{"id":1843,"date":"2026-07-14T13:24:11","date_gmt":"2026-07-14T16:24:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=1843"},"modified":"2026-07-14T13:24:13","modified_gmt":"2026-07-14T16:24:13","slug":"estudos-para-eco-autofabulacao-drag","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/estudos-para-eco-autofabulacao-drag\/","title":{"rendered":"Estudos para Eco: uma autofabula\u00e7\u00e3o drag em sete ensaios"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ecozazu\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.instagram.com\/ecozazu\/\">Eco Zazu<\/a> (Allan Cordeiro Cardoso)<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Ainda me \u00e9 incerto seu in\u00edcio \u2013 se ela prov\u00e9m daquela mesma for\u00e7a que me fazia colocar toalhas na cabe\u00e7a ou prendedores nas unhas, ent\u00e3o ela sempre esteve aqui. Por muito tempo enclausurada, teve suas formas de protestar atrav\u00e9s de crises de ansiedade e depress\u00e3o durante os anos de ensino m\u00e9dio, at\u00e9 por fim ser encontrada meio-viva em 2018. S\u00f3 ent\u00e3o descobri que eu me sentia t\u00e3o fraca porque escondi de mim toda for\u00e7a que era inconvenientemente rotulada como \u201cfeminina\u201d, seja o que isso queira dizer, mas como percebiam e reprimiam o jeito que eu andava, falava, gostava, vestia, brincava. Mesmo depois de crescer e abra\u00e7ar uma sexualidade dissidente, apesar das fachadas, ela tamb\u00e9m n\u00e3o era bem-vista: me tornava menos desej\u00e1vel, mais fr\u00e1gil, alvo de piadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela tinha, entretanto, suas formas de rasgar o concreto e florescer discretamente no canto das cal\u00e7adas: desde minha <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/o-calabouco-de-cassandra\/\" data-type=\"post\" data-id=\"992\">inf\u00e2ncia <\/a>transbordava nas pequenas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, das pe\u00e7as de teatro que eu criava com minha prima e apresentava para a fam\u00edlia embaixo do abacateiro, aos desenhos de bonecas na agenda telef\u00f4nica de casa entre uma letra e outra. Percebo, hoje, que essas bonecas tamb\u00e9m eram pequenas Ecos, pequenos looks, pequenas experimenta\u00e7\u00f5es que vinte e tantos anos depois migrariam para o corpo e para a fotografia na s\u00e9rie <em>Estudos para Eco<\/em>. As anota\u00e7\u00f5es de meus pais naquelas p\u00e1ginas-limbo da agenda moldavam-se a mim.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-768x1024.jpeg\" alt=\"Eco Zazu - autofabula\u00e7\u00e3o drag\" class=\"wp-image-1849\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-768x1023.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5.jpeg 926w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 1 \u2013 Fragmentos da s\u00e9rie <em>Estudo para Eco #0<\/em>, Eco Zazu. Caneta esferogr\u00e1fica e l\u00e1pis de cor sobre papel, 2005. Imagem da autora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:0px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando maior e produzindo como artista visual, j\u00e1 figurava em fotos, pinturas e v\u00eddeos desde 2018. Eu trabalhava principalmente com o mito grego de Narciso e a ideia de narcisismo, at\u00e9 encontrar em seu par rejeitado quem realmente me interessava: a ninfa condenada a repetir as \u00faltimas palavras que escuta, Eco. A impossibilidade de se comunicar, o vazio identit\u00e1rio, o ressoar do passado, o reflexo constante do outro, a fragilidade e a for\u00e7a de sua voz eram tamb\u00e9m minhas. Vejo o poder que h\u00e1 em ser t\u00e3o vulner\u00e1vel, um espelho vivo que rebate tudo que lhe \u00e9 lan\u00e7ado. Minhas tias me chamavam de Zazu \u2013 nome do p\u00e1ssaro do Rei Le\u00e3o da Disney que reassistia incansavelmente, e eu pequena ecoava toda vez que ele aparecia no filme: Zazu, Zazu, Zazu, Zazu. Resido entre o \u00edntimo e o mitol\u00f3gico, entre uma piada interna e uma cat\u00e1strofe sublime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi em 2020 que houve certeza: Eco precisava habitar nosso mundo tamb\u00e9m, com todos os riscos e incertezas que essa necessidade carregava. Medo do outro, medo dos julgamentos, medo de n\u00e3o ser capaz, medo de n\u00e3o haver lugar, medo de tornar p\u00fablico o que faz parte do mais \u00edntimo e verdadeiro. Protegia-nos em nossa casca-concha que, ensinadas a habit\u00e1-la, se tornou um lugar frio, duro e apertado de conforto. Com uma for\u00e7a absurda a expulso de l\u00e1, um trabalho de parto constante que acontece simultaneamente a sua cria\u00e7\u00e3o no mundo: preciso aprender a andar como eu andaria se fosse livre, como falaria se fosse livre, como olharia para os outros se fosse livre. Lentamente, pouco a pouco, dedo por dedo, testo a temperatura da \u00e1gua: estou segura o suficiente para me expor? Estou madura? Um est\u00fadio fotogr\u00e1fico improvisado no quarto com uma c\u00e2mera na contagem regressiva era cen\u00e1rio para esses testes-autorretratos enquanto o terr\u00edvel v\u00edrus tamb\u00e9m confinava todos os outros \u00e0s suas conchas. Surgiram assim os primeiros <em>Estudos para Eco<\/em>: formas de colocar-se \u00e0 prova, de vestir esse esp\u00edrito em diferentes corpos at\u00e9 encontrar, ou n\u00e3o, um que seja seu. Conflitos identit\u00e1rios j\u00e1 me parecem pertencer, sempre experimentando faces, talvez tenha sa\u00eddo da concha enquanto adolescente. Justamente da casca que surgiu a ideia do primeiro ensaio, em rela\u00e7\u00e3o com outros dois elementos-chave: o buqu\u00ea de autopiedade e a gargantilha de f\u00f3sforos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"336\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2-1024x336.jpeg\" alt=\"Eco Zazu - autofabula\u00e7\u00e3o drag\" class=\"wp-image-1846\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2-1024x336.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2-300x98.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2-768x252.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2.jpeg 1470w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 2 \u2013 Fragmentos da s\u00e9rie <em>Estudo para Eco #1 (Buqu\u00ea de Autopiedade)<\/em>, Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leque de habilidades que ser uma drag aut\u00f4noma exige se abriu, me desafiando. A primeira, a mais demorada e talvez a mais importante na transforma\u00e7\u00e3o, \u00e9 vizinha do que sempre fiz, mas pintar meu rosto n\u00e3o \u00e9 pintar uma tela: preciso primeiro conhecer os contornos do meu suporte, onde sombrear, onde iluminar, o que esconder, o que criar. As peculiaridades da maquiagem demandam uma pesquisa pr\u00f3pria na cultura drag entre a imensid\u00e3o de truques\/saberes que antes s\u00f3 podiam ser aprendidos atrav\u00e9s de uma outra drag e hoje est\u00e3o a dois cliques de dist\u00e2ncia \u2013 aprendi a esconder sobrancelhas com cola bast\u00e3o, p\u00f3 transl\u00facido, corretivo vermelho e base para ent\u00e3o desenhar novas que nunca ficar\u00e3o sim\u00e9tricas; a moldar queixos, narizes e ma\u00e7\u00e3s do rosto apenas com contorno e iluminador; a desenhar uma nova boca e a emoldurar olhos. N\u00e3o foi \u00fatil saber a propor\u00e7\u00e3o de terebentina para \u00f3leo de linha\u00e7a ou como n\u00e3o deixar uma pincelada evidente na tela, mas por de tr\u00e1s das ferramentas diferentes, a teoria se aplica: contrastes e harmonias crom\u00e1ticas, transi\u00e7\u00e3o de tons, luz e sombra, linhas e manchas. N\u00e3o apenas no rosto, mas penso todo o conjunto da montaria como elementos de uma pintura que dialogam, se reafirmando ou contradizendo dentro de um conceito\/ideia\/composi\u00e7\u00e3o total.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O enquadramento das fotos em plano m\u00e9dio no primeiro ensaio me salvava, propositalmente, de lidar com o restante da montaria: meu figurino era uma simples linha felpuda contornando meu peito, emprestada da sacola de materiais e retalhos de minha m\u00e3e. Ainda n\u00e3o me sentia segura o suficiente para sequer comprar roupas para mim, e n\u00e3o sabia costurar para materializar as ideias que tinha \u2013 apenas aqueles retalhos, cola, grampos, muita vontade, linhas soltas e fios corridos. Desses materiais e do meu analfabetismo t\u00eaxtil nasce o segundo ensaio.