Seguindo a publicação revisões semióticas acerca dos temas estudados pelos pesquisadores integrantes do grupo, contamos agora com a curadoria de Taís Severo, no dossiê Introdução ao Trans Studies.
• KESSLER, Suzanne; McKENNA, Wendy. Gender: An Ethnomethodological Approach. Chicago: The University of Chicago Press, 1985.
Nesta obra originalmente publicada em 1978, as autoras desafiam o sexo como categoria imutável e percebida como realidade objetiva para enquadrá-lo como uma construção social determinada pelo gênero — e não o contrário, como no modelo desenvolvido a partir do final dos anos 1960, onde o binômio sexo/gênero significava biologia e cultura, respectivamente. Ao utilizar a transexualidade como base de suas teorias, vários pontos levantados pela obra seriam definitivos para o discurso dos Trans Studies: definir sexo como espectro, ao invés de um sistema dual binário e estanque; reconhecer a importância da atribuição e designação do gênero no nascimento; e demonstrar como a produção da inteligibilidade do gênero em sociedade, reproduzido pela busca da passabilidade das pessoas trans, é marca comum à todos os indivíduos em sociedade.
• BOSWELL, Holly. The transgender alternative. Chrysalis Quarterly, v. 1, n. 2, 1991, pp. 29-31. Disponível em <http://dallasdenny.com/Chrysalis/2013/12/14/cq-flashback-1991/>.
O ensaio de Boswell analisa as características de transexuais e crossdressers/drag queens, posicionando-as em opostos de um espectro de variação do gênero e propondo o “transgenerismo” como um meio termo. Embora nesta época a palavra transgênero já fosse utilizada como um guarda-chuva para as diversas identidades gênero-divergentes, a autora propõe seu uso também para indicar as pessoas trans que sentem-se confortáveis no meio do caminho entre as transexualidades e as travestilidades, definindo cirurgias ou hormônios como meramente opcionais ao invés de requerimentos para a legitimidade de uma transição de gênero.
• STONE, Sandy. The Empire Strikes Back: A posttranssexual manifesto. Camera Obscura, v. 10, n. 2, 1992. pp. 150-176. Disponível em <https://sandystone.com/ empire-strikes-back.pdf>.
Ao contrapor de forma veemente as críticas transfóbicas de Janice Raymond em The Transsexual Empire (1978) — a obra fundadora da vertente antitransgênero do feminismo radical — e a patologização de Harry Benjamin em The Transsexual Phenomenon (1966), Sandy Stone gerou o manifesto que impulsionaria a criação dos Trans Studies. Originalmente publicado em 1988, Stone, à época orientanda de Donna Haraway, defende que a identidade transexual é válida e verdadeira, e não pode ser automaticamente enquadrada como fruto de conspiração misógina, delírio psicológico ou defeito congênito. A autora ainda clama a população trans à visibilidade voluntária e à ação política através da reapropriação das diferenças e do enquadramento enquanto minoria político-social oprimida.
• FEINBERG, Leslie. Stone Butch Blues. New York: Firebrand Books, 1993.
Considerado um clássico da literatura queer, a novela de Feinberg é um marco essencial na história das transmasculinidades e das identidades não-binárias, expandindo e individualizando-as diante do feminismo lésbico. O autor enfatiza a persistência história das pessoas trans como grupo sob forte controle e perseguição, e retrata as experiências de homofobia, heteronormatividade e transfobia nos anos 1970. Tratando também de questões de raça e classe, a obra exerceu grande influência não apenas sobre o ativismo trans e os Trans Studies, mas também sobre a Teoria Queer.
• STRYKER, Susan. My Words to Victor Frankenstein above the Village of Chamounix: Performing Transgender Rage. GLQ, v. 1, n. 3, 1994, pp. 237–254. Disponível em <https://doi.org/10.1215/10642684-1-3-237>.
A relação entre pessoas trans e o monstro de Frankenstein surgiu pela primeira vez em Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism (1975), de Mary Daly. No capítulo Boundary Violation and the Frankenstein Phenomenon, Daly caracteriza mulheres transexuais como homens que estupram a identidade feminina e promovem uma invasão necrofílica dos espaços feministas. Quase vinte anos depois, Stryker responde não apenas a Daly, mas também ao manifesto pós-transexual de Sandy Stone — conectando a abjeção em Kristeva, a interpolação em Althusser e a performatividade em Butler para indicar que as pessoas trans situam-se fora da “ordem natural”, sendo este um local de potência, narração, ação e fala. À época, o texto motivou outros autores dos trans studies a assumir a reflexividade em suas produções e a legitimidade de suas experiências.
