A CORRESPONDÊNCIA DE ANTÓNIO DE ALCANTARA MACHADO COM ALCEU AMOROSO LIMA E PRUDENTE DE MORAES, NETO
                                                
Emery Marques Gusmão
                                                          UNESP - Assis
A publicação da correspondência de António de Alcântara Machado permite um novo olhar sobre sua produção intelectual que foi objeto de minha dissertação de mestrado, defendida em 19951 . Naquela oportunidade, procurei contrapor os discursos histórico e literário do produzidos pelo modernista, distanciados pelos historiadores da cultura. Os críticos consideram Brás, Bexiga e Barra Funda uma das mais acabadas expressões da renovação literária produzida nos anos de 1920; já os historiadores entendem seus trabalhos sobre História de São Paulo como exemplos típicos da história tradicional. A escrita da história teria sido renovada pelos professores estrangeiros que vieram lecionar na Universidade de São Paulo, fundada em 1934, e a historiografia pautada no pensamento racial não estaria inscrita na “consciência crítica” impulsionada pelos modernistas cujos frutos teriam sido colhidos pela geração de 1945. A coletânea de depoimentos publicada em 1945 sob a forma do livro Plataforma da Nova Geração apresenta a afirmação, por parte de Antonio Cândido2, de pontos de continuidade entre sua geração e a de 1922. Segundo o crítico, a revolução estética e o “barulho” efetuado pelos modernistas tornaram possível a liberdade do escritor e abriram caminho para o estudo dos problemas brasileiros, colocando a necessidade da análise sistemática e disciplinada realizada por sua geração. Assim, a vanguarda seria precursora da tomada de consciência que se efetua nos anos quarenta pelo combate ao pensamento reacionário. Embora a avaliação de Candido seja pertinente, a contraposição dos discursos literário, jornalístico e histórico de António de Alcântara Machado revelou um projeto intelectual pautado em uma noção de modernidade bastante peculiar, elaborada a partir de concepções históricas baseadas no pensamento racial e na mítica bandeirante.
Os livros Intelectuais na encruzilhada, organizado por Francisco de Assis Barbosa (2002), e Pressão afetiva e aquecimento intelectual, organizado por Cecília de Lara (1997), tornam pública a correspondência do escritor com dois renomados intelectuais, Alceu Amoroso Lima e Prudente de Moraes, neto. A primeira obra apresenta vinte e seis cartas: dez de Alceu Amoroso Lima (duas escritas em 1930, três em 1931, duas sem data3 , uma em 1932 e uma em 1933) e dezesseis de Antonio de Alcântara Machado (uma redigida em 1927, uma em 1928, seis em 1930, seis em 1931, uma em 1932 e uma em 1933). O outro livro reúne quarenta e oito cartas redigidas por Alcântara para o amigo Prudente de Moraes: uma de 1925, dezoito de 1926, dezessete de 1927, três de 1928, oito de 1929 e uma de 1932. As cartas tematizam obras literárias, a imprensa, a realidade nacional e eventuais desentendimentos entre membros de sua geração, além de fornecer dados acerca do posicionamento político do escritor no período (1925-1933) 4. Como lembra Cecília de Lara, situam-se no período mais produtivo (do ponto de vista intelectual) da vida do escritor.
