Entre A História e A Literatura: As Múltiplas Letras, Os Múltiplos Tempos, Os Múltiplos Olhares Em Graciliano Ramos
                                                Cristiano Cezar Gomes da Silva 1
                                                          cristianocezar.pe@hotmail.com
Neste trabalho discutimos algumas possibilidades de diálogos entre a história e a literatura. Buscamos enfocar a proximidade entre esses dois campos do saber, sem negar a existência de questões nas quais se afastam, em que se diferem uma da outra, questões metodológicas e teóricas que delimitam as especificidades de suas áreas.
A partir das leituras de autores que dialogam com a história e a literatura, trazemos à baila uma reflexão interdisciplinar que privilegia os saberes. Nessa direção, percebemos que embora existam peculiaridades que as singularizem, que as delimitem e as definam como saberes distintos, aqui nos interessa uma reflexão acerca da questão que provavelmente mais as aproximam – a narrativa. Narrativa essa que no olhar de Sandra Pesavento se coloca no lugar da coisa acontecida, é presentificação de uma ausência, uma representação.2 Nessa direção, Paul Ricoeur aponta que podemos dizer que a história é quase fictícia no sentido da quase-presença dos acontecimentos colocados diante dos olhos do leitor por uma narrativa, enquanto que a narrativa de ficção é quase histórica, na medida que os acontecimentos irreais que ela relata são fatos passados para a voz narrativa que se dirige ao leitor. 3
Tanto a história quanto a literatura tem como objeto final, como seu “produto” final uma narrativa. As duas (re)contam, narram. Falam sobre fatos, acontecimentos, sobre a realidade. Ambas têm personagens, tramas e enredo na urdidura de sua construção. A tessitura literária e a tessitura histórica muitas vezes se misturam, confundem-se, têm suas fronteiras muito próximas, de difícil delimitação e demarcação. Um entrelugar, tomando uma expressão de Homi Bhabha4 , cujas linhas de separação são bastante tênues.
Para condução de nossa análise, buscamos uma relação entre os discursos da literatura e os da história. Discutimos a aproximação e o distanciamento entre os escritos definidos como ‘históricos’ e os de outras narrativas ficcionais com as quais dialogam sobre os mesmos momentos históricos. Tomamos alguns escritos de Graciliano Ramos que nos remetem a essa relação entre o ficcional literário e a história oficial acerca de uma mesma época.
Aproximações teóricas: diálogos entre história e literatura
A historiografia contemporânea tem sofrido transformações acerca da sua metodologia e lançado novos olhares sobre os objetos de análise. A contemporaneidade traz grandes desafios não só aos historiadores, mas também aos estudiosos das demais áreas do conhecimento. A história se volta para uma multiplicidade de novas questões e utiliza outras lentes sobre questões já estudadas. “Semelhantemente a um caleidoscópio, vemos uma história plural, múltipla, multifacetada, pois não conseguimos defini-la, apreendê-la, torná-la estática para a dissecarmos” 5. Há um incessante revisitar e reescrever no fazer historiográfico.
Esse repensar na historiografia teve seu marco teórico principal na Escola dos Annales. O movimento intelectual, ocorrido na França a partir de 1929, que teve seu início a partir da publicação da Revista Annales: économies, societés, civilisations, fundada por Lucien Febvre e Marc Bloch. Com forte influência interdisciplinar, saberes como a sociologia, a psicologia social e a antropologia, inicialmente, estabeleceram um fértil diálogo com a história e, dessa forma, novas abordagens foram possibilitadas. O historiador inglês Peter Burke define o movimento dos Annales como “a revolução francesa da historiografia” , 6 apontando para a importância e a amplitude do movimento intelectual francês do início do século passado.
Mas é na chamada terceira geração da Escola dos Annales que a história mais se aproxima da antropologia, do cotidiano, da cultura. Essa mudança traz ressonâncias até os dias atuais. A história cultural, que alguns também nomeiam de história social da cultura, é tributária aos paradigmas iniciados pelos primeiros Annales. Os horizontes epistemológicos da história são ampliados, assim como os diálogos com outros saberes e outras áreas do conhecimento, e mais fortemente com a literatura.
