Proust e os Signos – Gilles Deleuze

“Assim, a tarefa do aprendiza é compreender por que alguém é recebido em determinado mundo e por que alguém deixa de sê-lo; a que signos obedecem esses mundos e quem são legisladores e seus papas.” 5

“O signo mundano não remete a alguma coisa, ele a ‘substitui’, pretende valer por seus sentido. Antecipa ação e pensamento, anula pensamento e ação, e se declara suficiente.” 6

“Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É tornar-se sensível a esses signos, apreendê-los. É possível que a amizade se nutra da observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de uma interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma ‘alma’: exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado.” 7

“Não podemos interpretar os signos de um ser amado sem desembocar mundos que se formaram sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros.” 7-8

“O amado nos emite signos de preferência; mas como esses signos são os mesmos  que aqueles que exprimem mundos de que não fazemos parte, cada preferência que nós usufruímos delineia a imagem do mundo possível onde outros seriam ou são preferidos.” 8

“Os signos amorosos não são como os signos mundanos: não são signos vazios, que substituem o pensamento e a ação; são signos mentirosos que não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhe dão sentido.” 9

“Uma qualidade sensível nos proporciona uma estranha alegria, ao mesmo tempo que nos transmite uma espécie de imperativo. Uma vez experimentada, a qualidade não aparece mais como uma propriedade do objeto que a possui no momento, mas como o signo de um objeto completamente diferente, que devemos tentar decifrar através de um esforço sempre sujeito ao fracasso.” 10-11

“No princípio, uma intensa alegria, de tal modo que estes signos já se distinguem dos precedentes por seu efeito imediato. Depois, uma espécie de sentimento de obrigação, necessidade de um trabalho do pensamento: procurar o sentimento do signo.”11

São signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum, signos plenos, afirmativos e alegres. São signos materiais. Não é apenas sua origem , mas a sua explicação, seu desenvolvimento, que permanece material. Sentimos perfeitamente que Blabec, Veneza… não surgem como produto de uma associação de idéias, mas em pessoa e essência.” 12

“o sentido material não é nada sem uma essência ideal que ele encarna. O erro é acreditar que os hieróglifos representam ‘apenas objetos materiais’. O que permita agora ao intérprete ir mais além é que, nesse meio-tempo, o problema da Arte foi colocado e resolvido. Ora, o mundo da Arte é o último mundo dos signos; e esses signos, como que desmaterializados, encontram seu sentido numa essência ideal. Desde então, o mundo revelado da Arte reage sobre todos os outros, principalmente sobre os signos sensíveis; ele os integra, dá-lhes o colorido de um sentido estético e penetra no que eles ainda tinham de opaco. Compreendemos então que os signos sensíveis já remetiam a uma essência ideal que se encarnava no seu sentido material. Mas sem a Arte nunca poderíamos compreendê-los, nem ultrapassar o nível de interpretação que correspondia à análise da Madeleine. É por esta razão que todos os signos convergem para a arte; todos os aprendizados, pelas mais diversas vias, são aprendizados inconscientes da própria arte. No nível mais profundo, o essencial está nos signos da arte.”13

“A filosofia atinge apenas verdades abstratas que não comprometem, nem perturbam. ‘As idéias formadas pela inteligência pura só possuindo uma verdade lógica, uma verdade possível, sua seleção torna-se arbitrária’. Ela são gratuitas porque nascidas da inteligência, que somente lhes confere uma possibilidade, e não de um encontro ou de uma violência, que lhes garantiria autenticidade. As idéias de inteligência só valem por sua significação explícita, portanto convencional. Um dos temas em que Proust mais insiste é esse: a verdade nunca é produto de uma boa vontade prévia, mas o resultado de uma violência sobre o pensamento. As significações explícitas e convencionais nunca são profundas, somente é profundo o sentido, tal como aparece encoberto e implícito num signo exterior. 15

“O acaso dos encontros, a pressão das coações são os dois temas fundamentais de Proust. Pois é precisamente o signo que é objeto de um encontro e é ele que exerce sobre nós a violência. O acaso do encontro é que garante a necessidade daquilo que é pensado.” 15

“O que quer dizer aquele que diz ‘eu quero a verdade’? Ele só quer ser coagido e forçado. Só a quer sob o império de um encontro, em relação a uma determinado signo. Ele quer interpretar, decifrar, traduzir encontrar o sentido do signo.” 15

“O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, alterando os seres e anulando o que passou; é também o tempo que se perde (por que, ao invés de trabalharmos e sermos artistas, perdemos tempo na vida mundana e nos amores?). E o tempo redescoberto é, antes de tudo, um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade; mas é também um tempo original absoluto, verdadeira eternidade que se afirma na arte.” 16

“Em arte ou literatura, quando a inteligência intervém, é sempre depois, nunca antes. ‘A impressão é para o escritor o mesmo que a experimentação é para o sábio, com a diferença de ser neste anterior e naquele posterior o trabalho de inteligência’. Em primeiro lugar, é preciso sentir o efeito violento de um signo, e que o pensamento seja como que forçado a procurar o sentido do signo.” 22

“Mas no caso do tempo que se perde e do tempo perdido, é a inteligência, e apenas ela, que é capaz de tornar possível o esforço do pensamento, ou de interpretar o signo; é ela que o encontra, contanto que venha ‘depois’. Dentre todas as formas de pensamento, só a inteligência extrai as verdades dessa ordem.” 22

“Graças a inteligência, descobrimos então o que não podíamos saber no início: que, quando pensávamos perder tempo, já fazíamos o aprendizado dos signos.” 23

“O signos mundanos implicam principalmente um tempo que se perde; os signos do amor envolvem particularmente o tempo perdido. Os signos sensíveis muitas vezes nos fazem redescobrir o tempo, restituindo-o no meio do tempo perdido. Finalmente, os signos da arte nos trazem um tempo redescoberto, tempo original absoluto que compreende todos os outros.” 23

“Pensamos que o próprio  ‘objeto’ traz o segredo do signo que emite e sobre ele nos fixamos, dele nos ocupamos para decifrar o signo. Por comodismo, chamemos objetivismo essa tendência que nos é natural ou pelo menos habitual.” 26

“Confundimos o significado do signo com o objeto que ele designa.” 26

“Em seus primeiros amores, ele faz o ‘objeto’ se beneficiar de tudo o que ele próprio sente: o que lhe parece único em determinada pessoa parece-lhe também pertencer a essa pessoa. Tanto que os primeiro amores são orientados para a confissão, que é justamente a forma amorosa de homenagem ao objeto.” 27

“Pois a percepção acredita que a realidade deva ser vista, observada, mas a inteligência acredita que ela deve ser dita e formulada.” 28

“Ao mesmo tempo ele aprende que a confissão não é o essencial do amor e que não é necessário, nem desejável, confessar: estaremos perdidos, toda a nossa liberdade estará perdida, se enriquecermos o objeto com signos e com as significações que não lhe pertencem.” 30

“É decepcionante, por natureza, uma literatura que interpreta os signos relacionando-os com objetos designáveis (observação e descrição),  que se cerca de garantias pseudo-objetivas do testemunho e da comunicação (conversa, pesquisa), que confunde o sentido com significações inteligíveis, explícitas e formuladas (grandes temas).” 31

“Cada linha de aprendizado passa por esses dois momentos: a decepção provocada por uma tentativa de interpretação objetiva e a tentativa de remediar essa decepção por uma associação subjetiva, em que reconstruímos conjuntos associativos. (…) o signo é sem dúvida mais profundo do que o sujeito que o interpreta, mas ainda se liga a esse sujeito, se encarna pela metade em uma série de associações subjetivas.” 34

“É apenas no nível das artes que as essências são reveladas. Mas, uma vez manifestadas na obra de arte, elas reagem sobre todos os outros campos: aprendemos que elas já se haviam encarnado, já estavam em todas as espécies de signos, em todos os tipos de aprendizado.” 36

“Nisto consiste a superioridade da arte sobre a vida”todos os signos que encontramos na vida ainda são signos materiais e seu sentido, estando sempre em outra coisa, não é inteiramente espiritual.” 39

“O que é uma essência, tal como é revelada na obra de arte? É uma diferença, a Diferença última e absoluta. É ela que constitui o ser, que nos faz concebê-lo. Porque só a arte, no que diz respeito à manifestação das essências, é capaz de nos dar o que procurávamos em vão na vida.” 39

“Cada sujeito exprime o mundo de um certo ponto de vista. Mas o ponto de vista é a própria diferença, a diferença interna e absoluta. Cada sujeito exprime, pois, um mundo absolutamente diferente e, sem dúvida, o mundo expresso não existe fora do sujeito que o exprime (o que chamamos de mundo exterior é apenas a projeção ilusória, o limite uniformizante de todos esses mundos expressos).  Mas o mundo expresso não se confunde com o sujeito: dele se distingue exatamente como a essência se distingue da existência e inclusive de sua própria existência. Ele não existe fora do sujeito que o exprime, mas é expresso como a essência, não do próprio sujeito, mas do Ser, ou da região do Ser que se revela ao sujeito. Razão pela qual cada essência é uma pátria, uma país; ela não se reduz a um estado psicológico, nem a subjetividade psicológica, nem mesmo a uma forma qualquer de subjetividade superior. A essência é a qualidade última no âmago do sujeito, mas essa qualidade é mais profunda que o sujeito, é de outra ordem: ‘Qualidade desconhecida de uma mundo único”. Não é o sujeito que explica a essência, é, antes, a essência que se implica, se envolve, se enrola no sujeito. Mais ainda: enrolando-se sobre si mesma ela constitui a subjetividade. Não são os indivíduos que constituem o mundo, mas os mundos envolvidos , as essências, que constituem os indivíduos: ‘Esses mundos que são os indivíduos e que sem arte jamais conheceríamos’. A essência não é apenas arte individual, é individualizante.” 40-41

“Talvez as essências tenham, elas próprias, se aprisionado,  se envolvido nas almas que elas individualizam. Não existem fora desse cativeiro, mas não se separam da ‘pátria desconhecida’ com que elas se envolvem em nós. São nosso ‘reféns’: morrem se morremos, mas se são eternas, de algum modo somos também imortais. Elas tornam a morte menos provável; a única prova, a única chance é estética.” 41-42

“Por essa razão, podemos dizer com todo o rigor que só a obra de arte é nos faz redescobrir o tempo: a obra de arte é o ‘único meio de redescobrir o tempo perdido’. Ela porta os signos mais importantes, cujo sentido está contido numa complicação primordial, verdadeira eternidade, tempo original e absoluto.” 44

“O verdadeiro tema da de uma obra não é o assunto tratado, sujeito consciente e voluntário que se confunde com aquilo que as palavras designam, mas os temais inconscientes, os arquétipos involuntários, dos quais as palavras, como as cores e os sons, tiram seu sentido e a sua vida. A arte é uma verdadeira transmutação da matéria. Nela a matéria se espiritualiza, os meios físicos se dematerializam, para refratar a essência, isto é, a qualidade de uma mundo original. Esse tratamento da matéria é o ‘estilo’.” 45

“Isso significa que o estilo é basicamente metáfora. Mas a metáfora é essencialmente metamorfose e indica como os dois objetos permutam suas determinações, e até mesmo a palavra que os designa, no novo meio que lhes confere a qualidade comum.” 45

“O estilo não é o homem, é a própria essência.”46

“É que a essência é em si mesma a diferença, não tendo entretanto, o poder de diversificar e de diversificar-se, sem a capacidade de se repetir, id6entica a si mesma. Que poderíamos fazer da essência, que é diferença última, senão repeti-la, já que ela não pode ser substituída, nada podendo ocupar-lhe o lugar. Por essa razão, uma grande música deve ser tocada muitas vezes; um poema, aprendido de cor e recitado. A diferença e a repetição só se opõem aparentemente e não existe um grande artista cuja obra não nos faça dizer: ‘a mesma e no entanto outra’.” 46

“Na verdade, diferença e repetição são as duas potências da essência, inseparáveis e correlatas.” 47

“Na arte, a matéria se torna espiritualizada e os meios desmaterializados. A obra de arte é, pois, um mundo de signos que são imateriais e nada têm de opaco, pelo menos para olho  ou ouvido artistas. Em segundo lugar, o sentido desses signos é uma essência que se afirma em toda a sua potência. Em terceiro lugar, o signo e o sentido, e essência e a matéria transmutada se confundem ou se unem numa adequação perfeita. Identidade de um signo como estilo e de um sentido como essência: esta é a característica da obra de arte.” 47

“A essência é sempre uma essência artista. Mas, uma vez descoberta,  ela não se encarna apenas nas matérias espiritualizadas, nos signos imateriais da obra de arte. Ela também se encarna nos outros domínios, que serão, desde então, integrados naquela obra.” 48

“As reminiscências são metáforas da vida; as metáforas são reminiscências da arte. Ambas, com efeito, têm algo em comum: determinam uma relação entre dois objetos inteiramente diferentes, ‘para subtrair às contingências do tempo’. Mas só a arte realiza plenamente o que a vida apenas esboçou. As reminiscências, na memória involuntária, são ainda vida: arte no nível da vida, consequentemente metáforas ruins. Ao contrário, a arte em sua essência, a arte superior a vida, não se baseia na memória involuntária, nem mesmo na imaginação e nas figuras inconscientes. Os signos da arte se explicam pelo pensamento puro como faculdade das essências. Dos signos sensíveis em geral, quer se dirijam a memória ou mesmo a imaginação, devemos dizer ora que vêm antes da arte e que a ela nos conduzem, ora que vêm depois da arte e que dela captam apenas os reflexos mais próximos.”52

LA ESTRUCTURA, EL SIGNO Y EL JUEGO EN EL DISCURSO DE LAS CIENCIAS HUMANAS

Conferência realizada por Jaques Derrida em 1966, na Universidade Johns Hopkins.

Quizás se ha producido en la historia del concepto de estructura algo que se podría llamar un «acontecimiento» si esta palabra no llevase consigo una carga de sentido que la exigencia estructural -o estructuralista- tiene precisamente como función reducir o someter a sospecha. Digamos no obstante un «acontecimiento» y tomemos esa palabra con precauciones entre comillas. ¿Cuál sería, pues, ese acontecimiento? Tendría la forma exterior de una ruptura y de un redoblamiento.

Sería fácil mostrar que el concepto de estructura e incluso la palabra estructura tienen la edad de la episteme, es decir, al mismo tiempo de la ciencia y de la filosofía occidentales, y que hunden sus raíces en el suelo del lenguaje ordinario, al fondo del cual va la episteme a recogerlas para traerlas hacia sí en un desplazamiento metafórico. Sin embargo, hasta el acontecimiento al que quisiera referirme, la estructura, o más bien la estructuralidad de la estructura, aunque siempre haya estado funcionando, se ha encontrado siempre neutralizada, reducida: mediante un gesto consistente en darle un centro, en referirla a un punto de presencia, a un origen fijo. Este centro tenía como función no sólo la de orientar y equilibrar, organizar la estructura -efectivamente, no se puede pensar una estructura desorganizada- sino, sobre todo, la de hacer que el principio de organización de la estructura limitase lo que podríamos llamar el juego de la estructura. Indudablemente el centro de una estructura, al orientar y organizar la coherencia del sistema, permite el juego de los elementos en el interior de la forma total. Y todavía hoy una estructura privada de todo centro representa lo impensable mismo.

Sin embargo el centro cierra también el juego que él mismo abre y hace posible. En cuanto centro, es el punto donde ya no es posible la sustitución de los contenidos, de los elementos, de los términos. En el centro, la permutación o la transformación de los elementos (que pueden ser, por otra parte, estructuras comprendidas en una estructura) está prohibida. Por lo menos ha permanecido siempre prohibida (y empleo esta expresión a propósito). Así, pues, siempre se ha pensado que el centro, que por definición es único, constituía dentro de una estructura justo aquello que, rigiendo la estructura, escapa a la estructuralidad. Justo por eso, para un pensamiento clásico de la estructura, del centro puede decirse, paradójicamente, que está dentro de la estructura y fuera de la estructura. Está en el centro de la totalidad y sin embargo, como el centro no forma parte de ella, la totalidad tiene su centro en otro lugar. El centro no es el centro. El concepto de estructura centrada -aunque representa la coherencia misma, la condición de la episteme como filosofía o como ciencia- es contradictoriamente coherente. Y como siempre, la coherencia en la contradicción expresa la fuerza de un deseo. El concepto de estructura centrada es, efectivamente, el concepto de un juego fundado, constituido a partir de una inmovilidad fundadora y de una certeza tranquilizadora, que por su parte se sustrae al juego. A partir de esa certidumbre se puede dominar la angustia, que surge siempre de una determinada manera de estar implicado en el juego, de estar cogido en el juego, de existir como estando desde el principio dentro del juego. A partir, pues, de lo que llamamos centro, y que, como puede estar igualmente dentro que fuera, recibe indiferentemente los nombres de origen o de fin, de arkhé o de telos, las repeticiones, las sustituciones, las transformaciones, las permutaciones quedan siempre cogidas en una historia del sentido -es decir, una historia sin más- cuyo origen siempre puede despertarse, o anticipar su fin, en la forma de la presencia. Por esta razón, podría decirse quizás que el movimiento de toda arqueología, como el de toda escatología, es cómplice de esa reducción de la estructuralidad de la estructura e intenta siempre pensar esta última a partir de una presencia plena y fuera de juego.

Si esto es así, toda la historia del concepto de estructura, antes de la ruptura de la que hablábamos, debe pensarse como una serie de sustituciones de centro a centro, un encadenamiento de determinaciones del centro. El centro recibe, sucesivamente y de una manera regulada, formas o nombres diferentes. La historia de la metafísica, como la historia de Occidente, sería la historia de esas metáforas y de esas metonimias. Su forma matriz sería -y se me perdonará aquí que sea tan poco demostrativo y tan elíptico, pero es para llegar más rápidamente a mi tema principal- la determinación del ser como presencia en todos los sentidos de esa palabra. Se podría mostrar que todos los nombres del fundamento, del principio o del centro han designado siempre lo invariante de una presencia (eidos, arché, telos, energeia, ousía [esencia, existencia, sustancia, sujeto], aletheia, trascendentalidad, consciencia, Dios, hombre, etc.).

El acontecimiento de ruptura, la irrupción a la que aludía yo al principio, se habría producido, quizás, en que la estructuralidad de la estructura ha tenido que empezar a ser pensada, es decir, repetida, y por eso decía yo que esta irrupción era repetición, en todos los sentidos de la palabra. Desde ese momento ha tenido que pensarse la ley que regía de alguna manera el deseo del centro en la constitución de la estructura, y el proceso de la significación que disponía sus desplazamientos y sus sustituciones bajo esta ley de la presencia central; pero de una presencia central que no ha sido nunca ella misma, que ya desde siempre ha estado deportada fuera de sí en su sustituto. El sustituto no sustituye a nada que de alguna manera le haya pre-existido. A partir de ahí, indudablemente se ha tenido que empezar a pensar que no había centro, que el centro no podía pensarse en la forma de un ente-presente, que el centro no tenía lugar natural, que no era un lugar fijo sino una función, una especie de no-lugar en el que se representaban sustituciones de signos hasta el infinito. Este es entonces el momento en que el lenguaje invade el campo problemático universal; este es entonces el momento en que, en ausencia de centro o de origen, todo se convierte en discurso -a condición de entenderse acerca de esta palabra-, es decir, un sistema en el que el significado central, originario o trascendental no está nunca absolutamente presente fuera de un sistema de diferencias. La ausencia de significado trascendental extiende hasta el infinito el campo y el juego de la significación.

¿Dónde y cómo se produce este descentramiento como pensamiento de la estructuralidad de la estructura? Para designar esta producción, sería algo ingenuo referirse a un acontecimiento, a una doctrina o al nombre de un autor. Esta producción forma parte, sin duda, de la totalidad de una época, la nuestra, pero ya desde siempre empezó a anunciarse y a trabajar. Si se quisiera, sin embargo, a título indicativo, escoger algunos «nombres propios» y evocar a los autores de los discursos en los que se ha llegado más cerca de la formulación más radical de esa producción, sin duda habría que citar la crítica nietzscheana de la metafísica, de los conceptos de ser y de verdad, que vienen a ser sustituidos por los conceptos de juego, de interpretación y de signo (de signo sin verdad presente); la crítica freudiana de la presencia a sí, es decir, de la consciencia, del sujeto, de la identidad consigo, de la proximidad o de la propiedad de sí; y, más radicalmente, la destrucción heideggeriana de la metafísica, de la onto-teología, de la determinación del ser como presencia. Ahora bien, todos estos discursos destructores y todos sus análogos están atrapados en una especie de círculo. Este círculo es completamente peculiar, y describe la forma de la relación entre la historia de la metafísica y la destrucción de la historia de la metafísica: no tiene ningún sentido prescindir de los conceptos de la metafísica para hacer estremecer a la metafísica; no disponemos de ningún lenguaje -de ninguna sintaxis y de ningún léxico- que sea ajeno a esta historia; no podemos enunciar ninguna proposición destructiva que no haya tenido ya que deslizarse en la forma, en la lógica y los postulados implícitos de aquello mismo que aquélla querría cuestionar. Por tomar un ejemplo entre tantos otros: es con la ayuda del concepto de signo como se hace estremecer la metafísica de la presencia. Pero a partir del momento en que lo que se pretende mostrar así es, como acabo de sugerir, que no había significado trascendental o privilegiado, y que el campo o el juego de significación no tenía ya, a partir de ahí, límite alguno, habría que -pero es justo eso lo que no se puede hacer- rechazar incluso el concepto y la palabra signo. Pues la significación «signo» se ha comprendido y determinado siempre, en su sentido, como signo-de, significante que remite a un significado, significante diferente de su significado. Si se borra la diferencia radical entre significante y significado, es la palabra misma «significante» la que habría que abandonar como concepto metafísico. Cuando Lévi‑Strauss dice en el prefacio a Lo crudo y lo cocido que ha «pretendido trascender la oposición de lo sensible y lo inteligible situándose de entrada en el plano de los signos», la necesidad, la fuerza y la legitimidad de su gesto no pueden hacernos olvidar que el concepto de signo no puede por sí mismo superar esa oposición de lo sensible y lo inteligible. Está determinado por esa oposición: de parte a parte y a través de la totalidad de su historia. El concepto de signo sólo ha podido vivir de esa oposición y de su sistema. Pero no podemos deshacernos del concepto de signo, no podemos renunciar a esta complicidad metafísica sin renunciar al mismo tiempo al trabajo crítico que dirigimos contra ella, sin correr el riesgo de borrar la diferencia dentro de la identidad consigo mismo de un significado que reduce en sí su significante o, lo que es lo mismo, expulsando a éste simplemente fuera de sí. Pues hay dos maneras heterogéneas de borrar la diferencia entre el significante y el significado: una, la clásica, consiste en reducir o en derivar el significante, es decir, finalmente en someter el signo al pensamiento; otra, la que dirigimos aquí contra la anterior, consiste en poner en cuestión el sistema en el que funcionaba la reducción anterior: y en primer lugar, la oposición de lo sensible y lo inteligible. Pues la paradoja está en que la reducción metafísica del signo tenía necesidad de la oposición que ella misma reducía. La oposición forma sistema con la reducción. Y lo que decimos aquí sobre el signo puede extenderse a todos los conceptos y a todas las frases de la metafísica, en particular al discurso sobre la «estructura». Pero hay muchas maneras de estar atrapados en este círculo. Son todas más o menos ingenuas, más o menos empíricas, más o menos sistemáticas, están más o menos cerca de la formulación o incluso la formalización de ese círculo. Son esas diferencias las que explican la multiplicidad de los discursos destructores y el desacuerdo entre quienes los sostienen. Es en los conceptos heredados de la metafísica donde, por ejemplo, han operado Nietzsche, Freud y Heidegger. Ahora bien, como estos conceptos no son elementos, no son átomos, como están cogidos en una sintaxis y un sistema, cada préstamo concreto arrastra hacia él toda la metafísica. Es eso lo que permite, entonces, a esos destructores destruirse recíprocamente, por ejemplo, a Heidegger, considerar a Nietzsche, con tanta lucidez y rigor como mala fe y desconocimiento, como el último metafísico, el último «platónico». Podría uno dedicarse a ese tipo de ejercicio a propósito del propio Heidegger, de Freud o de algunos otros. Y actualmente ningún ejercicio está más difundido.

¿Qué pasa ahora con ese esquema formal, cuando nos volvemos hacia lo que se llama las «ciencias humanas»? Una entre ellas ocupa quizás aquí un lugar privilegiado. Es la etnología. Puede considerarse, efectivamente, que la etnología sólo ha podido nacer como ciencia en el momento en que ha podido efectuarse un descentramiento: en el momento en que la cultura europea -y por consiguiente la historia de la metafísica y de sus conceptos- ha sido dislocada, expulsada de su lugar, teniendo entonces que dejar de considerarse como cultura de referencia. Ese momento no es en primer lugar un momento del discurso filosófico o científico, es también un momento político, económico, técnico, etc. Se puede decir con toda seguridad que no hay nada fortuito en el hecho de que la crítica del etnocentrismo, condición de la etnología, sea sistemáticamente e históricamente contemporánea de la destrucción de la historia de la metafísica. Ambas pertenecen a una sola y misma época.

Ahora bien, la etnología -como toda ciencia- se produce en el elemento del discurso. Y aquélla es en primer lugar una ciencia europea, que utiliza, aunque sea a regañadientes, los conceptos de la tradición. Por consiguiente, lo quiera o no, y eso no depende de una decisión del etnólogo, éste acoge en su discurso las premisas del etnocentrismo en el momento mismo en que lo denuncia. Esta necesidad es irreductible, no es una contingencia histórica; habría que meditar sobre todas sus implicaciones. Pero si nadie puede escapar a esa necesidad, si nadie es, pues, responsable de ceder a ella, por poco que sea, eso no quiere decir que todas las maneras de ceder a ella tengan la misma pertinencia. La cualidad y la fecundidad de un discurso se miden quizás por el rigor crítico con el que se piense esa relación con la historia de la metafísica y con los conceptos heredados. De lo que ahí se trata es de una relación crítica con el lenguaje de las ciencias humanas y de una responsabilidad crítica del discurso. Se trata de plantear expresamente y sistemáticamente el problema del estatuto de un discurso que toma de una herencia los recursos necesarios para la desconstrucción de esa herencia misma. Problemas de economía y de estrategia.