Os três escritores ligam-se ao movimento modernista e assumiram posicionamentos distintos no início da década de 1930 quando os intelectuais e segmentos da sociedade engajam-se politicamente e tendem a assumir ideologias de extrema direita ou esquerda. Francisco de Assis Barbosa reproduz um texto de Alcântara Machado – inspirador do título do volume organizado por ele – que caracteriza a época:5
“Afinal de contas, Tristão de Ataíde viveu o drama de todos nós. Numa entrevista (..) fez esta declaração (..):
‘Se não fosse católico, seria comunista. É que a época é de militantes. Cada vez se admite menos a existência dos fura-cores ou multicores. A gente é ou não é. Não é possível, hoje, ao intelectual (para não dizer a quem quer que seja, mas sobretudo ao intelectual) aquele alheamento que já foi regra e chegou a ser orgulho da irritável classe. Agora tudo é ação social. Queira ou não queira, o homem é empurrado para a encruzilhada, posto diante do dilema: tem de decidir, os problemas se apresentam como de vida ou de morte. E chega por isso o momento em que o instinto de defesa acaba vencendo o comodismo’ “ (grifos meus)
Face à encruzilhada, Alcântara define-se como um “torcedor” da Igreja, um “expectador” do trabalho de Alceu 6 pois sua adesão ao catolicismo seria uma “concessão à tradição familiar” e não fé (p. 91):
“Fiquei lembrando do fervor com que em 1914 preparado no Ginásio São Bento daqui pelo padre João Gualberto (..) eu comunguei e durante meses todos os domingos me ajoelhei para receber a hóstia. Depois esse fervor acabou, eu era criança, a comunhão era uma festa, um ato que eu repetia porque ele me elevava sobre os companheiros. Não é fé (..). Não sou digno (..)” (p. 91).
Questionou tanto a fé de Alceu quanto o comunismo de Oswald e, talvez, se possa enxergar na correspondência com o primeiro uma metáfora dos jogos políticos, a sugerir que esperava uma ação conseqüente (o gol) dos homens de centro:
“Uma revolução ‘que recoloque os valores nossos em função de uma filosofia do Espírito’ tem minha adesão entusiástica embora de simples espectador. Quer dizer, eu não sou nem indiferente nem combatente. (..) Convenha-se em que sou um torcedor que sabe perfeitamente como é que o extrema deve passar a bola para o centro-avante emenda-la e empurrá-la dentro do gol, sente que esse gol é a satisfação de tendências e sentimentos profundos dele torcedor, mas se entrar em campo será incapaz de dar um chute” (p. 88)
Para Miceli (2001) a recusa às ideologias extremadas por parte de alguns intelectuais, como Alcântara Machado e Prudente de Moraes, explica-se pela inserção sua (ou da família) na esfera política e intelectual. Segundo o autor, os intelectuais ligados a ala perrepista passaram às fileiras dos movimentos radicais pois seus “anseios de fazer carreira política nos moldes daquela seguida por seus pais ruíram por terra com as derrotas de 30 e 32” (p. 102). Ao longo da década de 1920 as organizações políticas e as instâncias de produção cultural diversificam-se de tal forma que a passagem pela Faculdade de Direito não representava mais o “estágio inicial” da inserção nas classes dirigentes. “Os herdeiros deveriam também envolver-se na concorrência política e intelectual e assumir tarefas cada vez mais especializadas nos jornais partidários, nas organizações políticas, nas instituições culturais” (p. 93). Deste modo, Mário de Andrade, Tácito de Almeida e Alcântara Machado que aderem 7à oposição democrática e a seus veículos de cultura desde cedo, e tiveram a oportunidade de continuar prestando sua colaboração política à oligarquia” (p. 102) regional que, após a derrota de 1932, empenha-se no projeto de unificação das forças. António de Alcântara Machado, membro de uma família tradicional – filho e neto de políticos, juristas e professores da Faculdade de Direito -, assume a direção da Bancada Paulista por São Paulo Unido durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte de 1933 e, segundo as palavras de Francisco de Assis Barbosa, recebia políticos e intelectuais. A morte prematura em 1934 interrompeu sua atuação, mas os demais “intelectuais democráticos” permaneceram na linha de frente dos empreendimentos culturais da oligarquia paulista até 1937.
A correspondência e a produção sugerem que o radicalismo modernista inicial vai cedendo espaço e, no final dos anos 1920, AM abre-se a outras instâncias culturais que poderiam ser classificadas como “tradicionais”. Os textos telegráficos das primeiras cartas endereçadas a Prudente escasseiam após 1928 (quando tornam-se gramaticamente mais articulados), publica o artigo “Brasilio Machado ou um operário cathólico” na revista A Ordem, ganha um prêmio em dinheiro da Sociedade Capistrano de Abreu e publica a monografia premiada nas páginas da Revista do Instituto Histórico e Geográfica Brasileiro. Prudente deve ter questionado a participação em instituições culturais mais conservadoras pois AM lhe escreve em 31/12/1929:
“Agradeço o abraço pelo Prêmio Capistrano. Mas não concordo com a alfândega proposta. Você se esquece (..) que estamos no Brasil. Lá na Europa sim. Há os institutos, as academias e o resto. Reúnem-se trinta carecas para estudar os amores de Napoleão. E dos amores de Napoleão não saem nem a pau.
