{"id":1677,"date":"2025-12-15T19:38:29","date_gmt":"2025-12-15T22:38:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=1677"},"modified":"2025-12-16T11:49:25","modified_gmt":"2025-12-16T14:49:25","slug":"rubao-ruby-drag-king-burlesco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/rubao-ruby-drag-king-burlesco\/","title":{"rendered":"Rub\u00e3o, Ruby: quando o corpo clama por infinitas possibilidades"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entrevista por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/aylacinema_\/\">Ayla Cinema<\/a><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:80px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Tenho uma amiga minha que construiu seu espa\u00e7o na foice, numa cidade muito conservadora. Uma pessoa em que um corpo e uma exist\u00eancia \u00e9 pouco para ela, com seu corpo visita o masculino e o feminino que lhe foi privado e\/ ou imposto. Nos faz visitar a fronteira de g\u00eaneros como poucas, e por vezes j\u00e1 experimentou a metamorfose da fus\u00e3o entre animal e humano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a conheci, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/rubao.ruby\/\">Rubia Romani<\/a> j\u00e1 era uma atriz renomada da cena teatral da cidade de Curitiba. Vi sua carreira florescer de diversas outras formas no seu encontro com a arte Drag King e com o Burlesco, nas quais construiu as personas Rub\u00e3o e Ruby respectivamente. Tais figuras arrebatam cabar\u00e9s, galerias e teatros mundo a fora. Performances como Cavalo, em que Ruby, nos convida a v\u00ea-la como um cavalo, e ao longo da performance o pr\u00f3prio cavalo vira um animal a parte de seu corpo, at\u00e9 ela montar propriamente no cavalo, embalada pela m\u00fasica <em>Cavalo<\/em> da diva Liana Padilha. Assim como em Cosmos, no qual ela abre o n\u00famero como uma vi\u00fava e faz um streap- tease ao som de Blu Bel, at\u00e9 culminar em uma proje\u00e7\u00e3o de estrelas no teto que saem do brilho de sua cabe\u00e7a. Performances inventivas, dramat\u00fargicas, ousadas, debochadas. Como Rub\u00e3o, vi ela fomentar diversos filhos Drag Kings, porque al\u00e9m de tudo \u00e9 uma pessoa que tem a generosidade de partilhar sua caminhada. Segundo ela, foram mais de 300 pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rubia, Rub\u00e3o, Ruby, como preferir, vem conferir esse papo que deu um livre<em> pout-purri <\/em>da carreira dessa atriz\/ ator\/ vedete, que inicia com uma constata\u00e7\u00e3o da sua performance de g\u00eanero no dia-a- dia, atravessando a forma\u00e7\u00f5es de um coletivo art\u00edstico, e em dos trabalhos mais recentes, com a artista japonesa Seaborg, no qual encarnou uma porca infl\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando escrevo A.C. sou eu quem vos fala, <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/uma-drag-de-cinema\/\">Ayla Cinema<\/a>, quando coloco R.R. \u00e9 Rub\u00e3o\/ Ruby com a palavra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" data-id=\"1684\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1684\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman.jpg 1365w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rub\u00e3o em <em>Hot hot hot<\/em>. Foto: M\u00f4nica Lachman.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" data-id=\"1690\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/@noti.vaga_-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1690\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/@noti.vaga_-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/@noti.vaga_-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/@noti.vaga_-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/@noti.vaga_-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/@noti.vaga_-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/@noti.vaga_-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ruby em <em>Raynha Clit\u00f3ria<\/em>. Foto: @not\u00ed.vaga.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.C.<\/strong> &#8211; <strong>Primeiro eu queria saber como tudo come\u00e7ou com o transformismo. E como \u00e9 dar conta de um corpo que acessa tantos estados e tantas personas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">R.R- Transformista eu j\u00e1 via muito na TV, ent\u00e3o j\u00e1 gostava muito desde crian\u00e7a. E toda crian\u00e7a acho que gosta dessa coisa da monta\u00e7\u00e3o, quer dizer nem todas, mas acho que a maioria. Mas pra mim a monta\u00e7\u00e3o veio de um lugar completamente diferente, porque eu comecei com o Drag King, n\u00e3o tinha refer\u00eancia disso. E foi como um chamado espiritual, n\u00e3o foi algo que eu pensei nossa eu vi isso em tal lugar, agora eu quero fazer isso, n\u00e3o foi assim. Foi num lugar de muitas sincronicidades, por isso que eu digo que foi espiritual. Um per\u00edodo de muitas transi\u00e7\u00f5es da minha vida e de uma queda profunda, de muita decep\u00e7\u00e3o, muita dor. E eu estava na passagem dos 29 para os 30, que vem retorno de Saturno, que a gente fica bem doido, n\u00e3o sabe o que est\u00e1 acontecendo muito. Muita coisa n\u00e3o se encaixando, uma crise muito grande, eu estava vivendo essa crise. E a\u00ed as sincronicidades foram acontecendo, primeiro eu estava em um bar com um amigo, um guardanapo caiu no ch\u00e3o e eu me levantei para peg\u00e1-lo. E eu s\u00f3 me levantei para pegar, meu amigo come\u00e7ou a rir do jeito que eu peguei, e eu estava como uma Dita Von Teese, uma Cl\u00e1udia Raia, acontecendo num estado perform\u00e1tico meio burlesco. E j\u00e1 era uma maneira de me portar que me foi colocada desde a inf\u00e2ncia. Meu amigo perguntou: \u201cMas porque voc\u00ea est\u00e1 pegando o guardanapo assim?