O olhar trágico-histórico: espelhos da crônica de Machado de Assis
                                                Claércio Ivan Schneider1
                                                          Doutorando em História pela UNESP-Assis
Resumo:
Tendo como referência o estudo de Barreto Filho, neste artigo pretende-se identificar e analisar a constituição e o significado do pensamento trágico no cronista Machado de Assis. Compreender o cronista tangido pelo seu cotidiano, à luz de suas interrogações e conclusões a respeito dos homens e dos acontecimentos de uma cidade que ajudou a construir a partir de seus textos, é um exercício interpretativo que permite ver como este autor fez de sua crítica um registro múltiplo de sua época. A idéia fundamental do artigo é considerar o registro trágico machadiano em sua interface com o seu momento histórico, na convicção de que este exercício possibilita interpretar e analisar uma diversidade de sensibilidades e de percepções impressas na leitura da constituição do homem “moderno”.
Palavras-chave: Machado de Assis; História e filosofia; Tragédia.
Buscar na crônica madura de Machado de Assis elementos históricos para a análise do seu olhar trágico é um dos objetivos que constituem a problemática da pesquisa de doutorado – em andamento – da qual este artigo é resultado. Neste texto, em particular, tem-se a pretensão de identificar e apresentar, tendo como referência a obra Introdução a Machado de Assis de Barreto Filho, a concepção e a constituição do pensamento trágico em Machado, para, num segundo momento, ponderar sobre a importância da categoria tragédia como conceito viável para a análise das crônicas machadianas. Este procedimento se faz necessário para o exercício de historicização da tradição interpretativa já existente em torno do cronista e que, direta ou indiretamente, influenciou boa parte das gerações de críticos subseqüentes que se debruçaram sobre o projeto literário machadiano. Busca-se, com isso, a exemplo de Pierre Bourdieu, compreender os esquemas de pensamento herdados e reaplicados no exercício de interpretação. Este ato de decifração constitui-se enquanto método fundamental para a percepção das categorias de pensamento que já foram empregadas na análise do projeto criador de Machado de Assis 2. Os discursos críticos sobre a obra e a produção do valor da obra aparecem interligados, uma vez que evidenciam um campo de produção no qual o artista objetivado, socialmente instituído em “criador”, também é o produto. Este procedimento também vem, em grande medida, a justificar a idéia problematizadora que permeia a estrutura analítica da tese. Ou seja, identificar as categorias de pensamento, de percepção e de apreciação já estabelecidas em torno do objeto, para, na seqüência, reconstruir o código que se encontra empregado na produção da obra cultural.
José Barreto Filho – poeta, advogado, ficcionista e crítico – na obra Introdução a Machado de Assis, publicada em 1947, constitui-se como um dos primeiros autores que passa a valorizar os problemas existenciais na composição da obra machadiana, buscando, para tanto, perceber as posições políticas, o enfoque trágico e a noção de tempo destruidor. É a partir do estudo deste autor, de sua fórmula interpretativa, que se inicia o pensamento a respeito do caráter propriamente trágico presente na obra de Machado em sua maturidade e que vai ser reflexo, em estudos posteriores, na importância atribuída à filosofia na formação do pensamento pessimista.
A leitura de Barreto Filho identifica o espírito trágico enquanto um componente interpretativo que perpassa por toda a obra machadiana. Segundo o autor, o sentimento do tempo fazia com que Machado nutrisse uma compreensão desconfiada, muitas vezes negativa, do sentido do progresso, da vida e da morte, fazendo uso da ironia, do humor e do pessimismo, como instrumentos retóricos para a sua narrativa trágica.
A presença do trágico é, com efeito, sintoma de grande maturidade, porque está sempre ligada à época clássica de uma nação, ao apogeu e equilíbrio de suas forças. O artista trágico cria então os modelos que hão de sobreviver e inspirar a alma popular, retificando a consciência e o caráter da coletividade (1947: 127).
A maturidade machadiana está ligada ao que os críticos identificam enquanto revolução de espírito, que se mostra, em termos de produção literária, a partir de 1880 com a publicação de Memórias Póstumas, e, na vida particular, com a manifestação mais aguda da doença epilética que o incomodava e humilhava. A partir deste momento, continua Barreto Filho,
ele se coloca subitamente no ângulo de visão adequado à sua vocação do trágico, e promove com um gesto decidido a derrocada das aparências que lhe impediam o acesso às fontes da realidade. Não mais a ilusão, nem a fuga na produção idealizada [fase romântica]. O que ele vai agora contemplar é a essência da vida e do homem (1947: 131).
