in: Cinema Brasileiro Moderno, São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006
“[…] quando a nossa atenção se volta para o processo que envolveu o Cinema Novo e o Cinema Marginal, entre final da década de 1950 e meados dos anos 1970, tal processo se apresenta como dotado de uma peculiar unidade. Foi, sem dúvida, o período estética e intelectualmente mais denso do cinema brasileiro. As polêmicas da época formaram o que se percebe hoje como um movimento plural de estilos e ideias que, a exemplo de outras cinematografias, produziu aqui a convergência entre a ‘política dos autores’, os filmes de baixo orçamento e a renovação da linguagem, traços que marcam o cinema moderno, por oposição ao clássico e mais plenamente industrial.” (XAVIER, Ismail. Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006, p. 14)
“Falar em cinema moderno remete a uma pluralidade de tendências, mas tomo aqui como baliza as experiências que podem, primeiro, ser referidas à formação do estilo moderno no sentido de André Bazin – este que envolve a referência a Renoir, a Welles e ao neo-realismo. E podem ser referidas, em segundo lugar, a Antonioni, Pasolini e Rossi, à Nouvelle-Vague e Resnais, a Cassavetes e Gutierrez Alea, entre outras figuras de tal cinema em seu momento mais canônico. Falo, portanto, da sintonia e contemporaneidade do Cinema Novo e do Cinema Marginal com os debates da crítica e com os filmes dos realizadores que, tomando a prática do cinema como instância de reflexão e crítica, empenharam-se, em diferentes regiões do mundo, na criação de estilos originais que tensionaram e vitalizaram a cultura.” (XAVIER, Ismail. Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006, p. 14-15)
“Para o proto-Cinema Novo de Nelson Pereira dos Santos, em Rio 40 Graus (1954) e Rio Zona Norte (1957), e de Roberto Santos, em O Grande Momento (1958), o diálogo maior foi com o neo-realismo e a comédia popular brasileira; para Glauber Rocha, Ruy Guerra, Joaquim Pedro, Leon Hirzman, Carlos Diegues, Paulo Cesar Saraceni, Arnaldo Jabor e David Neves, valeu, a par da diferença de estilos, aquela incorporação da câmera na mão no cinema de ficção, traço técnico-estilístico fundamental para a constituição da dramaturgia do cinema moderno latino-americano, tal como o foi, em alguns casos, na Europa, especialmente no cinema de Godard e Pasolini.” (XAVIER, Ismail. Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006, p. 16)

Ismail Xavier
“Se a questão do realismo foi central no cinema de um Leon Hirzman ou de um Luiz Sérgio Person, a alegoria e a descontinuidade marcaram o cinema de Glauber, autor que inventou o seu próprio cinema feito de instabilidades, tateios de câmera e falas solenes, com sua mise-en-scène composta de rituais observados por um olhar de filme documentário. Por diferentes caminhos, o cinema brasileiro trabalhou as tensões entre a ordem narrativa e uma rica plástica das imagens, fazendo ‘sentir a câmera’ como era próprio a um estilo que questionava a transparência das imagens e o equilíbrio da decupagem clássica.” (XAVIER, Ismail. Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006, p. 16-17)
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