\u201d Eu respondi: \u201cAssim como?\u201d. Ele levantou e imitou exatamente o que eu fiz, na hora que eu vi a gestualidade dele, eu levei um susto porque eu me vi na gestualidade dele. E quando eu fui dizer \u201cIsso \u00e9 Natural do meu Corpo\u201d , eu n\u00e3o consegui nem terminar a frase. Parece que se abriu uma fenda temporal naquele bar, e parece que eu fiz uma retrospectiva de tudo o que o meu corpo tinha vivido at\u00e9 aquele momento. At\u00e9 eu pegar aquele guardanapo, coisas tipo as princesas da Disney, 16 anos de ballet cl\u00e1ssico, toda a constru\u00e7\u00e3o de um caminho de ser menina.&nbsp; Foi a primeira vez que eu tive um estranhamento com essa normatividade compuls\u00f3ria, de pensar que isso n\u00e3o \u00e9 natural, isso est\u00e1 sendo constru\u00eddo a muito tempo.&nbsp; Fiquei me vendo como um avatar, e eu n\u00e3o tinha ouvido falar em teoria queer ainda, nada dessas coisas, isso era 2014. E os movimentos feministas, e teoria queer estavam come\u00e7ando a ser mais falados no Brasil ainda. J\u00e1 existiam os termos, mas essas discuss\u00f5es ainda n\u00e3o estavam acaloradas no Brasil. Fui embora de um jeito muito estranho, me sentindo um boneco, sentindo que eu n\u00e3o tinha feito escolha nenhuma da minha vida. E eu fiquei me olhando nesse estranhamento por muito tempo, estava lendo um livro na \u00e9poca chamado <em>Um, Nenhum e Cem Mil<\/em> do <a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/luigi-pirandello\/\">Luigi Pirandello<\/a>. Sobre uma pessoa que come\u00e7a a entrar numa jornada, o um homem que ele pensa que ele \u00e9, o nenhum que na verdade estamos sempre mudando, e o cem mil em que a gente \u00e9 um para cada um que esbarramos na vida. E a\u00ed come\u00e7o a fazer experimenta\u00e7\u00f5es para perceber quem \u00e9 esse um, esse nenhum e esse cem mil que sou eu. Comecei a fazer experimenta\u00e7\u00f5es com o espelho, com meu pr\u00f3prio corpo, olhando pra mim. E me fazia perguntas: Como \u00e9 o tamanho do meu sorriso? Como \u00e9 o meu seio? Como \u00e9 a minha munheca?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi por uma experimenta\u00e7\u00e3o gestual, de entender como esse meu corpo tinha sido constru\u00eddo. Depois disso fui trabalhar num festival de dan\u00e7a contempor\u00e2nea na Bahia,  eu ficava muito tempo no QG do festival. Vale ressaltar que eu estava em crise com as masculinidades da minha vida, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o aos homens que deviam me proteger. No festival eu ficava muito no QG, e eu reparava muito em umas mulheres que falavam alto, que tinha uma energia sexual muito forte e eu ficava me perguntando quem s\u00e3o essas? Elas faziam uma resid\u00eancia com uma core\u00f3grafa h\u00fangara chamada Eszter Salomon, ela estava remontando uma pe\u00e7a dela pr\u00f3pria que chama <em>Reproduction<\/em>. E a hora que eu vi a pe\u00e7a, me deu um bug e senti um frisson que eu n\u00e3o conseguia ficar na cadeira. N\u00e3o eram elas, eram eles, estavam todes montados como a masculinidade hegem\u00f4nica. Tinha toda uma pesquisa er\u00f3tica, porque a certa altura do espet\u00e1culo eles faziam posi\u00e7\u00f5es do kama sutra em c\u00e2mera lenta. E depois eles retornavam montados como mulheres, e os g\u00eaneros se pulverizavam, n\u00e3o eram mais aquelas mulheres, n\u00e3o eram mais aqueles homens, eram v\u00e1rios outros. E a\u00ed eu fui embora de l\u00e1 muito louca, querendo experimentar isso, como \u00e9 que faz?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem sabia ainda dessa palavra Drag King, e eu refletindo como seria isso apareceram os diretores D\u00e9bora Zanatta e Estevan de La Fuente, me convidaram para fazer um filme chamado <em>Lovedoll<\/em>, li o roteiro e encontrei ali a possibilidade de uma primeira experimenta\u00e7\u00e3o que ia de encontro com a minha busca. Uma mulher que se despe dos c\u00f3digos femininos ap\u00f3s receber uma boneca infl\u00e1vel pelo correio. Foi uma busca pelos c\u00f3digos do gestual, ainda sem os c\u00f3digos da monta\u00e7\u00e3o. Logo veio o carnaval, que \u00e9 o celeiro das nossas Drags, e eu ganhei uma lace de bigode natural de um amigo. Quando eu vesti o bigode, um mundo se abriu, me senti atra\u00edda por mim mesma. Quase como aquele personagem o M\u00e1scara, o que elementos de monta\u00e7\u00e3o v\u00e3o provocando em diversas partes do corpo, \u00e9 como se voc\u00ea conseguisse acessar outro estado a partir de elementos. Meu corpo foi sentindo outras coisas, que eu n\u00e3o sabia que eu poderia sentir. Quando eu sa\u00ed na rua aconteceu o \u00eaxtase er\u00f3tico, pol\u00edtico, de tudo, eu estava me sentindo com um poder, que eu era quase um super her\u00f3i. E eu pensei: isso \u00e9 muito forte, eu quero mais, e a\u00ed comecei a me montar, n\u00e3o porque eu queria levar para a cena, mas porque eu queria sentir de novo o mesmo \u00eaxtase.