{"id":1657,"date":"2025-12-01T14:45:07","date_gmt":"2025-12-01T17:45:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=1657"},"modified":"2025-12-01T14:51:01","modified_gmt":"2025-12-01T17:51:01","slug":"john-waters-degeneracao-grotesco-camp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/john-waters-degeneracao-grotesco-camp\/","title":{"rendered":"Imagens da degenera\u00e7\u00e3o em Waters"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/dragpersephone\/\">persephone ephemera pepper <\/a>(a.k.a. jeanne martins&nbsp;speckart)<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\"> Quando me recordo de quando John Waters entrou na minha vida, me transporto para os meus dezesseis ou dezessete anos, quando minha melhor amiga da escola, na melhor de suas inten\u00e7\u00f5es \u201cmariapurpur\u00ednicas\u201d, dividiu comigo a refer\u00eancia bomb\u00e1stica que havia conhecido atrav\u00e9s do seu namorado da \u00e9poca: um sujeito punk com quase o dobro das nossas idades. Sam me disse que era de suma necessidade que eu conhecesse o trabalho da Drag Queen chamada Divine, assistindo a Pink Flamingos (1972). Ao fazer uma pesquisa simples do t\u00edtulo na internet, era certo que muita repercuss\u00e3o \u00e0 obra existia registrada, mas o canal de <em>streaming<\/em> que havia em 2014 e que eu tinha acesso n\u00e3o contava com este filme no cat\u00e1logo e hoje duvido que ainda um dia este ou outros contar\u00e3o. N\u00e3o por sorte, mas por condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, minha pr\u00e9-adolesc\u00eancia havia sido regada \u00e0 pirataria cinematogr\u00e1fica, portanto n\u00e3o foi dif\u00edcil fazer seu <em>download. <\/em>N\u00e3o era algum endere\u00e7o de <em>torrent<\/em> obscuro e com poucos <em>seeders<\/em><sup data-fn=\"d88efad6-8d78-43fe-8239-0d7605c4c480\" class=\"fn\"><a href=\"#d88efad6-8d78-43fe-8239-0d7605c4c480\" id=\"d88efad6-8d78-43fe-8239-0d7605c4c480-link\">1<\/a><\/sup><em>,<\/em> era um \u00fanico com muitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao experienciar a obra, lembro-me de uma mistura muito in\u00e9dita de sensa\u00e7\u00f5es. Mas apenas lista-las n\u00e3o d\u00e1 conta do principal indiz\u00edvel. Um filme de Waters n\u00e3o passa batido. N\u00e3o \u00e9 convencional, embora seja a n\u00edvel t\u00e9cnico e dramat\u00fargico comum, narrativo e fabular. N\u00e3o apenas estas com\u00e9dias s\u00e3o absurdas em enredo, elas mostram esmero na constru\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica pautada no efeito do choque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 sei que ao partilhar minhas impress\u00f5es com Sam, decidi-me no ato que a minha persona Drag em in\u00edcio de investiga\u00e7\u00e3o definitivamente deveria seria inspirada<sup data-fn=\"5506ea8a-e6e5-42bd-9dee-caa2ac449dba\" class=\"fn\"><a href=\"#5506ea8a-e6e5-42bd-9dee-caa2ac449dba\" id=\"5506ea8a-e6e5-42bd-9dee-caa2ac449dba-link\">2<\/a><\/sup> na Drag que o estrelava: Divine. O mero fragmento nome incongruente com sua figura j\u00e1 \u00e9 cheio de uma ironia que me apetecia e ainda o faz. Seu nome produz uma ideia superlativa de algo \u201cbom\u201d, que \u00e9 t\u00e3o comum na cultura Drag, ao modo que faz, por exemplo, a espanhola Supremme de Luxe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nome de Divine nos adentra o imagin\u00e1rio com uma carga simb\u00f3lica m\u00edstica, sagrada, religiosa. Qual \u00e9 a imagem em semelhan\u00e7a a Deus (aqui com D mai\u00fasculo de prop\u00f3sito, uma vez que no Ocidente quase sempre pressup\u00f5e-se o monote\u00edsmo judaico-crist\u00e3o) \u00e9 esperada de um constructo corporal art\u00edstico feito no artif\u00edcio chamado \u201cdivino\u201d?, v\u00e9u, aur\u00e9ola, pele alva e limpa, express\u00e3o serena, vestes leves e claras, esbelteza e talvez, principalmente, a aus\u00eancia de defici\u00eancias? \u201cHumano\u201d em toda excel\u00eancia do conceito criado pelos considerados \u201chumanos\u201d para eles pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"693\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Possivelmente-a-imagem-mais-conhecida-de-Divine-693x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1658\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Possivelmente-a-imagem-mais-conhecida-de-Divine-693x1024.jpg 693w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Possivelmente-a-imagem-mais-conhecida-de-Divine-203x300.jpg 203w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Possivelmente-a-imagem-mais-conhecida-de-Divine-768x1134.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Possivelmente-a-imagem-mais-conhecida-de-Divine.jpg 885w\" sizes=\"auto, (max-width: 693px) 100vw, 693px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 1. Possivelmente a imagem mais conhecida de Divine. Recorte de um <em>still<\/em> <em>frame<\/em> de Pink Flamingos utilizado, inclusive, no poster oficial de divulga\u00e7\u00e3o do filme.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a imagem Divine traz uma gritante calv\u00edcie, encimada por uma peruca amarelo ovo num penteado com forma engra\u00e7ada, desgrenhada, a maquiagem que forma sobrancelhas zangadas, boca esquisita, cores vibrantes, roupa brega que agarra \u00e0s formas da gordura abdominal e mam\u00e1ria totalmente naturais e n\u00e3o-prot\u00e9ticas. Ela carrega uma arma de fogo, que utiliza para executar a pena capital aos que ela julga merecedores em uma cena do filme. Essa \u00e9 Divine em sua excel\u00eancia degenerada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisar acerca do filme e do seu criador suscita conceitos que pretendo abordar nesse ensaio: abje\u00e7\u00e3o, grotesco, valor do choque, mau gosto e <em>camp<\/em>. Numa tentativa de tecer um ensaio com a Teoria Cr\u00edtica no horizonte metodol\u00f3gico, desejo formar o conceito do \u201criso degenerativo\u201d (ou degenerado) em nega\u00e7\u00e3o ao riso regenerativo em Bakhtin, e procurar seus ecos contempor\u00e2neos a partir do estudo da hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise, disseca\u00e7\u00e3o e compara\u00e7\u00e3o das narrativas, imagens e textos dos tr\u00eas objetos Pink Flamingos e mais de outros dois filmes da primeira fase de produ\u00e7\u00e3o do diretor, Mondo Trasho (1969) e Desperate Living (1977), quando o diretor John Waters ainda n\u00e3o filmava dentro de est\u00fadios, ocupava a maior parte dos pap\u00e9is decisivos do resultado da produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica e n\u00e3o fazia esfor\u00e7os para entrar no circuito hollywoodiano. O \u00faltimo, o primeiro onde abre m\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica solo, marca o fim dessa fase em 1977, num per\u00edodo menos comercial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grotesco em Waters, oposto ao medieval estudado por Mikhail Bakhtin, parece n\u00e3o ser parte da vida de todos os cidad\u00e3os, mas contracultural na d\u00e9cada de 1970. O cineasta busca provocar radicalmente o gosto da burguesia e negar um projeto ut\u00f3pico hippie, como o pr\u00f3prio afirma (WATERS &amp; Divine, Late Night with David Letterman, 1982). O grotesco aqui \u00e9 queer e <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/drag-punk\/\">punk<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O riso em Waters n\u00e3o regenera, mas sim degenera. Diferente do riso carnavalesco de Bakhtin (A cultura popular na Idade M\u00e9dia e no Renascimento: o contexto de Fran\u00e7ois Rabelais, 1987), onde o baixo corporal \u00e9 justaposto imageticamente a ideias c\u00f3smicas de sobreviv\u00eancia, renova\u00e7\u00e3o, ciclos da natureza e fertiliza\u00e7\u00e3o, o riso em Waters opera como se fosse uma doen\u00e7a progressiva: cada cena \u00e9 mais violenta que a anterior, cada personagem colapsa mais profundamente e nenhum sistema se recupera. Chamo esse riso de degenerativo porque ele n\u00e3o diz respeito a futuro, n\u00e3o inclui todos os cidad\u00e3os, e n\u00e3o oferece reden\u00e7\u00e3o. \u00c9 um olhar festivo e c\u00f4mico para a vida prec\u00e1ria entre os abjetos, os marginalizados, aqueles j\u00e1 marcados socialmente como \u201clixo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse riso, como mostrarei, \u00e9 sect\u00e1rio por necessidade: s\u00f3 pode ser compartilhado entre aqueles j\u00e1 marcados como abjetos, funcionando como senha de reconhecimento m\u00fatuo em tempos de colapso. Ele n\u00e3o tem gra\u00e7a para quem ele mira escandalizar, e sempre haver\u00e1 algu\u00e9m a quem ele produza esse efeito. Elejo <strong>Desperate Living<\/strong> (1977) como principal objeto de an\u00e1lise. \u00c9 um sintoma de seu tempo, a janela de tempo de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica p\u00f3s-Stonewall (1969) e pr\u00e9-AIDS (1981). Em cr\u00edtica \u00e0 utopia hippie de uni\u00e3o e pacifismo e ascens\u00e3o do punk, a contracultura queer j\u00e1 n\u00e3o podia (nem desejava) falar para todos. Waters inventa uma forma c\u00f4mica adequada a esse contexto: riso da ru\u00edna social, das coisas terr\u00edveis. Abaixo, te\u00e7o minhas notas sobre Waters, partindo da frui\u00e7\u00e3o do objeto principal, em conjectura n\u00e3o muito linear.