Si ahora consideramos a título de ejemplo los textos de Claude Lévi-Strauss, no es sólo por el privilegio que actualmente se le atribuye a la etnología entre las ciencias humanas, ni siquiera porque se trate de un pensamiento que pesa fuertemente en la coyuntura teórica contemporánea. Es sobre todo porque en el trabajo de Lévi-Strauss se ha declarado una cierta elección, y se ha elaborado una cierta doctrina de manera, precisamente, más o menos explícita, en cuanto a esa crítica del lenguaje y en cuanto a ese lenguaje crítico en las ciencias humanas.

Para seguir ese movimiento en el texto de Lévi-Strauss, escogemos, como un hilo conductor entre otros, la oposición naturaleza-cultura. Pese a todas sus renovaciones y sus disfraces, esa oposición es congénita de la filosofía. Es incluso más antigua que Platón. Tiene por lo menos la edad de la sofística. A partir de la oposición physis/nomos, physis/téchne , aquélla ha sido traída hasta nosotros a través de toda una cadena histórica que opone la «naturaleza» a la ley, a la institución, al arte, a la técnica, pero también a la libertad, a lo arbitrario, a la historia, a la sociedad, al espíritu, etc. Ahora bien, desde el inicio de su investigación y desde su primer libro (Las estructuras elementales del parentesco) Lévi-Strauss ha experimentado al mismo tiempo la necesidad de utilizar esa oposición y la imposibilidad de prestarle crédito. En Las estructuras… parte de este axioma o de esta definición: pertenece a la naturaleza lo que es universal y espontáneo, y que no depende de ninguna cultura particular ni de ninguna norma determinada. Pertenece en cambio a la cultura lo que depende de un sistema de normas que regulan la sociedad y que pueden, en consecuencia, variar de una estructura social a otra. Estas dos definiciones son de tipo tradicional. Ahora bien, desde las primeras páginas de Las estructuras, Lévi-Strauss, que ha empezado prestando crédito a esos conceptos, se encuentra con lo que llama un escándalo, es decir, algo que no tolera ya la oposición naturaleza-cultura tal como ha sido recibida, y que parece requerir a la vez los predicados de la naturaleza y los de la cultura. Este escándalo es la prohibición del incesto. La prohibición del incesto es universal; en ese sentido se la podría llamar natural; -pero es también una prohibición, un sistema de normas y de proscripciones- y en ese sentido se la podría llamar cultural. «Supongamos, pues, que todo lo que es universal en el hombre depende del orden de la naturaleza y se caracteriza por la espontaneidad, que todo lo que está sometido a una norma pertenece a la cultura y presenta los atributos de lo relativo y lo particular. Nos vemos entonces confrontados con un hecho o más bien con un conjunto de hechos que, a la luz de las definiciones anteriores, no distan mucho de aparecer como un escándalo: pues la prohibición del incesto presenta, sin el menor equívoco, e indisolublemente reunidos, los dos caracteres en los que hemos reconocido los atributos contradictorios de dos órdenes excluyentes: aquella prohibición constituye una regla, pero una regla que, caso único entre todas las reglas sociales, posee al mismo tiempo un carácter de universalidad» (p. 9).

Evidentemente sólo hay escándalo en el interior de un sistema de conceptos que preste crédito a la diferencia entre naturaleza y cultura. Al iniciar su obra con el factum de la prohibición del incesto, Lévi-Strauss se instala, pues, en el punto en que esa diferencia, que se ha dado siempre por obvia, se encuentra borrada o puesta en cuestión. Pues desde el momento en que la prohibición del incesto no se deja ya pensar dentro de la oposición naturaleza/cultura, ya no se puede decir que sea un hecho escandaloso, un núcleo de opacidad en el interior de una red de significaciones transparentes; no es un escándalo con que uno se encuentre, o en el que se caiga dentro del campo de los conceptos tradicionales; es lo que escapa a esos conceptos y ciertamente los precede y probablemente como su condición de posibilidad. Se podría decir quizás que toda la conceptualidad filosófica que forma sistema con la oposición naturaleza/cultura se ha hecho para dejar en lo impensado lo que la hace posible, a saber, el origen de la prohibición del incesto.

Evoco demasiado rápidamente este ejemplo, que es sólo un ejemplo entre tantos otros, pero que permite ya poner de manifiesto que el lenguaje lleva en sí mismo la necesidad de su propia crítica. Ahora bien, esta crítica puede llevarse a cabo de acuerdo con dos vías y dos «estilos». En el momento en que se hacen sentir los límites de la oposición naturaleza/cultura, se puede querer someter a cuestión sistemática y rigurosamente la historia de estos conceptos. Es un primer gesto. Un cuestionamiento de ese tipo, sistemático e histórico, no sería ni un gesto filológico ni un gesto filosófico en el sentido clásico de estas palabras. Inquietarse por los conceptos fundadores de toda la historia de 1a filosofía, des-constituirlos, no es hacer profesión de filólogo o de historiador clásico de la filosofía. Es, sin duda, y a pesar de las apariencias, la manera más audaz de esbozar un paso fuera de la filosofía. La salida «fuera de la filosofía» es mucho más difícil de pensar de lo que generalmente imaginan aquellos que creen haberla llevado a cabo desde hace tiempo con una elegante desenvoltura, y que en general están hundidos en la metafísica por todo el cuerpo del discurso que pretenden haber desprendido de ella.

La otra elección -y creo que es la que corresponde más al estilo de Lévi-Strauss- consistiría, para evitar lo que pudiera tener de esterilizante el primer gesto, dentro del orden del descubrimiento empírico, en conservar, denunciando aquí y allá sus límites, todos esos viejos conceptos: como instrumentos que pueden servir todavía. No se les presta ya ningún valor de verdad, ni ninguna significación rigurosa, se estaría dispuesto a abandonarlos ocasionalmente si parecen más cómodos otros instrumentos. Mientras tanto, se explota su eficacia relativa y se los utiliza para destruir la antigua máquina a la que aquellos pertenecen y de la que ellos mismos son piezas. Es así como se critica el lenguaje de las ciencias humanas. Lévi-Strauss piensa así poder separar el método de la verdad, los instrumentos del método y las significaciones objetivas enfocadas por medio de éste. Casi se podría decir que esa es la primera afirmación de Lévi-Strauss; en todo caso, son las primeras palabras de Las estructuras…: «Se empieza a comprender que la distinción entre estado de naturaleza y estado de sociedad (hoy preferiríamos decir: estado de naturaleza y estado de cultura), a falta de una significación histórica aceptable, presenta un valor que justifica plenamente su utilización por parte de la sociología moderna, como un instrumento de método».

Lévi‑Strauss se mantendrá siempre fiel a esa doble intención: conservar como instrumento aquello cuyo valor de verdad critica.

Por una parte, efectivamente, seguirá discutiendo el valor de la oposición naturaleza/cultura. Más de trece años después de Las estructuras…, El pensamiento salvaje se hace eco fielmente del texto que acabo de leer: «La oposición entre naturaleza y cultura, en la que hemos insistido en otro tiempo, nos parece hoy que ofrece sobre todo un valor metodológico». Y este valor metodológico no está afectado por el no-valor ontológico, cabría decir si no se desconfiase aquí de esa noción: «No bastaría con haber reabsorbido unas humanidades particulares en una humanidad general; esta primera empresa es el punto de partida de otras… que incumben a las ciencias exactas y naturales: reintegrar la cultura en la naturaleza, y finalmente, la vida en el conjunto de sus condiciones físico-químicas» (p. 327).

Por otra parte, siempre en El pensamiento salvaje, presenta Lévi-Strauss bajo el nombre de «bricolage» lo que se podría llamar el discurso de este método. El «bricoleur» es aquel que utiliza «los medios de a bordo», es decir, los instrumentos que encuentra a su disposición alrededor suyo, que están ya ahí, que no habían sido concebidos especialmente con vistas a la operación para la que se hace que sirvan, y a la que se los intenta adaptar por medio de tanteos, no dudando en cambiarlos cada vez que parezca necesario hacerlo, o en ensayar con varios a la vez, incluso si su origen y su forma son heterogéneos, etc. Hay, pues, una crítica del lenguaje en la forma del «bricolage» e incluso se ha podido decir que el «bricolage» era el lenguaje crítico mismo, singularmente el de la crítica literaria: pienso aquí en el texto de G. Genette, Estructuralismo y crítica literaria, publicado en homenaje a Lévi-Strauss en L’Arc, y donde se dice que el análisis del «bricolage» podía «ser aplicado casi palabra por palabra» a la crítica, y más especialmente a «la crítica literaria» (Recogido en Figures, ed. du Seuil, p. 145).

Si se llama «bricolage» a la necesidad de tomar prestados los propios conceptos del texto de una herencia más o menos coherente o arruinada, se debe decir que todo discurso es «bricoleur». E1 ingeniero, que Lévi‑Strauss opone al «bricoleur», tendría, por su parte, que construir la totalidad de su lenguaje, sintaxis y léxico. En ese sentido el ingeniero es un mito: un sujeto que sería el origen absoluto de su propio discurso y que lo construiría «en todas sus piezas» sería el creador del verbo, el verbo mismo. La idea de un ingeniero que hubiese roto con todo «bricolage» es, pues, una idea teológica; y como Lévi‑Strauss nos dice en otro lugar que el «bricolage» es mitopoético, todo permite apostar que el ingeniero es un mito producido por el «bricoleur». Desde el momento en que se deja de creer en un ingeniero de ese tipo y en un discurso que rompa con la recepción histórica, desde el momento en que se admite que todo discurso finito está sujeto a un cierto «bricolage», entonces, es la idea misma de «bricolage» la que se ve amenazada, se descompone la diferencia dentro de la que aquélla adquiría sentido.

Lo cual hace que se ponga de manifiesto el segundo hilo que tendría que guiarnos dentro de lo que aquí se está tramando.

La actividad del «bricolage», Lévi-Strauss la describe no sólo como actividad intelectual sino como actividad mitopoética. Se puede leer en El pensamiento salvaje (p. 26): «Del mismo modo que el “bricolage” en el orden técnico, la reflexión mítica puede alcanzar, en el orden intelectual, resultados brillantes e imprevistos. Recíprocamente, se ha advertido con frecuencia el carácter mitopoético del “bricolage”».

Ahora bien, el notable esfuerzo de Lévi-Strauss no está sólo en proponer, especialmente en sus investigaciones más actuales, una ciencia estructural de los mitos y de la actividad mitológica. Su esfuerzo se manifiesta también, y yo diría casi que en primer lugar, en el estatuto que le atribuye entonces a su propio discurso sobre los mitos, a lo que llama él sus «mitológicas». Es el momento en que el mito reflexiona sobre sí y se critica a sí mismo. Y ese momento, ese período crítico interesa evidentemente a todos los lenguajes que se distribuyen el campo de las ciencias humanas. ¿Qué dice Lévi-Strauss de sus «mitológicas»? Aquí es donde vuelve a encontrarse la virtud mitopoética del «bricolage». En efecto, lo que se muestra más seductor en esta búsqueda crítica de un nuevo estatuto del discurso es el abandono declarado de toda referencia a un centro, a un sujeto, a una referencia privilegiada, a un origen o a una arquía absoluta. Se podría seguir el tema de ese descentramiento a través de toda la Obertura de su último libro sobre Lo crudo y lo cocido. Me limito a señalar ahí algunos puntos.

1. En primer lugar, Lévi-Strauss reconoce que el mito bororo que utiliza aquí como «mito de referencia» no merece ese nombre ni ese tratamiento, que esa es una apelación engañosa y una práctica abusiva. Ese mito no merece, al igual que ningún otro, su privilegio referencial: «De hecho, el mito bororo, que de ahora en adelante será designado con el nombre de “mito de referencia”, no es, como vamos a intentar mostrar, nada más que una transformación, impulsada con más o menos fuerza, de otros mitos que provienen o de la misma sociedad o de sociedades próximas o alejadas. En consecuencia, hubiera sido legítimo escoger como punto de partida cualquier otro representante del grupo. El interés del mito de referencia no depende, desde este punto de vista, de su carácter típico, sino más bien de su posición irregular en el seno de un grupo» (página 10).

2. No hay unidad o fuente absoluta del mito. El foco o la fuente son siempre sombras o virtualidades inaprehensibles, inactualizables y, en primer término, inexistentes. Todo empieza con la estructura, la configuración o la relación. El discurso sobre esa estructura a-céntrica que es el mito no puede tener a su vez él mismo ni sujeto ni centro absolutos. Para no dejar escapar la forma y el movimiento del mito, tiene que evitar esa violencia que consistiría en centrar un lenguaje que describe una estructura a-céntrica. Así pues, hay que renunciar aquí al discurso científico o filosófico, a la episteme, que tiene como exigencia absoluta, que es la exigencia absoluta de remontarse a la fuente, al centro, al fundamento, al principio, etc. En contraposición al discurso epistémico, el discurso estructural sobre los mitos, el discurso mito-lógico debe ser él mismo mitomorfo. Debe tener la forma de aquello de lo que habla. Es eso lo que dice Lévi-Strauss en Lo crudo y lo cocido, del que quisiera ahora leer una extensa y hermosa página:

«Efectivamente, el estudio de los mitos plantea un problema metodológico por la circunstancia de no poder conformarse al principio cartesiano de dividir la dificultad en tantas partes cuantas se requiera para resolverla. No existe, en el análisis mítico, un verdadero término, no existe unidad secreta alguna que se pueda aprehender al cabo del trabajo de descomposición. Los temas se desdoblan hasta el infinito. Cuando cree uno que los ha desenredado unos de otros y que los mantiene separados, es sólo para constatar que vuelven a soldarse, en respuesta a solicitaciones de afinidades imprevistas. Por consiguiente, la unidad del mito es sólo tendencial y proyectiva, no refleja nunca un estado o un momento del mito. Fenómeno imaginario implicado por el esfuerzo de interpretación, su papel es el de dar una forma sintética al mito, e impedir que se disuelva en la confusión de los contrarios. Se podría decir, pues, que la ciencia de los mitos es una anaclástica, tomando este antiguo término en el sentido amplio autorizado por la etimología, y que admite en su definición el estudio de los rayos reflejados junto con el de los rayos rotos. Pero, a diferencia de la reflexión filosófica, que pretende remontarse hasta su fuente, las reflexiones de las que se trata aquí conciernen a rayos privados de cualquier foco que no sea virtual… Al querer imitar el movimiento espontáneo del pensamiento mítico, nuestra empresa, también ella demasiado breve y demasiado larga, ha debido plegarse a sus exigencias y respetar su ritmo. Así, este libro sobre los mitos es, a su manera, un mito.» Afirmación que se repite un poco más adelante (p. 20): «Como los mitos mismos, por su parte descansan en códigos de segundo orden (dado que los códigos de primer orden son aquellos en los que consiste el lenguaje), este libro ofrecería entonces el esbozo de un código de tercer orden, destinado a asegurar la traducibilidad recíproca de varios mitos. Por ese motivo no sería equivocado considerarlo un mito: de alguna manera, el mito de la mitología». Es por medio de esa ausencia de todo centro real y fijo del discurso mítico o mitológico como se justificaría el modelo musical que ha escogido Lévi-Strauss para la composición de su libro. La ausencia de centro es aquí la ausencia de sujeto y la ausencia de autor: «El mito y la obra musical aparecen así como directores de orquesta cuyos oyentes son los silenciosos ejecutantes. Si se pregunta dónde se encuentra el foco real de la obra, habrá que responder que su determinación es imposible. La música y la mitología confrontan al hombre con objetos virtuales, de los que tan sólo su sombra es actual… los mitos no tienen autores… » (p. 25).

Es, pues, aquí donde el «bricolage» etnográfico asume deliberadamente su función mitopoética. Pero al mismo tiempo, aquél hace aparecer como mitológico, es decir, como una ilusión histórica, la exigencia filosófica o epistemológica del centro.

Sin embargo, aunque se admita la necesidad del gesto de Lévi-Strauss, sus riesgos no pueden ignorarse. Si la mito-lógica es mito-mórfica, ¿vienen a resultar lo mismo todos los discursos sobre los mitos? ¿Habrá que abandonar toda exigencia epistemológica que permita distinguir entre diversas calidades de discursos acerca del mito? Cuestión clásica, pero inevitable. A eso no se puede responder -y creo que Lévi-Strauss no responde a eso- hasta que no se haya planteado expresamente el problema de las relaciones entre el filosofema o el teorema por una parte, y el mitema o el mito-poema por otra. Lo cual no es un asunto menor. Si no se plantea expresamente ese problema, nos condenamos a transformar la pretendida transgresión de la filosofía en una falta desapercibida en el interior del campo filosófico. El empirismo sería el género del que estas faltas continuarían siendo las especies. Los conceptos trans-filosóficos se transformarían en ingenuidades filosóficas. Podría mostrarse este riesgo en muchos ejemplos, en los conceptos de signo, de historia, de verdad, etc. Lo que quiero subrayar es sólo que el paso más allá de la filosofía no consiste en pasar la página de la filosofía (lo cual equivale en casi todos los casos a filosofar mal), sino en continuar leyendo de una cierta manera a los filósofos. El riesgo del que hablo lo asume siempre Lévi-Strauss, y es ese el precio mismo de su esfuerzo. He dicho que el empirismo era la forma matricial de todas las faltas que amenazan a un discurso que sigue pretendiéndose científico, particularmente en Lévi-Strauss. Ahora bien, si se quisiese plantear a fondo el problema del empirismo y del «bricolage», se abocaría sin duda muy rápidamente a proposiciones absolutamente contradictorias en cuanto al estatuto del discurso en la etnología estructural. Por una parte, el estructuralismo se ofrece, justificadamente, como la crítica misma del empirismo. Pero al mismo tiempo no hay libro o estudio de Lévi-Strauss que no se proponga como un ensayo empírico que otras informaciones podrán en cualquier caso llegar a completar o a refutar. Los esquemas estructurales se proponen siempre como hipótesis que proceden de una cantidad finita de información y a las que se somete a la prueba de la experiencia. Numerosos textos podrían demostrar este doble postulado. Volvámonos de nuevo hacia la Obertura en Lo crudo y lo cocido, donde aparece realmente que si ese postulado es doble es porque se trata aquí de un lenguaje sobre el lenguaje. «Las críticas que nos reprochasen no haber procedido a un inventario exhaustivo de los mitos sudamericanos antes de analizarlos, cometerían un grave contrasentido acerca de la naturaleza y el papel de estos documentos. El conjunto de los mitos de una población pertenece al orden del discurso. A menos que la población se extinga físicamente o moralmente, este conjunto no es nunca un conjunto cerrado. Valdría lo mismo, pues, reprocharle a un lingüista que escriba la gramática de una lengua sin haber registrado la totalidad de los actos de habla que se han pronunciado desde que existe esa lengua, y sin conocer los intercambios verbales que tendrán lugar durante el tiempo en que aquélla exista. La experiencia prueba que un número irrisorio de frases… le permite al lingüista elaborar una gramática de la lengua que estudia. E incluso una gramática parcial, o un esbozo de gramática, representan adquisiciones preciosas si se trata de lenguas desconocidas. La sintaxis, para manifestarse, no espera a que haya podido inventariarse una serie teóricamente ilimitada de acontecimientos, puesto que aquélla consiste en el cuerpo de reglas que presiden el engendramiento de esos acontecimientos. Ahora bien, es realmente de una sintaxis de la mitología sudamericana de lo que hemos pretendido hacer el esbozo. Si nuevos textos llegan a enriquecer el discurso mítico, esa será la ocasión para controlar o modificar la manera como se han formulado ciertas leyes gramaticales, para renunciar a algunas de ellas, y para descubrir otras nuevas. Pero en ningún caso se nos podrá oponer la exigencia de un discurso mítico total. Pues se acaba de ver que esa exigencia no tiene sentido» (pp. 15 y 16). A la totalización se la define, pues, tan pronto como inútil, tan pronto como imposible.

Eso depende, sin duda, de que hay dos maneras de pensar el límite de la totalización. Y, una vez más, yo diría que esas dos determinaciones coexisten de manera no-expresa en el discurso de Lévi‑Strauss. La totalización puede juzgarse imposible en el sentido clásico: se evoca entonces el esfuerzo empírico de un sujeto o de un discurso finito que se sofoca en vano en pos de una riqueza infinita que no podrá dominar jamás. Hay demasiadas cosas, y más de lo que puede decirse. Pero se puede determinar de otra manera la no-totalización: no ya bajo el concepto de finitud como asignación a la empiricidad sino bajo el concepto de juego. Si la totalización ya no tiene entonces sentido, no es porque la infinitud de un campo no pueda cubrirse por medio de una mirada o de un discurso finitos, sino porque la naturaleza del campo -a saber, el lenguaje, y un lenguaje finito- excluye la totalización: este campo es, en efecto, el de un juego, es decir, de sustituciones infinitas en la clausura de un conjunto finito. Ese campo tan sólo permite tales sustituciones infinitas porque es finito, es decir, porque en lugar de ser un campo inagotable, como en la hipótesis clásica, en lugar de ser demasiado grande, le falta algo, a saber, un centro que detenga y funde el juego de las sustituciones. Se podría decir, sirviéndose rigurosamente de esa palabra cuya significación escandalosa se borra siempre en francés, que ese movimiento del juego, permitido por la falta, por la ausencia de centro o de origen, es el movimiento de la suplementariedad. No se puede determinar el centro y agotar la totalización puesto que el signo que reemplaza al centro, que lo suple, que ocupa su lugar en su ausencia, ese signo se añade, viene por añadidura, como suplemento. El movimiento de la significación añade algo, es lo que hace que haya siempre «más», pero esa adición es flotante porque viene a ejercer una función vicaria, a suplir una falta por el lado del significado. Aunque Lévi-Strauss no se sirve de la palabra suplementario subrayando como yo hago aquí las dos direcciones de sentido que en ella se conjuntan de forma extraña, no es casual que se sirva por dos veces de esa palabra en su Introducción a la obra de Mauss, en el momento en que habla de la «sobreabundancia de significante con respecto a los significados sobre los que aquélla puede establecerse»: «En su esfuerzo por comprender el mundo, el hombre dispone, pues, siempre, de un exceso de significación (que reparte entre las cosas según leyes del pensamiento simbólico que corresponde estudiar a los etnólogos y a los lingüistas). Esta distribución de una ración suplementaria -si cabe expresarse así- es absolutamente necesaria para que, en conjunto, el significante disponible y el significado señalado se mantengan entre ellos en la relación de complementariedad que es la condición misma del pensamiento simbólico». (Sin duda podría mostrarse que esta ración suplementaria de significación es el origen de la ratio misma.) La palabra reaparece un poco más adelante, después de que Lévi-Strauss haya hablado de «ese significante flotante que es la servidumbre de todo pensamiento finito»: «En otros términos, e inspirándonos en el precepto de Mauss de que todos los fenómenos sociales pueden asimilarse al lenguaje, vemos en el mana, el wakan, el oranda, y otras nociones del mismo tipo, la expresión consciente de una función semántica, cuyo papel es permitir el ejercicio del pensamiento simbólico a pesar de la contradicción propia de éste. Así se explican las antinomias aparentemente insolubles, ligadas a esa noción… Fuerza y acción, cualidad y estado, sustantivo y adjetivo y verbo a la vez; abstracta y concreta, omnipresente y localizada. Y efectivamente, el mana es todo eso a la vez; pero precisamente, ¿no será, justo porque no es nada de todo eso, una simple forma o, más exactamente, símbolo en estado puro, capaz, en consecuencia, de cargarse de cualquier contenido simbólico? En ese sistema de símbolos que constituye toda cosmología, aquél sería simplemente un valor simbólico cero, es decir, un signo que marca la necesidad de un contenido simbólico suplementario [el subrayado es nuestro] sobre aquel que soporta ya el significado, pero que puede ser un valor cualquiera con la condición de que siga formando parte de la reserva disponible y que no sea, como dicen los fonólogos, un término de grupo». (Nota: «Los lingüistas han llegado ya a formular hipótesis de ese tipo. Así: “Un fonema cero se opone a todos los demás fonemas del francés en que no comporta ningún carácter diferencial y ningún valor fonético constante. Pero en cambio el fonema cero tiene como función propia oponerse a la ausencia de fonema” (Jakobson y Lotz). Casi podría decirse de modo semejante, y esquematizando la concepción que se ha propuesto aquí, que la función de las nociones de tipo mana es oponerse a la ausencia de significación sin comportar por sí misma ninguna significación particular».)

La sobreabundancia del significante, su carácter suplementario, depende, pues, de una finitud, es decir, de una falta que debe ser suplida.

Se comprende entonces por qué el concepto de juego es importante en Lévi-Strauss. Las referencias a todo tipo de juego, especialmente en la ruleta, son muy frecuentes, en particular en sus Conversaciones, Raza e historia, El pensamiento salvaje. Pero esa referencia al juego se encuentra siempre condicionada por una tensión.

Tensión con la historia, en primer lugar. Problema clásico, y en torno al cual se han ejercitado las objeciones. Indicaré sólo lo que me parece que es la formalidad del problema: al reducir la historia, Lévi-Strauss ha hecho justicia con un concepto que ha sido siempre cómplice de una metafísica teleológica y escatológica, es decir, paradójicamente, de esa filosofía de la presencia a la que se ha creído poder oponer la historia. La temática de la historicidad, aunque parece que se ha introducido bastante tarde en la filosofía, ha sido requerida en ésta siempre por medio de la determinación del ser como presencia. Con o sin etimología, y a pesar del antagonismo clásico que opone esas significaciones en todo el pensamiento clásico, se podría mostrar que el concepto de episteme ha reclamado siempre el de istoria, en la medida en que la historia es siempre la unidad de un devenir, como tradición de la verdad o desarrollo de la ciencia orientado hacia la apropiación de la verdad en la presencia y en la presencia a sí, hacia el saber en la consciencia de sí. La historia se ha pensado siempre como el movimiento de una reasunción de la historia, como derivación entre dos presencias. Pero si bien es legítimo sospechar de ese concepto de historia, al reducirlo sin plantear expresamente el problema que estoy señalando aquí, se corre el riesgo de recaer en un ahistoricismo de forma clásica, es decir, en un momento determinado de la historia de la metafísica. Tal me parece que es la formalidad algebraica del problema. Más concretamente, en el trabajo de Lévi-Strauss, hay que reconocer que el respeto de la estructuralidad, de la originalidad interna de la estructura, obliga a neutralizar el tiempo y la historia. Por ejemplo, la aparición de una nueva estructura, de un sistema original, se produce siempre -y es esa la condición misma de su especificidad estructural- por medio de una ruptura con su pasado, su origen y su causa. Así, no se puede describir la propiedad de la organización estructural a no ser dejando de tener en cuenta, en el momento mismo de esa descripción, sus condiciones pasadas: omitiendo plantear el problema del paso de una estructura a otra, poniendo entre paréntesis la historia. En ese momento «estructuralista», los conceptos de azar y de discontinuidad son indispensables. Y de hecho Lévi-Strauss apela frecuentemente a ellos, como por ejemplo para esa estructura de las estructuras que es el lenguaje, del que se dice en la Introducción a la obra de Mauss que «sólo ha podido nacer todo de una vez»: «Cualesquiera que hayan sido el momento y las circunstancias de su aparición en la escala de la vida animal, el lenguaje sólo ha podido nacer todo de una vez. Las cosas no han podido ponerse a significar progresivamente. A continuación de una transformación cuyo estudio no depende de las ciencias sociales, sino de la biología y de la psicología, se ha efectuado un paso desde un estado en que nada tenía un sentido a otro en que todo lo poseía». Lo cual no le impide a Lévi-Strauss reconocer la lentitud, la maduración, la labor continua de las transformaciones fácticas, la historia (por ejemplo en Raza e historia). Pero, de acuerdo con un gesto que fue también el de Rousseau o de Husserl, debe «apartar todos los hechos» en el momento en que pretende volver a aprehender la especificidad esencial de una estructura. Al igual que Rousseau, tiene que pensar siempre el origen de una estructura nueva sobre la base del modelo de la catástrofe -trastorno de la naturaleza en la naturaleza, interrupción natural del encadenamiento natural, separación de la naturaleza.

