{"id":1774,"date":"2026-05-13T16:19:54","date_gmt":"2026-05-13T19:19:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=1774"},"modified":"2026-05-13T16:19:56","modified_gmt":"2026-05-13T19:19:56","slug":"rebecca-mcdonald-divas-internacionais-cena-drag-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/rebecca-mcdonald-divas-internacionais-cena-drag-porto-alegre\/","title":{"rendered":"O gosto de Rebecca McDonald pelas \u201cinternacionais\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bruno_arthur\/\">Bruno Arthur Voss Bernardy<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Escrever sobre Rebecca McDonald envolve in\u00fameras nuances. Atravessamentos de marcadores sociais, perspectivas de trabalho (acad\u00eamico e pol\u00edtico-social), h\u00e1bitos do cotidiano. Ou seja, preciso me posicionar de onde falo, sobre o que e por qu\u00ea falo e o que almejo com isso; tamb\u00e9m preciso encontrar ferramentas te\u00f3ricas que influenciem essa pesquisa; e, por \u00faltimo, considerar que \u00e9 imposs\u00edvel desligar uma \u201cchave\u201d em minha mente que deixa de pensar em Rebecca durante todo esse processo, que exige meu tempo e energia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por motivos que j\u00e1 considero \u00f3bvios, quando o tema de uma produ\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pessoa com marcadores sociais de algu\u00e9m que sofreu viol\u00eancias psico-socio-econ\u00f4micas (e at\u00e9 mesmo f\u00edsicas) por parte, principalmente, do Estado, a \u00e9tica precisa ser redobrada. Quando eu, um homem cisg\u00eanero, branco e homossexual, realizo uma pesquisa sobre uma artista tamb\u00e9m branca e que foi dissidente da cisgeneridade, preciso n\u00e3o somente avaliar quais s\u00e3o os limites do que devo ou n\u00e3o narrar, mas tamb\u00e9m exercitar como Rebecca se sentiria em ter sua trajet\u00f3ria investigada, visto que ela j\u00e1 faleceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta linha, para al\u00e9m dos percursos tradicionais da produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica, como buscar e articular fontes, me inspiro na pesquisadora Saidiya Hartman, a respeito da necessidade de fabular sobre o cotidiano de Rebecca, de especular sobre os seus acessos \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, enfim, preciso tensionar o que encontrei em jornais com o que ouvi das testemunhas e com o que n\u00e3o foi localizado \u2014 ainda. Em geral, os maiores detalhes, os fatos mais absurdos e as quest\u00f5es mais ordin\u00e1rias foram encontradas nas entrevistas de Hist\u00f3ria Oral que realizei com amizades e o p\u00fablico da artista. Foi a partir destes materiais que descobri uma das principais caracter\u00edsticas de Rebecca: <strong>sua idolatria por divas internacionais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"735\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1024x735.png\" alt=\"Rebecca McDonald\" class=\"wp-image-1778\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1024x735.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-300x215.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-768x551.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image.png 1083w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rebecca McDonald nos bastidores do curta-metragem <em>Au Revoir Shirlei<\/em> (1991). Fonte: <em>Print <\/em>do v\u00eddeo d<em>e making of<\/em>. Acervo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em s\u00edntese, Rebecca McDonald pode ser considerada uma das principais transformistas\/drag queens de sua gera\u00e7\u00e3o, entre meados da d\u00e9cada de 1980 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000. Se apresentando em diversas boates da capital ga\u00facha, a artista marcou a mem\u00f3ria da comunidade que hoje identificamos como LGBTQIA+ e que viveu naquele per\u00edodo de severas instabilidades pol\u00edtico-econ\u00f4micas e tamb\u00e9m pelo momento mais cruel da epidemia do v\u00edrus HIV, o que acentuou a homofobia j\u00e1 existente na sociedade brasileira. Nesse contexto, a arte drag e transformista na noite porto-alegrense pode ser interpretada como um al\u00edvio \u00e0quelas tens\u00f5es sociais; a audi\u00eancia se deslumbrava e as artistas se realizavam. Nilton Gaffr\u00e9e J\u00fanior, quem d\u00e1 corpo \u00e0 drag queen Cassandra Calabou\u00e7o, relembra quando viu Rebecca pela primeira vez, quando ainda tinha muitas d\u00favidas e poucas certezas pessoais:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira vez que eu vi a Rebecca, eu lembro o ano. Foi em 1991, com certeza. No Wanda, no Bar da Wanda. O Bar da Wanda ficava exatamente na esquina da Castro Alves