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me montava para aparecer nos lugares, convidavam a Rubia para um churrasco, eu aparecia de Rub\u00e3o, me montava para andar de bike, para ir num boteco sozinha. Fiquei uns 3 anos, me montando e invadindo outros espa\u00e7os. Uma experi\u00eancia quase que invis\u00edvel, n\u00e3o impondo que eu fosse um novo Drag King, e nem pensava sobre ir para a cena. Hoje em dia teria muito medo de fazer umas coisas que eu fazia, por isso eu digo que foi uma esp\u00e9cie de chamado espiritual, como ir no boteco sozinha, falar com os homens, entender mais do mundo masculino. Eu estava precisando subverter a raiva que eu estava sentindo das masculinidades, subvertendo na cria\u00e7\u00e3o de outro corpo, subvertendo em riso o que me do\u00eda. No meio disso encontrei o burlesco e comecei a fazer performances como Ruby, mas logo Rub\u00e3o veio reivindicar seu lugar em mim e comecei as fazer as performances de burlesco misturando com drag king, assim Rub\u00e3o come\u00e7ou a ter vida pr\u00f3pria de uma forma que eu quase n\u00e3o controlei. Meu trabalho ficou conhecido, as pessoas come\u00e7aram a me chamar para dar aulas.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Adeloya-OjuBara.jpg\" alt=\"An\u00e1ltica do Brasil Recruta\" class=\"wp-image-1685\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Adeloya-OjuBara.jpg 960w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Adeloya-OjuBara-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Adeloya-OjuBara-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>An\u00e1ltica do Brasil Recruta<\/em>. Foto: Adeloy\u00e1 Oj\u00faBar\u00e1.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>A.C.- Como surgiu o projeto de formar novos Drag Kings? E qual o sentimento de introduzir tantas pessoas nesse universo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">R.R.- Desde a minha primeira performance, que at\u00e9 hoje \u00e9 a minha melhor performance de Rub\u00e3o que chama <em>An\u00e1ltica do Brasil Recruta<\/em>. Apresentei pela primeira vez no Ru\u00eddo em Cena, um festival de performance que a Juana organizou, assim que eu sai de cena tinham muitas mulheres impactadas de como que eu estava fazendo aquilo, e perguntando se eu n\u00e3o dava oficinas. E eu pensei olha, nunca dei oficina mas eu t\u00f4 3 anos investigando essa cria\u00e7\u00e3o, eu comecei a pensar que podia partilhar o que eu estava vivendo. Passou umas 3 semanas, eu dei a primeira oficina. Queria que as pessoas experimentassem o frisson e a subvers\u00e3o dos desconfortos, como o que eu estava vivendo. Ent\u00e3o comecei a oficina em processos de mergulhos em nossas dores e nossas del\u00edcias, em c\u00f3digos corporais estabelecidos, para ir trazendo coisas \u00e0 tona. N\u00e3o \u00e9 uma coisa s\u00f3 de fora pra dentro, a\u00ed outra coisa acontece quando se monta. ( ou seja o processo interno traz bastante material e quando se monta outras coisas acontecem, a experi\u00eancia \u00e9 mais tridimensional, do que pensar de fora para dentro) Ent\u00e3o tem um momento de escava\u00e7\u00e3o, de buscar refer\u00eancias, escava\u00e7\u00e3o de repulsas e atra\u00e7\u00f5es. Tem um momento que cada pessoa traz um pouco da sua viv\u00eancia, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma verdade absoluta a minha oficina, deixo isso bem claro para as pessoas. Eu parto da minha viv\u00eancia, mas provoco as pessoas de coisas que elas podem ir atr\u00e1s e pesquisar. Tem um lugar de pesquisa corporal, tem um lugar que eu trago tamb\u00e9m um pouco do er\u00f3tico, eu tenho forma\u00e7\u00e3o em terapia org\u00e1stica, \u00e9 algo que atravessa a minha viv\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o King, como se trabalha o er\u00f3tico dentro dessa pesquisa. E a\u00ed uma coisa que pra mim n\u00e3o fazia sentido era fazer uma oficina, e acabar ali dentro da sala, porque para mim estava no lugar de ir pra vida, entender como esse seu avatar se relaciona com as pessoas, sem ensaio, respondendo a uma l\u00f3gica em tempo real. Eu queria que as pessoas tamb\u00e9m sentissem isso, ent\u00e3o na \u00e9poca eu criei junto com outro King o David Grelow a festa Kings of The Night. Uma festa para introduzir as pessoas na cena, e ter essa experi\u00eancia na sociedade fora da sala de ensaio. Tinham pessoas que nem eram artistas, tinham pessoas que \u00e0s vezes tinham o desejo mas n\u00e3o queriam investigar sozinhas, ent\u00e3o eu criava uma performance coletiva