Fruto da instabilidade social de seu contexto? Um sentimento de crise de espírito diante dos abalos físicos e emocionais de sua vida pessoal? Talvez a resposta para seu olhar trágico possa ser encontrada pela combinação destes elementos. Seja como for, “as transformações sociais a que ia assistindo, e aquelas que pressentia, articulavam-se aos temas eternos, constitutivos da visão trágica da vida: a irreversibilidade do tempo, a lei do perecível, a dura contingência da morte e a existência do mal sob todas as suas formas” (1947: 130). Questões complexas que se relevam, acima de tudo, na fase madura de Machado. Acredita-se, assim, que seu sofrimento físico e moral, bem como as incertezas quanto ao futuro, amadureceram Machado, além de aguçar seu pessimismo e seu olhar trágico em relação à crueldade da vida e à incerteza do destino humano. É na contemplação da verdade, portanto, da realidade que assistia a partir de sua privacidade, que fez com que percebesse em tudo o absurdo e o mal da existência. É natural que um espírito inquieto se manifestasse através do trabalho artístico, uma vez que este lhe dava a oportunidade de expressar e dominar um lado sombrio da realidade de seu tempo. Mas em que consiste esta visão trágica? Segundo Barreto Filho,
a visão trágica (...) não se detém na superfície das coisas nem das aparências. Não são as manifestações sociais ou psicológicas do sofrimento e do mal o que semelhante artista procura fixar. A arte naturalista ou romântica apenas aflora as camadas externas do mal, mas conserva uma possibilidade otimista, como se a harmonia fosse inerente à vida. O artista trágico avança para o fundo da existência. É o desbravador audacioso e descenda o mal absoluto, irremediável e fatal. Somente a arte e a magia da forma são capazes de trazer essa misteriosa consolação (...) (1947: 128,29).
Machado fez de seu projeto literário uma arte que servia de consolo para o espírito. Neste ponto, a interiorização do espírito passa pela análise das contradições do homem em matéria moral, reflexo da instabilidade social de seu tempo, que se caracterizava, em termos institucionais, na corrosão da estrutura do Império. Para dialogar com a fragilidade deste tempo é que faz uso do recurso ao trabalho artístico, que “lhe dava oportunidade de transcender e dominar o lado sombrio da realidade, pela superioridade do espírito” (1947: 130). A atitude sarcástica, o pessimismo latente e o humorismo são marcas desta fase madura que Machado manifestava em seu projeto criador.
Uma espécie de cinismo amargo e desenvolto caracteriza as produções da época de Brás Cubas, inclusive as suas crônicas. O moralista adota uma atitude sarcástica, cheia de virulência especial. Há nele pela primeira vez um frenesi interno, que o estilo comedido mal consegue disfarçar, e que poreja revolta e desapontamento, como se a vida houvesse abusado de sua inocência e boa fé. A sua reação, em face da crise dos quarenta anos, reproduz a surpresa melindrada da infância, já agora sem o corretivo da alegria matinal de viver. De modo que o seu espírito é sombrio, irônico, ferino e inquieto, disfarçando a agitação da sensibilidade no derivativo do humorismo (1947: 132).
Barreto Filho alerta para o uso do humor como instrumento destinado a fornecer um ângulo de visão que desnudava a contemplação da essência da vida de todas as suas aparências. Uma liberdade de espírito que Machado não podia manifestar em sua vida profissional. Neste ponto, o recurso da atividade artística, ou seja, seu projeto criador ou a obra de arte, lhe oportunizava transcender o lado sombrio da realidade, constituindo-se enquanto uma via de “liberação amarga e árida porque nela não houve lugar para a esperança, ficando apenas o orgulho do espírito solitário e inatingível, afrontando o mal da existência” (1947: 133). Um humor, portanto, fruto do desengano, da decepção, da angústia e do desequilíbrio que a vida pessoal e profissional introjetava, a ponto de consolidar a partir de sua arte, um pessimismo definitivo que passa pela representação sombria, irônica, inquieta e debochada da realidade da qual fazia parte, derivativa do humorismo. O romancista, destaca Barreto Filho, “começa a sorrir da razão, pleiteando contra ela uma filosofia do desespero, e aplicando toda a sua virulência sobre as consolações racionais que o otimismo do século agitava” (1947: 136).