• BORNSTEIN, Kate. Gender Outlaw: On Men, Women, and the Rest of Us. New York: Routledge, 1994.
Mesclando narrativa autobiográfica e estudos de gênero, o livro de Bornstein é marcado pela completa dissociação do modelo patologizante das identidades trans, e pela ênfase na visão do gênero como fluida e fora do sistema de categorias do gênero. Sendo assim, a autora se coloca contra a visão da transexualidade enquanto binária, e posiciona a identidade transgênero dentro das esferas da individualidade e da livre expressão.
• DEVOR, Aaron. FTM: Female-to-Male Transsexuals in Society. Bloomington: Indiana University Press, 1997. Disponível em <https://www.jstor.org/stable/j.ctt2005v5h>.
Os estudos sobre as transmasculinidades emergiram com atraso em relação às transfeminilidades. Nesta pesquisa com 45 homens trans, Devor investiga as granularidades e complexidades destes indivíduos, relatando experiências que até então eram pouco conhecidas na academia. Em mais de 700 páginas, o autor explora detalhadamente o histórico da transexualidade, os processos de aquisição do gênero, e as trajetórias desde as disforias da infância à vida adulta pós-transição.
• PROSSER, Jay. Second Skins: The Body Narratives of Transsexuality. New York: Columbia University Press, 1998.
Prosser faz uma crítica à análise pós-estruturalista e à teoria psicanalítica que Judith Butler traz em Gender Trouble (1990) e Bodies that Matter (1993). Para o autor, mais do que um modelo psicológico, a identidade transexual se dá no plano físico, através do que nomeia como body ego (ego do corpo), e nas narrativas autobiográficas que conferem inteligibilidade a estas pessoas. A centralidade da obra se encontra nos efeitos da disforia de gênero, e nas transições que esta causa, apontando diferenças e especificidades do indivíduo transexual diante da identidade transgênero — e personificando estes sujeitos em contraposição ao uso de suas identidades como mero exemplo da performatividade na Teoria Queer.
• FAUSTO-STERLING, Anne. Sexing the Body: Gender Politics and the Construction of Sexuality. New York: Basic Books, 2000.
Fausto-Sterling, pesquisadora da interface entre a biologia e os estudos de gênero, é frequentemente citada nos trans studies. Nesta obra, a autora analisa o conhecimento científico sobre a aquisição do gênero: da anatomia à química do corpo e do cérebro, indica que a história, a cultura, os relacionamentos, a psique, o organismo e as células são lugares apropriados para estudar a formação e os sentidos da sexualidade e do gênero — ou seja, apontando que os componentes biológicos e culturais são indissociáveis. Para Fausto-Sterling, tanto a crítica feminista quanto a biologia molecular são instrumentos complementares para entender a identidade de gênero.
• COLAPINTO, John. As Nature Made Him: The Boy Who Was Raised as a Girl. New York: HarperCollins, 2000.
O livro conta a história de David Reimer, que teve seus genitais destruídos quando bebê e foi criado como uma menina sob supervisão de John Money — o psicólogo que definiu a separação entre gênero e sexo nos anos 1960, descrevendo o gênero como incompleto e maleável até os dois anos de idade. Apesar de Money ter publicado artigos indicando o sucesso da adaptação, a redesignação foi um fracasso, e David faria a transição para homem na adolescência. Parte biografia, parte entrevista, a história de Reimer causou grande impacto; tanto para fortalecer o argumento de que o gênero é um componente inato da personalidade, quanto para provocar mudanças no tratamento clínico de crianças intersexo, que frequentemente inclui cirurgias de redesignação nos primeiros meses de vida.
• MEYEROWITZ, Joanne. How Sex Changed: A History of Transsexuality in the United States. Cambridge: Harvard University Press, 2002.
Meyerowitz percorre detalhadamente o histórico da formação conceitual da transexualidade, com foco no desenvolvimento da patologização e na construção dos mitos narrativos norte-americanos que influenciaram o tema em todo ocidente. Partindo da tipificação rudimentar inicial por Magnus Hirschfeld no início do século XX e de personagens significativas como Lili Elbe e Christine Jorgensen, a autora acompanha a evolução do conceito de gênero, avalia a erotização na imprensa e na literatura pulp, e analisa os ativismos queer e os feminismos da virada do milênio.
• KOYAMA, Emi. The Transfeminist Manifesto. In: DICKER, Rory.; PIEPMEIER, Alison (eds.). Catching a Wave: Reclaiming Feminism for the Twenty-First Century. Boston: Northeastern University Press, 2003. Disponível em <https://eminism.org/readings/ pdf-rdg/tfmanifesto.pdf>.
