{"id":505,"date":"2013-06-29T14:44:38","date_gmt":"2013-06-29T17:44:38","guid":{"rendered":"http:\/\/gpitufrgs.wordpress.com\/?p=505"},"modified":"2013-06-29T14:44:38","modified_gmt":"2013-06-29T17:44:38","slug":"artigo-no-jornal-gpmc-nos-protestos-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/artigo-no-jornal-gpmc-nos-protestos-do-rio\/","title":{"rendered":"Artigo no jornal + GPMC nos protestos do Rio"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>&#8220;Ao defenderem o que \u00e9 p\u00fablico, os manifestantes est\u00e3o no exerc\u00edcio pleno de seus direitos&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_506\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/saci-gpmc.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-506\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-506\" alt=\"Estandarte do GPMC - UFRJ nas manifesta\u00e7\u00f5es do dia 20 de junho, no Rio de Janeiro.\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/saci-gpmc.jpg?w=580\" width=\"580\" height=\"435\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/saci-gpmc.jpg 1984w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/saci-gpmc-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/saci-gpmc-1024x768.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-506\" class=\"wp-caption-text\">Estandarte do GPMC &#8211; UFRJ nas manifesta\u00e7\u00f5es do dia 20 de junho, no Rio de Janeiro.<\/p><\/div>\n<h1><strong>GPMC vai \u00e0s ruas no Rio de Janeiro<\/strong><\/h1>\n<p>Enquanto <a href=\"http:\/\/gpitufrgs.wordpress.com\/2013\/06\/21\/debate-na-tve-mencao-honrosa-na-anpur\/\">pesquisadores do GPIT acompanharam as marchas em Porto Alegre<\/a>, o Grupo de Pesquisa Modernidade e Cultura da UFRJ marcou sua presen\u00e7a\u00a0na manifesta\u00e7\u00e3o do dia 20 de junho, na cidade do Rio de Janeiro. &#8220;N\u00f3s, GPMC, numa onda que tem a ver com o trabalho que estamos desenvolvendo, fizemos um enorme saci de estandarte. Saci guerreiro que remoinha, que desestabiliza, mas n\u00e3o perde o equil\u00edbrio, ainda que numa perna s\u00f3. N\u00f3s e nosso saci tivemos que caminhar quil\u00f4metros, subindo por Santa Teresa, pra escapar da verdadeira pra\u00e7a de guerra que o centro se tornou&#8221;, conta o professor Frederico Bandeira de Araujo,\u00a0professor do Instituto de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR-UFRJ) e coordenador do GPMC, que integra a rede de grupos de pesquisa RIIT.<\/p>\n<h1><strong>Sobre democracia e espa\u00e7o p\u00fablico<\/strong><\/h1>\n<p><em>[Artigo do professor Eber Marzulo (GPIT, PROPUR-UFRGS) publicado hoje no\u00a0<a title=\"Sobre democracia e espa\u00e7o p\u00fablico\" href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/rs\/cultura-e-lazer\/segundo-caderno\/noticia\/2013\/06\/ao-defenderem-o-que-e-publico-os-manifestantes-estao-no-exercicio-pleno-de-seus-direitos-4185355.html\">caderno\u00a0Cultura do jornal\u00a0Zero Hora<\/a>]<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size:13px;line-height:19px;\">Ao defenderem o que \u00e9 p\u00fablico, os manifestantes est\u00e3o no exerc\u00edcio pleno de seus direitos como cidad\u00e3os A inven\u00e7\u00e3o da democracia ocorre, por princ\u00edpio, com a instaura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico. Ambos, democracia e espa\u00e7o p\u00fablico, s\u00e3o constituintes da moderna sociedade ocidental. A coloniza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico asfixia, logo, a experi\u00eancia democr\u00e1tica. Quando se tem um controle do espa\u00e7o p\u00fablico, seja pelo Estado, seja pelo privado, a democracia est\u00e1 em risco. \u00c9 por isto, e nada mais, que a conquista do espa\u00e7o p\u00fablico implica na expans\u00e3o da democracia e a experi\u00eancia democr\u00e1tica alastra o espa\u00e7o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o do pensamento moderno, os protestos brasileiros das \u00faltimas semanas colocam a quest\u00e3o duplamente. 