Melancia e Expedito: Cordel Na Fala E Na Escrita
                                                Martine Kunz
                                                          Universidade Federal do Ceará / Pós-Doutoranda da PUC/SP


RESUMO:
Este trabalho se propõe a refletir sobre as trajetórias de dois autores cearenses de cordel, um do sertão, o outro do litoral: o poeta-artesão de Juazeiro do Norte, Expedito Sebastião da Silva (1928-1997) e o poeta-pescador de Canoa Quebrada, Zé Melancia (1909-1977). Procuramos desenvolver um estudo comparativo à luz da poética da oralidade (Zumthor), da estética da recepção (Jauss, Iser) e da correlação entre forma literária e processo social (Antonio Candido), e tentamos analisar em que medidas, para cada poeta, o percurso editorial de sua produção e o sentimento de pertencer a uma coletividade interferiram na estética das obras em questão e na sua capacidade de comunicação através dos tempos. 1
PALAVRAS-CHAVES: Cordel, Autor, Obra, Público.

RÉSUMÉ:
Ce travail propose une réflexion sur les trajectoires de deux auteurs cearenses de cordel, l’un du sertão, l’autre du littoral : le poète-artisan de Juazeiro do Norte, Expedito Sebastião da Silva (1928-1997) et le poète-pêcheur de Canoa Quebrada, Ze Melancia (1909-1976). Nous avons tenté une étude comparative à la lumière de la poétique de l’oralité (Zumthor), de l’esthétique de la réception (Jauss, Iser) et de la corrélation entre la forme littéraire et le processus social (Antonio Candido), et essayé d’analyser dans quelle mesure, pour chaque poète, le parcours éditorial de sa production et le sentiment d’appartenir à une collectivité sont intervenus dans l’esthétique des oeuvres en question et dans leur capacité de communication à travers le temps.
MOTS-CLÉS : Cordel, Auteur, Oeuvre, Public.


« Escrever é propiciar a manifestação alheia,
em que a nossa imagem se revela a nós mesmos.”

