{"id":612,"date":"2022-11-21T20:20:44","date_gmt":"2022-11-21T23:20:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=612"},"modified":"2022-11-21T20:21:30","modified_gmt":"2022-11-21T23:21:30","slug":"descarte-do-estranho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/descarte-do-estranho\/","title":{"rendered":"O descarte do estranho: a exclus\u00e3o da diferen\u00e7a na cultura drag"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mia The Witch<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Trabalhar com arte no Brasil &#8211; especialmente nos \u00faltimos 4 anos &#8211; n\u00e3o tem sido uma tarefa f\u00e1cil. \u00c9 de conhecimento geral que a nossa classe, al\u00e9m de sofrer diversos ataques, n\u00e3o tem recebido muitos incentivos, apesar da import\u00e2ncia do papel cultural na forma\u00e7\u00e3o da cidadania. Com isso, quero dizer que estou ciente sobre o qu\u00e3o desafiador \u00e9 permanecer como agente da arte em per\u00edodos como o que rec\u00e9m passamos: um governo conservador que desde seu primeiro ano de mandato tratou a arte como se fosse um adorno f\u00fatil, uma trivialidade que poderia ser cortada do or\u00e7amento p\u00fablico sem gerar impactos sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando falamos de arte LGBTQIAP+, precisamos considerar que os estigmas pelos quais passamos, infelizmente, acarretam em ainda mais neglig\u00eancia das pol\u00edticas culturais para n\u00f3s. Entretanto, o que eu gostaria de abordar neste ensaio \u00e9 como essa l\u00f3gica excludente e estigmatizante promovida pela&nbsp; heteronormatividade social acaba dificultando a inser\u00e7\u00e3o de artistas queers que n\u00e3o atendam a um padr\u00e3o est\u00e9tico espec\u00edfico dentro da sua pr\u00f3pria comunidade.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu me monto h\u00e1 5 anos. Comecei minha jornada drag atrav\u00e9s de experimentos em casa, como um hobbie. Esse lazer foi se tornando cada vez mais frequente na minha vida, at\u00e9 que passei a produzir conte\u00fados para internet, criando minha persona. Essa persona, como j\u00e1 apresentei em outras<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/nasce-uma-drag-monstra\/\"> publica\u00e7\u00f5es<\/a> aqui no Grafia, diverge de um padr\u00e3o est\u00e9tico hegem\u00f4nico. O que me atrai na monta\u00e7\u00e3o \u00e9 o diferente. Sou uma bruxa com gosto no horror, no grotesco e peculiar, apesar de flertar com o glamour em muitas de minhas cria\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo uma pessoa n\u00e3o-bin\u00e1ria, n\u00e3o adoto a pr\u00e1tica de aquendar porque acredito que representa\u00e7\u00f5es femininas s\u00e3o plurais e n\u00e3o se limitam \u00e0 genit\u00e1lia. Tamb\u00e9m sou uma queen com p\u00ealos corporais: o visual andr\u00f3gino sempre foi uma das minhas maiores paix\u00f5es. Essa \u00e9 a Mia The Witch, uma drag monstra que desafia regras de normatividade impostas dentro do pr\u00f3prio of\u00edcio drag.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com todo esse tempo dentro da arte, acabei percebendo recentemente em mim o desejo de levar a Mia para fora dos ambientes digitais. Outra grande paix\u00e3o que me fez come\u00e7ar o drag foi o encantamento que sempre senti pelo teatro. Assim, comecei uma nova jornada em busca de me tornar a performer que eu desejo ser. \u00c9 exatamente nesse ponto que come\u00e7ou a surgir a problem\u00e1tica que orienta minha incomoda\u00e7\u00e3o motivadora para escrever este ensaio. Tem sido frustrante perceber que os contratantes de arte drag em nossa cidade, Porto Alegre, ainda n\u00e3o estejam t\u00e3o abertos e\/ou receptivos \u00e0 arte de queens que n\u00e3o emulem em sua persona um perfil a la <em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/RuPaul%27s_Drag_Race\">Drag Race<\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha compreens\u00e3o, o drag \u00e9 uma arte plural que deve ser celebrada justamente pela sua capacidade de transforma\u00e7\u00e3o constante. O ser drag \u00e9 m\u00faltiplo. N\u00e3o h\u00e1 apenas um modo de se exercer a arte drag, nem deveria existir um modo \u201ccorreto\u201d de se fazer. Acredito que a forma\u00e7\u00e3o de nossas personas s\u00e3o processos extremamente \u00edntimos, nos quais revisitamos a n\u00f3s mesmos em busca dessa identidade artista, para, ent\u00e3o, nascermos enquanto drags. Desse modo, como poder\u00edamos julgar errado uma est\u00e9tica drag espec\u00edfica, se os diferentes estilos s\u00e3o resultados das subjetividades e experi\u00eancias sociais e culturais de cada indiv\u00edduo?<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/mia-e-tiffany-768x1024.jpg\" alt=\"O descarte do estranho\n\" class=\"wp-image-613\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/mia-e-tiffany-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/mia-e-tiffany-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/mia-e-tiffany.jpg 828w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tiffany Plazza e Mia The Witch <br>Fonte: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confesso n\u00e3o conseguir compreender exatamente o motivo pelo qual existe ainda esse bloqueio no contrato de artistas que tenham abordagens drag alternativas ao padr\u00e3o est\u00e9tico RuPaul. Posso levantar algumas hip\u00f3teses como, por exemplo, a d\u00favida sobre o potencial art\u00edstico, ou, o medo da rejei\u00e7\u00e3o do p\u00fablico \u00e0 proposta do artista em quest\u00e3o. De qualquer forma, acredito que isso pode ser classificado como um preconceito infundado.&nbsp; Considero que uma forma segura de qualificar o trabalho de um artista \u00e9 verificando seu portf\u00f3lio e o avaliando a partir dessas experi\u00eancias, o que pode ampliar as oportunidades. Do contr\u00e1rio, me parece um boicote \u00e0 produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica em sua diversidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal qual a sociedade imp\u00f5e&nbsp; normatividades sob nossos corpos <em>queers<\/em>, \u00e9 necess\u00e1rio perceber os momentos em que adotamos esse mesmo mecanismo social dentro da nossa comunidade. Isso acontece, por exemplo, quando, no lugar de acolher as diferen\u00e7as, considerando as experi\u00eancias de rejei\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vivenciamos, acabamos reproduzindo uma s\u00e9rie de normas a serem seguidas, descartando todes aqueles que fogem desse padr\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha vis\u00e3o, se nosso mercado local desconstru\u00edsse a ideia de que  uma drag leg\u00edtima \u00e9 apenas aquela que se aproxima da est\u00e9tica RuPaul, haveria maior espa\u00e7o para que as artistas alternativas fossem contratadas. Isso poderia fortalecer a cena drag porto-alegrense e, quem sabe, poder\u00edamos nos tornar refer\u00eancia nacional na variedade de est\u00e9ticas drag.  Nossa cidade tem espa\u00e7os incr\u00edveis para o desempenho da arte drag, h\u00e1 um p\u00fablico muito interessado em consumir a arte e tamb\u00e9m h\u00e1 abund\u00e2ncia em artistas muito potentes. O que nos falta \u00e9 parte dos contratantes locais perceberem que h\u00e1 muito mais ganhos apostando na diversidade da cena do que no descarte do estranho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse ensaio, The Witch analisa o descarte do estranho na cultura drag, destacando a diversidade entregue pelas artistas 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