dentro da festa para as pessoas se sentirem seguras de performar pela primeira vez, e performar ao meu lado. O paiz\u00e3o Rub\u00e3o, ali junto para a pessoa decidir depois se gostaria de continuar com a pesquisa. Dessa hist\u00f3ria surgiu um coletivo chamado <em>Kings of The Night<\/em>, criei um grupo para quem quisesse continuar na investiga\u00e7\u00e3o e trocando refer\u00eancias, tamb\u00e9m havia pouca informa\u00e7\u00e3o sobre Drag Kings na \u00e9poca. Muitas pessoas estavam me questionando desde 2014 porque que eu estava me montando de homem, num momento t\u00e3o feminista, que era um desservi\u00e7o pro feminismo e eu n\u00e3o tinha explica\u00e7\u00f5es exatamente porque era um chamado do meu corpo, e a\u00ed fui tentando pesquisar teorias pra ter como responder. Acabei encontrando coisas em ingl\u00eas, fui traduzindo e tentando construir um pensamento para explicar mais profundamente porque aquilo estava me orbitando tanto. Dar oficina, foi uma realiza\u00e7\u00e3o minha, quando eu era crian\u00e7a e adolescente eu dizia que eu tinha um neg\u00f3cio no peito que eu queria distribuir, n\u00e3o sei o que era. Eu entrei em muitas cagadas na vida tentando distribuir isso pro mundo, eu sinto que com Rub\u00e3o isso aconteceu. De repente eu tava compartilhando algo grande que eu sentia no peito, e ver as pessoas tamb\u00e9m sentindo esse frisson esse \u00eaxtase. Gente dizendo que a vida tinha feito sentido, gente dizendo que gostaria de transacionar de g\u00eanero porque estava se sentindo melhor nessa outra pele. Como se fosse um processo de entrar em sintonia com o pr\u00f3prio corpo, pessoas descobrindo fazer piada com coisas que s\u00e3o muito duras, descoberta de outras masculinidades e que abra\u00e7ar sua masculinidade tamb\u00e9m fortalece sua feminilidade. Foi me surpreendendo os lugares que tocavam as pessoas, por isso essa arte para mim \u00e9 muito especial, porque cada pessoa que faz, cria um sentido pr\u00f3prio, \u00fanico e particular. Sabe, eu acho que \u00e9 sair desse lugar eu quero ser como tal pessoa, voc\u00ea se colocar nesse lugar do que tem de \u00fanico dentro de si \u00e9 um caminho muito potente para autoconhecimento, para muita coisa. De 2017 at\u00e9 agora, dou bastante oficinas, n\u00e3o sei quantos filhos eu tenho exatamente, mas talvez umas 300 pessoas passaram por essas oficinas, presencialmente eu j\u00e1 tinha ido para diversas cidades, mas na pandemia acabei dando aulas online para pessoas de diversos lugares do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.C.- Voc\u00ea acredita que existe um feminino e um masculino que nos \u00e9 negado de acessar independente de identidade de g\u00eanero? Como essa subvers\u00e3o dos g\u00eaneros, o masculino no King e a feminilidade do burlesco te atravessam e o que isso trouxe pra sua vida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">R.R. &#8211; Eu tenho lugares bem amb\u00edguos com tudo isso, eu n\u00e3o acho que existe exatamente UM homem, UMA masculinidade, UMA feminilidade. Mas eu acho que todas essas leituras bin\u00e1rias est\u00e3o intr\u00ednsecas em nossa estrutura, por leituras muito err\u00f4neas e at\u00e9 hist\u00f3ricas. Mas eu acho que existem essas puls\u00f5es que a nossa vida toda ela v\u00e3o se dando em opostos e que tem um monte de coisa no meio. Tem dois p\u00f3los, e um monte de coisa que acontece nesse interm\u00e9dio, e acredito que isso valha para tudo, como a dicotomia entre dor e prazer. N\u00e3o existem lugares puros, mas a constru\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria est\u00e1 t\u00e3o arraigada, que a gente faz as leituras dos c\u00f3digos quase que automaticamente. E as estruturas hegem\u00f4nicas nos negam a experimentar outras coisas, nos negam de experimentar a fronteira, e eu acho que \u00e9 na fronteira que a gente vai descobrindo coisas, o que faz sentido para n\u00f3s mesmos. Eu tenho um amigo trans, que ele diz: \u201cEu acho que existem tantos g\u00eaneros, quanto existem pessoas no mundo\u201d. Quando a gente faz esse mergulho de como a gente se v\u00ea, do que a gente quer expressar, \u00e9 muito \u00fanico. \u00c0s vezes falar da n\u00e3o-binariedade, n\u00e3o vai expressar tudo que tal pessoa sente no conceito em si. Eu acho que no lugar de tr\u00e2nsito a gente descobre o que faz sentido, foi nesse lugar que minha feminilidade foi se transformando. Foi dentro de entender as masculinidades, que outras feminilidades foram brotando em mim. E a\u00ed eu vejo que quando me monto tanto de Ruby, quanto de Rub\u00e3o, outros homens e outras mulheres que est\u00e3o dentro de mim surgem. A Ruby \u00e9 formada de express\u00f5es que est\u00e3o aqui dentro, Rub\u00e3o s\u00e3o outras express\u00f5es de outra parte de mim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" data-id=\"1688\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-1-1024x683.jpg\" alt=\"Cavalo Rub\u00e3o Ruby Grafia Drag\" class=\"wp-image-1688\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Monica-Lachman-1.