Antonio Candido 2

É sob os auspícios desta epígrafe do mestre Antonio Candido, que situo as considerações a seguir sobre publicações minhas de pesquisadora de literatura de cordel, entendida como literatura popular em verso, impressa em folhetos. É que fui impulsionada a desenvolver esta reflexão a partir das ressonâncias encontradas em alguns amigos leitores, atentos e críticos. O ator Ricardo Guilherme, os pesquisadores Gilmar de Carvalho e Regis Lopes encontrariam aqui farrapos de nossos papos informais e não menos profícuos. Serviram-me de trampolim, permitiram-me explorar melhor as próprias indagações. Ninguém se lança no ar sozinho, como fez o herói lendário e mitômano, o Barão de Münchhausen, que pretendia se ter arrancado de um atoleiro puxando seus próprios cabelos para o alto.
Eis a tentativa de responder de modo argumentado e, espero, satisfatório, à pergunta recorrente: por que Zé Melancia? e à outra pergunta que pesa pela sua ausência: por que Expedito Sebastião da Silva? Os dois poetas integram a coleção Biblioteca de Cordel da editora Hedra de São Paulo, com introdução e seleção de minha responsabilidade.3
A citação preliminar honra também e, sobretudo, a memória de Expedito ( 1928-1997) e a de Zé Melancia (1909-1977), pois se diziam poetas por corresponderem às expectativas de seus respectivos públicos, oriundos da população de baixa renda e marginalizada, e assim merecerem, em retorno, o título outorgado por estes, em reação a suas obras, rimas e sextilhas, ritmos e vozes. “É tanto que eu tenho o nome de poeta aqui porque a minha poesia num é porque eu queira não, é o povo que diz”4 afirmava Zé Melancia; ao que acrescentava Expedito, destacando o papel social desempenhado pelo autor no seio do seu grupo de pertença: “ (...) a pessoa tem que fazer a coisa como ela há de ser e no gosto do povo, a gente escreve não é pra gente, é pra o povo. Se eu vou fazer uma história, não vou fazer de acordo com o que eu gosto não, faço de acordo com o que o povo gosta, porque eu sou escritor, eu não vou escrever a história pra mim, escrevo pra o povo.”5
O coletivo suplanta o individual. A manifestação alheia é presente na obra única que, por sua vez, passa do plano pessoal ao coletivo, pelo seu poder de comunicação. Obra, público e autor ficam envoltos no mesmo processo de circulação literária. Nem um nem outro poeta usava esta designação como enfeite ou insígnia honorífica, eles sabiam que não se tratava de negócio ou adorno, era mais, era o sentido da vida, o sentido da vida em uma determinada sociedade.
Expedito publicou seu primeiro folheto em 1948, aos 20 anos. Já trabalhava na Tipografia São Francisco, grande centro nordestino de editoração popular, especializado na literatura de folhetos. Melancia publicou seu primeiro título em 1951, aos 42 anos. Desde criança era pescador no pequeno arraial onde tinha nascido.
Expedito deixou uma obra calcada na grande tradição do cordel, de contornos definidos, com vitalidade para enfrentar o tempo. Aproxima-se dos clássicos do gênero, modelo de excelência, referência no futuro. É um clássico, não porque trouxe inovações, muito ao contrário, mas porque se submeteu às normas da literatura de folhetos, que foram fixadas desde o final do século XIX, quando surgiram os primeiros títulos impressos. A filiação não só era reconhecida por ele, como reivindicada. A sujeição aos mestres do passado dignificava mais do que a manifestação de uma singularidade.
O primeiro folheto A moça que depois de morta dançou em São Paulo revelou a perícia técnica, as regras tinham sido obedecidas: “A gente tem que escrever é de forma que se faltar uma sílaba na métrica, aquela pessoa que ama, entende e sabe o que é cordel, já viu o erro daquele poeta. O mais importante do cordel é a métrica. Uma poesia sem métrica é uma coisa inválida. A métrica é que faz o cordel ficar bonito”. O folheto citado teve bastante sucesso, somando perto de 8.000 exemplares em duas edições.
Evocando seu primeiro romance, O prêmio da inocência que atingiu 28.000 exemplares em sete edições, a primeira sendo de 1952, Expedito lembrava sua resposta a uma indagação do Zé Bernardo: “Expedito, quem vê assim pensa que é de João Martins de Athayde (Ingá-PB, 1880 – Recife-PE, 1959), aí eu disse: sabe por quê? É que eu me inspiro muito nas histórias dele. Eu lia muito, aí a gente fica com aquela base concreta que a gente não foge, o indivíduo já tem a veia poética, aquilo ali vai pra cuca dele, depois de penetrar dentro do indivíduo, ele não esquece jamais”.