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"344\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/A-refeicao-repulsiva.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1659\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/A-refeicao-repulsiva.jpg 512w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/A-refeicao-repulsiva-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 2. A refei\u00e7\u00e3o repulsiva. Minutagem 0:01:23.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A moldura: Nos cr\u00e9ditos iniciais o sil\u00eancio se irrompe com um tango orquestrado de forma que pode-se formar uma imagem de um duelo de for\u00e7as e a encena\u00e7\u00e3o de um conflito latinoamericano, dram\u00e1tico, repleto de instrumentos de corda chorando em escala menor, sopros acompanhando e piano fort\u00edssimo. A pe\u00e7a musical embala a a\u00e7\u00e3o da postura de uma mesa de refei\u00e7\u00e3o formal aos modos burgueses, com direito a duplos de utens\u00edlios: duas ta\u00e7as, dois garfos, dois pratos, duas colheres. Essa \u00e9 a nossa moldura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pintura: As a\u00e7\u00f5es pintadas nesse espa\u00e7o pelos dois pares de m\u00e3os de cores diferentes. Uma m\u00e3o \u00e9 preta e a outra \u00e9 branca. O narrador da obra deixa mais que transparente uma rela\u00e7\u00e3o racial em diferen\u00e7a de classe nas personagens que mais tarde s\u00e3o apresentadas Grizelda e Peggy. Uma serve e a outra \u00e9 servida. Primeiro \u00e9 vinho normal, depois um rato assado sobre alface e tomates cerejas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se desvela que esse \u00e9 mais um dos exerc\u00edcios em mau gosto de Waters quando as m\u00e3os de Peggy servem o roedor \u00e0 sua obscena boca (fora de cena), peda\u00e7o por peda\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As crian\u00e7as brincam num gramado suburbano t\u00edpico da branquitude estadunidense. Parece uma com\u00e9dia de costumes como Cala a Boca, Etelvina. Grizelda \u00e9 a primeira personagem de perto, na fun\u00e7\u00e3o de aspirar o ch\u00e3o. O seu desenvolvimento na primeira sequ\u00eancia segue a f\u00f3rmula t\u00edpica de personagem subalternizado desafiador, que embora demonstre certo cuidado para com Peggy, tem a pat\u00e9tica discuss\u00e3o com o patr\u00e3o Bosley acerca de beber o \u00e1lcool da despensa e roubar outros itens e d\u00e1 a surra de vassoura no patr\u00e3o. Grizelda lembra Brighella: astuta, negociadora, disposta a usar da for\u00e7a f\u00edsica. O casal Bosley e Peggy Gravel remetem \u00e0 classe dos <em>vecchi<\/em>, donos de resid\u00eancia, patr\u00f5es, de algum poder aquisitivo, como se fossem parte de uma Commedia dell\u2019Arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nele, duas puls\u00f5es de car\u00e1ter: seu zelo pela esposa em nome da manuten\u00e7\u00e3o de sua imagem aburguesada de casal e sua sovinice racista, imbu\u00edda de machismo e \u00f3dio de classe. Ele primeiro aparece em um momento de ternura na confian\u00e7a que expressa \u00e0 capacidade de melhora da esposa quando discorda do profissional de sa\u00fade a quem auxilia no sair da casa. Logo esse marido gentil, com as mulheres em casa \u00e9 um tirano que, com sua opress\u00e3o micropol\u00edtica covarde, causa a revolta que o leva a ser assassinado, colhe o que planta. Um Pantalone mais frouxo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Peggy, diferente do marido, n\u00e3o corresponderia a um tipo c\u00f4mico t\u00e3o ancestral. O fim do seu arco de personagem jamais permitiria esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o, esse reducionismo tolheria o m\u00e9rito cr\u00edtico do funcionamento do seu drama. As caracter\u00edsticas dela envolvem outras esferas, menos relacion\u00e1veis com a Commedia dell\u2019Arte, s\u00e3o psicopatol\u00f3gicas em primeiro lugar, esnobes em segundo. Peggy tem sua primeira fase do arco de desenvolvimento estritamente ligado \u00e0s suas tend\u00eancias \u00e0 neurose extremada, tema das primeiras falas do filme, que discorrem sobre a volta ou n\u00e3o dela \u00e0 uma institui\u00e7\u00e3o total, por perigo de mais um colapso de natureza psiqui\u00e1trica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo Waters um grande cin\u00e9filo e tendo Desperate Living sido criado apenas tr\u00eas anos depois no mesmo pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9 insensato imaginar que Peggy \u00e9 uma par\u00f3dia de Mabel Longhetti, a protagonista de Uma Mulher Sob Influ\u00eanica (1974). O filme de Cassavetes, outro John, trata de forma bastante s\u00e9ria os problemas maritais, o drama causado pelo descontrole emocional, tamb\u00e9m tendo a interna\u00e7\u00e3o como consequ\u00eancia no horizonte de possibilidades. Para Susan Sontag, pelo que organizou sobre alguns tipos de sensibilidades nas <em>Notas Sobre o Camp<\/em>, talvez localizaria a diferen\u00e7a cabal entre as duas obras na diferen\u00e7a da sensibilidade a qual elas servem. Ambas n\u00e3o pertencentes \u00e0 primeira sensibilidade das obras totais e eruditas, enquanto Desperate Living \u00e9 da terceira sensibilidade (<em>Camp<\/em>), Uma Mulher Sob Influ\u00eancia \u00e9 da segunda: vanguardista aos modos do s\u00e9culo XX, fragment\u00e1ria, not\u00f3ria por sua explora\u00e7\u00e3o de temas de ang\u00fastia, crueldade e loucura <em>(SONTAG, 1987, pp. 346-367)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>Camp <\/em>de Waters,se contrapondo as outras sensibilidades, atende aos interesses de uma popula\u00e7\u00e3o que, j\u00e1 bastante acostumada, numa postura de apreciar a vulgaridade, \u201caspira o mau cheiro e se orgulha de ter nervos fortes\u201d (Idem). Para o diretor (em tradu\u00e7\u00e3o minha), \u201cPara entender o mau gosto, h\u00e1 de se ter muito bom gosto. O bom mau gosto pode ser criativamente nauseante mas deve, ao mesmo tempo, apelar para o senso de humor especialmente distorcido, que \u00e9 tudo menos universal\u201d (WATERS J. , 1985, p. 8). A falha em ser s\u00e9rio, que Sontag v\u00ea na ess\u00eancia do <em>Camp<\/em>, em Waters \u00e9 dieg\u00e9tica, ou seja, \u00e9 dentro da obra, n\u00e3o uma obra falha, as personagens s\u00e3o fr\u00edvolas sobre o que \u00e9 s\u00e9rio e s\u00e9rios com o que \u00e9 fr\u00edvolo. Afasta-se do Camp ing\u00eanuo: \u00e9 maquinado pelo autor. N\u00e3o por isso deixa de ser satisfat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Eu sempre tentei agradar e satisfazer uma plateia que pensa que j\u00e1 viu tudo. Eu tento for\u00e7\u00e1-los a rir da sua pr\u00f3pria habilidade de ainda se chocar com algo. Essa rea\u00e7\u00e3o sempre foi o motivo de eu fazer filmes. Eu odeio filmes de mensagem e me orgulho do fato do meu trabalho n\u00e3o ter nenhum valor de reden\u00e7\u00e3o social. Eu gosto de pensar que eu fa\u00e7o com\u00e9dias estadunidenses. (WATERS J. , 