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"336\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-1024x336.jpeg\" alt=\"Eco Zazu - autofabula\u00e7\u00e3o drag\" class=\"wp-image-1847\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-1024x336.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-300x98.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-768x252.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3.jpeg 1470w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 3 \u2013 Fragmentos da s\u00e9rie <em>Estudo para Eco #2 (Linhas soltas e fios corridos),<\/em> Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentemente dos dois primeiros, por\u00e9m com as mesmas limita\u00e7\u00f5es, o terceiro ensaio \u00e9 mais um retorno \u00e0 inf\u00e2ncia, agora a nomeando e categorizando como uma experi\u00eancia compartilhada: uma crian\u00e7a viada. Incorporo, ainda do meu jeito gambiarrista<em>,<\/em> elementos como la\u00e7os, bonecas, super-her\u00f3is, gravatas, colares e brincos que remetem aos estere\u00f3tipos de g\u00eanero impostos desde o momento de nossa designa\u00e7\u00e3o como menino ou menina, que, para cisg\u00eaneros, desencadeia toda uma performance que guiar\u00e1 o resto de suas vidas numa constante reafirma\u00e7\u00e3o, construindo o g\u00eanero que diz ser apenas consequ\u00eancia. Al\u00e9m dos elementos simb\u00f3licos mais reconhec\u00edveis, os prendedores de roupa acoplados nas unhas fazem men\u00e7\u00e3o a essas pequenas performances da crian\u00e7a viada que buscam experi\u00eancias pr\u00f3ximas \u00e0s que foram reservadas para aquelas designadas ao sexo oposto. Tamb\u00e9m \u00e9 o caso da toalha na cabe\u00e7a para simular cabelos longos, mas aqui representada atrav\u00e9s de uma mem\u00f3ria particular: as fitas amarradas em minha orelha remetem \u00e0s que amarrava nas orelhas de Leitoa, a ursinha preferida que fazia parte da Turma do Pooh como Leit\u00e3o e foi transformada na boneca que nunca tive, para quem fazia vestidos e roupinhas com formas de docinho e peda\u00e7os de tecido amarrados. \u00c9 uma inf\u00e2ncia de hoje, de crian\u00e7as que j\u00e1 s\u00e3o adultas e de crian\u00e7as que j\u00e1 nem mais existem, todas compartilhando de uma mesma verdade que transbordava de seus corpos desde muito cedo. Verdade inconveniente e inexplic\u00e1vel que, por este mesmo motivo, s\u00e3o for\u00e7adas a esconder apenas para n\u00e3o entrar em choque com uma cisheteronormatividade que colapsa com a simples exist\u00eancia de um ser que n\u00e3o se adequa a seus padr\u00f5es e \u00e9 inocente demais para o fazer de forma confrontante. A crian\u00e7a viada escancara a fic\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter performativo do g\u00eanero, quebrando a sequ\u00eancia sexo-g\u00eanero-sexualidade pressuposta como natural da forma mais doce e explosiva poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"336\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1024x336.jpeg\" alt=\"Eco Zazu - autofabula\u00e7\u00e3o drag\" class=\"wp-image-1844\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1024x336.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-300x98.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-768x252.