e se prepara para apresentar uma análise de LOST no Congresso da ABES:
http://digitalistas.blogspot.com/2010/04/huellas-en-las-playas-de-brasil-hacia.html
Arquivo do Autor: GPESC
DVD: as últimas entrevistas de Flusser
Post para divulgar o lançamento do DVD “We Shall Survive in the Memory of Others”, produzido pela Universität der Künste Berlin e pela Fundação C3 de Cultura e Comunicação de Budapeste. O DVD reúne algumas das últimas entrevistas e palestras que Flusser deu antes de falecer, e contém legendas em várias línguas, inclusive português. Fiz a tradução para o português e César Baio, doutorando da PUCSP, foi responsável pela revisão. Informações sobre o DVD, que certamente constitui material de pesquisa do maior interesse para pesquisadores da obra de Flusser, podem ser encontradas em http://flusserdvd.c3.hu/index_en.html. Quem quiser adquirir o DVD pode comprá-lo através da livraria Walther König, no seguinte endereço online: http://www.buchhandlung-walther-koenig.de
Contents
Vilém Flusser
Television Image and Political Space in the Light of the Romanian Revolution
Lecture, Budapest, the 7th of April, 1990 (24’30’’)
On technical images, chance, consciousness and the individual
Interview by Miklós Peternák in München, the 17th of October 1991 (38’)
On religion, memory and synthetic image
Interview by László Beke and Miklós Peternák in Budapest, the 7th of April 1990 (13’30’’)
On writing, complexity and the technical revolutions
Interview by Miklós Peternák in Osnabrück, European Media Art Festival, September 1988 (10’30’’)
(With a booklet in English language.)
III Congreso de la Sociedad Colombiana de Estudios Semióticos y de Comunicación
III Congreso de la Sociedad Colombiana de Estudios Semióticos y de Comunicación
SEMIÓTICA 3.0 CONOCIMIENTO, CONTEMPORANEIDAD Y COMUNICACIÓN.
Local: Bogotá, Colombia, 4 e 5 de novembro de 2010
Prazo para inscrição de trabalhos: 15 de setembro
Mais informações: congreso2010@socesco.org e site do evento
I Congreso de Semiótica de la Cultura: Análisis y Nuevas Perspectivas (Madrid, Noviembre de 2010)
Organiza > Grupo de Estudios
de Semiótica de la Cultura. Instituto Universitario de Investigación
Fundación Ortega y Gasset. Master Universitario en Investigación en
Periodismo: Discurso y Comunicación. Universidad Complutense de Madrid.
17, 18 y 19 de noviembre de 2010
Lugar > Facultad de Ciencias de la
Información, Universidad Complutense de Madrid; Fundación Ortega y
Gasset.
Líneas de investigación
preferentes > Nuevas perspectivas de la semiótica de la
cultura, semiótica de la moda, semiótica del arte y semiótica de los
medios
Fecha límite para el
envío de resúmenes > 15 de septiembre de 2010.
Fecha de notificación de propuestas aceptadas
> 7 de octubre de 2010.
Inscripción
> 15 euros. Certificado de
Asistencia.
CALL FOR
PAPERS (max. 500 palabras)
El primer congreso del GESC
propone una reflexión articulada en torno a las categorías analíticas
desarrolladas en el ámbito de la semiótica de la cultura.
El
objetivo es medir la actualidad de esta línea de investigación
profundizando en conceptos sobre los cuales se ha articulado
históricamente la disciplina: semiosfera, explosión, traducción
intersemiótica, estilos y formas de vida, la relación entre memoria y
cultura, etc.
Con esta intención invitamos a proponer análisis
cuyas herramientas pertenezcan al ámbito de esta tradición de estudios,
tanto para ajustarlos metodológicamente como para medir su capacidad de
explicación.
Por otra parte, se pretende reflexionar sobre el
papel de la semiótica de la cultura, sobre las relaciones con las otras
escuelas semióticas y su posible función de puente o filtro traductor en
relación a otras aproximaciones al estudio de la cultura, como la
sociológica y la antropológica.
En este sentido, se tendrán en
consideración tanto las propuestas de tipo analítico como aquellas
estrictamente teóricas.
Lenguas
oficiales > español, inglés, italiano y francés.
Presidente
Jorge Lozano
Comité Organizador
Marcello Serra
(coordinador)
Rayco González
María Jesús Molina
Esther Yance
Marina
Domínguez
Leticia García
Diana Rey
Óscar Gómez
Alina Navas
Comité Científico
Juan Alonso
Valeria
Burgio
María Jesús Casals
Paolo Fabbri
Pablo Francescutti
Jorge
Lozano
Raúl Magallón
Fernando Rodríguez Lafuente
Franciscu
Sedda
Website: http://www.congresosemiotica.blogspot.com/
e-mail: contactosemiotica@gmail.com
CISECO – Pentálogo
CISECO realiza Pentálogo 2 de 20 a 24 de setembro em Japaratinga/AL. Veja como será o evento:
Duas mesas-redondas, 8 mesas temáticas e 18 exposições constituem a estrutura de trabalho do Pentálogo 2, encontro promovido pelo Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (CISECO) para debater o tema da “Economia e Discursividades Sociais – Explorações da Semiose Econômica”. O evento vai ser realizado em Japaratinga (Alagoas) no período de 20 a 24 de setembro, com as presenças de pesquisadores internacionais (franceses, norte-americanos, argentinos, brasileiros, colombianos) do campo da semiótica da comunicação. As pré-inscrições já estão abertas e podem ser feitas através do site (www.ciseco.org.br). Onde você também pode acompanhar a programação do evento.
Para este evento, o Centro Internacional de Semiótica e Comunicação – CISECO decidiu propor uma reflexão sobre as relações entre o discurso econômico e a sociedade.
Por que este tema? Por que o discurso econômico? Por um lado, a crise mundial que se desencadeou em 2008 trouxe para um primeiro plano a importância crucial, a evolução dos mercados, as decisões dos atores econômicos dificilmente redutíveis à teoria dominante do racional choice. Ativando um forte debate, este processo reatualizou e revalorizou a pertinência de múltiplos questionamentos sobre a teoria econômica clássica, formuladas há muito tempo. Assim, na segunda metade da primeira década do Terceiro Milênio, se questiona critérios técnicos do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, ao mesmo tempo em que desaparecem instituições financeiras que eram símbolos das práticas
do liberalismo. Nesse contexto, resulta particularmente significativo que Paul Krugman, notório crítico das teorias liberais, receba o Prêmio Nobel de Economia, no mesmo ano em que Barack Obama, o candidato pelo qual Krugman tinha mais identificação, ganha as eleições nos Estados Unidos.
Por outro lado, o desenvolvimento tecnológico de diversas áreas do sistema produtivo estão gerando, paralelamente à evolução dos países centrais e à crise, conjunturas econômicas novas em países emergentes como a China, Índia e Brasil. Estas situações estão provavelmente transformando as relações clássicas entre o discurso científico e as
condições de sua inserção na sociedade mediante a forma de processos tecnológicos, transformação que parece estar operando com relativa autonomia em relação aos discursos dos economistas.
A crise é, então, inseparável de uma intensa midiatização tanto do discurso econômico como dos discursos sobre a inovação tecnológica dos seguintes sub-temas:
● Discursividades Econômicas
● Semiose Econômica e Semiose Política
● Narrações Midiáticas
Congresso ALAIC – prorrogado para 31 de julho o envio de trabalhos
X CONGRESO LATINOAMERICANO DE INVESTIGADORES DE LA
COMUNICACIÓN DE ALAIC, Bogotá, Colombia – 22 a 24 de septiembre de 2010
Hasta el 31 de julio de 2010: Envío de ponencias (resumen y texto completo)
A partir del 10 de agosto: Publicación de la relación de ponencias aceptadas
Hasta el 31 de agosto inclusive: Inscripción y pago con descuento
Hasta la realización del evento: Inscripción y pago Sin descuento
Los participantes deberán enviar la postulación de sus ponencias directamente a los distintos coordinadores de los Grupos Temáticos. El envío será electrónico y asimismo se incluirá una dirección de copia a la Secretaría de ALAIC ( joanne.alaic@gmail.com )
INSCRIPCIONES Y INFORMACIONES : http://www.alaic.net
A Filosofia da Ficção de Vilém Flusser
SIMPÓSIO INTERNACIONAL:
Informações
www.dubitoergosum.xpg.com.br/1simpflusser.htm
Inscrições
As inscrições já estão abertas e são gratuitas, mas devem ser feitas para reserva de lugar e para emissão posterior de certificados. Cada pessoa se inscreve através do e-mail flusserinrio@gmail.com, informando: nome completo, categoria (por exemplo: “aluno de graduação” ou “professor”), curso (por exemplo: “Instituto de Letras”) e filiação institucional (por exemplo: “UERJ”).
Local
TEATRO NOEL ROSA
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rua São Francisco Xavier 524, Maracanã, Rio de Janeiro, RJ
Coordenação
Dr. Gustavo Bernardo (UERJ-CNPq-FAPERJ)
06 de agosto, sexta-feira: no RAV-112, 11º andar da UERJ
09:00: defesa da dissertação de Lucas de Mello Cabral e Matos: “Oásis no deserto da referencialidade: Arnaldo Antunes e Vilém Flusser”.
