{"id":823,"date":"2023-07-10T16:21:35","date_gmt":"2023-07-10T19:21:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/?p=823"},"modified":"2023-07-10T16:53:11","modified_gmt":"2023-07-10T19:53:11","slug":"gloria-crystal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/gloria-crystal\/","title":{"rendered":"Gloria Crystal: uma conversa sobre o transformismo e o movimento LGBTQIAPN+"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entrevista por: Douglas Ostruca<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de atuar como transformista h\u00e1 mais de 36 anos, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gloriacrystaloficial\/\">Gloria Crystal<\/a> \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e participa ativamente na pol\u00edtica. Em 2023 assumiu o cargo de chefe da SJCDH (Divis\u00e3o de\u00a0<em>Diversidade<\/em>\u00a0e de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia da Secretaria de Justi\u00e7a, Cidadania e Direitos Humanos). Em 2022, recebeu do Governo do Rio Grande do Sul, a Medalha Sim\u00f5es Lopes Neto, como forma de reconhecimento pelas suas contribui\u00e7\u00f5es para a cultura e para a sociedade de modo mais amplo. \u00a0Trazemos a seguir alguns trechos de uma conversa com a artista que aconteceu no dia 24 de julho de 2021, atrav\u00e9s da plataforma Jitsi. Entre os assuntos em destaque est\u00e3o quest\u00f5es relativas ao movimento LGBTQIAPN+ e a cena transformista, tendo em vista aspetos da trajet\u00f3ria pessoal de Crystal nesses \u00e2mbitos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Gloria-1-1024x683.jpeg\" alt=\"Gloria Crystal \" class=\"wp-image-825\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Gloria-1-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Gloria-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Gloria-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Gloria-1.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Gerson Roldo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Gloria, para mim \u00e9 um prazer estar trocando contigo, sinto que o encontro com esse espa\u00e7o do transformismo \u00e9 tamb\u00e9m um gesto de reavivar e criar outras mem\u00f3rias. Fico muito feliz pela oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Tamb\u00e9m fico feliz, conte comigo pra compartilhar um pouquinho da minha hist\u00f3ria e da hist\u00f3ria de uma popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Gloria, pra come\u00e7ar, voc\u00ea pode falar um pouco sobre sua atua\u00e7\u00e3o no movimento LGBTQIA+?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria) <\/strong>Acho que pra mim tudo aconteceu, assim, por curiosidade, curiosidades que me levaram longe. Entrei pra pol\u00edtica, fui uma das primeiras travestis a conquistar um cargo p\u00fablico no Brasil dentro de uma gest\u00e3o, principalmente em Porto Alegre. Fiquei duas vezes como diretora de inclus\u00e3o social na Bienal do Mercosul, como trans, negra e perif\u00e9rica. Pra algumas pessoas isso pode ser porra nenhuma, mas acho que isso n\u00e3o \u00e9 uma luta minha, uma conquista minha, mas de uma popula\u00e7\u00e3o como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Hoje, eu continuo acolhendo, continuo dando a cara a tapa como qualquer outra militante, isso \u00e9 uma coisa que t\u00e1 na alma, no sangue, \u00e9 uma coisa que tu n\u00e3o deixa. Sinto, \u00e0s vezes, que a minha parte enquanto militante eu j\u00e1 fiz, por exemplo, eu trabalho num lugar onde convivo com a popula\u00e7\u00e3o como um todo, popula\u00e7\u00e3o que se encontra em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Essa n\u00e3o \u00e9 a realidade de todas as trans no Brasil, n\u00e3o \u00e9 a realidade de todos LGBTs que \u00e0s vezes tamb\u00e9m n\u00e3o tem oportunidade de emprego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Na pol\u00edtica, se tu \u00e9 de esquerda tu \u00e9 comunista, se tu \u00e9 de direita tu \u00e9 fascista. Tanta gente que fala em democracia, mas tu n\u00e3o pode exercer a palavra. Quando a gente fala do v\u00edrus HIV, teve uma luta que n\u00e3o foi partid\u00e1ria, nem partido de esquerda, nem de