A carioca, de Pedro Américo:
alegoria e erotismo no imaginário oitocentista brasileiro.
                                                Claudia de Oliveira e Laura Nery
A tela A Carioca, que vemos aqui [IMAGEM], foi realizada por Pedro Américo em Paris entre 1862 e 1863, período em que o artista brasileiro fazia sua formação no velho continente graças à bolsa de estudos oferecida pelo Imperador Pedro Segundo desde 1859. Em 1865, o jovem artista envia a pintura para a décima sétima Exposição Geral, realizada na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Na ocasião, a obra recebeu Medalha de Ouro. Animado com o resultado, Pedro Américo decide presentear Dom Pedro, seu benfeitor, com a tela. No entanto, A Carioca foi recusada pelo Mordomo Mor da Casa Imperial, Paulo Barbosa, que considerou o nu escandaloso para os padrões morais palacianos.
A tela retorna, então, ao ateliê do pintor em Florença, despertando mais tarde o interesse do Imperador Guilherme Primeiro, da Prússia, que a adquire. Duas décadas depois, em 1882, Pedro Américo decide fazer uma réplica com variações da mesma Carioca – a qual vemos aqui. Apresentado na vigésima sétima Exposição Geral de Belas Artes do Rio de Janeiro, o quadro é incorporado à pinacoteca da Academia Imperial, constituído-se, em 1937, peça do acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio, onde se encontra atualmente. É em torno da trajetória irregular desta obra que pretendemos apresentar algumas reflexões.
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Logo que chega à Europa, como bolsista do Imperador, Pedro Américo torna-se aluno de Dominique Ingres e Horace Vernet. Ingres, um dos mais importantes pintores neoclássicos, foi seguidor dos mestres do renascimento. Inspirava-se sobretudo em Rafael, de quem herdou as linhas e traços marcados e a leveza das figuras femininas, especialmente suas ninfas e Vênus que parecem seres imateriais.
A obra A Fonte, de Ingres, [IMAGEM] se comunica muito de perto com A Carioca. Por outro lado, a temática do pintor francês passa também pela representação de nus femininos orientalizados, do qual é exemplo o famoso Banho Turco [IMAGEM]. Aqui percebe-se a linha marcante e, apesar da enorme sensualidade da imagem, percebe-se também a frieza da figura, própria da estética neoclássica.
A Carioca foi uma tentativa de Pedro Américo de ‘abrasileirar’ o tema clássico. Alegoria ao rio do mesmo nome, a tela apresenta um topos tradicional com um tratamento brasileiro: toma uma personagem da mitologia grega, uma ninfa, uma náiade, para encarnar uma temática nacional. Na tela ressaltam as linhas, os traços, a centralidade da figura e sua luz. Tudo parece nos remeter aos princípios clássicos. A tela fala dos mistérios da natureza e da geografia local, utilizando-se da beleza e da sensualidade da figura feminina, encarnada numa ninfa grega.
A Carioca, como toda figura clássica, está centralizada e tem uma luz que a ilumina de frente, seguindo o princípio renascentista da clareza absoluta. O observador está inteiramente comprometido com o olhar intenso dessa mulher: essa convocação através do olhar, entretanto, permanece submissa ao princípio renascentista, em que a linha é o caminho através do qual se constrói a figura.
Embora a iluminação permita clareza absoluta, o fundo é extremamente escuro fazendo uma alusão à natureza local como um lugar misterioso. Neste aspecto podemos apontar também para outra inspiração: Ticiano. Em seus retratos, o pintor barroco, apresentava fundos quase negros, onde o que se destacava na figura eram, especialmente, os olhos {IMAGEM}.
Os olhos morenos de A Carioca, embora não mirem o espectador são expressivos e duros. Teatrais, eles sustentam o olhar do observador sem medo. Contudo, estão imersos em certo esfumatto à moda de Leonardo da Vinci, de modo que não se vê claramente o contorno, as finalizações dos olhos, que parecem esmaecer nas sobrancelhas, que são, por sua vez, dois traços extremamente marcados. Ao fundo, o céu claro parece explodir, chamando-nos a atenção para a natureza, as nuvens, a atmosfera. A luz que se insinua e contrasta com a precisão da figura, confere uma atmosfera cálida e envolvente. Há aqui uma certa inspiração na luminosidade de Giorgione, especialmente na sua Vênus Adormecida, de 1510 [IMAGEM].
