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Correio do Povo:

correio_do_povo_17_12_2013
Sul 21:

UFRGS firma acordo de cooperação com empresa e se aproxima da iniciativa privada

Iuri Müller

Há cerca de três semanas, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) anunciou o lançamento daquela que seria a primeira “cátedra patrocinada por uma empresa privada”. Com participação do reitor Carlos Alexandre Netto, a universidade assinava um “acordo de cooperação” com a fábrica Tramontina Eletrik, que pertence ao grupo Tramontina. A interação com a iniciativa privada se daria, neste caso, através de um grupo de pesquisa da Escola de Administração.

O apoio da Tramontina Eletriks será direcionado ao Grupo de Pesquisa sobre Marketing e Consumo (GPMC), liderado pelo professor Vinicius Brei. Embora a universidade tenha tratado a iniciativa, através das suas publicações oficiais, como pioneira nesta forma de relação, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) afirma que a UFRGS já conta com negociações semelhantes, principalmente na esfera da pós-graduação.

Para Carlos Alberto Gonçalves, presidente da seção sindical do Andes-SN na UFRGS, o termo utilizado pode suscitar outras interpretações, mas, neste caso, “não significa que vá ser criada uma disciplina com controle externo”. Carlos Alberto explica que a iniciativa privada já atua junto à universidade, principalmente nas áreas de Engenharia e Administração. “A universidade já tem uma modalidade que se chama Mestrado Profissional, de interesse direto do mercado, portanto, em que se espera que as empresas ofereçam bolsas”, explica.

Foto: Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Acordo entre a UFRGS e a empresa terá vínculo inicial de dois anos de duração, podendo ser prorrogado | Foto: Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

O professor Vinicius Brei, da Escola de Administração da UFRGS, contou à reportagem que, “em termos práticos”, a empresa “irá financiar as atividades do grupo de pesquisa”. “O financiamento tem contrato inicial de dois anos, renovável se houver interesse das duas partes, e esperamos que seja uma parceria longeva. Os recursos serão destinados parte à universidade, parte ao departamento e outra parte para o nosso grupo de pesquisa”, descreve Brei.

Para o docente, a Tramontina se beneficia do acordo pelo fato de o grupo de pesquisa explorar temas que interessam à empresa. “A nossa área de pesquisa principal estuda comportamento de consumidor. A cátedra nos proporciona mais chances de fazer pesquisa com qualidade, com recursos, e a Tramontina vai encontrar pesquisadores de alto nível sobre a área em que atua, vai se beneficiar disso”, aponta. Vinicius Brei lembra que o modelo das cátedras mantidas por empresas já existe na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No Rio de Janeiro, empresas como a L’Oréal, a Rede Globo e a Fiat patrocinam linhas de pesquisa.

Crítico das privatizações que rondam as universidades públicas brasileiras, o Andes-SN declara que não é contra o apoio de empresas privadas – desde que a independência da instituição de ensino seja respeitada. “O sindicato nacional não tem nada contra investimentos de origem privada nas instituições públicas, o que ele não quer é que em função disso a universidade perca a sua autonomia. Quando falamos que é preciso investir mais em educação no país, acreditamos que a função é do Estado, mas que a iniciativa privada pode contribuir. Historicamente, ele nunca entra, porque na pesquisa o retorno costuma ser muito baixo”, explica Carlos Alberto Gonçalves, professor do departamento de Bioquímica.

Durante o anúncio do “acordo de cooperação”, no dia 16 de dezembro, diretores da Tramontina se fizeram presentes e prestigiaram a cerimônia. A Tramontina Eletrik, uma das dez fábricas da empresa gaúcha, tem sede em Carlos Barbosa e produz materiais elétricos. “É importante  mencionar que a cátedra é um modelo de apoio muito antigo, as principais universidades do mundo têm inúmeras cátedras. Boa parte do dinheiro de pesquisa nestas universidades vem da iniciativa privada, e o que a gente está fazendo é tentar implementar por aqui uma prática bem sucedida em universidades de todo o mundo”, anuncia o professor da Escola de Administração.