1985, p. 2, tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Peggy, como personagem, d\u00e1 conta de tanto no que diz respeito a demarca\u00e7\u00e3o de ponto de vista autoral dentro da obra. Em poucos minutos de filme, aos gritos de plenos pulm\u00f5es, em entona\u00e7\u00e3o dotada uma bizarra musicalidade e coberta de uma sinceridade emocional enorme, caracter\u00edstica not\u00e1vel do roteiro e da dire\u00e7\u00e3o de Waters nesse primeiro per\u00edodo da carreira analisado, situa a narrativa dentro das preocupa\u00e7\u00f5es da classe m\u00e9dia alta acerca do medo da viol\u00eancia, a presun\u00e7\u00e3o de sabedoria de causa sobre a Guerra do Vietn\u00e3, o valor monet\u00e1rio de uma vida, do tempo e seu asco \u00e0 Suprema Corte dos EUA e ao comunismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Waters \u00e9 um destes artistas que parece mentir ao dizer que seus trabalhos n\u00e3o s\u00e3o politicamente engajados. Ou isso ou seu tiro sai pela culatra, uma vez que ele n\u00e3o resiste \u00e0 pol\u00eamica de tecer uma par\u00f3dia de tudo e de todos, inclusive de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, de ideologia. Lembremos que o que desencadeia sua primeira crise do filme \u00e9 uma simples janela quebrada por uma bola de beisebol, que suscita todo esse universo simb\u00f3lico citado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grizelda \u00e9 uma personagem formada em cima da incorr\u00eancia em um tipo c\u00f4mico de referencial questionavelmente racista, o de <em>mammy<\/em>, por\u00e9m n\u00e3o uma complacente, mas uma rebelde. Mais pr\u00f3xima de Mammy Two Shoes do desenho Tom &amp; Jerry do que Tia Nast\u00e1cia. O racismo paira no filme, sendo escancarada a estrutura de servid\u00e3o que desponta com \u00f3bvios atos de segrega\u00e7\u00e3o e preconeito racial sofridos por ela, principalmente por parte do seu patr\u00e3o. Durante a primeira sequ\u00eancia do filme (argu\u00edvel que na obra inteira), ela parece ser a possuidora da psique mais razo\u00e1vel, percebe-se quando n\u00f3s, a plateia, damos suspiros aliviados quando toma o protagonismo verbal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Peggy entra em uma espiral de p\u00e2nico moral ao flagrar suas duas crian\u00e7as nuas brincando de m\u00e9dico que escala at\u00e9 o ato disparador da premissa do filme: o assassinato de Bosley Gravel, cooperado por Peggy e Grizelda. Bosley \u00e9 t\u00e3o pat\u00e9tico em seu exerc\u00edcio de autoritarismo que para a plateia parece at\u00e9 desej\u00e1vel o seu destino. Antes do acontecimento fatal, um s\u00edmbolo recorrente surge pela primeira vez, o problema na <strong>penetra\u00e7\u00e3o<\/strong>: penetra\u00e7\u00e3o falha, penetra\u00e7\u00e3o negativa, penetra\u00e7\u00e3o mort\u00edfera, morte do elemento penetrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em cena, repetidamente vemos a men\u00e7\u00e3o, tentativa e at\u00e9 algumas efetiva\u00e7\u00f5es do adentramento do corpo de uma parte em outra (inje\u00e7\u00f5es, beijos, tiros) e sempre h\u00e1 algo de sinistro e moribundo que envolve a a\u00e7\u00e3o, jamais uma penetra\u00e7\u00e3o idealizada pela pornografia. Nessa itera\u00e7\u00e3o, Bosley intenta injetar calmante em Peggy, ela revida um golpe na cabe\u00e7a com um vaso de plantas. Em seu maior ato de semelhan\u00e7a a Mammy Two Shoes e com perfeito <em>timing<\/em> p\u00f3s abuso de poder que lhe d\u00e1 um motivo e afeto vingativo contra o homem, Grizelda termina a vida dele, primeiro a vassouradas, depois em uma sufocante sentada no rosto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a dupla de criminosas foge de casa, nos despedimos totalmente da ilus\u00e3o de com\u00e9dia de costumes que poder-se-ia esperar do in\u00edcio. Traem-se as expectativas: isto n\u00e3o \u00e9 Cala a Boca, Etelvina. J\u00e1 se desconfiava disso com os rompantes de Peggy, mas a estrutura \u00e9 totalmente jogada fora com os atos de Grizelda. Pela segunda vez nos aliviando, interrompe a torrente de pensamentos de Peggy, mandando a patroa calar a boca. Em um mesmo ato, ela toma a dire\u00e7\u00e3o do carro e cria um novo estatuto: \u201cEu n\u00e3o sou mais sua empregada, vadia. Sou sua irm\u00e3 no crime\u201d. Inaugura-se aqui a ru\u00edna da rela\u00e7\u00e3o de servid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sequ\u00eancia segunda, a dupla de mulheres, por\u00e9m, \u00e9 v\u00edtima de mais uma estrutura que, de alguma forma, as iguala. O enquadro que tomam de um policial (que j\u00e1 sabe de tudo do caso) \u00e9 marcado pela viol\u00eancia sexual em estrutura machista. Aqui, parece tamb\u00e9m que a influ\u00eancia da est\u00e9tica burlesca d\u00e1 as caras pela primeira vez de forma mais evidente. O policial v\u00ea prazer em escandaliza-las com sua lingerie feminina vermelha (com direito a cinta liga), em ato que me remete uma apresenta\u00e7\u00e3o de 2020 do Cabar\u00e9 Casa de Toler\u00e2ncia, dirigido por Marlon Spilhere, onde o ator Guilherme Gregi\u00e1 performava engravatado em quase todo o espet\u00e1culo para, perto do fim revelar seus sentimentos sublimes que o levam a ser um homem de calcinha. Em 2025 \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar do pastor de calcinha tamb\u00e9m<sup data-fn=\"b377c060-ab22-400d-99f4-fb32f61c5ecd\" class=\"fn\"><a href=\"#b377c060-ab22-400d-99f4-fb32f61c5ecd\" id=\"b377c060-ab22-400d-99f4-fb32f61c5ecd-link\">3<\/a><\/sup>, satirizado no primeiro Mashowmen<sup data-fn=\"4d5b05a3-33aa-4f53-b0ff-98054a913d07\" class=\"fn\"><a href=\"#4d5b05a3-33aa-4f53-b0ff-98054a913d07\" id=\"4d5b05a3-33aa-4f53-b0ff-98054a913d07-link\">4<\/a><\/sup> pelo performer circense, burlesco e Drag Queer Chuck.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"718\" height=\"990\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-3.-Chuck-em-sua-performance-inspirada-no-pastor-de-calcinha-durante-o-1o-Mashowmen.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1660\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-3.-Chuck-em-sua-performance-inspirada-no-pastor-de-calcinha-durante-o-1o-Mashowmen.jpg 718w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-3.-Chuck-em-sua-performance-inspirada-no-pastor-de-calcinha-durante-o-1o-Mashowmen-218x300.jpg 218w\" sizes=\"auto, (max-width: 718px) 100vw, 718px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 3. Chuck em sua performance inspirada no pastor de calcinha durante o 1\u00ba Mashowmen. Fotografia de Hael Kai.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O burlesco permeia Desperate Living. O que ningu\u00e9m espera de um filme de Waters: Divine n\u00e3o est\u00e1 presente. Embora havia um papel pensado para ela (o de Mole), a temporada de uma pe\u00e7a burlesca da qual fazia parte do elenco a impediu de se envolver na obra. A primeira atriz n\u00e3o considerada uma <em>dreamlander<\/em><sup data-fn=\"c0cb7e13-6fef-4dbf-9696-379680e7fb33\" class=\"fn\"><a id=\"c0cb7e13-6fef-4dbf-9696-379680e7fb33-link\" href=\"#c0cb7e13-6fef-4dbf-9696-379680e7fb33\">5<\/a><\/sup> a ter um papel de grande import\u00e2ncia (Muffy) em um filme de Waters \u00e9 uma performer burlesca de certa fama. Outras cenas deste filme, assim como de outros da mesma fase do diretor, como Female Trouble, parecem carregar uma tradi\u00e7\u00e3o da burla em si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia do policial \u00e0s duas personagens n\u00e3o traz apenas a imagem (ou tropo) da penetra\u00e7\u00e3o dificultada<sup data-fn=\"ce7fa4db-c56f-4a21-b2e3-f089e84558f5\" class=\"fn\"><a id=\"ce7fa4db-c56f-4a21-b2e3-f089e84558f5-link\" href=\"#ce7fa4db-c56f-4a21-b2e3-f089e84558f5\">6<\/a><\/sup>, o exemplo maior sendo com os asquerosos beijos roubados acompanhados fala \u201cEu queria enfiar minha cabe\u00e7a inteira em sua boca\u201d (0:17:45) da enquanto o ator veste capacete. Essa imagem vem tamb\u00e9m na forma de falta de ere\u00e7\u00e3o do policial em pleno ato de busca de satisfa\u00e7\u00e3o da pervers\u00e3o sexual. Mesmo se embrenhando nas calcinhas delas exigidas por ele, ele