{"id":1644,"date":"2025-11-06T16:03:47","date_gmt":"2025-11-06T19:03:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=1644"},"modified":"2025-11-06T16:04:43","modified_gmt":"2025-11-06T19:04:43","slug":"drag-monstras-e-o-uso-da-estetica-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/drag-monstras-e-o-uso-da-estetica-humana\/","title":{"rendered":"Drag monstras e o uso da est\u00e9tica humana:"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reflex\u00f5es sobre signos n\u00e3o-monstruosos na arte monstra<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/itsmiatw\/\">Mia The Witch<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-1-1024x1024.png\" alt=\"Mia The Witch Grafia Drag\" class=\"wp-image-1645\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-1-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-1-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-1-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-1-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-1-100x100.png 100w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-1.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Certa vez, est\u00e1vamos eu e outra amiga drag monstra em uma socialzinha com outras drags. Fazia muito calor em Porto Alegre naquela noite. Est\u00e1vamos todas sentadas em um fum\u00f3dromo, jogando conversa fora. N\u00e3o me recordo quem foram as artistas que t\u00ednhamos assistido performar na tradicional casa Vitraux, aqui da capital ga\u00facha, mas certamente eram drags bel\u00edssimas \u2013 nossa cena, sobretudo, \u00e9 demarcada por drags que personificam os signos de beleza hegem\u00f4nica feminina, n\u00e3o conformando um local que d\u00ea muito espa\u00e7o para outras abordagens drags. A conversa estava animad\u00edssima naquela madrugada, at\u00e9 que uma das drags presentes na roda, ap\u00f3s eu e minha outra amiga nos afirmarmos enquanto monstras, tecer o seguinte coment\u00e1rio: \u201cEu n\u00e3o acho que voc\u00eas s\u00e3o monstras, ser drag monstra \u00e9 outra coisa\u201d. Incr\u00e9dula com tamanha petul\u00e2ncia, eu indaguei o que, na concep\u00e7\u00e3o dela, era ser uma drag monstra, portanto. Foi quando me respondeu que, a partir de seu entendimento limitado, uma drag monstra deveria apresentar uma est\u00e9tica monstruosa que nada se assemelhasse \u00e0 est\u00e9tica humana. Eu dei um sorriso malicioso e deixei a conversa fluir para outro assunto. Por\u00e9m, essa conversa frequentemente reverbera na minha mente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo geral, minha colega de cena n\u00e3o estava totalmente equivocada no coment\u00e1rio que fez. Barillo (2020) afirma que<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/criar-um-monstro\/\"> drag monstras<\/a> s\u00e3o artistas que, atrav\u00e9s da arte drag, buscam por um desmanche dos c\u00f3digos da humanidade; seriam artistas drags que rompem n\u00e3o apenas com condutas normativas sociais, como tamb\u00e9m com certos padr\u00f5es estabelecidos dentro do of\u00edcio drag. Se olharmos superficialmente, a leitura que minha amiga fez de nossa est\u00e9tica estaria correta, afinal est\u00e1vamos performando v\u00e1rios signos da feminilidade humana, al\u00e9m de outros relativos \u00e0 monstruosidade. Contudo, Barillo (2020) tamb\u00e9m aponta que as drag monstras est\u00e3o comprometidas com a monstruosidade n\u00e3o apenas no \u00e2mbito est\u00e9tico, mas tamb\u00e9m conceitual, j\u00e1 que \u201co monstro for\u00e7a a ruptura das bases, quebrando com estruturas monol\u00edticas\u201d (Barillo, 2020 apud Pale\u00f3logo, 2013, p. 2). Desse modo, proponho que para atribuir significa\u00e7\u00e3o \u00e0 uma drag monstra n\u00e3o se deve apenas tomar como base o campo visual, como tamb\u00e9m torna-se fundamental ter um entendimento do que \u00e9 um monstro e dos elementos que assim o conformam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se buscarmos pela origem do monstro, pesquisadores da literatura, tais como J\u00falio Jeha (2007), afirmam que essas criaturas surgem na mitologia grega e romana, sendo lidas como um aviso contra uma infra\u00e7\u00e3o do acordo de paz