{"id":1764,"date":"2026-04-23T15:45:11","date_gmt":"2026-04-23T18:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=1764"},"modified":"2026-04-23T15:46:02","modified_gmt":"2026-04-23T18:46:02","slug":"to-de-drag-coletivo-drag-jundiai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/to-de-drag-coletivo-drag-jundiai\/","title":{"rendered":"T\u00f4 de Drag: o coletivo \u00e9 revolucion\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/anubisblackwood\/\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.instagram.com\/anubisblackwood\/\">Anubis Blackwood<\/a><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Este ano fa\u00e7o dez anos enquanto artista drag e, em outros ensaios liter\u00e1rios como <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/ru-pauls-drag-race-e-o-bastante-para-uma-drag-sonhar\/\"><em>RuPaul\u2019s Drag Race \u00e9 o bastante para uma drag sonhar?<\/em><\/a> (2024), onde\u00a0 enfatizei minha jornada inicial solo.  Ao longo da minha trajet\u00f3ria participei da cria\u00e7\u00e3o do coletivo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/coletivotodedrag\/\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.instagram.com\/coletivotodedrag\/\">T\u00f4 de Drag<\/a>, que hoje ser\u00e1 o foco dessa conversa.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto-1-primeira-formacao-do-coletivo-de-2023-acervo-fotografico-do-coletivo-1024x683.jpeg\" alt=\"T\u00f4 de Drag \" class=\"wp-image-1765\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto-1-primeira-formacao-do-coletivo-de-2023-acervo-fotografico-do-coletivo-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto-1-primeira-formacao-do-coletivo-de-2023-acervo-fotografico-do-coletivo-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto-1-primeira-formacao-do-coletivo-de-2023-acervo-fotografico-do-coletivo-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto-1-primeira-formacao-do-coletivo-de-2023-acervo-fotografico-do-coletivo.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Primeira forma\u00e7\u00e3o do coletivo em 2023. Fonte: acervo fotogr\u00e1fico do coletivo.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquela hist\u00f3ria t\u00e3o recorrente entre as novas gera\u00e7\u00f5es de drag tamb\u00e9m aconteceu para mim: uma drag de banheiro. Para quem experienciou essa jornada sabe que os conhecimentos ao redor da monta\u00e7\u00e3o giram em torno da internet, e muitas vezes quando colocamos em pr\u00e1tica e nos montamos, n\u00e3o h\u00e1 na maioria das vezes sequer perspectiva de sair de casa, ou do banheiro em si. Falta de companhia, repress\u00e3o familiar, vergonha, falta de confian\u00e7a e medo da rea\u00e7\u00e3o p\u00fablica s\u00e3o alguns fatores que moldam esse estudo em reclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que somente uma pequena parte dessa arte envolve teoria. A meu ver, sua maior dimens\u00e3o se constr\u00f3i no campo social e em exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e isso se d\u00e1 por uma heran\u00e7a hist\u00f3rica. Nossa jornada foi escrita em comunidade, onde at\u00e9 nos momentos em que as artistas ficavam dentro de seus espa\u00e7os de cria\u00e7\u00e3o, faziam isso em companhia de sua fam\u00edlia drag. Por isso, passei mais da metade da minha carreira me sentindo incompleta: por mais que tivessem amigues para sair, esses ocupavam um lugar de suporte na minha vida enquanto comunidade LGBTQIAPN+, mas n\u00e3o podiam ocupar o espa\u00e7o de suporte art\u00edstico e pol\u00edtico, e era justamente essa aus\u00eancia que reverberava em mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, ao mudar da capital para o interior de S\u00e3o Paulo,mais especificamente Jundia\u00ed, pude encontrar uma comunidade mais \u00edntima e pouco tempo depois fazer parte da cria\u00e7\u00e3o do primeiro coletivo drag da regi\u00e3o. Meu cora\u00e7\u00e3o foi finalmente tomado por uma sensa\u00e7\u00e3o de