Embora o ativismo trans já existisse há décadas, apenas em 2001 o transfeminismo estabeleceu-se no léxico dos movimentos. O manifesto de Koyama prioriza coalizões entre grupos diversos, afirmando buscar a liberdade de pessoas trans tanto quanto a liberação de todas a mulheres e pessoas queer. A autora ainda conclama mulheres trans a examinarem a internalização da heteronormatividade e das formas hegemônicas de expressão masculina e feminina, e compara a exclusão de mulheres trans ao racismo, afirmando que a discriminação causada por uma trajetória de vida incomum implica que a solidariedade feminista exige uma experiência compartilhada monolítica.
• HEYES, Cressida. Feminist Solidarity after Queer Theory: The Case of Transgender. Signs, v. 28, n. 4, 2003, pp. 1093-1120. Disponível em <https://www.journals.uchicago.edu/ doi/pdf/10.1086/343132>
Neste artigo, Heyes define e critica as bases do feminismo radical antitransgênero: objetificação, homogeneização, negação de agência e voluntariedade, e outrificação. Para a autora, tais enquadramentos demonstram a incapacidade de questionar a própria identidade, e reforçam a disciplina rígida do dimorfismo do sexo e gênero, enfatizando um ideal normativo do corpo. O reconhecimento de um campo político comum ao feminismo e ao transfeminismo, aceitando as diferentes experiências, significa, portanto, a formação de alianças e a solidariedade entre os grupos.
• BUTLER, Judith. Undoing Gender. New York: Routledge, 2004.
Publicado mais de uma década após Gender Trouble (1990), Butler atualiza seu tratamento teórico do gênero à luz dos ativismos gênero-divergentes — transgênero, transexual e intersexo. Nesta obra, Butler dá ênfase aos modos como o indivíduo pode ser visto como ininteligível, ou menos humano, a partir da erosão dos gêneros binários prevalentes. Considerando as tensões entre a Teoria Queer e os ativismos trans, a autora revê sua visão sobre as performances drag e ressalta os conflitos políticos internos que emergem da patologização da condição trans.
• SERANO, Julia. Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity. 2 ed. New York: Seal Press, 2016.
Publicado originalmente em 2007, e revisado e expandido em 2016, o livro de Serano investiga os aspectos específicos da misoginia contra mulheres trans, que chama de transmisoginia, para entender os processos de preconceito e discriminação sofridos por este grupo. A autora desconstrói as narrativas hegemônicas sobre as mulheres trans na academia, na medicina e na mídia, explorando os tópicos da objetificação, exclusão, apagamento, mistificação e, principalmente, sexualização — destacando a desvalorização da feminilidade como um valor-chave na manutenção do sexismo. Serano ainda oferece sua teoria da variação de gênero: o modelo de inclinações intrínsecas, onde a modulação de fatores biológicos e sociais define a identidade de gênero, a orientação sexual, e a expressão de gênero próprias de cada pessoa.
• BETTCHER, Talia Mae. Evil Deceivers and Make Believers. Hypatia, v. 22, n. 3, 2007, pp. 43-65. Disponível em <https://www.jstor.org/stable/4640081>.
As pesquisas de Bettcher investigam, a partir da filosofia, como os modelos normativos do sistema sexo/gênero provocam paradoxos e double binds que inevitavelmente resultam nas pessoas trans como falsas ou ilegítimas. Neste artigo, a autora examina o estereótipo de que pessoas trans buscam enganar a sociedade sobre quem são, rompendo a norma onde a apresentação do gênero tem relação direta e implica determinada configuração genital. Além disso, demonstra como tanto a narrativa do corpo errado (que implica um gênero inato em um corpo inadequado) como o modelo além do binário (que acusa o binarismo como indesejado e artificial) são problemáticos e causam opressão autofágica dentro dos ativismos trans.
• PRECIADO, Paul. Testo Yonqui. Madrid:España Calpe, 2008.
Analisando a biopolítica de uma era farmacopornográfica, Preciado questiona o que constitui um homem ou mulher “reais” no século XXI — uma vez que a biologia, maleável a partir da farmacologia, não é mais destino. Ao indicar que as indústrias farmacêutica e da pornografia agem criando desejos a favor da manutenção do capitalismo, Preciado conclui que o gender hacking, ou as micromanipulações do corpo, produzem novas possibilidades para uma revolução contra as ficções do gênero e como resistência contra o binário hegemônico.