n\u00e3o atinge nenhum gozo, mas de forma pat\u00e9tica se contorce e revira os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, todos os p\u00eanis em filmes de Waters (e n\u00e3o s\u00e3o poucos) s\u00e3o vistos moles, parece uma regra. Entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1960, a Motion Picture Association chancelava a possibilidade de distribui\u00e7\u00e3o formal de obras cinematogr\u00e1ficas baseada no C\u00f3digo Hays, conjunto de regras morais que pautavam o que se podia e n\u00e3o podia ser veiculado. Os conte\u00fados proibidos ou que demandavam cuidado pelo c\u00f3digo parecem mais uma lista de afazeres para Waters. Parece que tudo est\u00e1 presente: profana\u00e7\u00e3o, nudez, escravid\u00e3o de brancos, pervers\u00f5es sexuais, rela\u00e7\u00f5es sexuais interraciais, inc\u00eandio criminoso, uso de armas de fogo, brutalidade etc. De fato, o sistema de classifica\u00e7\u00e3o indicativa inaugurado em 1968 liberou o cinema dessas proibi\u00e7\u00f5es e nove anos depois, Desperate Living n\u00e3o estava sujeito a esse tipo de veto. Como n\u00e3o imaginar a vontade de usufruir da nova liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o creio que os p\u00eanis est\u00e3o sempre moles por algum receio de infringir um tabu, se assim o fosse, nenhum desses filmes teria sa\u00eddo do papel. Existe uma falta de compromisso com a verossimilhan\u00e7a que \u00e9 encantador e al\u00e9m disso Waters j\u00e1 expressou que n\u00e3o gostaria de que seus filmes fossem pornogr\u00e1ficos. Vejo essa constante como um elemento de sua po\u00e9tica. As penetra\u00e7\u00f5es nunca acontecem de fato, por mais que as personagens se montem, se engalfinhem e se sarrem. Temos na obra de Waters muitas cenas sexuais, mas todas elas s\u00e3o vulgares sem serem sexy. O gozo est\u00e1 na realiza\u00e7\u00e3o fetichista e n\u00e3o na fisiologia. A ideia n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 parecer pat\u00e9tico, mas celebrar o desviante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui reconhe\u00e7o que a palavra \u201cpat\u00e9tico\u201d tem sido repetida diversas vezes. Existem algumas m\u00e1ximas quando se trata de alguns filmes de Waters. Uma delas seria que tudo ser\u00e1 pat\u00e9tico, digno de pena junto com o nojo. Ningu\u00e9m est\u00e1 bem no universo da Dreamland Productions. O nojo \u00e9 s\u00f3 uma das sensa\u00e7\u00f5es, embora por essa ele seja t\u00e3o conhecido. Quantas vezes ele n\u00e3o ser\u00e1 resumido ao homem que fez uma Drag Queen comer fezes de cachorro em um filme dos anos 1970?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, o nojo realmente n\u00e3o abarca toda a sua complexidade. Nem <em>Camp<\/em> o tipifica completamente, nem com\u00e9dia, nem punk, nem trash, nem burlesco, nem queer, nem Drag, ou o conceito de <em>exploitation film<\/em>. Embora ele seja tudo isso. A ess\u00eancia provavelmentee reside muito pr\u00f3ximo do conceito por ele pr\u00f3prio desenvolvido \u201cexerc\u00edcio em mau gosto\u201d (subt\u00edtulo de Pink Flamingos). \u00c9 pat\u00e9tico porque ningu\u00e9m tem bom gosto em nada. O gozo do p\u00fablico em um filme de Waters \u00e9 ver a uma ninfa de rosto podre (Divine em Female Trouble) nos apontar um revolver sorrindo perguntar quem quer morrer pela arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 sobre o horror. \u00c9 sobre criar <strong>monstros ambivalentes<\/strong> em quest\u00e3o \u00e0s suas verossimilhan\u00e7as. Pessoas que existem, mas s\u00e3o ficcionais, s\u00e3o cenas poss\u00edveis, mas com discursos imposs\u00edveis em sua transpar\u00eancia. \u00c9 sobre a ironia em estilo. O estilo faz papel de discurso, n\u00e3o o conte\u00fado. O gesto de horror <em>Camp<\/em> vigora em Waters. \u201cCamp \u00e9 a experi\u00eancia do mundo consistentemente est\u00e9tica. Ela representa a vit\u00f3ria do \u2018estilo\u2019 sobre o \u2018conte\u00fado\u2019, da \u2018est\u00e9tica\u2019 sobre a \u2018moralidade\u2019, da ironia sobre a trag\u00e9dia\u201d (SONTAG, 1987). S\u00e3o horrores par\u00f3dicos. Nessa cena, o monstro \u00e9 o policial exibicionista que humilha e se humilha junto, em sua pr\u00f3pria decad\u00eancia impercebida. Impercebido, mas rejeitado em todas as inst\u00e2ncias com sua excita\u00e7\u00e3o perversa. Os personagens de Waters n\u00e3o se duvidam, n\u00e3o matutam sobre seu pr\u00f3prio mau-caratismo, s\u00e3o corruptos com uma boa dose de orgulho. \u00c9 seu alogismo<sup data-fn=\"db1ba1bb-718d-45f9-9e1e-2c3fb2d13e8b\" class=\"fn\"><a id=\"db1ba1bb-718d-45f9-9e1e-2c3fb2d13e8b-link\" href=\"#db1ba1bb-718d-45f9-9e1e-2c3fb2d13e8b\">7<\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este monstro \u00e9 quem apresenta o conceito de Mortville para Grizelda e Peggy, num gesto de desprezo (que o torna ainda mais desprez\u00edvel). \u201c\u00c9 uma cidade especial para pessoas como voc\u00eas, pessoas que devem estar com muita vergonha do que fizeram\u201d. Mortville surge no filme com m\u00fasica desconcertante: um grande campo de constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, de profundo mau gosto, al\u00f3gicas, inst\u00e1veis. Dos residentes, poderia-se usar os mesmos adjetivos. \u201cOlhe em volta, \u00e9 uma vila de idiotas\u201d, diz Peggy. Em Mortville n\u00e3o h\u00e1 bancos, l\u00e1 um peda\u00e7o de torta custa dez centavos, apenas seis d\u00f3lares fazem Mole chama-las de ricas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c<em>Mockery of a monarchy<\/em>\u201d \u00e9 como Coo Coo se refere ao regime em Mortville no minuto 1:08:49. A palavra <em>mockery<\/em> tem uma conota\u00e7\u00e3o jocosa que talvez descreva o tom do cineasta melhor do que \u201cpar\u00f3dia\u201d. A problematiza\u00e7\u00e3o de Propp (Comicidade e Riso, 1992, p. 84) da defini\u00e7\u00e3o de \u201cpar\u00f3dia\u201d de B\u00f3riev nega a proposta de que ela diga respeito ao exagero das caracter\u00edsticas, mas acusa como ess\u00eancia dela a imita\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas exteriores e esvaziamento do conte\u00fado. Mas a <em>mockery <\/em>que o filme faz, por sua vez, tem a ver com um grau de derris\u00e3o, ou seja, um tipo de risada direcionado ao que \u00e9 considerado menor, ao que se quer ridicularizar. \u00c9 zombaria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, creio que o gesto <em>camp<\/em> de Waters evidencia a discuss\u00e3o sobre a tal falta de engajamento pol\u00edtico dessa forma de sensibilidade que Sontag afirma nas Notas Sobre o Camp. O cineasta canadense Bruce LaBruce, nas suas Notas sobre o Camp\/Anti-Camp (2012), prop\u00f5e subcategorias do <em>camp<\/em> a partir da sua an\u00e1lise da hist\u00f3ria do desenvolvimento e da dissemina\u00e7\u00e3o da sua l\u00f3gica. Para LaBruce, o panorama contempor\u00e2neo apresenta uma realidade onde a direita j\u00e1 cooptou a forma <em>camp <\/em>de produzir imagens e as utiliza (de forma at\u00e9 muito eficiente) para se conectar com o povo, uma vez que, segundo o pr\u00f3prio, o <em>camp<\/em> tomou a cultura popular como principal apelo sens\u00edvel. Essa apropria\u00e7\u00e3o de um c\u00f3digo, que nasce da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal e esot\u00e9rica entre dissidentes de g\u00eanero a fim de se proteger de uma sociedade violenta, por parte de agentes do <em>status quo<\/em> \u00e9 o que LaBruce chama de <em>anti-camp<\/em> em oposi\u00e7\u00e3o ao <em>camp<\/em> verdadeiro e bom, que segundo ele, \u201cpela sua pr\u00f3pria natureza \u00e9 muito pol\u00edtico, subversivo, at\u00e9 revolucion\u00e1rio, pelo menos em suas manifesta\u00e7\u00f5es mais puras e sofisticadas\u201d (LABRUCE, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>camp <\/em>gay cl\u00e1ssico, categoria onde LaBruce localiza os filmes de Waters no ensaio, \u201cbuscava celebrar, exaltar e at\u00e9 mesmo venerar as qualidades de desvio, diferen\u00e7a e excentricidade que caracterizavam a experi\u00eancia homossexual altamente estetizada de \u00e9pocas passadas\u201d (LABRUCE, 2012). A zombaria pol\u00edtica de Waters est\u00e1 fortemente presente em todos os filmes da primeira fase do cineasta, talvez at\u00e9 com mais for\u00e7a em Desperate Living.