Banca examinadora: Gustavo Bernardo (orientador), Joachim Michael (Universität Hamburg e Universidad de Guadalajara) e Norval Baitello (PUC-SP)
14:00: lançamento do livro Machado de Assis und die Sklaverei – Machado de Assis e a escravidão. Mesa-redonda com Markus Schäffauer, Joachim Michael e Gustavo Bernardo
09 de agosto, segunda-feira: no Teatro Noel Rosa
08:00: José Castello: “A poesia do pensamento”
08:45: Rainer Guldin: “Writing philosophy: Vilém Flusser`s textual strategies”
09:45: INTERVALO
10:00: Norval Baitello Jr: “As metáforas do espaço e os vazios midiáticos pensados por Flusser”
10:45: Rafael Cardoso: “O exílio de Flusser e o refúgio da linguagem”
11:30: ALMOÇO
14:00: Maurício Dwek & Chico Toledo: “Caixa Preta: um documentário sobre Vilém Flusser”
14:45: Luciana Hidalgo: “A dúvida na ficção, na filosofia e no jornalismo”
15:30: INTERVALO
16:00: Florence Haret: “Traduções imperfeitas entre realidade social e realidade jurídica: tudo é uma questão de provas!”
16:45: Paulo de Barros Carvalho: “O legislador como poeta”
10 de agosto, terça-feira: no Teatro Noel Rosa
08:00: Markus Schäffauer: “Além da ficção”
08:45: Joachim Michael: “Flusser: apocalipse e pós-história”
09:30: INTERVALO
10:00: Rodrigo Duarte: “Vampyroteuthis Infernalis como alegoria pós-histórica”
10:45: Rafael Haddock-Lobo: “A ficcionalidade quase-originária nos gestos de Flusser e Derrida”
11:30: ALMOÇO
14:00: Anke Finger: “Science, Fiction, and Interart Literature: writing the Technoimage”
14:45: Eva Batlickova: “Ficção filosófica como transparência poética”
15:30: INTERVALO
16:00: Cláudio de Souza Castro Filho: “Modernidade e estética fenomenológica em Vilém Flusser”
16:45: Dirk Hennrich: “Ficção e loucura em Fernando Pessoa e Vilém Flusser”
Apoio
FAPERJ; Editora Annablume; Instituto de Letras da UERJ; SR-2 da UERJ; Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UERJ (CEADS); Grupo de Estudos de Paulo de Barros Carvalho; Editora Noeses
Informações
www.dubitoergosum.xpg.com.br/1simpflusser.htm
Inscrições
As inscrições já estão abertas e são gratuitas, mas devem ser feitas para reserva de lugar e para emissão posterior de certificados. Cada pessoa se inscreve através do e-mail flusserinrio@gmail.com, informando: nome completo, categoria (por exemplo: “aluno de graduação” ou “professor”), curso (por exemplo: “Instituto de Letras”) e filiação institucional (por exemplo: “UERJ”).
Local
TEATRO NOEL ROSA
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rua São Francisco Xavier 524, Maracanã, Rio de Janeiro, RJ
Coordenação
Dr. Gustavo Bernardo (UERJ-CNPq-FAPERJ)
06 de agosto, sexta-feira: no RAV-112, 11º andar da UERJ
09:00: defesa da dissertação de Lucas de Mello Cabral e Matos: “Oásis no deserto da referencialidade: Arnaldo Antunes e Vilém Flusser”.
Banca examinadora: Gustavo Bernardo (orientador), Joachim Michael (Universität Hamburg e Universidad de Guadalajara) e Norval Baitello (PUC-SP)
14:00: lançamento do livro Machado de Assis und die Sklaverei – Machado de Assis e a escravidão. Mesa-redonda com Markus Schäffauer, Joachim Michael e Gustavo Bernardo
09 de agosto, segunda-feira: no Teatro Noel Rosa
08:00: José Castello: “A poesia do pensamento”
08:45: Rainer Guldin: “Writing philosophy: Vilém Flusser`s textual strategies”
09:45: INTERVALO
10:00: Norval Baitello Jr: “As metáforas do espaço e os vazios midiáticos pensados por Flusser”
10:45: Rafael Cardoso: “O exílio de Flusser e o refúgio da linguagem”
11:30: ALMOÇO
14:00: Maurício Dwek & Chico Toledo: “Caixa Preta: um documentário sobre Vilém Flusser”
14:45: Luciana Hidalgo: “A dúvida na ficção, na filosofia e no jornalismo”
15:30: INTERVALO
16:00: Florence Haret: “Traduções imperfeitas entre realidade social e realidade jurídica: tudo é uma questão de provas!”
16:45: Paulo de Barros Carvalho: “O legislador como poeta”
10 de agosto, terça-feira: no Teatro Noel Rosa
08:00: Markus Schäffauer: “Além da ficção“
08:45: Joachim Michael: “Flusser: apocalipse e pós-história”
09:30: INTERVALO
10:00: Rodrigo Duarte: “Vampyroteuthis Infernalis como alegoria pós-histórica”
10:45: Rafael Haddock-Lobo: “A ficcionalidade quase-originária nos gestos de Flusser e Derrida”
11:30: ALMOÇO
14:00: Anke Finger: “Science, Fiction, and Interart Literature: writing the Technoimage”
14:45: Eva Batlickova: “Ficção filosófica como transparência poética”
15:30: INTERVALO
16:00: Cláudio de Souza Castro Filho: “Modernidade e estética fenomenológica em Vilém Flusser”
16:45: Dirk Hennrich: “Ficção e loucura em Fernando Pessoa e Vilém Flusser”
Apoio
FAPERJ; Editora Annablume; Instituto de Letras da UERJ; SR-2 da UERJ; Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UERJ (CEADS); Grupo de Estudos de Paulo de Barros Carvalho; Editora Noeses
SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS INTERSEMIÓTICOS VI: Roland Barthes, do estruturalismo ao pós-estruturalismo.
Roland Barthes, do estruturalismo ao pós-estruturalismo.
Coordenação Geral:
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
Dias 20 e 27 de JULHO de 2010 – UFF
A Imagem-Tempo – Gilles Deleuze
Em vez de representar um real já decifrado, o neo-realismo visava um real, sempre ambíguo, a ser decifrado; por isso o plano-seqüência tendia a substituir a montagem das representações. O neo-realismo inventava, pois, um novo tipo de imagem, que Bazin propunha chamar de “imagem-fato”. (Deleuze, 1990:09)
O que define o neo-realismo é essa ascensão de situações puramente óticas (e sonoras, embora não houvesse som sincronizado no começo do neo-realismo), que se distinguem essencialmente das situações sensório-motoras da imagem-ação no antigo realismo. Talvez isso seja tão importante quanto a conquista de um espaço puramente óptico na pintura, ocorrida com o impressionismo. Objeta-se que o espectador sempre se defrontou com “descrições”, com imagens óticas e sonoras, e nada mais. Mais não é essa a questão. Pois os personagens reagiam as situações; mesmo quando uma delas se encontrava reduzida à impotência, era, em virtude dos acidentes da ação, atada e amordaçada. O que o espectador percebia era, pois, uma imagem sensório-motora da qual participava mais ou menos, por identificação com as personagens. Hitchcock inaugurou a reversão deste ponto de vista, incluindo o espectador no filme. Mas é só agora que a identificação se reverte efetivamente: a personagem tornou-se uma espécie de espectador. Por mais que se mexa, corra, agite, a situação em que está extravasa, de todos os lados, suas capacidades motoras, e lhe faz ver e ouvir o que não é mais passível, em princípio, de uma resposta ou ação. Ele registra, mais que reage. Está entregue a uma visão, perseguido por ela ou perseguindo-a, mais que engajado numa ação. (Deleuze, 1990:11)
(…) se a banalidade cotidiana tem tanta importância, é porque, submetida a esquemas sensório-motores automáticos e já construídos, ela é ainda mais capaz, à menor perturbação do equilíbrio entre a excitação e a resposta (…), de escapar subitamente às leis desse esquematismo e de se revelar a si mesma numa nudez, crueza e brutalidade visuais e sonoras que a tornam insuperável, dando-lhe o aspecto de sonho ou de pesadelo. (Deleuze, 1990:12)
Quanto a Fellini, desde seus primeiros filmes, não é apenas o espetáculo que tende a extravasar sobre o real, é o cotidiano que sempre se organiza como espetáculo ambulante, e os encadeamentos sensório-motores dão lugar a uma sucessão de variedades, submetidas a suas próprias leis de passagem. Barthélemy Amengual estabelece uma fórmula que vale para a primeira metade desta obra: “O real se faz espetacular. (…) Fellini alcança a confusão desejada do real e do espetáculo”, negando a distância, mas a própria distinção do espectador e do espetáculo. (Deleuze, 1990:14)
O olhar imaginário faz do real algo imaginário, ao mesmo tempo em que, por sua vez, se torna real e torna a nos dar realidade. (Deleuze, 1990:18)
(…) era preciso um novo tipo de atores não-profissionais que o neo-realismo revalorizara, de começo, mas o que se poderia chamar de não-atores profissionais, ou melhor, “atores-médiuns’, capazes de ver e de fazer mais que de agir, e ora ficar mundos, ora manter uma conversa qualquer infinita, mais do que responder ou seguir um diálogo. (Deleuze, 1990:31)
Um clichê é uma imagem sensório-motora da coisa. Como diz Bérgson, nós não percebemos a coisa ou a imagem inteira, percebemos sempre menos, percebemos apenas o que estamos interessados em perceber, ou melhor, o que temos interesse em perceber, devido a nossos interesses econômicos, nossas crenças ideológicas, nossas exigências psicológicas. (Deleuze, 1990:31)
Civilização da imagem? Na verdade uma civilização do clichê, na qual todos os poderes têm interesse em nos encobrir as imagens, não forçosamente em nos encobrir a mesma coisa, mas em encobrir alguma coisa na imagem. Por outro lado, ao mesmo tempo, a imagem está sempre tentando atravessar o clichê, sair do clichê. (Deleuze, 1990:32)