Mas aqui? Aqui a gente tem o DEVER de ser de tudo. Dever ou NECESSIDADE? Pouco importa.” (p. 117)
A Academia Brasileira de Letras também foi vista como uma instituição relevante em 1932:
“Ando torcendo para que um grande pensador católico se candidate à vaga de Alberto Faria na Academia Brasileira de Letras, conforme notícias que os jornais mandaram daí a faz já algum tempo. A Academia é coisa fatal, eterna: o que há a fazer é melhora-la. Isso me disse uma vez o Afrânio.” (Intelectuais na Encruzilhada, p. 130)
A idéia da NECESSIDADE de atuar junto a instituições mais tradicionais pode ser associada à sua inserção “mercado intelectual”. Não há referências nas cartas a problemas financeiros que provavelmente não tinha – haja vista os recursos familiares e a atuação como advogado no escritório do pai. No entanto, a atuação cultural, que consolidava uma ampla “rede de sociabilidade” e dava pouco (ou nenhum) retorno financeiro, era fortemente prezada e ocupava uma parte significativa do tempo de AAM. Assim, este acusa na carta o interesse de fazer concurso para professor no Ginásio do Estado, uma ocupação que lhe colocaria em contato direto com a cultura.
A ruptura com Oswald e a posterior atuação na Bancada Paulista por São Paulo Unido – empenhada em congregar as forças da oligarquia – o predispunham a certo distanciamento em relação aos cacoetes e à blague característicos da fase heróica do modernismo? Talvez.
A correspondência com Prudente sugere forte apreço a Oswald de Andrade, cujas publicações, viagens e opiniões são freqüentemente comunicadas ao amigo que morava no Rio de Janeiro. A maior parte destas cartas são datadas de 1926 e 1927 quando este colabora na Revista de Antropofagia e na Terra Roxa. A primeira carta publicada no volume Pressão afetiva e aquecimento intelectual, datada de 31/12/1925 demonstra a sua importância 8 no projeto intelectual:
“Boas últimas festas, Prudente. Saiba que em meados de janeiro de 1926 daremos à luz da inteligência pátria que lê um quinzenário em formato de jornal. Título: Terra Roxa. Subtítulo: ... e outras terras. Diretores: A . C. Couto de Barros e António de Alcântara Machado. Redator secretário: Sérgio Milliet. Representante no Rio de Janeiro: Prudente de Moraes, neto.
(...) Também você tem de aceitar. Queira ou não queira. NÓS queremos.
(...) Você, até o dia 5 ou 6, tem de mandar um conto. Sem falta. Já está marcado o lugar no primeiro número. Concite os povos: Manuel Bandeira, Soares, Arinos e outros que tais, inclusive o Graça, Renato, Ronald. Seriamente. Belique o Sérgio.
Mande o conto! MANDE O CONTO! MANDE O CONTO!” (p. 29)
Em alguns momentos escreve ao amigo pedindo colaborações pois o último número da revista teria ficado “fraco” e seria necessário compensar o seguinte. Embora as cartas apresentassem freqüentes menções a “um certo Oswald, sujeito a quem quero um bem louco” (p. 62), não encontramos no volume uma descrição cuidadosa dos motivos da ruptura. Esta descrição foi encaminhada a Alceu com quem, até aquele momento, parecia trocar bilhetes esporádicos acusando o recebimento de obras recentemente publicadas.