com a Ramiro, onde hoje \u00e9 um pr\u00e9dio, ali tinha uma casa, um casar\u00e3o, assim, de dois andares. [&#8230;] E ali eu fui em 1991, e eu me lembro porque eu n\u00e3o tinha sa\u00eddo do arm\u00e1rio ainda e eu fui com um amigo que ele era gay. Da\u00ed eu fui com meu amigo gay para ver, assim, como \u00e9 que era e tal, mas porque era o meu amigo. Isso era coisa dele, n\u00e3o era coisa minha. Mas eu j\u00e1 estava, claro n\u00e9, com os dois p\u00e9s j\u00e1 passados da porta, mas n\u00e3o tinha tido a coragem\u2026 Enfim, n\u00e3o tinha sa\u00eddo do arm\u00e1rio para mim mesmo ainda. N\u00e3o fiquei com ningu\u00e9m. Morria de medo, achava que eu ia para o inferno s\u00f3 de estar ali. E quando eu entrei que eu vi pessoas, n\u00e9, do mesmo sexo se beijando e trocando afeto num lugar p\u00fablico, sem ser escondido, aquilo me chocou.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas eu me lembro de ter assistido a apresenta\u00e7\u00e3o da Rebecca e isso me atravessou de diferentes maneiras. Assim, na \u00e9poca, eu n\u00e3o dan\u00e7ava ainda. Eu n\u00e3o tinha tido experi\u00eancia ainda no teatro. [&#8230;] A Rebeca era como se ela fosse, assim, uma for\u00e7a da natureza. Ela era muito\u2026 A presen\u00e7a c\u00eanica da Rebecca era muito grande. O lugar era pequeno, o palco era bem pr\u00f3ximo das pessoas, mas al\u00e9m disso a energia dela n\u00e3o estava contida&#8230; N\u00e3o, ela fez uma m\u00fasica do grupo Black Box que chamava, acho que era <em>I don&#8217;t know anybody else<\/em>, que era um <em>gritaredo <\/em>na m\u00fasica, assim, in\u00edcio dos anos 90, n\u00e9? Um <em>gritaredo<\/em>, assim, um horror a m\u00fasica, mas cada vez que eu ou\u00e7o, eu me lembro da Rebecca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ela tinha um rosto muito anguloso, assim, n\u00e9? Quando eu a vi\u2026 Veja, l\u00e1 naquela \u00e9poca eu n\u00e3o participava da comunidade LGBT. Hoje a gente tem um entendimento das coisas. Naquela \u00e9poca, eu n\u00e3o sendo da comunidade, eu tendo toda a carga de preconceito, n\u00e9, de j\u00e1 sentir que eu era, mas eu n\u00e3o queria ser [risos]. Eu me lembro que quando eu vi a Rebecca, eu n\u00e3o entendi muito bem o que ela era. Ela n\u00e3o me parecia uma travesti. Mas eu tamb\u00e9m entendi que ela n\u00e3o era uma mulher [cisg\u00eanera]. N\u00e3o era essa a quest\u00e3o. E tamb\u00e9m n\u00e3o era exatamente um homem dentro do que eu entendia. Hoje eu tenho uma palavra para dizer o que eu acho. A Rebecca era um corpo queer, assim&#8230; Uma performance queer. Ela n\u00e3o precisava de enchimento. Ela n\u00e3o precisava de peito. Era o corpo dela ali, o rosto dela ali. Maquiado, ok, mas com uma maquiagem muito simples, nada elaborado como hoje a gente tem, n\u00e9, uma make drag art\u00edstica. N\u00e3o, n\u00e3o. Era um l\u00e1pis no olho, um batom, o cabelo dela, n\u00e3o era nem peruca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ela dan\u00e7ava [suspiro]. Ela dan\u00e7ava muito, muito&#8230; Quanto mais eu dan\u00e7o, quanto mais eu, n\u00e9, sou artista da dan\u00e7a, mais eu vejo o quanto ela era uma j\u00f3ia rara, assim. Ela era um corpo e uma energia que se mexia, e isso era absolutamente para fora, assim&#8230; Eu fiquei e fico&#8230; N\u00e3o existe como eu n\u00e3o lembrar da Rebecca. Essa foi, eu acho, que uma das \u00fanicas vezes que eu a vi performando, mas eu nunca esqueci. Nunca, nunca&#8230; Ela era incr\u00edvel, incr\u00edvel, incr\u00edvel&#8230;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O relato acima ajuda n\u00e3o somente a entender o impacto que Rebecca causou, mas tamb\u00e9m traz detalhes de como ela executava sua \u201cperformance queer\u201d. Tal performance n\u00e3o se reduzia somente aos palcos, como era com outras colegas tamb\u00e9m transformistas. Everton Barreto, quem personifica Lady Cibele, foi amigo pr\u00f3ximo, se apresentando junto nas boates e tamb\u00e9m frequentando a resid\u00eancia de Rebecca. Ao se conhecerem no final da d\u00e9cada de 1980, Everton acompanhou o que podemos considerar como processo de transi\u00e7\u00e3o de Rebecca, tanto na quest\u00e3o do desuso do nome dado ao nascimento, quanto na postura e est\u00e9tica corporal:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nos anos 1990 quando ela realmente fez a transi\u00e7\u00e3o. Que ela sa\u00eda da casa dela j\u00e1 como Rebecca direto. No condom\u00ednio dela, [&#8230;] todo mundo j\u00e1 se referia a ela como \u201ca Rebecca\u201d. Era muito legal isso. Tinha um respeito l\u00e1, bem grande. E ela sa\u00eda de manh\u00e3, \u00e0 tarde, \u00e0 noite como Rebecca e nunca teve problema l\u00e1.