Tensión del juego con la historia, tensión también del juego con la presencia. El juego es el rompimiento de la presencia. La presencia de un elemento es siempre una referencia significante y sustitutiva inscrita en un sistema de diferencias y el movimiento de una cadena. El juego es siempre juego de ausencia y de presencia, pero si se lo quiere pensar radicalmente, hay que pensarlo antes de la alternativa de la presencia y de la ausencia; hay que pensar el ser como presencia o ausencia a partir de la posibilidad del juego, y no a la inversa. Pero si bien Lévi-Strauss ha hecho aparecer, mejor que ningún otro, el juego de la repetición y la repetición del juego, no menos se percibe en él una especie de ética de la presencia, de nostalgia del origen, de la inocencia arcaica y natural, de una pureza de la presencia y de la presencia a sí en la palabra; ética, nostalgia e incluso remordimiento, que a menudo presenta como la motivación del proyecto etnológico cuando se vuelve hacia sociedades arcaicas, es decir, a sus ojos, ejemplares. Esos textos son muy conocidos.

En cuanto que se enfoca hacia la presencia, perdida o imposible, del origen ausente, esta temática estructuralista de la inmediatez rota es, pues, la cara triste, negativa, nostálgica, culpable, rousseauniana, del pensamiento del juego, del que la otra cara sería la afirmación nietzscheana, la afirmación gozosa del juego del mundo y de la inocencia del devenir, la afirmación de un mundo de signos sin falta, sin verdad, sin origen, que se ofrece a una interpretación activa. Esta afirmación determina entonces el no-centro de otra manera que como pérdida del centro. Y juega sin seguridad. Pues hay un juego seguro: el que se limita a la sustitución de piezas dadas y existentes, presentes. En el azar absoluto, la afirmación se entrega también a la indeterminación genética, a la aventura seminal de la huella.

Hay, pues, dos interpretaciones de la interpretación, de la estructura, del signo y del juego. Una pretende descifrar, sueña con descifrar una verdad o un origen que se sustraigan al juego y al orden del signo, y que vive como un exilio la necesidad de la interpretación. La otra, que no está ya vuelta hacia el origen, afirma el juego e intenta pasar más allá del hombre y del humanismo, dado que el nombre del hombre es el nombre de ese ser que, a través de la historia de la metafísica o de la onto-teología, es decir, del conjunto de su historia, ha soñado con la presencia plena, el fundamento tranquilizador, el origen y el final del juego. Esta segunda interpretación de la interpretación, cuyo camino nos ha señalado Nietzsche, no busca en la etnografía, como pretendía Lévi-Strauss, de quien cito aquí una vez más la Introducción a la obra de Mauss, «la inspiración de un nuevo humanismo».

Se podría advertir en más de un signo, actualmente, que esas dos interpretaciones de la interpretación -que son absolutamente inconciliables incluso si las vivimos simultáneamente y las conciliamos en una oscura economía- se reparten el campo de lo que se llama, de manera tan problemática, las ciencias humanas.

Por mi parte, y aunque esas dos interpretaciones deben acusar su diferencia y agudizar su irreductibilidad, no creo que actualmente haya que escoger. En primer lugar porque con todo esto nos situamos en una región -digamos todavía, provisionalmente, de la historicidad- donde la categoría de «elección» parece realmente ligera. Y después, porque hay que intentar pensar en primer lugar el suelo común, y la diferancia de esta diferencia irreductible. Y porque se produce aquí un tipo de cuestión, digamos todavía histórica, ante la que apenas podemos actualmente hacer otra cosa que entrever su concepción, su formación, su gestación, su trabajo. Y digo estas palabras con la mirada puesta, por cierto, en las operaciones del parto; pero también en aquellos que, en una sociedad de la que no me excluyo, desvían sus ojos ante lo todavía innombrable, que se anuncia, y que sólo puede hacerlo, como resulta necesario cada vez que tiene lugar un nacimiento, bajo la especie de la no-especie, bajo la forma informe, muda, infante y terrorífica de la monstruosidad.

Jacques Derrida

Apresentação do novo Portal Capes

Estão abertas as inscrições para a APRESENTAÇÃO DO NOVO PORTAL DE PERIÓDICOS CAPES para  professores, pesquisadores, bibliotecários, alunos de pós-graduação e graduação da UFRGS. Estão disponíveis duas turmas e as vagas são limitadas a 40 pessoas por turma, respeitada a ordem de inscrição.

As apresentações ocorrerão no dia 13 de abril , terça-feira  uma turma no turno da manhã (das 09:00 às 12:00 horas) e outra no turno da tarde(das 14:00 às 17:00 horas), no Laboratório de Informática da Escola de Administração, situado na rua Washington Luis, 855, 2º andar.  As  apresentações serão ministradas por representante da Capes.

A inscrição deve ser realizada, exclusivamente pela internet, no site do Portal de Periódicos <http://novo.periodicos.capes.gov.br/> . Para realizar a inscrição é necessário ser usuário cadastrado no Portal. Quem ainda não se cadastrou clique aqui <http://novo.periodicos.capes.gov.br/?option=com_plogin>  e cadastre-se. Após, entre novamente no Portal e identifique-se com o login e senha cadastrados. Clique na aba Suporte e após clique em Treinamentos <http://novo.periodicos.capes.gov.br/index.php?option=com_ptreinaments&mn=72&smn=82> . Em Filtrar Treinamentos selecione o mês de abril  e clique no botão Filtrar,  na lista de treinamentos escolha a turma de sua preferência  e clique no botão Solicitar Inscrição.

A Capes fornece certificado de participação.

Conferência com Eric Landowski

O GEARTE convida para a Conferência “Regimes de Interação e Sentido na Educação” do Prof. Dr. Eric Landowski (CNRS,Paris)   e sessão de autógrafos, no dia 26 de março, às 14h, no Auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Inscrições pelo e-mail gearte.ufrgs@gmail.com

Eric Landowski é diretor de pesquisa no Centre National de la  Recherche Scientifique (CNRS), em Paris. Atua como pesquisador no Centre de Recherches Politiques de Sciences Po (CEVIPOF). Integra, como professor visitante, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUCSP. Dirige, desde 1994, o Centro de Pesquisas Sociossemióticas (CPS). Co-edita, desde a sua criação, a revista Actes Sémiotiques (hoje, Nouveaux Actes Sémiotiques). É membro de vários conselhos editoriais; no Brasil, das revistas Galáxia e Significação. Seus livros mais recentes, publicados em português, são: Presenças do Outro e A Sociedade Refletida: Ensaios de Sociossemiótica.

NÖTH, Winfried; SANTAELLA, Lúcia. Imagem: Cognição, Semiótica, Mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.

(…) o que se apresenta na passagem da imagem cinematográfica à videográfica até a infográfica é uma gradativa transformação que, partindo de corpos em movimento no tempo, vem atingir o movimento que ocorre na dimensão do tempo. Ou melhor, com a infografia, o tempo na imagem parece estar cada vez mais se aproximando do tempo audível, o tempo sonoro ou musical, tempo que não se confunde com atributos espaciais, no sentido de que é um fenômeno puramente temporal, não dependendo de componentes nem de dimensões espaciais, tal como ocorre na música (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.78).

“(…) a chave semiótica da computação gráfica não está só na imagem, mas nas ligações indissolúveis da imagem computacional com a forma de engendramento que é constitutiva da sintaxe sonora (…) A questão do tempo como passagem, sucessividade, evanescência, não pertence à lógica da visualidade, mas sim à lógica da narrativa, que é eminentemente verbal, e muito mais especialmente à lógica da música, que se constitui no território onde o tempo reina soberano.” ((NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.89).

Arlindo Machado (MACHADO, Arlindo. A imagem eletrônica: problemas de representação. Face 2(1): 69-81) afirma: “por existir apenas no tempo real e presente, a imagem eletrônica é pura duração, pura dromosfera, inscrição da velocidade, guardando, portanto, um parentesco muito maior com a música, estética por excelência da duração, do que com as artes plásticas ou visuais.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.90)

“Não se trata de demonstrar as semelhanças existentes entre a imagem eletrônica e o som eletrônico, isto é, as analogias entre os programas de som e de imagem sintéticas (…). Ao contrário, o que buscamos (…) (é) penetrar nas entranhas constitutivas e estruturais da computação gráfica como processo de signos.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 90).

C. S. Peirce chegou a insinuar que a tendência de todas as ciências é aumentar gradualmente seu nível de abstração até se saturarem na matemática (…).Do mesmo modo, parece haver uma tendência atual, em todas as linguagens, ,de caminharem para um modo de estruturação, para uma morfogênese semelhante à da música, que sempre foi, aliás, no seu movimento de puras relações, a mais matemática dentre todas as linguagens.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 909).

“(…) o que se tem hoje (…) é uma dissolução de fronteiras entre visualidade e sonoridade, dissolução que se exacerba a um ponto tal que, no universo digital do som e da imagem, não há mais diferenças em seus modos de formar, mas só nos seus modos de aparição, isto é, na maneira como se apresentam para os sentidos. (…) ambos dependem de programas, de valores numéricos, e de procedimentos específicos, algoritmos de simulação do som ou da imagem, para serem transmitidos nos terminais específicos de efeito sensível para o olho ou para o ouvido.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 91)

“Quando se menciona a música das formas no cinema e no vídeo, isso não tem por referência a trilha sonora, mas sim o movimento das próprias imagens, quer dizer, o movimento plástico no tempo” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 93)

“Enquanto na imagem fixa o máximo que se pode ter é a representação do tempo, no cinema tem-se a ilusão do tempo. No vídeo, entretanto, entramos no universo das imagens em movimento-tempo real, quando começam a se ampliar enormemente as possibilidades de manipulação temporal das imagens. Mas é só com o computador que o tempo passou a ser introjetado dentro da imagem em si mesma, imagem que, finalmente, adquire o poder de se comportar exatamente como o som  na sua natureza de puro tempo e para o qual caberia com justeza, do mesmo modo que sempre coube ao som, a caracterização de “pluralidade de devires imediatos”, com que Pierre Levy (1993: 127) nomeia a dinâmica cronológica do pólo informático-mediático em contraste com o pólo da escrita, de um lado, e o pólo da oralidade primária, de outro.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 93)

“O que na imagem é anamorfose, manipulação da sua integridade formal, constitui-se justamente na sua conversão morfológica a algo que se assemelha à natureza constitutiva do som, que só se estrutura na medida mesma em que são geradas interferências nos seus parâmetros e valores de intensidade, altura, duração e timbre”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 94)

“É só com os recursos da pós-produção, entretanto, quando as imagens analógicas passam por processamento digital […] que a imagem irá finalmente encontrar seu ponto de maior coincidência com o morfogênese do som.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 95)

“Embora analogias com a música já possam começar a ser encontradas em quaisquer linguagens plásticas não-figurativas (foi Goethe quem chamou a arquitetura de música congelada), é só na computação gráfica que, finalmente, a imagem passa a se comportar quase que exatamente à maneira das texturas, figurações, gestos, adensamentos e rarefações, enfim, mutaçãoes ou evoluções no tempo que são próprias dos campos sonoros.

É em razão disso que as imagens pós-fotográficas são justamente aquelas que se libertaram do trinômio olho-mediação-registro, saltando para um novo trinômio inaugurado pela imagem gerada por computador: cérebro-programa-expressão sensível, servindo este novo trinômio como modelo para caracterizar tanto a música quanto a imagem.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 95)

“A música […] porque só pode por fatalidade passar, evanescer, soar e desaparecer, é, tal como a vida, devir irremediável”. Assim como a imagem eletrônica que, “quanto mais […] se desprende de qualquer tipo de referencialidade, promessa e nostalgia de um registro do mundo, mais se aproxima da natureza dos campos sonoros.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 95)

“As imagens digitais […] mesmo quando buscam imitar a realidade visível, não são mais figuras de registro, mas simulações, produzidas pelo cérebro e mediadas por programas numéricos. É em razão disso que é na simulação de processos dinâmicos puramente hipotéticos que esse tipo de imagem atinge o limite mais otipizado de seu potencial” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 96)

“Já que tais signos abstratos (ou plásticos) aparecem em todas as imagens, enquanto os signos icônicos (ou figurativos) só existem como signos na pintura figurativa, não é o nível icônico do signo, mas sim o abstrato que tem um lugar fundamental na semiótica da pintura.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.142)

Aristóteles postulou 10 e Kant 12 categorias ontológicas. Peirce postulou apenas 3 categorias universais.

“Apesar de os signos pertencerem à categoria da terceiridade, já que eles unem um primeiro, a saber, o veículo do signo (representâmen), a um segundo, o objeto representado no signo, em um terceiro, a consciência interpretativa, os aspectos da primeiridade e da secundidade podem, em certos casos, predominar, de maneiras distintas, no signo.“ (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 143)

“Prototipo da imagen icônica não é a pintura figurativa, mas sim a não-figurativa, a abstrata. Protótipo da imagem indexical são a fotografia e a pintura realista, e protótipo da imagem simbólica é a pintura codificada iconológica ou iconograficamente.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 144)

“O ícone, de acordo com Peirce, é definido como um signo que possuiu caráter sígnico simplesmente devido às qualidades (de primeiridade) materiais próprias a ele” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 144) (quali-signo icônico)

Quali-signo icônico: um perceptum “sem referência pode ainda ser interpretado como signo ou […] um signo sem objeto não representa um paradoxo semiótico?” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 145). Para Peirce não há contradição porque pode haver a auto-representatividade do signo: um signo pode ser signo de sim mesmo. (eis uma possibilidade hipotética a q Peirce denomina Signo Degenerado, em oposição ao Signo genuíno).

Hipoícones: imagens figurativas, diagramas e metáforas.

Quali-signo icônico: signo degenerado que refere-se a si próprio. (ex: pintura monocromática: nega relação referencial, o observador precisa abrir mão da ilusão da referência, concentrando-se na materialidade do signo, na primeiridade. Imagens aleatórias tb configuram exemplo. )

Sin-signo icônico = ícone cujo veículo do signo é singular ou individual (ex: marca do pintor em sua pintura – action painting – Jackson Pollock – vestígios do meio, dos instrumentos e da mão. Outro exemplo: objet trouvé, como urinoir de Duchamp, ao retirar do contexto, percebem-se as marcas da escolha, da seleção)

Legi-signo icônico: veívulo do signo é definido por uma regularidade (qualidade como regularidade: simetria, harmonia, tensão, contraste, oposição, forma geométrica ou complementaridade cromática. Ex: construtivismo. Mondrian)

Quali, sin e legi-signos icônicos demonstram como pode haver uma semiótica sem uma semântica!

“Se a secundidade é uma relação existencial, o índice é genuíno. Se a secundidade é uma referência, o índice é degenerado (CP 2.283)”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 148)

Nem todas as fotografias são indexicais no mesmo grau. Há aquelas que tendem à primeiridade, ao quali-signo, como aquelas artísticas, de padrões estruturais abstratos. “Embora tais fotos estejam intimamente ligadas aos quali-signos da pintura abstrata, é suficiente saber que se trata, no caso, de fotos para se chegar à conclusão de que são sin-signos. Em vez de funcionarem de maneira dicente como fotos identificadoras, essas fotos são meros signos remáticos e pertencem, assim, do ponto de vista da sua relação com o interpretante, à categoria da primeiridade.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 150). Há outras que tendem à terceiridade, como aquelas científicas e as fotografias de propaganda, onde o fotógrafo até pode apr4sentar algo individual, mas seu objetivo é generalizar.

“Imagens se tornam símbolos quando o significado de seus elementos só pode ser entendido com a ajuda do código de uma convenção cultural” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 150). Imagem simbólica. “O protótipo da imagem simbólica degenerada em relação à secundidade é a pintura surrealista”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 153) = só podem ser codificadas a partir do sistema de leis da interpretação dos sonhos psicanalítico (causas psicobiológicas ou neurofisiológicas). “Os símbolos do sonho são, assim, estruturas indexicais da psiqueô”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 153). A terceiridade simbólica degenerada em relação à primeiridade é a pintura simbolista, na medida em que os signos mantêm uma relação de similaridade com os objetos.

Para Lúcia Santaella há três paradigmas no processo evolutivo de produção da imagem: o pré-fotográfico (imagens produzidas artesanalmente), o fotográfico (imagens produzidas por conexão dinâmica e captação física de fragmentos do mundo: foto, vídeo, cinema, holografia) e o pós-fotográfico (imagens sintéticas ou infográficas, inteiramente calculadas por computação) (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 157)

“[…] toda mudança no modo de se produzir imagens provoca inevitavelmente mudanças no modo como percebemos o mundo e, mais ainda, na imagem que temos do mundo. […] Não se quer com isso advogar um materialismo nu e cru, visto que as próprias mudanças materiais ou instrumentais são provocadas por necessidades que nem sempre são materiais, especialmente quando se trata de um processo de produção de linguagem, seja esta verbal, visual ou sonora. Neste caso, há uma espécie de força interior ao signo para produzir determinações no seu processo evolutivo, em uma espécie de tentetiva ininterrupta e inatingível de toda e qualquer linguagem para superar seus limites.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 158)

Para Peirce, “o objeto de uma representação pode ser qualquer coisa existente, perceptível, apenas imaginável, ou mesmo não siscetível de ser imaginada (CP2.232)”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 159)

“no caso da simulação a imagem também é uma representação, ou melhor, é friuto de uma série de representações.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 160) (ex: equações algébricas – traduzidas em pontos de luz na tela = representação de modelo; imagem sensível na tela = tipo de representação indicial da relação ponto a ponto do valor numérico com o pixel; imagem na tela é uma das representações icônicas possíveis do modelo que a gerou).

Paul Virilio em La machine de vision, apresenta 3 regimes de máquinas de visão: 1. era da lógica formal da imagem (pintura, gravura, arquitetura), 2. era da lógica dialética (foto, cinema, vídeo), 3. era da lógica paradoxal (infografia, videografia, holografia. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 161)

A imagen sintética é “completamente independente de qualquer objeto existente em qualquer espaço real” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 162)

“[…] trata-se, antes de tudo, de determinar o modo como as imagens são materialmente produzidas, com que materiais, instrumentos, técnicas, meios e mídias. […] nenhum processo de signo pode dispensar a existência de meios de produção, armazenamento e transmissão, pois são esses meios que tornam possível a existência mesma dos signos […]”(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 162)

No paradigma pré-fotográfico encontram-se os processos artesanais de criação da imagem, no fotográfico, os processos automáticos de captação da imagem e, no pós-fotográfico, os processos matemáticos de geração da imagem. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 163)

Questões observadas: (1) meios de armazenamento da imagem, (2) papel do agente produtor, (3) natureza das imagens em si mesmas, (4) as imagens e o mundo, (5) meios de transmissão, (6) papel do receptor. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 163)

“A característica básica do modo de produção artesanal está na realidade matérica das imagens, quer dizer, na proeminência com que a fisicalidade dos suportes, substâncias e instrumentos utilizados impõe sua presença.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 163). “Nessa imagem instauradora [monádica], fundem-se, num gesto indissociável, o sujeito que a cria, o objeto criado e a fonte da criação.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 164)

“A grande modificação que se dá na passagem do paradigma pré-fotográfico ao fotográfico está no advento de um processo de produção eminentemente diádico que a fotografia inaugurou” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 164)

“[…] no paradigma fotográfico o suporte é um fenômeno químico ou eletromagnético preparado para o impacto, pronto para reagir ao menor estímulo da luz.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 165)

“O negativo, captação da luz é, paradoxalmente, pura sombra, rastro escuro à espera da luz que só será restituída na revelação. A imagem revelada, por seu turno, é sempre um duplo, emanação direta e física do objeto, seu traço, fragmento e vestígio do real, sua marca e prova, mas o que ela revela, sobretudo, é a diferença, o hiato, a separação irredutível entre o real, reservatório infinito e inesgotável de todas as coisas, e o seu duplo, pedaço eternizado de um acontecimento que, ao ser fixado, indiciará sua própria morte. No instante mesmo em que éfeita a tomada, o objeto desaparece para sempre.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 165)

“[…] no pós-fotográfico o processo de produção é eminentemente triádico […] O suporte das imagens sintéticas não é mais matérico como na produção artesanal, nem físico-químico e maquínico como na morfogênese ótica, mas resulta do casamento entre um computador e uma tela de vídeo, mediados ambos por uma série de operações abstratas, modelos, programas, cálculos.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 166)

O computador, apesar de também ser uma máquina, é uma máquina de tipo diferente da máquina fotográfica que atua sobre uma realidade física: é uma máquina especial que age sobre “um substrato simbólico: a informação. Na nova ordem visual, […] o agente da produção não é mais um artista […] nem é um sujeito que age sobre o real, […] mas […] um programador cuja inteligência visual se realiza na interação e complementaridade com os poderes da inteligência artificial.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 166)

“Antes de ser uma imagem visualizável, a imagem infográfica é uma realidade numérica […] A imagem numérica é uma imagem em perpétua metamorfose, oscilando entre a imagem que se atualiza no vídeo e a imagem virtual ou conjunto infinito de imagens potenciais calculáveis pelo computador.”  (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 166)

“Embora as imagens que a tela permite visualizar sejam altamente icônicas […] tudo que se passa por trás da tela é radicalmente abstrato.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167)

Imagem sintética: “em primeiro lugar, o programador constrói um modelo de um objeto numa matriz de números, algoritmos ou instruções de um programa para os cálculos a serem efetuados pelo computador; em segundo lugar, a matriz numérica deve ser transformada de acordo com outros modelos de visualização ou algoritmos de simulação da imagem (Machado, Arlindo. Fotografia em mutação. Nicolau ano VII, no.  49: 14-15, 1993); então, o computador traduzirá essa matriz em pontos elementares ou pixels para tornar o objeto visível numa tela de vídeo.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167). Há uma conexão indicial entre o número no algoritmo e o pixel na tela.

“O que preexiste ao pixel? Um programa, linguagem e números. O que está implícito no programa? Um modelo. O ponto de partida da imagem sintética já é uma abstração, não existindo a presença do real empírico em nenhum momento do processo.  […] As duas palavras de ordem das imagens sintéticas são assim as palavras modelo e simulação.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167)

Arlindo Machado (Máquina e imaginário. O desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: Edusp, 1993) afirma que “A moderna ciência da computação denomina modelo um sistema matemático que procura colocar em operação propriedaes de um sistema representado. O modelo é, portanto, uma representação formal – e, como tal, passível de ser manipulado, transformado e recomposto em combinações infinitas – que visa funcionar como a réplica computacional da estrutura, do comportamento ou das propriedades de um fenômeno real ou imaginário. A simulação, por sua vez, consiste basicamente numa ‘experimentação simbólica’ do modelo.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167)

“A contribuição inestimável do computador está em seu poder de colocar os modelos à prova, sem necessitar submetê-los a experiências reais. […] O que muda com o computador é a possibilidade de fazer experiências que não se realizam no espaço e tempo reais sobre objetos reais, mas por meio de cálculos, de procedimentos formalizados e executados de uma maneira indefinidamente reiterável.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 168)

MEIOS DE PRODUÇÃO
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
expressão da visão via mão Autonomia da visão via próteses óticas Derivação da visão via matriz numérica
Processos artesanais de criação da imagem Processos automáticos de captação da imagem Processos matemáticos de geração da imagem
Suporte matérico Suporte químico ou eletromagnético Computador e vídeo

Modelos, programas

Instrumentos

Extensões da mão

Técnicas óticas de formação da imagem Números e pixels
Processo monádico Processo diádico Processo triádico
Fusão: sujeito, objeto e fonte Colisão ótica Modelos e instruções

Modelos de visualização

Pixels na tela

Imagem incompleta,

inacabada

Imagem corte, fixada para sempre Virtualidade e simulação

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 168)

“[…] o meio de armazenamento nas imagens artesanais coincide exatamente com esse suporte. […] No paradigma fotográfico […] A imagem passou […] a ganhar em eternidade o que perdeu em unicidade, pois um negativo é passível de ser revelado, ser reproduzido a qualquer momento. […] No caso das imagens pós-fotográficas […] entramos, na infografia, dentro do universo do disponível (Plaza, 1994), um universo que sofre muito pouco as restrições do tempo e do espaço.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 169).

