Saberes Impressos: Imagens de Civilidade em Literaturas Ordinárias (os livros de bolso/décadas de 60 e 70 do século XX)
                                                Maria Teresa Santos Cunha
                                                          Professora do PPG em História - UDESC
Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1946, uma jovem espanhola de vinte anos - Corin Tellado - pseudônimo de Maria Del Socorro Amália Tellado López, nascida nas Astúrias em 1927, escreveu seu primeiro “romance”, intitulado em espanhol Atrevida Apuesta, em forma de “bolsilivro”, ou livro de bolso assim chamado pelo seu tamanho menor (15 cm x 10,5 cm), editado em 1948 pela Editorial Bruguera 1. Em meados de 1960, Bruguera firmou o termo ‘ bolsilivros’ e os exportou para a América Hispânica (Argentina, México, Chile, Venezuela, Colômbia e Brasil, principalmente) sendo um sucesso de vendas em todos estes países. Este impresso pode ser considerado na clave de escritas /literaturas ordinárias 2. O número de vendas e, conseqüentemente, de leitoras se constitui em um dado a mais para investigações sobre este material de leitura, aparentemente menor, negligenciável, ordinário.
Neste estudo, através da análise de um corpus documental composto de uma coleção que circulou abundantemente no Brasil entre as décadas de 60 e 70 do século passado, procurou-se analisá-los tanto em seus suportes materiais bem como em seus dispositivos textuais com o fito de mapear um dado conjunto de regras morais e condutas prescritas que compõem o repertório civilidades de uma época. Considerados como literaturas ordinárias suas imagens se prestam a um processo hermenêutico já que comportam o simbólico. A análise procura exercitar uma dada percepção para apreender intervenções de certas linguagens no transcorrer da história e como estas possam ter constituído novas formas de sensibilidade. Tais linguagens instituem comportamentos e padrões de conduta que atuam no cotidiano de indivíduos, despertam afetividades quase sempre com muita eficácia porque atingem emoções e, portanto, uma das instâncias mais íntimas de homens e mulheres. Considerar linguagens como saberes impressos ligadas é um exercício de resignificação de situações que foram durante muito tempo desconsideradas por historiadores envolvidos em linguagens racionais, científicas, não-emotivas, inauguradas pela modernidade
Estes impressos tratavam-se de leituras endereçadas à jovens mulheres, chamada de “cor-de-rosa” por seus motivos românticos, cuja convenção via homens e mulheres portadores de valores como as emoções, a beleza, as sensibilidades: uma versão modernizada do folhetim.
Historicamente, desde, os inícios do século XIX, uma onda crescente de novelas e romances inundou as livrarias e parece correto afirmar que as mulheres leitoras desempenharam e continuam a desempenhar um papel importante em sua difusão 3 como aparece descrito em GIDDENS (1993, p. 50)
O amor romântico introduziu a idéia de uma narrativa para uma
vida individual (...) Contar uma história é um dos sentidos do ‘romance’,
mas esta história tornava-se agora individualizada, inserindo o eu e o
outro em uma narrativa pessoal , sem ligação particular com os processos
sociais mais amplos.
Os pequenos livros de Corin Tellado, muito populares na Espanha e nos países da América Hispânica, só circularam no Brasil a partir de meados dos anos 60 do século XX por concessão da Editorial Bruguera que estabelece um escritório no Rio de Janeiro. Suas capas, assim como as traduções para o português de seus títulos, eram, em geral, chamativas, provocantes, sensacionalistas, kitsch 4 , no sentido de um protocolo para a divulgação de certos valores de civilidade (como ser moderno, ser civilizado).
A civilidade - entendida aqui como uma experiência histórica e contingencialmente constituída - representaria um intenso esforço de codificação e controle dos comportamentos para conter as sensações e movimentos do corpo e da alma – o que era um dos objetivos a alcançar para a educação escolar. Matéria de longos tratados, sempre enunciada à maneira do dever ser, encarnada em dizeres e regras, as práticas de civilidade podem ser consideradas como formas de racionalização do cotidiano e se confundem com a repressão dos sentimentos que, num estágio de civilização, propicia o “abrandamento das pulsões” 5.