Por que, então, Zé Melancia? me perguntaram. Afinal, não raro, ele se distancia dessa forma rígida, dogmática, mas por certo resistente, quase mineral, que protege na sua forma imóvel, uma arte ameaçada. Por que Zé Melancia, se ele parece até desconhecer as regras extremamente codificadas do gênero literário praticado por ele? Às vezes, ele foge à constante rítmica do cordel que é o verso de sete sílabas e ousa, até, variar de estrutura estrófica no corpo do mesmo poema. Sua obra não chegou aos grandes acervos do país, institucionais ou particulares, e seu nome não consta do Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada de Átila de Almeida e José Alves Sobrinho. Por que Zé Melancia, já que são poucos os títulos impressos, e que as transcrições por escrito de seus versos revelam, em alguns casos, interferências divergentes, que podem encobrir o texto primordial?
Força é reconhecer que a escassez do acervo (embora não seja o volume que importa), a conservação precária dos textos e a transgressão da norma estabelecida, dificultam o trabalho do pesquisador e podem levar a apreciações equivocadas. Mas é inegável também que a obra em questão tem historicidade, isto é capacidade de comunicação através dos tempos, e, nesse princípio de século XXI, foi possível comprovar a interação do texto com o povo de Canoa Quebrada, quando este lembrava versos, estrofes, ou ficava comovido ao reler os poemas que a nossa pesquisa pôs de novo em circulação. O texto de Zé Melancia permanece acontecimento, no sentido atribuído à palavra por Jauss: “Ele (o literário) só logra seguir produzindo seu efeito na medida em que sua recepção se estenda pelas gerações futuras ou seja por elas retomada – na medida, pois, em que haja leitores que novamente se apropriem da obra passada, ou autores que desejem imitá-la, sobrepujá-la ou refutá-la. A literatura como acontecimento cumpre-se primordialmente no horizonte de expectativa dos leitores, críticos e autores, seus contemporâneos e pósteros, ao experienciar a obra.” 6
A pergunta permanece posta e para glosar o mote, resolvemos desenvolver essa cantoria acadêmica entre cordel do mar e do sertão, Zé Melancia e Expedito Sebastião da Silva. Uma obra alumia a outra e vice versa. Zé Melancia nasceu longe do Cariri, Expedito nunca viu o mar. Mas os dois foram poetas, criados e vividos no grande texto oral impresso de que fala Jerusa Pires Ferreira, nesse corpo movediço da literatura de cordel percorrido de ritmo, em que a oralidade não se confunde com a ausência da escrita.
Cearense de Juazeiro do Norte7 , Expedito Sebastião da Silva nasceu em 20 de janeiro de 1928, dia de São Sebastião. A família era pobre. É pouco o que se sabe. Expedito quase não falava sobre sua vida pessoal.
Nunca se afastou da cidade natal, era sua casca, o mapa de suas voltas, a medição de seu tempo, escoado entre a rua José Marrocos, onde morava com sua irmã Lurdes, no número 725, a poucos passos da casa onde nasceu, e a Tipografia São Francisco, onde trabalhou de 1945 até o fim de sua vida, em 1997. Itinerário rigoroso, determinado, de uma rotina no limiar do ritual. A poesia como missão, por mais de meio século da vida de um homem, nascido e falecido pobre.
Corria o ano de 1936 quando José Bernardo da Silva implantou na rua Santa Luzia, 263, a Tipografia São Francisco, pequena gráfica com estrutura familiar que logo se tornaria uma das maiores editoras de cordel do Nordeste. Naqueles tempos, Zé Bernardo, bem sucedido no negócio promissor, vendia cordéis em feiras, festas e romarias e contratava escultores, entalhadores, para fazer as ilustrações das capas de folhetos com xilogravuras. Trabalhando na oficina do editor, Manoel Caboclo fazia seu primeiro horóscopo, por volta de 1950, e Expedito editava seu primeiro folheto A moça que depois de morta dançou em São Paulo, em 1948. Enquanto isso, João de Cristo Rei tornava-se o poeta das profecias, repetindo a todos o que tinha ouvido da própria boca do “padrinho”, o Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), visto como santo pelos seus afilhados.
Todos eram devotos do Padre Cícero e todos já se foram. Zé Bernardo em 1972, João de Cristo Rei em 1983, Manoel Caboclo em 1996 e Expedito Sebastião da Silva em 1997. As vozes permanecem.
Um século exato separa a chegada do Padre Cícero na cidade, em 1872, da morte de José Bernardo, em 1972, e quando este faleceu, sua tipografia estava capacitada a imprimir diariamente 5000 exemplares de um Romance de 32 páginas. 8
O acaso dos números traduz de modo mágico e feliz a junção de dois fatores determinantes para o grande impulso da editoração popular em nossa terra: o carisma do padrinho e a Tipografia São Francisco, hoje Lira Nordestina, testemunha da grande tradição da literatura de cordel brasileira em nosso Estado.