N’A Carioca a ênfase na anatomia do corpo sinaliza para uma inspiração em Miguelangelo, com seus corpos extremamente desenhados e suas formas tensas e volumosas [IMAGEM].
Muito embora a tela de Pedro Américo se vincule à estética clássica, pode-se perceber na linha serpentina que corta o dorso uma referência ao barroco. Seu braço atravessa a tela quase que cortando a figura em duas partes. Os cabelos negros entrelaçam o braço remetendo-nos às figuras orientais. Os dedos contorcidos sugerem leveza e graciosidade no corpo. Parece que a figura vai dançar. Seu corpo é teatral e a tela é um cenário. Este braço sinuoso promove uma certa ação dramática elevando o teor emocional da obra. A Carioca incorpora um ritual de celebração. Introduz no clássico, no apolíneo, um elemento inegavelmente dionisíaco. É exótica. Uma fêmea lendária. Quase uma bacante. Neste aspecto está relacionada ao irracional, ao incompreensível: é o ‘selvagem’ versus o Civilizado.
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Mas afinal o que é um nu nessa tradição? O nu, mais do que um tema dentro da história da arte, é uma das mais antigas formas artísticas, segundo o ponto de vista de Kenneth Clark no seu clássico estudo sobre esse objeto1. O nu não é apenas a figura humana despida, numa situação que indicaria constrangimento, mas uma construção que expressa, de modo privilegiado, o ideal de beleza de uma dada época. O termo “nu” no âmbito da arte também convoca imediatamente a idéia de um olhar educado, de uma representação que é, antes de tudo, resultado da boa formação do artista.
A disciplina da observação, a objetividade do olhar, a precisão do traço, a exatidão das proporções jogavam a favor do sucesso de uma determinada obra. Parte fundamental do aprendizado do artista, o “nu artístico”- termo cunhado aliás no século dezenove – especialmente o nu feminino, encarnava um dos mais caros cânones do Belo ideal.
Nesses termos, como então Pedro Américo poderia compreender a recusa de sua tela, que obedecia tão satisfatoriamente as regras acadêmicas? Professor da cadeira de desenho da Academia Imperial de Bela Artes a partir de 1864, o pintor esteve no centro de uma série de intrigas que antagonizavam com Vitor Meireles – diga-se de passagem, ao lado de quem posicionou-se o Imperador, para surpresa e decepção de Pedro Américo.
Com A Carioca, Pedro Américo pensava-se parte de um certo projeto oficial romântico. A exuberância e a potencialidade da Natureza brasileira, a representação de temas históricos, além do realce da figura indígena traduziam essa visão, na qual o mecenato artístico de Pedro Segundo jogava um papel fundamental.
Considerando esse contexto, a rejeição ao quadro deve ter sido incompreensível para Pedro Américo. A Carioca procurava combinar a tradição clássica da ninfa com a exuberância da paisagem que se queria representativa da natureza brasileira. Atestava ainda a excelência do jovem artista na execução dessa modalidade muito típica do século dezenove: o “nu artístico”.
Seguindo o cânone, A Carioca era, na verdade, uma figura idealizada, elogio emblemático ao lugar e à paisagem. A divindade pagã que habitava os rios e os bosques – tema recorrente na tradição pictórica desde o Renascimento – não poderia estar mais de acordo com os preceitos neoclássicos que orientavam a arte brasileira; ou, dizendo com Mário Barata, de acordo com o “romantismo acadêmico” 2 que já despontava no cenário artístico de meados do oitocentos.
Se a realização mantinha tal coerência, como poderia desgostar ao Imperador ou chocar-se com o bom gosto da incipiente elite letrada brasileira? Nossa hipótese é de que, embora tivesse seguido as regras referentes ao tema escolhido, ainda assim Pedro Américo teria produzido uma obra que não estava em perfeita consonância como os valores do seu tempo e do seu lugar. E isso não somente pelo aspecto obviamente moral, embora seja fundamental ter em vista que A Carioca, um dos primeiros (senão o primeiro) nus artísticos nacionais apresentados ao público, era obra licenciosa para os padrões pudicos de um sociedade patriarcal e severa como a nossa.
O que estava em jogo não era somente isso. Se é verdadeiro que um nu artístico envolve, como qualquer outra obra de arte, uma dada concepção de mundo, ou seja envolve ideais ao mesmo tempo estéticos e éticos, pode-se presumir que ao pintar a tela e ofertá-la a D. Pedro II, o artista considerasse sua obra uma representação não apenas da beleza nacional, mas também da dignidade e da imponência brasileiras. A julgar pela recepção do quadro, aquela carioca era, ao contrário, despudorada, sedutora, lânguida. Era indigna da posição que almejava. Ao contrário de uma figura ideal, sua opulência carnal a reenviava ao território propriamente humano, erótico, temporal, em tudo distante da idealidade artística e patriótica.