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">N\u00famero Cavalo. Foto: Monica Lachman. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" data-id=\"1687\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Lola-Lombardi-768x1024.jpg\" alt=\"Cosmos Rub\u00e3o Ruby Grafia Drag\" class=\"wp-image-1687\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Lola-Lombardi-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Lola-Lombardi-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Lola-Lombardi.jpg 810w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">N\u00famero Cosmos. Foto: Lola Lombardi.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.C-Voc\u00ea tem diversos n\u00fameros emblem\u00e1ticos mas no burlesco destaco Cavalo e Cosmos. Queria que voc\u00ea comentasse um pouco sobre a cria\u00e7\u00e3o desses n\u00fameros porque eles transcendem o esperado de um n\u00famero burlesco, um \u00e9 sobre acessar o estado animal, o outro nos leva a viajar pelo universo ambos mist\u00e9rios quase que extraf\u00edsicos.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>R.R.-<\/strong> Eu acho que realmente s\u00e3o n\u00fameros emblem\u00e1ticos, s\u00e3o os carros chefes. O <em>Cavalo<\/em> foi meu primeiro n\u00famero no Burlesco, ambos os n\u00fameros eu acho que vieram da ignor\u00e2ncia que eu tinha do que era a coisa. Ent\u00e3o se eu puder dar um conselho para os jovens a refer\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 muito interna, porque se ela fica s\u00f3 externa voc\u00ea acaba s\u00f3 reproduzindo uma f\u00f3rmula pronta. Meus melhores n\u00fameros vieram da ignor\u00e2ncia que eu tinha do que era a coisa. Eu tinha feito um workshop pequeno com a Miss G (Artista grande refer\u00eancia do burlesco nacional) de Burlesco, ent\u00e3o n\u00e3o tinha muito conhecimento, mas eu sempre transitei por diversas artes, me considero meio prom\u00edscua das artes. Quando eu vi o Burlesco pela primeira vez, tinha uma coisa muito interessante de acessar muitas artes, mas ao mesmo tempo ter um lugar muito pr\u00f3prio, \u00e9 dan\u00e7a mas n\u00e3o \u00e9 dan\u00e7a, \u00e9 teatro mas n\u00e3o \u00e9 teatro, \u00e9 c\u00f4mico, mas n\u00e3o \u00e9 c\u00f4mico. Com a Miss G, fui descobrir que existiam muitos estilos de Burlesco. O Cavalo eu sinto que foi um n\u00famero que eu recebi ele, eu fazia muitos animais no ballet cl\u00e1ssico quando crian\u00e7a. Eu decidi que queria trabalhar com um falo que n\u00e3o fosse humano, eu queria trazer o fetiche, mas o fetiche n\u00e3o estereotipado. Eu sou o cavalo, e a\u00ed vai trazendo a narrativa que vai se transformando na cena, depois eu sou uma amazonas, depois eu sou a amazonas desse cavalo e uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o \u00edntima e delicada com esse Cavalo. Tem algo muito er\u00f3tico, mas depois de toda essa trajet\u00f3ria eu escolho algu\u00e9m do p\u00fablico para se transformar em meu cavalo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">( Vale ressaltar que essa performance \u00e9 embalada pela m\u00fasica <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=16-5HulXRaQ\">Cavalo<\/a> <\/em>da banda Noporn, cantada por Liana Padilha que j\u00e1 nos primeiros versos entoa \u2013 <em>Meu amor \u00e9 seu, meu amor \u00e9 seu cavalo<\/em>. A performance foi apresentada em diversos tipos de espa\u00e7o, e em diversos lugares do Brasil, chegando a ser comparada a uma possibilidade de atravessamentos a <a href=\"https:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-549X2018000300013\">Teoria King Kong.<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa foi vindo depois, mas partiu de um lugar muito chulo, o desejo de trabalhar com um dildo e descaracteriz\u00e1-lo da forma humana, mas sempre parte de um lugar e depois vou complexificando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falo para os jovens, \u00e0s vezes pode vir de um lugar muito esdr\u00faxulo, e depois voc\u00ea pode aprofundar. Porque como eu venho da dan\u00e7a contempor\u00e2nea, sempre vem de um lugar muito cabe\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes eu sinto que as pessoas n\u00e3o conseguem nem aprofundar. Estou generalizando, mas \u00e0s vezes voc\u00ea querer elucubrar demais, como demonstrar que leu Foucault, mas a sua obra n\u00e3o est\u00e1 comunicando, n\u00e3o est\u00e1 falando nada com nada, ningu\u00e9m est\u00e1 entendendo, ningu\u00e9m saiu com nada. Porque voc\u00ea est\u00e1 querendo prestar uma conta ao Focault que voc\u00ea leu, e n\u00e3o uma coisa que realmente tem sentido para voc\u00ea, que tenha a ver com suas sombras e brilhos e que gere conex\u00e3o com o p\u00fablico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Cosmos \u00e9 um n\u00famero muito querido para mim, ele vem de outra hist\u00f3ria profundona da minha vida. Porque eu tenho tr\u00eas hist\u00f3rias profundonas na minha vida que s\u00e3o o Drag King, o Burlesco e a pesquisa er\u00f3tica. As tr\u00eas coisas aconteceram meio que ao mesmo tempo, tive at\u00e9 de tirar um ano sab\u00e1tico depois. Como