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pergunto se Rebecca se identificava como travesti naquele per\u00edodo, considerando se tratar de uma identidade de g\u00eanero, como hoje acontece, e Everton responde:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tinha isso. Eu acho que era mais subjetivamente, entendeu? Aquilo j\u00e1 estava imbu\u00eddo nela que n\u00e3o precisava dessa afirma\u00e7\u00e3o \u201ceu sou uma travesti\u201d, n\u00e9? Simplesmente \u201ceu sou a Rebeca\u201d e pronto, bastava. Sem querer, eu acho que era uma milit\u00e2ncia, n\u00e9? Sem querer j\u00e1 era uma milit\u00e2ncia. [Ela sa\u00eda na rua] de salto alto, o cabelo preso, maquiada, andando de \u00f4nibus durante o dia, t\u00e1 entendendo? Ent\u00e3o, quer dizer, era um enfrentamento \u00e0 sociedade mesmo. At\u00e9 porque ela era uma pessoa muito bonita. Era uma guria muito linda. Ent\u00e3o, era muito feminina, os tra\u00e7os eram femininos tamb\u00e9m, n\u00e9? [A postura] era muito delicada. Era um pouquinho mais baixa do que eu e era quase imberbe, era pouqu\u00edssima barbinha, ent\u00e3o tudo isso facilitava muito, n\u00e9? Mag\u00e9rrima e poucos pelos.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De todas as testemunhas que entrevistei at\u00e9 agora, nenhuma conheceu Rebecca antes de come\u00e7ar a se montar. Suas amizades contam que quando adolescente, a artista patinou no Clube de Patina\u00e7\u00e3o Tangar\u00e1s, localizado na zona sul de Porto Alegre. Sabe-se tamb\u00e9m que era comum o Clube realizar apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que tinham como inspira\u00e7\u00e3o os espet\u00e1culos da Broadway. Estes relatos trazem essa experi\u00eancia atl\u00e9tica para amparar as habilidades de Rebecca nos palcos, sua desenvoltura para dan\u00e7ar e at\u00e9 mesmo abrir espacate, movimento gin\u00e1stico que, conforme narrado, ela era a \u00fanica que fazia naquele per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, poucas fontes me auxiliam a pensar em como Rebecca desenvolveu sua arte e, paralelamente, sua identidade de g\u00eanero. Na aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es e testemunhos, resta fabular como ela conheceu e quando se interessou pela pr\u00e1tica do travestimento, a monta\u00e7\u00e3o, a arte drag e transformista. Quais foram suas refer\u00eancias? <em>Showgirls<\/em> internacionais do in\u00edcio da primeira metade do s\u00e9culo XX? Atrizes do auge da ind\u00fastria hollywoodiana p\u00f3s segunda guerra mundial? Divas de musicais da Broadway e da m\u00fasica pop estadunidense? Todavia, alguns ind\u00edcios existem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a escolha do nome e sobrenome, at\u00e9 agora, restam apenas especula\u00e7\u00f5es. O filme <em>Rebecca, a Mulher Inesquec\u00edvel<\/em> (1940), dirigido por Alfred Hitchcock, pode ser um palpite, diante da popularidade, inclusive no Brasil, tanto do diretor quanto da produ\u00e7\u00e3o. Questiono-me quando e se Rebecca McDonald assistiu, tendo ela nascido em uma fam\u00edlia de classe baixa no final da d\u00e9cada de 1960 e vivido sua juventude entre 1970 e 1980. Ela frequentou os cinemas de rua, que existiam em razo\u00e1vel quantidade e atraiam o p\u00fablico que buscava lazer, em um momento em que a televis\u00e3o ainda era um objeto de luxo? A respeito do sobrenome, o pesquisador, que tamb\u00e9m foi p\u00fablico de Rebecca quando ainda era crian\u00e7a, Lu\u00eds Francisco Wasilewski, levantou o fato de que Josephine Baker, importante <em>showgirl <\/em>da primeira metade do s\u00e9culo XX, nos EUA e na Europa, tinha McDonald como sobrenome de registro. Teria a artista ga\u00facha conhecido sobre artista internacional que faleceu em 1975? Teria Rebecca visto em algum lugar sobre Josephine? S\u00e3o hip\u00f3teses que carecem de maiores embasamentos, mas que alimentam a imagina\u00e7\u00e3o desse passado que n\u00e3o consegui acessar, de como Rebecca se tornou Rebecca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comerciais, filmes e novelas das d\u00e9cadas de 1980 e 1990 me fazem refletir sobre os padr\u00f5es de beleza que Rebecca possivelmente teve acesso. Enquanto um hobbie particular meu, de assistir grava\u00e7\u00f5es antigas de programa\u00e7\u00f5es da TV aberta, muitas vezes me pergunto se Rebecca assistiu isso ou aquilo. Especulo se ela assistia a travestimentos c\u00eanicos de artistas como Chico Anysio e J\u00f4 Soares, ou mesmo se assistia ao <em>Show de Calouros<\/em>, no qual se apresentavam travestis e transformistas. Contudo, seria anacr\u00f4nico pensar que Rebecca acessava tais conte\u00fados como hoje eu acesso, quando consigo rever, pausar e voltar na grava\u00e7\u00e3o quando