A obra Intelectuais na encruzilhada reproduz apenas dois bilhetes de AAM a Alceu anteriores a 1930, datados de outubro de 1927 e dezembro de 1928: um acusava o recebimento da “primeira série dos fortes Estudos” e, gentilmente, comentava a crítica favorável de Alceu sobre o livro Brás, Bexiga e Barra Funda e o outro, o recebimento da segunda série dos Estudos e prometia algum comentário sobre o livro na Revista de Antropofagia (p. 78-9). A primeira de uma série de cartas que marcam esta aproximação data de 12/05/1930 – apenas três dias antes daquela que relata “a falta absoluta de caráter que distingue o ateu antropófago Oswald de Andrade” – apresenta um pedido de desculpas, por parte de AAM, pelas críticas dirigidas indiretamente a ele nas páginas de O Jornal. Sem precisar a data do artigo, lamenta ter dito “com ar de brincadeira duas ou três cousas a propósito” da descrição de Abel Bonnard de uma “confissão” recebida no Brasil. AAM afirma não saber que Bonnard aludia a Alceu: “imagine agora meu estado de humilhante desapontamento. Contra quem admiro e prezo como admiro e prezo raríssimos, inconscientemente disso bobagens que poderiam feri-lo” (p. 80). Ao pedido de desculpas segue-se o relato dos feitos do “cabotino” Oswald de Andrade na carta datada de 15/05/1930 que termina com a proposta de uma “conjuração de silêncio em torno da nova fase oswaldiana. (..) O esquema é esse” (p. 85).
Os anos de 1930 e 1931 reúnem o maior número de cartas endereçadas a Alceu por Alcântara Machado (seis em cada ano, totalizando doze) a sugerir esta aproximação é posterior ao rompimento com Oswald de Andrade (em conseqüência do seu afastamento da Revista de Antropofagia, segundo a correspondência). Conforme esclarece, a Revista de Antropofagia foi idealizada em 1928 por Oswald para ser dirigida por Alcântara. Segundo suas palavras, Oswald assumida a responsabilidade de sustentar financeiramente o empreendimento por pelo menos um ano, um compromisso que não cumpriu. Partiu para a Europa “com o primeiro número debaixo do braço” (p. 83) e a revista continuou saindo: ”intelectualmente, era produto do meu esforço e só de meu esforço. A função do Bopp se limitava a enviar pelo correio 70% da tiragem”. Em 1929 o Bopp teria se entendido com Oswald e propuseram o fim da “Antropófago”: “na presença do Sergio e do Faço eu concordei. No dia seguinte o Bopp comunica ao Rubens que eu me desinteressava pela revista mas que ele, Oswald de Andrade e Oswaldo Costa se incumbiriam pela publicação do jornal” (p. 83). Essa trama é relatada por AAM a Alceu em uma carta datada de 15/05/1930 na qual afirma: “é preciso que atacado como você tem sido, saiba a origem verdadeira dos ataques para se fortalecer nessa atitude de desprezo que convém” (p. 82).
A resposta veio rápida, no dia seguinte (16/05): “hoje vejo que você viu lucidamente o caminho que iam tomando esses cabotinos e recusou-se a segui-los. Excelente” (p. 86). No dia 26/05 (dez dias depois) AAM encaminha nova carta a Alceu comentando o número de setembro da revista A Ordem e prometeu uma contribuição com um estudo sobre o avô Brasílio Machado. Em junho redigiu mais três cartas e nenhuma no segundo semestre de 1930. Alceu retoma a correspondência a 05/01/1931 com um pedido de desculpas pelo “injustificável silêncio” (p. 104) e acusando o recebimento do artigo para publicação em A Ordem 9. Nesta intensa correspondência dos meses de maio e junho de 1930 – imediatas ao rompimento com Oswald – a atuação da Igreja foi um tema freqüentemente abordado nos termos apontados atrás.
A Revista de Antropofagia surgiu em São Paulo em 1928 e sua primeira fase terminou em 1929. Neste período a revista era mensal, de oito páginas e publicou em seu primeiro número o Manifesto Antropófago no qual Oswald de Andrade lançava e explicava o Movimento Antropofágico. Na segunda dentição, a revista foi uma página publicada de março a agosto de 1929 no Jornal Diário de São Paulo. Nessa fase, os colaboradores 10 assinavam sob pseudônimo e, além das matérias literárias, publicavam-se críticas corrosivas a modernistas, tais como António de Alcântara Machado, Mário de Andrade, Yan de Almeida Prado e outros. Em abril de 1929, AAM escreve para Prudente de Moraes:
“Não escrevi, nem escreverei coisa alguma ao meu ex-admirador Oswald de Andrade (..)