completude. Hoje, somos 12 integrantes e n\u00e3o possu\u00edmos nenhum processo seletivo: queremos que todo mundo agregue e se sinta bem, amparade por nossa fam\u00edlia. Dentre muitas entradas e sa\u00eddas, conseguimos assegurar que somos um grande mecanismo de mudan\u00e7a, tanto no \u00e2mbito interno de cada pessoa, uma vez que nossa abordagem serve de apoio para o processo de autoconhecimento,&nbsp; quanto no \u00e2mbito externo, uma vez que nos posicionamos socialmente como grupo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa hist\u00f3ria \u00e9, de certa forma, recente, j\u00e1 que iniciamos nossas proje\u00e7\u00f5es em 2022, mas a trajet\u00f3ria tem sido extremamente rica e cheia de altos e baixos. Esse \u00e9 o ponto desse ensaio: registrar nossa jornada para que possamos mitigar as incans\u00e1veis tentativas de nos apagar enquanto for\u00e7as art\u00edsticas. N\u00e3o sei dizer o quanto nosso coletivo vai durar, mas quero hoje, agora, deixar toda nossa graciosa experi\u00eancia registrada, a fim de evidenciar a import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o coletiva e inspirar futuros coletivos drag.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora frequentemente enfatize o fato de sermos o primeiro coletivo drag da nossa \u00e1rea, jamais posso afirmar que criamos uma cultura drag aqui. Antes de n\u00f3s tivemos Divinna Synik, Karol Della Lastra, Kauara Laffity e tantas outras que viveram momentos de gl\u00f3ria nas d\u00e9cadas anteriores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/espetaculo-Drag-Atraves-do-Tempo-pela-Lei-Paulo-Gustavo-Campo-Limpo-Paulista-Sp-credito-Nala-Vizion-1024x683.jpeg\" alt=\"T\u00f4 de Drag\" class=\"wp-image-1766\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/espetaculo-Drag-Atraves-do-Tempo-pela-Lei-Paulo-Gustavo-Campo-Limpo-Paulista-Sp-credito-Nala-Vizion-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/espetaculo-Drag-Atraves-do-Tempo-pela-Lei-Paulo-Gustavo-Campo-Limpo-Paulista-Sp-credito-Nala-Vizion-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/espetaculo-Drag-Atraves-do-Tempo-pela-Lei-Paulo-Gustavo-Campo-Limpo-Paulista-Sp-credito-Nala-Vizion-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/espetaculo-Drag-Atraves-do-Tempo-pela-Lei-Paulo-Gustavo-Campo-Limpo-Paulista-Sp-credito-Nala-Vizion-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/espetaculo-Drag-Atraves-do-Tempo-pela-Lei-Paulo-Gustavo-Campo-Limpo-Paulista-Sp-credito-Nala-Vizion.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Espet\u00e1culo &#8220;Drag Atrav\u00e9s do Tempo&#8221;, pela Lei Paulo Gustavo, Campo Limpo Paulista, Sp. Foto: Nala Vizion.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira vers\u00e3o do coletivo T\u00f4 de Drag veio em 2022, em uma oficina drag organizada pela pr\u00f3pria Divinna Synik. Essa oficina \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o da nossa comunidade em Jundia\u00ed, ocorrendo h\u00e1 mais de dez anos, em setembro, tendo Karol Della Lastra como idealizadora (nossa av\u00f3, como ela mesma gosta de ser chamada). Essa oficina culminava em um concurso que elegia a Miss Drag da Parada LGBTQIA+ de Jundia\u00ed, e n\u00f3s, na \u00e9poca cinco, n\u00e3o conseguimos tratar de forma t\u00e3o competitiva umas \u00e0s outras. No fim daquele dia, criamos um certo carinho, por mais que nunca tiv\u00e9ssemos nos visto antes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s esse evento, continu\u00e1vamos a conversar no grupo do Whatsapp. Tudo come\u00e7ou com um tom despretensioso como: \u201cvoc\u00eas sabem de algum rol\u00ea drag aqui?\u201d ou \u201conde posso comprar uma lace?