1) Por sua pauta: a luta pelo direito ao uso do espa\u00e7o p\u00fablico expressa na reivindica\u00e7\u00e3o de garantia do direito de ir e vir com passagens dos transportes coletivos mais acess\u00edveis, tendo como horizonte de expectativa a gratuidade. 2) Pela forma: a ocupa\u00e7\u00e3o de vias e pra\u00e7as, p\u00fablicas por princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Ao defenderem o que \u00e9 p\u00fablico, os manifestantes est\u00e3o no exerc\u00edcio pleno de seus direitos como cidad\u00e3os. O direito \u00e0 resist\u00eancia da limita\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 um princ\u00edpio democr\u00e1tico que extrapola os limites do estado de direito. \u00c9 por meio da expans\u00e3o da democracia que se instauram os direitos, logo n\u00e3o s\u00e3o os direitos que limitam a experi\u00eancia democr\u00e1tica. Cabe aos cidad\u00e3os a defesa da democracia e de seu espa\u00e7o, mesmo contra o estado e o direito. Trata-se aqui de uma quest\u00e3o de legitimidade do exerc\u00edcio da cidadania que j\u00e1 estava l\u00e1 na Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem do Cidad\u00e3o, de 1798.<\/p>\n<p>Se a quest\u00e3o aparece com relev\u00e2ncia nos milh\u00f5es de brasileiros que ocupam as ruas das principais cidades do pa\u00eds, em Porto Alegre tem caracter\u00edsticas ainda mais n\u00edtidas. As manifesta\u00e7\u00f5es recentes t\u00eam como centro o espa\u00e7o p\u00fablico. Os protestos na capital ga\u00facha, desde 2011, t\u00eam se caracterizado pela defesa do uso coletivo do espa\u00e7o p\u00fablico e contra o privil\u00e9gio dado ao autom\u00f3vel. Em manifesta\u00e7\u00f5es locais organizadas por rede de vizinhos contra a implanta\u00e7\u00e3o de viadutos; protestos na regi\u00e3o central contra o aumento das tarifas do transporte p\u00fablico; manifesta\u00e7\u00f5es contra a libera\u00e7\u00e3o do Largo Gl\u00eanio Peres, defronte ao Mercado Central, para utiliza\u00e7\u00e3o como estacionamento \u2013 Largo Vivo; atos contra a coloca\u00e7\u00e3o de \u00edcones de companhia patrocinadora da Copa do Mundo em locais p\u00fablicos; fechamento de vias com uso de bicicletas \u2013 conhecido como Massa Cr\u00edtica; movimento Chave por chave como garantia de habita\u00e7\u00e3o para os moradores a serem removidos pelas obras da Copa; ocupa\u00e7\u00e3o de vagas para estacionamento com atividades culturais \u2013 Vaga Viva; acampamento em parque p\u00fablico contra o corte de \u00e1rvores para a duplica\u00e7\u00e3o de avenida. Saliente-se a conex\u00e3o difusa entre a\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter internacional, como o Massa Cr\u00edtica e o Vaga Viva.