estabelecido entre a humanidade e o divino. O monstro, nessas civiliza\u00e7\u00f5es, era entendido como um castigo de Deus; um ser abjeto que rompia com as condutas consideradas naturais, estabelecendo o caos na sociedade. Sobretudo, desde sua origem, o monstro representa perigo \u00e0 humanidade. Portanto, desde a Gr\u00e9cia Antiga, \u00e9 um inimigo dos humanos que precisa ser combatido. No livro \u201cDa natureza dos monstros\u201d, Luiz Naz\u00e1rio (1998), que \u00e9 historiador e especialista em cinema, prop\u00f5e que n\u00e3o \u00e9 apenas a est\u00e9tica que constitui um monstro: v\u00e1rios outros elementos s\u00e3o importantes para conform\u00e1-lo assim. Deixando evidente que esses seres n\u00e3o precisam incorporar todos os elementos que s\u00e3o levantados no seu estudo, o autor os apresenta a partir da vasta possibilidade de caracter\u00edsticas que podem (ou n\u00e3o) integrar os monstros. Dentre esses elementos, os quais engendram uma an\u00e1lise psicol\u00f3gica e f\u00edsica do monstro, o autor elenca a mutabilidade. \u00c9 exatamente sob tal constituinte que eu gostaria de adentrar.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:19px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-2-1024x1024.png\" alt=\"Monstros\" class=\"wp-image-1646\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-2-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-2-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-2-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-2-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-2-100x100.png 100w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-2.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Dr\u00e1cula (1931), M\u00edstica dos X-Men, transforma\u00e7\u00e3o de bruxa em The Witches (1990) e a Cuca do S\u00edtio do pica-pau amarelo (2001)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme Naz\u00e1rio (1998), a mutabilidade diz respeito \u00e0s metamorfoses que a corporalidade do monstro pode sofrer. Dessa forma, o autor demonstra a ideia de que o corpo desses seres n\u00e3o t\u00eam, necessariamente, uma apresenta\u00e7\u00e3o est\u00e1tica, ou seja, uma forma \u00fanica, j\u00e1 que \u201ca besta pode-se revelar humana atrav\u00e9s da m\u00e1scara\u201d (Naz\u00e1rio, 1998, p. 117). Sobre esse ponto, podemos pensar em diversos monstros conhecidos na cultura pop que, como uma das habilidades que os tornam diferentes dos humanos, migram de apar\u00eancia: o vampiro Dr\u00e1cula \u00e9 um morcego que tamb\u00e9m possui uma vers\u00e3o de apar\u00eancia humana com presas assassinas; no cl\u00e1ssico filme The Witches (1990), as bruxas se hospedam em um hotel sob a apar\u00eancia de mulheres humanas e, apenas entre iguais, prontas para realizarem uma conven\u00e7\u00e3o, revelam sua est\u00e9tica monstruosa original; nas hist\u00f3rias em quadrinhos, a mutante M\u00edstica \u00e9 conhecida por ser uma monstra que pode se transformar em qualquer ser que ela queira, confundindo todos a respeito da sua identidade; a lenda do lobisomem indica que esse monstro \u00e9, na verdade, um homem amaldi\u00e7oado que se transforma \u00e0 meia-noite em um ser metade humano e metade lobo; ainda, podendo abrasileirar mais os exemplos, temos a Cuca, bruxa com apar\u00eancia de jacar\u00e9 do nosso folclore, que tem o poder de se transformar em uma mulher humana e andar em sociedade sem ser descoberta. Mesmo antes de poder se transformar, a Cuca do seriado infanto-juvenil \u201cS\u00edtio do pica-pau amarelo\u201d, cl\u00e1ssico da rede Globo, retrata a jacar\u00e9 com um longo cabelo loiro e um vestido vermelho \u2013 reconhecidos signos de sedu\u00e7\u00e3o feminina. V\u00e1rios s\u00e3o os exemplos poss\u00edveis. Em todos os que citei, al\u00e9m da habilidade de mutabilidade do corpo, temos outra semelhan\u00e7a: todos esses monstros podem apresentar uma (ou mais) varia\u00e7\u00e3o de si em um corpo humanoide \u2013 humanoide e n\u00e3o humana, pois monstros nunca poder\u00e3o assumir a identidade humana, podendo apenas representar c\u00f3pias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dado todo esse contexto, parece-me um tanto