Interessante pensarmos que essa aproximação da história com a literatura não ocorre em um sentido único. É uma via de mão dupla. Os estudos literários contemporâneos também revêem seus paradigmas e há uma busca por esse diálogo epistemológico com a história. Há um retorno à narrativa pelos historiadores e um retorno à historicidade por parte dos estudiosos da literatura. Um “casamento” que havia se rompido, mas que parece retornar com maior força e maior profundidade.
A aproximação entre esses dois saberes, e vejam que aqui não tenho a preocupação de afirmar nenhuma das áreas como ciência, no sentido clássico de sua objetividade e explicativo do real através de causas, efeitos, leis e teorias, pode ser discutida a partir da relação entre a história e a ficção. Como aponta Bella Jozef:
“História e ficção partem de um mesmo tronco, são ramos da mesma árvore [...] Ambas são formas de linguagem. Os fatos, na verdade, não falam por si. Só adquirem significado depois de selecionados e interpretados, provocando uma desfamiliarização do cotidiano.” 7
O discurso histórico e o discurso ficcional são próximos, dialogam entre si. Ambos são linguagem e como tal tentam representar o mundo em sua volta, interpretá-lo, compreendê-lo, significá-lo. Assim, constroem sentidos para o real, para as experiências com o real, a partir da linguagem. Para o literato mexicano Octavio Paz, a linguagem tem uma essência simbólica, pois representa um elemento da realidade por outro, assim como nas metáforas. E se, como o próprio autor afirma, pela palavra o homem é uma metáfora de si mesmo 8, podemos pensar que o discurso literário e o discurso histórico são metáforas da realidade que tentam aprisionar.
Na perspectiva de que a história e a literatura são construções de sentido acerca da realidade e por isso estão próximas, perpassa a noção de narrativa e de trama. A literatura e a história, por caminhos e propostas metodológicas diferentes, produzem suas narrativas, constroem seus enredos e tornam inteligíveis suas percepções de mundo. Nessa direção, a trama perpassa as duas formas de representação da realidade. O conjunto de artifícios da linguagem, decodificados pela escrita, busca uma relação com o exterior que sua interioridade textual pretende abarcar e cristalizar na narrativa.
Para Paul Veyne, na obra Como se escreve a história 9 , a noção de trama se constitui a partir do pressuposto de que os fatos não existem isoladamente. Ao historiador, em seu ofício, cabe fazer relações, seleções, montar as séries dos documentos, a partir da subjetividade. A trama é o tecido que constitui a forma da narrativa histórica. Assim, o historiador em sua subjetividade, realiza os cortes, os encaixes e costura a sua trama. Veyne vê a história como uma mistura muito humana e muito pouco “científica”.
Embora Veyne afirme a noção de construção da história, de que ela é um discurso, uma representação, não a separa de sua relação com a realidade a partir do princípio da verossimilhança. Aponta que a história é um “romance verdadeiro”, desvelando assim sua relação intrínseca com o acontecido, e isso a distinguiria da narrativa literária. A história tem, para o autor, um compromisso com o acontecido, com o vivido, mesmo que ele já não possa ser apreendido, não possa mais ser revivido, apenas rememorado e recontado, quantas vezes e de quantas formas os historiadores o puderem (re)construir. No olhar de Paul Ricoeur podemos dizer visão dNessa perspectiva,
Na mesma perspectiva de perceber a história como construção acerca do acontecimento, Hayden White retira do historiador o “fardo” da história. O crítico literário estadunidense faz uma disjunção entre a história e a verdade. Aponta que por muito tempo o historiador carregou sobre si o peso e a responsabilidade de contar o realmente acontecido. Dessa forma, sugere que há de se repensar a relação do historiador com o passado. Para White, o “historiador contemporâneo precisa estabelecer o valor do estudo do passado, não como um fim em si, mas como um meio de fornecer perspectivas sobre o presente que contribuam para a solução dos problemas peculiares ao nosso tempo” 10.
Percebemos então que a relação entre o historiador e o passado para esses pensadores, possibilita-nos enxergar a afinidade da história com a literatura. À medida que constroem suas narrativas de maneira dissociada de uma mímesis da realidade. A literatura e a história constituem-se como formas de ver o mundo, gestos de leitura, gestos de interpretação e, por fim, gestos de escritura das significações que damos ao mundo em nossa volta.