MEIOS DE ARMAZENAMENTO
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
suporte único negativo e fitas magnéticas memória do computador
perecível reprodutível disponível

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 170)

“Enquanto as imagens artesanais resultam de um gesto idílico, […] as imagens fotográficas decorrem de uma espécie de rapto, roubo do real […]. As imagens de síntese […] resultam da necessidade de agir sobre or eal, necessidade esta atingida pela mediação de interações lógicas e abstratas com o computador.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 170)

PAPEL DO AGENTE PRODUTOR
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
Imaginação para a figuração Percepção e prontidão Cálculo e modelização
Gesto idílico Rapto Agir sobre o real
Olhar do sujeito Olhar da câmera e ponto de vista do sujeito Olhar de todos e de ninguém
Sujeito criador

Demiurgo

Sujeito pulsional

Movente

Sujeito manipulador

ubíquo

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 171)

As imagens artesanais são “a copia de uma aparência imaginarizada, funcionando como meio de ligação da natureza à imaginação de um sujeito. […] as imagens no paradigma fotográfico, menos do que representações, são reproduções por captação e reflexo. […] e no paradigma pós-fotográfico são simulações por modelização.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 171)

NATUREZA DA IMAGEM
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
figurar o visível e o invisível Registrar o visível Visualizar o modelizável
Figuração por imitação Capturar por conexão Simular por variações de parâmetro
Imagem espelho Imagem documento Imagem matriz
Cópia de uma aparência imaginarizada Registro do confronto entre sujeito e mundo Substrato simbólico e experimento

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 172)

“a imagem pré-fotográfica funciona como uma metáfora, janela para o mundo. […] embora seja eminentemente monádica […], o efeito final desse tipo de imagem é, ao fim e ao cabo, simbólico. Imagem fantasmática, ela visa ao ocultamento da separação intransponível entre imagem e mundo. […] o paradigma fotográfico funciona como metonímia […] nesse tipo de imagem o ícone reina soberano. […] o paradigma pós-fotográfico funciona sob o signo das metamorfoses, porta de entrada para um mundo virtual. […] Embora circule inteiramente dentro das abstrações simbólicas, a imagem sintética, visualisável nas telas de vídeo, produz um efeito icônico tão proemuinente quanto é proeminente a iconicidade na música.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 172-3)

IMAGEM E MUNDO
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
Aparência e miragem Duplo e emanação simulação
Metáfora metonímia metamorfose
Janela para o mundo Biunívoca virtual
Ideal de simetria Ideal de conexão Ideal de autonomia
Modelo imaginário e icônico Modelo físico Modelo simbólico
Evocativa Sombra ascética
Símbolo Índice ícone

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 174)

O modo de distribuição da imagem pós-fotográfica, “naquilo que tem de mais específico – a interatividade -, desloca essa imagem da esfera da comunicação para a esfera da comutação (Couchot, 1988: 130). Ao se afastar da lógica das mídias de massa, essa imagem faz sentido por contato, por contaminação, em lugar de projeção.”  (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 174)

PAPEL DE RECEPTOR
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
contemplação Observação interação
Nostalgia Reconhecimento imersão
Aura Identificação navegação

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 175)

“[…] pode-se afirmar que o paradigma pré-fotográfico é o universo do perene, da duração, repouso e espessura do tempo. O fotográfico é o universo do instantâneo, do lapso e interrupção no fluxo do tempo. O pós-fotográfico é o universo evanescente, em devir, universo do tempo puro, manipulável, reversível, reiniciável em qualquer tempo.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 175)

“[…] as imagens videográficas não se soltaram do fotográfico porque são ainda imagens por projeção, implicando sempre e preexistência de um objeto real cujo rastro fica capturado na imagem.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 176)

Para que a holografia passasse do pré-fotográfico para o fotográfico seria necessário que “tivesse se desprendido da servidão ao objeto preexistente, o que ela não fez inteiramente”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 177). Entretanto, seu modo de armazenamento já evidencia características pós-fotográficas. “ Mais prudente seria, pois, considerar a holografia numa zona intersticial entre o fotográfico e o pós-fotográfico.”.  (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 178)

“[…] o percurso da arte moderna, que se estendeu, pelo menos, de Cézanne a Mondrian, no seu objetivo progressivamente perseguido de ruptura da dependência da imagem aos objetos do mundo, fez a transição do paradigma fotográfico ao pós-fotográfico.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 178)

O cubismo foi “a primeira escola artística a estabelecer a independência da pintura em relação ao que era imediatamente visível” (SZAMOSI apud NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 180-1). Os Cubistas “avançaram suas investigações sobre a desestruturação do código figurativista até o limite de debilitar o poder denotativo dos signos pictóricos, reduzindo-os a traços elementares que obliteram a referencialidade das figuras.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 181)

“[…] o movimento artístico que mais fundamentalmente rejeitou nossa confiança na experiência sensorial direta – e que […] foi análogo à matemática pura no reino das ciências – foi a arte abstrata […]”, que abriu “o caminho para uma arte conceitual no lugar de uma arte visual […]” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 181)

“O enfoque matemático na arte contemporânea não são as matemáticas em si mesmas, e dificilmente faz uso do que conhecemos por matemáticas exatas. É sobretudo o emprego dos processos de pensamento lógico na expressão plástica dos ritmos e das expressões” (MAX BILL apud MENNA apud NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 182)

“[…] podemos ver que, quando os artistas da arte moderna [Melevich, Braque, Duchamp, Magritte] obstinada e progressivamente buscaram a independência da imagem dos objetos do mundo, eles estavam radiografando o futuro.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 183)

O problema da mistura de paradigmas e da hibridização das artes (p. 183 a 186)

“[…] o significado da palavra síntese, nas imagens de síntese, pode certamente apresentar duas acepções: de um lado, a idéia de modelagem e síntese numérica, de outro, a idéia de síntese dos três paradigmas. De fato, o que caracteriza o paradigma pós-fotográfico é sua capacidade de absorver e transformar os paradigmas anteriores. Não há hoje imagem que fique à margem das malhas numéricas.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 186)

Os 3 paradigmas da imagem: (1) pré-fotográfico, (2) fotográfico, (3) pós-fotográfico.

Para cada paradigma, há 4 níveis de que depende todo e qualquer tipo de processo sígnico ou de linguagem: (1) meios de produção, (2) meios de conservação ou armazenamento, (3) meios de exposição, transmissão ou difusão, (4) meios e modos de recepção (percepção, contemplação, observação, fruição ou interação)

Os 3 registros psicanalíticos: imaginário, real, simbólico (Lacan)

Imaginário/pré-fotográfico; real/fotográfico; simbólico/pós-fotográfico.

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 187)

Tem sido muito discutida a transposição do discurso psicanalítico para fora de seu próprio campo: o do inconsciente ou do sujeito inconsciente (Lacan). Entretanto, “Lacan literalmente afirmou que esses três registros […] são os registros essenciais da realidade humana, chamando-os também de categorias conceituais, com o que ele parece ter fornecido um argumento para a postulação de uma universalidade desses registros. […] Numa outra passagem […] Lacan (apud Balat 1988) citou C. S. Peirce, dizendo que é dentro da mesma visão da lógica relacional e triádica peirceana que seus registros se definem” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 188)

“O imaginário é, sem dúvida, o registro que mais proximamente se localiza dos problemas da imagem. Esse é basicamente o registro psíquico correspondente ao ego (ao eu) do sujeito, cujo investimento libidinal foi denominado por Freud de narcisismo. ‘O eu é como Narciso: ama a si mesmo, ama a imagem de si mesmo […] que ele vê no outro” (QUNINET apud NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 189)

Ver Introdução ao narcisismo, de Freud, qdo afirma que o eu é construído, e q não há unidade compatível ao eu do indivíduo, e o estágio do espelho, de Lacan, qdo desenvolve esta perspectiva, referindo-se ao interesse lúdico q a criança entre 6 e 18 meses desenvolve por sua imagem especular (a criança nesta fase é prematura, desamparada, sua imagem é ao mesmo tempo completa e sua e de outro –  problema do déficit. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“Na procura de si mesma, a consciência crê se encontrar no espelho das criaturas e se perde no que não é ela. Tal situação é fundamentalmente mítica, uma metáfora da condição humana que está sempre em busca de uma completude repetidamente lograda, capturada incansavelmente em miragens que encenam um sentido onde o sentido está sempre em falta.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“[…] As analogias da imagem pré-fotográfica com o imaginário estão […] expressas […] na relação, quer idílica, quer conflituosa, que a imagem artesanal mantém com a natureza do corpo. […] essa imagem implica a co-presença do corpo […] e do objeto ou coisa a ser projetada em uma superfície através da imaginação do artista. Entre o espelho e a miragem, ela é sempre fruto de um olhar transfigurador, capaz de projetar uma imagem de mundo: algo disperso que se configura numa unidade ideal, numa totalidade unificada.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“Trata-se […] de uma imagem ilusionista, na sua pretensão de completude, e inteiramente mítica, na sua suspensão do tempo […] uma imagem constitutiva de […] produzida por um sujeito individual e proposta para contemplação […] visto que é próprio do eu se projetar nas imagens em que se espelha.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“[…] o real lacaniano […] emerge como aquilo que do imaginário inevitavelmente sobra como resto e que o simbólico é impotente para capturar. […] [Então,] como se efetua para o ser falante a adequação do mundo imaginário com o mundo real na economia psíquica? Ora, é exatamente esse entrechoque entre o imaginário e o real que o paradigma fotográfico inaugurou. […] Há um descompasso, uma defasagem entre o ritmo do mundo, matéria vertente do vivido, e a capacidade do registro. A febre da vida não cabe em imagens. Sob as vestes da imagem, algo cai. Esse algo é o real, que resiste na sua irredutibilidade” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

O simbólico é o lugar do código da linguagem, da ordem e da lei, é onde fala a cultura (Outro X outro; Outro = está sempre já aí, linguagem, biblioteca total de Borges; outro = relação imaginária do eu e do outro, relação recíproca, simétrica ao eu imaginário)

O grande Outro, na imagem pós-fotográfica, é “numérica, simbólica por excelência, a dimensão de exterioridade do grande Outro põe em cena a posição excêntrica do sujeito” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“A questão da verdade ou mentira nas imagens tem um aspecto semântico, um sintático e um pragmático. De um ponto de vista semântico, uma imagem verdadeira deve ser aquela que corresponde aos fatos que representa. De um ponto de vista sintático, deve ser aquela que representa um objeto e transmite um predicado sobre este. Do ponto de vista pragmático, deve haver uma intenção de iludir por parte do emissor da mensagem pictórica.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 197)

“A diferença entre uma verdadeira simulação ilusória, uma genuína mentira visual e uma mera brincadeira está na dimensão pragmática da mensagem fotográfica.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 200)

“Na língua, somente sentenças, e não palavras individuais, podem ser verdadeiras ou falsas” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 200)

Rema: equivalente semiótico das palavras

Dicente: equivalente geral de proposições

Perspectiva logocêntrica: “O argumento da incompletude contextual foi primeiramente apresentado por Gombrich (1960:58-9). Em sua visão, as imagens sozinhas nunca podem funcionar como afirmações verdadeiras ou falsas. Somente quando uma imagem vem acompanhada de um título ou um rótulo, a resultante mensagem texto-imagem pode transmitir uma proposição verdadeira ou falsa.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 201).

Jerry Fodor discute a possibilidade de as imagens desempenharem o papel das palavras na língua natural, para se contrapor a tal perspectiva aludindo o princípio da não-segmentabilidade. “Ele conclui que tal linguagem pictorial não poderia existir porque a linearização dos argumentos e predicados impediriam tais palavras pictóricas de serem interpretadas como um todo proposicional.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 202)

“Em sua busca de um equivalente pictórico para as proposições verbais, Fodor comete o erro de projetar a linearidade da linguagem no domínio visual, onde, ao contrário, a simultaneidade é o princípio estrutural que relaciona os elementos remáticos em questão.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 202)

“[…] a manipulação sintática mais evidente de fotografias foi a de Mathias Wähner. As inserções do auto-retrato do fotógrafo na foto de outras celebridades tinham por objetivo falsificar uma proposição visual, inserindo um falso argumento junto com o predicado de contigüidade espacial.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 204)

Gombrich e Fodor usam o argumento da vagueza dicente para dizer que “as mensagens pictóricas são tão ambíguas, vagas e polissêmicas que elas não servem para provar qualquer verdade ou falsidade.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 204)

Exemplo: o gato está no capacho.

“Sempre que signos possam ser usados para asseverar a verdade, também podem ser usados para enganar. […] tanto as mensagens verbais quanto as pictóricas devem ser interpretadas dentro de seu contexto mais amplo.”

“Sebeok (1986), por exemplo, mostrou que mentir não está, de maneira alguma, restrito à semiose verbal, uma vez que isto acontece mesmo entre os animais, e a semiótica das imagens tem feito avanços ao investigar imagens como um sistema de signos autônomo em relação à linguagem verbal.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 208)

WISNIK, 1999 – O SOM E O SENTIDO

O campo modal, tal como é entendido aqui, abrange toda a vasta gama das tradições pré-modernas: as músicas dos povos africanos, dos indianos, chineses, japoneses, árabes, indonésios, indígenas das Américas, entre outras culturas. Ele inclui também a tradição grega antiga (que só conhecemos na teoria) e o canto gregoriano, que se constituem, ambos, em estágios modais da música do ocidente.

O tonal abrange o arco histórico que vai do desenvolvimento da polifonia medieval ao atonalismo (formação, fastígio e dispersão do sistema tonal na música chamada “erudita”, da Europa), e tem seu mo- [9-10] mento forte entre Bach e Wagner (ou Mahler), do barroco ao romantismo tardio, passando pelo estilo clássico.

O serial compreende as formas radicais da música de vanguarda no século XX, representadas por Schoenberg e Webern, e pelos seus desdobramentos que levam à música eletrônica, formas essas que serão comparadas, por contraste, com as tendências recentes à música repetitiva, também chamada minimalista. (Wisnik, 1999:9-10)

[…] gravitamos, segundo Carpeux, em torno da evolução tonal européia, e nisso consistiria necessariamente para nós a (história da) música. Convencido, como Spengler e Toynbee, de que “a música, assim como a entendemos, é um fenômeno específico da civilização”, e de que “em nenhuma outra civilização produziu fenômeno comparável à polifonia de Bach”, Carpeaux omitiu coerentemente o capítulo costumeiro sobre músicas modais “étnicas”, e começa a sua história pelas melodias diatônicas (e terminantemente ocidentais) do canto gregoriano, porque elas são a base sobre a qual se constitui o tonalismo. (Wisnik, 1999:10)

Assistimos hoje, ao que tudo indica, ao fim do grande arco evolutivo da música ocidental, que vem do cantochão à polifonia, passando através do tonalismo e indo se dispersar no atonalismo, no serialismo e na música eletrônica. Esse arco evolutivo, que compreende o grande ciclo de uma música voltada para o parâmetro das alturas melódicas (em determinado pulso, dominante nas músicas modais), é um traço singularizador da música ocidental. É possível que esse ciclo tenha se consumado na metade do século XX e que estejamos vivendo o intermezzo de um grande deslocamento de parâmetros, em que o pulso volta a ter uma atuação decisiva (as músicas populares, o jazz, o rock e o minimalismo dão sinais dessa direção). (Wisnik, 1999:11)

[…] a música fala ao mesmo tempo ao horizonte da sociedade e ao vértice subjetivo de cada um, sem se deixar reduzir às outras linguagens. Esse limiar está fora e dentro da história. A música ensaia e antecipa aquelas transformações que estão se dando, que vão se dar, ou que deveriam se dar, na sociedade. (Wisnik, 1999:13)

Assim como o corpo admite ritmos somáticos (a exemplo do sanguíneo) e ritmos psíquicos (como as ondas cerebrais), que operam em diferentes faixas de onda, as freqüências sonoras se apresentam basicamente em duas grandes dimensões: as durações e as alturas (durações rítmicas, alturas melódico-harmônicas).

O Bater de um tambor é antes de mais nada um pulso rítmico. Ele emite freqüências que percebemos como recortes de tempo, onde inscreve suas recorrências e suas variações. Mas se as freqüências rítmicas foram tocadas por um instrumento capaz de acelerá-las muito, a partir de certa de dez ciclos por segundo, elas vão mudando de caráter e passam a um outro patamar, o da altura melódica. A partir de um certo limiar de freqüência (em torno de quinze ciclos por segundo, mas estabilizando-se só em cem e disparando em direção ao agudo até a faixa audível de cerca de 15 mil hertz), o ritmo “vira” melodia. (Wisnik, 1999:20)[MBC1]

Nesse campo, pelo mesmo enlace corporal que já comentei a propósito do andamento rítmico, o som grave (como o próprio nome sugere) tende a ser associado ao peso da matéria, com os objetos mais presos à terra pela lei da gravidade, e que emitem vibrações mais lentas, em oposição à ligeireza leve e lépida do agudo (o ligeiro, como no francês léger, está associado à leveza).

A partir de certa altura os sons agudos vão progressivamente saindo da nossa faixa de percepção: a sua afinação soa distorcida, e eles vão perdendo intensidade até desaparecer para nós, embora sejam escutáveis (por um cão, por exemplo). (Wisnik, 1999:21)

A tradutibilidade subjacente entre durações por um outro dado extremamente intrigante que envolve a relação entre as duas: aquele ponto de inflexão que as separa, entre dez e quinze vibrações por segundo, no limiar oscilante entre as figuras rítmicas e a altura melódica, coincide muito aproximadamente com a faixa vibratória do chamado ritmo alfa. O ritmo alfa (situado entre oito e treze hertz) é uma freqüência cerebral que, ao que tudo indica, funciona para a nossa percepção como uma onda portadora de ondas, uma espécie de fundo condutor (desaparece no sono profundo e é recoberto por outros ritmos quando a nossa atenção está solicitada, mas é particularmente marcado no eletroencefalograma – quando os olhos estão fechados mas em vigília, ou quando olhamos sem fixar o olhar).

Segundo Alain Daniélou, em sua Sémantique musicale, “o ritmo alfa parece ser de fato a base que determina o valor do tempo relativo e conseqüentemente todas as relações do ser vivo com o seu ambiente”. Segundo essa interpretação, ele seria o fator constante e subjacente, padrão vibratório que “condiciona todas as percepções”, funcionando como um sinal de sincronização que comandaria o andamento da nossa sensação de tempo. (Quando árvores em série na beira da estrada, por exemplo, em sincronia com a velocidade do carro, entram nessa faixa, de freqüência, causam forte interferência sobre a atenção do motorista, podendo provocar acidente). (Wisnik, 1999:22)

O som do mar: durações oscilantes entre a pulsação e a inconstância, num movimento ilimitado; alturas em todas as freqüências, das mais graves às mais agudas, formando o que se chama um ruído branco. [N.R.: O ruído no qual todas as freqüências audíveis têm iguais chances de aparecer a cada momento é dito “branco” por analogia com o espectro contínuo e uniforme da cor; o ruído da turbina de um jato, ou de uma emissão de rádio a válvula fora da estação com o aparelho ligado no máximo volume, por exemplo.] (Wisnik, 1999:27)

Há mais essa peculiaridade que interessa ao entendimento dos sentidos culturais do som: ele é um objeto diferenciado entre os objetos concretos que povoam o nosso imaginário porque, por mais nítido que possa ser, é invisível e impalpável. O senso comum identifica a materialidade dos corpos físicos pela visão e pelo tato. Estamos acostumados a basear a realidade nestes sentidos. A música, sendo uma ordem que se constrói de sons, em perpétua aparição e desaparição, escapa à esfera tangível e se presta à identificação com uma outra ordem do real: isso faz com que se tenha atribuído a ela, nas mais diferentes culturas, as próprias propriedades do espírito. O som tem um poder mediador, hermético: é o elo comunicante do mundo material com o mundo espiritual e invisível. O seu valor de uso mágico reside exatamente nisto: os sons organizados nos informam sobre a estrutura oculta da matéria no que ela tem de animado. (Não há como negar que há nisso um modo de conhecimento e de sondagem de camadas sutis da realidade). (Wisnik, 1999:28)[MBC2]

Entre os objetos físicos, o som é o que mais se [28-29] presta à criação de metafísicas. As mais diferentes concepções do mundo, do cosmos, que pensam harmonia entre o visível e o invisível, entre o que se apresenta e o que permanece oculto, se constituem e se organizam através da música. (Wisnik, 1999:28-29)

Está indicado aí, nesse quadro mítico, que as músicas modais são músicas que procuram o som puro sabendo que ele está sempre vivamente permeado de ruído. Os deuses são ruidosos. A natureza sonora [39-40] do mundo, que não perde nunca o pé do pulso, se faz dessa mescla em que mora o núcleo do sacrifício, isto é, da ritualidade do som. (Wisnik, 1999:39-40)

Stravinski, na Sagração da primavera (1913), introduziu agregados de acordes, quase-clusters que funcionam como ruído, impulsões ruidosas, percussão operando numa métrica irregular que volta a questionar a linha perdida na tradição do Ocidente: a base produtiva do pulso. (A matéria sonora liberada por Stravinski pode ser pensada hoje como processo primário daquilo que tornará depois a base do rock, da qual ele faz uma espécie de prefiguração descontínua e assimétrica.) A Sagração, estrutura sonora provocando polêmica e pancadaria na platéia, ruído gerando ruído, desloca o lugar do silêncio, que sai da moldura e vai para o fundo, onde se recusa a responder à pergunta sobre a natureza do código musical (depois da dispersão do código tonal). A introdução do ruído atua ambivalentemente como acréscimo de carga informativa das mensagens e acelerador entrópico dos códigos (o que realimenta entropicamente as mensagens). está inaugurado o mundo moderno, com tudo aquilo que ele já contém de crise de proliferação pós-moderna. (Wisnik, 1999:44)[MBC3]

A incapacidade para introduzir diferenciação seria a síndrome dessa terminalidade. A negatividade da arte como recusa do social (como aquela recusa à consolação que Adorno viu na música de Schoenberg, expondo a angústia contemporânea) iria tomando assim, irreversivelmente, o caráter de uma natureza declinante do social.

Essa situação terminal (ligada a uma antropologia do ruído) teria seu correspondente numa psicossociologia defensiva da escuta (o ouvinte se fecha numa concha de som onde se embala só com o gênero de sua preferência, seja o jazz, o sambão, o rock, a música ligeira ou a experimental, numa redoma refratária a qualquer diferença, a qualquer deslocamento de seu código de adoção, o que significa não-escuta). A escuta indiscrimindada de qualquer diferença, a qualquer coisa também é não-escuta. Cumprir-se-ia, assim, em toda escala, no circuito vicioso e fechado da música de mercado, aquele fetichismo da música e a regressão da audição previstos por Adorno. O minimalismo seria o estilo estético desse eu mínimo (fechado defensivamente numa câmara de som repetitivo). (Wisnik, 1999:54)

[…] Sagração da primavera é estrutura profunda daquela música de ritmos e timbres, de ruído pulsante que o rock vai mostrar como estrutura de superfície (portada pela evidência de suas cadências harmônicas e seu compasso quartenário). (Wisnik, 1999:57)

As terças (maior e menor dó-mi, mi-sol) trabalham como o fator 5 (4/5 e 5/6) e incluem, segundo uma certa visão de semântica musical, cores afetivas e sentimentais no campo das alturas (no sistema tonal são o diferenciador de modo maior e menor, e suas cores mais “luminosas” ou “sombrias”, “alegres” ou “tristes”). Até aqui temos então, na série dos primeiros harmônicos, aqueles intervalos que a tradição tonal consagra como consonância: juntos, eles fazem o acorde perfeito maior (dó-mi-sol-dó).

Todos os outros intervalos são numericamente mais complexos, [64-65] mais difíceis para a percepção e a afinação. As sétimas (dó-si ou dó-si bemol), por exemplo, que serão intervalos importantes como tensionadores, contém pulsos internos cuja defasagem é mais pronunciada, resistindo mais à redução a uma pulsação básica (como se lutasse contra a redução ao período do som fundamental, que a oitava e a quinta aceitam com muito maior facilidade).

O trítono (ou quarta aumentada, intervalo de três tons que temos por exemplo entre o fá e o si ou o dó e o fá sustenido) é baseado numa relação numérica de 32/45. Divide a oitava ao meio, e é igual à sua própria inversão: projeta com isso uma forte instabilidade.[MBC4] Foi evitado na música medieval como o próprio diabolus in musica.

A segunda menor (dó-dó sustenido) é um intervalo estratégico: baseado na relação de 15/16, está perto dos menores intervalos relevantes para a diferenciação auditiva. Como é produto da defasagem entre dois pulsos muito próximos, quinze e dezesseis ciclos, a arritmia dissonante que ele produz soa como um erro que quer ser corrigido por igualamento, uma distorção que quer ser ajustada, uma diferença que quer ser reduzida, uma tensão da sensível, isto é, a nota tensa que desliza no espaço de um semitom (a segunda menor) e encontra repouso. Ou então desliza meio tom e cria conflito: ele é deslocador por excelência. A segunda menor põe em cena o glissando, a atração, a sedução.

Com isso já temos elementos para vizualizar a música das alturas como uma multiplicidade de acontecimentos, de movimentos relativamente estáveis e instáveis, entremeando suas diferenças como um trabalho de forças.

(Wisnik, 1999:64-65)

Talvez porque em seu estado primário e indiferenciado o campo das alturas seja tão fluido, uma longa tradição ligue simbolicamente a música ao mar, e alguns mitos gregos formulem de maneira eloqüente o caráter oceânico do som: Arion, prisioneiro de marinheiros que querem atirá-o às águas, pede para entoar o seu próprio canto fúnebre, acompanhado da sua lira, e em seguida se lança por conta própria ao oceano, onde os golfinhos, delfins de Apolo, atraídos pela música, o salvam: Dionísio, preso nas mesmas condições, transforma os piratas em golfinhos, condenados para sempre a salvar os náufragos. Essas são, na verdade, duas versões de um mesmo mito, que se pode parafrasear assim: o músico é capaz de dominar as forças informas do inconsciente, fazendo-as atuarem a seu favor; a música é um rito de passagem em que o sujeito se lança à morte (escolhendo por um artifício onírico, diria Freud, aquilo que não tem escolha) e renasce nela. (Wisnik, 1999:72)

Nas sociedades pré-modernas, um modo não é apenas um conjunto de notas mas uma estrutura de recorrência sonora ritualizada por um uso. As notas reunidas na escala são fetichizadas como talismãs dotados de certos poderes psicossomáticos, ou, em outros termos, como manifestação de uma eficácia simbólica (dada pela possibilidade de detonarem diferentes disposições afetivas: sensuais, bélicas, contemplativas, eufóricas ou outras). Esse direcionamento pragmático do modo (que se consuma no seu uso sacrificial ou solenizador) já está geralmente codificado pela cultura, onde seu poder de atuação sobre o corpo e a mente é compreendido por uma rede metafórica maior, fazendo parte de uma escala geral de correspondências, em que o modo pode estar relacionado, por exemplo, com um deus, uma estação do ano, uma cor um animal, um astro.

Um exemplo acabado de interpretação da escala musical como modelo cosmológico e político é dado pela concepção tradicional chinesa da escala pentatônica. Segundo um tratado cerimonial clássico, a nota kong (fá) representa o príncipe; chang (sol) os ministros; kio (lá) o povo; tché (dó) os negócios e yu (ré) os objetos.