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Abaixo duas cenas que traduzi de dois filmes dessa fase, Pink Flamingos e Mondo Trasho, onde podemos observar alguns pontos interessantes sobre a zombaria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[No meio de um mato seco aparece Vader, um jornalista.]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vader: John Vader do &#8220;Midnight&#8221; aqui procurando Divine em algum lugar em Phoenix, Maryland. [Encontra e cumprimenta Divine e sua fam\u00edlia que segura o casal Marble amarrado e amorda\u00e7ado.] Divine, voc\u00ea est\u00e1 com uma apar\u00eancia fant\u00e1stica!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Divine: Oh, obrigada, Sr. Vader. Estou muito feliz que voc\u00ea p\u00f4de vir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Aparece Curzan.]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curzan: Nat Curzan aqui, do &#8220;The Tattler&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Divine: Bem, boa tarde, Sr. Curzan! Cavalheiros, se preparem, porque voc\u00eas est\u00e3o prestes a testemunhar o julgamento desses dois desafortunados, comumente conhecidos como Connie e Raymond Marble. O julgamento acontecer\u00e1 em frente aos seus olhos e a execu\u00e7\u00e3o, a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curzan: N\u00f3s vamos testemunhar um verdadeiro assassinato?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vader: Um homic\u00eddio ao vivo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Divine: \u00c9 isso mesmo, cavalheiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Aparece Goldstein.]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Goldstein: Goldstein, Larry Goldstein&#8230; Muito tentador. Eu tenho uma pergunta a voc\u00ea, Sra\u2026 Cotton. Est\u00e1 correto, Cotton?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cotton: Sim, est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Goldstein: Voc\u00ea \u00e9 c\u00famplice desses assassinatos que acontecer\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cotton: N\u00e3o s\u00e3o exatamente assassinatos, Sr. Goldstein. Esse \u00e9 um tribunal, um &#8220;tribunal canguru&#8221;, como as manchetes podem gritar. N\u00e3o um &#8220;mero assassinato&#8221; como voc\u00ea chama. Se eu estivesse envolvida meramente em mais um outro assassinato, dificilmente seria uma manchete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Crackers: N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a publicidade. Mam\u00e3e n\u00e3o poderia continuar seu dia-a-dia com essas merdas acontecendo. Mam\u00e3e n\u00e3o foi a agressora nessa guerrinha que tivemos. Ela s\u00f3 fez o que tinha que ser feito. Foi suic\u00eddio da parte deles!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curzan: E, Cotton\u2026 Eu percebo um sorriso nos seus l\u00e1bios. Assassinato te deixa feliz?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cotton: Assassinato meramente alivia a tens\u00e3o, Sr. Curzan. Para o assassinato trazer felicidade, \u00e9 preciso j\u00e1 ser feliz e eu estou completamente em paz comigo mesma\u2026 totalmente feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Divine: Me d\u00eaem mais perguntas!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curzan: Divine, voc\u00ea \u00e9 l\u00e9sbica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Divine: Sim. Eu j\u00e1 fiz de tudo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vader: Sangue te d\u00e1 tes\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Divine: D\u00e1 mais do que tes\u00e3o, Sr. Vader. Me faz gozar. E mais do que a vis\u00e3o do sangue, eu amo o gosto. O gosto de sangue quente, de morte fresca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vader: Poderia nos dar mais algumas de suas cren\u00e7as pol\u00edticas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Divine: Matem todo mundo agora! Legaliza\u00e7\u00e3o ao assassinato em primeiro grau! Defesa ao canibalismo. Coma merda. Nojeira \u00e9 minha pol\u00edtica. Nojeira \u00e9 minha vida! Fotografem o que quiserem. [Posa.] Que tal assim pra capa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Waters, Pink Flamingos, 1972, 01:21:10-01:23:13, tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo em seguida do trecho, o simulacro de julgamento acontece, com direito testemunhas sob juramento. Um jornalista pergunta a Divine o que faria se eles decidissem por n\u00e3o imprimir essa not\u00edcia e ela o amea\u00e7a de morte. Por fim, ela atira em ambos como puni\u00e7\u00e3o do crime de &#8220;cuzonice&#8221; (&#8220;asshole-ism&#8221; no original).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa, percebo a exalta\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica que LaBruce se refere, a glorifica\u00e7\u00e3o de um \u201cmonstro ambivalente\u201d que \u00e9 a protagonista Divine em Pink Flamingos. A Drag Queen que corporifica a abje\u00e7\u00e3o. J\u00e1 na cena abaixo, podemos observar o <em>camp <\/em>sendo feito de forma mais zombeteira, apresentando um demogr\u00e1fico pol\u00edtico, a classe m\u00e9dia conservadora, como idiotas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Aparece a jovem na cal\u00e7ada. Duas mulheres que ali est\u00e3o esperando o \u00f4nibus se espantam com a apari\u00e7\u00e3o.]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Isso \u00e9 um menino ou uma menina?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9 viadinho?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: \u00c9 sapat\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: N\u00e3o, \u00e9 hippie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Comunista?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Talvez uma drag queen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou um homem-beringela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9 um maloqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou um maconheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Ou uma piranha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Olha s\u00f3 pra ela. \u00c9 s\u00f3 uma puta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Ou talvez uma golpista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ela \u00e9 traficante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9! Ou algum tipo de intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Provavelmente um lambe-cu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Hmm. Talvez uma drogada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Um pederasta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Ou um obcecado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Mas, mas pode ser um n\u00f3ia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9, ou talvez um beatnik.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou um viciado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Sim, ou um transtornado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou um crioulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Ou s\u00f3 um gigol\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: S\u00f3 uma mariquinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Sim, um caipira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou um \u00edndio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9, ou uma menina glamourosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Talvez ela \u00e9 um tipo de esnobe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Talvez s\u00f3 uma polaca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou uma belicista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9, ou uma sadomasoquista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ah, \u00e9 s\u00f3 uma adolescente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Sim, talvez ela \u00e9 de uma gangue de motoqueiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Acha que \u00e9 uma machorra?