quero. Ao mesmo tempo, assistir estes materiais me aproximam de uma suposta realidade vivida por Rebecca, por mais que ela pudesse nem mesmo ter um aparelho de televis\u00e3o pr\u00f3prio naqueles per\u00edodos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"540\" height=\"960\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image.jpeg\" alt=\"Rebecca McDonald\" class=\"wp-image-1775\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image.jpeg 540w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-169x300.jpeg 169w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rebecca McDonald durante performance de <em>City Lights<\/em>, no espet\u00e1culo <em>Mulheres do Pau Brasil (ou Quando Eles Viram Elas)<\/em> (1991). Fonte: reprodu\u00e7\u00e3o do perfil no Facebook do ativista, j\u00e1 falecido, Alexandre B\u00f6er.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lauro Ramalho, quem personifica Laurita Le\u00e3o, tamb\u00e9m amigo de Rebecca, narra que era da televis\u00e3o que vinham as principais refer\u00eancias daquela cena transformista. Quando elas se reuniam no camarim das boates, havia compartilhamento de materiais e conversas sobre variados assuntos, mas principalmente sobre m\u00fasicas e dublagens:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda era [disco de] vinil. A gente levava o vinil, era um inferno. A gente pegava \u00f4nibus, enfim, n\u00e3o tinha Uber e o t\u00e1xi era car\u00edssimo. Ent\u00e3o a gente tinha que levar o figurino numa sacola e o vinil embaixo do bra\u00e7o. Quando era mais de uma m\u00fasica, ent\u00e3o tinha que levar dois LPs. E depois sim a gente come\u00e7ou a usar fita cassete e por fim veio o CD, foi a \u00faltima coisa. Mas o que a gente compartilhava muito, nessas noites em que n\u00f3s nos encontr\u00e1vamos, porque a gente ficava no camarim por muito tempo, n\u00e9? A gente falava muito a respeito de m\u00fasica, porque n\u00e3o era um papo muito erudito, assim\u2026 A gente falava de novelas, eu me lembro que a Dandara adorava falar das novelas que ela assistia. De filmes que eventualmente a gente via durante a semana. De boys\u2026 Fal\u00e1vamos muito dos casos\u2026 Muita fofoca\u2026 Era uma coisa, assim, meio cabeleireira, sabe? Era um pouco esse o papo, porque era entretenimento, sabe, a gente fazia um entretenimento e o assunto era mais ou menos aquilo. O que as pessoas tinham feito durante a semana\u2026 Era um papo mais descontra\u00eddo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pergunto ent\u00e3o quais eram as refer\u00eancias art\u00edsticas de Rebecca, quais cantoras, se nacionais ou internacionais, divas do cinema etc., ao que Lauro responde:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Internacionais. Muito internacionais. [Como] Liza Minnelli. Nossa, ela adorava Liza Minnelli. Tanto que no [espet\u00e1culo] <em>Mulheres do Pau Brasil<\/em> ela faz Marilyn Monroe e a Liza Minnelli. O n\u00famero da Liza, que \u00e9 o <em>City Lights<\/em>, era in-cr\u00ed-vel! [&#8230;] E, ent\u00e3o, ali ela fazia a Liza e era uma coisa impressionante, porque ela descia e subia aquelas escadas&#8230; As escadas acho que tinham uns dez, doze degraus. Ela descia de costas. E subia. E fazia hor-ro-res! E era uma m\u00fasica intermin\u00e1vel, porque ela termina e recome\u00e7a. Gente, era um n\u00famero fan-t\u00e1s-ti-co. E o n\u00famero da Marilyn, que \u00e9 muito lindo. Que \u00e9 o <em>Diamonds Are a Girl&#8217;s Best Friend<\/em>, s\u00f3 que ela faz com o figurino d&#8217;<em>O Pecado Mora ao Lado<\/em>. Que \u00e9 aquele vestido branco&#8230; E a\u00ed no final ela pega o ventilador, traz o ventilador, p\u00f5e o ventilador aqui e fica assim, refestelando [express\u00f5es corporais que rementem a atua\u00e7\u00e3o da atriz no filme citado]. \u00c9 maravilhoso. E esse n\u00famero \u00e9 com os bailarinos. O <em>City Lights<\/em> era s\u00f3 ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ela gostava muito de Grace Jones. Ela fazia <em>La Vie En Rose<\/em>. A Grace Jones gravou <em>La Vie En Rose<\/em>, s\u00f3 que numa vers\u00e3o super pop, e a Rebecca fazia. E a Rebecca tinha uma coisa de perceber, assim, coisas. Tem um momento da m\u00fasica que eu acho que \u00e9 um piano, e a\u00ed ela fazia nos dentes, ela batia nos dentes. Ent\u00e3o ela criava os movimentos a partir da m\u00fasica, que eram incr\u00edveis. E toda movimenta\u00e7\u00e3o, assim, todo o trabalho que vem l\u00e1 do&#8230; Que vem l\u00e1 do [Clube] Tangar\u00e1s, com certeza, que vem do trabalho de patinadora&#8230; Ela usava em cena. Ent\u00e3o era as coisas das pernas, essa coisa da elasticidade que ela tinha, que&nbsp; era incr\u00edvel. E o carisma. A Rebecca era muito carism\u00e1tica. Ela fazia qualquer coisa e as pessoas ficavam [express\u00e3o de ovacionar]. Tanto que tinham pessoas, isso n\u00e3o acontece mais, que tinham pessoas que iam naquela noite para v\u00ea-la, na noite que ela fazia. Tinha muito disso. Acho que Dandara [Rangel] tamb\u00e9m tinha um p\u00fablico&#8230; Eu tive, Castanha teve, mas isso nessa \u00e9poca nos anos 1980 e 1990, que tinham pessoas que iam para nos ver. Gostavam de ver determinado artista&#8230; A Rebecca tinha um s\u00e9quito, assim, enorme. E era lindo de ver.