(Wisnik, 1999:75)

A produção da música tradicional indiana liga-se a uma experiência do tempo produzido como pulso e desdobrado através de princípios ou escalas de recorrência cósmica que a música procura captar, afinado-se por elas. A sensação do tempo é dada pela afinação corporal e espiritual com uma série de ciclos micro e macrocósmicos integrados, codificados em cadeias analógicas. […] O metro “é ordem, mas não medida. Pois o tempo, para o indiano, não é um conceito de quantidade, mas um fator de qualidade, relativo à disposição psíquica do homem e isento de mediação racional por relógio ou metrônomo” [N.R.: “Cf o excelente verbete sobre música indiana, de Hans Jochin KOELREUTTER e Maria José CARNEIRO, na Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.”]. (Wisnik, 1999:91)

Segundo Steve Reich, o interesse pela música eletrônica, marcante nos anos 60, dissolveu-se nos anos 70 em nome de “um interesse pela música mundial”, despontando a “música-não-ocidental” (vale dizer, a tradição modal) como “a mais importante fonte de inspiração para os compositores ocidentais à procura de idéias novas” [N.R.: Steve REICH, Écrits et entretiens sur la musique (Paris, Christian Bourgois Éditeur) p. 86.]. (Wisnik, 1999:97)

O rock é a superfície de um tempo que se tornou polirrítmico. Progresso, regressão, retorno, migração, liquidação, vários mitos do tempo dançam simultaneamente no imaginário e no gestuário contemporâneos, numa sobreposição acelerada de fases e defasagens. (Wisnik, 1999:98)

A passagem do modal ao tonal acompanha aquela transição secular do mundo feudal ao capitalista e participa, assim, da própria constituição da idéia moderna de história com progresso. A formação gradativa do tonalismo remonta medieval e se consolida passo a passo ao longo dos séculos XVI, XVII e XVII (quando se pode dizer que o sistema está constituído). Na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX, à época do estilo clássico que vai de Haydn a Beethoven, o tonalismo vigora em seu ponto de máximo equilíbrio balanceado (no contexto da música “erudita”), passando em seguida por uma espécie de saturação e adensamento, que o levam à desagregação afirmada programaticamente nas primeiras décadas do século XX. Nesse arco histórico, que inclui a afirmação e a negação do sistema, a linguagem musical contracanta, à maneira polifônica, com aquilo que se costuma entender, em seu sentido mais amplo, por modernidade. (Wisnik, 1999:113)

Dito aqui de maneira apenas introdutória, a música tonal se funda sobre um movimento cadencial: definida uma área tonal (dada por uma nota tônica que se impõe sobre as demais notas da escala, polarizando-as), levanta-se a negação da dominante, abrindo a contradição que o discurso tratará de resolver em seu desenvolvimento. Mas a grande novidade que a tonalidade traz ao movimento de tensão e repouso (que, em alguma medida, está presente em toda música) é a trama cerrada que ela lhe empresta, envolvendo nele todos os sons da escala numa rede de acordes, isto é, de encadeamentos harmônicos. Tensão e repouso não se encontram somente na frase melódica (horizontal) mas na estrutura harmônica (vertical). Além disso, a tônica é negada dialeticamente por uma dominante que poderá, por modulação, constituir-se por sua vez de uma nova tônica. Os lugares são intercambiáveis e o discurso tonal vive dessa economia de trocas em que cada nota pode ocupar diferentes posições e mudar de função ao longo da seqüência.

[…]

Olhando panoramicamente, o tonal é o mundo onde se prepara, se constitui, se magnifica, se problematiza e se dissolve a grande diacronia: o tempo concebido em seu caráter antes de mais nada evolutivo. É o mundo da dialética, da história, do romance. Olhado internamente, o discurso tonal é também o discurso progressivo, “narrativo”, subordinante, baseado na expansão do movimento cadencial, no desdobramento seqüencial, no princípio do desenvolvimento. (Wisnik, 1999:114)

A grande história da tonalidade é, assim, a história da modernidade em suas duas acentuações: a constituição de uma linguagem capaz de representar o mundo através da profundidade e do movimento, da perspectiva e da trama dialética, assim como a consciência crítica que questiona os fundamentos dessa mesma linguagem e que põe em xeque a representação que ela constrói e seus expedientes. Esse movimento pode ser acompanhado ao longo da sua brilhante história, que é sem dúvida um dos pontos mais altos daquilo que chamamos Ocidente. (Wisnik, 1999:115)

Lévi-Strauss sustenta que a música e o mito são simétricos, como se fossem duas imagens espelhadas, correspondentes e complementares. É preciso situar um pouco o quadro teórico em que se dá essa comparação, para que ela se torne inteligível. Mas é necessário situar [161-162] também o momento histórico preciso em que essa simetria vigora, e posso adiantar que esse momento é, para Lévi-Strauss, o do nascimento do tonalismo e da invenção da fuga. Com a música tonal, o discurso musical incorpora a estrutura da narrativa mítica. (Wisnik, 1999:161-162)

“Na verdade, foi só quando o pensamento mitológico, não digo se dissipou ou desapareceu, mas passou para o segundo plano no pensamento ocidental da Renascença e do século XVII, que começaram a aparecer as primeiras novelas, em vez de histórias ainda elaboradas segundo o modelo da mitologia. E foi precisamente por essa época que testemunhamos o aparecimento dos grandes estilos musicais, característicos do século XVII e, principalmente, dos séculos XVIII e XIX.” [LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, em Mito e significado, p. 68.] (Wisnik, 1999:162)

“Foi preciso que o mito morresse enquanto tal, para que sua forma se liberasse dele como a alma deixando o corpo e fosse pedir à música o meio de uma re-encarnação.” [LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, em Mito e significado, p. 69.] Esse meio só foi possível graças ao caráter discursivo e progressivo de que se investia a música tonal, graças, agora, de sustentar, com recurso ao puro som, estruturas de cunho “narrativo”. (Wisnik, 1999:162)

A mutação que está implicada no surgimento do tonalismo, no entanto, leva a música a perder as suas antigas funções rituais, remetidas agora ao âmbito da contemplação estética, no contexto exclusivo da representação (o teatro de concerto será a câmara de som e silêncio adequada a esse novo estado de ritualidade em suspensão). É nesse momento que a linguagem musical, sem ter propriamente uma função ritual (suspensa no teatro da representação) e sem ser narrada por um mito, se investe internamente de estruturas míticas, “encarna” o mito na estrutura sonora, e o seu mito é o da crise e da reparação da ordem questionada e recomposta. (Wisnik, 1999:163)

“[…] a música, por um lado, e a mitologia, por outro, têm origem na linguagem, mas […] ambas as formas se desenvolveram separadamente e em diferentes direções: a música destaca os aspectos do som já presentes na linguagem, enquanto a mitologia sublima o aspecto do sentido, o aspecto do significado, que também está profundamente presente na linguagem”. [LÉVI-STRAUSS, L’homme nu, p. 578-80.] (Wisnik, 1999:164)

Na sua especularidade complementar, o mito é uma narrativa em que a imbricação do sucessivo e do simultâneo é uma narrativa em que a imbricação cristalina e partitural, e a música (tonal) é uma estrutura sonora em que a trama discursiva dos elementos ganha um direcionamento mítico.

Com efeito, se acompanhamos as análises estruturais de mitos feitas por Lévi-Strauss, entendemos melhor o porquê da equivalência simétrica com a música: os mitos não são para ele conteúdos narrativos, simplesmente, mas cristalizações semânticas feitas de paralelismos contrapontísticos, de ressonâncias harmônicas que se oferecem a uma leitura a um tempo linear e simultânea. Os elementos de uma narrativa mítica não são lidos simplesmente como um fio “melódico”, sucessivo e linear, mas agrupados em acordes e inscritos em planos contrapontísticos, donde se extraem correspondências e paralelismos. Como na música, o que importa não está apenas na horizontalidade da sucessão, mas na verticalidade do simultâneo.[MBC5] (Wisnik, 1999:164)

Chegamos assim ao exemplo da fuga. Há mitos em que contracantam duas espécies ou grupos de personagens (que podem ser qualificados, simplificadoramente, como “bons” e “maus”).

A história inventariada pelo mito é a de um grupo que tenta escapar ou fugir de outro grupo de personagens. Trata-se então de uma perseguição de um grupo pelo outro, chegando às vezes o grupo A a alcançar o grupo B, distanciando-se depois novamente o grupo B – tudo como na fuga. Tem-se o que se chama em francês ‘le sujet e la réponse’. A antítese ou antifonia continua pela história afora, até ambos os grupo esta- [165-166] rem quase misturados e confundidos – um equivalente à stretta da fuga; finalmente, a solução ou clímax deste conflito surge pela conjugação dos dois princípios que se tinham oposto durante todo o mito. Pode ser um conflito entre os poderes de cima e os poderes de baixo, o céu e a terra, ou o sol e os poderes subterrâneos, e assim sucessivamente. A solução mítica de conjugação é muito semelhante em estrutura aos acordes que resolvem e põem fim à peça musical, porque também eles oferecem uma conjugação de extremos que se juntam por um e última vez. [LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, pp. 72-73] [MBC6]

A afinidade entre o mito e a música permite entender a idéia lévi-straussiana de que, em determinado momento, estruturas que se realizavam na esfera do mito tomam de assalto, por assim dizer, a esfera da música, e essas estruturas, como a fuga, resultavam justamente daquele longo processo de simultaneanização do sucessivo que foi empreendido durante séculos na linguagem musical. (Wisnik, 1999:165-166)

Assim, no período tonal, “tudo se passa como se a música e a literatura dividissem entre si a herança do mito”, ficando uma com os personagens e a ação, e a outra com o tecido relacional através do qual se encadeiam os motivos. [LÉVI-STRAUSS, L’homme nu, p. 573.] (Wisnik, 1999:166)

Sob o domínio da tonalidade, música e literatura são artes que se procuram, como se quisessem suprir a falta de um signo total sobre o qual se deslocam num movimento sem fim. A consciência moderna vive no entanto desse dualismo entre o significante e o significado, que ela reproduz em toda a parte, ao mesmo tempo em que busca superá-lo. O mito torna-se ele mesmo um mito: o da significação total. Entre a reposição da divisão que as afasta, e a superação desta, a música e a literatura se concebem como partes complementares ou cindidas de [166-167] uma linguagem una, perseguida ou evocada pela poesia, pela prosa poética, pela ópera, pela canção. (Wisnik, 1999:166-167)

Pode-se aquilatar a afinidade radical entre a teoria de Lévi-strauss e a estrutura da fuga quando ele diz que a música e a mitologia são, “se assim se pode dizer, duas irmãs geradas pela linguagem que seguiram caminhos diferentes, escolhendo cada uma a sua direção – como na mitologia, em que um personagem vai para o norte, enquanto o outro se dirige para o sul, e nunca mais se encontram”. [N.R.: LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, p. 76] O antropólogo, que queria ser músico, vislumbrou nessa imagem, segundo confessa, a possibilidade de compor a polifonia das vozes, não com sons, mas com significados, não como músico, mas como orquestrador de mitos. (Wisnik, 1999:168)

Ao final dessa alquimia estrutural a música vem a ser, assim entendida, uma combinação singular de som e sentido, na qual o termo quase dispensado seria a própria língua. (Wisnik, 1999:269)

A estrutura mítica da sonata, por sua vez, contrasta com a da fuga. A sonata é uma forma que advém do abandono da polifonia e das defasagens. Nela, a sucessão não está a serviço da simultaneidade (polifônica), mas a simultaneidade (harmônica) é que está a serviço da sucessão, realizada no esquema habitual em que um primeiro tema dá um desenvolvimento integrado que conduz è reexposição do segundo tema, com coda (final). A sincronia aqui se expressa necessariamente na diacronia, no destino dos motivos, nas suas transformações evolutivas, na grande fase. (Wisnik, 1999:169)

Pode-se dizer que esse mito é o da luta amorosa (o que está indicado no costume de apontar os dois temas em jogo ora como antagonistas, ora como complementares, da ordem do masculino e do feminino). Luta que trabalha com a instalação de uma tensão a partir de um campo harmônico dado, desenvolvida através do desdobramento dos motivos e das modulações, e reparada através do “reconhecimento” dos motivos iniciais que retornam ao seu lugar de partida. Pode-se também pensar essa luta, ou esse amor, em suas afirmações e negações, como um processo interno ao espírito, sua biografia sinfonizada, paralela ao romance mas também à filosofia. Isso é possível porque a música trabalha, como dizia Hegel, na objetivação sonora em que a subjetividade se reconhece e se supera, com a concordância, a oposição e a mediação dos sons (vejam-se aí os passos da dialética), “o que torna possíveis a progressão destes e a passagem recíproca de uns aos outros”. [HEGEL, Estética, p. 233.] (Wisnik, 1999:169)

O aprofundamento dessa contradição envolve a instabilização do sistema, com a transição permanente e a relativização do centro tonal. Nisso também a tonalidade em desenvolvimento na sonata é ocidental: pensamente evolutivo e negador, progride questionando os seus próprios fundamentos. (Wisnik, 1999:170)

Lévi-Strauss diz que Bach é um músico do código, Beethoven da mensagem, e Wagner do mito. Os músicos do código “explicitam e comentam em suas mensagens as regras de um discurso musical”; os músicos da mensagem “narram” e os do mito “codificam suas mensagens a partir de elementos que são já da ordem da narrativa”. [LÉVI-STRAUSS, Lecru e le cuit, p. 38.] Em Bach temos a expressão sincrônica do sistema, no momento em que se fecha o circuito entre a harmonia e a polifonia. Em Beethoven, a mobilização das energias potenciais do sistema que avança questionando o princípio do progresso, numa negação que guarda intacto o seu fundamento heróico. Em Wagner, que escreveu algumas das mais impressionantemente belas entre as músicas, a grandeza e derrocada de uma arte total concebida como aniquilação onde, como disse dele Adorno, o imperialista decadente tem o mérito de sonhar a sua própria catástrofe. [ADORNO, Essai sur Wagner (Paris, Gallimard, 1975), p. 209.] (Wisnik, 1999:170)

O sistema de doze sons criado por Schoenberg em 1923, depois de um período atonal que derivava do aprofundamento das contradições do tonalismo, se apresenta como a decorrência implacável e ao mesmo tempo a antítese do sistema tonal. Ele rejeita cerradamente o princípio tonal, isto é, o movimento cadencial de tensão e repouso.[MBC7]

Ao pensar o sistema de composição por séries, com o qual Schoenberg buscava uma espécie de descentralização do campo sonoro, igua- [173-174] lando a função estrutural atribuída a todas as notas da escala cromática, desembocaremos num problema crucial da música contemporânea, que é o da repetição. Nesse ponto, impõe-se uma contraposição entre os dois estilos extremos que marcam as duas metades do século: o dodecafonismo e o minimalismo. Essas duas tendências projetam da maneira mais completa, na sua diferença sintomática, a cisão manifesta na música contemporânea entre um lado que recusa a repetição e um outro onde se trabalha sobre a repetição exaustiva. A série dodecafônica foge à recorrência melódica, harmônica, rítmica, através de uma organização simultaneísta de todos os materiais sonoros, de natureza polifônica, e descentrada: o minimalismo é uma música francamente iterativa, baseada na repetição de motivos melódicos e pulsos rítmicos que passam por processos de fase e defasagem. (Wisnik, 1999:173-174)

Enquanto isso o minimalismo, que surge nos Estados Unidos nos anos 60, e de certa forma na sombra ou no declínio do serialismo, se caracteriza pela mais rebarbativa apresentação da repetitividade: arpe- [174-175] jos articulaos em tempos variados. como cadências congeladas, são típicos de Philip Glass[MBC8] ; motivos melódicos aparentemente simplórios e repetidos com acréscimo gradual de novos elementos são a marca de Steve Reich. (Wisnik, 1999:174-175)

A música minimalista, por sua vez, se relacionaria aparentemente com um outro traço do não-tempo inconsciente: a compulsão à repetição, cujo retorno em ostinato “esvazia” o tempo. Uma teria seu correlato objetivo na experiência urbano-industrial da simultaneidade, da fragmentação e da montagem, técnicas de choque fundantes da arte das vanguardas, e outra no caráter serial-repetição da repetição em larga escala, com proliferação generalizada dos simulacros. (Wisnik, 1999:175)

Schoenberg registra que o novo estilo atonal, guiado sobretudo por “fortes impulsos expressivos”, não se habilitava a produzir obras longas (a não ser quando um texto funcionasse como elemento unificador) por causa de uma espécie de debilidade estrutural que resultava da falta de articulações discursivas. “A abstenção em face dos meios tradicionais torna impossível projetar grandes formas, pois elas não podem existir sem uma articulação precisa.” Independentemente dessa inaptidão estrutural para o discurso extenso, que Schoenberg pretendia superar, a fase atonal contém invenções inusitadas de timbres e entoações […]. (Wisnik, 1999:177)

Daí também a curta duração de suas peças: é sabido que a obra completa, do opus 1 ao 31, cabe em quatro LPs, e muitas de suas peças mais importantes duram em torno de um minuto, ou menos que isso. O lugar delas não é mais, como foi em toda a história do desenvolvimento tonal, a expansão temporal, mas a inscrição num não-lugar numa singularidade que corresponderia à implosão luminosa de um buraco negro. (Wisnik, 1999:184)

Como essa empreitada se faz na direção de um aguçamento do princípio da polifonia descentrada que estava na música serial, o resultado é o de texturas marcadas, antes de mais nada, pela mais completa descontinuidade. A fragmentação do espaço sonoro e dissolução do horizonte repetitivo correspondem ao “fracionamento do tempo musical numa seqüência de presentes sucessivos de duração variável”, que pedem do ouvinte uma concentração máxima de atenção sobre o aqui e o agora de cada “momento”, uma atenção radicalmente instantânea a não linear. Em contrapartida a essa descontinuidade básica, a música de Stockhausen é movida, ao mesmo tempo, por um desejo de unidade, pelo demônio da analogia, pela permeabilidade entre espaço e tempo, em uma palavra, pelo desejo de totalidade, que se traduz no seu fôlego mítico e dá ao compositor aquele caráter algo demiúrgico que o singulariza entre os contemporâneos. (Wisnik, 1999:192)

Outro sinal importante do acelerado descentramento do espaço sonoro praticado sob as bases de um racionalismo estrito é a obra de Xenakis. Ela se compõe de nebulosas de som resultantes da transposição computadorizada, em termos probabilísticos (ou “estocásticos”), de estruturas matemáticas. Xenakis pensava na precedência da fórmula numérica, atemporal, sobre a sua atualização real temporalizada (como uma espécie de novo pitagorismo onde a música remete ao fundo oculto de um universo ordenado numericamente). O seu pitagorismo é regido evidentemente não pela tetrakys (o equilíbrio perfeito dado pela oitava e a quinta) mas, ao contrário, pela pulverização estocástica.

A música de vanguarda da metade do século é marcada portanto pelo princípio de descontinuidade radical que permeia também seus materiais ruidísticos: ultracromatismo, microtons, glissandi (deslizamento do tom sem subdivisão cromática), clusters (aglomeração de notas vizinhas formando ruídos), nebulosas de feixes probabilísticos, músicas aleatórias, e indeterminadas. (Wisnik, 1999:193)

É nesse lugar (a “crise das alturas” que afeta a música européia, não só quanto a suas alternativas técnicas e estilísticas, mas na sua tradicional justificação progressiva) que surge o minimalismo americano. A música “repetitiva”, além do caráter quase excêntrico da sua insistência maquínica, que impressiona à primeira escuta, tem que ser ouvida como uma música que abdica da construção melódico-harmônica para focalizar o pulso. (Wisnik, 1999:194)

Pode-se pensar que a crítica de Adorno à “restauração” promovida por Stravinski seja condenação prévia (muito avant la lettre, evidentemente) ao pós-moderno. A sua técnica tem a ver antecipadamente, como já foi dito, com o rock (sua afirmação do pulso e um certo tom Heavy) e com o pastiche (o estilo de segundo grau, que ele pratica dos anos 20 até o início dos anos 50). (Wisnik, 1999:194)

As primeiras manifestações minimalistas datam do começo dos anos 60, e parecem derivar de algumas conseqüências cagianas num clima já de pop art (o que favorece duplamente o abandono da arte como discurso da subjetividade). (Wisnik, 1999:195)

Mas em Philip Glass e Steve Reich é que estão as soluções interessantes. Glass trabalha com materiais de natureza tonal, arpejos submetidos a um “processo de progressão aditiva”, superpostos e combinados em movimentos contrários, paralelos, que se subdividem em recortes rítmicos e produzem texturas estáticas, em vez de progredirem cadencialmente. Esse estranhamento cool do tonal serve por outro lado à criação de climas teatrais extáticos, algumas vezes magníficos. (Glass [197-198] tende ao mito e à ópera, embora não tenha encontrado, me parece, soluções para o canto à altura de algumas de suas peças instrumentais.) (Wisnik, 1999:197-198)

É visível a cisão entre a música de “alto repertório” composta hoje ou recentemente e a música de mercado. Não é só que elas atuem em faixas sociais diferentes, e que falem a massas de público completamente desiguais, mas é que elas vão em direção a experiências de tempo opostas. A música de concerto contemporânea explorou conscientemente dimensões do tempo que contestam a escuta linear, negam a repetição e questionam o pulso rítmico. A massa das músicas de massa marca o pulso rítmico, a repetição e apela à escuta linear. (Wisnik, 1999:209)

Vivemos hoje a sensação da atomização regressiva, o retorno de tudo contra tudo como o verdadeiro apocalipse do mundo repetitivo. Acontece que a música tem uma vocação antiga para ensaiar no seu próprio campo as possibilidades de transformação que estão latentes na história. Por uma ironia a todas as desesperanças deste tempo, essas possibilidades são enormes. (Wisnik, 1999:213)

O rock é a centelha que espalha, no campo das músicas dançantes, a novidade do pulso-ruído. A intensidade e o timbre hiperbolizados estouram a retícula das elementares cadências tonais da base (a harmonia é rasgada pelas sonoridades da voz e da guitarra, golpeada pela bateria e soterrada sob os decibéis do conjunto). De Little Richard a Jimi Hendrix, de Rolling Stones a Prince, o rock percorre todas as refrações da sua “dialética” e entra, com o jazz e a música “contemporânea” de concerto, em loop – num processo circular de autocitação e autonegação, em reverberação simultaneizada com a sua própria história. (Wisnik, 1999:216)

O mercado pós-moderno é baseado em ciclos rápidos de posição e reposição da história dos gêneros, a liquidação dos estoques da loja ocidental, a queima dos estilos. Lyotard disse que a moda é o classicismo de uma época sem permanência, sem verdade. Se as linguagens perderam a tônica, a moda dá o tom. (Wisnik, 1999:216)


Aumont, O Olho Interminável – 2004

Talvez, ao contrário dos ciclos que, de tempos em tempos, esforçam-se na direção de pensar o específico fílmico, tentando afinar com uma terminologia distinta aquilo que é exclusivo do cinema, encontremos nos últimos anos um esforço de pensar não o que o separa, mas o que o une às demais manifestações do seu tempo. Ou, na melhor hipótese, pensar o que o separa como cinema, tendo no entanto bem presente aquilo que o une ao seu quadro particular de tradições culturais e artísticas extra-cinematográficas. (Aumont, 2004:10)

Os efeitos de realidade, às vezes esquecemos de dizer, são também efeitos quantitativos, e é este, eminentemente, o caso na vista de Lumière. O que encanta o espectador é também o fato de lhe mostrarem um número tão grande de figurantes a um só tempo e, sobretudo, de maneira não repetitiva. (…) as pessoas ficam encantadas ao descobrir, na décima vez que vêem o filme, um gesto, uma mímica que até então havia escapado: a cada instante acontece alguma coisa, e quantas se quiser, ou quase. (…) Tal efeito quantitativo tornou-se difícil de ser apreciado: ficamos saturados e insensíveis. (Aumont, 2004:33)

Segundo aspecto dos efeitos de realidade, mais importante ainda, como veremos: sua qualidade. (…) Como se, nas vistas Lumière, o ar, a água, a luz se tornassem palpáveis, infinitamente presentes. (Aumont, 2004: 34)

Nessa pesquisa, três traços são salientados, como questões relacionadas à pintura:

–         o impalpável: a luz não pode ser tocada, ela é a “matéria” visual por excelência, pura.

–         o irrepresentável: (…) Irrepresentável, o fenômeno atmosférico suscita ainda mais, dir-se-ia, a obstinação teórica

–         o fugidio, enfim, o infinitamente lábil, e portanto, em profundidade, a irritante questão do tempo. (Aumont, 2004:35)

É tudo isso que o cinematógrafo vira de cabeça para baixo, que ele ultrapassa definitivamente com seus efeitos de realidade, inocentes, e inocentemente perfeitos. A atmosfera continua aí impalpável, e, se se quiser, irrepresentável; mas não deixa de estar presente no cintilar das folhas (agitadas pelo vento, pelo ar, concluem infalivelmente os críticos: é mesmo o vento que eles querem ver).

Mas sobretudo, é claro, o fugidio é enfim fixado, e sem labor. É de acordo com o trabalho pictórico que se mede o melhor do milagre do cinematógrafo: ele substitui, com efeito, as centenas de folhas duramente pintadas, uma por uma, em Theodoro Rousseau, pelo aparecimento imediato de todas as folhas. E, além do mais, elas se mexem… (Aumont, 2004:36)

Todo mundo ruminou, em algum momento, o velho lugar-comum sobre a foto, atingindo uma exatidão mimética tão perfeita que destrona a pintura e, ao mesmo tempo, libera para ela a via rumo à abstração. Não é uma parte nesse processo que reivindico para o cinematógrafo: ele chega um pouco tarde, a revolução fotográfica está feita – ao menos desde 1860 – com o instantâneo. É antes, a reivindicação para o cinema, se não, realmente, para Lumière, de um lugar no interior da problemática dos pintores. Lumière enfim contemporâneo, ligeiramente atrasado talvez, da pintura: o cinema será sempre o esse “pequeno último”, mas o que a história das folhas que se mexem assegura é que ele faz mesmo parte da banda. (Aumont, 2004:37)

A borda é, em geral, voltaremos a dizer, o que limita a imagem, o que a contém, no duplo sentido da palavra; e o toque de gênio aqui é ter, ao contrário, deixado a imagem transbordar: a locomotiva, os figurantes transgridem esse limite (o transgridem, quer dizer, não o abolem). É em boa parte graças a essa atividade nas bordas da imagem que o espaço parece se transformar incessantemente (como havia observado Sadoul, mas se prendendo de modo por demais exclusivo às modificações internas ao campo): como se, de certo modo, as bordas se tornassem operadores ativos dessa transformação progressiva.