A angústia do tempo e da morte é tema recorrente em seus escritos na maturidade. A contradição da aspiração pela vida, pela eternidade, se esvai na certeza da morte, que nem a razão consegue explicar, eis a realidade absurda e contraditória que o homem não consegue alterar. Machado criticava os otimistas de seu tempo que procuravam, a partir de teorias sociais – como o positivismo – “afastar do foco da consciência o problema fundamental do sofrimento e da desarmonia do universo” (1947: 137). Ou seja, a aversão de Machado às teorias inventadas pelos homens passa pela crença de que tal expediente adormecia a consciência trágica do irremediável, da qual o homem não passa de um joguete em meio a forças desconhecidas. Ainda com Barreto Filho,
O que acontece, pois, a partir da crise de espírito dos quarenta anos, é que ele descobre afinal e consente em encarar de frente o trágico da condição humana, e experimenta uma reação de pânico e perplexidade que a criação procura corrigir, porque só a formulação desse estado vertiginoso e angustiado equivale à liberação. E ao mesmo tempo se apresenta a perspectiva adequada para comunicar essa experiência, que é o humorismo e a ironia, essa maneira de depreciam sistematicamente a vida por nostalgia e ressentimento (1947: 153).
Neste ponto, Barreto Filho afirma diferentemente dos críticos contemporâneos, que o ressentimento machadiano não se restringe às deficiências reais de sua condição social, mas sim, “passa por uma queixa da vida pela sua contradição intrínseca, pelo grande amor que ela desperta sem ser capaz de saturar, pelo seu caráter efêmero” (1947: 154). Mas essa melancolia e desesperança não teriam influenciado a realidade vivida, prática do autor? Para Barreto Filho
O que é mais estranho nele é que esse desconsolo, esse espírito do Eclesiastes, não tenha crestado definitivamente o seu humanismo, que permaneceu sob as espécies de uma sabedoria natural das coisas humanas, deixando-o indulgente, cortês, reservado, cultivando um conjunto de virtudes morais e sociais, e preferindo obstinadamente os prazeres da vida privada. É isso que não permite à sua figura humana alcançar a grande antiga, chamando deliberadamente a sua experiência, de fundo genuinamente trágico, para um registro inferior (1947: 154).
É a arte que acalma a sua inquietação. A força da disciplina garantia o equilíbrio, a ponderação e o domínio de sua emotividade. Neste ponto, a ironia e o humor, componentes retóricos de seu projeto criador, possibilitavam olhar para o objeto de análise com uma certa distancia que acabava por diminuir a ação do estímulo sobre a sensibilidade, mantendo a serenidade do espírito. A explicação para esta feição particular pode ser entendida a partir de sua identificação com a tradição imperial. Isso pode ser percebido quando se observa o antagonismo de Machado para com as modificações que o império passava. Ausentou-se dos acontecimentos, considerando-os de longe com indisfarçável hostilidade, mostrando-se insensível para com os entusiasmos republicanos.
A queda da monarquia era aos seus olhos a ruína da tradição, a derrocada institucional, sob a pressão dos excessos temperamentais e das inconseqüências que ele e o Império desejaram frear no nosso povo. Valia como uma infração às leis da proporção e do bom gosto, retirava a pompa da Coroa e o sentido civilizador do parlamentarismo para deixar o país identificado com a vulgaridade dos demais países da América Latina, que ele tanto ironizava. No homem que se modelara pela feição imperial, orgulhosa de sua diferenciação no continente, tudo isso era sofrido como uma lesão na sua própria personalidade (1947: 157,58).
Com a instalação da república e a conseqüente ordem civil retomada, o tom das crônicas machadianas variava. No entanto, a referência constante às sobrevivências do estilo imperial no jogo das instituições republicanas era feita com satisfação. Assim, antes de ir ao encontro das revoluções pelas quais passava o Brasil, opta por retroceder seu olhar às coisas mais antigas, que se referem aos grandes homens do império, ao parlamento, entre outros temas propriamente imperiais, que lhe pareciam mais gloriosos, por isso de sua predileção. Como destaca Barreto Filho,
Machado se retrai à vertigem dos novos tempos, e pôde assim apurar a sua contemplação e o trabalho paciente de exprimi-la. A natureza humana desvenda-lhe os seus segredos e surpresas. Há uma curiosidade psicológica que o leva a investigar os desvãos da alma como se desmonta um aparelho delicado para observar as suas engrenagens. A loucura, a excentricidade, os compromissos da consciência, o maquiavelismo da vida cotidiana, são os assuntos prediletos desse moralista que perdeu, pouco a pouco, a intenção de corrigir ou reformar, mas que recomendava o exame da consciência como necessário à saúde mental (1947: 161).