direita, foram as travestis que tiveram que ir no pal\u00e1cio Guanabara pedir por medica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 pelas travestis, mas tamb\u00e9m pros gays. Quem ganhou muito com isso foi a popula\u00e7\u00e3o gay. O que me incomoda \u00e9 a falta de mem\u00f3ria, parece que o importante \u00e9 s\u00f3 sair na rua de m\u00e3o dada com o namorado. A\u00ed \u00e9 complicado. Com toda essa luta que a gente fez, n\u00f3s trans ainda passamos por preconceitos. Isso \u00e9 uma coisa que ainda existe entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Acho importante esse ponto que voc\u00ea toca Gloria, porque \u00e0s vezes a gente n\u00e3o reconhece os preconceitos na nossa pr\u00f3pria comunidade LGBTQIAPN+, isso precisa ser discutido pra que a gente possa avan\u00e7ar. Tamb\u00e9m compartilho desse seu estranhamento com as novas gera\u00e7\u00f5es, uma coisa que percebo \u00e9 que acabamos dando mais visibilidade para personalidades americanas e deixamos de conhecer as hist\u00f3rias das pessoas que fazem parte e constru\u00edram nossos pr\u00f3prios territ\u00f3rios de vida. <strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Depende da gente tamb\u00e9m fazer com que alguma coisa mude. Eu acho que a primeira coisa \u00e9 se politizar mais, ficamos muito nas redes sociais e n\u00e3o aproveitamos coisas saud\u00e1veis e trocas onde possamos compartilhar ensinamentos, sinto um pouco falta disso. A gente n\u00e3o consegue de forma alguma avan\u00e7ar se n\u00e3o for unido. \u00c9 como se voc\u00ea estivesse concentrado num QG e fosse pra guerra, no momento em que voc\u00ea est\u00e1 concentrado voc\u00ea est\u00e1 te armando, est\u00e1 te preparando psicologicamente. Por exemplo, a gente tem em Porto Alegre duas Paradas LGBTs, o que \u00e9 um absurdo, como a gente vai querer uni\u00e3o se a gente n\u00e3o se une nem como movimento social pra realizar um evento \u00fanico, pol\u00edtico-cultural. Eu vejo que a gente est\u00e1 perdendo tempo sem querer trocar com outras pessoas e, ao mesmo tempo, em algum momento a gente pode ser chamado pra essa guerra e a\u00ed a gente n\u00e3o vai ter armas para se defender. A\u00ed o que acontece, colocam l\u00e1 um presidente homof\u00f3bico, a gente n\u00e3o sabe o que vai acontecer daqui para frente, a gente s\u00f3 sabe que quem \u00e9 mais vulner\u00e1vel est\u00e1 perdendo espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria) <\/strong>Ent\u00e3o, quando a gente fala de movimento social, de pol\u00edtica p\u00fablica, de querer avan\u00e7o no Brasil que \u00e9 completamente machista, sexista, homof\u00f3bico, transf\u00f3bico, as conversas, as trocas s\u00e3o extremamente necess\u00e1rias, porque s\u00e3o armas que a gente tem. E a\u00ed independe da idade da pessoa, independe da gera\u00e7\u00e3o que a pessoa veio, acho que cada uma tem alguma coisa pra acrescentar a outra, entendeu? Eu acho que complementa, a minha experi\u00eancia pode te trazer alguma coisa de boa e a tua experi\u00eancia de vida tamb\u00e9m pode me trazer alguma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Tamb\u00e9m acredito nesses encontros, acho que as conversas s\u00e3o um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de subjetividade, onde a gente tem a oportunidade de se construir. Gloria, quanto ao transformismo, pra mim essa n\u00e3o \u00e9 uma cena que j\u00e1 foi, algo anterior ao drag, acho que o transformismo permanece em acontecimento. Eu aposto no transformismo como espa\u00e7o de conex\u00e3o, talvez existam a\u00ed caminhos para ir al\u00e9m dessas dificuldades de articula\u00e7\u00e3o que est\u00e1vamos falando. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, como voc\u00ea percebe o transformismo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Na verdade, l\u00e1 pelos anos 80, era tudo muito tava l\u00e1, o palco tava, as boates estavam l\u00e1. Tinha que ter tr\u00eas coisas primordiais para tu se destacar, talento, coragem e visual. Porque n\u00e3o adianta voc\u00ea ter talento e n\u00e3o ter coragem pra isso, em uma \u00e9poca em que todo mundo tava muito dentro do arm\u00e1rio e o preconceito entre as tribos era maior ainda. Quem fazia show n\u00e3o era da tribo das gays, sabe. Travesti pouco entrava em boate, entrava e as pessoas ficavam com medo, os pr\u00f3prios gays. \u00c9 bem complicado isso, mas ao mesmo tempo era um espa\u00e7o bem aberto, bem democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> O transformismo \u00e9 um ato pol\u00edtico, art\u00edstico, pol\u00edtico-cultural. Eu, durante muito tempo, trabalhei em dois lugares. Foi o trabalho da noite, com espet\u00e1culos, que me ajudou a sobreviver, e hoje, de vez em quando, \u00e9 o que me alimenta na hora do aperto, porque todo mundo tem seus apertos. Naquela \u00e9poca era contradit\u00f3rio, entendeu, era contradit\u00f3rio, muitas pessoas chegavam, eu chegava de menininho me produzia na boate que fazia show, tirava a maquiagem e ia embora, se sa\u00edsse produzida era presa. A\u00ed era complicado, l\u00e1 a gente limpava a delegacia, transava com pessoas que a gente n\u00e3o queria, era muito complicado, muito dif\u00edcil. Tu tinha que gostar mesmo, eu tinha que continuar no arm\u00e1rio, como muitas continuavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> \u00c9 um absurdo que as pessoas sejam presas e violentadas por se expressarem publicamente fora das normas heterossexuais!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Ainda sobre a cena transformista dos anos 1980, naquela participa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea fez no evento Poa in Drag de 2021, voc\u00ea chegou a comentar que no in\u00edcio participava mais da cena que acontecia no gueto e, em algum momento, voc\u00ea teve a oportunidade de fazer shows e espet\u00e1culos para a alta sociedade de Porto Alegre, como foi isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Voc\u00ea perguntou como \u00e9 que foi a transi\u00e7\u00e3o de quando eu sa\u00ed do gueto. Eu conheci uma pessoa na \u00e9poca, j\u00e1 pelo in\u00edcio dos anos 90, ele come\u00e7ou a me levar pra festas, desfiles, enfim, pra participar de coisas fora gueto. Foi muito bom, Miltinho Talaveira, a gente se v\u00ea at\u00e9 hoje. Ele era uma pessoa que me levava, ele levava o novo. Como eu, muitas outras se projetaram na \u00e9poca, como a Carla que era uma travesti maravilhosa, ela era bem voltada ao p\u00fablico familiar, era muito dif\u00edcil agradar esse povo, era muito complicado. Eu ia fazer festa, jantar de associa\u00e7\u00f5es conhecidas, eu chegava nos lugares e os maridos ficavam apavorados, mas a\u00ed quando eu ia pro camarim eles iam l\u00e1 me tentiar, entendeu.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_20220719_202613_735-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-824\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_20220719_202613_735-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_20220719_202613_735-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_20220719_202613_735-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_20220719_202613_735.jpg 1040w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Acervo Alex Cascalho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> E como foi que Gloria Crystal aconteceu, como voc\u00ea foi levada at\u00e9 os palcos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Eu ia muito numa boate que se chamava L&#8217;entourage. Era eu e uma turminha, na \u00e9poca, Rebecca McDonald, que foi uma grande artista, Dandara Rangel. A gente n\u00e3o era nada, assim, eu era Miguel, a Dandara era a Jair, o Ronaldo era Rebecca, ali\u00e1s a Rebecca era o Ronaldo, enfim. Ent\u00e3o a gente ficava dan\u00e7ando num canto. Tinha um produtor que os shows eram maravilhosos, ele viu a gente cantando e dublando as m\u00fasicas, bichinhas n\u00e9, num canto, as menos bichas n\u00e3o ficavam perto da gente, olha o preconceito desde da \u00e9poca.&nbsp; A\u00ed, aquele cara chegou e disse assim: tu lembra muito uma amiga minha que \u00e9 atriz, ela se chama Gloria Cristal. Ent\u00e3o ele me chamou para fazer um show, inspirada na figura dela. Enfim, eu achei que era bobagem aquilo, e daqui a pouco eu me dei conta que ele j\u00e1 estava vendo eu cantando l\u00e1 embaixo, dublando l\u00e1 embaixo h\u00e1 tempo. A\u00ed comecei a ensaiar Rita Pavoni com ele e ele me lan\u00e7ou num s\u00e1bado lotad\u00edssimo, que era noite nobre na casa, eu arrasei, foi muito bom!