Os vários olhares sobre Graciliano Ramos
Para White, as narrativas históricas “são ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com os seus equivalentes na literatura do que com os seus correspondentes nas ciências
11”. Isso nos faz pensar sobre o que esse estudioso entende por ficção. A carga pejorativa que muitas vezes é atribuída ao termo não é aqui colocada. A ficção nesse caso é pensada como uma invenção, uma criação. Um sentido de constr
ução de algo pelo homem e não com a idéia de falsidade ou de mentira.
Nesse sentido, buscamos analisar alguns trechos dos escritos ficcionais e não-ficcionais de Graciliano Ramos. Através da sua obra, bem como de suas crônicas, cartas, ensaios e fragmentos, o literato significa, documenta, denuncia, registra e rememora o momento vivenciado entre as décadas de 1930 e 1940, no Brasil. Interessa-nos ainda o olhar de como alguns estudiosos perceberam a obra do literato brasileiro.
Para Lourival Holanda, que compara Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e O Estrangeiro, de Albert Camus, o literato brasileiro denuncia um sistema social de extrema desigualdade, uma dicotomia entre o mundo dos letrados e o mundo dos iletrados que estão a mercê daqueles que dominam a escrita. A personagem Fabiano é o retrato dessa desigualdade, da revolta e da consciência de si – aquele que não domina o signo da linguagem e vive sob o signo do silêncio, aquele que é silenciado em um sistema social perverso, sistema que precisa ser acusado e denunciado. Ao analisar essas duas grandes obras da literatura Lourival Holanda traz uma grande contribuição para o entendimento da obra gracilianista:
O que Graciliano aqui acusa é o sistema social que embaça o espelho, impedindo assim, ao indivíduo, a visão de si, reflexiva. A despossessão de Fabiano é a mais completa: além da despossessão que a reificação reitera (é um “cabra”’, um “bicho”), e da despossessão da palavra, há mais: o desejo do mesmo Fabiano é um desejo “alheio” porque mediado pela figura do Seu Tomás. Não é genuíno, não tem origem nele, mas é feito por “procuração” [...] Fabiano empresta um rosto anônimo à máscara social. 12
Já no olhar de Wander Melo Miranda, Graciliano Ramos constrói uma memória que se contrapõe à memória oficial, retrata circunstâncias até então pouco conhecidas. Parte de suas experiências para a denúncia em sua literatura. Não procura reificar essa conjuntura, mas se contrapor com o que lhe é possível – as palavras – dentro de uma relação de poder 13. Se para Fabiano, as palavras lhe dariam status e poder, o literato usava-as como prática de resistência 14 ao poder instituído a partir de uma rede de relações, uma vez que modificariam as suas ações, interagindo com o mundo em que estava inserido. Dessa forma, para Wander de Melo Miranda,
Narrar é agir. O significado do vivido toma forma de ações e através das ações compartilhadas, que se tornam o meio essencial para lançar os fundamentos de uma atuação autêntica que o futuro arrancado ao passado, na narrativa, deixa entrever. Trata-se de encontrar uma memória distinta da oficial, de opor a “tradição” sufocada à “história” triunfante e consolidada dos adversários que não cessam de vencer. 15
Desse modo, o autor vê em Graciliano Ramos, um contraponto à construção histórica pretendida pela memória oficial. A memória do período, registrada na obra gracilianista, especialmente em Vidas Secas, desvela uma sociedade com grandes contrastes e desigualdades sociais e regionais. Essa obra, então, encampa uma denúncia e uma acusação a esses desequilíbrios na sociedade das décadas de 1930 e 1940.
Para Carlos Alberto Dória, Graciliano Ramos está entre os escritores da década de 1930, do chamado regionalismo problemático, em contraposição ao regionalismo emblemático 16. Para Dória, este regionalismo problemático “consiste no tratamento da diversidade como elemento enriquecedor da percepção do todo”. A construção do local apenas se dá ao se particularizar o que é universal. Procura-se perceber a sociedade em seus aspectos gerais, a partir do aspecto particular.