\u201d. E n\u00e3o demorou muito para que come\u00e7\u00e1ssemos a perceber que n\u00e3o havia esses rol\u00eas drag, ou que n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro para comprar laces e looks caros, o que nos fez conversar sobre emprestar coisas umas para as outras. Desse modo, transformar aquele grupo do Whatsapp em um coletivo foi nada burocr\u00e1tico: foi simplesmente natural, quase inevit\u00e1vel, diante das dificuldades que atravess\u00e1vamos enquanto indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cap\u00edtulo seguinte foi cheio de descobertas, ternura e amizade. Havia ali uma ideia simpl\u00f3ria: quer\u00edamos ocupar palcos e far\u00edamos isso de forma gratuita ou n\u00e3o. Havia um \u00edmpeto em se montar e performar, nada t\u00e3o longe disso. O que primordialmente quer\u00edamos era criar la\u00e7os emocionais umas com as outras e termos companhia quando sa\u00edmos por a\u00ed, pelas noites de Jundia\u00ed. Era o que precis\u00e1vamos na \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando olho para tr\u00e1s, percebo que o T\u00f4 de Drag desempenhou um papel vital para cada integrante que passou pelo coletivo. N\u00e3o possu\u00edamos perspectiva de que poder\u00edamos perseverar na arte drag. Parecia algo imposs\u00edvel no interior, uma vez que n\u00e3o nos contrat\u00e1vam, cham\u00e1vam ou sequer aparecia uma viva alma para nos dar a possibilidade de ter uma carreira profissional. Drags do coletivo me confessaram que, se n\u00e3o fosse pela for\u00e7a da nossa uni\u00e3o, certamente j\u00e1 teriam desistido dessa \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o. Isso se d\u00e1, pois se manter em regi\u00f5es interioranas \u00e9 um desafio avassalador para qualquer artista, ainda mais para artistas drag, que enfrentam, at\u00e9 mesmo em grandes cidades, enormes dificuldades em n\u00e3o s\u00f3 capitalizar, mas tornar a execu\u00e7\u00e3o do que fazemos vi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, desde seu primeiro dia o coletivo \u00e9 mecanismo direto de autoconhecimento e express\u00e3o. Sempre dialogamos sobre o livre-arb\u00edtrio de cada pessoa e para onde cada uma direcionaria a arte. T\u00ednhamos drag DJ, drag cantora, drag dan\u00e7arina de vogue, drag teatral\u2026cada uma em seu nicho, mas sempre compartilhando viv\u00eancias, dores e del\u00edcias. Para essas cinco (me incluindo nesse n\u00famero), isso foi suficiente at\u00e9 certo ponto. Em 2024 tivemos a sa\u00edda de uma integrante e, no ano seguinte, perdemos mais duas. N\u00e3o porque o coletivo n\u00e3o era bom, mas porque cada uma, dentro de toda a liberdade que sempre demos umas \u00e0s outras, n\u00e3o se viam mais na abordagem que t\u00ednhamos como coletivo ou na arte drag em si. Assim, em 2025 seguimos com um plano que t\u00ednhamos desde nossa funda\u00e7\u00e3o oficial, em 2023: abrir o coletivo para outres integrantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/noves-integrantes-do-coletivo-2025-credito-Alex-Balbino-819x1024.jpeg\" alt=\"T\u00f4 de Drag Brasil\" class=\"wp-image-1767\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/noves-integrantes-do-coletivo-2025-credito-Alex-Balbino-819x1024.jpeg 819w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/noves-integrantes-do-coletivo-2025-credito-Alex-Balbino-240x300.jpeg 240w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/noves-integrantes-do-coletivo-2025-credito-Alex-Balbino-768x960.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/noves-integrantes-do-coletivo-2025-credito-Alex-Balbino.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Noves integrantes do coletivo, 2025. Foto: Alex Balbino.