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Partiu dali e eu comecei a fazer show. Participei de um concurso, que na \u00e9poca os concursos eram \u00f3timos. Festival internacional da can\u00e7\u00e3o, que era todo o Rio Grande do Sul, e ali eu fiquei conhecida. A\u00ed eu comecei a viajar, sair para fazer festas. Dali pro teatro foi um pulo. Parece um pulo, mas n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o, foram d\u00e9cadas (risos). Ent\u00e3o, hoje, eu convivo com essa sociedade como um todo, com teatro, com cinema, eu sempre brinco que a Gloria Crystal n\u00e3o \u00e9 uma travesti e n\u00e3o \u00e9 uma transformista, ela \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o (risos).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Ainda na conversa que voc\u00ea participou no Poa in Drag, voc\u00ea mencionou o espet\u00e1culo <em>Mulheres do Pau-Brasil<\/em> como sendo o espet\u00e1culo onde voc\u00ea foi da noite para o teatro, n\u00e9? Como foi essa adapta\u00e7\u00e3o das performances feitas em casas noturnas para os palcos dos teatros?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> A gente j\u00e1 fazia nas boates shows montados, com diretores, tipo <em>Gaiola das loucas<\/em>. Era assim, estilo diretor que montava um show pra fulana, pra ciclana, pra v\u00e1rias atrizes, v\u00e1rias transformistas. E aquilo ali ficava semanas em cartaz. Eu lembro que na \u00e9poca o Z\u00e9 Ad\u00e3o Barbosa, que \u00e9 meu diretor at\u00e9 hoje, viu v\u00e1rios espet\u00e1culos em boates e chamou essas pessoas, dentre elas eu estava junto, que eu sou muito talentosa. Aloka! (Risos). A\u00ed ele montou um espet\u00e1culo chamado <em>Mulheres do Pau-Brasil<\/em>, s\u00f3 que ele n\u00e3o queria fazer aquilo dentro de uma boate, ele queria fazer no teatro. Ent\u00e3o, ele levou pro teatro, foi o espet\u00e1culo que mais bombou, entende? A partir dali o teatro se abriu pro transformismo, pras travestis. \u00c0s vezes eu tenho saudade disso, eu acho que era tudo muito, tudo muito, intenso. Tudo muito bom. Me sinto saudosa \u00e0s vezes, sabe. Sinto falta das meninas que ca\u00edram no meio da batalha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Na \u00e9poca eu era totalmente transformista, eu ia de neguinho e saia de neguinha, n\u00e9. Mas eu gostava, comecei a fazer teatro ali. O Lauro Ramalho j\u00e1 fazia teatro, o Everton Barreto. J\u00e1 o Castanha fez o caminho inverso, ele saiu do teatro pra dentro das boates. Ficamos 10 anos em cartaz com um espet\u00e1culo que se chamava <em>O Bordel Das Irm\u00e3s Metralha<\/em>. Mas claro que tem muita diferen\u00e7a. Um show de boate tu n\u00e3o d\u00e1 texto, tu dubla, pouco texto tu d\u00e1. O teatro \u00e9 texto, texto, texto, texto e texto. Ahh, mas \u00e9 muito gostoso, porque a gente n\u00e3o faz s\u00f3 pra gay, a gente faz pra um p\u00fablico como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria) <\/strong>Eu t\u00f4 h\u00e1 10 anos dentro do projeto Porto Ver\u00e3o Alegre. Sempre entro com um espet\u00e1culo dentro do projeto, isso \u00e9 muito bom. Trabalho j\u00e1 h\u00e1 36 anos como transformista. Hoje eu participo de um grupo, uma companhia de teatro que se chama Companhia Rid\u00edcula de Teatro. Eu, o Lauro Ramalho, Everton Barreto e Jo\u00e3o Carlos Castanha. A gente t\u00e1 com o espet\u00e1culo <em>Rainhas da Noite<\/em> h\u00e1 2 anos, ele fala da nossa carreira, s\u00e3o n\u00fameros solos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas) <\/strong>Gloria, como voc\u00ea percebeu a chegada da cena drag no Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong>. Come\u00e7ou ali justamente com RuPaul, por volta dos anos 2000, isso trouxe uma nova imagem, n\u00e9, de drag. Eu n\u00e3o era drag, eu era transformista. Tenho um amigo meu que mora em Londres que se chama Eduardo Herrera que \u00e9 DJ, na \u00e9poca ele tinha um contato na Warner, que era a gravadora da RuPaul. Ele comentou que o CD dela seria lan\u00e7ado no mundo inteiro e em alguns lugares teria <em>covers<\/em> de RuPaul, ele me convidou pra fazer um desses <em>covers.