Podemos enfatizar o olhar apontado por Dória pelas palavras do próprio Graciliano, ao se referir à cidade em que foi prefeito: “Palmeira é uma cidade essencialmente brasileira. Grande parte dos defeitos e das virtudes que no brasileiro se encontram, em geral, o palmeirense possui, em particular. Reproduz-se, entre nós, em ponto pequeno, o que o país em ponto grande produz”. E o literato continua a sua observação afirmando: “o que o Rio de Janeiro imita em grosso nós imitamos a retalho. Usamos fraque por cima da tanga, alpercatas e meias” 17. Graciliano Ramos significa textualmente não haver a distinção entre a problemática regional e a nacional senão pela sua amplitude e especificidade, apontando o universalismo dos seus escritos.
Sabemos que a história como conhecimento instituído percorre uma longa trajetória, desde Heródoto, quando tinha uma função de testemunho e registro dos acontecimentos 18, até a nossa contemporaneidade, em que assume o papel de problematizar o presente a partir da análise do pretérito. Nessa ótica, podemos estabelecer uma relação entre Graciliano Ramos e a história. Vemos um Graciliano “historiador’ no sentido de que suas indagações e questionamentos são frutos da inquietação com a realidade social do período vivido e que retratam uma época dada dentro da linha do tempo identitário 19. O seu romance problemático, como vimos anteriormente, traz questões sociais e simultaneamente é um testemunho das décadas de 1930 e 1940.
No propósito de escapar da terna apreciação, Graciliano Ramos utiliza-se das suas lembranças, da sua memória individual 20para compreender e problematizar o quadro político e social em que viveu: os maiorais do município, governo e oposição, vinham de um grupo de famílias mais ou menos entrelaçadas poderosas no Nordeste: Cavalcantis, Albuquerques, Siqueiras, Tenórios, Aquinos. 21 Desse modo, ao rememorar a cidade de Buíque, no sertão de Pernambuco, o literato traz à tona uma sociedade cujo status social se delimita pelo sobrenome das famílias tradicionais.
Nessa direção, também nos interessa o labirinto da construção de sua escrita e de evocação da sua memória. Ao analisar a escrita memorialística de outro intelectual brasileiro da década de 1930 – Gilberto Freyre – Pesavento aponta que,
no processo de feitura da memória, importa mais a intriga da composição do que o próprio ato acontecido. [...] Estamos diante de uma verdadeira construção do fato, na medida em que, aquele que lembra tem a liberdade poética, inconsciente ou não, de selecionar o que lembrar e o que esquecer. Nesse sentido há uma potencialização do caráter ficcional da narrativa memorialística, que a aproxima da clássica definição de poesia: a memória é sempre algo que poderia ter acontecido. 22
Dessa forma, os itinerários traçados e os labirintos percorridos por Graciliano Ramos ao evocar uma memória de um tempo irreversível, já transcorrido, podem nos fornecer vestígios da sensibilidade de sua época, podem trazer à tona sinais de um passado que não pode mais ser revivido, todavia, pode ser reinterpretado, reelaborado.
Ao procurar compreender Graciliano Ramos como um memorialista, Alfredo Bosi examina-o mediante os laços que o prendem ao depoimento da conjuntura política e social do Brasil nos anos de 1930. Bosi propõe que a obra gracilianista seja analisada como um testemunho daquele período. “Nem pura ficção, nem pura historiografia; testemunho”. 23Nesse caso, testemunho de um período de silenciamento, de violência a partir da falta de liberdade em que o autor relaciona às experiências vividas no presente e no passado na infância em Alagoas, ao publicar Vidas Secas em 1938, logo após sair da cadeia no ano anterior. Silenciamento que está presente tanto na prisão de Fabiano no capítulo “Cadeia”, bem como no capítulo “O menino mais velho” que “tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca” . 24
Reconstruindo um passado e uma história através das narrativas literárias
Nessa relação entre história e literatura, Graciliano Ramos ao rememorar e registrar as reminiscências em sua obra e ao mesmo tempo (re)significar um passado, constrói instrumentos, estratégias em uma tentativa de instituir um processo de mudança e transformação do momento em que vive. Faz um contraponto ao instituído, procura uma possibilidade de ruptura com a continuidade arraigada naquele momento. Desvela, nessa “trajetória individual”, as rupturas, as continuidades e a simultaneidade em sua vida, por conseguinte, na sociedade com a qual interage.