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image.jpeg 1470w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 4 \u2013 Fragmentos da s\u00e9rie <em>Estudo para Eco #3 (look para seu pr\u00f3prio ch\u00e1 de revela\u00e7\u00e3o),<\/em> Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia minha m\u00e3e achou um bolero felpudo branco, disse que lembrou de mim e perguntou se eu queria. Outro dia, casualmente procurando bijuterias online, achei brincos de pompom. Como pe\u00e7as de um quebra-cabe\u00e7a que guardo esperando encontrar suas complementares, algumas ideias v\u00e3o se formando ao longo do tempo e magnetizando umas \u00e0s outras at\u00e9 formarem uma composi\u00e7\u00e3o coesa e o conceito s\u00f3 vem no final, \u00e0s vezes meses depois, como uma fita que amarra esse conjunto com um la\u00e7o no topo: foi o caso do quarto ensaio. Ap\u00f3s produzi-lo de forma t\u00e3o espont\u00e2nea, apenas encaixando pe\u00e7as, vi nos retratos algum tipo de palha\u00e7o soturno, descri\u00e7\u00e3o que de certa forma me cabe e j\u00e1 existe em forma de personagem: o palha\u00e7o tr\u00e1gico de um dos meus jogos favoritos desde os 7 anos de idade, The Sims. O palha\u00e7o aparece quando seus personagens est\u00e3o miser\u00e1veis e t\u00eam sua pintura em casa. Ele tenta anim\u00e1-los mas n\u00e3o consegue por tamb\u00e9m ser sentimental, os deixando ainda mais tristes. Anda em torno da casa chorando e tossindo, e a \u00fanica coisa que o faz feliz \u00e9 insult\u00e1-lo. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel livrar-se dele pondo fogo ou vendendo sua pintura, chamando os Exterminadores de Palha\u00e7os ou fazendo seu personagem ficar feliz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"336\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1024x336.jpeg\" alt=\"Eco Zazu - autofabula\u00e7\u00e3o drag\" class=\"wp-image-1845\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1024x336.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-300x98.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-768x252.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1.jpeg 1470w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 5 \u2013 Fragmentos da s\u00e9rie <em>Estudo para Eco #4 (o palha\u00e7o tr\u00e1gico),<\/em> Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda n\u00e3o estava pronta para sair de casa, mas o suficiente para pisar fora do quarto. O quintal da casa dos meus pais no Rio Tavares foi mais um passo na lenta transi\u00e7\u00e3o do fundo branco do est\u00fadio improvisado, que passou para fundo preto e cinza no Estudo #4 feito de len\u00e7\u00f3is, para ent\u00e3o me fotografar no ensaio seguinte diante dos len\u00e7\u00f3is confessados e pendurados no varal com um peda\u00e7o de mundo nas bordas das fotos. Entre eles, Eco do sonho de uma dona de casa suburbana, uma vers\u00e3o glamourizada, hollywoodiana, algo que nunca foi nem ser\u00e1 para elas nem para mim: da esposa que eu nunca vou ser, para a esposa que eu nunca vou ter. Preocupo-me aqui, pela primeira vez, com enchimentos de peito e de quadril: come\u00e7o a fabular meu corpo-pr\u00f3tese em constante mudan\u00e7a (como todos os outros) e a aprender como mold\u00e1-lo com espumas, silicones, suti\u00e3s, espartilhos e meias-cal\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"336\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4-1024x336.jpeg\" alt=\"Eco Zazu - autofabula\u00e7\u00e3o drag\" class=\"wp-image-1848\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4-1024x336.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4-300x98.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4-768x252.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4.jpeg 1470w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 6 \u2013 Fragmentos da s\u00e9rie <em>Estudo para Eco #5 (do que nunca ser\u00e1),<\/em> Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do outro lado do quintal, crescia entre os p\u00e9s de milho de nossa horta o pesadelo: um ser que n\u00e3o \u00e9 org\u00e2nico nem transg\u00eanico, nem planta nem gente, nem homem nem mulher. Em Mar\u00e7o de 2021, colhendo milhos com minha m\u00e3e, fiquei deslumbrada com a textura dos cabelos sedosos do vegetal que me lembraram da minha falta de perucas, com apenas uma at\u00e9 ent\u00e3o. Como aconteceu com o bolero felpudo branco no Estudo #4, aquela textura pedia um <em>look<\/em> inteiro