Enfim, o enquadramento institui uma relação entre a posição da câmera e a do objeto; ele estabelece uma superfície de contato imaginário entre essas duas zonas, a do filmado, a do que filmar. (Aumont, 2004:39)

O quadro é, antes de tudo, limite de um campo, no sentido pleno que o cinema nascente não tardaria em conferir à palavra. O quadro centraliza a representação, focaliza-a sobre um bloco de espaço-tempo onde se concentra o imaginário, ele é a reserva desse imaginário. Acessoriamente (acessoriamente de meu ponto de vista; para os narratólogos de toda espécie, é o aspecto principal), ele é o reino da ficção e, aqui, da ficcionalização do real.

Corolariamente, o quadro é o que institui um fora-de-campo, outra reserva ficcional onde o filme vai buscar, se for o caso, determinados efeitos necessários a um novo impulso. Se o campo é a dimensão e a medida espaciais do enquadramento, o fora-de-campo é sua medida temporal, e não apenas de maneira figurada: é no tempo que se manifestam os efeitos do fora-de-campo. O fora-de-campo como lugar do potencial, do virtual, mas também do desaparecimento e do esvaecimento: lugar do futuro e do passado, bem antes de ser o presente. (Aumont, 2004:40)

Eu tentei apenas apreender em que Lumière podia ser “o último grande pintor impressionista da época”, e minha resposta a essa questão consiste agora em duas idéias. Em primeiro lugar, Lumière encontra e, voleens nolens, trabalha dois problemas que pertencem de pleno direito à reflexão pictórica, e à pintura simplesmente. Esses dois problemas – o dos efeitos de realidade, o do quadro – estão ligados, e particularmente no momento em que Lumière se apropria deles, à questão mais geral da liberação do olhar no século XIX. (Aumont, 2004:44)

Se a natureza está presente, e de modo abundante, na pintura do Renascimento e da idade clássica, ela é sempre uma natureza organizada, arrumada, aprontada e tem sempre em vista um sentido a exprimir. Dizendo de um modo brutal, há sempre, sob a representação da natureza, um texto, mais ou menos próximo, mais ou menos explícito, mas que explica sempre o quadro e lhe dá seu verdadeiro valor. (Aumont, 2004:50)

No início do século XIX, o centro de gravidade se deslocou, do objeto ou da cena pintados ao olhar sobre eles, depois ao portador desse olhar, o espectador, às vezes redobrado materialmente no quadro. Correlativamente, a mediação textual desapareceu: o quadro pretende ser revelação, deslumbramento, comunhão – ao menos cumplicidade. Convocado, interpelado sob todas as suas formas e por todos os meios – inclusive, voltaremos a isso, os do enquadramento e da mise em scène – o espectador é enfim reconhecido como sujeito que olha. (Aumont, 2004:60)

A fascinação do plano longo sempre repousou mais ou menos sobre a esperança de que, nessa coincidência prolongada do tempo do filme com o tempo real (e o tempo do espectador), algo de um contato com real acabe advindo. Por isso o plano longo é, a princípio, destinado a valorizar o não-é-grande-coisa e o quase-nada. (Aumont, 2004:66)

(…) filmar em plano longo não significa se entregar ao acaso, e sim, ao contrário, fazer passar todo o cálculo para a mise em scène e para a filmagem. (Aumont, 2004:66)

(…) apesar das diferenças materiais, sobretudo o abismo estético que os separa, há entre o plano longo e o panorama essa convivência: eles dão ao olhar a ilusão de sua liberdade, quando na verdade eles o prendem de modo mais radical em um mundo finito, um universo fechado de possíveis. (Aumont, 2004:67)

Se para ele [Bazin], o plano longo revela alguma coisa da realidade, é porque houve antes do filme, no momento em que ele se fazia, uma coincidência efetiva entre o tempo da câmera e o da realidade. (Aumont, 2004:67)

O cinema, uma máquina simbólica de produzir ponto de vista. (…) o filme não podia permitir ao espectador ocupar outro ponto de vista além desse vantage point que ele lhe tinha preparado. (Aumont, 2004:77)

O olhar, no presente momento, se imobilizou, ou desmobilizou. Adote a televisão os pontos de vista que quiser, só suscitará a ausência de olhar. O olho,  aliás, só é um instrumento atual por sua capacidade de ler imagens esquemáticas, sintetizadas, hipersignificantes, e de lê-las rápido, sob risco de “morte” – como nos jogos de vídeo e outras simulações. TGP e TGE já não interessam. O trem também se tornou TGV. [TGE (très grand éloignement), isto é, plano muito afastado; TGP (très grand proximité), isto é, plano muito próximo.] (Aumont, 2004:77)

Gombrich (…): há, a cada instante do acontecimento, elementos significativos em determinada parte do espaço onde se desenrola esse acontecimento, mas as diferentes partes não são atingidas simultaneamente, não são significativas ao mesmo tempo. (Aumont, 2004:81)

Não se pode juntar a instantaneidade e a pregnância, a autenticidade do acontecimento e sua carga significante senão à custa de uma trapaça. Dito de outro modo, simplesmente, o sentido não ocorre no real. (Aumont, 2004:82)

O tempo ocular é, evidentemente, o da exploração pelo olho da superfície da imagem. Todo mundo sabe que uma imagem se olha por meio de um percurso, de uma série de movimentos, rápidos e de fraca amplitude, do globo ocular, de uma série de movimentos destinados a levar, sucessivamente, diante da fóvea (a minúscula zona retiniana de grande clareza ótica) as diferentes partes da imagem. O inglês tem, para esse recurso, uma palavra evocativa, scanning, a mesma que foi retomada, por metáfora, para designar o rastreamento eletrônico da superfície da tela de vídeo. O olho, portanto, rastreia a imagem, mas de modo irregular, fazendo um trajeto quebrado e sem simetrias. Inúmeras experiências, todas concordantes, descrevem esse scanning como um emaranhado de linhas, dentes de serrote entremeados. (Aumont, 2004:85)

O fotógrafo é esse ser, indubitavelmente novo no século XIX, que opera o encontro, a fixação do instante, com seus acasos. Se há revelação para ele, isso só acontece posteriormente, quando ele já se tornou novamente espectador. (Aumont, 2004:90)

O cinema por construção é tudo exceto uma arte do instantâneo: por mais breve e imóvel que seja um plano, ele jamais será a condensação de um momento único, mas sempre a impressão de uma certa duração. (Aumont, 2004:100)

Esquecer a montagem em seu conceito teórico tradicional significará, portanto, em primeiro lugar: permanecer no visível, nos saltos, nas embreagens, em geral, nos momentos de mudança brusca, de maneira totalmente independente da noção de plano, aqui sem pertinência. Como se passa de uma coisa a outra em um filme? Em primeiro lugar, à custa do que se deve chamar de um pequeno trauma visual. (Aumont, 2004:103)

(…) a montagem, a mudança de plano, a mudança brusca, em geral, no cinema, foi uma das maiores violências jamais feitas à percepção “natural”. Nada em nosso ambiente modifica todas as suas características de modo tão total e brutal quanto a imagem fílmica, e nada nos espetáculos preexistentes ao cinema havia preparado para tal brutalidade. (…) Ao mesmo tempo, está claro que não são tanto os olhos que são feridos, e sim o espírito que se sente agredido: os olhos são de uma infinita agilidade, só precisam de uma minúscula fração de segundo para se adaptar a quase qualquer coisa. (Aumont, 2004:103)

O intervalo é a distância visual mantida entre dois planos. (Aumont, 2004:104)

E a montagem é, sem dúvida, uma construção do ponto de vista do olho humano, ela deixa de ser uma do ponto de vista de outro olho, é a pura visão de um olho não humano, de um olho que estaria nas coisas. (Deleuze apud Aumont, 2004:105)

Os historiadores do cinema nos explicam muito bem que, tudo bem considerado, o falso-raccord griffithiano não é senão a primeira pedra do pesado edifício do continuity editing. Tal idéia é, sem dúvida, verdadeira, e está verificada. Ela põe, em todo caso, água em um moinho, salientando, indiretamente, que essa montagem “em continuidade” aperfeiçoada pelo cinema clássico hollywoodiano, dá testemunho menos de medo do buraco, como pensava Bazin, do que do medo do pleno-demais; ou ainda que é mais fácil, mental e visualmente, preencher um buraco do que suprimir um pleno demais. (Aumont, 2004:107)

[As três funções do quadro]

[1 – Quadro-Objeto] (…) o quadro-objeto tem sempre esse valor: ele rodeia a obra, fabrica um entorno para ela. Ao mesmo tempo, sob a forma, a um só tempo banal e emblemática, da moldura dourada ou esculpida, ele está ligado à mobilização da imagem: a seu devir-móvel, a seu devir-objeto, precisamente e até mesmo objeto comercializável. (Aumont, 2004:112)

[2 – Quadro-Limite] Uma vez desfeito o enquadramento da pintura, aparece a borda da tela, o limite material da imagem: o quadro-limite. Limite físico, esse quadro é também e sobretudo limite visual da imagem; ele regula suas dimensões e proporções; rege também o que chamamos de composição. (Aumont, 2004:113)

(…) o quadro é um operador de reflexividade, que permite à tela se enunciar como tela e como discurso. (…) uma tela pintada, até mesmo um quadro-limite, não fala. Dizer que ela profere o ser-tela, o ser-discurso da tela, quer, portanto, assinalar o seguinte: o sentido, todos os sentidos possíveis de um quadro estão, a um só tempo, contidos na própria tela, e devem ser lidos a partir de seu lado de fora, o lado de fora mais radical possível, aquele onde nada mais da imagem existe. (…) Simetricamente, esse sentido não está aí por acaso: ele foi posto aí por um produtor, que, ele também, não está, nunca está na imagem, ainda que delegue a ela, às vezes, sua efígie ou seu fantasma. Dito de outro modo: [3 – Fora-de-Quadro] a tela pintada, como enunciado e como significação, se produz e se lê a partir de um espaço que não é o da ficção, mas um espaço discursivo, um fora-de-quadro. Tal operação, a instituição de um fora-de-quadro, é incontornável pela imagem figurativa, (…) mesmo se suas modalidades, é pouco dizê-lo, variam enormemente. É ela que, em última instância, se identifica com a função do quadro-limite. (…) Uma imagem, talvez não seja supérfluo dizê-lo após Lacan, é, a um só tempo, gato por lebre, a ótica e o imaginário. Ela é feita para que nós nos percamos nela – sabendo, ou mais raramente, sem o saber -, e a produção de imagens em nossa cultura “oculocentristra” não é senão o casamento do objetivo com o subjetivo, a indistinção de ambos. Fazer uma imagem é, portanto, sempre apresentar o equivalente de um certo campo – campo visual e campo fantasmático, e os dois a um só tempo, indivisivelmente. (O equivalente apenas: o campo visual tem muitos caracteres diferentes da imagem, a começar por sua variabilidade, da qual até mesmo a imagem do filme só mostra uma aproximação, como vimos. Sem falar no campo da fantasia.) O quadro, portanto: os limites desse campo, suas bordas, antes porém, pois elas não pertencem ao campo, as bordas daquilo que, do campo, nos é dado ver. Dito de outra maneira, do campo, tampouco, o quadro faz parte: ele é, sempre, um operador, operador de uma certa vista (a pintura, com efeito, dá a ver, e, inseparavelmente, enclausura o olhar, faz não ver) [4 – Quadro-Janela] Abertura sobre a vista e o imaginário, esse quadro merece receber um nome que crie ficção: eu o chamarei, evidentemente, de quadro-janela. (Aumont, 2004:113-114)

Dos acessórios da representação cinematográfica, nenhum, na verdade, encarna de maneira convincente o conjunto das funções que se pode atribuir ao enquadramento da tela pintada. Não é, no entanto, que tais funções deixem de existir, e de modo intenso, no cinema; o espetáculo cinematográfico, vimos, é estranho, seu dispositivo, comovente e significativo. Por isso é no interior desse dispositivo, ou seja, já, de uma construção abstrata, que se deve procurar o equivalente do quadro-objeto.

Eu estaria sobretudo tentado a ressaltar aqui o papel do escuro na sessão cinematográfica. Em primeiro lugar, é o escuro em torno da imagem que, literalmente, a torna visível. (Aumont, 2004:118)

Foi a propósito do cinema que a troca do campo e fora-de-campo, a irredutível oposição entre fora-de-campo e fora-de-quadro, e até mesmo, mais recente, a difícil relação entre fora-de-quadro e “no-quadro”, foram evidenciadas, definidas, estudadas, em inúmeros exemplos que ilustram as diversas figuras da quadrilha. Foi a partir do filme que se aprendeu, por exemplo, que o fora-de-campo pode ser a simples continuação do campo, responder a ele e confirmá-lo, mas que ele pode também transformá-lo, e até mesmo enfraquecê-lo. Dessa duplicidade do fora-de-campo como “figura da ausência” (Marc Vernet), cuja leitura supõe a reconstituição quase policial de uma intriga, foi sobretudo o cinema que tirou proveito. (Aumont, 2004:119-120)

(…) o quadro-limite rege apenas o interior, a superfície que ele delimita; para além do quadro-limite, não há nada que possa se relacionar com esse interior, nem em termos ficcionais – essa é a função da “janela” -, nem em termos visuais em geral, plásticos, por exemplo. As telas abstratas de Mondrian, com a tensão visual que provocam nos limites do quadro, justamente, e, além disso, a nudez deliberada de seu enquadramento, puxam o olho, foi muitas vezes observado, para fora do quadro-limite; mas esse fora não tem nenhuma estrutura espacial que seja pensável a partir da organização plástica da tela. (Aumont, 2004:120-121)

Resumindo: o que procuro fazer aparecer é, antes de tudo, que não há dois tipos de quadro, o pictórico e o fílmico, que seriam de naturezas diferentes, um, quadro (moldura) verdadeiro, o outro, simples máscara. Há funções do quadro, mais ou menos universais – não pretendo ter esgotado a lista -, diversamente atualizadas a partir de pressupostos estilísticos, eles próprios historicamente variáveis. (Aumont, 2004:123)

O cinema clássico hollywoodiano retoma, portanto, adaptando-o, um princípio bastante antigo: o da centralização, cujas variantes em pintura e no cinema seriam numerosas. A pintura usou muito a tática que consiste em fazer do centro do quadro um centro de simetria, ou seja, esvaziá-lo para equilibrar as figuras em torno dele. (Aumont, 2004:125)

De fato, a centralização do cinema clássico, na medida em que é apenas a tradução visível da centralização narrativa, é lábil e móvel. Ela coincide notadamente com a prática do reenquadramento e do movimento de acompanhamento, que visam manter a centralização na duração. (Aumont, 2004:126)

Quanto aos modernos, teríamos a indecisão da escolha. Encontraremos aí, sobretudo, interessantes variantes sobre o mesmo princípio diretor: o da centralização, tal como essa designação enfática do centro por um ou vários acessórios, que poderíamos chamar de “sobreenquadramento”. (Aumont, 2004:126)

O desenquadramento, em suma, seria “o contrário” da centralização: ele definiria o estilo não-clássico por excelência, e, por que não, um cinema menos apanhado na ilusão diegética. (Aumont, 2004:130)

(…) no cinema do desenquadramento, o centro da imagem, antes esvaziado, ou seja, devemos enfim precisá-lo, esvaziado de qualquer personagem, esvaziado da figura humana, e somente dela, se encontra em seguida, ao menos potencialmente, preenchido novamente pelo jogo de outro desenquadramento, que suprime o primeiro desenquadramento. (Aumont, 2004:130)

Vamos nos entender: não procuro, de modo algum, sugerir que o desenquadramento não existe ou não é interessante. Ao contrário. Simplesmente, tal como defini retomando Bonitzer, ele continua a fazer referência, em parte, à centralização, continua a ser seu “avesso cúmplice”, como se dizia outrora. (…) O cinema que só excluísse as personagens do centro, para melhor trazê-las de volta a ela, não faria, justamente, outra coisa que descentralizar, que excentralizar; ele permaneceria exatamente na lógica da centralização, como se pode dizer que as extraordinárias excentralizações de Tintoretto não atacam em nada a centralização da representação, melhor, elas a reforçam. (Aumont, 2004:130-131)

(…) o segundo traço da definição que, por si só, me parece carregar o essencial, e talvez fosse preciso citar apenas ele. O que faz do desenquadramento algo diferente de uma descentralização, o que permite fundar sobre ele uma estética é que ele transforma o equilíbrio clássico entre as funções do quadro: é menos a hipotética e sempre frágil presença das personagens na borda do quadro do que o caráter ativo, resoluto, marcado dessa borda que conta, ou seja, a ênfase dada ao quadro como limite e, sobretudo, como operador teórico. (Aumont, 2004:131)

Afastando o quadro fílmico de seu valor de janela, o desenquadramento realiza o paradoxo de separar o filme de seu fora-de-campo. Essa anulação do fora-de-campo é difícil obter em pintura, como bem mostram as personagens, cortadas pelo quadro, das telas de Degas, e por isso o desenquadramento é um efeito essencialmente fílmico. (Aumont, 2004:133)

(…) o cinema elimina sempre a excentralização, e, em pintura, ele nunca é absoluto; resta alguma coisa, no mais das vezes alguma coisa importante, no centro da tela. Nessa representação centrada, em que os efeitos estilísticos provêm do trabalho do fora-de-campo e das variantes composicionais, pintura e cinema estão em pé de igualdade. (Aumont, 2004:133)

(…) desenquadramento é, provavelmente, o ponto sensível onde uma diferença – não digo, evidentemente, uma oposição – apareceria entre as duas artes, pois indicaria que a imagem fílmica pode desempenhar mais o efeito de borda, de corte. (Aumont, 2004:133-134)

Estritamente falando, todo fora-de-campo é sempre imaginário, como também o campo.

Estou esquematizando, sem dúvida, pois os efeitos de crença nunca são, afinal, tão brutais, nem tão marcados, e o espectador, até mesmo do filme mais cativante, sabe que está no cinema; mas o filme, falo do filme ficção, brinca sempre com a borda do quadro como com o fogo. (Aumont, 2004:135)

Foi para o cinema que foi forjada a palavra enquadramento, é no cinema que ela ganha seu verdadeiro sentido, o sentido de uma atividade do quadro que funda, também, o desenquadramento. Cineastas, os que dão uma importância decisiva à filmagem, sempre souberam: o quadro se define tanto pelo que ele contém quanto pelo que exclui. (Aumont, 2004:136)

A narrativa é esse ponto crucial em que a pintura e o cinema parecem irremediavelmente separados, menos pelo movimento – que a pintura, vimos, pode sempre imitar – do que pelo tempo. O que é, com efeito, uma narrativa? Essencialmente o emprego das duas noções de acontecimento e de causalidade. (Aumont, 2004:139)

(…) o espaço não é um percepto, como são o movimento ou a luz, ele não é visto diretamente, e sim construído, a partir de percepções visuais, como também cinésicas e táteis.

Ver espaço seria, portanto, necessariamente interpretar, à custa de uma construção já complexa, um certo número de informações visuais. (Aumont, 2004:142)

(…) no real como no quadro, a persepctiva linear, com o eventual auxílio da perspectiva “atmosférica”, permite perceber a profundidade. (…) a perspectiva artificialis, de Brunelleschi e de Alberti, não era a descoberta de uma lei natural, e sim uma invenção puramente artificial. (Aumont, 2004:142-143)

A percepção do espaço, representado repousa, acabamos de ver, sobre a aceitação de algumas convenções: aquelas ligadas à perspectiva, inclusive seu corolário “atmosférico”, mas também o uso eventual de linha para representar os contornos dos objetos. Ou então a pressuposição de que a luz, salvo fonte visível na imagem, vem sempre do alto. Ou a codificação, mais localizada historicamente, dos contrastes de cores. Ora, todas essa convenções são eminentemente aceitáveis porque todas elas derivam de uma sistematização do real visível que já se opera na percepção “natural”. (Aumont, 2004:145-146)

(…) o efeito de real global depende bem mais das convenções e das expectativas relativas ao realismo, do que da perfeição intrínseca dos efeitos de realidade parciais. (Aumont, 2004:146)

No teatro, com efeito, e apesar de sua mutação há um século, há sempre instituição de um lugar e de um tempo teatrais, separados simbolicamente do espaço-tempo do espectador: há sempre uma ribalta, mesmo que apenas “na cabeça”. Mas e em pintura? E no cinema? (Aumont, 2004:159)

[Mourlet] (…) a mise en scène é um ordenamento do real, já que o cinema “não é obrigado, como as outras artes, a deformar o real para expressá-lo”. Portanto, a mise en scène¸ concebida como alma do cinema, expressa o real, mas imediatamente. Correlativamente, toda a arte do cineasta se reduz a deixar se desenrolar justamente um gesto em um espaço, pois esse acordo é também a lei do mundo real. (Aumont, 2004:162)

A mise en scène de cinema é o que não se pode ver. Tratamento dos corpos no espaço, sem gesticulação. Questão de centro, de relações: encarnada em uma deiscência, como quer a “mizancadre” eisensteiniana (…)(Aumont, 2004:163)

O que é a luz no filme? (…) enumerarei mais precisamente o que me parece ter sido os empregos, ou, se se quiser, as funções da luz na representação. Encontro três, grosso modo, na ordem de seu aparecimento histórico:

1-     Uma função simbólica: ela liga a presença da luz na imagem a um sentido. Princípio banal, mas que, no caso da luz, toca sempre o sobrenatural, o sobre-humano, a graça e a transcendência. (…)

2-     Uma função dramática, ligada à organização do espaço, mais precisamente à estruturação desse espaço como cênico. Os meios de ação da luz são aí quase inumeráveis, e não há razão para não inventar novos continuamente. Ela pode, banhando o conjunto da cena, indicar sua profundidade, salientar e mesmo definir o lugar das figuras. (…)

3-     Enfim, uma função atmosférica, que não passa, talvez, de um longínquo bastardo da função simbólica, lá onde esta torna-se fraca demais, já não responde a uma codificação forte, facilmente compreensível. (…) O efeito atmosférico é o mais banal, talvez, para nós, dos efeitos de luz: o cartão-postal, estampas, a televisão hoje, todos os meios mais maciços de reprodução e de representação se apoderam dele, à porfia. Assim que o retoma nessa banalidade, o cinema, dir-se-ia, o empobrece mais, faz dele um efeito barato. No entanto, foi também através desse efeito que passou, indiscutivelmente, um dos empréstimos mais conscientes tomados pelo cinema. (Aumont, 2004:172-175)

(…) seria certamente proveitoso, e que eu saiba isso não foi feito, considerar o paralelismo entre a história da luz em pintura e a história das concepções da própria luz. (Aumont, 2004:177)

(…) o essencial é que a luz, sem ser totalmente desprovida de sua ressonância simbólica, eventualmente mística, tornou-se um fenômeno natural, observável, reprodutível e moldulável para todos os fins úteis. (Aumont, 2004:177)

O importante é a tendência maciça a não mais considerar a luz em si mesma como um fluido misterioso, mas em sua relação com os objetos. (Aumont, 2004:177)

A história do espaço se duplica por uma história da luz, que a reescreve. (Aumont, 2004:177)

A história do cinema, mais breve, foi menos hesitante, disseram: este procurou logo controlar juntas as três funções da luz. Nisso ele foi, a um só tempo, ajudado e prejudicado por sua técnica: superiormente armado para a produção dos efeitos de realidade, do encontro entre luz e objetos, ele o é claramente menos para figurar as fontes luminosas. Durante muito tempo, por exemplo, a película “suporta” mal os contrastes demasiadamente acentuados. Mas essa mesma dificuldade criou uma tentação constante e, em alguns, uma obsessão. (Aumont, 2004:178)

É na relação com a luz que se percebe melhor o paradoxo plástico do cinema: vítima de sua tecnicidade, ele apreende bem demais a luz, sem trabalho, para saber, de saída, trabalhá-la. Fazer da luz um material plástico é, em pintura, uma necessidade: o pintor mais naturalista não pode esgotar seu tratamento da luz em efeitos de realidade; é no filme, uma decisão deliberada e difícil. (Aumont, 2004:179-181)

Partimos do material, e começar falando da luz é, apesar de tudo, revelar uma escolha, a do cinema, já que a luz pictórica é sempre a idéia de uma luz. Só que o que é primordial em pintura não é evidentemente a luz, e sim a cor. (…) a cor tem, ao menos, três espécies de efeitos e de valores pensáveis: um efeito simbólico, um efeito fisiológico, um efeito psicológico. É a soma, a dialética dos três, que fascina Klee, Kandinsky. (Aumont, 2004:181)

A cor é uma música, idéia repisada em Moholy-Nagy, mas também em Kandinsky ou Einsenstein ou Scriabin. (…) ela remete, em última análise, às tentativas desesperadas da grande tradição pitagórica de estabelecer paralelismos perfeitos entre todos os nossos sentidos, “correspondências”, para encontrar uma unidade “sinestésica” para nossas sensações. Não obstante, as “ondas” sonoras têm, como as “ondas” luminosas, semelhança apenas longinquamente matemática – quando muito -, e a única base desse paralelo é, no fundo, a experiência psicofisiológica, a convicção de que música e cor produzem efeitos comparáveis em nossa sensibilidade. Ora, se é possível, a rigor, evocar determinadas passagens da música para a cor – experiência que a droga banalizou -, é antes a passagem inversa, da cor para uma formalização musical, que interessa artistas plásticos e teóricos, que esperam assim fundir a subjetividade da experiência das cores em uma notação que parece mais rigorosa. (Aumont, 2004:182)

O cinema trata a cor com um bloco, toda a imagem é atingida, a um só tempo, por cada camada de cor primária. Assim, ele não pode, ou não facilmente, destacar um pequeno pedaço de cor do conjunto da cena. Já a tela, até mesmo a mais representativa, pode sempre se dar ao luxo suplementar de trabalhar, de definir localmente a cor – de abstraí-la, o quanto for preciso, da cena representada. (Aumont, 2004:187)

(…) a luz só pode afastar o cinema da pintura: ela ainda está por demais em conexão com as origens fotográficas do cinema, evoca sempre, por demais, uma natureza do filme. Além disso, vimos, ela é, com freqüência, mais dramática do que realmente pictórica; ela designa, é ativa, faz sentido. A cor, bem menos natural – o filme deve se aplicar nela -, não faz sentido: no máximo o recebe em consignação. (Aumont, 2004:191)

(…) há, houve várias concepções da expressão arte – ao menos três principais, conforme ela seja atribuída à própria obra, ao artista-ator ao espectador leitor -, mas todas repousam sobre a confiança dada à possibilidade de tradução, de transmissão, de sentido bem determinado, por um processo simples e mais ou menos transparente. E são, evidentemente, tais concepções que por seu simplismo e seu reducionismo foram alvo de inúmeras críticas, no interior de visadas extremamente diversas, há uns vinte anos ao menos.