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mesma pergunta foi feita a Everton, que diverge um tanto das lembran\u00e7as que Lauro carrega, a respeito de quais eram as cantoras mais dubladas por Rebecca, quem eram as suas favoritas:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marlene Dietrich e Madonna. Rebecca foi uma das primeiras transformistas a dublar Madonna que eu vi na vida. E ela era uma excelente dubladora da Madonna. Inclusive, ela copiava os figurinos, as coreografias! Era impressionante como ela conseguia reproduzir na cena. Madonna era o \u00eddolo dela.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerando que a entrevista com Everton foi uma das \u00faltimas a serem coletadas, questionei sobre Liza Minnelli, ao que ele respondeu que Rebecca \u201cgostava, mas a Madonna era a Santa Madonna. O cabelo, lencinho na cabe\u00e7a, todos aqueles figurinos que a Madonna usava nos anos 1980, [Rebecca] usava todos iguais. Era sempre Madonna.\u201d Enquanto tamb\u00e9m sou muito entusiasta de <em>divas pop<\/em> assim como Rebecca parece ter sido, quero saber quais m\u00fasicas eram dubladas e Everton exclama:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas, todas, todas. <em>Like a Virgin<\/em>, <em>Like a Prayer<\/em>. <em>Vogue<\/em>, ent\u00e3o\u2026 A primeira vez que que\u2026 Eu n\u00e3o sei como \u00e9 que ela conseguia decorar as coreografias, porque sa\u00eda o clipe, no outro final de semana, ela j\u00e1 estava fazendo na boate. E fazia igual a coreografia de <em>Vogue<\/em>. Era ovacionada! Porque ela era muito r\u00e1pida [estalo de dedos].<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pergunto para Everton qual e como era o acesso que Rebecca tinha a esses conte\u00fados:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> \u201cTelevis\u00e3o. Era o auge da MTV [in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990], n\u00e9? Ent\u00e3o na MTV ela pegava os v\u00eddeos da MTV, gravava e depois ensaiava e tinha facilidade por ser bailarina tamb\u00e9m n\u00e9, ent\u00e3o conseguia muito bem. Mas era maravilhoso assistir!\u201d <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, jornais, revistas, outros meios de acesso a cultura, n\u00e3o eram consumidos por Rebecca:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o! Isso n\u00e3o. Isso n\u00e3o, at\u00e9 porque a gente\u2026 Todo mundo falava assim \u201cah, como a Rebecca \u00e9 burrinha\u2026\u201d Ela era muito <em>buurriiiinha<\/em>, assim, para falar e tal, sabe? Ela n\u00e3o era muito atinada, tu entendeu? N\u00e3o era mesmo. Ela&nbsp; fazia aquele estilo Marilyn Monroe, bonita e burrinha, gostosa e burrinha, sabe? [Por\u00e9m, era] uma excelente dubladora. N\u00e3o falava uma palavra em ingl\u00eas, mas quando tu assistia a dublagem dela, era per-fei-ta. Parecia que ela falava em ingl\u00eas mesmo, [que] tinha flu\u00eancia no ingl\u00eas. Impressionante. Impressionante. Tu jurava que ela sabia ingl\u00eas. Era uma coisa incr\u00edvel. Sem falar uma palavra em ingl\u00eas. Muito louco, n\u00e9?<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra importante amiga de Rebecca que consegui ouvir foi Gloria Crystal, que tamb\u00e9m falou sobre os gostos e escolhas de dublagem:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como eu te falei, a cantora que tu desse, ela [fazia]\u2026 A Rebeca fazia Pink Floyd. E tem uma m\u00fasica do Pink Floyd que \u00e9 s\u00f3 aquele som, s\u00f3 os gritos, n\u00e9? Ela fazia aquela m\u00fasica, interpretava aquela m\u00fasica\u2026 Em momento algum aquela m\u00fasica ficava chata com ela. Aquilo era uma coisa que tu ficava olhando e tu n\u00e3o acreditava que ela tava fazendo. Impressionante, assim\u2026 E ela fazia a\u2026 Janis Joplin, maravilhosamente bem. Cantoras negras\u2026 Eu fazia com ela, a m\u00e3e e a filha, Cissy Houston e Whitney Houston. Ela fazia tudo que tu desse para ela fazer. E era assim, \u201ctenho uma m\u00fasica que \u00e9 para ti fazer\u201d&#8230; Na \u00e9poca a gente n\u00e3o tinha esses recursos [de hoje], n\u00e3o fal\u00e1vamos ingl\u00eas, n\u00e3o tinha nada, nem tinha tradutor\u2026 