Primeiramente, enquanto a imagem-movimento e seus signos sensório-motores estavam em relação apenas com uma imagem indireta do tempo (dependendo da montagem), a imagem ótica e sonora pura, seus opsignos e sonsignos, ligam-se a uma imagem-tempo que sub-ordenou o movimento. É essa reversão que faz, não mais do tempo a medida do movimento, mas do movimento a perspectiva do tempo (…)(Deleuze, 1990:33)
(Welles, Resnais). Em segundo lugar, ao mesmo tempo que o olho acede a uma função de vidência, os elementos da imagem, não só visuais, mas sonoros, entram em relações internas que fazem com que a imagem inteira deva ser “lida” não menos que vista, legível tanto quanto visível. (Deleuze, 1990:34)
Enfim, a fixidez da câmera não representa única alternativa ao movimento. Mesmo móvel, a câmera já não se contenta ora em seguir o movimento das personagens, ora em fazer movimentos dos quais elas são apenas o objeto, mas, em todos os casos, subordina a descrição de um espaço a funções do pensamento. Não é a simples distinção do subjetivo e do objetivo, do real e do imaginário, é, ao contrário, a indiscernabilidade deles que vai dotar câmera de um rico conjunto de funções, e trazer consigo uma nova concepção do quadro e dos reenquadramentos. (Deleuze, 1990:34)
(…) para escapar ao mundo dos clichês. Era preciso que se abrisse em revelações poderosas [35] e diretas, as da imagem-tempo, da imagem-legível e da imagem pensante. (Deleuze, 1990:34-35)
A imagem-movimento é o objeto, é a própria coisa apreendida no movimento como função contínua. A imagem-movimento é a modulação do próprio objeto. (Deleuze, 1990:40)
O semelhante e o digital, a semelhança e o código, têm ao menos em comum o fato de serem moldes, um por forma sensível, o outro por estrutura inteligível: por isso podem se comunicar tão bem com o outro. Mas a modulação é bem diferente: é um fazer variar o molde, uma transformação do molde a cada instante da operação. (Deleuze, 1990:40)
É a modulação que nutre os dois moldes, que faz deles meios subordinados, com a possibilidade de tirar deles uma nova potência. Pois a modulação é a operação do Real, enquanto constitui e não apenas pára de reconstituir a identidade da imagem e do objeto. (Deleuze, 1990:40)
A imagem-movimento é a própria matéria, como mostrou Bérgson. É uma matéria não lingüisticamente formada, embora seja semioticamente e constitua a primeira dimensão da semiótica. Com efeito, as diferentes espécies de imagens que necessariamente se deduzem da imagem-movimento, as seis espécies, são os elementos que fazem dessa matéria uma matéria sinalética. E os próprios signos são os traços de expressão que compõem essas imagens, as combinam e não param de recriá-las, levadas ou carregadas pela matéria em movimento. (Deleuze, 1990:47)
A imagem-movimento tem duas faces, uma em relação a objetos cuja posição relativa faz ela variar, a outra em relação a um todo cuja mudança absoluta ele exprime.As posições estão no espaço, mas o todo que muda está no tempo. Se assimilarmos a imagem-movimento ao plano, chamaremos de enquadramento à primeira face do plano, voltada para os objetos, e de montagem à outra face, voltada para o todo. Daí, uma primeira tese: é a primeira montagem que constitui o todo, e nos dá assim a imagem do tempo. Ela é, portanto, o ato principal do cinema. O tempo é necessariamente uma representação indireta, porque resulta da montagem que liga uma imagem-movimento a outra. Por isso a ligação não pode ser mera justaposição: o todo não é uma adição, tampouco o tempo uma sucessão de presentes. Como Eisenstein costumava repetir, é preciso que a montagem proceda por alternâncias, conflitos, resoluções, ressonâncias, em suma, por toda uma atividade de seleção e de coordenação, para dar tanto ao tempo sua verdadeira dimensão, quanto ao todo sua consistência. Essa posição de principio implica que a própria imagem-movimento esteja no presente, e nada mais. (Deleuze, 1990: 48)
Mas também é preciso que o movimento seja normal: o movimento só pode subordinar o tempo e fazer dele um número que indiretamente o meça, se preencher condições de normalidade. O que chamamos de normalidade é a existência de centros: centros de revolução do próprio movimento, de equilíbrio das forças, de gravidade dos móveis, e de observação para um espectador capaz de conhecer ou perceber o móvel, e de determinar o movimento. Um movimento que se furta à centragem, de uma maneira ou de outra, é como tal anormalidade, aberrante. […] Ora, o movimento aberrante põe em questão o estatuto do tempo como representação indireta ou número do movimento, pois escapa às relações de número. Mas longe de o próprio tempo ficar abalado, ele encontra nisso a ocasião de surgir diretamente, e de livrar-se da subordinação ao movimento, de reverter essa subordinação. Inversamente, portanto, uma apresentação direta do tempo não implica a parada do movimento, mas, antes, a promoção do movimento aberrante. O que faz deste problema um problema tão cinematográfico quanto filosófico é o fato de a imagem-movimento parecer ser, em si mesma, um movimento fundamentalmente aberrante, anormal. (Deleuze, 1990:50)
Se o movimento normal vai subordinar o tempo, do qual nos dá uma representação indireta, o movimento aberrante atesta uma anterioridade do tempo, que ele nos apresenta diretamente, do fundo da desproporção das escalas, da dissipação dos centros, dos falsos raccords das próprias imagens. (Deleuze, 1990:51)
[…] não basta eliminar a ficção, em favor de uma realidade bruta que então nos remeteria, ainda mais, aos presentes que passam. É preciso, ao contrario, tender a um limite, fazer com que entre no filme o limite de antes e de depois do filme, apreender na personagem o limite que ela própria transpõe para entrar e sair do filme, para entrar na ficção como num presente que não se separa de seu antes e de seu depois. (Rouch, Perault). Veremos que é precisamente esse o objetivo do cinema-verdade ou do cinema direto: não alcançar um real que existisse independentemente da imagem, mas um antes e um depois assim como coexistem com a imagem, inseparáveis da imagem. Seria este o sentido do cinema direto, na medida em que é um componente de todo cinema: alcançar a apresentação direta do tempo. (Deleuze, 1990:52)
Outra coisa acontece no cinema dito moderno: não algo mais bonito, mais profundo, nem mais verdadeiro, mas outra coisa. É que o esquema sensório-motor já não se exerce, mas também não é ultrapassado, superado. Ele se quebra por dentro. Quer dizer que as percepções e as ações não se encadeiam mais, e que os espaços já não se coordenam nem se preenchem. Personagens, envolvidas em situações óticas e sonoras puras, encontram-se condenadas à deambulação ou à perambulação. São puros videntes, que existem tão-somente no intervalo de movimento, e não têm sequer o consolo do sublime, que os faria encontrar a matéria ou conquistar o espírito. Estão, antes, entregues a algo intolerável: a sua própria cotidianidade. É aí que se dá a reversão: o movimento já não é somente aberrante, mas a aberração vale agora por si mesma e designa o tempo como sua causa direta. “O tempo sai dos eixos”: ele sai dos eixos que lhe fixavam as condutas no mundo, mas também os movimentos do mundo. Não é mais o tempo que depende do movimento, é o movimento aberrante que depende do tempo. A relação situação sensório-motora/imagem indireta do tempo é substituída por uma relação não-localizavel situação ótica e sonora pura/imagem-tempo direta. Os opsignos e sonsignos são apresentações diretas do tempo. Os falsos raccords são a própria relação não-localizavel: as personagens não os saltam mais, mas mergulham neles. Para onde foi Gertrude? Para os falsos raccords. [N.R. Cf. Narboni, Sylvie Pierre et Rivette, “Montage”, in Cahiers du cinema, nº 210, mar. 1969.] (Deleuze, 1990:55)
A imagem-tempo é o fantasma que sempre assombrou o cinema, mas foi preciso o cinema moderno para dar corpo a esse fantasma. Essa imagem é virtual, em contraposição à atualidade da imagem-movimento. Mas, se virtual se opõe a atual, não se opõe a real, muito pelo contrário. Dirão ainda que essa imagem-tempo pressupõe a montagem, tal como a representação indireta a pressupunha. Mas a montagem mudou de sentido, ganhou nova função: em vez de ter por objeto as imagens-movimento, das quais ela retira uma imagem indireta do tempo, tem por objeto a imagem-tempo, extrai desta as relações de tempo, das quais o movimento aberrante agora apenas depende. Conforme uma expressão de Lapoujade, a montagem tornou-se “mostragem” [N.R. Bonitzer, Lê champ aveugle, in Cahiers du cinema-Gallimard, p. 130: “A montagem volta à ordem do dia, mas sob uma forma interrogativa que Eisenstein nunca lhe deu”.]