eu estava vivendo um lugar soturno da alma com separa\u00e7\u00e3o, decep\u00e7\u00e3o das masculinidades, eu tive uma experi\u00eancia na Calif\u00f3rnia que eu tive um orgasmo c\u00f3smico que me pegou de surpresa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aconteceu com um cara que ia ser monge, uma hist\u00f3ria hollywoodiana que se eu for contar inteira, \u00e9 uma coisa louca. Foi um lance pelos chacras, meu corpo se debatia, sem toque, sem nada. Depois que passou essa experi\u00eancia, eu voltei para casa, parecia que eu estava drogada de tanto \u00eaxtase. Contei pra minha m\u00e3e o que tinha acontecido, ela disse que era Tantra, ela me revelou que ela estudava o Tantra mas nunca tinha me contado sobre porque sofria muito preconceito numa cidade pequena. Me mostrou uma biblioteca secreta com todos os livros dela de Tantra, comecei a estudar e fui ao caminho das terapias org\u00e1sticas. Depois dessa experi\u00eancia minha criatividade se abriu de um jeito, e foi quebrando amarras, muita coisa caiu por terra, o amor rom\u00e2ntico caiu, o amor pr\u00f3prio surgiu, ainda n\u00e3o tinha tido amor pr\u00f3prio dessa forma. Entrei em medita\u00e7\u00f5es, que meu corpo criava uma er\u00f3tica e uma energia que era para mim mesmo. O n\u00famero Cosmos \u00e9 a narrativa dessa minha hist\u00f3ria, eu come\u00e7o como se fosse uma vi\u00fava, era como eu me sentia antes, tudo morto me sinto como Hades e Pers\u00e9fone que vai l\u00e1 e planta nesse terreno morto o que vai nascer dali \u00e9 muito mais forte. E quando essas sementes nasceram, elas nasceram muito potentes de tudo que morreu de mim. Vou me despindo, troco para um figurino vermelho e vou ficando mais safadinha como se fosse um despertar dessa sexualidade, que rompe com o que eu tinha aprendido de sexualidade at\u00e9 ent\u00e3o, e isso me levou ao cosmos. E depois dessa experi\u00eancia, eu tenho orgasmos c\u00f3smicos, eu vejo luz, eu vejo brilho, muitas cria\u00e7\u00f5es minhas vem de medita\u00e7\u00f5es, desses transes de sexos diferenciados. Depois de um tempo contei tudo a um amigo e ele disse: \u201cRubia eu ouvi uma m\u00fasica, e ele \u00e9 a hist\u00f3ria que voc\u00ea me contou.\u201d E ele me apresentou <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=82eUlHxJVzA\">Cosmos <\/a><\/em>da Blue Bel, meu corpo at\u00e9 levantava da forma como ela canta o \u00e1pice, e praticamente veio instant\u00e2nea a cria\u00e7\u00e3o e terminar com uma imagem que pudesse ser um planet\u00e1rio a olho n\u00fa sem filtros que sa\u00edsse da minha cabe\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-15-at-2.41.32-PM-768x1024.jpeg\" alt=\"Espet\u00e1culo Super Farm de Seaborg\" class=\"wp-image-1689\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-15-at-2.41.32-PM-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-15-at-2.41.32-PM-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-15-at-2.41.32-PM.jpeg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Espet\u00e1culo <em>Super Farm<\/em> de Seaborg. Fonte: Arquivo pessoal do entrevistador.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.C- &nbsp;Falo do extraf\u00edsico refletindo como o excesso de materiais sobre o corpo nos leva a um lugar de profunda reflex\u00e3o dos pap\u00e9is de g\u00eanero desenhados pelo status quo e acho que voc\u00ea nos provoca em todas as inst\u00e2ncias o que \u00e9 transcender o ser estar de g\u00eanero com performance e pra mim \u00e9 quase como transcender a mat\u00e9ria. E como comentei voc\u00ea j\u00e1 vinha nessa pesquisa do mundo animal. Mas recentemente fez o espet\u00e1culo <em>Super Farm* <\/em>da artista japonesa Seaborg, onde somos provocados o limite do humano, animal e artificialidade. Queria que voc\u00ea contasse um pouco dessa experi\u00eancia e como essa experi\u00eancia atravessa a sua trajet\u00f3ria Drag\/ Burlesca.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*(<em>Super Farm<\/em> \u00e9 um espet\u00e1culo interativo apresentado no Sesc Consola\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, onde a artista Seaborg constr\u00f3i um grande cen\u00e1rio de fazenda todo em l\u00e1tex, e os animais que povoam essa fazenda s\u00e3o performers vestidos de animais em l\u00e1tex, foi aberta uma seletiva no Brasil de atores, atrizes e performers, Rubia foi uma das selecionadas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>R.R.