
Fernanda Trentini Ambiedo*
1 Introdução
O ato de pesquisar a mobilidade humana dentro de uma perspectiva histórica metodológica nos propícia buscar novas possibilidades de pensar a sociabilidade e a integração entre nacionais e estrangeiros. Proponho aqui, analisar um modo de inserção e o uso de recursos étnicos, de imigrantes italianos nas primeiras décadas do século XX que não se concentram apenas neste grupo étnico, mas, também, refletem-se em outros grupos tanto em contexto histórico como na atualidade. Este recurso étnico em pauta é o comércio dedicado à produção e venda de alimentos tidos como “típicos”, de uma região ou país, em Porto Alegre. Esta prática não está centrada apenas atualmente, onde tornou-se comum vermos restaurantes que se promovem pela “originalidade” de apresentar ao consumir um alimento tido como único e que respeita as tradições, as técnicas e as práticas de preparo da cultura em voga. Para discutir este processo usarei como fonte o álbum comemorativo de cinquenta anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul, lançado em 1925, em dois volumes, e que nos traz a história e geografia dos municípios que receberam contingentes significativos de italianos, e refere-se também, a empreendedores italianos que alcançaram renome dentro de seus locais de vivência. Neste almanaque, que provavelmente não é exaustivo, existem quarenta e uma propagandas de atividades comerciais que italianos exerciam em Porto Alegre . Os ramos principais estavam ligados a produção, a importação e a exportação de produtos, fábricas de tecido, metalúrgicos, mobiliários, setores de bens de subsistência primária e institutos educacionais.
2 Alimentação, identidade e recurso étnico
A utilização de recursos étnicos como forma de inserção em uma sociedade distinta diz respeito a aspectos socioculturais e demográficos de todo um grupo, e não apenas de uma fração que estimularia atividades empresariais (TRUZZI; NETO, 2007). Defino recursos étnicos como técnicas aplicadas, símbolos, modos de vida, relações e estratégias que podem ser redes de contato entre grupos (SCHMIDT, 2015). A transformação destes aspectos socioculturais em recursos étnicos ocorre quando se torna necessário encontrar uma maneira de manter ligações entre os imigrantes sendo uma espécie de mentalidade perpetuada desde os primeiros que imigraram e passada para seus descendentes, que mantêm a utilização destes para demonstrar uma ligação com o seu local de origem (SCHMIDT, 2015). A alimentação tornou-se um dos principais recursos utilizados por imigrantes no Rio Grande do Sul para a inserção comercial, como já comentado, nas primeiras décadas do século XX estas fábricas e comércios de bens de consumo, principalmente alimentícios, eram de origem principalmente italiana e alemã.
A relação entre alimentação e identidade ainda é, por muitas vezes, ignorada pelos pesquisadores quando pensam a interação entre dois, ou mais, grupos. A alimentação é como uma referência para a conservação de certos aspectos identitários (MONTANARI, 2009). É importante ressaltar que as identidades são formadas a partir de certas categorias, como família, religião, classe social, espaço e território que nas trocas entre culturas se adaptam e se redefinem, porém, sempre perpetuando algumas características (SMITH, 1997). No caso da gastronomia, a identidade é interligada com a manutenção das técnicas de preparo e de produção destes alimentos, o imigrante então, conserva os traços originais e os “adapta” com a utilização de produtos autóctones do país receptor.