(Deleuze, 1990:56)
Bergson distingue dois tipos de “reconhecimento”. O reconhecimento automático ou habitual (a vaca reconhece o capim, eu reconheço meu amigo Pedro…) opera por prolongamento: a percepção se prolonga em movimentos de costume, os movimentos prolongam a percepção para tirar, dela, efeitos úteis. […] De certo modo, estamos sempre nos afastando do primeiro objeto: passamos de um objeto a outro, conforme um movimento horizontal ou associações de imagens, permanecendo, porém, num único e mesmo plano. […] Bem diferente é o segundo modo de reconhecimento, o reconhecimento atento. Aí, desisto de prolongar minha percepção, não posso prolongá-la. Meus movimentos, mais sutis e de outra natureza, retornam ao objeto, voltam ao objeto, para enfatizar certos contornos seus e extrair “alguns traços característicos”. E recomeçamos, a fim de destacar outros traços e contornos, porém, a cada vez devemos começar do zero. Em vez de uma soma de objetos distintos num mesmo plano, agora o objeto permanece o mesmo, mas passa por diferentes planos. [Bergson, Matière et mémoire, pp. 249-251 (114-116) E Lénergie spiritualle, Léffort intellectual” pp. 940-941 (166-167)] (Deleuze, 1990:59)
[…] Haveria uma resposta simples, provisória; é a que Bérgson dá em primeiro lugar: a imagem ótica (e sonora) no reconhecimento atento não se prolonga em movimento, mas entra em relação com uma “imagem-lembrança” que ela suscita. Talvez seja preciso conceber também outras respostas possíveis, mais ou menos vizinhas, mais ou menos distintas: o que entraria em relação seria algo real e imaginário, físico e mental, objetivo e subjetivo, descrição e narração, atual e virtual… (Deleuze, 1990:61)
[…] as imagens-lembrança já intervêm no reconhecimento automático: inserem-se entre a excitação e a resposta, e contribuem para ajustar melhor o mecanismo motor, reforçando-o com uma causalidade psicológica. Mas, nesse sentido, elas intervêm apenas acidental e secundariamente no reconhecimento automático, na medida em que são essenciais ao reconhecimento atento: este se faz por meio delas. Quer dizer que, com as imagens-lembrança, aparece um sentido completamente novo da subjetividade.
(Deleuze, 1990:63)
A relação da imagem atual com imagens-lembrança aparece no flash-back. Este é, precisamente, um circuito fechado que vai do presente ao passado, depois os traz de volta ao presente. (Deleuze, 1990:63)
É aí que o flash-back encontra sua razão: em cada ponto de bifurcação do tempo. A multiplicidade dos circuitos ganha portanto um novo sentido. Não são apenas várias pessoas que têm, cada uma, um flash-back, é o flash-back que é de varias pessoas (três em A condessa descalça, três em Quem é o infiel?, dois em A malvada (All about Eve)). E não são apenas os circuitos que se bifurcam entre si; cada circuito se bifurca consigo mesmo, como um cabelo quebrado. (Deleuze, 1990:65)
Portanto, são as bifurcações do tempo que dão ao flash-back necessidade, e às imagens-lembrança autenticidade: um peso de passado sem o qual elas continuariam a ser convencionais. Mas por quê, como? A resposta é simples: os pontos de bifurcação são o mais das vezes tão imperceptíveis que só podem revelar-se posteriormente, a [67] uma memória atenta. É uma história que só no passado possa ser contada. (Deleuze, 1990:66-67)
De modo que Bérgson não se cansa de girar em torno da seguinte conclusão, que também estará sempre presente no cinema: o reconhecimento atento nos informa muito mais quando fracassa do que quando tem êxito. Em suma, não é a imagem-lembrança ou o reconhecimento atento que nos dá o justo correlato da imagem ótico-sonora, são antes as confusões de memória e os fracassos do reconhecimento. (Deleuze, 1990:71)
Qual é, mais precisamente, a diferença entre uma imagem-lembrança e uma imagem-sonho? Partimos de uma imagem-percepção, cuja natureza consiste em ser atual. A lembrança, ao contrário, o que Bérgson chama de “lembrança pura”, necessariamente é virtual. Mas, no primeiro caso, ela própria se torna atual na medida em que é chamada pela imagem-percepção. Ela se atualiza numa imagem-lembrança que corresponde à imagem-percepção. O caso do sonho faz com que apareçam duas importantes diferenças. Por outro lado, as percepções da pessoa que dorme subsistem, porém no estado difuso de uma nuvem de sensações atuais, exteriores e interiores, que não são apreendidas por si mesmas, escapando à consciência. Por outro lado, a imagem virtual que se atualiza não se atualiza diretamente, mas em outra imagem, que desempenha o papel de imagem virtual atualizando-se numa terceira, ao infinito: o sonho não é uma metáfora, mas uma série de anamorfoses que traçam um circuito muito grande. Estas duas características estão ligadas. Quando a pessoa que dorme está entregue à sensação luminosa atual de uma superfície verde com manchas brancas, a pessoa que sonha, que habita a que dorme, pode evocar a imagem de um prado salpicado de flores, mas esta só se atualiza tornando-se uma mesa de sinuca cheia de bolas, que, por sua vez, não se atualiza sem se tornar ainda outra coisa. Não se trata de metáforas, mas um devir que pode, em direito, prosseguir ao infinito. (Deleuze, 1990:73)
As imagens-sonhos, por sua vez, parecem além do mais ter dois pólos, que podem ser distinguidos segundo a produção técnica delas. Um procede por meios ricos e sobrecarregados, fusões, superimpressões, desenquadramentos, movimentos complexos de câmera, efeitos especiais, manipulação de laboratório, chegando ao abstrato, tendendo à abstração. O outro, ao contrario, é bem sóbrio [75], operando por cortes bruscos ou montagem-cut, procedendo apenas a um perpétuo desprendimento que “parece” sonho, mas entre objetos que continuam a ser concretos. A técnica da imagem remete sempre a uma metafísica da imaginação. (Deleuze, 1990:74-75)
[…] a própria imagem atual tem uma imagem virtual que ela corresponde, como um duplo ou um reflexo. Em termos bergsonianos, o objeto real reflete-se numa imagem especular tal como no objeto virtual que, por seu lado e ao mesmo tempo, envolve ou reflete o real: há “coalescência” entre os [88] dois. Há formação de uma imagem bifacial, atual e virtual. É como se uma imagem especular, uma foto, um cartão-postal se animassem, ganhassem independência e passassem para o atual, com o risco de a imagem atual voltar ao espelho, retomar lugar no cartão postal ou na foto, segundo um duplo movimento de liberação e de captura.
[…] o que constitui tal ponto de indiscernibilidade é precisamente o menor circuito, quer dizer, a coalescência da imagem atual e da imagem virtual, a imagem bifacial, a um tempo atual e virtual. (Deleuze, 1990:87-88)
Com efeito, não há virtual que não se torne atual em relação ao atual, com este se tornando virtual sob esta mesma relação: são um avesso e um direito perfeitamente reversíveis. São “imagens mútuas”, como diz Bachelard, nas quais se efetua uma troca. A indiscernibilidade do real e do imaginário, ou do presente e do passado, do atual e do virtual, não se produz portanto, de modo algum, na cabeça ou no espírito, mas é o caráter objetivo de certas imagens existentes, duplas por natureza. Então, duas ordens de problema se colocam: uma de estrutura, outra de gênese. Em primeiro lugar, quais são estas consolidações de atual e virtual que definem uma estrutura cristalina (mais num sentido estético geral que num sentido científico)? E, depois, qual é a operação genética que aparece nessas estruturas?
O caso mais conhecido é o espelho. Os espelhos de viés, os espelhos côncavos e convexos, os espelhos venezianos são inseparáveis de um circuito, como vemos por toda a obra de Ophuls, e em Losey, particularmente, em Eva e o Criado. O próprio circuito é uma troca: a imagem especular é virtual em relação à personagem atual que o espelho capta, mas é atual no espelho que nada mais deixa ao personagem além de uma mera virtualidade, repelindo-a para o extra-campo. Quando as imagens virtuais assim proliferam, o seu conjunto absorve toda a atualidade da personagem, ao mesmo tempo que a personagem já não passa de uma virtualidade entre outras. [N.R. Sobre “o movimento de câmera a 360 graus com vários espelhos”, ef. Ciment, Lê livre de Losey, Stock pp. 261,262,274] (Deleuze 1990:89)
Entre as duas faces distintas uma dúvida sempre subsistirá, impedindo-nos de saber qual é límpida, qual é sombria, consideradas todas as condições. (Deleuze 1990:91)
[…] em todas as artes, a obra dentro da obra frequentemente esteve ligada à consideração de uma vigilância, de uma investigação, vingança, conspiração ou complô. (Deleuze 1990:97)
Em suma, é numa mesma operação que o cinema enfrenta seu pressuposto mais interno, o dinheiro, e que a imagem-movimento cede lugar à imagem-tempo. O que o filme dentro do filme exprime é o circuito infernal entre a imagem e o dinheiro [99], a inflação que o tempo põe na troca, a “alta estonteante”. O filme é o movimento, mas o filme dentro do filme é o dinheiro, é o tempo. A imagem-cristal recebe assim o princípio que a funda: relançar sem descanso a troca dissimétrica, desigual e sem equivalência, dar imagem contra dinheiro, dar tempo contra imagens, converter o tempo, a face transparente, e o dinheiro, a face oculta, como um pião sobre sua ponta. E o filme estará terminado quando não houver mais dinheiro…
Por mais que a imagem-cristal tenha muitos elementos distintos, sua irredutibilidade consiste na unidade indivisível de uma imagem atual e de “sua” imagem virtual. Mas o que é essa imagem virtual em coalescência com a atual? O que é uma imagem mútua? Bergson sempre se colocou esta questão, e procurou sempre a resposta no abismo do tempo. (Deleuze 1990:98-99)
A imagem-cristal não é o tempo, mas vemos o tempo no cristal. Vemos a perpétua fundação do tempo, o tempo não cronológico dentro do cristal, Cronos e não Chronos. (Deleuze 1990:102)
[…] Bergson precisou se expressar assim, ao menos no começo. Mas, cada vez mais, ele dirá algo bem diferente: a única subjetividade é o tempo, o tempo não-cronológico apreendido em sua fundação, e somos nós que somos interiores ao tempo, não o inverso. Que estejamos no tempo parece um lugar-comum, no entanto é o maior paradoxo. O tempo não é o interior em nós, é justamente o contrário, a interioridade na qual estamos, nos movemos, vivemos e mudamos. (Deleuze 1990:103)
A subjetividade nunca é a nossa, é o tempo, quer dizer, a alma ou o espírito, o virtual. O atual é sempre objetivo, mas o virtual é o subjetivo: primeiro era o afeto, o que sentimos no tempo; depois o próprio tempo, pura virtualidade que se desdobra em afetante e afetado, “a afecção de si por si” como definição do tempo. (Deleuze 1990:104)
A imagem cristal não é menos sonora que ótica, e Félix Guattari tinha razão em definir o cristal de tempo como sendo por excelência um “estribilho”. (Deleuze 1990:115)
O que o cristal revela ou faz ver é o fundamento oculto do tempo, quer dizer, sua diferenciação em dois jorros, o dos presentes que passam e o dos passados que se conservam. De uma só vez o tempo faz passar o presente e conserva em si o passado. Há portanto duas imagens-tempo possíveis,uma fundada no passado, outra no presente. Ambas são complexas e valem para o conjunto do tempo. (Deleuze 1990:121)
A memória não está em nós, somos nós que nos movemos numa memória-Ser, numa memória-mundo. (Deleuze 1990:122)
O acontecimento não se confunde mais com o espaço que lhe serve de lugar, nem com o atual presente que passa: “a hora do acontecimento termina antes que termine o acontecimento, o acontecimento começará então em outra hora (…); todo acontecimento está por assim dizer no tempo em que nada se passa”, e é no tempo vazio que antecipamos a lembrança, desagregamos o que [124] é atual e situamos a lembrança uma vez formada.
