir. Assim, esta pesquisa em rede parte da premissa de que a linguagem não pode dar conta da tarefa a que nos propomos – descrever o processo criativo –, pois ela própria não abarca a presença, a intensidade da vida. Ela torna linear e simplificada a complexidade do vivo. Além disso, o processo é, ele mesmo, estranho à limitação do tempo e do espaço. Observamos ensaios, mas o processo de criação se dá para além do ensaio, para além da sala de trabalho. Os artistas, praticantes, atores e diretores criam ou estão em estado de criação, em tempos e espaços que não podem ser apreendidos pelo observador, sequer pelo próprio artista. Não obstante essas limitações, o processo de criação não é afeito ao efeito fotográfico, ao registro, ele é demasiadamente vivo e, ainda, por demais coletivo. Não se trata de descrever o percurso de uma pessoa, tampouco de uma ideia, de um momento, mas de uma rede complexa de relações, impossíveis de serem definitivamente apreendidas. Podemos usar a descrição do processo criativo como um registro que objetiva a remontagem do espetáculo. Mas nossa preocupação maior é conectada com a pesquisa e com a noção de que talvez possamos imaginar a descrição como um texto que recupera os efeitos performativos da performance. Assim, o que precisamos para descrever? Como podemos descrever um processo criativo, recuperando seu poder de ato? Pode o texto ser performativo como a prática performativa? Pode o texto causar no leitor efeitos semelhantes aos efeitos de presença das práticas performativas? A partir de tais questões, empreendeu-se três fases de pesquisa. Na primeira, os pesquisadores e pesquisadoras envolvidos (as) elaboraram diferentes modos de descrição do processo de criação. Na segunda, concebeu-se uma análise coletiva das descrições, em que se procurou ponderar sobre a questão da escrita e da performatividade do texto como modo de aproximação do processo de criação. Essa análise foi empreendida a partir da questão: o que não é possível descrever quando descrevemos o processo de criação em práticas performativas? Na terceira e última fase, a rede de pesquisadores formalizou em textos os resultados dessas análises. Esses resultados foram publicados sob a forma de um livro, intitulado Descrever o Inapreensível: performance, pesquisa e pedagogia. Com efeito, a pesquisa pôde fazer avançar alguns conceitos que tínhamos sobre a descrição dos processos de criação. Dentre eles, os mais importantes são: a problematização dos modos de escrita e das lacunas entre o processo vivo (e efêmero) e a comunicação do ocorrido como um procedimento performativo; o caráter formativo da descrição, configurando no ato de descrever um modo de criar, para além de recriar o ato performático; e, por fim, o estudo da autoridade do texto escrito para o leitor, revelando os modos pelos quais a função-autor assume para o leitor uma função-criação.