Meteu-se agora com uns sórdidos e se fez inimigo da Igreja, de Mário de Andrade e de António de Alcântara Machado. Tenho pois inimigos honrosos nessa inimizade honrosa. (..)
António de Alcântara Machado não nos interessa, escreve ele. Interessa sim. Interessa tanto que eu sou o assunto predileto da Antropófaga. (..)
Herdeiro presuntivo sem nunca ocupar o trono, eterno quase-célebre está se indispondo com o grupo que sempre foi o único a lhe dar importância, o único a reconhecer seu talento estupendo’ (p. 128-129)
Mesmo ciente de que os textos publicados não representam a totalidade da correspondência de AAM, pode-se supor que a aproximação com instituições “tradicionais” 11 nos remete à fragmentação do movimento modernista e à busca de outros caminhos de inserção num universo cultural que se altera com as Revoluções de 1930 e 1932 - nas quais atua contra Getúlio Vargas. Em janeiro de 1931, escreve para Alceu:
“Pois é – meu caro Alceu – que se está passando neste Brasil de nossos inúmeros pecados. Tínhamos uma iluminação fraca e que pagávamos muito caro.. Mas com a ajuda de Deus víamos a claridade dela embora mal e mal. O monopólio (é um monopólio não tenha dúvida nenhuma) passou violentamente para outras mãos. E com a promessa de nos dar luz suficiente para vermos bem claro nos mergulharam nas trevas, dizem que provisoriamente enquanto não se reformam as instalações da usina republicana. Pode ser. Mas o fato é que estamos na escuridão. Portanto, tratemos de acender velinhas ou pelo menos riscar fósforos. Para saber (na falta de melhores conhecimentos) onde estamos e a dar uns aos outros a notícia de que ainda existimos. Aí tem você a explicação desse fósforo que nos esforçamos de chegar antes que se apague o pavio de uma vela: Revista Nova” (p. 108)
Nesta carta, a criação da Revista Nova (1931-2), fundada com Paulo Prado e Mário de Andrade, aparece como empreendimento cultural num momento político que exigia ação dos “brasileiros de boa vontade” (p. 109) e não como empresa capitalista que visa o lucro. Na correspondência com Prudente destaca que o “diligente diretor-gerente” da revista (provavelmente Paulo Prado, segundo Cecília de Lara) opõe-se ao envio gratuito de exemplares: “assim a revista morre, é o estribilho dele. Pois deixa que morra, respondo eu” (Pressão Afetiva e..., p. 145). Esse dado sugere que, assim como demais empreendimentos modernistas, a Revista Nova não se afirma como veículo de profissionalização do ofício do escritor 12 e não se guia pela lógica do mercado. Talvez se possa pensar que orienta-se pelo diagnóstico da elite paulista que atribui as derrotas de 1930 e 1932 “à carência de quadros especializados para o trabalho político e intelectual” (Miceli, p. 101) e inscreve-se como inesperado instrumento de luta, ao lado da Escola de Sociologia e Política, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e Departamento Municipal de Cultura. O texto “As cinco panelas de ouro” sugerem o total despreparo popular para a política 13.
Nos anos 1930, AAM envolve-se de maneira crescente com a atividade política: como superintendente da Rádio Sociedade Record de São Paulo, escreve e, em algumas ocasiões, lê comunicados sobre a revolução Constitucionalista; assume no Rio de Janeiro a direção da Bancada Paulista por São Paulo Unido, e elege-se deputado federal por São Paulo em 1934 pelo Partido Constitucionalista liderado por Armando Salles de Oliveira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, Ana Claudia Bandeira. Perfil de Prudente de Moraes, neto. Mestrado em Letras, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, UNESP, 2002.