[N.R. Este belo texto de Groethuysen (“De qualquer aspects du temps”, in Recherches philosophiques, V, 1935-1936) ecoa temas de Péguy e Bergson. Em Clio, p. 230, Péguy distinguia história e memória: “A história é essencialmente longitudinal, a memória essencialmente vertical. A história consiste essencialmente em passar ao longo do acontecimento. A memória consiste essencialmente, estando dentro do acontecimento, mais que tudo em não sair dele, em nele permanecer, e remontá-lo por dentro”. Bergson propusera um esquema, que poderíamos chamar de seu quarto esquema do tempo, para distinguir a visao espacial que passa ao longo do acontecimento, e a visao temporar que se entranha no acontecimento: MM, p. 285 (159)
Encontramo-nos aqui numa imagem-tempo direta de outra natureza que a precedente: não mais a coexistência dos lençóis de passado, mas a simultaneidade das pontas de presente. Temos portanto duas espécies de cronosignos: os primeiros são aspectos (regiões, jazida), os segundos são acentos (pontas de vista).
Em Robbe Grillet nunca temos uma sucessão de presentes que passam, mas a simultaneidade de um presente de passado, de um presente de presente, de um presente de futuro, que tornam o tempo terrível, inexplicável.
[…] Os três presentes implicados sempre se retratam, desmente, apagam, substituem, recriam, bifurcam e retornam. É uma poderosa imagem-tempo, mas não vamos supor que ela suprima a narração. E sim, o que é bem mais importante, ela confere à narração um novo valor, já que a abstrai de qualquer ação sucessiva, na medida em que substitui por uma verdadeira imagem-tempo a imagem-movimento. (Deleuze 1990:124-125)
[…] A maioria das vezes em que a profundidade de campo encontra plena necessidade é quando tem relação com a memória. E também nisso o cinema é bergsoniano: não se trata de uma memória psicológica, feita de imagens-lembrança, tal como convencionalmente o flash-back pode representar. Não se trata de uma sucessão de presentes que passam conforme o tempo cronológico. Trata-se ou de um esforço de evocação produzido num presente atual, e precedendo a formação das imagens-lembrança, ou da exploração de um lençol de passado do qual, ulteriormente, surgirão as imagens-lembrança. É um aquém, e um além, da memória psicológica: os dois pólos de uma metafísica da memória. Bérgson assim apresenta estes dois extremos da memória: a extensão dos lençóis de passado, a contração do presente atual. E os dois estão ligados, já que evocar a lembrança é saltar para uma região de passado onde se supõe que ela virtualmente jaz, como todos os lençóis ou regiões coexistindo em relação ao presente atual contraído do qual procede a evocação (enquanto eles, lençóis, se sucedem psicologicamente com relação aos presentes que foram). O fato a se constatar é que a profundidade de campo nos mostra ora a evocação em ato, ora os lençóis virtuais de passado que exploramos para encontrar a lembrança procurada. (Deleuze 1990:134).
É provável que, quando lemos um livro, assistimos a um espetáculo ou olhamos um quadro, e com mais razão, quando somos nós mesmos o autor, um processo análogo se desencadeie: constituímos um lençol de transformação que inventa um tipo de continuidade ou de comunicação transversais entre vários lençóis e tece entre eles um conjunto de relações não-localizáveis. Deslindemos assim um tempo não-cronológico. Extraímos um lençol que, através de todos os outros, apreende e prolonga a trajetória dos pontos, a evolução das regiões. (Deleuze 1990:150)
Mas é possível que a obra de arte consiga inventar tais lençóis paradoxais, hipnóticos, alucinatórios, que têm a propriedade, a um só tempo, de ser um passado, mas sempre por vir. (Deleuze 1990:151)
Se considerarmos a historia do pensamento, constatamos que o tempo sempre pos em crise a noção de verdade. Não que a verdade varie conforme as épocas. Não é o mero conteúdo empírico, é a forma, ou melhor, a forca pura do tempo que põe a verdade em crise. (Deleuze 1990:159)
Leibniz diz que a batalha naval pode acontecer ou não acontecer, mas que não é no mesmo mundo: ela acontece num mundo, não acontece em outro, e esses dois mundos são possíveis, mas não “compossíveis” entre si. Ele tem de forjar, portanto, a bela noção de incompossibilidade. (Deleuze 1990:160)
É uma potencia do falso que substitui e destrona a forma do verdadeiro, pois ela afirma a simultaneidade de presentes incompossíveis, ou a coexistência de passados não – necessariamente verdadeiros. […] Compreendemos que a potencia do falso é também o princípio mais geral a determinar o conjunto das relações na imagem-tempo direta. (Deleuze 1990:161)
O essencial é isso: como o novo regime da imagem (a imagem-tempo direta) opera com descrições óticas e sonoras puras, cristalinas, e narrações falsificantes, puramente crônicas. (Deleuze 1990:165)
O que Nietzsche havia mostrado – que o ideal da verdade era a ficção mais profunda, no âmago do real – o cinema ainda havia percebido. (Deleuze 1990:182)
O que o cinema deve apreender não é a identidade de uma personagem real ou fictícia, através de seus aspectos objetivos e subjetivos. É o devir da personagem real quando ela própria se põe a “ficcionar”, quando entra “em flagrante delito de criar lendas”, e assim contribui para a invenção de seu povo. (Deleuze 1990:183)
É uma terceira imagem-tempo, que se distingue das que vimos no capitulo precedente. As duas anteriores, com efeito, se referiam à ordem do tempo, quer dizer à coexistência das relações ou à simultaneidade dos elementos internos ao tempo. A terceira se refere à serie do tempo que reúne o antes e o depois num devir, ao invés de separá-los: seu paradoxo está em introduzir um intervalo que dura no próprio momento. (Deleuze 1990:188)
Às vezes é lembrado que não há apenas uma fita sonora, mas pelo menos três grupos, falas, ruídos, musicas. Talvez até seja preciso distinguir um número maior de componentes sonoros: os ruídos (que isolam um objeto e isolam-se uns aos outros), os sons (que marcam relações e estão em relação mútua), as fonações (que recortam essas relações, podendo ser gritos, mas também verdadeiros “jargões”, como no burlesco falado de Chaplin ou de Jerry Lewis), as falas, a música. (Deleuze 1990:277)
Se o contínuo (ou componente sonoro) não tem elementos separáveis, isso não o impede de se diferenciar a cada momento, segundo duas direções divergentes que exprimem sua relação com a imagem visual. Esta dupla relação passa pelo extracampo, na medida em que este pertence plenamente à imagem visual cinematográfica. (Deleuze 1990:278)
Desde o início o problema do sonoro era: como fazer para que o som e a fala não sejam mera redundância do que se vê? Este problema não negava que o sonoro e o falado fossem um componente da imagem visual, ao contrário; era na qualidade de componente específico que o som não devia ser redundante com o que era visto no visual. (Deleuze 1990:279)
Se é verdade que o cinema moderno implica a ruína do esquema sensório-motor, o ato de fala já não revela uma trama de interações. Ele se concentra sobre si mesmo, não é mais dependência ou pertencimento da imagem visual, torna-se uma imagem integralmente sonora, ganha autonomia cinematográfica, e o cinema torna-se realmente audiovisual. (Deleuze 1990:288)
É um novo sentido de “legível” que aparece para a imagem visual, ao mesmo tempo que o ato de fala torna-se por si mesmo imagem sonora autônoma. (Deleuze 1990:291)
Vimos que este novo regime consiste nisso: as imagens, as seqüências já não se encadeiam por cortes racionais, que encerram a primeira ou começam a segunda, mas encadeiam-se sobre cortes irracionais, que já não pertencem a nenhuma das duas e valem por si mesmas (interstícios). Os cortes irracionais têm portanto valor disjuntivo, mais conjuntivo. No caso complexo que agora consideramos, a questão é: para onde vão esses cortes, e em que consistem, já que têm autonomia? Encontramo-nos diante de uma primeira seqüência de imagens visuais com componente sonoro e [295] falado, como no primeiro estágio do cinema falado; mas elas tendem para um limite que já não lhes pertence, e tampouco pertence à segunda seqüência. Ora, este limite, este corte irracional pode apresentar-se sob formas visuais bem diversas: seja sob a forma fixa de uma seqüência de imagens insólitas, “anômalas”, que vêm interromper o encadeamento normal das duas seqüências; seja sob a forma ampliada da tela preta, ou da tela branca, e seus derivados. Mas, cada vez, o corte irracional implica o novo estagio do cinema falado, a nova figura do sonoro. (Deleuze 1990:294-295)
[…] a imagem-movimento não nos dá uma imagem-tempo. E no entanto ela nos dá muitas coisas, a esse respeito. Por um lado a imagem-movimento constitui o tempo sob sua forma empírica, o curso do tempo: um presente sucessivo conforme uma relação extrínseca do antes e do depois, tal que o passado é um antigo presente, e o futuro, um presente por vir.