<\/p>\n<p>Vistas em seu conjunto, as manifesta\u00e7\u00f5es apontam nitidamente para a emerg\u00eancia de uma consci\u00eancia civil em defesa do espa\u00e7o p\u00fablico e contr\u00e1ria \u00e0 prioriza\u00e7\u00e3o dada pelas a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas aos interesses privados. Milhares de pessoas sa\u00edrem \u00e0s ruas em todo o pa\u00eds parando as principais cidades para reivindicar passagens de transporte coletivo mais barata e criticar gastos p\u00fablicos bilion\u00e1rios com obras sup\u00e9rfluas e privadas, como est\u00e1dios de futebol, \u00e9 a\u00e7\u00e3o p\u00fablica de conquista do que \u00e9 p\u00fablico. Ruas e avenidas ocupadas por marchas s\u00e3o a express\u00e3o vis\u00edvel da disputa contra a apropria\u00e7\u00e3o privada do que \u00e9 p\u00fablico. \u00c9 exemplo de conquista democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de particularmente relevante nos protestos do ponto de vista do planejamento urbano, pois, ao mesmo tempo que explicitam a inexist\u00eancia de debates p\u00fablicos sobre as decis\u00f5es governamentais, que interv\u00eam diretamente na vida cotidiana da popula\u00e7\u00e3o da cidade e da regi\u00e3o metropolitana, alinham-se \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas urbanas desenvolvidas nas capitais democr\u00e1ticas do mundo ocidental. Se o primeiro aspecto demonstra um grave retrocesso na experi\u00eancia de democracia participativa que inseriu Porto Alegre como refer\u00eancia mundial, o segundo coloca nossos gestores p\u00fablicos na retaguarda do que vem se estabelecendo desde os anos 1990 como consenso em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas de mobilidade, isto \u00e9, a prioriza\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico confort\u00e1vel, do transporte individual n\u00e3o motorizado ou ciclo motorizado e do deslocamento a p\u00e9. Mas nem tudo s\u00e3o perdas. Nossas mobiliza\u00e7\u00f5es est\u00e3o sintonizadas com a contesta\u00e7\u00e3o mundial e com o sentido das interven\u00e7\u00f5es urbanas mais recentes nas principais cidades do mundo.<\/p>\n<p>Nem s\u00f3 a luta pelo transporte p\u00fablico acess\u00edvel, eficiente e confort\u00e1vel \u00e9 atual. Os atos contra a decis\u00e3o da prefeitura de cortar \u00e1rvores para aumentar a quantidade de pistas em avenida da orla do Gua\u00edba na regi\u00e3o central da cidade soam sintom\u00e1ticos da sintonia com o que h\u00e1 de mais avan\u00e7ado nos movimentos sociais urbanos atuais. Foram dias de protesto e acampamento, repetindo a t\u00e1tica utilizada nos \u00faltimos anos em diferentes pontos do planeta em movimentos cuja pauta foi a crise financeira internacional no Occupy nos EUA e nos Indignados na Espanha, passando pelas lutas democr\u00e1ticas no norte da \u00c1frica, em especial na Pra\u00e7a Tahrir, no Egito, at\u00e9 as lutas ainda em curso em Istambul na Pra\u00e7a Taksim. Os combates pol\u00edticos na Pra\u00e7a Taksim t\u00eam particular semelhan\u00e7a com estes de Porto Alegre, por tratar, em seu princ\u00edpio, de protestos contra a tentativa do governo turco de privatizar parte da Pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Anacr\u00f4nico seria uma palavra gentil para nomear o que significa, no presente, investir no aumento de pistas para autom\u00f3veis, em viadutos, na constru\u00e7\u00e3o de estacionamentos e aumento de tarifas do transporte p\u00fablico. Anacr\u00f4nico, pois o esgotamento do modelo de deslocamento intraurbano e metropolitano baseado no autom\u00f3vel \u00e9 um consenso.<\/p>\n<p>Felizmente, nada mais contempor\u00e2neo e democr\u00e1tico que a ocupa\u00e7\u00e3o das ruas e avenidas de grandes e m\u00e9dias cidades do pa\u00eds em defesa do que \u00e9 p\u00fablico por milhares de pessoas. Tendo \u00e0 frente uma gera\u00e7\u00e3o que mostra a cidade desejada. Ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico como ato perform\u00e1tico que instaura o que quer: a reconquista do p\u00fablico.