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao abrirmos, fomos agraciadas com uma gama diversa e pudemos amparar as novas drags que apareceram na regi\u00e3o. Se antes t\u00ednhamos uma sensa\u00e7\u00e3o de que todas estavam no mesmo barco, dessa vez o cen\u00e1rio mudou um pouco. O coletivo j\u00e1 tinha uma hist\u00f3ria pr\u00e9via, assim como as drags fundadoras que continuavam nele. J\u00e1 t\u00ednhamos executado eventos de grande porte com aux\u00edlio de editais culturais, j\u00e1 t\u00ednhamos entrosamento entre n\u00f3s e, acima de tudo, t\u00ednhamos experi\u00eancia enquanto grupo. Em decorr\u00eancia disso, passamos por momentos de educa\u00e7\u00e3o e compartilhamento de causa, ao mesmo tempo que aprendemos com quem chegava. Encontramos a necessidade de fazer mais encontros, oficinas e at\u00e9 mesmo criar um grupo adjacente apenas para compartilhar estudos e refer\u00eancias drag. O coletivo que sempre prezou por educar, e o novo grupo trouxe ainda mais fortemente essa fun\u00e7\u00e3o, e isso mudou tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00edvel de complexidade aumentou exponencialmente se compararmos ao per\u00edodo de&nbsp; funda\u00e7\u00e3o do T\u00f4 de Drag. O tom despretensioso de se montar e ocupar qualquer palco que nos deixassem subir deu lugar para uma institui\u00e7\u00e3o educacional e de apoio para quem est\u00e1 iniciando a jornada drag. Hoje, o coletivo continua com um tom afetuoso, mas devido \u00e0 demanda interna e externa, ele tamb\u00e9m necessita que tenhamos uma abordagem quase empresarial. N\u00f3s intermediamos neg\u00f3cios com contratantes, fazemos eventos abertos ao p\u00fablico e frequentemente somos convidadas para agregarmos a iniciativas de cunho pol\u00edtico e social. O coletivo desempenha um papel muito mais rebuscado na comunidade LGBTQIAPN+, e isso nos for\u00e7a a tratar a arte drag de forma extremamente s\u00e9ria e profissional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De maneira transparente, posso afirmar que ao longo dos anos percebemos que as demandas n\u00e3o giram em torno apenas de performar no palco. Movimentos sociais precisam de n\u00f3s, assim como o cen\u00e1rio cultural da regi\u00e3o. Em aspecto profissional tamb\u00e9m, j\u00e1 que nas intermedia\u00e7\u00f5es com contratantes percebemos que precisamos de um amparo maior, uma vez que j\u00e1 enfrentamos problemas ao redor de remunera\u00e7\u00e3o justa e do olhar externo que o mundo tem perante nossa arte. N\u00e3o nos levam t\u00e3o a s\u00e9rio como levam demais artistas como musicistas e atuantes de arte visual, o que nos obriga a nos fortalecer enquanto institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se hoje tiv\u00e9ssemos uma responsabilidade que exacerba nossas necessidades de forma que n\u00e3o as torna mais individuais. Uma vez que nossa regi\u00e3o nos avalia como grupo, precisamos coletivamente&nbsp; nos posicionar como tal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Referente ao posicionamento, posso dizer que isso tamb\u00e9m se ampliou em a\u00e7\u00e3o. Encontramos uma ampla gama de objetivos art\u00edsticos como sess\u00f5es de desenho com modelo vivo drag, colabora\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas com fot\u00f3grafos, al\u00e9m de ministrar oficinas. Antes, quer\u00edamos s\u00f3 um lugar para performar, j\u00e1 hoje queremos nos desafiar a nos inserir em qualquer lugar que queiramos agregar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, vejo um futuro brilhante para o T\u00f4 de Drag. Sem pseudo-pioneirismo, tampouco menosprezo, vejo a realidade atrav\u00e9s dos meus olhos: nos organizamos de forma que raramente visualizo no cen\u00e1rio nacional e atuamos com tanta multidisciplinaridade que tamb\u00e9m compreendo o qu\u00e3o raro \u00e9 fazer tal feito. Por isso, afirmo que o coletivo T\u00f4 de Drag \u00e9 revolucion\u00e1rio, ao menos nas vidas de quem participa e \u00e9 atravessado por ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drag-Vibes-festival-de-performances-drag-feito-anualmente-pelo-coletivo-2025-credito-Ju-Tafarelo-1024x1024.png\" alt=\"T\u00f4 de Drag