Ent\u00e3o, eu tinha muito a mania de, conforme eu escutava, eu escrevia. Ela tinha o ouvido. Ficava assim [express\u00e3o de ouvir com aten\u00e7\u00e3o e cantarolar], escutava umas cinco vezes e j\u00e1 sabia a m\u00fasica. Dava uma raiva da Rebecca por causa disso\u2026 Ela conseguia fazer assim. Ou ent\u00e3o ela chegava, onde todo mundo [estava] chiqu\u00e9rrimo e ela n\u00e3o tinha terminado o vestido dela. Ent\u00e3o ela se montava, uma coisa aqui, outra coisa ali, e ela conseguia ficar mais bonita que todo mundo que ia fazer show. Dava um ran\u00e7o dela por causa disso\u2026 [risos] Maravilhosa. Mas ela era apaixonada por Madonna. Amava a Madonna. O \u00faltimo show que ela fez na vida dela, pra tu ver como ela era de uma diversidade, assim, ela fez Rihanna, uma m\u00fasica da Rihanna. Um dos primeiros sucessos da Rihanna, n\u00e3o lembro qual, mas que a Rihanna t\u00e1 dentro de uma gaiola\u2026 Ela fez aquela m\u00fasica.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Questionei \u00e0 Gloria sobre como elas acessavam as refer\u00eancias, se por revistas, televis\u00e3o, ao que ela me responde, se referindo \u00e0 d\u00e9cada de 1980, visto que de todas entrevistadas, Gloria \u00e9 a que conheceu Rebecca primeiro, por\u00e9m Rebecca j\u00e1 era Rebecca, j\u00e1 se montava:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando tinha alguma refer\u00eancia, \u00e9 porque algu\u00e9m chegava, que viu o show [antes] e disse \u201cRebecca, eu vi que tem uma cantora que \u00e9 a tua cara, o nome da m\u00fasica \u00e9 isso\u2026\u201d e na outra semana a pessoa levava o disco, entendeu? A\u00ed levava o disco, \u201ctoma, ent\u00e3o se tu quiser tu faz.\u201d&nbsp; E era assim que a gente fazia. [Para] todos n\u00f3s, t\u00ednhamos essa cultura de algu\u00e9m olhar e dizer \u201colha, tu combina com essa cantora, ent\u00e3o tu faz\u2026\u201d [&#8230;] Era essa a forma que a gente tinha de compartilhar. A gente n\u00e3o tinha muita informa\u00e7\u00e3o, primeiro porque n\u00f3s \u00e9ramos <em>bibinhas<\/em>, sem dinheiro, sem trabalho. Muitas vezes [&#8230;] n\u00f3s sa\u00edamos de casa [Gloria morava no bairro Jardim Bot\u00e2nico] sem a passagem, n\u00f3s \u00edamos a p\u00e9 at\u00e9 a [Avenida] Independ\u00eancia, na frente da OSPA para fazer show [na boate Pantheon]. E n\u00f3s n\u00e3o ganh\u00e1vamos cach\u00ea. O cach\u00ea era assim [&#8230;] quem arrasava mesmo ganhava dois ou tr\u00eas drinks. A Rebecca sempre ganhava tr\u00eas. E eu, arrasava, mas ganhava dois, nunca passei para os tr\u00eas\u2026 Ent\u00e3o ela era muito boa. Ela abria um espacato como ningu\u00e9m, ela subia nas paredes, fazia de tudo que tu possa imaginar. Ent\u00e3o a gente n\u00e3o ganhava cach\u00ea, se divertia e ia embora para casa a p\u00e9. [Depois] dormia o dia inteiro, era muito louco isso, o nosso come\u00e7o. [risos]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-2-1024x576.jpeg\" alt=\"Divas Internacionais\" class=\"wp-image-1777\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-2-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-2-300x169.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-2-768x432.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-2-1536x864.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-2.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Montagem com imagens das divas pop de Rebecca McDonald, da esquerda para a direita: Madonna, Liza Minnelli, Grace Jones, Whitney Houston. Fonte: Imagens encontradas na internet, com livre reprodu\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que a essa altura do texto, j\u00e1 deve ter ficado n\u00edtido as prefer\u00eancias de Rebecca. O jornal local <em>Poa Noite<\/em>, quando em janeiro de 1991 divulgava sobre o espet\u00e1culo de teatro de revista <em>Mulheres do Pau Brasil (ou Quando Eles Viram Elas)<\/em>, dirigido por Z\u00e9 Ad\u00e3o Barbosa, publicou:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REBECA E AS INTERNACIONAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A encarregada de levar ao palco as presen\u00e7as internacionais \u00e9 Rebeca Mac Donald\u2019s [sic] que dublar\u00e1 Marilyn Monroe numa cena de Diamonds Are a Girl\u2019s Best Friend, do filme Os Homens Preferem as Louras, al\u00e9m de Liza Minelli, conforme Z\u00e9 Ad\u00e3o, um momento antol\u00f3gico do show. Vale destacar que Rebeca vem se sobressaindo a cada novo show que participa. Ela vai al\u00e9m de se travestir de mulher e dublar. Tem arte. Um algo mais que a torna especial. Come\u00e7ou fazendo shows em bares gays. Hoje vem ganhando um p\u00fablico mais diversificado como do Porto de Elis ou mais recentemente no Ocidente onde foi