Participantes de debate sobre ensino superior lançam Carta Aberta em defesa da universidade brasileira

Docentes, técnicos, estudantes e egressos de graduação e pós-graduação de várias áreas e de diversas instituições públicas e privadas lançaram uma Carta Aberta no fim do debate “Como enfrentaremos a ofensiva de desmonte do ensino superior?”, realizado na noite desta segunda, 18 de dezembro, no auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. O documento é uma defesa da universidade brasileira, que sofre uma série de ataques em várias frentes.

O grupo reunido compartilhou entre si um grande número de relatos e debateu possíveis ações conjuntas. “Sugerimos a integração das pautas. Podemos unir nossas Semanas Acadêmicas em direção a um pensamento crítico sobre a cidade e sobre o ensino de Arquitetura e Urbanismo”, propôs Thiago Engers, representante do Diretório Acadêmico de Arquitetura da Uniritter.

Semana passada, a instituição de ensino demitiu mais de cem professores de seus quadros, dentre os quais quase vinte eram docentes do curso de Arquitetura e Urbanismo. À mesa, também estiveram presentes integrantes da FENEA – Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, Leonardo Valerão (DAFA-UFRGS) e Osmar Morlin (CALAU-UNISINOS).

“O futuro do Brasil depende do futuro da universidade.” Wrana Panizzi

“É muito bom ver os estudantes falar primeiro. Temos que os ouvir. O futuro do Brasil depende do futuro da universidade”, disse a professora Wrana Panizzi, que já foi reitora da UFRGS por duas gestões, além de vice-presidente do CNPq e presidente da Fundação de Economia e Estatística (FEE).

Os recentes reveses da universidade brasileira acontecem em âmbito público e privado. Nas instituições particulares, há uma série de demissões impulsionadas pela reforma trabalhista e pelo corte em programas de financiamento estudantil. Programas inteiros de pós-graduação estão sendo fechados pelo Brasil, enquanto as graduações sofrem mudanças de currículo drásticas e pouco transparentes.

Já nas instituições públicas, sente-se os primeiros efeitos da PEC do Teto, que congela os investimentos públicos por vinte anos. Ao longo do último ano, quatro das maiores universidades federais do Brasil (UFMG, UFRGS, UFSC e UFPR) sofreram com a investida de operações policiais de grande repercussão midiática, com prisões e conduções coercitivas de reitores e outros servidores, com desrespeito ao princípio de presunção de inocência e à dignidade humana.

No fim de novembro, foi preciso que pesquisadores dos maiores centros de excelência do meio acadêmico do país rebatessem um relatório em que o Banco Mundial propunha a cobrança de mensalidades nas universidades públicas. “O documento faz uma leitura essencialmente econométrica, desconsiderando a legislação e o modo de funcionamento do ensino superior e da educação básica no Brasil”, afirmou Carlos Roberto Jamil Cury, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em entrevista ao Jornal da Unicamp.

Integrantes de outras entidades ligadas à área de Arquitetura e Urbanismo estiveram presentes ao encontro desta segunda na UFRGS e também manifestaram preocupação com o impacto que o panorama atual poderá trazer ao ensino universitário na área e as consequências para o exercício da profissão.

“Essas medidas não ganharam nenhuma eleição democrática. Temos que reagir, e de forma organizada”, disse Tiago Holzmann, ex-presidente do IAB-RS (Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento do Rio Grande do Sul) e conselheiro eleito do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RS). Já Rafael Passos, também integrante do IAB-RS, sugeriu integração a articulações já iniciadas em nível nacional por personalidades importantes do campo, como Ermínia Maricato.

Leia a Carta Aberta na íntegra aqui.

Fotos: Camila Domingues