No Rio Grande do Sul alguns estudos nos informam sobre uma espécie de “hibridismo” alimentar, que gerou uma cozinha definida popularmente como “colonial”. Nas regiões de colonização italiana conseguiu-se a perpetuação de algumas tradições; “elas eram ligadas, por exemplo, ao cultivo das vinhas e das oliveiras, do preparo da polenta e do pão, e até a produção de embutidos” (DE RUGGIERO, 2018, p. 126). Podemos falar sobre uma espécie de “know-how” italiano que se integra — transnacionalizando-se — para se adaptar as condições que o local poderia oferecer (DE RUGGIERO, 2018). A manutenção e o respeito da técnica italiana na preparação dos alimentos na região receptora, tornou-se o principal ingrediente para reforçar a ligação e valorização do produto, confeccionado seguindo rigidamente as “normas” italianas que preservavam, de uma certa forma, a ligação transnacional com a Itália, em um momento em que o país mediterrâneo começava a ser reconhecido como centro de uma cultura gastronômica (DE RUGGIERO, 2015). Este “movimento” pode ser percebido desde os primeiros relatos, durante o período chamado “Grande Imigração”, que sugerem que como um processo de globalização, em que o cidadão italiano, e europeu, se tornou cidadão do mundo ao relacionar-se com perfis culturais diferentes e utilizou o alimento como integração (MONTANARI, 2013). Edmondo De Amicis — escritor italiano — que relatou em alguns de seus escritos que imigrantes ao final do século XIX desafiavam “os controles das alfândegas portuárias, para trazer consigo na viagem, seus produtos enogastronômicos, com a intenção de presentear os parentes que os esperavam do outro lado do oceano” (DE RUGGIERO, 2018, p. 124).
2.2 A capital gaúcha, o comércio étnico e os italianos
Para contextualizar a presença dos italianos é interessante que durante a década de 1920, Porto Alegre passou por uma evolução nos meios de produção, primeiramente dedicava-se a produção de produtos de subsistência que atingiu uma autossuficiência, sendo diversificada, mas sempre levando em consideração as necessidades de consumo da população local (SINGER, 1968). Na pesquisa de Singer (1968), foram elencados um total de 621 estabelecimentos; dentre eles, 144 dedicados à elaboração de produtos alimentícios, 164 de vestuários, e o restante divididos entre categorias como: cerâmica, produtos químicos, metalúrgicos e materiais de transporte. Pensando em dois grupos muito pesquisados na historiografia gaúcha, italianos e alemães, é percebido que ambos dividiam o espaço nos setores industriais dedicados a distribuição e produção de produtos alimentícios. Na Associação Comercial de Porto Alegre cerca de 40% dos membros eram teuto-brasileiros, sendo que apenas 17 de 327 membros eram italianos (MONTEIRO, 1995). Os alemães se destacavam em cervejarias, metalurgia e curtição de couro (CONSTANTINO, 1990), enquanto que os italianos se dedicavam a pequenos e médios comércios, como açougues, confeitarias, sorveterias, e ainda em profissões liberais como alfaiates, sapateiros, marmoristas (Ibid, 1990).
O transnacionalismo e o “hibridismo” culinário, como já salientado anteriormente, sofreu certa resistência cultural nos principais centros urbanos envolvidos com o fenômeno imigratório; são diversos os casos de empreendedores italianos que se afirmaram no comércio étnico com a importação de alimentos diretamente da península. Um exemplo disso é na cidade de São Paulo que sofreu o surgimento de inúmeras casas “étnicas” de importação, tanto que muitos peninsulares construíram fortunas sustentados pelas propagandas dos jornais étnicos que circulavam em grande quantidade, impondo costumes alimentares e valores culturais aos produtos genuinamente de proveniência peninsular (DE RUGGIERO, 2018). Muitos empreendimentos se dedicavam à venda de gêneros alimentícios que, agora, estavam sendo produzidos em grande escala e com máquinas industriais, continuavam a remeter diretamente a sua origem caseira italiana ou colonial. Os descendentes procuravam comercializar e adaptar os produtos originalmente feitos nas cidades interioranas, ou importados diretamente da Itália, como salame, queijos, vinhos e massas, para as grandes cidades. Apesar da perda do “valor” simbólico da genuidade italiana, se manteve a definição do “tipo italiano”, para continuar a manter a afirmação de uma garantia de boa qualidade.