A leitura destas histórias sentimentais, aparecia semanalmente com uma infinidade de novos títulos e enquadrados em coleções que favoreciam a identificação e o intercâmbio. Seus argumentos são estereotipados, seus personagens arquetípicos, os valores sociais convencionais e temas amorosos que terminam canonicamente em casamento. Seus autores não são renomados, mas obtêm lucro e escrevem de forma simples “ muito diálogo, nenhuma descrição longa, frases de estoque, ambiente convencional”.6
Tanto no Brasil como nos demais países da América Latina e na própria Espanha, os livros de bolso de Corin Tellado eram impressos de uma forma que possibilitava uma leitura em qualquer espaço tanto em transportes públicos como em salas de espera e em intervalos de trabalho e, tudo indica que esta materialidade do suporte foi uma das razões do seu êxito. Na clave dos estudos da História da Leitura, o historiador Roger Chartier reafirma a importância do suporte em que o texto é apresentado ao leitor argumentando enfaticamente que “o processo de publicação, seja lá qual for a sua modalidade, é sempre um processo coletivo que requer numerosos atores e na separa a materialidade do texto da textualidade do livro”(CHARTIER, 2006: p.13)
Os livros de bolso de Corin Tellado eram apresentados em Coleções intituladas Trevo, Carícia, Amor com capas coloridas e de apelo discursivo de cunho romântico. Este tipo de leitura apelava para o ser moderno entendido como um imperativo básico de ser civilizado, adotava uma linguagem carregada de estrangeirismos, que ia dos simples vocábulos ao nome dos/das personagens (Edward,Richard, Mildred, Sthefany, etc), com uma valorização estética de tudo que era fútil e efêmero, com uma temática centrada no mundanismo como um estilo de vida, muito comuns como:
Foram sete dias maravilhosos.Sete dias cujos minutos foram
Aproveitados como se fossem os últimos da vida de ambos.
Ao meio-dia iam à piscina. À tarde, iam às compras. Jantavam
No Jockey Club e depois iam ao teatro.
(Corin Tellado/ Espinhos na Carne)
Segundo Renato Ortiz (1994) o período que vai dos inícios da década de 1960 aos anos de 1980 é a fase em que se consolida um mercado de bens culturais, fruto do desenvolvimento do capitalismo e da industrialização recente que multiplicou as oportunidades de trabalho e lançou as bases de uma diversificada e moderna sociedade de consumo. Há, em conseqüência, uma expansão de um mercado tipográfico que impulsiona o consumo de leituras “de massa”, pelas novas tecnologias que podem baratear a produção bem com a facilitar a circulação.
Certamente os militares não inventam o capitalismo, mas 1964,é um
momento de reorganização da economia brasileira que cada vez mais
se insere no processo de internacionalização do capital;o estado totalitário
permite consolidar no Brasil, o ‘capitalismo tardio’.Em termos culturais
essa reorientação econômica traz conseqüências imediatas, pois,paralela-
mente ao crescimento do parque industrial e do mercado interno de bens
materiais, fortalece-se o parque industrial de produção de bens culturais.
( Renato Ortiz, 1994, p. 114)
Ao que tudo indica, a divulgação de impressos como os livros de bolso que, como já vimos, podia ser lido em qualquer lugar, se insere neste movimento, notadamente entre as camadas operárias 7. Para BOSI (1992) as pessoas que trabalhavam em situações precárias necessitavam esquecer-se da dura ‘realidade’ e os romances entretinham seu tempo livre pois tudo se passava no plano da expectativa, do porvir. A felicidade não se encontrava no presente, mas sim no futuro que estaria a caminho.Há um apelo encantatório do vir-a-ser: “nos romances de amor, como nas cartas de cartomante, há sempre um homem a caminho, um valete que chegará um dia trazendo a felicidade”.( COLASANTI, M. 1984)
A medida que se investiga o tema é possível perceber as múltiplas possibilidades de análise desse material, mas nesse momento da pesquisa, ainda em sua fase inicial, pretende-se apresentar uma primeira tentativa de análise de suas capas e títulos na clave de uma historia cultural da leitura que considera as imagens como ‘ experiências históricas’ e ‘ cerimônias de apropriação para o texto escrito’ e como tal, merecedoras de maior investimento epistemológico por serem produtoras de sentidos/significados e alimentadoras do imaginário.