Nesse sentido, podemos ver parte da obra de Graciliano Ramos como uma escrita de si, uma escrita da história, partindo da sua memória. Esse “si” que pode se deslocar para um outro, mas para um outro bastante próximo e que perpassa o cotidiano do narrador/autor. Um outro criado ou representado através da personagem. Em São Bernardo, por exemplo, Graciliano afirma ter sido a personagem Paulo Honório inspirada em seu próprio pai, irmãos e cunhados:
Paulo Honório, concebido em 1924, nasceu em 1932. Narro essa longa gestação por exigência de João Condé [...] O jeito que tenho é convencer-me, decidir contar a origem de Paulo Honório, alagoano, viçosense [...] Às vezes meu pai me visitava, carrancudo, largava uns monossílabos. A carranca e fragmentos de velhas narrações dêle combinaram-se na edificação de Paulo Honório. Infelizmente êsse colaborador morreu em 1934 e não chegou a ler o romance.
A língua, as imagens rurais, apanhei-as em consultas pacientes a meus irmãos e cunhados, gente matuta. [...] 25
Vemos que as personagens narradas falam de um local social, expressam-se através de uma linguagem peculiar. Formam um caleidoscópio que é o próprio autor e as suas experiências vividas através de suas personagens. Contudo, pela linguagem se tratar de símbolo, contendo significado, não negamos haver uma distância entre o escrito e o que ele representa. Essa lacuna é preenchida pela linguagem que segundo Octavio Paz é utilizada por um autor como instrumento de nomeação do mundo que ele observa, como ferramenta que possibilita tomar consciência do mundo que o cerca. Tornando-se, assim, um elo que dá sentido e significação à realidade, em um criar e recriar cujo incessante movimento de nomeação e produção de sentidos representa a condição humana que o liberta da natureza, mas que o diferencia e o caracteriza como homem.
A nomeação em momentos de grandes transformações e mudanças cada vez mais velozes amplia a importância da linguagem na fixação de sentidos e significações. Como narra Gabriel García Márquez, em Cem anos de solidão, sobre as novidades em sua “Macondo”: “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisa apontar com o dedo”. 26 O literato, desse maneira, redefine e representa as suas lembranças, as suas memórias, não como imagens congeladas de um passado que parece intacto e distante, mas um pretérito que é ressignificado pelo presente, um passado que se altera e se reconstrói a partir da experiência do vivido e a partir da sua linguagem. Nos dizeres de Graciliano “fatos antigos se renovavam, confundiam-se com outros recentes, e as notícias dos jornais determinavam perturbações nos espíritos” 27 .
Essa aparente contradição entre o tempo da memória e o tempo do presente possibilita deslocamentos e novas significações de um passado sob o signo das lembranças.
Para Ecléa Bosi,
Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, ‘tal como foi’, e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque a nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. 28
Nessa concepção, convergimos a análise para a visão que Graciliano Ramos tem a respeito da escrita. Faz da literatura um espaço de denúncia, de crítica social e política sobre o momento vivido. Critica os literatos que fogem dessas características de denúncia, que vivem “alheios”, e cujas personagens não representam um contexto verossímil. Refere-se, por exemplo, a Amando Fontes, literato sergipano, que ao escrever Rua do Siriri,
Trabalhou muito, novela certinha [...] conveniente. O meio é um bairro de prostitutas [...] As meretrizes não brigam, não jogam, não bebem, nunca se dedicam à profissão, falam como senhoras e tôdas iguais, possuem sentimentos nobres. Referem-se à desgraça em que vivem, mas com injustiça. Se [os tupanaros] fôssem aquilo, venceriam, em austeridade, em recato, os mais inflexíveis estabelecimentos da educação feminina.