Retomemos a tela [IMAGEM], considerando agora algumas reflexões feitas pelo filósofo José Américo da Motta Peçanha no pequeno artigo “Despir os nus”3. Este autor comenta que, no século dezenove, o erotismo aparecia nas artes plásticas sob o “véu” da categoria “nu artístico” e sob a suposta inocência e objetividade de um olhar puramente estético, fosse do artista, fosse do observador. Sob a forma de temas mitológicos, bíblicos ou exóticos, a nudez podia ser admirada pelo público burguês.
O pressuposto das alegorias referidas ao passado greco-romano ou cristão e, ainda, das cenas sensuais ambientadas no Oriente era a distância, fosse temporal ou geográfica. Com o álibi desse afastamento, a nudez neoclássica e romântica era sempre um Outro, ainda de acordo com Motta Peçanha. A alteridade punha a ousadia sensual dessas imagens a salvo do puritanismo público e oficial. Novamente, PA parece ter seguido a regra.
No entanto, como vimos no início, A Carioca extrapola os limites do alegórico – ou seja, da representação visual que está a serviço de uma idéia. Ela é carnal, palpitante, viva. A espiritualidade almejada pelo artista não encontra a tradução esperada nessa mulher bela, misteriosa e opulenta.
Mas isso apenas não esgota o problema da rejeição – podemos dizer mesmo censura – inicial à tela. Não é apenas o fato de trair um olhar lascivo, sem o revestimento estetizante que o inocentaria, o que “complica” nossa Carioca. No projeto de identidade cultural nacional que se desenhava então, a natureza, o índio e os grandes acontecimentos históricos eram os temas aceitos, como já foi dito. No entanto, do ponto de vista formal, a tela de Pedro Américo simbolizava o Brasil através de uma fórmula vincada no exótico e no extravagante, que era a própria fórmula do “nu artístico”. Essa carioca pintada na Europa apresentava-se, assim, como emblema de uma cultura e um povo distantes. Como poderia desejar ser a expressão do mais alto valor nacional, aquilo que distingue e enaltece o ser brasileiro?
Nas estratégias de representação da arte brasileira durante o Império, a natureza local é sempre plena de beleza e de potencialidades, o índio é heróico e seus corpos se oferecem à contemplação admirada e respeitosa, como em Marabá ou Moema. Nada há de lúbrico nessas imagens, nem de exótico.
Nos parece que A Carioca, ao seguir à risca a lição européia de representação alegórica da nudez incorporou o duplo distanciamento – temporal, através da ninfa, e espacial, através de uma fatura orientalizante – e devolveu ao Brasil um certo Brasil exótico, selvagem que, em absoluto, correspondia à imagem do país então se desejava construir.
Curioso paradoxo: seguindo fielmente a regra, a obra de arte de Pedro Américo escapole de suas mãos. O erotismo exótico da náiade brasileira aqui soou como ofensa moral e, sobretudo, destoou de um projeto cultural mais extenso. A nudez construída por Pedro Américo não exaltava o projeto estético nacional, antes evidenciava uma contradição. Ali estavam todos os elementos: a beleza morena, o tratamento alegórico, a paisagem misteriosa e pródiga. Mas dispostos de tal modo que essa Carioca apresentava-se despida, sim, mas de uma memória e de uma história nacionais, temas que ocupavam lugar central na constituição da identidade e da unidade do Império Brasileiro.
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A segunda versão de A Carioca surge em 1882. Quando reapresentada ao público na décima sétima Exposição Nacional a trajetória seria inteiramente diferente. Ainda assim, a tela sofreria reveses, recebendo várias críticas, como a de Ângelo Agostini que, na Revista Ilustrada reproduz a tela com a seguinte legenda: “A Carioca, com variações sobre flauta. Segunda flauteação. Apesar de tomar banhos em azeite para curar a perna esquerda, esta continua cada vez mais inchada”. Na ilustração de Agostini, vemos uma paródia da imagem, com a flauta mencionada na legenda. [IMAGEM].