Nos livros de bolso em estudo as imagens (ilustrações) de capa incluindo seus títulos são, por si só, textos que permitem interpretações para seus aparentes clichês e palavras de ordem repetitivas que sinalizam para valores, normas, condutas circulantes em cada época e que sinalizam um repertório de civilidades.
Problematizar estas imagens no campo da história é um desafio e pede um olhar ampliado que contemple tanto para suas dimensões formais (capas) como semânticas (títulos) e assim, parte-se do pressuposto de que elas são “construções” que se articulam através de uma montagem que almejam produzir positividades .
CAPAS E TITULOS: Um território à espera de cartógrafos
As capas dos livros de bolso eram desenhadas em cores fortes eem papel brilho e expressavam, quase sempre em primeiro plano, a imagem de um casal em momento idílico. A figura feminina é destacada na capa e há uma tendência que se evidencia: o corpo feminino expresso em belas formas físicas se sobressai na paisagem. Tais imagens corporais transpiram descontração, certa irreverência. Os cenários são, na maioria das vezes, imperceptíveis e, quando aparecem representam cenas de vida metropolitana/cosmopolita, expressam um estilo de vida urbano,moderno, civilizado.
Estas capas, em formato pequeno, leves e irreverentes ,antecipavam, quiçá, as emoções da leitura, assinalando os primórdios da invasão do livro de bolso estrangeiro, como literatura de entretenimento das massas 8 facilitada e estimulada pela ausência de similares nacionais e que passaram em seus países de origem pelo teste da popularidade e aqui chegaram aureolados do prestígio publicitário.
Vendidas a baixo custo em bancas de jornal, tais imagens visavam, prioritariamente, um público leitor feminino em processo de urbanização, procurando apreendê-lo em mundo moderno que diga respeito ao cotidiano e cujos personagens exerciam profissões liberais como os advogados, industriais (estes eram a maioria dos protagonistas), os médicos etc. enquanto as heroínas trabalhavam, praticavam esporte, cuidavam do aspecto físico, mas não se envolviam em nenhuma querela sócio-política, querendo apenas amar/ ser amada e vencer na vida. Uma literatura açucarada, onde não se fazem presentes indagações de cunho político, existencial.
Os títulos parecem satisfazer ao maior número de seus consumidores – as jovens mulheres – daí que em sua maior parte fazer-se uso de recursos de efeito já consagrado e que, minimizando o esforço interpretativo sinalizavam para um certo romantismo banalizado pela repetição – Doce escravidão; Amor e Desespero; Ninguém vive sem amor; Foi sem querer; O destino de Leida,etc. Este expediente ,ao que parece, contribuiu para poupar as futuras leitoras, no ato do consumo, de maiores esforços de sensibilidade,inteligência e até mesmo de atenção e memória.