<\/em> Eu achava que n\u00e3o tinha nada a ver, mas ele me produziu, a\u00ed eu comecei. Em Porto Alegre eu fui uma das primeiras a interpretar RuPaul, eu tinha quase dois metros de altura com uma peruca loira, as pessoas compraram aquela ideia. Foi bem legal, porque a gente fez um trabalho que trouxe ao mesmo tempo um novo movimento.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\"><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"318\" height=\"318\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0025-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-828\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0025-1.jpg 318w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0025-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0025-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0025-1-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Acervo pessoal de Gloria<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Voc\u00ea comentou agora pouco que Gloria \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o. Sobre isso, como voc\u00ea percebe essa express\u00e3o transformista, a Gloria surgiu como uma persona transformista e depois foi se transformando? Como voc\u00ea entende essa separa\u00e7\u00e3o entre a Gloria do cotidiano, no \u00e2mbito pessoal, e a Gloria institui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Ahh, legal a pergunta! Na verdade, assim \u00f3, tudo foi um crescimento, eu continuo sendo Miguel, que tamb\u00e9m \u00e9 meu nome, eu continuo sendo ele. Eu acho que toda essa mudan\u00e7a, a transi\u00e7\u00e3o de transformista para trans, eu n\u00e3o me considero trans, eu sou uma louca, eu continuo sendo eu, n\u00e3o sei explicar isso. Colocar seios, mudar o rosto, enfim, na \u00e9poca eu lembro que comecei a fazer essas mudan\u00e7as pra ficar com rosto mais feminino, pra poder fazer show, isso se exigia muito. \u00c0s vezes se estava no palco e as pessoas falavam: olha l\u00e1 aquela cara de cavalo. Ent\u00e3o era melhor voc\u00ea atualizar o rosto. E a\u00ed eu comecei todos esses procedimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Mas eu nunca deixei de ser a pessoa que eu sou at\u00e9 hoje, eu olho pra tr\u00e1s no meio dessa hist\u00f3ria toda, a minha ess\u00eancia sempre foi a mesma, eu sempre fui Miguel. Uma pessoa que tem que batalhar, eu sou por mim mesma e n\u00e3o tem o que fazer. Eu transformei o meu corpo, essa transi\u00e7\u00e3o teve um motivo, n\u00e3o que eu quisesse hoje ser uma mulher, eu n\u00e3o quero ser mulher, tamb\u00e9m n\u00e3o quero ser trans. Mas, como aquilo que me dava dinheiro poderia me dar mais, se eu mudasse a minha identidade de g\u00eanero, digamos assim, eu tive que optar por isso, e fiz isso.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0023-1-754x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-829\" width=\"294\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0023-1-754x1024.jpg 754w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0023-1-221x300.jpg 221w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0023-1-768x1044.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG-20220719-WA0023-1.jpg 942w\" sizes=\"auto, (max-width: 294px) 100vw, 294px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Acervo pessoal de Gloria<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> \u00c9 claro que tu paga um pre\u00e7o, tu paga um pre\u00e7o, eu n\u00e3o, porque eu sou uma pessoa conhecida, eu sou uma pessoa bem-vinda em qualquer lugar, gra\u00e7as a Deus. Qualquer lugar que eu entrar as pessoas sabem quem eu sou, ent\u00e3o eu tenho isso, \u00e9 legal d\u00e1 aquele up [movimento do rosto pra cima]. Nesse sentido valeu super a pena, porque todo artista \u00e9 exibido quer aparecer e eu, como artista, \u00e9 \u00f3bvio que sempre quis e quero, at\u00e9 hoje, aparecer. Ent\u00e3o, se eu vou a algum lugar, eu gosto de ser notada, gosto de tirar foto, isso \u00e9 o carinho verdadeiro. Mas, por exemplo, na sua vida particular