Sobre esse ponto, como sobre outros, mencionamos alguns por alto, na França, o estruturalismo, e sobretudo o que se chama, às vezes, atualmente, de “pós-estruturalismo”, foi o mais radical. A crítica das noções de signo ou de expressão, enquanto elas comprovariam a crença em um significado último que residiria no signo ou que fundaria a expressão, é essencial aos primeiros trabalhos de Derrida, de Kristeva, que sempre denunciaram os ranços metafísicos idealistas acarretados por essas noções. (Aumont, 2004:201-202)

Paralelamente, porém, e ainda sem esperança de encontro, outra reflexão crítica era engajada, na mesma época, mas em outra parte, sobre pressupostos bem diferentes, notadamente os da filosofia analítica. Já citei Goodman, seria preciso ao menos acrescentar Richard Wollheim, que, em Art and its Objects, retoma, detalhadamente, o problema da expressão, para negar, a um só tempo, que esta possa estar contida no dado, no objeto artístico, e que a obra possa adquirir sua expressividade por causa de um certo estado do espectador ou do produtor. Mais do que sua argumentação na matéria, inteiramente situada em terreno lógico, mas que a sua densidade torna impossível de resumir, me interessa aqui o fato de sua abordagem ser determinada por um projeto positivo: a definição, não menos, da arte e de sua função (da arte em geral). O que é a arte? Essencialmente diz Wollheim, uma experiência, uma espécie particular de experiência, que não se parece com nenhuma outra, que tem suas regras, seus ritmos, seus efeitos subjetivos, suas convenções e seu aprendizado. Em suma, uma espécie de linguagem (ele também não gosta da noção de signo), propõe uma outra: a arte, diz ele, é uma “forma de vida”. Tal expressão, retomada tal e qual a de Wittgenstein, pode também ser criticada: ele pode parecer, notadamente, querer ressuscitar, bem inutilmente, a velha idéia da “organicidade” da obra de arte, e de fato Wollheim não coloca em questão a noção de obra como totalidade e como unidade. Mas sobre o ponto que nos ocupa, acho a metáfora sugestiva. A expressividade artística torna-se aí não mais algo ligado a conteúdos, a significados, mas ao próprio trabalho de forma. (Aumont, 2004:202-203)

(…) a expressão, longe de se concebida como vontade ou como determinismo, se caracteriza por dois traços. Ela ocorre na forma enquanto esta transborda a “simples” representação e trabalha por conta própria; ela não é nem fixa nem dada, mas sempre, historicamente, contextualizada, e, portanto eminentemente variável. (Aumont, 2004:203-204)

Não há expressão que não envelheça ou não murche; não há expressividade que não seja susceptível de se alterar, de degenerar em bizarrice ou em decorativismo. Ao mesmo tempo, e para cada época, relativamente a cada estilo, a expressividade potencial de toda forma será, provavelmente, tanto mais atualizada quanto mais estiver afastada do realismo. (Aumont, 2004:204-205)

Mas seria preciso também aprender a não mais reduzir a expressão unicamente ao “expressionismo”, mesmo que ele fosse um simples exemplo: a expressividade está alojada na forma, não no estilo; (Aumont, 2004:205)

(…) eu resumiria de bom grado assim: a forma, no sentido de “convenção formal”, resultado de uma norma estilística explícita ou não, torna-se expressiva desde que ultrapasse o que é estritamente necessário à representação realista, ela própria convencionalmente definida. Mas nesse movimento de ultrapassagem, a forma nutrida demais (trophê), pode chegar a exibir aquilo de que é feita, o material, o meio: trava de todas as artes representativas, o momento em que, precisamente, se perde o objeto representado, a própria representação, em que a forma se torna tão presente que nada mais concorre com ela. (Aumont, 2004:207)

A pintura é um mundo, um universo, a tela é viva, sua vitalidade se manifesta no jogo dos ritmos, dos tons, na presença, assegurada, se preciso for, até o excesso, do material, e também, às vezes, como justamente na arte informal, na inscrição visível do gesto de pintar, do vestígio pulsional. (Aumont, 2004:208)

Isso significa que o desejo de informe é coisa rara no cinema, onde reina, ao contrário, no mais das vezes, a obsessão da forma controlada. (Aumont, 2004:209)

A palavra “informal” nunca foi, aliás, utilizada no cinema, e se, no rastro de Lyotard, tentou-se aclimatar aí a noção da a-forma, isso sempre foi à custa dessas mesmas dificuldades. A a-forma, o surgimento de alguma coisa que não é ainda “secundarizada”, que crie acontecimento, onde encontrá-la? Nunca no cinema inteiro, nunca sequer na escala de todo um filme, mas apenas em momentos particulares, frações de tempo ou frações de extensão, onde ocorre algo que o “grão-mestre das imagens” não havia previsto. Momentos de surgimento, a plasticidade é sua marca; a cor, a violência de certo preto-e-branco, é seu  veículo privilegiado, e sobretudo a cor em movimento, aquela que parece se soltar dos objetos para se tornar aventura singular. (Aumont, 2004:209)

O que cria acontecimento no cinema, de fato, não é provavelmente localizável fora do sentido, está sempre comprometido com ele. Ou, para continuar nos termos de Lyotard, o figural nunca está aí separado do discursivo, a força registrada no discurso, a plasticidade e o desejo que o trabalham do interior só chegam a nós através do discurso. A figura aparece aqui, portanto, como a própria alma de toda poética do filme, mas a figura nascente, aquela que ainda não está absorvida na retórica, nem tampouco, é mais difícil, tomada em uma vontade de texto, de sistema. (Aumont, 2004:210)

Deformação, aliás, distorção, quer dizer, evidentemente, que a relacionamos com uma objetividade imaginária, com um ideal da reprodução fiel, e também com um absoluto da visão, que não poderia deixar de ser seu modelo, e que  a deformação obliteraria. A deformação (a deformação em geral) não passa de uma distância tolerável em relação a uma forma, e, no mais das vezes, em relação a uma norma, explícita ou não, da forma: para além da deformação não há mais forma alguma. É, portanto, o limite atribuído a esta que define aquela, o limite convencional da forma socialmente aceitável que marca o início dessa transgressão que a deformação sempre é.

É, portanto, a própria forma que está em questão, e o que obriga a considerar a deformação é, no fundo, a relação entre forma representativa (ou forma representada) e forma vista. (Aumont, 2004:213)

(…) a deformação (…) é relativa, sempre passível de absorção quando o estilo “deformado” torna-se admitido, e até mesmo dominante: o limite dessa relatividade, o ponto além do qual a deformação não pode mais virar forma, é a reconhecibilidade e, portanto, sempre, mais ou menos, a referência à forma vista, a suposição de uma certa presença da visão na representação. (Aumont, 2004:213-14)

(…) a “forma” vista, por definição, não é deformável, já que não é de ordem fenomenal, e sim de ordem abstrata, já que é a visão, e que, de fato, mal é uma forma. Gibson, assim, declara cruamente que os invariantes perceptivos que, para ele, constituem o próprio objeto da visão, são formless, sem forma. (Aumont, 2004:214)

(…) se a deformação é mesmo o princípio nodal da expressividade, ela é o que faz explodir a radical diferença, que o debate sobre o expressionismo já nos tinha assinalado, entre a expressão pictórica e a expressão fílmica. (Aumont, 2004:215)

(…) o que faltará sempre ao apelo são os cineastas-“grafistas”, os da linha e da superfície: a imagem de filme, decididamente, não é um grafismo. (Aumont, 2004:216)

O que importa em Passion é que aí são mostrados, não quadros, mas quadros se fazendo, e se desfazendo. Por intermédio de uma pessoa delegada, a personagem de Jerzy, Godard refaz telas célebres, as explora, desmonta e monta, as leva a seu limite e tenta variantes, as combina entre si e as simplifica. Em suma, ele as faz trabalhar, as põe em questão. O conjunto de tais operações poderia, comodamente, ser designado com uma palavra: é uma cinematização, um devir cinema da pintura. “Cinematização” e não cinetização: devir do cinema, e não simplesmente um vago devir movimento. Exatamente no sentido em que Eisenstein propunha chamar “cinematismo” a retroação conceitual e analítica do cinema sobre as artes tradicionais (sobretudo a pintura e a literatura). (Aumont, 2004:218)

Logicamente, o que Passion põe em jogo é, portanto, a mise em scène, e a luz: ou seja, o que, vimos, pode ligar o cinema à pintura, à custa de uma lealdade comum com o teatro. (Aumont, 2004:218)

[Godard] (…) não há solução alguma de continuidade entre certos empregos da inserção ou do falso raccord em Pierrot le fou, e esta fórmula provocante de 1979: “O quadro é quando se começa o plano e quando o cortamos”. Mesmo fazendo uma análise minuciosa, e supondo, sensatamente, que “quadro” substitui “plano”, ao menos em parte, resta uma idéia, indefinida, mas sugestiva, do quadro como quadro temporal, que exclui todo pensamento do quadro como janela, como limite ou como composição, em prol de uma concepção do enquadramento como gesto unitário, atribuído ao mestre, cuja arte ele revelaria. (Aumont, 2004:223)

(…) a pintura, tal como é pensada e praticada em Pierrot le fou¸ tem um tempo, o do toque/enquadramento, e um material, um corpo significante, a cor; ela não tem, propriamente falando, espaço, ela não trabalha para organizar um espaço profundo. Esses dois traços, o enquadramento como gesto criador e, em suma, a cor como sistema, tendem, ao contrário, a evocar, mais do que qualquer fantasia de espaço cavo, a fantasia da superfície viva, da articulação quase orgânica de um espaço “virtual” que teria suas próprias leis. (Aumont, 2004:224)

(…) a invasão desse espaço pela luz, o sentimento de que o espaço não é um receptáculo cavo, mas um meio. Sobre a própria tela aparecem, então, meios dessa invasão, o tremor do pincel, a matéria do pigmento e a da tela, o gesto, enfim, de pintar. Nessas histórias, fantasmáticas, idealistas, tudo o que se quiser, Velázquez marca o momento em que a pintura começa a querer pintar o ar. (Aumont, 2004:225)

(…) um grande conhecedor de Velázquez, Ortega y Gasset: (…) Entre o olho e os corpos é interposto o objeto mais imediato: o espaço cavo, o ar. (Aumont, 2004:225)

“Método do entre”? Talvez. Mas o que, dessa vez, me parece designar, e não de modo tão obscuro, afinal, o texto de Elie Faure na abertura de Pierrot le fou é o problema, pictórico, se for um, da representação do invisível, do impalpável. Figurar o ar, a atmosfera, e falamos um pouco disto, a luz, dar conta desses fluidos misteriosos. (Aumont, 2004:226)

(…) uma verdade essencial sobre o objeto – (…) O que importa é fazer o filme seguir seu próprio sentido, o de uma preocupação reconhecida e consciente do visual em todos os seus estados, coisas e “entre-as-coisas”. (Aumont, 2004:226)

“Mas não é qualquer segmento de terra que é paisagem. A natureza objetiva, a natureza natural não o é. A paisagem é uma fisionomia, um rosto, que de repente em um ponto de uma região nos olha, como acontece com linhas emaranhadas de um trompe-l’oeil. Um rosto da região com uma expressão totalmente certa, embora indefinível, com um sentido distinto embora inapreensível. Um rosto que parece ter uma profunda relação emocional com o homem. Um rosto que quer dizer o homem.” (Béla Balázs  apud Aumont, 2004:227)

Dividido entre seu lado Rossellini e seu lado Welles, Godard proclama que o cinema é “piamente” realista, mas quer, em seus filmes, que o mundo fale, e fale visivelmente. Seu cinema é uma arte da paisagem, não do espaço; aliás, a paisagem não é o espaço, e sim uma qualidade do espaço. (Aumont, 2004:230)

“Não se sabe mais filmar, não se sabe mais olhar”, se queixa o artista de 1985 (é, entre outros motivos, culpa da televisão, que nos ensina a dar as costas às imagens, como o demonstra, maliciosamente, o Scénario du film “Passion”). Todo o empreendimento de Godard, há dez anos ao menos, é, portanto, também um novo aprendizado do olhar: como, pouco a pouco, olhar melhor, para em seguida deixar ver. É assim que leio, por meu lado, uma boa parte do que se fez nas séries televisivas de Godard e Miéville, e especialmente, em France Tour Détour Deux Enfants. (Aumont, 2004:230)

(…) à medida que os cineastas, dentre os mais refletidos, aprendem a conjugar o pensamento do cinema com o da pintura, aparece, de modo cada vez mais claro, a impossibilidade de praticar o cinema como pintura, de fazer pintura em um filme. (Aumont, 2004:241)

O que ensina a busca da pintura no cinema é, justamente, entre outras coisas, que este não contém aquela, mas a cinde, a explode e a radicaliza. (Aumont, 2004:243)

AUMONT, 2003 – DICIONÁRIO TEÓRICO E CRÍTICO DE CINEMA

(Aumont, 2003)

 

Câmera

A comparação da câmera com um olho deriva de idéias antigas, já ditas a propósito da fotografia, o olho e o aparelho de tomada de cenas considerados intermutáveis porquanto ocupam o mesmo ponto de vista. Todavia, na base dessa equivalência metafórica, foram propostas teorias opostas do cinema:

1. Para os “realistas” (Bazin, Kracauer, Pudovkin, Lindgren), a câmera é um olho pelo fato de, de maneira “objetiva”, registrar o mundo pró-fílmico sem transformá-lo; há, porém, importantes diferenças nas concepções da relação entre esse olho e o olho do espectador: para Bazin, o olho-câmera deve ser o menos intervencionista possível, a fim de reservar ao espectador toda a liberdade de intervenção; para Pudovkin, Lindgren e muitos outros (Jost, por exemplo), o cinema é, antes, a arte de guiar o olho do espectador pelo olho da câmera. [40]

2. Para os “formalistas”, a câmera é, de saída, identificada com o olhar, com um olho cheio de intenções. Para Burch, por exemplo (1960, 1979), a câmera é uma fonte de efeitos estilísticos e formais; Bordwell (1981), em suas análises de filmes de Dreyer, faz da câmera um dos focos da construção de um estilo.

3. Um ponto mais adiante, a câmera-olhar torna-se um instrumento privilegiado do “olhar sobre o mundo”, que é a direção em sua concepção mais radical (Mourlet, Bellour). Estamos bem próximos da metáfora da caméra-stylo (câmera-caneta).

Câmera, olhar, ideologia

Essas abordagens consideravam a câmera instrumento da visão fílmica ou “pós-fílmica” (Branigan 1984) em relação à maneira pela qual o filme representa a realidade. Outras abordagens teóricas consideraram a câmera representante quase alegórica da visão em geral, e de sua função em geral em nossa cultura.

É o alcance da reflexão sobre o dispositivo cinematográfico (Baudry), fundada sobre a instituição de um sujeito espectador “que tudo vê” (Metz), ou seja, a um só tempo onividente e que só vê, restrito à sua pulsão escópica. O olho genérico, nessa descrição do dispositivo, é encarnado pela câmera, mas também pelo projetor, visto como “olho atrás da cabeça” (Green).

Juntamente com isso, foi questionado o valor ideológico desse dispositivo, especialmente a função simbólica e ideológica da câmera. Em seu ponto mais acirrado, o debate se cristalizou entre duas teses opostas:

  • a câmera é o instrumento puramente científico, que obedece de maneira ideologicamente neutra às leis da ótica (Lebel);
  • a câmera é o instrumento de uma reprodução indefinida do sujeito centrado da ideologia burguesa, sendo que a maneira pela qual ela representa o mundo é o término da história da representação ocidental (“burguesa”): centralização perspectiva, ilusionismo etc. (Pleynet, Comolli).

Pode-se reter, geralmente, que a câmera tem um estatuto de símbolo: ela é “um nome para a maneira como olhamos e como conhecemos a um dado momento” (Branigan). (Aumont, 2003:40-41)

Contínuo (e Descontínuo)

Nossa experiência entrega-nos o mundo como composto de objetos distintos, em um receptáculo espaço-temporal onde, ao contrário, é difícil distinguir as partes e, sobretudo, localizar as fronteiras (entre um ponto do espaço e o ponto vizinho, entre um momento e o momento seguinte). Nossa atividade de simbolização (linguagem, imagens – filmes inclusive), em compensação, está fundada de modo bastante unilateral, na pressuposição do descontínuo, do individualizável, do isolável. Não existe campo de significação não estruturado, mas sempre redes, relações entre unidades “discretas”, e o exemplo mais flagrante é o da linguagem. O sentido surge da mudança, e, para fazê-lo aparecer, é preciso introduzir uma diferença – uma descontinuidade.

O cinema, mídia temporal, está fadado ao contínuo; mas ele repousa, duplamente, na produção de uma descontinuidade (entre fotogramas sucessivos na película, entre planos na montagem). A questão, do ponto de vista teórico, é, portanto, a das formas que essa relação entre contínuo e descontínuo tomou. Podem-se opor, por exemplo, segundo essa pertinência, uma forma de passagem de plano a plano tendo em vista a continuidade – o raccord –, e uma forma, ao contrário, que visa à manutenção da descontinuidade – o intervalo. No interior de um mesmo plano, poderemos opor o regime do plano prolongado (insistindo na continuidade) a certos planos abruptos, visando produzir um efeito de descontínuo. O cinema experimental trabalhou sistematicamente ambos extremos (ver Sleep ou Empire, de Wahrol, para o plano muito longo, e os filmes fotogrâmico de Sharits ou Kubelka – levando o descontínuo até seus limites). (Aumont, 2003:61)

 

Corte seco

Chama-se de corte seco a passagem de um plano a outro por uma simples colagem, sem que o raccord seja marcado por um efeito de ritmo ou por uma trucagem. Christian Metz salienta, em seu modelo de “grande sintagmática”, que se o corte seco intervém no interior de um segmento autônomo (uma seqüência de dois planos), ele não tem valor de pontuação; mas tem esse valor quando está situado entre dois segmentos. Quando não comporta efeito ótico materializado, como uma fusão, por exemplo, ele é qualificado de “pontuação branca”. (Aumont, 2003:66)

Direto

A expressão apareceu no início da década de 1960 e substituiu rapidamente a expressão “cinema-verdade”, ambígua demais e até mesmo confusa.

O direto é, de início, uma técnica de filmagem. O termo remete ao processo de gravação da imagem e mais especificamente ainda à gravação do som. Ele se opõe assim, duplamente, ao cinema de ficção tradicional: as imagens são aí gravadas sem “ensaios”, segundo o princípio da improvisação máxima; além disso, o som do cinema direto é sempre aquele que foi gravado simultaneamente à imagem, já que o direto exclui, por princípio, toda pós-sincronização dos diálogos e dos ruídos.

[…]

Em termos estéticos, o direto, a princípio, renovou totalmente a escritura dos filmes documentários […]. Enfim, o direto permitiu redescobrir as funções da montagem, como princípio de agenciamento e de seleção, pois essa técnica acarreta a impressão de uma grande quantidade de película. (Aumont, 2003:81)

Duração

Por oposição a “tempo”, a palavra implica a idéia de um início e de um fim, e entre os dois, de uma sucessão percebida imediatamente pelo espírito, que não coincide, necessariamente, com o tempo crônico (a medida do tempo).

No cinema, o tempo crônico é o da projeção em 24 imagens por segundo. A duração, sempre sentida subjetivamente pelo espectador, é determinada pela relação entre o tempo do desenvolvimento fílmico (tempo da narrativa, em Jean Ricardou, tempo télico (écranique) e filmográfico, em Étienne Souriau) e o tempo dos acontecimentos contados (tempo da história, em Ricardou, tempo diegético, em Souriau).

Assim, podem-se distinguir vários tipos de duração fílmica:

  • o sumário, ou resumido: a duração da narrativa (a do filme, em torno de uma hora e meia) é inferior à duração da história (um mês, um ano, uma vida, um século etc.);
  • a dilatação: é a figura inversa. A duração da narrativa é superior à da história. É raro esse tipo intervir em toda a duração de um filme, mas ele é bem freqüente em certas seqüências: alongamento do suspense no fim de um filme policial, de uma perseguição em um filme de horror; ou então [89] a pausa descritiva e atenta, como a que Sergio Leone põe em cena no início de Era uma vez no Oeste/C’era uma volta il west (1969), as cenas de sexo em um filme pornográfico. A dilatação é característica do cinema moderno;
  • a equivalência: o tempo da narrativa e o da história são praticamente iguais. O caso é raro em um filme inteiro como em Festim diabólico/Rope, de Hitchcock (1943), ou em Cléo de 5 à 7, de Varda (1962). Ele é bem freqüente, além disso, já que concerne a todas as cenas dialogadas sem elipse;
  • a elipse: o tempo da narrativa é igual a zero, o da história é indefinido. O espectador acha-se projetado alguns segundos ou vários séculos para frente ou para trás.

(Aumont, 2003:89-90)

Efeito phi

O espetáculo cinematográfico propõe imagens projetadas sobre uma tela, dotadas de um movimento aparente; ora, a fonte dessas imagens [93] em movimento está nas imagens fixas, impressas na película que passa no projetor e são projetadas uma após a outra. Há aí um paradoxo, pois não é fácil compreender como uma sucessão de imagens fixas projetadas uma após a outra pode dar a impressão de uma imagem única e dotada de movimento.

Foi muitas vezes dito que esse fenômeno era decorrente de uma propriedade das zonas mais exteriores de nosso aparelho perceptivo (no caso, a “persistência retiniana”). Não é o que acontece, evidentemente – a persistência momentânea das imagens sobre a retina não poderia dotá-las de movimento, mas somente misturar umas com as outras. É uma propriedade inata de nossa percepção que está em jogo, mas em estágios cerebrais. Os leves deslocamentos de uma imagem à imagem seguinte, dos estímulos visuais, excitam as células do córtex visual, que “interpretam” essas diferenças como movimento, e o efeito produzido em tais células por elas do efeito que um movimento real produz. Os psicólogos gestaltistas identificaram, desde a década de 1910, diversas variantes desse efeito de percepção de um movimento aparente e batizaram-no com letras gregas. Admite-se, geralmente, que o cinema tem relação com o efeito Φ (phi). (Aumont, 2003:93-94)

Elipse

A narratologia do cinema retomou sem modificações essa noção da teoria da literatura. Fala-se de elipse cada vez que uma narrativa omite [96] certos acontecimentos pertencentes história contada, “saltando” assim de um acontecimento a outro, exigindo do espectador que ele preencha mentalmente o intervalo entre os dois e restitua os elos que faltam.

Noël Burch (1969) propôs distinguir as elipses breves e mensuráveis e as elipses indefinidas, a primeira atuando em relação a uma continuidade espacial local virtual, a segunda presente no “roteiro” e acompanhada, no mais das vezes, de indicações por cartões como “Quinze dias mais tarde” (Luis Buñuel e Salvador Dali zombam disso em Un Chien Andalou e em L’âge d’or). (Aumont, 2003:96-97)

Enquadramento

A noção de quadro (moldura) era familiar à pintura, e a fotografia a havia prolongado, notadamente tornando manifesta a relação entre o quadro do instantâneo e o olhar (do fotógrafo) que a foto traduz. Mas as palavras “enquadrar” e “enquadramento” apareceram com o cinema, para designar o conjunto do processo, mental e material, pelo qual se chega a uma imagem que contém um certo campo visto e um certo ângulo. […] [98]

O enquadramento no cinema clássico é quase sempre uma operação de centralização, por vezes reforçada por técnicas de sobreenquadramento, e chegando a freqüentes reenquadramentos (pequenos movimentos de câmera destinados a manter o sujeito no centro do quadro). Inversamente, existem estilos fundados na recusa da centralização, em uma descentralização ativa e voluntária, ou, de modo mais radical, um desenquadramento (Bonitzer). (Aumont, 2003:98-99)

Especular, Especularidade

Inicialmente, a ciência especular é aquela que ensina a fazer espelhos (de speculum). O espelho estendeu seus poderes para bem além das [107] simples qualidades de reflexão que o definem, como mostram a magia, a literatura, a psicanálise, e todas as artes de representação.

[…]

Segundo Baudry, (1970), a tela nos remete ao espelho de nossa infância, no qual vimos um corpo (o nosso) se refletir e nos reconhecemos nos traços de Outro. A tela remete a uma espécie de imagem especular do eu espectatorial, sem ser, propriamente falando, um espelho refletor. (Aumont, 2003:107-108)

Falso-raccord

Na linguagem dos técnicos, o falso-raccord é uma articulação mal realizada ou mal concebida (insuficientemente contínua). Do ponto de vista estético, trata-se, antes, de uma mudança de plano que escapa à lógica da transparência que atua na articulação.

[…]

O falso-raccord é, entretanto, um raccord, pelo fato de ele assegurar uma continuidade mínima da narrativa: ele não impede a compreensão correta da história contada, e só é “falso” na visão de uma “veracidade” convencional, a de uma certa continuidade do visível. [116]

Em uma perspectiva mais abstrata, Gilles Deleuze (1983) propôs ver no falso-raccord um princípio que assegura a preeminência do todo sobre suas partes (ao contrário do raccord “verdadeiro”) e também o lugar do “aberto, que escapa aos conjuntos e a suas partes”. Com isso, o falso-raccord é para ele um instante de atualização, no filme, das virtualidades ou das potencialidades do fora-de-quadro. (Aumont, 2003:116-117)

Imagem

Existem imagens de várias espécies, que se dirigem, notadamente, a nossos diversos sentidos (imagens visuais, auditivas, táteis, olfativas, etc), ou seja, no final das contas, que correspondem a uma certa sensação acompanhada de idéias – o que foi, por vezes, designado como “imagem mental”. A imagem pode ser produzida seja por um fenômeno natural (reflexo, sombra, visão através de um corpo transparente etc.), seja por um gesto humano intencional. Isso significa que ela tem uma existência multiforme, e, que, notadamente, seu vínculo com a noção de representação, a fortiori com a de analogia, é bem variável (existem, na arte do século XX, muitas imagens não representativas: o que se chama de “pintura abstrata”).