Essas mulheres de Amando Fontes representam bem os nossos romances actuais, direitos, comedidos, inofensivos. Desapareceram os mocambos, as cadeias sujas, as bagaceiras e os canaviais, as fábricas, os saveiros, a escola da vila. E a nossa literatura começou a comportar-se, na moral e na sintaxe, como as mulheres da Rua do Siriri. Baniu-se o palavrão, verdadeiro e bíblico. Afastou-se o negro. As personagens branquearam. 29 [...]
No mesmo texto critica romancistas como Jorge Amado, Rachel de Queirós, José Lins do Rêgo e o já citado Amando Fontes. Pois, para Graciliano Ramos, eles já não possuem a ousadia dos seus primeiros escritos, com os quais se projetaram na literatura através das suas obras. “[...] Estão longe delas, constrangidos, limitados por numerosas conveniências. Para bem dizer, estão amarrados [...]”. E Graciliano continua cobrando o engajamento e coragem do início da carreira literária dos seus contemporâneos:
Não conseguem recobrar a pureza e a coragem primitivas. Transformaram-se. Foram transformados. Sabem que a linguagem que adotavam não convém. Calam-se. Não tinham nenhuma disciplina nem na gramática nem na política. [...] Pensam no que é necessário dizer. No que é vantajoso dizer. No que é possível dizer. 30 [grifo nosso]
Observamos, assim, um Graciliano Ramos de perfil engajado com a estrutura social que precisa denunciar e contrário à postura dos literatos contemporâneos seus que não teriam a ousadia de outrora em seus escritos. O autor faz da literatura uma prática e um contraponto para resistir e denunciar a ordem instituída, desvela-se também essa característica em suas cartas pessoais, em seus discursos, crônicas, ensaios e fragmentos. É esse Graciliano que analisamos, um literato que utiliza os seus escritos e a sua obra como resistência às relações de poder presentes no cotidiano e que permeiam todo o corpo social.
Não vemos, portanto, a obra gracilianista como um enunciado que se mantém continuamente ao longo de sua escrita. Pelo contrário, são rupturas, descontinuidades que não abordam especificamente o Nordeste, o lugar, conferindo-lhe uma essência. No entanto, insere-se em uma estratégia que procura uma ruptura, uma denúncia, um contraponto a uma lógica de poder que se institui e tem continuidade a partir das suas relações, que não ocorrem apenas nas cidades do interior do Nordeste, tomadas como palco da obra literária, mas em toda parte.
Quando Fabiano se sente inferiorizado, despossuído, por não dominar a palavra, por viver sob o signo do silêncio, Graciliano Ramos não constrói um “Nordeste” nem tampouco se refere a uma peculiaridade, uma especificidade de unicidade do lugar. Utiliza esse lugar, esse não-lugar, como pano de fundo para as suas tramas. Então percebemos a universalidade do autor, pois nenhuma ilha é uma ilha 31, o autor denuncia e retrata as relações microfísicas de um poder que espalha suas redes e se faz onipresente. E Fabiano, então, busca uma mímese, um simulacro da personagem “Seu Tomás da bolandeira” e acusava o destino por não ter nascido para “falar certo”.