[…] a imagem-movimento suscita já uma imagem do tempo que se distingue dela por excesso ou por falta, estando acima ou abaixo do presente como curso empírico: desta vez, o tempo não mais é medido pelo movimento, mas é, ele próprio, o número ou medida do movimento (representação metafísica). Este número, por sua vez, tem dois aspectos, que vimos no tomo precedente: é a unidade mínima de tempo como intervalo de movimento, ou a totalidade do tempo como máximo do movimento no universo.
[…] a imagem-movimento está fundamentalmente ligada a uma representação indireta do tempo, e não nos dá uma apresentação direta dele, isto é, não nos dá uma imagem-tempo. A única apresentação direta aparece, então, na música.
[…] A imagem-tempo não implica ausência de movimento (embora comporte, com freqüência, sua rarefação), mas implica a reversão da subordinação; já não é o tempo que está subordinado ao movimento, é o movimento que se subordina ao tempo. Já não é o tempo [323] que resulta do movimento, de sua norma e de suas aberrações corrigidas, é o movimento como movimento em falso, como movimento aberrante, que depende agora do tempo. (Deleuze 1990:322-323)
Glauber e o Audiovisual
Fichamento dirgido do livro “A Revolução do Cinema Novo” de Glauber Rocha, onde o foco foi as suas definições do que é cinema e audiovisual:
“No caso do autor, que essencialmente é poeta ou ficcionista, aderir ao cinema é, em primeiro lugar, a maior ambição de criar mundos próprios mais visíveis e divulgáveis. Em segundo, adquirido logo após o ingresso, disponibilidade para a auto-flagelação. Faço referência a esse segundo aspecto apenas para salientar mais um aspecto negativo da condição de cineasta.” 11
“A imagem, rigorosamente, deve ser um vocábulo, e o cineasta deve escrever com a imagem. Mas que imagem é essa? O rosto humano? O homem? A natureza? Respondo que essa imagem apenas existiu em algumas seqüências de alguns cineastas. Porque o cinema exige uma organização, na maioria das vezes linear, a palavra interfere para auxiliar a imagem, evitando que o próprio ser do cinema seja esvaziado até uma completa inconseqüência artística, que seria o didatismo dos documentários. Não é o vanguardismo condenado até pelos mais formalistas críticos? O cinema de hoje é uma traição ao signo.” 12-13
“É inadmissível que um homem inteligente não saiba da incalculável tarefa intelectual que se exige para que o filme seja atingido como objeto e não como tubo condutor de idéias.” 13
“Não poderíamos voltar àquela antiga condição de artesão obscuro e procurar, com nossas miseráveis câmeras e os poucos metros de filme que dispomos, aquela escrita misteriosa e fascinante do verdadeiro cinema que permanece esquecido? Não saberia mesmo dizer que cinema é esse, que verdade é essa. Creio, no entanto, que o cinema só será quando o cineasta se reduzir à condição de poeta e, purificado, exercer o seu ofício com a seriedade e o sacrifício. Mas, por outro lado, o cinema se eleva como maior instrumento de idéias do universo. Seria justo a deserção dos cineastas se eles, mesmo escravos, falam por vezes tão alto?” 14
“Nosso cinema é novo porque o homem brasileiro é novo e a problemática do Brasil é nova e nossa luz é nova por isso nossos filmes nascem diferentes dos cinemas da Europa. Nossa geração tem consciência: sabe o que deseja. Queremos fazer filmes antiindustriais; queremos fazer filmes de autor, quando o cineasta passa a ser um artista comprometido com os grandes problemas do seu tempo; queremos filmes de combate na hora do combate e filmes para construir no Brasil um patrimônio cultural. A técnica é haute couture, é frescura para a burguesia se divertir. No Brasil o cinema novo é uma questão de verdade e não de fotografismo. Para nós a câmera é um olho sobre o mundo, o travelling é um instrumento de conhecimento, a montagem não é demagogia mas pontuação do nosso ambicioso discurso sobre a realidade humana e social do Brasil!” 17
“Cinema Verdade: é claro que o nome está mais ou menos na cara, mas vamos especificar um pouco. É, em regra geral, um tipo de documentário em que se usa o som direto, entrevistando pessoas, personagens, e recolhendo som da realidade, fotografando de uma maneira direta, procurando capturar o maior realismo possível, daí a palavra verdade; ou seja, um tipo de documentário que procura pelo som e pela imagem refletir uma verdade, uma realidade.” 37
“O cinema verdade tem uma grande propriedade, uma grande funcionalidade, uma grande atualidade, pois me parece muito útil do ponto de vista informativo e educativo para uma sociedade subdesenvolvida e para as sociedades em crise ou em processo de despertar político, em que a criação de uma base informativa e o levantamento de problemas gritantes que todos nós sabemos é fundamental. Desse ponto de vista, o cinema verdade não é apenas uma prática a ser desenvolvida no Brasil,como também a ser estimulada, renovada e aprofundada na medida em que os realizadores brasileiros, que começaram a trabalhar com as técnicas de cinema verdade, começam justamente a partir de lições dadas e das técnicas disponíveis, a desenvolver e aprofundar cada vez mais o sentido desse cinema.” 40
“Um diretor que acredita na realidade, que pretende filmar um fato – falo de cinema de ficção – no local em que se passou a verdadeira ação, com ou sem aotres, mas dentro de uma cenografia viva, captando ou não esse som, mas captando o som fundamental desse lugar, o som que mais representa, e as cores e os elementos, está fazendo um filme de verdade. Ë um diretor que acredita na realidade e não na imagem, que não vai para o estúdio fazer uma imagem forjada, num cenário forjado, acrescentando na imagem dados de alienação, porque todos esse dados estetizantes são dados de alienação. Creio que tal colocação deva ser feita. O debate deve chegar ao problema da realidade.” 41-42
“Cinema só é importante quanto autoral, um cinema que reflita sobre a realidade, que pense, que aja sobre a realidade. Um filme pode ser real, sendo puramente informativo, puramente fenomenológico, na medida em que vê essa realidade, informe sobre ela, a discuta, e faça agitação política em torno dela. Aí é que o cinema é autoral, porque um autor pode ser puramente crítico, um outro, puramente político e prático” 42-43
“O cinema verdade é divulgado sobretudo pela TV. A Tv é hoje um meio de comunicação muito mais eficiente que o cinema. Temos inclusive de perder esse bloqueio que temos em relação a TV. Se ela é um meio de comunicação, tem-se que ir à TV, por que o cinema fica sendo um convenção de sala escura. Tem que se reconhecer a evolução dos tempos e atingir todo o meio de comunicação válido.” 43
“Creio que a simples entrevista, a simples câmera na mào, o simples corte fora de continuidade, se não realiza uma idéia, NÃO TEM SENTIDO” 43
“Esse cinema em som direto tem que ser realizado com uma técnica perfeita. Com som e fotografia ruins, com montagem confusa não é um filme realizado, é um filme que se frustra nessa perspectiva. O método, unido ao aprimoramento técnico, que não é aprimoramento formal – o aprimoramento formal é uma conseqüência desse método de analisar a realidade – é muito mais importante que o detalhe pitoresco, a investigação arbitrária.” 43
“Somente nos países subdesenvolvidos o Novo Cinema, isto é, o Cinema de Autor (o cinema como conhecimento e não divertimento; o cinema como linguagens e não como espetáculos; o cinema como método e não como ilustração; o cinema como revelação e não como descrição do óbvio, etc.) pode, desertado de tradições industriais e culturais mergulhar rumo ao desconhecido, exercitando a sua impotência até ganhar estatura de linguagem que redescobre o mundo.” 45
“O cinema de economia e técnica subdesenvolvidas não terá de ser culturalmente subdesenvolvido. Ação política é uma atitude intelectual e uma prática superior numa sociedade condicionada à inferioridade.” 53
“Os cineastas independentes devem produzir filmes capazes de provocar no público um choque capaz de transformar sua educação moral e estética realizada pelo cinema americano. Esta revolução não é obra de um filme, mas de toda uma produção internacional permanentemente revolucionária.”