UFRGS | Foto: Ufrgs /Divulgação

Desenvolvimento do Parque Tecnológico deve estreitar relações com a iniciativa privada | Foto: Divulgação

Em abril de 2009, o Conselho Universitário (CONSUN), órgão máximo da UFRGS, aprovou a criação do Parque Científico e Tecnológico da universidade, que também irá abrigar parcerias entre a instituição e as empresas. “A universidade aprovou o desenvolvimento do Parque Tecnológico, e as empresas devem ser deste tipo e deste mesmo porte. Por enquanto, não vemos com desconfiança este acordo com a Tramontina”, finaliza o presidente da seção sindical. A Gerdau S.A., corporação gaúcha que hoje atua em dezenas de países, já teria forte proximidade com a UFRGS.

Universidade conta com centenas de interações com a iniciativa privada

Segundo Raquel Mauler, secretária de Desenvolvimento Tecnológico da UFRGS (SEDETEC), a universidade assinou mais de 350 acordos de interação com empresas desde 2010. “A maior parte através de convênios em projetos de pesquisa e desenvolvimento. Existem prestações de serviço, mas em menos de um terço dos casos”, explica Mauler. Para a secretária, a UFRGS há tempos mantém vínculos estreitos com a iniciativa privada – grandes empresas públicas e privadas, como a Braskem e a Petrobras, já atuam junto aos departamentos.

“Quanto mais próximos estivermos das empresas, saberemos que as pesquisas vão ser aplicadas. Para os alunos, é um diferencial, eles vão saber como aplicar o conhecimento, vão encontrar uma finalidade e um uso geral”, opina a secretária. Raquel Mauler acredita que os laços com o empresariado não resultam em privatizações do ensino público, mas que seguem a direção das políticas nacionais e internacionais. Procurada pela reportagem, a Tramontina informou, por meio da assessoria de imprensa, que os funcionários estão em período de férias coletivas e não poderiam comentar o acordo.

Fontehttp://www.sul21.com.br/jornal/ufrgs-firma-acordo-de-cooperacao-com-tramontina-e-se-aproxima-da-iniciativa-privada/

Universitário:

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Fontehttp://www.universitario.com.br/noticias/n.php?i=16235

Zero Hora:
Zero Hora

Terra.com.br:

Parceria alerta sobre limites da iniciativa privada nas universidades

UFRGS e Tramontina firmaram acordo de cooperação. Com a assinatura do contrato, foi criada a cátedra Tramontina Eletrik na universidade, ficando encarregado pelo projeto o Grupo de Pesquisa sobre Marketing e Consumo.

A doação de R$ 288 mil da empresa gaúcha Tramontina à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) resultou na criação da cátedra Tramontina Eletrik, onde serão desenvolvidas pesquisas na área de marketing e comportamento do consumidor. A ação inaugura o modelo na instituição, ainda que ela já tenha firmado mais de 350 parcerias com empresas nos últimos quatro anos. A diferença entre a cátedra e os projetos anteriores está na forma como acontece o investimento privado. No primeiro caso, a empresa doa à universidade, para financiar um grupo de pesquisa específico – no caso o Grupo de Pesquisa sobre Marketing e Consumo (GPMC) -, sem que nenhum produto ou serviço seja criado exclusivamente para a doadora. Vinicius Brei, professor responsável pelo GPMC, destaca ainda que já há duas cátedras na UFRGS. No entanto, a instituição que doa a elas é a Unesco, ou seja, não é privada.

O ineditismo da novidade reavivou o debate sobre o limite da aproximação entre empresas e universidades públicas. Secretária do Desenvolvimento Tecnológico da UFRGS, Raquel Mauler não vê nenhuma desvantagem no processo. Para a UFRGS, é importante o investimento externo para avançar nas pesquisas e formar os alunos. A Tramontina se beneficiaria pelos resultados adquiridos, ainda que não possam ser exclusivos da empresa.

Segundo o presidente da seção do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), professor Carlos Alberto Gonçalves, para o projeto dar certo é preciso que o lucro não seja a sua única e principal diretriz. “A qualificação pessoal, a formação dos alunos e o desenvolvimento de novos produtos também são fatores que devem ser observados”, destaca.