ao seu redor: nesse caso, um <em>look<\/em> inteiro de milho. Como aquela safra que colh\u00edamos j\u00e1 estava madura, plantamos uma nova e esperei quatro meses para colher o resultado, que serviria de cen\u00e1rio e de material para a montaria: cabelos de milho, folhas de milho, espiga de milho e milho estourado. V\u00e1rios testes foram necess\u00e1rios antes da confec\u00e7\u00e3o final, uma vez que trabalhar com material org\u00e2nico tamb\u00e9m demanda aprender seu tempo e formas de conserv\u00e1-lo. Os cabelos e as folhas secavam em quest\u00e3o de horas e perdiam sua apar\u00eancia desejada, o que \u00e9 um grande problema para uma equipe de uma mona s\u00f3 que passa quatro horas apenas se maquiando. Tudo tinha que ser planejado para ser feito na hora certa: primeiro a saia de pipocas do vestido na noite anterior, que s\u00e3o mais resistentes, para na manh\u00e3 seguinte fazer a parte superior de folhas. No in\u00edcio da tarde seria a peruca feita de cabelos de milho, que deveriam estar na \u00e1gua at\u00e9 colar na rede base para a peruca e depois sempre borrifados. Por fim, no meio da tarde come\u00e7aria a maquiagem para fotografar de noite. O medo de ser observada ainda estava l\u00e1, com cada flash imaginando o que os vizinhos iriam pensar. Sabia, entretanto, que deveria me acostumar a ser olhada e com o tempo acabar gostando disso, resgatar aquela parte de mim que fazia pe\u00e7as de teatro para a fam\u00edlia debaixo do abacateiro com a prima. Agora sou s\u00f3 eu, modificada, cheia de pr\u00f3teses, maquiagem, artif\u00edcios e truques para me sentir mais org\u00e2nica, mais verdadeira. Eu, <em>transg\u00eanerica<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"336\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-1024x336.jpeg\" alt=\"Eco Zazu - autofabula\u00e7\u00e3o drag\" class=\"wp-image-1850\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-1024x336.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-300x98.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-768x252.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6.jpeg 1470w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 7 \u2013 Fragmentos da s\u00e9rie <em>Estudo para Eco #6 (T de org\u00e2nica),<\/em> Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de ent\u00e3o, quando o mundo reabriu em 2022, pisei l\u00e1 fora. Comecei a frequentar espet\u00e1culos, festas, bares e vernissages montada, por vezes deixando as pessoas em d\u00favida se fa\u00e7o parte do show\/mostra, se sou uma artista convidada ou uma intrusa descarada. N\u00e3o sou mais uma imagem congelada, mas viva, me relacionando, afetando e sendo afetada por outres. Comecei a performar e fazer dublagens, e como j\u00e1 desconfiava, acho que \u00e9 o que mais gosto de fazer. Aprendi muitos truques e ainda restam muitos outros para aprender, como o desafio de evitar que minhas sobrancelhas coladas derretam com o calor insuport\u00e1vel da ilha ou como voltar para casa com todas as unhas coladas nos dedos. Exijo muito de mim, esque\u00e7o o qu\u00e3o recente tudo isso \u00e9 e o tanto que j\u00e1 andei, logo eu que olho tanto para o passado \u2013 espelho seletivo. Secretamente acredito que todo esse processo n\u00e3o vai ter mais tanta gra\u00e7a quando tudo estiver resolvido e eu n\u00e3o sentir mais as borboletas no est\u00f4mago que acompanham aquele medo, um medo que tenho descoberto ser doce, aquele mesmo de empurrar-se para fora da concha. Antes o sentia t\u00e3o intenso ao simplesmente pisar fora de casa, agora est\u00e1 quase apagado nessa situa\u00e7\u00e3o, mas volta ao entrar ou mesmo pensar em estar num palco. Quero sentir esse tipo de medo mais vezes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como nasce uma persona drag? Neste ensaio autobiogr\u00e1fico, Eco Zazu percorre sete experimenta\u00e7\u00f5es visuais para refletir sobre identidade, performance, maquiagem, figurino e mem\u00f3ria. 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