ovacionada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, Rebeca chega ao teatro e se confessa extremamente satisfeita, \u201cest\u00e1 sendo maravilhoso, porque a partir desse espet\u00e1culo estou recebendo propostas para fazer outros trabalhos fora do meu meio, o meio gay\u201d. A postura no palco, a t\u00e9cnica nos l\u00e1bios ao dublar que \u00e9 perfeita, ela conta que \u201caprendi foi com a for\u00e7a de vontade e muita garra\u201d. Nunca fez aulas de dan\u00e7a. Seu talento \u00e9 nato. Est\u00e1 evoluindo. Confessa que s\u00f3 n\u00e3o saiu de POA por causa da fam\u00edlia e dos amigos \u201csou uma pessoa muito carente\u201d. Mas adianta que talvez ainda este ano v\u00e1 a It\u00e1lia a convite, realizar uma temporada de shows.&nbsp; [traslado conforme original]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, parece que era consenso entre o p\u00fablico, para al\u00e9m de suas amizades, que Rebecca se interessava por artistas estrangeiras. N\u00e3o podemos presumir que acessar tais conte\u00fados, videoclipes, discos de vinis, etc., era mais dif\u00edcil quando se compara com artistas nacionais. Como relatado, os meios de acessos e de compartilhamento foram mudando com o passar dos anos e o surgimento de novas tecnologias, bem como diante da possibilidade de maiores rendimentos financeiros. Se no in\u00edcio da carreira os cach\u00eas eram somente drinks e aplausos, ao longo da d\u00e9cada de 1990, ao menos estas artistas veteranas, come\u00e7aram a receber dinheiro por seus trabalhos, tanto nas boates como no teatro e no cinema. Por\u00e9m, n\u00e3o se pode dizer que a arte drag e transformista enriqueceu as praticantes ga\u00fachas do cen\u00e1rio aqui retratado. Por volta do final da d\u00e9cada de 1990, Rebecca come\u00e7ou a trabalhar em sal\u00f5es de beleza, diminuindo a frequ\u00eancia de suas apresenta\u00e7\u00f5es. Suas amizades tamb\u00e9m se dedicaram no mesmo e em outros ramos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 onde pesquisei, Rebecca realizou poucas viagens, circulou por cidades ga\u00fachas e chegou a ir para Bras\u00edlia durante a divulga\u00e7\u00e3o do curta-metragem que ela protagoniza, <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/au-revoir-shirlei-transformistas-e-travestis-no-festival-de-cinema-de-gramado\/\"><em>Au Revoir Shirlei<\/em> (1991)<\/a>. Ela n\u00e3o chegou a ir para a It\u00e1lia, como disse ao jornal, e, a princ\u00edpio, nunca realizou uma viagem internacional. Mas isso n\u00e3o impediu o seu gosto por divas pop estrangeiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 o interesse aqui aprofundar teoricamente, mas para pensarmos como ou porque Rebecca tinha tais prefer\u00eancias, o soci\u00f3logo franc\u00eas Pierre Bourdieu nos auxilia a partir de seu conceito de <em>habitus<\/em> e sua articula\u00e7\u00e3o com o <em>gosto cultural<\/em>: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNa rela\u00e7\u00e3o entre as duas capacidades que definem o <em>habitus<\/em>, ou seja, capacidade de produzir pr\u00e1ticas e obras classific\u00e1veis, al\u00e9m da capacidade de diferenciar e de apreciar essas pr\u00e1ticas e esses produtos (gosto), \u00e9 que se constitui o <em>mundo social representado<\/em>, ou seja, o <em>espa\u00e7o dos estilos de vida<\/em>\u201d (<em>A Distin\u00e7\u00e3o<\/em>, Editora Zouk, 2007, p. 162).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deste modo, n\u00e3o consideramos que tais gostos de Rebecca derivam de uma ess\u00eancia pr\u00f3pria dela, algo natural, mas sim foram os contatos que ela teve com tais refer\u00eancias internacionais (durante sua vida, principalmente durante as fases de maiores desenvolvimento, como inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia) que a fizeram externalizar essas suas prefer\u00eancias, atrav\u00e9s de suas pr\u00e1ticas art\u00edsticas. Logo, \u00e9 poss\u00edvel indicar que sua passagem pelo Clube Tangar\u00e1s, associado com outras condi\u00e7\u00f5es sociais (como classe, corporalidade e at\u00e9 mesmo estrutura familiar) induziram Rebecca a gostar das divas internacionais. Entretanto, novamente, isso s\u00e3o apenas especula\u00e7\u00f5es, considerando que todas as testemunhas encontradas at\u00e9 agora conheceram Rebecca quase adulta, j\u00e1 determinada em ser Rebecca e praticante da arte drag e transformista. Nesta linha, conhecer sua experi\u00eancia no tangar\u00e1s com maiores detalhes, ouvir testemunhas deste per\u00edodo de sua vida, s\u00e3o caminhos de pesquisa que, infelizmente, apesar de esfor\u00e7os, n\u00e3o consegui acessar ainda.