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Pode ser uma amiga de bicha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou talvez \u00e9 uma piriguete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9, ou um enrustido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou uma cabeluda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Sim, talvez uma atriz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Bem, ela deve ter largado os estudos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Sim. Como \u00e9 aquela palavra? Hm, grafuncho!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou um desertor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9, ou um fugitivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou algum tipo de, voc\u00ea sabe, pacifista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Sim, ou uma puta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Ou ela \u00e9 um desses militantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Mmmm. Ou uma riquinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Mas eu aposto que \u00e9 s\u00f3 uma puta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00c9, ou talvez um miscigenador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Um lambe-cu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Sim, ou um arrombado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Uma traficante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Ah, ela me d\u00e1 nojo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Puta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[A jovem bate os calcanhares e some.]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: O que \u00e9 isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: \u00d3, Senhor! N\u00e3o \u00e9 nojento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Vamos esperar o \u00f4nibus em outro lugar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Tudo isso me deixou enojada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 1: Eu tamb\u00e9m!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MULHER 2: Vamos pra c\u00e1 para esperarmos o \u00f4nibus em paz!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[FIM]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Waters, MONDO TRASHO, 1969, 1:24:49-1:26:50, tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Desperate Living, vejo as personagens dotadas de subjetividade individual divididas em tr\u00eas grupos maiores: os semelhantes a tipos da Commedia dell\u2019Arte, os monstros ambivalentes e os conservadores pat\u00e9ticos. No primeiro grupo: Grizelda, Bosley, Peggy (no come\u00e7o) Coo Coo e Herbert. No segundo grupo: o policial, Mole e Muffy. No terceiro grupo: Peggy (no final) e Carlotta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, alguns personagens coletivos, esp\u00e9cies de coros que distintos que comp\u00f5em a narrativa em sua dimens\u00e3o macropol\u00edtica. H\u00e1 um grupo de crian\u00e7as que situa o in\u00edcio em uma vizinhan\u00e7a que poderia ser qualquer uma de um mundo real. H\u00e1 os habitantes de Mortville, sujeitos \u00e0 domina\u00e7\u00e3o de Carlotta, que situam o resto do filme nessa monarquia xexelenta. H\u00e1 a comunidade de nudistas, que me parece a simboliza\u00e7\u00e3o de um ref\u00fagio contracultural estrategicamente constru\u00eddo na periferia. Por fim, h\u00e1 os <em>goons<\/em>, o arremedo de for\u00e7a policial empregada por Carlotta que representam a estupidez masculina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem semelhan\u00e7as que me fazem crer que h\u00e1 um que de Commedia dell\u2019Arte na obra. Claro, existe um g\u00e9rmen que sobrevive em todas as com\u00e9dias populares ocidentais baseadas em f\u00e1bula e personagens que remete \u00e0 cultura popular medieval e renascentista. Para o cr\u00edtico liter\u00e1rio russo Mikhail Bakhtin (A cultura popular na Idade M\u00e9dia e no Renascimento: o contexto de Fran\u00e7ois Rabelais, 1987), tr\u00eas pilares manifestam a vers\u00e3o n\u00e3o-oficial, c\u00f4mica e <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/seres-grotescos-corpo-drag-arte\/\">grotesca<\/a> da cultura desse per\u00edodo: As formas dos ritos e espet\u00e1culos, as obras c\u00f4micas verbais e as diversas formas e g\u00eaneros do vocabul\u00e1rio familiar (p. 4). Desperate Living toma emprestado de forma atualizada cada um desses pilares e situa-os em uma monarquia <em>\u00e0 la <\/em>absolutista num territ\u00f3rio de ch\u00e3o de terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensando de forma n\u00e3o-dieg\u00e9tica, o pr\u00f3prio filme \u00e9 um espet\u00e1culo que joga com tipos ligados a classe social, executado por um coletivo de gente esquisita. Mas dentro da diegese, dois \u201crituais\u201d parecem um aceno \u00e0 Idade M\u00e9dia. O <em>backwards day<\/em> (dia do \u201cao contr\u00e1rio\u201d) \u00e9 o mais gritante, quando a Rainha Carlotta, entediada, decide que, para o seu divertimento, todos os residentes de Mortville devem usar suas roupas de tr\u00e1s pra frente e andar de costas por um dia. Um caso da invers\u00e3o carnavalesca caracterizada por Bakhtin, mas h\u00e1 um por\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia gozosa para ningu\u00e9m al\u00e9m dela pr\u00f3pria. Um dia de invers\u00e3o \u00e9 imposto a uma popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vive em precariedade e todos reclamam. O outro exemplo \u00e9 o festejo do fim do reinado de Carlotta atrav\u00e9s de seu assassinato que encerra a obra. A falta de luz el\u00e9trica compensada por tochas, a qualidade do solo, o castelo atr\u00e1s, o banquete servido \u00e0 mesa, a forma como a rainha est\u00e1 assada como se fosse um porco de ma\u00e7a na boca, a forma como Coo Coo morre \u00e0 mesa v\u00edtima de uma doen\u00e7a contagiosa que a apodrece (no caso, raiva), a forma como todos dan\u00e7am. Historiadores poderiam questionar sua referencialidade ao medievo, mas mesmo que seja uma fantasia referente ao per\u00edodo, ela causa essa associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"575\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-4.-Os-residentes-de-Morville-celebram-na-cena-final.-Still-frame-de-Desperate-living-1977-1024x575.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1661\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-4.-Os-residentes-de-Morville-celebram-na-cena-final.-Still-frame-de-Desperate-living-1977-1024x575.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-4.-Os-residentes-de-Morville-celebram-na-cena-final.-Still-frame-de-Desperate-living-1977-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-4.-Os-residentes-de-Morville-celebram-na-cena-final.-Still-frame-de-Desperate-living-1977-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-4.-Os-residentes-de-Morville-celebram-na-cena-final.-Still-frame-de-Desperate-living-1977.png 1365w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 4. Os residentes de Morville celebram na cena final. <em>Still frame<\/em> de Desperate living (1977). Minutagem: 1:30:03.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto do roteiro e a forma como \u00e9 falado pelos atores d\u00e3o conta dos outros dois pilares. N\u00e3o em uma forma metrificada, cancioneira, mas em seu esp\u00edrito zombeteiro e extremamente chulo. Em Baltimore, o vocabul\u00e1rio \u00e9 mais regular aos costumes da burguesia do tempo, mas em Mortville at\u00e9 Peggy parece um pouco mais normal com seus rompantes. A Rainha tem uma distin\u00e7\u00e3o no modo de falar em alguns momentos quando lan\u00e7a ordens, mas est\u00e1 longe de ser sua caracter\u00edstica principal, ela frequentemente volta ao tom grosseiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A falta do sistema capitalista, al\u00e9m de todo o aparato mon\u00e1rquico sustentam esse ilusionismo medieval, mas o que coroa esse lado da fantasia do per\u00edodo \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do figurino de Peggy em um <em>cosplay<\/em> da personagem Mal\u00e9vola do filme da Disney de 1959, A Bela Adormecida. A sua transforma\u00e7\u00e3o literal em uma vil\u00e3 de desenho animado parodia a ado\u00e7\u00e3o da maldade pura e irracional como conduta. Dessa forma a zombaria volta-se contra o fascismo com suas falas \u201cApenas aos ricos deveria ser permitido viver!