<\/p>\n<p><em>*<strong>POR EBER PIRES MARZULO<\/strong>, p<span style=\"font-size:13px;line-height:19px;\">rofessor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Planejamento Urbano e Regional (Propur) da Faculdade de Arquitetura da UFRGS e coordenador do Grupo de Pesquisa Identidade e Territ\u00f3rio (GPIT)<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>Megaeventos, meganeg\u00f3cios, megaprotestos<\/h1>\n<h3><strong style=\"font-size:13px;line-height:19px;\">Uma Contribui\u00e7\u00e3o ao Debate sobre as Grandes Manifesta\u00e7\u00f5es e as Perspectivas Pol\u00edticas<\/strong><\/h3>\n<p><em>Carlos Vainer [IPPUR-UFRJ] \u2013 24\/06\/2013<\/em><\/p>\n<p><em><strong>I. Uma Nova Conjuntura Pol\u00edtica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>1.1. Desnecess\u00e1rio dizer da import\u00e2ncia das lutas e manifesta\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos dias. Elas expressam uma extraordin\u00e1ria vontade n\u00e3o apenas de mudar as pol\u00edticas de transporte, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, etc, como pretendem alguns analistas que buscam reduzir o significado dos acontecimentos dos \u00faltimos dias, mas de transformar de modo radical a sociedade brasileira e as formas de exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>1.2, Aqueles que acompanham ou est\u00e3o diretamente envolvidos nas lutas quotidianas e no esfor\u00e7o de organizar essas lutas, sabem que, h\u00e1 muito tempo, multiplicam-se, no tecido social, diferenciadas, dispersas e fragmentadas manifesta\u00e7\u00f5es de protesto, insatisfa\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. Por quantas vezes nos vimos, nas reuni\u00f5es e conversas, a analisar ou lamentar a fragmenta\u00e7\u00e3o, assim como a tentar encontrar os caminhos \u2013 pol\u00edticos, organizacionais \u2013 que poderiam propiciar converg\u00eancias, unidades, frentes e articula\u00e7\u00f5es que abrangessem o conjunto de conflitos setoriais e localizados? H\u00e1 quanto tempo nos vemos \u00e0s voltas com as dificuldades de fazer convergir lutas micro-localizadas, experi\u00eancias de luta com diferentes focos e bases sociais?<\/p>\n<p>1.3. A arrog\u00e2ncia e brutalidade dos detentores do poder realizaram, em poucos dias, aquilo que muitos militantes, organiza\u00e7\u00f5es populares e setores do movimento vinham tentando h\u00e1 algum tempo: unificar descontentamentos, lutas, reivindica\u00e7\u00f5es, anseios. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso acontece na hist\u00f3ria. Mas o que ocorreu foi al\u00e9m do que se poderia imaginar, em virtude da prepot\u00eancia das coaliz\u00f5es pol\u00edticas governantes, assim como do cartel de interesses que associou, em torno dos megaeventos, a m\u00eddia, os interesses de grandes corpora\u00e7\u00f5es nacionais, especuladores e o cartel empresarial internacional articulado pela FIFA e COI. Sua cegueira, autossufici\u00eancia e viol\u00eancia trouxeram para a esfera da a\u00e7\u00e3o coletiva centenas de milhares, milh\u00f5es de jovens at\u00e9 ontem distantes da experi\u00eancia pol\u00edtica, jovens e outros n\u00e3o t\u00e3o jovens, que embora descontentes, at\u00e9 ontem achavam que nada se podia fazer\u2026 a n\u00e3o ser aceitar a reprodu\u00e7\u00e3o do status quo.