Pedro Américo era então um artista prestigiado, deputado, professor da Academia, popularizado por obras grandiosas como A Batalha de Avaí e O Grito do Ipiranga. Considerado o artista oficial, era o porta-voz da ortodoxia acadêmica e do dirigismo artístico brasileiro, algo certamente combatido por artistas como Agostini, vinculados ao que havia de mais moderno na artes plásticas nacionais.
Ao referir-se à desproporção anatômica de A Carioca, o caricaturista comete, ao nosso ver, uma injustiça, pois Pedro Américo era um mestre não só do traço mas da cor, como atestam as palavras do crítico Gonzaga Duque, pouco após a morte do artista, em 1905. Embora não o apreciasse especialmente, o crítico anota: “ A beleza da forma que a Carioca possui, a flexibilidade de suas curvas, a segurança de seus contornos, a exuberância de suas massas musculares, ficaram como características de um estilo, a que o colorido veio completar com uma turbulenta riqueza de tons crus.”4
Gonzaga Duque compara A Carioca, ainda, a Ticiano e Veronese, ressaltando a precisão na execução do traço e da composição.
A melhor fortuna da tela no seu segundo momento também deve ser atribuída ao novo cenário político brasileiro na década de 1880. A Abolição e a República eram os temas centrais do debate público e, como nota a historiadora da arte Sonia Gomes Pereira, a tela incorporava-se mais facilmente agora ao imaginário que circulava em jornais e revistas5. A propaganda republicana, cuja personificação máxima era a figura da Marianne, com seu barrete frígio e, muitas vezes representada com os seios expostos, convocava toda uma outra percepção, agora positiva, da mulher. A imagem que outrora feriu não só a moral da Corte, como as premissas de uma identidade visual brasileira – tratando o “nacional” pelo seu víeis mais desvalorizado: o do exotismo selvagem e sensual, ganha agora outro estatuto.
Ainda assim, a tela continuava e continua a ter seus detratores, exatamente pela maneira contraditória com que se inseriu no projeto artístico nacional. Monteiro Lobato, por exemplo, é implacável: “A discutidíssima Carioca só o é no título. Fora daí, um simples nu, uma ninfa, uma banhista, um fonte tão carioca como as mil co-irmãs que abarrotam as pinacotecas européias.” 6
A falta de brasilidade é também retomada por José Murilo de Carvalho a respeito de Pedro Américo: “... quando lhe ocorreu representar a mulher brasileira, produziu um nu e lhe deu o nome das habitantes da Corte. Poderia ter escrito embaixo A francesa...” 7.
Se, ainda no auge do Império A Carioca não correspondia à exaltação do nacional pela via do nativismo romântico; em tempos republicanos, a tela também parecia alheia ao Brasil. Permanece assim simultaneamente transgressora e acadêmica, ao mesmo tempo representação idealizada e corpo pulsante. Dito de outro modo, o erotismo d’A Carioca oferece-se como um problema não somente estético mas também político e cultural, uma provocação, talvez involuntária, saída de dentro mesmo dos mais severos limites da arte oficial.
NOTAS
- Kenneth Clark. The Nude. A Study in Ideal Form. New York, Doubleday Anchor Books, 1956.
- Mario barata. “A arte no século XIX: do neoclacissismo e Romantismo até o Ecletismo”, in Walter Zanini. História Geral da arte no Brasil, São Paulo: Instituto Moreira Salle, 1983, 2 vol.
- José Américo Motta Peçanha. “Despir os nus”, in O Desejo na Academia. 1847 – 1916, catálogo de exposição. Pinacoteca do Estado de Sào Paulo, 1991. Muito embora esse autor tenha visto n’A Carioca apenas uma alegoria moralizante, ao contrário do que tentamos demonstrar aqui.
- Gonzaga Duque. Pedro Américo. Impressões de um amador. Textos esparsos de cr’tica (1882-1909). Júlio Castañon Guimarães e Vera Lins (org.). Editora UFMG, Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001, p. 242.
- Sonia Gomes Pereira. O percurso e os dilemas de artistas brasileiros em Paris no século XIX: o caso da tela A Carioca, de Pedro Américo. Anais do XXV Colóquio do Comit6e Brasileiro de História da Arte. Tiradentes/MG, outubro de 2005, pp. 292 – 301.
- Monteiro Lobato. Pedro Américo. Idéias de Jeca Tatu. Sào Paulo: Editora brasiliense, 1951, p. p. 73.
- José Murilo de Carvalho. República mulher: entre Maria e Marianne. A formação das almas. O imaginário da república no Brasil. Sapo Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 95.