raso afirmar que drag monstras n\u00e3o s\u00e3o monstras por performaram quaisquer signos de humanidade, sejam eles lidos culturalmente como masculinos ou femininos. Afinal de contas, nenhum dos exemplos citados acima deixa de ser um monstro por apresentar, momentaneamente, uma est\u00e9tica humanoide. O mesmo julgo valer para atribuir significa\u00e7\u00e3o \u00e0 performance art\u00edstica das drag monstras, j\u00e1 que est\u00e3o n\u00e3o apenas comprometidas com a monstruosidade pelo fator est\u00e9tico, como tamb\u00e9m no \u00e2mbito conceitual. Claro que uma artista que nunca faz uso de uma est\u00e9tica monstruosa n\u00e3o estaria totalmente aliada aos ideais previstos na monta\u00e7\u00e3o das drags monstras. Essa, por outro lado, j\u00e1 seria uma nova discuss\u00e3o, a qual n\u00e3o pretendo me deter e cometer o mesmo erro que minha colega cometeu: o de ditar regras para o drag alheio. Aqui, me reservo exclusivamente a debater a respeito dos usos de signos humanos na tipologia das drags monstras \u2013 algo que, por mais trivial que possa parecer, ainda causa algumas controv\u00e9rsias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conhecido por ser um reality show espec\u00edfico para drags monstras, The Boulet Brothers\u2019 Dragula consiste em uma competi\u00e7\u00e3o drag pelo t\u00edtulo de pr\u00f3ximo super monstro mundial. Nenhuma artista que tenha sido escalada para as seis temporadas que j\u00e1 foram ao ar deixa de se considerar uma monstra. Ali\u00e1s, esse parece ser um preceito b\u00e1sico para fazer a sele\u00e7\u00e3o no programa \u2013 todas devem se identificar como drags monstras. Portanto, o programa traz uma proposta drag que rompe com os sentidos hegem\u00f4nicos do que \u00e9 lido socialmente como o trabalho de uma drag, justamente por adentrar ao campo da monstruosidade. Exemplo disso s\u00e3o as provas extremas que as participantes realizam, envolvendo serem enterradas vivas, comerem v\u00edsceras de animais, serem torturadas com agulhas, entre diversos outros casos vistos no reality que, de modo geral, indicam certas irregularidades na semiosfera drag que tensionam os sentidos ali produzidos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:19px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-3-1024x1024.png\" alt=\"drag monstra Grafia Drag\" class=\"wp-image-1647\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-3-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-3-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-3-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-3-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-3-100x100.png 100w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/MIA-3.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Em ordem, de cima para baixo, Melissa Befierce, Landon Cider, Louisiana Purchase, Sigourney Beaver, Fantasia Royale Gaga, Aurora Gozmic e Jade Jolie, competidores de \u201cDragula\u201d<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia, em \u201cDragula\u201d, nem todas as participantes performam, de modo cont\u00ednuo e exclusivo, signos est\u00e9ticos da monstruosidade. Se olharmos elementos que comp\u00f5em o drag feito por artistas que j\u00e1 passaram pelo programa, tais como Melissa Befierce (primeira temporada), Landon Cider e Louisianna Purchase (terceira temporada), Sigourney Beaver e Jade Jolie (quarta temporada), Fantasia Royale Gaga (quinta temporada) e Aurora Gozmic (sexta temporada), entre outros nomes que poderiam ser citados, percebemos que a constru\u00e7\u00e3o das suas personas n\u00e3o est\u00e1 firmada apenas nos ideais est\u00e9ticos da monstruosidade. Diversas vezes no reality, vemos performances sob a est\u00e9tica da humanidade, seja a partir do que reconhecemos como signos de glamour e luxo ou da decad\u00eancia e degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao caminho disso, \u00e9 bem verdade tamb\u00e9m que algumas dessas artistas mencionadas foram questionadas por suas colegas, durante o programa, a respeito de \u201cn\u00e3o serem monstras o suficiente para ocuparem a vaga na competi\u00e7\u00e3o\u201d. Sigourney Beaver e Jade Jolie s\u00e3o