<\/p>\n<p>1.4. Nos primeiros momentos, soci\u00f3logos e cientistas pol\u00edticos conservadores chamados pela imprensa a \u201cexplicar os acontecimentos\u201d, assim como cronistas pol\u00edticos de plant\u00e3o na grande m\u00eddia, mostraram-se c\u00e9ticos e proferiram empolados seu veredicto inapel\u00e1vel: \u201crebeldes sem causa\u201d, \u201carruaceiros\u201d. N\u00e3o estavam entendendo nada. Como tamb\u00e9m a Presidente Dilma Roussef e o Sr. Blatter n\u00e3o estavam entendendo nada ao serem vaiados na abertura da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, como deixavam claros a express\u00e3o de perplexidade da primeira e o sorriso amarelo do segundo. Imaginavam ser saudados por terem constru\u00eddo, ao custo de mais de R$ 1 bi, um est\u00e1dio para 70 mil pessoas, em cidade no qual o p\u00fablico m\u00e9dio das partidas de futebol \u00e9 de 2 mil? Estavam esperando os agradecimentos do distinto p\u00fablico na inaugura\u00e7\u00e3o do Est\u00e1dio do qual tentam apagar o nome Man\u00e9 Garrincha e emplacar o novo nome de Est\u00e1dio Nacional \u2013 triste e infeliz evoca\u00e7\u00e3o do 11 de setembro chileno, que a pancadaria deflagrada pela pol\u00edcia do DF, no entorno do est\u00e1dio, reafirmava?<\/p>\n<p>1.5. Esta perplexidade, esta incompreens\u00e3o da origem de tantos e t\u00e3o diversificados protestos s\u00f3 t\u00eam uma explica\u00e7\u00e3o: o autismo social e pol\u00edtico do poder. Em outras palavras, os dominantes n\u00e3o apenas difundem sua ideologia, como acreditam nela. A Rede Globo n\u00e3o apenas projeta um mundo fict\u00edcio atrav\u00e9s de suas mensagens como, ela tamb\u00e9m, \u00e9 envolvida pela mistifica\u00e7\u00e3o que produz. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a Rede Globo acredita na Rede Globo. Os marqueteiros acreditam em sua marquetagem pol\u00edtica e social. E n\u00e3o conseguem conectar-se e compreender o mundo que escapa a suas constru\u00e7\u00f5es imag\u00e9ticas e suas mitologias.<\/p>\n<p>1.6. O fato \u00e9 que foram rapidamente ultrapassados. Tiveram que reconhecer que estavam diante de uma ampla, poderosa, profunda e abrangente manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de protesto contra o status quo. Fora dos partidos, incapazes de canalizar e expressar a vitalidade e a diversidade dos protestos e reivindica\u00e7\u00f5es, nem por isso trata-se de um processo \u201csem pol\u00edtica\u201d ou \u201csem foco\u201d. O foco estava l\u00e1, s\u00f3 n\u00e3o viu quem olha para a \u00e1rvore e n\u00e3o v\u00ea a floresta: transporte, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o, democracia, desperd\u00edcio dos recursos p\u00fablicos, participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, direitos humanos. Algum partido, nos \u00faltimos anos, produziu alguma pauta ou agenda mais precisa e concreta? Sob alguns aspectos, chega a ser surpreendente o alt\u00edssimo n\u00edvel de consci\u00eancia pol\u00edtica expressa, embora de forma pouco organizada, pelos milh\u00f5es que est\u00e3o indo \u00e0s ruas.<\/p>\n<p>1.7. Este movimento n\u00e3o foi casual. Embora n\u00e3o estivesse escrito desde o in\u00edcio dos tempos que ele ocorreria, n\u00e3o ocorreu por acaso. E se a viol\u00eancia repressiva o deflagrou, n\u00e3o o explica. Mao Tse Tung, hoje em dia pouco lido, incluiu na colet\u00e2nea do Livrinho Vermelho, que foi a b\u00edblia da primeira etapa da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, um texto de 1930 intitulado \u201cUma fagulha pode incendiar uma pradaria\u201d. Esta pequena frase nos adverte para o engano daqueles que tentaram, e ainda tentam, reduzir o movimento \u00e0 luta pela redu\u00e7\u00e3o das passagens, ou por melhores transportes p\u00fablicos. Essa \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o dentre muitas outras. E se o Movimento Passe Livre teve a iniciativa, n\u00e3o \u00e9 a fagulha que explica o inc\u00eandio, mas as condi\u00e7\u00f5es em que se encontrava a pradaria. A pradaria, como agora se sabe, estava seca, pronta pra incendiar-se. E o vento soprava de maneira intensa para espalhar o primeiro fogo.