voc\u00ea perde muito, tu perde, para ter algu\u00e9m do teu lado, \u00e9 complicado, porque as pessoas olham e pensam, \u00e9 uma trans, ent\u00e3o tem que ter um macho do lado. N\u00e3o \u00e9 assim, para mim n\u00e3o funciona desse jeito, ter que casar, assim, ah \u00e9 muito complicado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria) <\/strong>Eu moro com uns amigos e aqui todo mundo me chama de Gloria, eu sou a Gloria, mas eu sei quem eu sou nesse universo, entendeu? Eu sei quem eu sou, \u00e9 comum de repente tu vestir um personagem e&#8230; N\u00e3o que eu vista hoje em dia, eu n\u00e3o, na minha intimidade n\u00e3o, as pessoas que me conhecem e vem me conhecendo elas j\u00e1, ahh \u00e9 a Gloria, com o tempo as pessoas percebem como \u00e9 que funciona isso, que eu n\u00e3o estou 24 horas por dia produzida, sabe? Por isso, antes de falar contigo eu disse, olha n\u00e3o vou me produzir, at\u00e9 para que tu conhe\u00e7a e saiba como \u00e9 que funciona a coisa da minha cabe\u00e7a, pra tu poder contar essa hist\u00f3ria com um pouco mais de verdade, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> A minha hist\u00f3ria \u00e9 \u00fanica, n\u00e3o \u00e9 de todas as outras guerreiras da \u00e9poca, porque cada uma pensava de uma maneira, umas viravam travesti porque tavam afim de virar mesmo. Eu virei travesti porque queria ganhar um pouco mais de dinheiro, como eu te disse, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 shows, n\u00e3o a programas, nunca fiz, nunca tive talento pra isso. Aloka! (risos). S\u00e3o essas coisas assim, tu perde, por um lado, e ganha, por outro. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a realidade de todas as trans no Brasil n\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas)<\/strong> Me chama a aten\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea que fala sobre esse espa\u00e7o do transformismo como um lugar onde as fronteiras entre express\u00e3o art\u00edstica e identidade s\u00e3o fluidas, a pr\u00f3pria Rog\u00e9ria tamb\u00e9m falava isso n\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria) <\/strong>Eu e Rog\u00e9ria \u00e9ramos amigas, eu ia pro Rio e ficava na casa dela, j\u00e1 viajei com ela pra fazer o <em>Gatos e Leopardos<\/em>, estivemos um bom tempo juntas. Ela era uma pessoa assim, quando ela falava da tradicional fam\u00edlia brasileira, eu aprendi muito com isso, \u00e9 o valor de estar inserida e ser vista com carinho e n\u00e3o de maneira marginal. Ela separava muito Astolfo, era como eu assim, eu sei quem eu sou. Mas aquela fantasia que as pessoas fazem em rela\u00e7\u00e3o a mim, isso \u00e9 problema delas, n\u00e3o meu. Eu j\u00e1 n\u00e3o me preocupo mais com isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas) <\/strong>Sobre isso que voc\u00ea falou, que nem sempre \u00e9 tudo muito claro e bem demarcado como as vezes parece. Isso me atravessa de algum modo, \u00e9 tamb\u00e9m o que me atrai para o transformismo. Eu tenho me afirmado estrategicamente como uma bixa n\u00e3o-bin\u00e1ria, mas, ao mesmo tempo, eu sinto que \u00e9 t\u00e3o mais do que isso, sabe? Tenho impress\u00e3o que no transformismo existe espa\u00e7o pra ir al\u00e9m das delimita\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, encontrar coisas sobre n\u00f3s que nem imaginamos ainda, sabe?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Eu vou te dizer uma coisa, o que \u00e9 muito legal, que nos diferencia das outras pessoas, e eu acho que as pessoas deveriam ser mais assim, um pouco mais curiosas. A curiosidade, ela te tira do lugar comum, n\u00e9, a curiosidade faz com que tu saia da tua zona de conforto. \u00c9 muito f\u00e1cil a gente ficar na nossa zona de conforto e n\u00e3o ousar. Eu acho que a partir do momento que tu sai da tua zona de conforto e come\u00e7a a ousar, tu come\u00e7a a crescer como pessoa, tu come\u00e7a a crescer espiritualmente, tu come\u00e7a a ver o que que tu quer. Ent\u00e3o, s\u00e3o coisas que acontecem se tu conseguir sair da tua zona de conforto.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_6343.