dois casos de drags que sofreram esses coment\u00e1rios em Dragula. Talvez porque performam signos sociais atribu\u00eddos \u00e0 feminilidade humana aliados a outros da monstruosidade. Em espec\u00edfico, quando falamos de Sigourney Beaver, acredito que o que fundamenta tais coment\u00e1rios \u00e9 um discurso mis\u00f3gino que, infelizmente, permanece no meio drag. Beaver \u00e9 uma mulher cisg\u00eanero fazendo drag e sua monstra \u00e9 exuberante, glamourosa e elegante. Vejo claramente influ\u00eancias de monstras como a noiva de Frankenstein, Morticia e Elvira em sua drag. Portanto, questionar o qu\u00e3o monstra \u00e9 uma mulher que faz drag atrav\u00e9s de tra\u00e7os da feminilidade humana, aliado a outros da monstruosidade, me parece, no m\u00ednimo, interessante quando ningu\u00e9m questiona o qu\u00e3o monstras s\u00e3o essas personagens que citei e inspiram Beaver, mesmo elas correspondendo muito aos ideais est\u00e9ticos de feminilidade que convencionamos s\u00f3cio-culturalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, no caso de Jolie, acredito que o maior contribuinte para sua deslegitima\u00e7\u00e3o enquanto uma \u201cverdadeira monstra\u201d estejam nos fatos da drag ter sido uma participante de RuPaul\u2019s Drag Race (temporada 5) e por ter fama em personificar a diva pop Taylor Swift. Drag Race \u00e9 um reality show respons\u00e1vel por tornar a arte drag em parte da cultura mainstream nos anos 2000, trazendo v\u00e1rias problem\u00e1ticas consigo, como a padroniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica das drags que, em sua maioria, s\u00e3o extremamente femininas no programa. Tendo isso em vista, confesso que fui uma das pessoas que n\u00e3o entendeu o an\u00fancio de Jade Jolie como participante da quarta temporada de \u201cDragula\u201d, pois tudo o que se conhecia dela at\u00e9 o momento era que sua drag era uma linda e colorida Taylor Swift. Contudo, ao longo da temporada, Jolie demonstrou o quanto pertencia tamb\u00e9m \u00e0quele universo, apesar dos coment\u00e1rios constantes, tanto de colegas de temporada, quanto de parte da fanbase, dizendo o contr\u00e1rio. Parece haver uma rejei\u00e7\u00e3o muito grande por parte das pessoas \u00e0 liberdade de ora estar mais aliada a uma tipologia drag e ora a outra, n\u00e3o s\u00f3 falando das drags monstras, mas me permitindo fazer um coment\u00e1rio generalista sobre a arte drag em si. Fato este que, na minha opini\u00e3o, deveria ser encarado de modo positivo, uma vez que demonstra a versatilidade do artista. Afinal, Madonna n\u00e3o criou uma carreira lend\u00e1ria ficando presa ao mesmo g\u00eanero musical e a uma \u00fanica est\u00e9tica \u2013 seria entediante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu ponto aqui \u00e9 questionar, principalmente, esse entendimento de que drag monstras precisam manter uma apar\u00eancia monstra o tempo todo para serem validadas desse modo. Ali\u00e1s, mais do que isso, \u00e9 refutar a ideia de que drag monstras nunca podem se aliar aos signos da humanidade. Primeiro porque, como levantei anteriormente, estudos acerca dos monstros na literatura e no cinema indicam a exist\u00eancia de elementos que os constituem, como a mutabilidade, que d\u00e1 a habilidade desses seres sofrerem uma metamorfose em sua corporalidade, os concedendo, em alguns casos, uma apar\u00eancia humanoide. Monstros como Dr\u00e1cula, M\u00edstica, Lobisomem e a Cuca n\u00e3o deixam de ser monstros quando est\u00e3o performando humanidade atrav\u00e9s da mutabilidade de seus corpos. Eles sempre ser\u00e3o monstros, apesar do uso das caracter\u00edsticas que convencionamos social e culturalmente aos humanos. Segundo porque, como citei anteriormente ao abordar as acusa\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 Sigourney Beaver, existem diversos monstros na cultura pop que englobam elementos da humanidade em sua apar\u00eancia e, mesmo assim, permanecem sofrendo a categoriza\u00e7\u00e3o de monstros perante aos verdadeiros humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, acredito que o que possa justificar essa dualidade que podemos encontrar em algumas