-<\/strong> Trabalhar com a Seaborg foi muito incr\u00edvel, eu acho que vou atr\u00e1s de muitas experi\u00eancias diversas na arte, para poder sentir coisas diferentes. S\u00f3 uma exist\u00eancia como Rubia, seria muito pobre. Ent\u00e3o como eu posso ir ali catar uma experi\u00eancia diferente em rela\u00e7\u00e3o a mim, e que isso possa me trazer de reflex\u00e3o. Muitas pessoas me enviaram o trabalho dela e depois tamb\u00e9m quando abriu a convocat\u00f3ria. Tinha uma \u00e9poca que eu fazia muitas coisas com boneca infl\u00e1vel, n\u00famero do Rub\u00e3o, eu me montava de boneca infl\u00e1vel tamb\u00e9m. Esse lugar do artificial, em que a mulher \u00e9 sempre colocada como objeto, querer explodir esse lugar artificial sempre me interessou como uma revanche de como somos tratadas enquanto mulher. Ia de encontro com muitas coisas que eu j\u00e1 havia feito, coisas de <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/157294\">p\u00f3s-porn\u00f4 <\/a>para ver at\u00e9 onde eu vou com a dor, ou at\u00e9 onde eu vou com uma asfixia ou algo assim, e \u00e9 na arte porque na vida cotidiana eu nem gosto dos extremos. Tem esse lugar de entender os limites do corpo, um lugar artificial, tamb\u00e9m animal. Ali dentro fui entendendo outras coisas, a Seaborg tamb\u00e9m veio do lugar do fetiche, do BDSM, ela quem fazia as roupas de l\u00e1tex. Dentro do BDSM, tem esse lugar de falar sobre o cuidado, e a gente n\u00e3o fala muito sobre. O trabalho dela como se chega muito limites do corpo, tem de se falar de cuidado o tempo todo. Ela fala sobre o cuidado, em todos os lugares do trabalho dela, se voc\u00ea assistir \u00e9 sobre cuidado. A gente ali vestidos com grandes roupas de l\u00e1tex, no meu caso vestida de leit\u00e3o, vendo como as pessoas v\u00e3o se relacionar com leit\u00f5ezinhos que acabaram de nascer, est\u00e3o super vulner\u00e1veis, de quatro para as pessoas, poderiam pensar em chutar. Como as crian\u00e7as se relacionam? Elas v\u00e3o bater? Elas v\u00e3o amamentar? Os adultos v\u00e3o debochar? Toda a obra dela vai revelando camadas sobre cuidado, e a\u00ed aprendi que esse cuidado reverbera nos bastidores, tudo tem conversa e somos ouvidos. \u00c9 muito dif\u00edcil ficar dentro daquela roupa, mas tudo \u00e9 feito com cuidado para ficar num limite poss\u00edvel dentro do desconforto. N\u00e3o imaginei que eu ia extrapolar os limites de me emocionar nessa experi\u00eancia, o primeiro dia que eu vi de dentro do porco uma senhora dan\u00e7ando comigo, e eu emocionada de ver a alegria dessa pessoa. Como performer e eu achei incr\u00edvel, a conex\u00e3o que parte da vulnerabilidade tanto dos performers quanto do p\u00fablico. O p\u00fablico est\u00e1 vulner\u00e1vel, porque tamb\u00e9m \u00e9 obrigado a interagir, \u00e9 uma conex\u00e3o para ambos. Como vou me expressar num corpo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 meu corpo, sem falas, dentro de um grande porco de l\u00e1tex. Encontrar sutilezas dentro de um grande avatar, a dramaturgia tamb\u00e9m tem muitas camadas, as roupas e o cen\u00e1rio s\u00e3o fant\u00e1sticos, voc\u00ea pode se divertir s\u00f3 com isso, mas se pega as camadas reflete em muitos outros lugares. A forma como os japoneses trabalham achei um primor, uma gentileza para os feedbacks e para escuta. E Seaborg me selecionou por conta do Rub\u00e3o, porque como ela vem do cabar\u00e9 de outras coisas, surgiu uma conex\u00e3o. O espet\u00e1culo termina numa grande celebra\u00e7\u00e3o, meio baladinha, ent\u00e3o se conecta com a minha trajet\u00f3ria e lugares que eu j\u00e1 passei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.C.-O que voc\u00ea diria para quem est\u00e1 come\u00e7ando nas artes do monta\u00e7\u00e3o e burlesco?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>R.R.-<\/strong> Primeiro calma, eu acho que esse momento de redes sociais parece que tudo tem que estar lindo e perfeito para ontem. Curte o neg\u00f3cio, curte o lugar de n\u00e3o saber, as coisas v\u00e3o sendo reveladas. Viva seu processo sem estar preso ao olhar externo, isso mina coisas. Se ainda n\u00e3o acha que \u00e9 momento de colocar nas redes, n\u00e3o coloque. N\u00e3o busque valida\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea est\u00e1 disposto a mostrar seu processo sem estar ref\u00e9m disso, publique o seu in\u00edcio, mas veja como reverbera em voc\u00ea, como voc\u00ea se sente em rela\u00e7\u00e3o a isso. Um ano de Drag \u00e9 igual a de um cachorro, um ano \u00e9 igual a sete anos, o trabalho vai mudando muito. Ent\u00e3o vai curtindo as fases, n\u00e3o atropele os momentos. Segundo \u00e9, viva profundamente as coisas, veja o que faz sentido para voc\u00ea. E terceiro \u00e9 estude, estude mesmo, para tamb\u00e9m n\u00e3o achar que voc\u00ea est\u00e1 inventando a roda, tudo j\u00e1 foi feito, adoro encontrar refer\u00eancias similares do que estou querendo fazer. Como para cavalo fui encontrar refer\u00eancias de 1920, mas n\u00e3o para ser capturada pelas coisas que eu vi. Para estar a\u00ed nas coisas que estou criando, e que orbitam no inconsciente coletivo. Estudando a gente tamb\u00e9m honra quem veio antes, e estudar tamb\u00e9m para n\u00e3o falar merda e entender o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo. E digo, n\u00e3o seja capturado no sentido de querer ser igual a tal pessoa. Para mim a cria\u00e7\u00e3o tem que partir de voc\u00ea e ela surge dessa dicotomia de dor e brilho, dor e brilho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"756\" height=\"505\" data-id=\"1692\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Andre-Donadio-1.jpg\" alt=\"Rub\u00e3o Ruby Grafia Drag\" class=\"wp-image-1692\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Andre-Donadio-1.jpg 756w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Andre-Donadio-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rub\u00e3o. no calend\u00e1rio er\u00f3tico Kings Of The Night -Oficina Mec\u00e2nica 2019. Foto:Andre Donadio.