No trecho dessa carta abaixo, após o fim do Estado-Novo, o autor ao escrever sobre o convite para se lançar candidato nas eleições de 1946 pelo Estado de Alagoas, desvela a sua desambição política e reafirma a convicção do lugar que a literatura brasileira o concedeu:
Nestes últimos dez anos o mundo tem dado tantas voltas que estive a pique de fazer uma viagem a Alagoas, só desistindo da idéia porque, tendo aqui chegado em porão de navio muito vagabundo, não achei conveniente regressar num aeroplano [...] Não é que lembraram de fazer de mim candidato a deputado? Vejam só. Pois nesse carácter dirijo-me ao público de que disponho na Terra dos marechais e dos generais – duas dúzias de pessoas, se tanto. [...] Entre ser literato medíocre ou ser deputado insignificante, prefiro continuar na literatura e na mediocridade. E digo isto sem falsa modéstia. Reparem na significação exacta das palavras. Não considero a minha literatura insignificante: ela é apenas medíocre, e, por conseguinte, mais ou menos aceitável. Acho-me perfeitamente à vontade na livraria. Mas na Câmara é certo que faria uma figura bem chinfrim. Nenhuma conveniência em mudar de ofício neste fim de vida. Está explicada, suponho, esta desambição aparente. 32
Em relação aos cuidados metodológicos de se trabalhar historiograficamente com textos literários, enfocamos a literatura e os escritos gracilianistas como uma produção discursiva que possibilita a avaliação das forças e dos níveis de tensão existentes no seio de uma determinada estrutura social. Ao trabalharmos com esse espaço fronteiriço entre a história e a literatura, Nicolau Sevcenko sugere que
a exigência metodológica que se faz [...] é de que se preserve toda a riqueza estética e comunicativa do texto literário, cuidando igualmente para que a produção discursiva não perca o conjunto de significados na sua dimensão social [... a literatura] mais do que testemunho da sociedade, ela deve trazer em si revelação dos seus focos mais candentes de tensão e mágoa dos aflitos. 33
Nessa direção, objetivamos compreender através dos escritos gracilianistas, não apenas a sua estética literária, mas uma compreensão dos embates que aconteciam durante os anos de 1930 e 1940, percebendo alguns conflitos e ambigüidades da sociedade daquele período. Ao analisarmos as fontes, procuraremos uma reflexão, discussão, correlação com as teorias, com outras análises realizadas sobre o autor, com o momento histórico e a sociedade circundante do período. Não temos a pretensão de enveredarmos pelo saber da crítica literária, com seus aportes teóricos e metodológicos, tendo em vista que não daríamos conta de tamanha empreitada, mas seguiremos na direção da análise, a partir da historicidade de sua obra e dos seus escritos, interagindo com outros saberes.
A literatura de Graciliano Ramos e os fragmentos dos seus escritos não-ficcionais que vem sendo analisados durante essa pesquisa desvelam o envolvimento com as questões sociais, políticas e culturais de seu tempo. Denotam uma multiplicidade de personagens de sua própria vida, mostrando uma característica presente em seu discurso – a modéstia ou uma modéstia dissimulada, pois a essa altura já era um literato consagrado. Portanto, são essas contradições, engajamentos, tensões, denúncias e indícios sobre as décadas de 1930 e 1940 que nos impulsionam a enveredar nessa investigação sobre a multiplicidade de um autor.
Dessa maneira, imbricam-se os saberes da história e da literatura: no fazer e no refazer da narrativa. O discurso historiográfico, assim como o literário, é afetado pela exterioridade das condições de sua produção, como aponta Michel De Certeau 34 . Enfim, é nessa direção que delimitamos a nossa análise. Procuramos enfatizar a multiplicidade do autor através dos seus diversos escritos. Durante a empreitada, lançamos o nosso olhar em questões que permeiam a memória, a história, a linguagem, as suas significações, a denúncia social, as experiências vividas. Enfim, buscamos ressaltar algumas possibilidades de diálogos entre a história e literatura.
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SILVA, Cristiano Cezar Gomes da. História, cidade e modernidade: a instituição dos signos modernos na cidade de Belo Jardim (1950/1970). In: Tambor, revista da Faculdade de Formação de Professores de Belo Jardim, nº 02, abril de 2004. Belo Jardim – PE: FABEJA, 2004. p. 21-30.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história, 4. ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998.
WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
NOTAS
- Doutorando em Letras na UFPB e Mestre em História pela UFPE
Professor Assistente da Universidade Estadual de Alagoas - UNEAL
Coordenador do Curso História da Faculdade de Formação de Professores de Belo Jardim – FABEJA.
- PESAVENTO, Sandra Jatahy. Palavras para crer: imaginários de sentido que falam do passado. II Seminário de Estudos em Análise do discurso: o campo da análise do discurso no Brasil: mapeando conceitos, confrontando limites. CD-ROM. Porto Alegre: UFRGS, 31/10/2005 a 04/11/2005.
- RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa – Tomo III. Campinas/SP: Papirus, 1997.
- Sobre entrelugar, ver BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Loureiro, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
- SILVA, Cristiano Cezar Gomes da. História, cidade e modernidade: a instituição dos signos modernos na cidade de Belo Jardim (1950/1970). In: Tambor, revista da Faculdade de Formação de Professores de Belo Jardim, nº 02, abril de 2004. Belo Jardim – PE: FABEJA, 2004. p.23.