“A técnica do cinema passado e atual do mundo desenvolvido me interessa, na medida em que eu possa ‘instrumentalizá-la’ assim como o cinema americano foi ‘instrumentalizado’ por alguns cineastas europeus. O que é esta instrumentalização? Aplicar, como método, determinadas chaves da técnica cinematográfica, pedras de toques gerais que, na evolução da técnica, transcendem ao espírito individual de cada autor e se implantem no vocabulário estético do cinema: se filmo um ‘cangaceiro’ no deserto, está implícita uma determinada decupage/montage fundada pelo western, fundação essa mais própria do western do que de Ford ou Hawks.” 76
“A maior parte dos filmes de jovens autores sofre, hoje em dia, deste ‘mal de Godard’. Somente um sofrimento direto do real e uma crítica dialética permanente pode ultrapassar o nível da imitação mitológica da técnica cinematográfica, intrumentalizando os jogos em expressões progressivas. Filmes brasileiros como Vidas Secas, A falecida ou Os Fuzis são exemplos de como cineastas colonizados podem instrumentalizar a técnica do cinema desenvolvido e promover uma expressão internacional” 77
“A atitude da maioria dos cineastas em relação à sua realidade degenera num tipo de cinema caligráfico, acadêmico que, nitidamente, denuncia um espírito contemplativo ou demagógico.” 77
“O cinema é uma colocação internacional e as contingências nacionais não justificam, em qualquer nível, um anulamento da expressão. Se no caso do cinema tricontinental a estética vem antes da técnica é justamente porque a estética tem mais a ver com ideologia do que com a técnica. Os mitos técnicos da zoom, do direct, da câmera a la main, da couleur, etc. são apenas instrumentos. O Verbo é ideológico e hoje em dia não existem mais fronteiras geográficas.” 77
“Enquanto se discute muito o problema da comunicação, o Cinema Novo discute o problema da criação. Irreconciliáveis a criação e o cinema? A maioria dos observadores responde que o cinema é uma arte de comunicação e se fecha aí. Criar se opõe, para estes observadores, a se comunicar. Do zero, como Lumiére, o cinema novo recomeça a cada filme, balbuciando um alfabeto brutal que significa tragicamente ‘civilização subdesenvolvida’.” 101
“NOVO aqui não quer dizer PERFEITO pois o conceito de perfeição foi herdado de culturas colonizadoras que fixaram um conceito de PERFEIÇÃO segundo os interesses de um IDEAL político. A verdadeira Arte Moderna, aquela que é ética-esteticamente revolucionária, se opõe, pela linguagem, a uma linguagem dominadora.” 101-102
“O problema não é, porém, como falam, entre o que é nacional e o que é universal. O problema é criar de suas próprias insuficiências e fazer destas qualidades as bases móveis de um pensamento em progresso. Aí estará um estilo internacional de arte, vanguarda portanto. Assim, o único fator estimulado para o desenvolvimento de estilos cinematográficos no Terceiro Mundo será a criação, que começa na tática da produção, se faz na liberdade dialética e se afirma na estratégia e tática de distribuição” 118
“O tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.” 118
“Primeiro se descobriu, se bem que em forma bastante esquemática, por que no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a idéia de que o subdesenvolvimento era integral. O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição à cultura ocidental como era no início (e era loucura, por que não temos metodologia): aceitamos a ricezione (recepção) integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa mas também a transformação mediante os nosso succhi (sucos, substâncias) e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.” 119
“Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento, por isso existe um cinema antes e depois do tropicalismo.” 119
“Esta relação antropofágica é de liberdade.” 119
“Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeira e profunda de um povo, então se pode até vencer.” 119
“É uma procura estética política que se move debaixo do signo de individualização do inconsciente coletivo, e para isso existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.” 120
“Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia é mais importante.” 120
“Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.” 121
“O cinema do futuro é Ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos. Para isto não basta uma ciência mas é necessário um processo de conhecimento e autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade. O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o tropicalismo.” 121
“O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias.” 122
“Existe um cinema da violência e do subdesenvolvimento, cinema de uma cultura da fome: nasce da resistência à violência da opressão e gera uma outra violência, revolucionária.” 122
“Mesmo no Brasil existe cinema e filme. Eu, no meu trabalho, tenho sido sempre mais atento no cinema brasileiro que nos filmes brasileiros. Os meus são filmes feitos para participar da construção do cinema brasileiro, em sentido maior.” 123
“Eu sempre me interessei por um cinema épico e por isto sempre me interessei também por estas formas populares de representação. Depois me dei conta das semelhanças – claro, indiretas – que existiam entre este tipo de estruturas teatrais e musicais populares e o trabalho de Brecht. Aí está: o meu cinema nasce desta tradição a que pertenço, e do cinema épico.” 124
“… a racionalização política e individual, o irracional do filmar que virá depois racional na montagem, para revirar irracional na montagem do som.” 124
“Estou contra toda teoria, mas isso é complexo” 141
“Cinema não é poesia, literatura ou pintura: é uma atividade industrial sob qualquer regime, capitalista ou socialista” 143
“O cinema da América Latina tem que desenvolver-se, fazer filmes de consumo, conquistar o público, enfrentar o cinema americano numa competição direta. Fazer obras polêmicas, de arte, de política, de tudo. É este um processo muito complexo que não pode ser visto isoladamente. O que acontece é que os jovens cineastas independentes combtaem a indústria, fazem películas que pretendem ser testemunhos sobre suas vidas, o que é um fenômeno literário que não tem interesse. O cinema é uma artenova que tem de ser conceituada também em termos do que interessa expor. Há assuntos que são ótimos para poesia ou diário literário, mas não para o cinema. Eu não quero saber a reflexão do cineasta argentino sobre sua amante; pode escrever um livro, se quiser, rodar um filme em 16mm. Mas o que acontece é que um cineasta jovem consegue dinheiro, faz um filme em 35mm, imitado geralmente de Godard e depois não é exibido, e se o é fracassa.” 143
“O cinema é uma arte que tem de comunicar-se, se isso não ocorre não faz sentido fazê-lo: fica como produto tecnológico do século XX destinado a ser absorvido pela TV, coisa velha que nem sequer encontra sala de projeção. O cineasta moderno é aquele que pode comunicar os problemas mais complexos e mais profundos através de uma linguagem que seja compreendida.” 145
“O caminho do cinema são todos os caminhos” 148
“… me disse que deveria começar a usar som direto, porque nos filmes, assim como a imagem é captada no real, o som também deve sê-lo. Por isso fiz O Dragào com som direto e foi pra mim uma experiência enorme, pois a gente se liberta do roteiro escrito, do diálogo predeterminado, e então o diretor pode criar um personagem independente, isto é, controla o personagem, mas este se manifesta por si mesmo. Não é naturalismo, nada disso. É controle do diretor, conseguindo maior participação do ator, já que o som direto os obriga a ser mais criativos.” 150
“Agora não se trata de dizer: ‘Vou usar som direto’, e logo fazer um filme como a maioria dos de cinema verdade, em que há um tipo que fala e fala e a gente não entende nada. Isso não serve: um som direto tem que ser ouvido, assim como a fotografia, que se vê. A imagem desenfocada, a não ser que trate de experiência estética, não funciona. Tudo tem de ser muito cuidado, a não ser que o diretor queira o contrário, mais isso já é problema de visão pessoal. O que não pode fazer é dizer que queria imagens fora de foco para justificar terem saído assim. Para fazer um filme é preciso conhecer certas coisas.” 150
“Acredito, inclusive, que não existe nenhum conflito entre cinema e TV. Temos de levar em conta isso: o fato de O Encouraçado Potemkim ter passado na TV não desmerece em nada o filme, pelo contrário. Quando Vidas Secas, de Nelson, foi projetado para a TV do Brasil é que o filme se realizou. Porque no Rio dois milhões de pessoas viram o filme e, ainda que não soubessem que era de Nelson, que era do cinema Novo, nada, o viram, e é o que importa. Há que acabar com o ritual cinematográfico. O cinema tem que existir hoje além da informação, da polêmica e da discussão. Nos países subdesenvolvidos, uma forma de resolver o problema da distribuição é fazer que os filmes não vistos sejam lançados pela TV. Porque não vamos passar a vida inteira lutando contra ela, e passarão anos e anos antes de se poder estabelecer uma cadeia de exibição.” 156
“O assunto é outro: é aproveitar a tecnologia o melhor possível para conseguir a maior comunicação possível.” 157
“O cinema é uma arte internacional, e um cineasta moderno deve poder fazer filmes em qualquer lugar. O cinema é um conjunto de signos visuais que é necessário aprender a manipular para abordar qualquer tipo de realidade. Conta com instrumentação muito diversa: sociologia, antropologia, literatura, poesia, economia, matérias sobre as quais o cineasta pode informar-se e finalmente agregar a sua própria inspiração, que é componente poética individual de cada autor. Sem esse componente o cinema não seria arte.” 158-159
“A forma como se resolvem as sequências, em sua mise-en-scène, esse é o problema do diretor. Pessoal. A mim interessa o cinema épico, faço-o quando me sinto melhor, ou seja, na cidade ou no campo. Sendo o cinema testemunho e ao mesmo tempo comunicação, não pode ter o componenete neurótico do cineasta colocado como fator preponderante. O cinema épico, de meu ponto de vista me favorece mais o poder de comunicar-me (emprego o conceito em seu sentido moderno, o de McLuhan – o meio é a mensagem) Comunicação de estruturas por vias visuais, auditivas, por vias estruturais. Esse é o problema. A mim o gênero épico – não o gênero, e sim estrutura e profusão épica – me permite maior comunicação.” 159
“A lingüística é hoje em dia uma ciência importantíssima para entender no cinema. Por exemplo, diz-se que um diretor faz filmes ‘a Antonioni’ ou ‘a Godard’; na verdade não faz nem um nem outro: como não tem um domínio maduro de sua lingüística, se submete, se coloniza, deixa-se absorver por outra linguagem. Fica então impossibilitado de atender à sua própria realidade, porque limita seu campo de pensamento àquela linguagem predeterminada.”
