Sobre

As ações coletivas – ou seja, a mobilização e coordenação de esforços de indivíduos e grupos em torno de interesses e objetivos compartilhados – constituem importantes processos na conformação da vida social em todas as épocas. Os processos de mobilização e organização social não são, porém, efeitos automáticos ou resultados necessários de condições compartilhadas, privações coletivas ou constrições estruturais. Desta forma, é fundamental, do ponto de vista analítico, considerar os mecanismos que produzem os processos de ação coletiva, percebendo como tais processos são ativados e mantidos e quais as suas conseqüências.

Baseado nestas considerações, o Grupo de Pesquisa Associativismo, Contestação e Engajamento tem com objetivo desenvolver uma agenda de pesquisa em torno das seguintes indagações: 1) Como explicar a emergência e a sustentação dos processos de ação coletiva e de associação? 2) A partir de quais problemas e processos as práticas associativas assumem um caráter/sentido contestador? 3) Quais os efeitos ou resultados que as práticas de associação e contestação produzem e como podemos entender esses efeitos em termos de mudanças culturais, políticas, econômicas e sociais? 4) Por que indivíduos se engajam em processos associativos e em ações de contestação e quais as decorrências disso para suas vidas?

Tais questionamentos são frutos do amadurecimento do campo de estudos sobre ações coletivas nas últimas décadas, especialmente aquelas que conformam processos de contestação social e política, o qual permitiu relacionar diferentes objetos de investigação e perspectivas teóricas, tais como: as pesquisas sobre associativismo e sociedade civil; as teorias sobre movimentos sociais e contestação; e os estudos sobre engajamento e militantismo.

Além dessas influências mais amplas, no Brasil, este campo de estudos sobre a ação coletiva também é tributário da literatura sobre movimentos sociais produzida a partir de meados dos anos 70 e durante os anos 80. Estas pesquisas refletiram sobre a emergência dos movimentos sociais urbanos, dos movimentos sociais rurais e dos novos movimentos sociais, investigando aspectos relativos à constituição destes enquanto sujeitos políticos, suas identidades, autonomia e representações. Várias dessas análises sobre movimentos sociais os apreendiam como novos atores políticos, organizados fora dos limites da estrutura de produção e dos canais tradicionais de participação política. De uma forma geral, nestes estudos, os movimentos sociais assumiram o papel de agentes da redemocratização do país numa conjuntura ainda autoritária e repressiva.

Nos anos de 1990, a reflexão sobre associativismo e movimentos sociais passou a ser feita, prioritariamente, a partir da categoria de sociedade civil. Este conceito passou a ser largamente utilizado nas ciências sociais, buscando dar conta das distintas formas de organização presentes na sociedade, tanto aquelas que adotavam um perfil mais contestatório em relação ao Estado, como aquelas que adotavam um perfil cooperativo. De toda forma, a sociedade civil passou a significar o conjunto de atores sociais que sustentaria o processo de redemocratização do país.

Ao final dos anos 90 e início dos anos 2000, no entanto, percebe-se um crescente movimento de crítica às insuficiências analíticas do modelo da sociedade civil. Entre as críticas feitas a este modelo destaca-se, de um lado, a forte carga normativa associada ao conceito de sociedade civil, a qual limitava a possibilidade de problematização dos processos empíricos e a apreensão de características e dinâmicas destes processos que se afastavam daquelas prescrições normativas. De outro lado, questionam-se as lacunas desta perspectiva em termos de instrumentos teórico-metodológicos para a análise dos processos de construção e atuação dos atores constitutivos da sociedade civil. Em relação a este aspecto, observa-se uma forte crítica à visão dicotômica e maniqueísta da relação entre sociedade civil e Estado, que impedia uma análise consistente dos condicionamentos político-institucionais dos processos associativos.

Dessa forma, o Grupo de Pesquisa Associativismo, Contestação e Engajamento (GPACE), formado em 2009, através do diálogo com as diversas perspectivas teóricas sobre os processos de associação, contestação e engajamento, pretende elaborar perspectivas de análise adequadas à realidade brasileira e que abordem processos de organização e mobilização social em sua relação com os condicionantes político-institucionais (nacionais e internacionais), atentando para os repertórios de ação, as estruturas de mobilização e as molduras interpretativas que os constituem.

As pesquisas que estão sendo desenvolvidas neste momento pelos integrantes do GPACE concentram-se em quatro eixos temáticos: processos de engajamento e carreiras militantes; relações entre contextos /dinâmicas político-institucionais e ação coletiva; dinâmicas simbólicas, interpretativas e culturais da mobilização social; e impacto de novas tecnologias da informação e comunicação na ação coletiva.