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"1600\" data-id=\"1693\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Carol-Winter.jpeg\" alt=\"Rub\u00e3o Ruby Grafia Drag\" class=\"wp-image-1693\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Carol-Winter.jpeg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Carol-Winter-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Carol-Winter-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Carol-Winter-1152x1536.jpeg 1152w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ruby. Foto: Carol Winter.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;A.C.- Qual o futuro das artes da noite pra voc\u00ea? E o que podemos esperar dos seus pr\u00f3ximos trabalhos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>R.R.-<\/strong> Eu acho que as artes das noites s\u00e3o muito potentes e muito maravilhosas, mas n\u00e3o s\u00e3o valorizadas. N\u00e3o vai haver futuro se a gente n\u00e3o fizer uma revolu\u00e7\u00e3o (risos). Ainda tem muito lugar que s\u00f3 quer que a gente d\u00ea close por drink, ou que paga t\u00e3o pouco que n\u00e3o cobre nem o transporte. N\u00e3o vai ter artista foda, se a gente n\u00e3o for pago, ent\u00e3o as pessoas v\u00e3o estar doentes, tenho visto muita gente com a sa\u00fade mental muito debilitada. Porque fazemos muito e no fim do m\u00eas estamos fudidos, sou a favor de uma greve das artes da noite. Daqui a pouco vai ter s\u00f3 iniciantes, e a gente n\u00e3o vai ter uma hist\u00f3ria duradoura, o que \u00e9 muito triste de ver. A gente v\u00ea pessoas do passado se encontrando numa velhice muito prec\u00e1ria, nossos \u00eddolos das artes da noite nessa situa\u00e7\u00e3o. Eu estou querendo me distanciar das artes da noite, mas s\u00f3 porque quero sair da l\u00f3gica desse mercado que n\u00e3o paga. Mas amo as artes da noite, porque sou desse lugar, e de l\u00e1 que eu quero fazer essa volta pro teatro. N\u00e3o que o teatro pague bem, mas a gente acessa outros lugares. Mas eu acredito muito no cabar\u00e9, nessas artes que n\u00e3o vem do lugar convencional, porque elas est\u00e3o conectadas com lugar de pol\u00edtica e dor que precisam ser&nbsp; faladas. N\u00e3o precisa esperar o edital, vai l\u00e1 e faz e precisa se colocar nesses lugares, e n\u00e3o \u00e9 de hoje, \u00e9 de sempre. Foi desses lugares que sa\u00edram as vanguardas ent\u00e3o eles v\u00e3o continuar existindo, mas eu gostaria que elas existissem com mais dignidade. Para os performers serem duradouros e terem dignidade para existir. Sobre meus pr\u00f3ximos trabalhos, estou em processo de dois solos teatrais, a performance do <em>Cavalo <\/em>vai virar um solo de uma hora que ter\u00e1 outro nome. E um solo do Rub\u00e3o de comemora\u00e7\u00e3o de 11 anos de exist\u00eancia. Ser\u00e1 uma celebra\u00e7\u00e3o da minha pr\u00f3pria exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m de 11 anos pesquisando essas duas personas Rub\u00e3o e Ruby, vou estrear os dois juntos. Personas que revolucionaram a minha arte e minha vida, antes disso eu era artista dos outros. Acho que vai ser bem legal, convido voc\u00eas para verem, ser\u00e1 no primeiro semestre de 2026. Por enquanto \u00e9 isso que estou por realizar, mas nunca se sabe o que as perip\u00e9cias da vida nos reservam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ayla Cinema entrevista Rubia Romani sobre a cria\u00e7\u00e3o de Rub\u00e3o e Ruby, atravessando Drag King, burlesco, performance de g\u00eanero, erotismo e arte queer contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1087,191,34,691,712,43,33,1,30],"tags":[233,1100,1096,10,900,1088,1101,1098,588,1053,727,193,1097,7,44,698,1099,558,22,50,986,1095,1091,1102,1089,1093,1092,1094,1050,5,71],"class_list":["post-1677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-burlesco","category-curitiba","category-drag","category-drag-kings","category-drag-queens","category-entrevistas","category-processos-de-criacao","category-sem-categoria","category-transformismo","tag-arte-drag","tag-arte-experimental","tag-arte-lgbtqia","tag-artistas","tag-ayla-cinema","tag-burlesco","tag-burlesco-queer-brasileiro","tag-cabare","tag-cena-drag-brasileira","tag-corpo-e-performance","tag-cultura-queer","tag-curitiba","tag-curitiba-arte","tag-drag","tag-drag-king","tag-drag-king-brasil","tag-erotismo-e-performance","tag-estudos-de-genero","tag-grafia-drag","tag-montacao","tag-performance-de-genero-2","tag-performatividade","tag-rubao","tag-rubao-ruby-rubia-romani","tag-rubia","tag-rubia-romani","tag-ruby","tag-teatro-contemporaneo","tag-teoria-queer","tag-transformismo","tag-transformistas"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - 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