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-830\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_6343.jpg 720w, https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_6343-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gloria Crystal no Mixx Bar em 06\/09\/2022 <br>Foto: Douglas Ostruca<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria) <\/strong>\u00c0s vezes as pessoas me perguntam como \u00e9 envelhecer, pra mim, a grande luta \u00e9 que minha cabe\u00e7a n\u00e3o acompanha meu corpo, entendeu. Porque vai indo, a tua idade vai aumentando e tu vai puxando aquilo que t\u00e1 caindo, eu j\u00e1 puxei muito n\u00e3o sei mais de onde vou puxar (risos). Mas tem um momento que o teu corpo n\u00e3o acompanha mais a tua cabe\u00e7a. Eu tenho uma cabe\u00e7a muito louca. \u00c0s vezes eu acho que eu tenho 18, 19, 20, 21 anos, e continuo sendo completamente contradit\u00f3ria. Eu contradigo muitas coisas que eu digo e fa\u00e7o, falo de uma maneira e fa\u00e7o de outra completamente diferente. Eu estou sempre saindo da minha zona de conforto, eu n\u00e3o me acomodei. Eu vejo pessoas da minha idade, da minha gera\u00e7\u00e3o, eu digo: ai bixa, como tu t\u00e1 velha que horror. Ali\u00e1s eu pouco converso com bixa velha. Velha que eu falo \u00e9 no sentido assim, tu pode ter 20 anos e ser velho, entendeu. E tu pode ter 56 anos e tu n\u00e3o ser velha, voc\u00ea \u00e9 ativa, est\u00e1 querendo produzir. As pessoas cansam muito r\u00e1pido, ent\u00e3o a coisa mais maravilhosa que tem para mim \u00e9 viver, n\u00e9, \u00e9 viver. \u00c9 fazer alguma coisa, sair da tua zona de conforto, ousar, crescer, aprender, escutar, ouvir, falar. Eu acho que tudo isso faz parte da vida da gente, isso \u00e9 um conte\u00fado que a gente leva em primeiro lugar e que acrescenta para ti como pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Douglas) <\/strong>\u00c9 inspirador te ouvir Gloria, atrav\u00e9s da sua fala e da sua hist\u00f3ria da pra perceber sua for\u00e7a de vida, isso \u00e9 algo que me toca, acho necess\u00e1rio afirmar a vida e parece que voc\u00ea faz isso, voc\u00ea afirma a vida. Muito obrigada por compartilhar parte da sua hist\u00f3ria, foi um prazer estar com voc\u00ea e aprender contigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(Gloria)<\/strong> Ahh, brigada, as vezes \u00e9 bom escutar essas coisas. Eu acho que, acho n\u00e3o, eu tenho certeza, que a \u00fanica maneira da gente aprender \u00e9 conversando, lendo, interagindo. Ganhei minha tarde, porque eu t\u00f4 passando conhecimento, isso \u00e9 muito bom, nem todo mundo t\u00e1 interessado em escutar. \u00c0s vezes eu tenho essa pretens\u00e3o de querer deixar algo para uma gera\u00e7\u00e3o, mas tem um momento que tu cuida e tem um momento que tu quer ser cuidada, eu t\u00f4 numa fase da minha vida que eu quero ser cuidada por amigos. Eu levanto \u00e0s 5 horas para fazer meu tik tok, vou trabalhar feliz da vida, pego um bom \u00f4nibus lotado, linda, bem cheirosa, vou trabalhar empoderada. Isso \u00e9 o que me faz feliz no momento.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:80px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como citar este texto<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CRYSTAL, Gloria. Gloria Crystal: uma conversa sobre  o transformismo e o movimento LGBTQUIAPN+.&nbsp;<em>Grafia Drag<\/em>. 2023. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/gloria-crystal\/&gt;. Acesso em: 10. Jun. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*Entrevista publicada anteriormente na edi\u00e7\u00e3o de maio de 2023 da <a href=\"https:\/\/www.matinaljornalismo.com.br\/parentese\/\">Revista Par\u00eantese<\/a> (Grupo Matinal Jornalismo), com curadoria de <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grafiadrag\/equipe-drags-brasileiras\/\">Jandiro Koch <\/a>e edi\u00e7\u00e3o de Nathallia Protazio. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista por: Douglas Ostruca Al\u00e9m de atuar como transformista h\u00e1 mais de 36 anos, Gloria Crystal \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e participa ativamente na pol\u00edtica. 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