De forma sucinta, apresentarei agora, algumas das fábricas e comércio, ligadas ao setor alimentício, que estavam presentes no álbum comemorativo. Elas são: Natale Grimaldi; Confeitaria Rocco; Vicente Monteggia; Dal Molin irmãos e Simon; A. Costi e filhos. Vicente Monteggia, nascido em Laveno, sul do Lago Maggiore, emigrou aos 21 anos e veio para o Brasil. Em Porto Alegre fundou uma colônia chamada “Villa Nova D’Italia”, onde trabalhavam trentinos e montavanos, e tinham como principal produção um moinho, além do fornecimento de frutas ao mercado público municipal (BRUM, 2003, p. 184). A colônia de Monteggia é um ótimo exemplo da construção de redes de atração de novos imigrantes durante as primeiras décadas do século XX. Quando trata-se de produtos importados e exportados, posso citar os grupos Dal Molin irmãos e Simon, e A. Costi e filhos. O primeiro grupo se dedicava na produção de banha de porco, além de exportar para São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pernambuco e Pará e também para o comércio interno produzia vinhos e cereais para Porto Alegre. Já a segunda, também vendia banha de porco, produzida em vários pontos do estado gaúcho, de região colonial italiana, Guaporé e Taquari. Estes dois exemplos, apresentam a migração da região colonial italiana para a capital gaúcha que depois se tornariam grandes suficientes para abarcar diversos públicos. Temos também a fábrica de massas alimentícias de Natale Grimaldi, ela foi uma das mais importantes e tradicionais em Porto Alegre, conforme o almanaque “albergues, restaurantes, instituições e hospitais recebem o fornecimento de massas, que é reconhecida pela sua excelência na produção.” O fundador, Andrea Grimaldi, veio de Salermo em 1885, o álbum relembra sua chegada “pobre, mas disposto, dizia-se fabricante de massas alimentícias, demonstrando uma fórmula simples, mas sempre com grandes habilidades e atividades surpreendentes”5 . Em 1905, seu irmão mais novo Natale Grimaldi assume a empresa e a transforma em uma das mais importantes empresas familiares italianas, ganhando uma série de prêmios tanto no Brasil como na Itália. E, outro personagem de relevância citado no álbum, A Confeitaria Rocco e seu dono Nicolau, vindo de uma pequena região chamada Molise, viaja primeiramente a Buenos Aires e depois reemigra para Porto Alegre, onde permanece até sua morte em 1932. Ele começou com um pequeno e modesto negócio de doce chamada “Confeitaria Sul América” em 1892, mas é com o crescimento da cidade optou a construir uma fábrica de doces, salão de festas e confeitaria. As características de sua integração com a sociedade italiana e a brasileira é percebida a partir da realização de diversas festas ocorridas na sua confeitaria e a introdução de doces ainda desconhecidos na capital gaúcha.
3 Conclusão
A relação entre a culinária e a identidade foi notada por jornalistas da época, como Francesco Bianco que após uma visita ao Brasil em 1922 retratava que
Conseguiram impor a própria culinária, assumindo o domínio dos gostos daqueles povos […]. Existem aqui milhões de compatriotas que comem com certeza de uma maneira bastante italiana. E os filhos desses italianos, os quais algumas vezes esquecem a pá-tria de seus pais, nunca se esquecem das cozinhas das suas mães (BIANCO apud DE RUGGIERO, 2018, p. 126).
Os descendentes apesar de desejarem um rápido processo de integração, não renunciaram nas novas pátrias a chance de recriar alguns traços de suas memórias, tradições e símbolos. No que pertence à gastronomia, pode-se afirmar que os italianos mantiveram sempre formas de “resistências” mais evidentes do que em outros processos de “melting pot” cultural.
“[…] um extraordinário veículo de autorrepresentação […] não apenas é instrumento de identidade cultural, mas talvez seja o primeiro modo para entrar em contato com culturas diversas, já que consumir o alimento alheio parece mais fácil – mesmo que apenas na aparência – do que decodificar-lhe a língua (MONTANARI, 2009, p. 11).
A alimentação faz parte da nossa cultura, identidade e é um modo de representação.
*Doutoranda em História no Programa de Pós-Graduação em História da PUCRS, bolsista de dedicação exclusiva CNPq. Mestra em História pelo PPGH da PUCRS. Contato: fernanda.ambiedo@acad.pucrs.br
Este trabalho foi apresentado no “III Seminário Estadual sobre Migração e Refúgio: Novos Olhares em Pesquisa”, em 06 de outubro de 2020, selecionado mediante submissão do resumo expandido conforme Edital organizado pelo NEPEMIGRA.
Crédito da imagem: https://www.oriundi.net/imigracao-italiana-no-rio-grande-do-sul-comemora-142-anos