drag monstras que utilizam ora signos de monstruosidade, ora de humanidade, ou ainda que tenham uma performance art\u00edstica que mistura ambas as possibilidades, \u00e9 justamente a ideia de que tais artistas est\u00e3o compromissadas com a tipologia monstra para al\u00e9m da est\u00e9tica, de modo tamb\u00e9m conceitual. \u00c0 vista disso, passamos a entender que v\u00e1rios s\u00e3o os monstros que, seja pela mutabilidade ou pela conformidade de seus corpos, demonstram semelhan\u00e7as s\u00edgnicas aos humanos. Logo, ao vermos uma drag monstra performando uma est\u00e9tica humana, podemos lembrar que diversas bruxas passam por transforma\u00e7\u00f5es de seus corpos como disfarces entre os humanos; que tantos vampiros t\u00eam uma forma f\u00edsica humanoide, al\u00e9m do original corpo de morcego; e que maldi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m aprisionam humanos dentro do vi\u00e9s da monstruosidade, como no caso dos lobisomens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, acredito que toda a conversa desenvolvida ao longo deste ensaio seria demasiadamente profunda para se ter em um fum\u00f3dromo de festa com algu\u00e9m que, em v\u00e1rias outras quest\u00f5es, j\u00e1 se mostrou conservadora e fechada ao di\u00e1logo. Acredito que, quando fazemos arte, nem todos v\u00e3o estar preparades ou v\u00e3o se sentir agradades com o que iremos servir \u00e0 mesa: uns podem se fartar, outros podem recusar. Citando as grandes drag monstras Boulet Brothers: \u201cdrag \u00e9 arte, e arte \u00e9 subjetiva\u201d. Por\u00e9m, a quem se interessa por drag monstras e sempre se perguntou porque, por vezes, algumas de n\u00f3s temos uma apar\u00eancia humanoide, busquei neste texto levantar alguns apontamentos pertinentes que podem nos orientar ao caminho de tais respostas.<br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARILLO, Maira Lopes. Monstruosidade na monta\u00e7\u00e3o: a performatividade monstruosa de drag queens, dan\u00e7arinas burlescas e de voguing fotografadas. <strong>Arte da Cena (Art on Stage)<\/strong>, Goi\u00e2nia, v. 6, n. 1, 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/revistas.ufg.br\/artce\/article\/view\/59818&gt;. Acesso em 20 de out.. de 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">JEHA, Julio. <strong>Monstros e monstruosidades na literatura<\/strong>. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NAZ\u00c1RIO, Luiz. <strong>Da natureza dos monstros<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Arte e ci\u00eancia, 1998.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste ensaio, Mia The Witch reflete sobre o uso de signos humanos na arte das drag monstras, questionando os limites entre a humanidade e a monstruosidade na performance drag. A autora prop\u00f5e uma leitura cr\u00edtica da est\u00e9tica monstra a partir de refer\u00eancias culturais, liter\u00e1rias e cinematogr\u00e1ficas, ampliando o entendimento sobre o que constitui o ser \u201cmonstra\u201d na cena drag contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34,1047,338,42,526,31,33,1],"tags":[815,233,1048,10,1051,1053,657,727,7,336,75,41,656,1054,558,1052,22,1056,58,1049,1055,50,403,9,8,1050,292],"class_list":["post-1644","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-drag","category-drag-monstras","category-ensaio-critico","category-ensaios","category-pesquisa-academica","category-porto-alegre","category-processos-de-criacao","category-sem-categoria","tag-arte-contemporanea-queer","tag-arte-drag","tag-arte-monstra","tag-artistas","tag-cena-drag-porto-alegre","tag-corpo-e-performance","tag-cultura-lgbtqia-2","tag-cultura-queer","tag-drag","tag-drag-monstras","tag-drags-brasileiras","tag-ensaio","tag-estetica-drag","tag-estetica-humana","tag-estudos-de-genero","tag-feminilidade-drag","tag-grafia-drag","tag-identidade-drag","tag-mia-the-witch","tag-monstruosidade-drag","tag-monstruosidade-na-arte","tag-montacao","tag-performance-drag","tag-porto-alegre","tag-rio-grande-do-sul","tag-teoria-queer","tag-the-boulet-brothers-dragula"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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