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"569\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1-569x1024.jpeg\" alt=\"Rebecca McDonald, Nei Ara\u00fajo e Lady Cibele \" class=\"wp-image-1776\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1-569x1024.jpeg 569w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1-167x300.jpeg 167w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1.jpeg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 569px) 100vw, 569px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rebecca McDonald, Nei Ara\u00fajo e Lady Cibele em meados da d\u00e9cada de 1990. Fonte: acervo pessoal de Everton Barreto (Lady Cibele).<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para encerrar, acredito que, al\u00e9m de preservar a mem\u00f3ria sobre Rebecca McDonald, este trabalho que venho realizando ajuda a compreender as diferen\u00e7as geracionais de artistas drag e transformistas. Se hoje existe o amplo acesso \u00e0 internet, o sucesso internacional de <em>RuPaul\u2019s Drag Race<\/em> e uma maior facilidade de consumir m\u00fasica (atuais e antigas), a situa\u00e7\u00e3o era bem distinta no final do s\u00e9culo XX, conforme foi mostrado acima. No mais, essa quest\u00e3o sobre as gera\u00e7\u00f5es e suas diferen\u00e7as merece melhor discuss\u00e3o em outro momento, assunto esse que envolve outra pol\u00eamica desta cena, as diverg\u00eancia e as aproxima\u00e7\u00f5es do que \u00e9 drag e o que \u00e9 transformista. Rebecca passou por essa transi\u00e7\u00e3o de nomenclaturas, se auto intitulou com os dois termos, mas sempre acompanhada das <em>internacionais<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No mais, destaco outro trecho da entrevista com Nilton Gaffr\u00e9e Jr.\/Cassandra Calabou\u00e7o, pois a sua experi\u00eancia de ser p\u00fablico de Rebecca foi bastante especial e inspiradora para a arte que ele come\u00e7aria a realizar alguns anos depois de t\u00ea-la assistido pela primeira vez. \u00c9 importante relembrar que Nilton estava no in\u00edcio de sua vida adulta, em um momento que \u201caquilo tudo era muito confuso\u201d, que ele \u201cn\u00e3o sabia nada do que era\u201d. No entanto, ele narra que Rebecca lhe apresentou um outro universo poss\u00edvel:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela me conquistou. Ela me arrebatou. Ela me seduziu. Ela n\u00e3o me assustou. Entende? Toda essa for\u00e7a&#8230; Ela n\u00e3o me&#8230; Porque hoje, n\u00e9, eu acho que na \u00e9poca eu poderia ter ficado \u201ccredo, que horror! Socorro! N\u00e3o quero! Quero fugir!\u201d. E n\u00e3o, assim, pelo contr\u00e1rio, sabe&#8230; Tinha algo ali que eu disse \u201cAi, que maravilha isso.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ensaio investiga a trajet\u00f3ria de Rebecca McDonald, artista transformista que marcou a cena drag de Porto Alegre entre as d\u00e9cadas de 1980 e 2000. A partir de entrevistas, mem\u00f3rias e refer\u00eancias historiogr\u00e1ficas, o texto analisa suas performances inspiradas em divas internacionais como Madonna, Liza Minnelli e Grace Jones, al\u00e9m de discutir mem\u00f3ria LGBTQIA+, cultura drag, performatividade de g\u00eanero e os modos de circula\u00e7\u00e3o art\u00edstica antes da internet.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34,712,32,42,526,31,33,1,30],"tags":[1180,10,1186,239,1051,1177,1178,1173,1185,1184,7,1183,6,1175,41,368,22,1171,1182,1174,242,367,1176,1170,50,1187,808,9,237,1172,1181,8,5,1179,71],"class_list":["post-1774","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-drag","category-drag-queens","category-ensaio-historico","category-ensaios","category-pesquisa-academica","category-porto-alegre","category-processos-de-criacao","category-sem-categoria","category-transformismo","tag-arte-drag-brasileira","tag-artistas","tag-boates-gays-porto-alegre","tag-cassandra-calabouco","tag-cena-drag-porto-alegre","tag-cultura-drag-anos-80","tag-cultura-drag-anos-90","tag-cultura-drag-anterior-a-internet-rupaul","tag-cultura-queer-brasileira","tag-divas-pop-internacionais","tag-drag","tag-drag-e-transformismo","tag-drag-queen","tag-drag-queen-porto-alegre","tag-ensaio","tag-everton-barreto","tag-grafia-drag","tag-historia-drag-transformista-em-porto-alegre","tag-historia-lgbtqia-sul-do-brasil","tag-historia-transformista-brasileira","tag-laurita-leao","tag-lauro-ramalho","tag-memoria-lgbtqia","tag-memoria-lgbtqia-brasileira","tag-montacao","tag-nilton-gaffree","tag-performance-queer","tag-porto-alegre","tag-rebecca-mcdonald","tag-rebecca-mcdonald-como-entidade-central","tag-rebecca-mcdonald-drag-queen","tag-rio-grande-do-sul","tag-transformismo","tag-transformismo-gaucho-2","tag-transformistas"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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