<\/p>\n<p>1.8. Para tentar entender este movimento \u00e9 necess\u00e1rio considerar, de um lado, a multiplicidade de insatisfa\u00e7\u00f5es e lutas fragment\u00e1rias que o antecederam e que constituem, por assim dizer, seu pr\u00f3prio fundamento. De outro lado, h\u00e1 que entender as caracter\u00edsticas de uma conjuntura marcada pela abertura do ciclo de megaeventos esportivos. Se os megaeventos, por si, tamb\u00e9m n\u00e3o explicam a explos\u00e3o social e pol\u00edtica, por outro lado seria dif\u00edcil imaginar tal explos\u00e3o fora de um contexto marcado pela farra do dinheiro p\u00fablico e a entrega de nossas cidades \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es, empreiteiras e cart\u00e9is organizados em torno da FIFA, em primeiro lugar, e do COI.<\/p>\n<p>1.9. Megaeventos, meganeg\u00f3cios, megaprotestos. E aqui merece men\u00e7\u00e3o um outro importante elemento: como muitos devem ter percebido em v\u00e1rias cidades, mesmo naquelas em que n\u00e3o haver\u00e1 jogos, h\u00e1 uma clara consci\u00eancia acerca do significado, sentido, objetivos e resultados a esperar desses megaeventos. \u00c9 poss\u00edvel considerar que, de maneira n\u00e3o desprez\u00edvel, o trabalho realizado nos dois \u00faltimos anos pelos Comit\u00eas Populares da Copa e das Olimp\u00edadas e pela sua Articula\u00e7\u00e3o Nacional (ANCOP) contribuiu de maneira marcante para construir uma consci\u00eancia coletiva, mais generalizada do que se poderia imaginar, de que os megaeventos constituem um \u00f4nus insuport\u00e1vel para nosso povo, desviam recursos de setores priorit\u00e1rios e beneficiam os mesmos poderosos de sempre.<\/p>\n<p>1.10. \u00c9 indispens\u00e1vel ter esses elementos claramente identificados, inclusive para estabelecer os pr\u00f3ximos passos a serem dados pelos diferentes movimentos e organiza\u00e7\u00f5es populares. Tanto mais que, as grandes manifesta\u00e7\u00f5es\u00a0 abriram uma nova conjuntura de luta e reconfiguraram de maneira expressiva a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, abrindo novas e grandes possibilidades de avan\u00e7os e conquistas para os movimentos populares.<\/p>\n<p><em>[Texto repostado do\u00a0<a href=\"http:\/\/raquelrolnik.wordpress.com\/2013\/06\/26\/carlos-vainer-analisa-as-grandes-manifestacoes\/\">blog de Raquel Rolnik (USP)<\/a>.\u00a0Leia o <strong><a href=\"http:\/\/raquelrolnik.files.wordpress.com\/2013\/06\/mega-eventos-mega-negc3b3cios-mega-protestos-2013-06-25.pdf\">artigo na \u00edntegra<\/a><\/strong>.]<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ao defenderem o que \u00e9 p\u00fablico, os manifestantes est\u00e3o no exerc\u00edcio pleno de seus direitos&#8221; GPMC vai \u00e0s ruas no Rio de Janeiro Enquanto pesquisadores do GPIT acompanharam as marchas em Porto Alegre, o Grupo de Pesquisa Modernidade e Cultura&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2,5],"tags":[35,50,80,83,93,94,107,109,120,124,129,151,159,168,169,200],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=505"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/gpit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}