\u201d (1:09:50) e \u201cV\u00e1 em frente. Um \u00fanico tiro nunca poder\u00e1 destruir a beleza do fascismo!\u201d (1:25:55).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inclusive, o funcionamento do Estado de Mortville \u00e9 algo digno de nota, como explanado pela Rainha Carlotta ap\u00f3s sequestrar Peggy e Grizelda:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Proclama\u00e7\u00e3o Real n\u00famero 1: [um criado toca uma corneta] Enquanto voc\u00eas viverem em Mortville, devem sempre considerar a mim seu Deus e sempre que me virem nas ruas, ajoelhem-se e exclamem \u2018Eu lhe reverencio, Rainha Carlotta!\u2019. Proclama\u00e7\u00e3o Real n\u00famero 2: [corneta] Voc\u00eas devem viver aqui em constante humilha\u00e7\u00e3o, somente existindo para trazer a mim e meus excursionistas momentos de divers\u00e3o real. Eu n\u00e3o sou respons\u00e1vel pela sua renda, suas condi\u00e7\u00f5es de vida ou sua felicidade individual. Eu me fiz perfeitamente clara?<br>(WATERS J. , 1977, 0:30:46-0:31:36, tradu\u00e7\u00e3o livre). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O despotismo declarado por Carlotta e confirmado por suas a\u00e7\u00f5es subsequentes s\u00e3o um aceno ao absolutismo e tamb\u00e9m nos transportam para a fantasia medieval. Imposs\u00edvel n\u00e3o tecer o paralelo com a realidade pol\u00edtica estadunidense quando a Proclama\u00e7\u00e3o Real fala sobre desalento estatal. Por justaposi\u00e7\u00e3o, toda a fala parece ser sobre a pol\u00edtica nacional e faz o espectador pensar o quanto que h\u00e1 desse discurso presente no sistema da rep\u00fablica democr\u00e1tica de representa\u00e7\u00e3o vigente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro monstro ambivalente no filme, e acredito que o mais interessante, \u00e9 Mole McHenry, uma das donas da hospedaria onde as baltimorianas se refugiam. H\u00e1 algo de muito cativante que chama aten\u00e7\u00e3o nessa personagem que grita, xinga, afronta e agride, mas logo mostra vulnerabilidade abrindo-se sobre sua a sua disforia de g\u00eanero e assume certo papel de cuidado ao educar sobre a pol\u00edtica local \u00e0s baltimorianas. \u00c9 da boca dessa personagem que descobrimos que n\u00e3o h\u00e1 bancos, dinheiro e nem banheiros em Mortville. \u00c9 com ela que conhecemos tamb\u00e9m a comunidade dos nudistas e o bar l\u00e9sbico com show de BDSM e ela \u00e9 a primeira a ser capaz de agredir Carlotta quando joga uma bola de lama na sua orelha em seu passeio durante o <em>backwards day<\/em>. Nos posicionamos fortemente a favor de Mole durante a sequ\u00eancia final, pois que acaba agindo como a hero\u00edna da trama, punindo a traidora Peggy, que representa o que ela repudia: alpinistas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que mais me interessa em Mole \u00e9 como ela representa o terror dos conservadores sobre l\u00e9sbicas. Sobre as mulheres que rejeitam o sistema de subalterniza\u00e7\u00e3o. O <em>flashback <\/em>(minutagem 00:42:17) nos mostra um <strong>terror do feminismo<\/strong>, uma zombaria do imagin\u00e1rio popular estereotipado, figura criada a partir do p\u00e2nico moral, uma orgulhosa possuidora de uma enorme vulva dentada, que adentra o ringue de luta-livre provocando a plateia esfregando seu clit\u00f3ris e que assassina homens no murro.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"344\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-5.-Mole-McHenry-no-ringue.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1662\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-5.-Mole-McHenry-no-ringue.jpg 512w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-5.-Mole-McHenry-no-ringue-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 5. Mole McHenry no ringue, sob a identidade Rastlin\u2019 Rita. Minutagem: 00:43:06.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Continua a ideia de um terror do feminismo, dessa vez mais da ideia de transi\u00e7\u00e3o como mutila\u00e7\u00e3o do corpo num homem trans, que busca uma neofaloplastia para agradar sua c\u00f4njuge e quando n\u00e3o encontra \u00eaxito penetrativo, se arrepende e se castra. Aqui a penetra\u00e7\u00e3o dificultada retorna, e vai mais al\u00e9m, corta-se o p\u00eanis. Muffy, juntamente, nessa cena e com o conflito dos ci\u00fames de Mole sobre um homem hipot\u00e9tico, \u00e9 mais um coment\u00e1rio sobre caricatura feminina, a <em><strong>femme fatale<\/strong><\/em>. Uma que engana e rejeita. Que, com seus discursos hipot\u00e9ticos sobre a falta de um homem, causa a ida de Mole \u00e0 cl\u00ednica e amea\u00e7ar a equipe a m\u00e3o armada em busca de um p\u00eanis in\u00fatil, que no final n\u00e3o era de fato o que ela desejava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A risada escatol\u00f3gica, onde o fim e o dejeto s\u00e3o tematizados pode ser observada durante o filme inteiro, mas dois exemplos s\u00e3o dignos de men\u00e7\u00e3o ao passo que o texto chega ao fim. O primeiro retoma e encerra a an\u00e1lise das personagens. Utilizando um modelo de Commedia dell\u2019Arte e corrompendo-o, temos o primeiro encontro em cena dos <strong>enamorados<\/strong>: Coo Coo e Herbert:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coo Coo: Herbert!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Herbert: Coo Coo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Herbert: Coo-coo, Coo-coo! Oh, Coo, Eu venero o ch\u00e3o onde voc\u00ea anda. Eu n\u00e3o consegui manter minha mente no trabalho a manh\u00e3 toda. Todo peda\u00e7o de lixo que pegava me fazia lembrar de voc\u00ea. Uma velha embalagem de doce me fez pensar em como voc\u00ea \u00e9 doce. Um len\u00e7o de papel cheio de ranho me fez imaginar o quanto eu choraria se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos que nos separar. Uma velha camisinha me fez pensar em todas as noites de Eros que n\u00f3s temos \u00e0 nossa frente. Eu te amo, Coo-Coo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coo Coo: Oh, Herbert! Eu me masturbei 14 vezes noite passada pensando em voc\u00ea&#8230; e quando eu finalmente peguei no sono meus sonhos n\u00e3o foram exatamente secos. Me pegue agora, Herbert. Pegue-me na frente de toda cidade! (WATERS J. , Desperate Living, 1977, 00:53:33\u201300:54:20).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"344\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-6.-Os-enamorados-se-encontram.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1663\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-6.-Os-enamorados-se-encontram.jpg 512w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-6.-Os-enamorados-se-encontram-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 6. Os enamorados se encontram. Minutagem 00:53:47.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num encontro onde as a\u00e7\u00f5es lembram em demasiado o que se espera de dois mocinhos rom\u00e2nticos (que na tradi\u00e7\u00e3o servem de motor para a trama), onde Coo Coo \u00e9 um princesa inclusive, o corpo de Herbert est\u00e1 nu e o discurso ressalta o resto, a secre\u00e7\u00e3o e o lixo. A cena acaba com a penetra\u00e7\u00e3o do corpo, baleado pelos goons a mando de Carlotta (que n\u00e3o aprova a rela\u00e7\u00e3o), que cai morto. Novamente n\u00e3o \u00e9 penetra\u00e7\u00e3o f\u00e9rtil, mas m\u00f3rbida. A chance dos enamorado moverem a trama \u00e9 sepultada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os goons reiteradamente aparecem n\u00e3o s\u00f3 como policiamento, mas como objetos sexuais de Carlotta, que a servem sem questionar em troco de viverem no castelo. Nunca a penetram, por mais que isso se insinue na minutagem 00:35:54, vemos como, pateticamente, a a\u00e7\u00e3o se basta em <em>frottage<\/em>. Os goons s\u00e3o facilmente seduz\u00edveis e \u00e9 por isso que o plano de invas\u00e3o do castelo (1:22:58) d\u00e1 certo, onde Muffy engana o guarda com poucas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fim \u00e9 cheio de imagens apocal\u00edpticas, a minha favorita \u00e9 a que parece uma releitura de uma obra (tamb\u00e9m pol\u00eamica em seu tempo), quando Peggy \u00e9 punida com a morte atrav\u00e9s de um tiro no \u00e2nus. Por causa do enquadramento, parece uma releitura ao rev\u00e9s do quadro de Coubert, <em>A Origem do Mundo <\/em>(1866). Waters apresenta a n\u00f3s <strong>o fim do mundo<\/strong>,o fim do aparelho digestivo ensaguentado e arrombado por arma letal, o contr\u00e1rio da vulva f\u00e9rtil. Um \u00e2nus de uma fascista ap\u00f3s sofrer pena de morte. Vejamos a compara\u00e7\u00e3o das duas imagens.