- BURKE, Peter. A escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia. Tradução Nilo Odalia. São Paulo: Editora UNESP, 1997.
- JOSEF, Bella. História da literatura hispano-americana. 4. ed., ver. e ampl. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2005.
- PAZ, Octavio Paz. El arco y la lira: el poema, la revelación poética, poesía e historia. 13. reimpressão. Cidade do México: 2003. p. 34.
- VEYNE, Paul. Como se escreve a história e Foucault revoluciona a história. 4. ed. ver. Tradução de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. Brasília: Editora da UnB, 1998.
- WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. 2. ed. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: Editora da universidade de São Paulo, 2001. p.53.
- Idem, ibidem, p.98. [grifos do autor].
- HOLANDA, Lourival. Sob o signo do silêncio: Vidas Secas e o Estrangeiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992. p. 30. [grifo do autor]
- Sobre as relações de poder, Michel Foucault aponta que “o poder é coextensivo ao corpo, não há entre as malhas de sua rede, praias de liberdades elementares; [...] que elas não obedecem à forma única de interdição e do castigo, mas que são formas múltiplas; [...] que não há relações de poder sem resistências; que estas são tão mais reais e eficazes quanto mais se formem ali mesmo onde se exercem as relações de poder; [...] Cf. FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IV: estratégias, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. p. 248-249.
- Sobre práticas de resistência ver: DE CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1 – artes de fazer. 7. ed. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
- MIRANDA, Wander Melo. Graciliano Ramos. São Paulo: Publifolha, 2004. p.64.
- DÓRIA, Carlos Alberto. Graciliano e o paradigma do papagaio. In: Revista do IEB, n. 35, 1993, p. 19-34.
- RAMOS, Graciliano. Linhas tortas. 21. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 83-84.
- Sobre a história como testemunho e outras definições, Ver: LE GOFF, Jacques. História e memória. 4. ed. Campinas – SP: Editora da UNICAMP, 1996; BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2002.
- Sobre o tempo identitário e o tempo imaginário, ver: CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade, 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
- Utilizamos o termo “memória individual” para relembramos Maurice Halbwachs que afirma essa também tornar-se “memória coletiva”.
- RAMOS, Graciliano. Infância. 25. ed. Rio de Janeiro: Record, 1993. p. 46.
- PESAVENTO, Sandra Jatahy; DIMAS, Antonio; Leenhardt, Jacques (orgs.). Reinventar o Brasil: Gilberto Freyre entre história e ficção. Porto Alegre: Editora da UFRGS; São Paulo: Editora da USP, 2006. p. 161.
- BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 221.
- RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 80. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 55.
- “Paulo Honório”. Carta a João Conde. Instituto de Estudos Brasileiros, USP. Fundo Arquivo Graciliano Ramos, Série Manuscritos: Crônicas, Ensaios e Fragmentos. Notação 12.1, caixa 1/1, p. 1,3.
- MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão, 18. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, p. 7.
- RAMOS, Graciliano. Infância. 25. ed. Rio de Janeiro: Record, 1993. p. 47.
- BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 55.
- “Decadência do romance brasileiro”. Crítica acerca dos romancistas regionalistas nordestinos: Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queirós e Amando Fontes. Instituto de Estudos Brasileiros, USP. Fundo Arquivo Graciliano Ramos, Série Manuscritos: Crônicas, Ensaios e Fragmentos. Notação 10.2, caixa 1/1, 6 fls., 20.10.1941, s.l., p. 4-5.
- Idem, p. 4-5.
- Essa expressão é título de um livro de Carlo Ginsburg em que analisa a influência de autores do continente europeu sobre a Inglaterra, vista como uma ilha geograficamente separada daquele continente. Ver GINSBURG, Carlo. Nenhuma ilha é uma ilha: quatro visões da literatura inglesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
- “Resposta ao convite para candidatura a Deputado” Instituto de Estudos Brasileiros, USP. Fundo Arquivo Graciliano Ramos, Série Manuscritos: Crônicas, Ensaios e Fragmentos.
- SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1999. p.20.
- CERTEAU, Michel de. A escrita da história. 2. ed. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.