A imagem cinematográfica é plana, enquadrada, o que a assemelha às imagens da pintura e da fotografia. Como essas imagens, ela possui uma “dupla realidade perceptiva”: é percebida, a um só tempo, como bidimensional e tridimensional. Pode-se até mesmo sustentar que, sem a percepção da realidade bidimensional – a da superfície da imagem – seria difícil, e até mesmo impossível, perceber corretamente a “realidade” tridimensional (a profundidade representada) […].

Uma imagem pode ser utilizada, principalmente (Arnheim 1969):

  • como signo, se figura um conteúdo cujos caracteres ela não reflete visualmente (exemplo: os sinais de trânsito); uma imagem reduz-se tanto [160] mais a um signo quanto menos ela o representa;
  • como representação, quando figura coisas concretas (“de um nível de abstração inferior ao das próprias coisas”, Arnheim); ela é, desse ponto de vista, a um só tempo, substituto analógico da realidade e forma convencional, pois a representação é um fenômeno codificado socioculturalmente;
  • como símbolo, quando figura coisas abstratas (“de um nível de abstração mais elevado do que aquele do próprio símbolo”); ela serve, então, para figurar o desconhecido, o invisível, o impossível, do mesmo modo que as abstrações metafísicas ou morais, sociais ou políticas. O valor simbólico de uma imagem é definido, pragmaticamente, pela aceitabilidade social dos símbolos representados.

Os suportes técnicos da imagem não pararam de evoluir, como seus papéis sociais. O cinema foi inventado no momento em que a propagação e a reprodução da imagem fotográfica, o aparecimento de novas formas de espetáculo (como o panorama) e de novos meios de transporte rápidos (a estrada de ferro, o automóvel) transformaram as relações com a realidade visível. A imagem cinematográfica é marcada por isso em sua relação com o tempo e sua credibilidade “documentária”.

(Aumont, 2003:160-161)

Imagem-ação

Em Gilles Deleuze, (1983), designa uma das modalidades da imagem-movimento, que corresponde à figuração da força ou do ato. Ela caracteriza o Realismo, documentário ou o fantástico, e Deleuze distingue duas variedades dela, uma, fundada na “grande forma”, “vai da situação à ação”, ao passo que a outra, fundada na “pequena forma”, vai “da ação à situação, para uma nova ação”: ao passo que a primeira vai “da situação como englobante à ação como duelo”, a segunda “vai de uma ação, de um comportamento ou de um habitus a uma situação parcialmente desvendada”.

(Aumont, 2003:161)

Imagem-afecção

Em Gilles Deleuze (1983), designa uma das modalidades da imagem-movimento, que corresponde à figuração da qualidade ou da potência. Ela é, antes de tudo, definida [161] como ligada ao rosto em primeiro plano, que pode ser “intensivo” ou “reflexivo”, conforme ele chegue a produzir uma nova qualidade, ou permaneça “sob o domínio de um pensamento fixo e terrível, mas imutável e sem devir”. À imagem-afecção está ligado, notadamente, o cinema de Sternberg, de Bergman e, em parte, o de Eisenstein.

(Aumont, 2003:161-162)

Imagem mental

A “imagem mental” é, em psicologia, uma representação que tem um conteúdo análogo ao de uma percepção, mas que é decorrente de um processo psíquico e não do estímulo de um órgão sensorial; ela é puramente subjetiva. É, no mais das vezes, visual, podendo ser também auditiva, motora e até mesmo gustativa (as “madeleines” de Proust) ou olfativa. A imaginação é etimologicamente a faculdade de produzir imagens mentais. Estas podem ser bem precisas e podem se apresentar sem qualquer emoção; Jean Paul Sartre (1940) coloca a imagem mental como um fato de introspecção.

A representação da imagem mental aparece desde as origens do cinema: elas têm, então, o estatuto de lembrança, de narrativa onírica (as adaptações das Aventuras do barão de Münchhausen ou da Lenda de Rip Van Winckle etc.). A imagem mental desempenhou um papel decisivo na estética do cinema “impressionista” francês: “O plano psicológico, o primeiro plano, como o chamamos, é o próprio pensamento da personagem projetado na tela. É a sua alma, sua emoção, seus desejos… A vida interior, tornada perceptível pelas imagens, e, com o movimento, toda a arte do cinema…. O cinema tem, maravilhosamente, os instrumentos para expressar tais manifestações de nosso pensamento, de nosso coração, de nossa memória” (Dulac 1924) [DULAC, Germaine “Lês procedes expressifs du cinématographe”. Écrits sur le cinema.].

A imagem mental é, igualmente, uma categoria deleuziana, que completa, como terceiro elemento, a imagem-afecção e a imagem-ação: “Quando falamos de imagem mental, queremos dizer outra coisa: é a imagem que toma por objetos de pensamento objetos que têm uma existência própria fora da percepção. É uma imagem que toma por objeto relações, atos simbólicos, sentimentos intelectuais” (1983). (Aumont, 2003:162).

Imagem-movimento

A imagem cinematográfica aparece, de saída, como radicalmente nova, pois ela está em movimento; é essa idéia de uma imagem fundamentalmente diferente das outras imagens, porque ela possui uma qualidade que a diferencia (ela não se contenta em acrescentar o movimento à imagem), que inspirou as primeiras teorizações do cinema, de Münsterberg à filmologia.

Repartindo dessa constatação que a imagem cinematográfica é capaz de “automovimento”, Gilles Deleuze (1983) propôs fazer da imagem-movimento encarnada no plano (definido como “corte móvel da duração”) uma das duas grandes modalidades do cinema, com a imagem-tempo. Deleuze distingue diversas variedades de imagem-movimento, que são encontradas, segundo distribuições variáveis, nas diversas tendências do cinema clássico; assim, a noção de imagem-movimento tem valor não apenas teórico, mas histórico (ela caracteriza uma época do cinema). (Aumont, 2003:163)

Imagem-percepção

Para Gilles Deleuze (1983), é uma das modalidades da imagem-movimento que corresponde à figuração da coisa. Ele faz a distinção (de modo bastante clássico) entre percepção subjetiva e objetiva, mas para notar que “a sina constante da imagem-percepção no cinema [é] a de nos fazer passar de um de seus pólos a outro” [DELEUZE, Gilles. L’image-mouvement. 1983, Paris: Éditions de Minuit]; ele se aplica então a descrever, do modo mais concreto possível, os estados da imagem-percepção, tendo em vista que eles escapam ao nominalismo da oposição entre subjetivo e objetivo. (Aumont, 2003:163)

Imagem-pulsão

Para Gilles Deleuze (1983), é uma das modalidades da imagem-movimento que corresponde à figuração da energia. Ele a situa “entre” a imagem-ação (aquela dos meios determinados e dos comportamentos) e a imagem-afecção (aquela de espaços quaisquer e dos afetos); “entre os dois, encontramos uma dupla estranha: Mundo originário-Pulsões elementares” [DELEUZE, Gilles. L’image-mouvement. 1983, Paris: Éditions de Minuit]. Ela caracteriza, para ele, o naturalismo (de Stroheim a Buñuel), mas também o cinema de “violência originária” (Visconti, Ray, Losey) – uma hipótese que foi discutida sobretudo por Luc Moullet. (Aumont, 2003:163)

Imagem-tempo

Neologismo proposto por Gilles Deleuze (1985) para designar a imagem fílmica do Pós-Classicismo (a partir de Ozu, do Neo-Realismo, de Welles ou da Nouvelle Vague). Para Deleuze, essa nova imagem traduz uma crise, uma “ruptura dos vínculos sensório-motores” [DELEUZE, Gilles. L’image-temps. 1985, Paris: Éditions de Minuit], ao mesmo tempo que a preocupação de explorar, diretamente, o tempo, para além do movimento unicamente, que antes definira a imagem de filme.

A classificação feita por Deleuze é menos rígida do que a feita a propósito da “imagem-movimento”. Mais exatamente, classificações feitas com base em vários pontos de vista cruzam-se, sem criar um quadro simples. Uma noção importante é a da imagem-cristal (“coalescência” de uma imagem atual e de uma imagem virtual), que dá conta do caráter essencial do cinema do pós-guerra: o presente não é o único tempo do cinema (e, correlativamente, o tempo não é mais representado como uma cronologia: ele é, de certa forma, dado a ver). (Aumont, 2003:164)

Imaginário

No sentido corrente, o imaginário é o campo (e o produto) da imaginação, entendida como faculdade criativa. A palavra, praticamente, é então empregada como sinônimo de “fictício”, “inventado” e oposta a real. Nesse sentido, a diegese de uma obra de ficção é um mundo imaginário.

A palavra ganhou um sentido mais técnico na teoria lacaniana, que inspirou, por muito tempo, a reflexão sobre o dispositivo cinematográfico. Para Jaques Lacan, o sujeito é um efeito do simbólico, ele mesmo concebido como um sistema de significantes, cujo sentido só se adquire em suas relações mútuas. A relação entre o sujeito e o simbólico efetua-se por intermédio de formações imaginárias:

  • “figuras do outro imaginário nas relações de agressão erótica onde elas são realizadas”, ou seja, os objetos de desejo do sujeito;
  • identificações “desde o Urbid [imagem primitiva] especular até a identificação paterna do ideal do eu”.

A palavra “imaginário” remete também, para Lacan, “1º) à relação do sujeito com suas identificações formadoras; 2º) à relação do sujeito com o real, cuja característica é ser ilusória”.

O cinema é constituído de significantes imaginários, “ele suprime em massa a percepção, mas para [164] jogá-la logo depois em sua própria ausência, que é, entretanto, o único significante presente” (Metz 1975) [METZ, Christian. “Le significant imaginaire” e “Le film de fiction et son spectateur”. Comunications, n° 25.]. A teoria lacaniana liga, estritamente, imaginário e identificação; a primeira identificação, a do sujeito com sua própria imagem no espelho, é o que constitui, para ele, o registro imaginário. Foi no modelo dessa identificação primária, em que a vista desempenha um papel importante, que foi proposta a noção de identificação cinematográfica primária (Baudry), na base da qual se tornam possíveis as identificações secundárias (com personagens, com situações etc.). Dessa forma, o imaginário designa, portanto, a instância que define e regula a relação metapsicológica do espectador com o dispositivo. (Aumont, 2003:164-165)

Olhar

O olhar distingue-se da visão pelo fato de emanar do sujeito que percebe, de maneira ativa e mais ou menos deliberada; a vista é assim o resultado do olhar. Uma definição mais precisa supõe a adoção de um modelo do sujeito e de seu psiquismo.

As psicologias cognitivas definem o olhar como um ato sensório-informativo consciente e voluntário, entrando na estratégia de conhecimento e de comportamento do sujeito em seu ambiente. Essa abordagem torna parcialmente fácil a comparação entre olhar do espectador e “olhar” da câmera, já que este último, manifestado por um ponto de vista, uma distância, um enquadramento, eventualmente um movimento, uma profundidade de campo etc., é calculado, voluntário, deliberado. É, portanto, essa concepção que está, de modo mais ou menos implícito, no fundamento de noções como o “observador invisível” (Pudovkin) ou o espectador “onividente” (Souriau Metz). As abordagens cognitivas mais recentes (Bordwell 1985) têm tendência a fazer economia dessa metáfora do “olhar da câmera”, para descrever de modo mais analítico os elementos do enquadramento, diretamente relacionados com a atividade de olhar do espectador.

As teorias de inspiração psicanalítica insistem, por seu lado, na relação entre olhar e desejo. Nesse sentido, o espectador é pego em um jogo instersubjetivo complexo, que implica, de um lado, o dispositivo espectatorial, como máquina de “bloquear” a visão, de fazer “não-ver-tudo” (Bonitzer 1976), e cuja função de censura é tão importante quanto a função de habilitação; de outro lado, [215] os olhares trocados no interior da diegese, e em cujo jogo o espectador se encontra envolvido (Browne 1975; Bellour 1969,1978); enfim, os olhares dirigidos da tela para a sala, seja em uma troca simbólico-imaginária como a “sutura” (Oudart 1969), seja no modo ainda mais direto do “olhar para a câmera”. Esta figura é freqüentemente considerada uma perversão da linguagem clássica, da enunciação transparente que a caracteriza, e da situação “normal” do espectador que olha; Vernet (1988) a ligou às “figuras da ausência”, que atravessam o discurso fílmico deixando aflorar o irrepresentável.

A abordagem psicanalítica, em suas diversas variantes, é ainda a mais trabalhada em duas grandes direções:

  • o estudo dos olhares figurados na tela, e da maneira pela qual eles implicam o do espectador; as teorias feministas salientaram com freqüência, notadamente, a dissimetria entre personagens masculinos, dotados do poder de olhar, e personagens femininos, feitos para serem olhados(as)o importante quanto a funçnçtivo complexo, que implica, de um lado, o dispositivo espectatorial;
  • o estudo do olhar do espectador, como satisfação parcial de seu voyeurismo inato (de sua “pulsão escópica”), é também um ponto forte das teorias feministas, que salientaram a diferença no jogo do olhar espectatorial entre um sujeito masculino voyeur por estrutura e um sujeito feminino clivado entre voyeurismo espectatorial e situação-de-ser-visto (“to-be-looked-at-ness”, Mulvey 1975)

(Aumont, 2003:215-216)

 

Raccord

[…] é no cinema mais industrial, o de Hollywood na época clássica, que é aperfeiçoada a prática do raccord, ou seja, de um tipo de montagem na qual as mudanças de planos são, tanto quanto possível, apagadas como tais, de maneira que o espectador possa concentrar toda sua atenção na continuidade da narrativa visual.

É, portanto, antes, uma noção empírica, pouco utilizada pelos teóricos, mesmo aqueles que defendem o cinema da transparência […]. Existem desse ponto de vista alguns grandes tipos de raccord, que só têm em comum a preocupação com a preservação de uma certa continuidade (mas nem sempre a mesma): espacial (caso do raccord no eixo); plástico (raccord sobre um movimento); diegético (raccord sobre um gesto), por exemplo. (Aumont, 2003:251)

Realidade, Real

O cinema não modificou o sentido (complexo, historicamente estratificado) desses termos usuais, mas, no âmbito de certas teorias de inspiração lacaniana (Oudart 1971; Bonitzer 1976), a distinção entre os dois, que na língua corrente é bastante fraca, foi, por vezes, acentuada. Designa-se então por “real”, em conformidade com o primeiro sentido da palavra em francês, a um só tempo, “o que existe por si mesmo” e “o que é relativo às coisas”. A realidade, em compensação, corresponde à experiência vivida que o sujeito desse real tem; ela está inteiramente no campo do imaginário. (É lógico, portanto, falar, a propósito do cinema, de “impressão de realidade” e não de impressão de real.) (Aumont, 2003:252)

Reflexividade

1. Termo de origem matemática, que designa a propriedade de uma relação reflexiva. Ele foi retomado pela teoria do cinema para designar “o efeito espelho” provocado pelo olhar do ator (e/ou da personagem) para a câmera. O “olhar para a câmera” pode ser interpretado como uma espécie de mensagem direta da personagem ao espectador, já que um olha o outro “nos olhos”. Entretanto, diferentemente das mensagens de linguagem, faladas ou escritas, este é reflexivo: ele provoca um efeito espelho de um gênero particular que pode ser interpretado como o equivalente de uma marca enunciativa (Casetti 1987; Vernet 1988).

2. O termo é utilizado em um sentido mais amplo, quando o filme mostra o dispositivo (reflexividade cinematográfica) ou produz efeitos de espelho (reflexividade fílmica). Esta pode, por sua vez, remeter a outros filmes ou se auto-refletir.

A reflexividade é, portanto, o aspecto mais especificamente visual de questões mais gerais como o “filme no filme”, o “cinema no cinema” e o procedimento da construção em abismo. (Aumont, 2003:254)

Salto

Raccord entre dois planos quase idênticos, entre os quais a distância espaço-temporal é muito fraca.

Foi a prática do documentário, e notadamente da reportagem televisiva, que levou à utilização dessa forma (o jump cut anglo-saxão), que consiste em montar dois planos que são, na verdade, fragmentos da mesma tomada de cena, eliminando uma parte dessa tomada e conservando o que vem logo antes e logo depois. O efeito visual é tocante, sobretudo no caso freqüente em que o objeto está centrado em uma ou várias personagens estáticas: tem-se a impressão de que a personagem “salta” de repente, de maneira mais ou menos acentuada. Esse tipo de raccord foi introduzido espetacularmente no filme de ficção por A bout de souflle (Acossado), de Jean-Luc Godard, em 1959; ele é considerado um dos elementos estilísticos dos “novos cinemas” da década de 1960. (Aumont, 2003:264)

Tempo

O filme “é a única experiência em que o tempo me é dado como uma percepção” (Scheffer 1999) [SCHEFFER, Jean-Louis. Images mobiles. 1999, POL]; ver um filme é ver o tempo passar. São poucas, portanto, as reflexões teóricas sobre o cinema que não abordam, ao menos indiretamente a relação entre cinema e tempo; é, notadamente, o caso de todas as teorias da narrativa. Um estudo mais direto refere-se a três tipos principais, conforme o aspecto retido da própria noção de tempo. (Aumont, 2003:287)

 

O tempo como medida

É a maneira mais formal de considerar o tempo fílmico, e ela leva, no mais das vezes, a observar as discrepâncias entre o tempo fílmico e o tempo real (tempo da narrativa fílmica/tempo da história, por exemplo). Os teóricos do cinema mudo frisaram com freqüência as possibilidades expressivas oferecidas pela aceleração ou pela câmera lenta (Epstein, Vertov). Outro caso particular, o da reversão do tempo fílmico, foi freqüentemente considerado também, por causa de seu próprio fascínio, mas, em termos de medida do tempo, ele não diz nada além do acelerado e da câmera lenta: o tempo do filme não é o da realidade (Arnheim 1932; Rinieri 1953). (Aumont, 2003:287)

O tempo como experiência

Nossa experiência do tempo em geral é complexa. Existem certos “relógios biológicos”, que regulam certos ritmos fisiológicos, mas nossa apreensão do tempo resulta da percepção de seqüências de acontecimentos, que foram, por vezes, considerados a única realidade material, “o tempo” procedendo, em geral, da construção simbólica da “instrumentação” mental (Nobert Elias).

A psicologia empírica distingue quatro grandes modos de experiência temporal: o presente, fundado na memória imediata e na apreensão dos intervalos temporais breves; a duração, experiência normal do tempo que passa, implicando a memória a longo prazo; a perspectiva temporal, ou “experiência do futuro”, determinada social e culturalmente; [287] enfim, a diferenciação entre simultaneidade e sucessão. O cinema faz eco a esses quatro modos, para os quais ele inventou formas originais (por exemplo, o plano prolongado ou a mistura das imagens), e as teorias do cinema retomam mais ou menos essas categorizações, insistindo no tempo vivido (Mitry). A maioria salienta o caráter de realidade do tempo fílmico – tempo físico da projeção – como principal fator de diferenciação entre cinema, romance, e teatro; além disso, o filme narrativo modela o tempo, impondo-lhe um ritmo, transformando-o pela montagem, em geral pela utilização de uma “linguagem” cinematográfica: o tempo do filme de ficção é “a sugestão de um tempo fictício, que compreende fragmentos de duração do real” (Laffay 1964) [LAFFAY, Albert. Logique du cinéma. 1964, Masson.]. Neste último sentido, o tempo do filme é comparável ao tempo do romance, e os estudos de teoria literária (Bahktin, Poulet) podem, em parte, ser transpostos para sua produção. (Aumont, 2003:287-288)

O tempo como categoria

Com o espaço e a causalidade, o tempo está entre as categorias fundamentais do entendimento na filosofia kantiana, que continua a dominar as abordagens habituais dessa questão. Todavia, a reflexão sobre o cinema aprofundou pouco essa idéia; a exceção mais notável é a de Jean Epstein, que formulou a tese de que o cinema cria uma a percepção inteiramente original do tempo e, até mesmo, de que ele produz um tempo sui generis, diferente do tempo humano (Epstein 1946).

Em terreno frontalmente conceitual, a reflexão partiu, no mais das vezes, de Bergson e de sua reflexão sobre o tempo vivido e a duração. As teorias Bergsonianas, retomadas quase sem modificações por Gilbert Cohen Séat (1946), são encontradas, indiretamente, em André Bazin, para quem, por exemplo, o cinema é apto a construir equivalentes da relação colocada por Bergson entre a duração vivida e a memória (é a lição que ele tira do Mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot (1956), que revela, mostrando-a, a duração contida no quadro terminado, ou seja, o tempo de sua criação).

A perspectiva bergsoniana foi retomada, ampliada e aprofundada por Gilles Deleuze (1983), que retoma o modelo de uma relação entre o espaço, o tempo e o movimento, e faz dele o princípio de uma ampla tipologia crítica da imagem fílmica, distinguindo entre imagem-movimento e imagem-tempo. Deleuze reflete, de modo mais particular, sobre a duração e seu “corte móvel” pela imagem-movimento, ela própria constituída pela integração de “cortes imóveis”, segundo “instantes quaisquer” eqüidistantes (os fotogramas), e sobre o devir-visível do tempo no cinema contemporâneo (encontran- [288] do o fundamental da observação de Jean Louis Schefer).

(Aumont, 2003:288-289)

Ensaio sobre o cinema do simulacro – André Parente

“ (…) grande parte dos nosso consagrados cineastas de outrora não são hoje senão produtores de filmes, homens de negócios e interesses espúrios, capazes de, a exemplo de grande parte de nosso empresariado, fazer uma política qualquer para salvar suas empresas e seus projetos, em detrimento de uma verdadeira política para o cinema brasileiro. Quem age assim, está inviabilizando duplamente o cinema: em primeiro lugar, porque essa política imdediatista e arrivista, no sentido mais amplo da palavra, é uma sentença de morte do cinema a médio e longo prazo; em segundo lugar, porque o cinema não se confunde com os filmes, e é justamente por isso que o cinema tem um papel estratégico – na refelxão sobre a questão da produção do novo, por exemplo – no campo do audiovisual.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O principal problema do nosso cinema deve-se à forma como ele pode, ou não, se inserir, como produto no campo do audiovisual, notadamente no mercado da imagem eletrônica (televisão e home-video). A razão é simples: não se pode mais pensar o cinema independente de sua inscrição no domínio do audiovisual, e isso, em qualquer lugar do mundo. “(PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Quando Godard recebeu o prêmio Cezar pelo conjunto de sua obra, fez uma declaração que é esclarecedora a esse respeito: ´Agradeço aos profissionais da profissão (lema do Cezar), mas, eu sinto muito ter que dizer , não sou um profissional, não faço filmes, faço cinema´.”(PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O cinema não pára de ressuscitar a televisão, enquanto a televisão não pára de assassinar o cinema.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ Todos nós sabemos que nem o cinema nem a televisão surgiram para atender a uma necessidade de criação ou comunicação. As diversas ´ linguagens ´  audiovisuais foram inventadas, ao longo deste século, como forma de afirmações de visões de mundo, em função de vontades, estéticas, éticas, políticas.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Se a modernidade desses movimentos nasce da crise da representação, é precisamente porque o que surge com ela, em primeiro plano, é a questão da possibilidade, ou melhor, da necessidade de produção do novo. O novo é o que escapa à representação do mundo, como dado, como cópia. O novo significa a emergência da imaginação no mundo da razão, e, conseqüentemente, implica uma liberação dos modelos disciplinares.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O que nos interessa hoje é um audiovisual da criação que remeta à afirmação do real enquanto novo, um cinema que rompa com os modelos da representação e os antigos ideais de verdade da indústria. No entanto, não basta boa vontade e prazer em criar, produzir, comunicar, mesmo que essa boa vontade e prazer tragam consigo idéias e imagens justas porque bonitas (pós-moderno) ou bonitas porque justas (pré-moderno). As imagens do cineasta e as palavras do cineasta necessitam da necessidade, da marca da necessidade. E essa necessidade, que faz das idéias, das imagens e dos signos algo de novo, depende cada vez mais de um espaço crítico. O espaço crítico é o operador necessário que faz do moderno não um signo vazio, um significante sem referente social, mas um agenciamento coletivo. Lembremos que, para Paul Klee, o povo é que continua a faltar no projeto moderno. No entanto, devemos evocar artistas como Guimarães e Glauber, que souberam tão bem inventar, com suas obras, uma relação imanente com o povo: cada um, a seu modo, soube fazer do povo expressão de suas obras.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Hoje, cada vez mais, o espaço crítico , que não se confunde com a crítica, é o espaço necessário para que a produção artística do novo seja como um porvir das novas linguagens.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma – Glauber Rocha

“Consideramos como o ínicio de uma revolução cultural no Brasil, o ano de1922. Naquele ano existiu forte movimento cultural de reação à cultura  acadêmica e oficial. Deste período, o expoente foi Oswald de Andrade. Seu trabalho cultural, sua obra, que é verdadeiramente genial, ele definiu como antropofágica, referindo-se à tradição dos índios canibais. Como esses comiam os homens brancos, ele dizia de haver comido toda a cultura brasileira e aquela colonial. Morreu com pouquíssimos textos publicados.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Primeiro se descobriu, se bem que em forma bastante esquemática, por que no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a idéia de que o subdesenvolvimento era integral. O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição à cultura ocidental como era no início (e era loucura, por que não temos metodologia): aceitamos a ricezione (recepção) integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa mas também a transformação mediante os nosso succhi (sucos, substâncias) e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento, por isso existe um cinema antes e depois do tropicalismo.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Esta relação antropofágica é de liberdade.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeira e profunda de um povo, então se pode até vencer.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“É uma procura estética política que se move debaixo do signo de individualização do inconsciente coletivo, e para isso existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia é mais importante.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Tínhamos de construir as estruturas e descobrir os cineastas. Isto foi feito. Agora existe uma mudança de tática, com um trabalho enorme para difundir as possibilidades do cinema.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro  do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Para nós o problema é de mais imediata compreensão, porque o analfabetismo leva a um tipo de percepção complexa e nós queremos desenvolver nosso cinema em uma dialética histórica permanente com a situação em movimento.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O cinema do futuro é Ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos. Para isto não basta uma ciência mas é necessário um processo de conhecimento e autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade. O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o tropicalismo.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O nosso não é o surrealismo do sonho, mas da realidade. Buñuel é um surrealista e seus filmes mexicanos são os primeiros filmes tropicalistas e antropofágicos.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“A função histórica do surrealismo no mundo hispano-americano oprimido foi aquela de ser instrumento para o pensamento em direção de uma libertação anárquica, a única possível. Hoje utilizada dialeticamente, em sentido profundamente político, em direção do esclarecimento e da agitação.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“A excelente crítica de Bazin formou apenas Godard – embora Truffaut pudesse ser um grande cineasta se fizesse psicoanálise.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)