Brasil\" class=\"wp-image-1768\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drag-Vibes-festival-de-performances-drag-feito-anualmente-pelo-coletivo-2025-credito-Ju-Tafarelo-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drag-Vibes-festival-de-performances-drag-feito-anualmente-pelo-coletivo-2025-credito-Ju-Tafarelo-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drag-Vibes-festival-de-performances-drag-feito-anualmente-pelo-coletivo-2025-credito-Ju-Tafarelo-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drag-Vibes-festival-de-performances-drag-feito-anualmente-pelo-coletivo-2025-credito-Ju-Tafarelo-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drag-Vibes-festival-de-performances-drag-feito-anualmente-pelo-coletivo-2025-credito-Ju-Tafarelo-100x100.png 100w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drag-Vibes-festival-de-performances-drag-feito-anualmente-pelo-coletivo-2025-credito-Ju-Tafarelo.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Drag Vibes, festival de performances drag feito anualmente pelo coletivo. 2025. Foto: Ju Tafarelo.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devido \u00e0 dificuldade de resistir em uma cidade historicamente ultraconservadora, coletivos s\u00e3o essenciais para Jundia\u00ed. Temos coletivos que trabalham em prol do meio ambiente, dos direitos da mulher, de popula\u00e7\u00f5es racializadas e me enche o cora\u00e7\u00e3o perceber que o T\u00f4 de Drag se encontra, atualmente, em estado de igualdade em rela\u00e7\u00e3o a todos esses. Sabemos com toda a certeza do mundo que, mesmo que algo aconte\u00e7a um dia e tenhamos que finalizar os trabalhos, por muitos anos a cidade se lembrar\u00e1 de n\u00f3s. Criamos um legado ineg\u00e1vel, e dentre tantas oficinas e iniciativas de que j\u00e1 participamos, mudamos a perspectiva de vida de muitas pessoas. O que mais esperamos \u00e9 que as drags (pelo menos as que est\u00e3o ao nosso redor) compreendam seu poder art\u00edstico e pol\u00edtico al\u00e9m do profissional, e nunca aceitem menos do que merecem. Torcemos para que ao longo do tempo possamos atuar tal qual um sindicato e assim possamos remar contra a mar\u00e9, mar\u00e9 essa que tende a nos inferiorizar. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que estamos em processo de nos tornarmos \u2018ponto de cultura\u2019 na cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em cidades que nos ensinam de forma expl\u00edcita a reduzir a nossa exist\u00eancia, organizar-se coletivamente \u00e9 um gesto radical de insubordina\u00e7\u00e3o.Depois de anos de experi\u00eancia compreendo que o T\u00f4 de Drag nunca foi apenas sobre performance. Foi e continua sendo sobre perman\u00eancia. Ocupamos espa\u00e7os com seriedade, os quais por muito tempo nos foram negados. Transformamos ,a cada ato, a aus\u00eancia em presen\u00e7a organizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais uma vez, afirmo que&nbsp; nossa dura\u00e7\u00e3o \u00e9 incerta, mas h\u00e1 algo que j\u00e1 n\u00e3o pode ser desfeito: uma vez que nos vimos em conjunto, uma vez que entendemos a pot\u00eancia de existir em grupo, torna-se imposs\u00edvel desaprender esse gesto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu n\u00e3o sou mais uma drag enclausurada entre quatro paredes, negociando meu reflexo com a possibilidade de existir. Minha imagem n\u00e3o \u00e9 mais sustentada de forma solit\u00e1ria. Ao olhar meu reflexo, n\u00e3o vejo mais somente eu: meu espelho reflete muitas, em toda sua gama.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o T\u00f4 de Drag n\u00e3o tenha resolvido todas as lacunas que atravessam a experi\u00eancia de ser uma artista drag no interior, e nem poderia. Mas ele fez algo que, para mim, parece ainda mais rebeliante: ele tornou imposs\u00edvel voltar \u00e0 solid\u00e3o como um estado natural.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ensaio \u201cT\u00f4 de Drag: o coletivo \u00e9 revolucion\u00e1rio\u201d, Anubis Blackwood narra a trajet\u00f3ria do coletivo drag T\u00f4 de Drag, criado em Jundia\u00ed como espa\u00e7o de apoio, forma\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia art\u00edstica LGBTQIAPN+. 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