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"344\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-7.-O-anus-ensanguentado-de-Peggy.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1664\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-7.-O-anus-ensanguentado-de-Peggy.jpg 512w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-7.-O-anus-ensanguentado-de-Peggy-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 7. O \u00e2nus ensanguentado de Peggy ap\u00f3s sua puni\u00e7\u00e3o. Minutagem 1:26:14.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"660\" height=\"547\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-8.-A-Origem-do-Mundo-1866-pintura-de-Gustave-Courbet.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1665\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-8.-A-Origem-do-Mundo-1866-pintura-de-Gustave-Courbet.jpg 660w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Figura-8.-A-Origem-do-Mundo-1866-pintura-de-Gustave-Courbet-300x249.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Figura 8. <em>A Origem do Mundo<\/em> (1866), pintura de Gustave Courbet.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>\u201cEu acho que ser socialmente redentor \u00e9 muito, muito chato. Sabe, eu s\u00f3 estou tentando fazer as pessoas rirem, essa \u00e9 a \u00fanica raz\u00e3o pela qual eu j\u00e1 peguei uma c\u00e2mera de cinema\u201d. (WATERS &amp; Divine, Late Night with David Letterman, 1982) (Tradu\u00e7\u00e3o livre). O riso de John Waters \u00e9 a prioridade, acima de lucro, acima da moral, acima da aceita\u00e7\u00e3o, embora seja inteiramente imbricado na refer\u00eancia pol\u00edtica. Ele n\u00e3o \u00e9 apol\u00edtico, mas \u00e9 apocal\u00edptico. \u00c9 um brinde numa festa no fim do mundo entre \u201cfodidos\u201d, onde o resto do sistema antigo morre apodrecendo.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><br><strong>Obras Citadas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BAKHTIN, M. M. (1987). <em>A cultura popular na Idade M\u00e9dia e no Renascimento: o contexto de Fran\u00e7ois Rabelais.<\/em> (Y. F. VIEIRA, Trad.) S\u00e3o Paulo, Brasil: HUCITEC; Editora da Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LABRUCE, B. (Mar\u00e7o de 2012). <em>Notes on Camp\/Anti-Camp<\/em>. Acesso em 24 de Novembro de 2025, dispon\u00edvel em Nat. Brut ARCHIVE: http:\/\/www.natbrutarchive.com\/essay-notes-on-campanti-camp-by-bruce-labruce.html<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LEITE, F. B. (out.\/dez. de 2023). Realismo grotesco e corpo grotesco em Bakhtin. <em>Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, 18<\/em>(n. 4), e62064p.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PROPP, V. (1992). <em>Comicidade e Riso.<\/em> S\u00e3o Paulo: \u00c1tica S.A.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SONTAG, S. (1987). <em>Contra a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/em> Porto Alegre: Editora L&amp;PM.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Waters, J. (Diretor). (1969). <em>MONDO TRASHO<\/em> [Filme Cinematogr\u00e1fico]. EUA: Film-Makers&#8217; Cooperative.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Waters, J. (Diretor). (1972). <em>Pink Flamingos<\/em> [Filme Cinematogr\u00e1fico]. EUA: New Line Cinema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WATERS, J. (Escritor), &amp; WATERS, J. (Diretor). (1977). <em>Desperate Living<\/em> [Filme Cinematogr\u00e1fico]. EUA: New Line Cinema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WATERS, J. (1985). <em>Shock Value: A Tasteful Book About Bad Taste.<\/em> New York: Delta.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Notas de Rodap\u00e9<\/strong><\/h2>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"d88efad6-8d78-43fe-8239-0d7605c4c480\">O sistema de <em>download<\/em> via <em>torrent<\/em> funciona a partir de computadores ligados e em conex\u00e3o \u00e0 internet que, em conjunto, se tornam uma esp\u00e9cie de servidor ao fazerem <em>upload<\/em> cont\u00ednuo dos arquivos diretamente para os computadores que iniciam o <em>download<\/em> de determinado arquivo a partir de um endere\u00e7o virtual \u00fanico. As m\u00e1quinas que enviam o arquivo s\u00e3o chamados de <em>seeders<\/em>. <a href=\"#d88efad6-8d78-43fe-8239-0d7605c4c480-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"5506ea8a-e6e5-42bd-9dee-caa2ac449dba\">O que eu encaro como uma pe\u00e7a museol\u00f3gica pessoal, meu perfil antigo na rede social Instagram ao qual eu perdi acesso, demarca isso em sua minibiografia e \u00e9 mais observ\u00e1vel nas maquiagens que eu fazia na \u00e9poca. O endere\u00e7o: &lt;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/persephonepepper\">https:\/\/www.instagram.com\/persephonepepper<\/a>&gt;. <a href=\"#5506ea8a-e6e5-42bd-9dee-caa2ac449dba-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b377c060-ab22-400d-99f4-fb32f61c5ecd\">Not\u00edcia dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/f5.folha.uol.com.br\/voceviu\/2025\/07\/com-fio-dental-pastor-de-calcinha-e-peruca-e-flagrado-mais-uma-vez-em-goiania.shtml\">https:\/\/f5.folha.uol.com.br\/voceviu\/2025\/07\/com-fio-dental-pastor-de-calcinha-e-peruca-e-flagrado-mais-uma-vez-em-goiania.shtml<\/a>&gt;. <a href=\"#b377c060-ab22-400d-99f4-fb32f61c5ecd-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"4d5b05a3-33aa-4f53-b0ff-98054a913d07\">O Mashowmen \u00e9 um projeto idealizado por Eros Ef\u00eamera em 2025 e realizado pela Ef\u00eamera Haus, com quatro edi\u00e7\u00f5es, entre os bares florianopolitanos Sapateco e Opium, de agosto a outubro de 2025. <a href=\"#4d5b05a3-33aa-4f53-b0ff-98054a913d07-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"c0cb7e13-6fef-4dbf-9696-379680e7fb33\">Foram\/s\u00e3o conhecidos como <em>dreamlanders<\/em> os atores repetidamente escalados por Waters em sua filmografia, por conta do nome Dreamland Productions. <a href=\"#c0cb7e13-6fef-4dbf-9696-379680e7fb33-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"ce7fa4db-c56f-4a21-b2e3-f089e84558f5\">Soar como a frase c\u00e9lebre de Leona Assassina Vingativa aqui \u00e9 totalmente deliberado. <a href=\"#ce7fa4db-c56f-4a21-b2e3-f089e84558f5-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"db1ba1bb-718d-45f9-9e1e-2c3fb2d13e8b\">Conceito de Vladimir Propp utilizado em Comicidade e Riso (PROPP, 1992) em nome de descrever a falta de l\u00f3gica\/intelig\u00eancia que proporciona a comicidade de um personagem. <a href=\"#db1ba1bb-718d-45f9-9e1e-2c3fb2d13e8b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ensaio cr\u00edtico sobre a degenera\u00e7\u00e3o em John Waters, explorando grotesco, camp, abje\u00e7\u00e3o e contracultura queer em seus filmes da primeira fase.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"O sistema de <em>download<\/em> via <em>torrent<\/em> funciona a partir de computadores ligados e em conex\u00e3o \u00e0 internet que, em conjunto, se tornam uma esp\u00e9cie de servidor ao fazerem <em>upload<\/em> cont\u00ednuo dos arquivos diretamente para os computadores que iniciam o <em>download<\/em> de determinado arquivo a partir de um endere\u00e7o virtual \u00fanico. 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