Pouco se sabe sobre a circulação desses livros no Brasil e muito menos sobre sua recepção em que pese sua penetração como uma prática consolidada de leitura. Esta constatação desafia o historiador a desconstruir essas construções narrativas e, nessa operação, examinar os livros de bolso de Corin Tellado em uma experiência pontuada, sobretudo, pela criação de questões que implicam o abandono de posições deterministas e a adoção de uma relação mais íntima entre sujeito e objeto, em que se integrem as questões do passado à dinâmica do presente; enfim, “uma nova postura diante da história, um outro olhar que interroga o passado a partir de pressupostos que constroem também novos objetos e formulam novas questões” (PESAVENTO, S. J. 2004, p.7)
A partir desse contato inicial com os livros de bolso é possível perceber que se por um lado a história desse impresso é atravessada por repetições de certas fórmulas de sucesso que insistem em permanecer e se transformam em clichês do que se convencionou chamar “literatura sorriso da sociedade”, esta história também é atravessada por rupturas como a possibilidade de refletir sobre a história da produção desses impressos, das representações iconográficas de suas capas e da formação de gostos e percepções estéticas suscitadas pelas suas narrativas. Seus altos índices de vendagem autorizam este investimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOSI, E. Cultura de Massa e Cultura Popular. Leituras de Operárias.8ª Edição.Petrópolis (RJ): Vozes, 1991,
BURKE, P. Testemunha Ocular: história e imagem. Bauru(SP): EDUSC, 2004.
CHARTIER, R. Inscrever e apagar. Cultura Escrita e Literatura.SP: UNESP, 2006.
COLASANTI, M. E por falar em amor. RJ: Círculo do Livro, 1984.
ELIAS, N. O processo civilizador. RJ:Jorge Zahar Editores, 1993
GIDDENS, A . A transformação da intimidade. Sexualidade,Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas. SP: UNESP,1993.
GONZÁLEZ, A. C. Corin Tellado. El erotismo rosa. Madrid: Espasa Calpe, 2002.
FABRE, D. Écritures Ordinaires. Paris: Centre Georges Pompidou. Bibliotheque Publique d’Information, 1993.
MOLES, A.O. O Kitsch. 5ª ed.SP: Perspectiva. 2001.
ORTIZ, R. A moderna tradição brasileira.Cultura Brasileira e Indústria Cultural. SP: Brasiliense, 1988.
PAES, J.P. Faz falta uma literatura brasileira de massa.Folha de São Paulo. Caderno Ilustrada. E-8.10 de janeiro de 1989.
PESAVENTO, S.J. (org). Escrita, Linguagem, Objetos. Leituras de História Cultural.Bauru,SP: EDUSC.2004
Livros de Corín Tellado editados entre 1965 a 1978/ Editorial Bruguera/ Cedibra/Rio de Janeiro.
SITES CONSULTADOS NA INTERNET:
< www.corintellado.com>. Acessado em 26/03/2007
< www.la-lectura.com/ensayo >. Acessado em 28/04/2007
< www.netcom.es >. Acessado em 31/04/2007.
< www.revistafusion.com/asturias/1999/agosto/mujer>. Acessado em 30/04/2007
NOTAS
- Criada em 1910, como Editorial El Gato Negro por Juan Bruguera, foi transformada em Editorial Bruguera em 1936/37 pelos filhos de Juan Bruguera: Pantaleón e Francisco, especializando-se em edições populares, revistas infantis e folhetins por entregas em domicílio. ( González, 2002, p. 64)
- As escritas ordinárias ou sem qualidades são aquelas realizadas pelas pessoas comuns e que se opõem aos escritos prestigiados, elaborados com vontade específica de “fazer uma obra”, para ser impressa (Fabre,1993)
- Ver: GIDDENS, A . A transformação da intimidade. Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas.SP: UNESP, 1993. p. 52 passin..
- O kitsch compreende um sistema estético de comunicação de massa [...] envolve uma valorização estética do efêmero e do fútil [...] opõe-se à simplicidade, é rebuscado[...] adorna a vida cotidiana com uma série de ritos ornamentais [...] não reclamam raciocínio” (MOLES,2001. p.20-26)
- Este é justamente o título de um dos capítulos com que Norbert Elias conclui seu monumental trabalho. Ver:ELIAS, N. O processo civilizador. RJ:Jorge Zahar Editores, 1993.
- BOSI, E. Cultura de massa e cultura popular.Leituras de Operárias. 8ª edição. Petrópolis (RJ): Vozes, 1992. p. 165.
- BOSI, E. idem, p.59-166
- PAES, José Paulo. “Faz falta uma literatura brasileira de massa”. Folha de São Paulo. Ilustrada.10-01-1989 p.E –8.