O Andes-SN defende que o investimento em universidades públicas seja responsabilidade do Estado, ainda que isso não exclua a possibilidade de haver investimentos privados. Gonçalves ressalta, porém, que a autonomia da universidade nos rumos da pesquisa e em sua difusão deve ser preservada – seria esse o limite da aproximação privada das universidades. “Os resultados não podem ser somente de uma empresa. Ela estaria se apropriando de uma instituição pública para benefício individual”, diz.

A opinião é compartilhada pelo Diretório Central Estudantil (DCE) da UFRGS. “A universidade deve ter liberdade para escolher o que pesquisar. No momento em que há gerência de pesquisa pelas empresas, isso se torna maléfico para toda a comunidade acadêmica”, afirma o presidente do DCE, Lucas Jones. No entanto, o estudante confia na boa relação entre a academia e o setor privado para tornar a iniciativa produtiva nos dois sentidos. “Essa interação possibilita que nossas pesquisas cheguem mais facilmente ao mercado e melhorem a vida das pessoas”. O acordo também gera bolsas e estágios e favorece o contato com a iniciativa privada, um “setor mais dinâmico” nas suas palavras.

Ainda que julgue ser muito cedo para justificar qualquer desconfiança em relação ao projeto, o presidente do sindicato afirma que há algumas preocupações. De acordo com ele, professores e alunos não podem ficar sobrecarregados nos seus ofícios ou deixar prioridades em segundo plano. “Os professores não podem abandonar algumas atividades, não podem deixar de atuar em sala de aula para se dedicarem a projetos, por serem financiados. Isso seria uma precarização do ensino, prejudicaria a área principal da universidade, a graduação”, alerta. As mesmas condições devem ser respeitadas quanto ao trabalho dos alunos que participarem da cátedra.

Estudantes de graduação, doutorado, mestrado ou cursos de especialização da Faculdade de Administração podem fazer parte da cátedra. Segundo Brei, a equipe será formada por professores e alunos orientados por eles, além de voluntários (por meio de seleção). As pesquisas começaram, oficialmente, em 10 de janeiro.

O retorno costuma ser baixo para a iniciativa privada.

Para o presidente da seção sindical, os investimentos privados não são comuns no país pelas características dos estudos e pelo comportamento da indústria nacional. Segundo ele, o retorno das pesquisas costuma ser baixo, demorado e caro. “Na área de biologia, por exemplo, às vezes são testados mil remédios para determinada doença e apenas um ou dois são selecionados como eficazes. Isso após muitos testes”, explica.

Por isso, Gonçalves observa um mercado menos interessado em produção de conhecimento local do que deveria. “A indústria nacional é tradicionalmente de colônia, não de matriz. Ou seja, prefere comprar tecnologia do exterior e produzir no Brasil a desenvolver o conhecimento através de pesquisas”. Porém, ainda que o processo seja mais difícil, caro e demorado, os resultados são muito maiores, afirma. “Dessa forma, a soberania (sobre a tecnologia) está garantida”.

Raquel Mauler percebe avanços em relação à adesão de modelos de cátedras no Brasil. “O governo vem incentivando essa troca. Está se dando conta da necessidade de parcerias entre empresas e universidades para o desenvolvimento do país. A pesquisa evita a compra externa de tecnologia”.

Acordo limita investimentos de concorrentes

UFRGS e Tramontina firmaram um acordo de cooperação em 16 de dezembro de 2013. Com a assinatura do contrato, foi criada a cátedra Tramontina Eletrik na universidade, ficando encarregado pelo projeto o Grupo de Pesquisa sobre Marketing e Consumo (GPMC). O estudo será concluído em dois anos, contados a partir de 2 de janeiro deste ano.

Conforme o documento, a UFRGS tem “total independência técnico-científica, sem qualquer interferência, exclusividade e/ou monodependência econômica” da Tramontina. Além disso, a instituição pode agregar outras doações ao projeto, desde que não tenham origem de empresas concorrentes da empresa na área de produtos elétricos. A universidade pode utilizar livremente os resultados acadêmicos da pesquisa, desde que os direitos autorais sejam preservados.

Fonte: http://noticias.terra.com.br/educacao/parceria-alerta-sobre-limites-da-iniciativa-privada-nas-universidades,3a8d5c844f864410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html