“O processo de criação cinematográfica é igual ao processo lingüístico. E algo arbitrário como são as palavras, que de um para outro idioma mudam arbitrariamente de significado. Ainda que façamos um exame de estrutura de cada linguagem, encontraremos um processo de eleição desses significantes e sua evolução em cada povo. No cinema está-se muito no campo de uma estrutura complexa que abarca organização de montagem, de pensamento mais do que de cenários, porque a capacidade dos planos cinematográficos – a mise-en-scène – composição da câmera e lente, é um posição limitada como a da composição musical: com todas as variações de lentes, alguém não tem nem quinze movimentos disponíveis de câmera e é forçoso limitar-se a esse alfabeto mais ou menos determinado como em música. Agora, o que o cineasta precisa é de articulação das estruturas e, para isto, entendê-las, examinar as estruturas sociais, dramáticas, etc., dos complexos do filme e demais componentes. A isso tudo soma-se a motivação poética.” 160
“Se alguém procura fazer um filme um filme no Peru sobre os indígenas, e vai com idéias preconcebidas filmar de acordo com uma linguagem que se aprendeu ou assimilou de outro diretor, fracassará. Mas ao contrário, se alguém não procura copiar, se começa a estudar realmente como isso funciona por dentro, logo se encontram elementos motivadores. As posições de câmera quando faço um roteiro, nunca as escrevo; faço uma análise dos personagens: sociológico, visual, de tudo, e as posições de câmera vão nascer quando estou filmando. As vezes um plano dura quatro minutos, mas eu não digo ‘corta aqui porque vou tirar o resto’; nada disso. Deixo primeiro o filme bruto, sem tocá-lo, depois vou pra sala de montagem e, com o material que se tiver, mais os novos elementos que vêm criados pelo som, vou selecionando. Mas sempre em função da estrutura pensada, ou rompendo a pensada e organizando outra. É um processo dialético estrutural.” 161
“… filmes Descolonizados são aqueles que se recusam a imitar os modelos norte-americanos e buscam refazer o cinema nacional a partir de nossas verdadeiras raízes culturais. Exemplo: Macunaíma, sucesso de crítica e público. Isto é CONQUISTAR o público. Filmes Colonizados são aqueles que utilizam as fórmulas pornográficas e violentas do cinema estrangeiro. Isso é EXPLORAR o público.” 200
“O cineasta do Terceiro Mundo não deve ter medo de ser ‘primitivo’. Será ingênuo se insistir em imitar a cultura dominadora. Também será ingênuo se se fizer patrioteiro. Deve ser antropofágico, fazer de maneira que o povo colonizado pela estética comercial/popular (Hollywood), pela estética populista/demagógica (Moscou), pela estética burguesa/artística (Europa) possa ver e compreender a estética revolucionária/popular que é o único objetivo que justifica a criação tricontinental. Mas, também é necessário criar essa estética.” 206
“O povo produz a cultura popular. Um cinema nacional é a montagem dos sons-imagens produzidos pelo povo. O povo tem a capacidade de reconhecer seus próprios sons-imagens se se ousa dizer que seus sons-imagens são nossos próprios sons-imagens.” 207
“O cinema brasileiro precisa de crítica capaz de fazer uma análise histórica dos filmes, caindo fora do caretíssimo é bom, é ruim, é acadêmico, é vanguardista…” 213
“O cinema brasileiro tem um público educado contra ele.” 214
“Não confundir o tropicalismo musical com a variante tropicalista do Cinema Novo. Ruy Guerra é de esquerda e Caetano é de direita.” 214
“O udigrúdi é um aborto restaurador do formalismo decadente dos amantes de Anastacya. O primeiro e único filme underground 68 é Câncer, made by Glauber Rocha.” 214
“É preciso uma revolução cultural no cinema, a tomada do cinema pelos intelectuais de vanguarda ligados às massas, para transformar o cinema numa poderosa máquina cultural e limpar o cinema de toda essa cambada de comerciantes, picaretas, vigaristas, pseudoatores, pseudorrealizadores.” 241
“A teoria cinematográfica está no ponto crítico, no ponto zero, e como as pessoas encarregadas do trabalho cultural dos vários partidos políticos também não se debruçam a fundo sobre essa questão, permitem esse liberalismo reformista dentro do cinema. O resultado é que o monstro continua devorando a alma das pessoas, e esse processo não se pode deixar que se repita. Esta é, na verdade, a luta dos cineastas revolucionários do Terceiro Mundo. Superar essas contradições e partir para um Cinema Novo que é a única forma de fazer que o cinema se salva. O cinema morre, por causa disso tudo, e por causa do autodestrutivismo do Godard e do reformismo, que são os dois modelos básicos. Falta uma terceira via, que só pode surgir com o rigor teórico, a reformulação profunda do cinema e de uma atuação dos produtores, dos cineastas e dos críticos, revoluc ionária, para combater o velho cinema e impor o novo.” 243
“Isso que acontece ao cinema é produto das contradições entre as diversas concessões que os cineastas podem fazer em cima de uma arte materialista dialética, ou seja, de origem marxista. Nesta sentido, eu não creio no simples produto de uma fantasia criativa; quero dizer, uma volta postulada, uma análise materialista histórico-dialética da realidade de um tema, se esta prática é verdadeiramente dialética, o produto estético, ou seja, produto artístico, aquele que provoca a sensação, o conhecimento ou a modificação da consciência, é a coisa mais importante que se pode fazer.” 267 268
“Queríamos, e eu particularmente quero, desenvolver o que se chama de cinema didático-épico como refutação do psicologismo e do moralismo. Procurávamos assim fazer um cinema anti-moralístico porquanto revolucionário. Procurávamos colocar em foco as contradições de tema e as relações entre os personagens sem romantismo revolucionário e sem oportunismo revolucionário. O Cinema Novo nunca foi ligado a um partido ou a uma organização política; tratava-se de um grupo no qual muitos diretores e intelectuais se constituíam eles mesmos em uma movimento de prática política. Sabendo bem que no Brasil não existia nenhuma tradição cinematográfica, necessitava criar tudo desde o princípio.” 268
“Essa é a minha posição: isto é, acredito que a crise no cinema advém desse baixo nível teórico e por isso os filmes são idealistas, retóricos, moralistas e não têm produzido nenhum impacto de transformação no público.” 269
“…para nós o cinema é um meio de materialização e não um fetiche.”269
“A primeira exigência do meu cinema é de reconhecer a cultura tradicional como cultura na qual os elementos revolucionários não são expressos.” 269
“O filme que chega numa grande sala tem maiores possibilidades de ser visto e discutido. Os modernos meios de discussão são fundamentais para o sentido do produto ideológico, que se modifica quando o filme vem a ser visto numa sala pequena. Os meus filme, como todos do Cinema Novo, foram vistas por camadas socais de público. O produto revolucionário deve ser para as grandes salas, mas o filme deve ser radical também do ponto de vista ideológico e formal. Por isso sou contra a fórmula que faz filmes idealistas com temas políticos, usando no caso a estrutura e meios do cinema americano, os dramas psicológicos, o ator estereotipado, montagem de efeito, etc., todas essas técnicas usadas para difundir uma idéia de esquerda, resultam falsas porque a idéia de esquerda se torna de direita. Não existe diferença entre a idéia e a forma: a linguagem é o resultado e o produto dialético das contradições.” 270
“O público deve ser conquistado democraticamente, mas nunca desfrutado. O filme deve ser democrático para um público proletário. Isso implica numa nova consciência de montagem, de exposição, de interpretação de diálogos… É fácil demais falar ao público através de uma linguagem convencional, que é antidialética.” 271
“No que me concerne, quando filme, certamente não faço economia de fantasia e de imaginação, mas procuro todavia fazer uma cinema estruturado e guiado de um pensamento que deve ser claro, não ambíguo, isto é, nos meus filmes as situações políticas SAP esclarecidas desde as primeiras sequências, de modo que o espectador possa ser liberado desses fantasmas e colocar-se livremente defronte o filme.”271
“Procuro aprofundar a análise dialética da história, deixo que os atores liberem suas energias, essa liberação das energias dos atores promete um produto estético diferente e coincide automaticamente com a liberação das estruturas audiovisuais.” 272
“Um filme é somente a materialização audiovisual de idéias. Sob muitos aspectos, pelo contrário, o cinema é subdesenvolvido em respeito à literatura: sem contar o desenvolvimento técnico, não existem idéias novas, são coisas muito vazias que não oferecem nem um boa informação.”272
“…não existe diferença entre a máquina de escrever e a cinematográfica, como é claro desde Walter Benjamin. Existe uma máquina que escreve letras e outra que naturaliza imagens; as letras ou as imagens são produto da tua imaginação, Mas hoje o cinema é uma aventura bastante difícil e muito arriscada.”272