BARBOSA, Francisco de Assis (org.). Intelectuais na encruzilhada, a correspondência de Alceu Amoroso Lima e António de Alcântara Machado (1927-1933). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2002.
MACHADO, António de Alcântara. Novelas Paulistanas. Livraria José Olympio Editora, 1961.
MACHADO, António de Alcântara. Pressão Afetiva e Aquecimento Intelectual: cartas de António de Alcântara Machado a Prudente de Moraes, neto (1925-1932)/org. Cecília de Lara. São Paulo: Giordano Lemos: EDUC, 1997.
MARQUES, Emery. Mapas, cartilhas e referendum: imagens da vida em António de Alcântara Machado. Mestrado em História. Faculdade de Ciências e Letras de Assis, UNESP, 1995.
MICELI, Sergio. Intelectuais à brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
NEME, Mário. Plataforma de uma geração. Porto Alegre: Editora Globo, 1945.
NOTAS
- MARQUES, Emery. Mapas, cartilhas e referendum: imagens da vida em António de Alcântara Machado. Mestrado em História. Faculdade de Ciências e Letras de Assis, UNESP, 1995.
- NEME, Mário. Plataforma de uma geração. Porto Alegre: Editora Globo, 1945, pp. 31-40.
- Presume-se que uma tenha sido redigida em 1930 e a outra em 1931.
- A idéia de que a produção cultural era o motivo das cartas foi colocada pelo próprio AAM em 1931: “Até breve, Alceu. Até o seu próximo livro ou artigo ou carta. Porque nos seus artigos e livros nos sempre nos encontramos” (Intelectuais na encruzilhada, p. 117)
- BARBOSA, Francisco de Assis. Introdução. Intelectuais na encruzilhada, a correspondência de Alceu Amoroso Lima e António de Alcântara Machado (127-1933). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2002.
- Intelectuais na encruzilhada, p. 88. Correspondência datada de 26/05/1930.
- Também Prudente de Moraes – neto do ex-presidente da República – insere-se na ala jovem dos fundadores do Partido Democrático (MICELI, p. 251). A obra deste escritor “bissexto” não foi reunida em livros e, por esse motivo, permanece pouco conhecida das atuais gerações (BARBOSA, 2002).
- Em 1925 Alcântara tinha vinte e quatro anos e iniciava-se na literatura; Prudente tinha 21 e cursava da Faculdade de Direito no Rio de Janeiro; Alceu Amoroso Lima era nove anos mais velho que AAM.
- “Seu artigo, que ainda não li, pois o estou recebendo neste minuto, vai hoje mesmo para a tipografia, para a edição de janeiro” (p. 105)
- Dentre os "antropófagos" dessa segunda fase inclui-se Oswald de Andrade, Raul Bopp, Tarsila do Amaral e Patrícia Galvão (Pagu).
- a aproximação com Alceu parece dar-se neste contexto. Ele é caracterizado nas cartas como crítico moderno mas não modernista, sujeito “fortemente atacado” pelo escárnio dos jovens descrentes.
- Miceli lembra que durante a República Velha os anatolianos, diferentemente dos modernistas, viviam dos rendimentos que proporcionavam o ofício de escritor (p. 97-98).
- Trata-se de uma sátira à Revolução de 1930: Uma vez anunciada a vitória de Getúlio, a população, empolgada, fazia os entendimentos equivocados da revolução. “ o mulato (..) exigia um viva ao Isidoro”; “um italiano recém-chegado da Penitenciária que já obrigara o major a dar três morras (Morra Mussolini, Morra Matarazzo e Morra D'Annunzio), interrompeu um discurso de Antônio Vicente sobre a Revolução Francesa, arrebanhou com promessas os músicos e os voluntários”; “e a Emília louca de alegria: - Já telegrafaste ao Senhor Doutor Washington com as nossas felicitações?; “chegou fardado o Coronel Cerqueira, veterano do Paraguai, com o peito cheio de medalhas, imensamente comovido, derrubando lágrimas. Abraçou o major dizendo: - Um abraço, meu bravo! Conte comigo! Quando é que chega o Imperador?”. In: Novelas Paulistanas (1961)