O exame da consciência parece indicar a necessidade da crítica das idéias e das práticas do homem na modernidade brasileira. O maquiavelismo da vida cotidiana, a loucura, a excentricidade e a consciência aparecem como temas prediletos uma vez que mostram as contradições de um mundo feito de aparências onde os homens interpretam personagens fragmentados, de consciência dilacerada. A obra de Barreto Filho, que pode ser considerada uma leitura obrigatória da bibliografia sobre Machado de Assis, ressalta os problemas existenciais do escritor fluminense, fazendo menção a influencia deste autor com Proust, sobretudo em relação ao tempo como destruidor. Assim, ora a obra é que explica o autor, ora o autor é que explica a obra gerando um sistema reflexo, ou seja, mostrando que a estética esteve em paralelo com a moral.
O constante problema que perpassa por toda a obra machadiana é o homem, ou a visão antropológica do mundo. Para tanto, os valores metafísicos transfigurados em valores estéticos e artísticos é que situa o pensamento de Machado no exercício de analisar a alma humana na especificidade brasileira do final do século XIX. Barreto Filho, como visto, atenta a esta questão, mas não é o único. Afrânio Coutinho e Miguel Reale também se detêm na identificação das influências filosóficas em Machado de Assis, destacando, principalmente, a presença de Schopenhauer, de Pascal e de Montaigne como influências determinantes na formação do pensamento crítico do cronista, autores estes que merecem um estudo à parte.
Os críticos citados bem como outros aqui não mencionados, mesmo quando não concordam com a idéia de uma filosofia machadiana não deixam de convergirem no reconhecimento da presença e da densidade filosófica em seus escritos. Influência filosófica esta que se tornou essencial para a compreensão do escritor pelo significado do mundo e o sentido da vida humana. Além disso, a obra acima resenhada sintetiza, grosso modo, uma tradição que toma a filosofia enquanto chave de leitura do “projeto criador” do escritor fluminense.
Analisar, portanto, as referências filosóficas que, segundo os seus críticos, formaram o espírito trágico em Machado é um procedimento indispensável para o exercício crítico histórico uma vez que caracteriza a produção de crônicas que registram aspectos de um ambiente sócio-político em acelerada transformação: modernização, racionalização burguesa, cientificismo (discussões raciológicas; idéia de evolução), campanha abolicionista, republicanismo, transição da monarquia para a república, projetos imigrantistas, entre outros inúmeros acontecimentos (oficiais ou não) que marcaram a mudança de condições mundanas do homem urbano em transição para a modernidade.
O estudo das crônicas machadianas revela a compreensão que este autor teve de seu tempo, ressaltando, dentre inúmeros temas, o lado trágico da história da constituição do homem “moderno”, entrevisto nos descaminhos do pensamento liberal, na desilusão imposta ao indivíduo pela modernidade e, em muitos momentos, no desprezo para com a nova ordem burguesa. Mais que isso: a crônica machadiana é o exemplo representativo de como um gênero pode encontrar, na visão de mundo e no estilo de um escritor deste porte, sua transcendência, perenidade e atualidade, haja vista que o sentido trágico instituído por Machado também é uma interpretação da experiência acumulada pelo homem sempre que pensa a humanidade e a sociedade. Portanto, é importante compreender o projeto literário machadiano como uma visão aberta da existência. O conceito de tragédia torna-se categoria imprescindível, uma vez que é a partir dele que Machado reavalia as experiências do homem, atribuindo sentido ao mundo vivido ao repensar os diferentes problemas da sociedade.
No entanto, a discussão do conceito de tragédia como gênero literário não basta para entender toda a sua dimensão, principalmente quando compreendida como dimensão da existência humana. Para tanto, há uma longa bibliografia que parece ser fundamental para compreender o trágico em Machado: Schopenhauer e Nietzsche, por exemplo, mais do que pensadores importantes sobre o trágico, surgem como influências diretas na construção da obra machadiana. Além destes filósofos da tragédia, considera-se na pesquisa em andamento, uma bibliografia mais recente sobre o pensamento trágico – com destaque a autores como Raymond Williams e Roberto Machado – com o objetivo de historicizar esta categoria apontando para os aspectos propriamente históricos que auxiliam na construção de um conceito viável para o exercício de análise das crônicas machadianas.
Referências bibliográficas
BARRETO FILHO. Introdução a Machado de Assis. Rio de Janeiro: Agir, 1947.
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
NOTAS
- Doutorando em História pela UNESP-Assis. Bolsista da Capes.
- Como destaca Bourdieu, “a análise do discurso crítico sobre as obras é, com efeito, a um só tempo um pré-requisito crítico da ciência das obras culturais e uma contribuição à ciência da produção das obras enquanto objetos de crença”. (Bourdieu, 1996: 339).