E a Tipografia São Francisco
Se desenvolveu ligeiro
Tornando-se conhecida
Por este Brasil inteiro
Graças à bênção que deu-lhe
O santo do Juazeiro. 9

Refletindo sobre as razões que explicariam por que a editoração popular desenvolveu-se em Juazeiro e não em outros centros que contaram com a imprensa ainda no século XIX, ou que já tinham certa importância política e cultural, como Aracati, Sobral, Icó, Crato, Gilmar de Carvalho formula a seguinte explicação: “Juazeiro tornou-se ponto de convergência nordestina e, por conta de uma contínua romaria ao sacerdote, formou-se um público que já conhecia e consumia folhetos. Foi esse o percurso do romeiro alagoano José Bernardo da Silva, de vendedor de ervas e raízes a um dos mais importantes editores de literatura popular”.10
Como ele, muitos poetas eram romeiros, ou filhos de romeiros que resolveram fixar-se em Juazeiro, a conselho do Patriarca. Assim aconteceu com os pais de Expedito, Sebastião da Silva e Joana Maria da Conceição, alagoanos de Ana Dias. A influência de Padre Cícero refletiu-se também na produção dos poetas populares, não só da cidade como de lugares mais distantes. Uma simples consulta aos títulos catalogados de vários e inúmeros autores, traduz a força do sentimento religioso de extração popular e o rico imaginário que dão força e expansão ao personagem, erigido em ciclo temático com um corpus que vai de seu nascimento à morte e depois da morte.
O poeta Expedito Sebastião da Silva se fez poeta nesse contexto de fé, uma fé vigorosa que, ainda hoje, permeia rostos, gestos, suspiros, corre as ruas, dobra esquinas e agarra cada pedra de sua cidade.
Principiante na arte de fazer versos, Expedito aprendeu seu ofício no seio dessa pequena comunidade artesanal dedicada à transmissão da literatura de cordel e na época do pleno apogeu dessa produção literária. O poeta tinha freqüentado o colégio dos salesianos até seus 16 anos e o quinto ano primário, mas a aprendizagem não veio da escola; tampouco, esse artesão do verso consultou tratados de versificação. Ele herdou a profissão de um companheiro de outra geração, seguindo uma formação que alternava tentativas e erros. Ainda criança, tinha descoberto por si mesmo os encantos da literatura de cordel, lendo os “romances” de Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e João Martins de Athayde (1880-1959). A amizade e vizinhança com o velho poeta Antonio Caetano de Palhares permitiram reforçar e incentivar o gosto juvenil pela poesia.
“(...) eu com Antonio Caetano de Palhares fui por ali, escrevendo umas poesias, mas umas poesias muito erradas, não tinha ainda métrica, só o que vinha na cabeça eu botava, isso aí... já tinha assim uns 14 anos, e então eu mostrava ao finado Antonio Caetano de Palhares, ele prestava tanta atenção... ele endireitava... e por ali fui entrando, só porque achava bonito... e foi indo até que enfim, eu fiz um cordel, isto é uma poesia, uma poesia comum, uma coisa comum, que ele pegou, quando leu, aí ele chegou e disse assim: “O cabra medonho, mas ta quase bom!”
Nada de nebuloso ou heróico, o caminho não foi custoso ou tormentoso, “fui por ali” comentava o poeta, como se, sem se dar conta, espontaneamente, simplesmente, tivesse acompanhado o amigo num passeio gostoso, “e por ali fui entrando, só porque achava bonito... e foi indo...” até que, naturalmente, outro amigo de Palhares aparecesse na casa do mestre. Era José Bernardo da Silva, o dono da gráfica, editor de folhetos, dotado de bom tino para os negócios e descobridor afinado de talentos. A conversa foi breve, sem muitos rodeios e tergiversações: Expedito tornava-se operário da palavra, escrevendo folhetos para a Tipografia São Francisco. Palhares já lhe tinha ensinado que “o que há de mais bonito na poesia é a métrica”; o convívio nesse núcleo de arte e a persistência no aprimoramento do seu talento iam impulsionar a trajetória e confirmar o renome do então jovem aprendiz.
Esse respeito incondicional às regras da métrica remete-nos às origens do folheto e ao seu caráter de oralidade, honrando um público que, em sua grande maioria, não sabe ler nem escrever. O jogo das rimas e o ritmo dessa literatura, mais ouvida do que lida, lembram-nos que poetas e leitores-ouvintes afinam pelo mesmo diapasão. Expedito não podia ter encontrado mirante melhor situado para descobrir o gosto de seu futuro público, reeditando As Grandes Aventuras de Armando e Rosa Conhecidos por Coco Verde e Melancia de José Camelo de Melo Rezende ou A História da Donzella Theodora de Leandro Gomes de Barros, e lançando novos títulos. Convivia assim com muitos poetas, antigos e iniciantes, e com todos os agentes envolvidos no mundo do cordel: xilógrafos, revendedores, operários de gráfica.
Na tipografia que funcionava como loja, oficina e lar, recebiam-se encomendas de folhetos, almanaques, orações, novenas, rótulos de manufaturas. Expedito fazia de tudo. Começou dobrando folhetos, trabalhou na composição e impressão, acertou negócios no balcão, chegou a fazer algumas xilogravuras, assumiu a gerência da gráfica no final dos anos 1950 e, sobretudo, foi o revisor atento de todos os “livros” antes de sua publicação, o que, acreditamos, deve ter fortalecido a sua preocupação com a escrita. Guilhotina, impressoras e caixas de tipos não descansavam. O balcão não dava conta. Até pedidos de previsões astrológicas chegavam à folhetaria. Foi nesse contexto de fervor e companheirismo que o poeta fincou o pé e a alma. Durante mais de quarenta anos, o novelo do cotidiano se desenrolou, linear, idêntico, os passos de hoje nos passos de ontem. Tudo se tornava essencial, a insignificância da rotina, o prazer e o vigor da criação.
É claro que não basta ser editor ou operário tipógrafo em folhetaria para se tornar poeta. José Bernardo é autor de alguns títulos, mas não foi como poeta popular que se notabilizou, e sim como editor. Mas João Martins de Athayde e, mais tarde, João José da Silva em Pernambuco, Manoel Camilo dos Santos na Paraíba, Manoel Caboclo e Silva em Juazeiro, Joaquim Batista de Sena em Fortaleza, para citar apenas alguns exemplos, foram poetas de talento reconhecido e editores de renome, até que o negócio de folhetos começasse a desmoronar no final da década de sessenta. E Delarme Monteiro Silva, aprendiz de tipógrafo na gráfica de João Martins de Athayde, teve uma trajetória parecida com a de Expedito Sebastião da Silva.
Tudo indica que a imersão em ambiente tão receptivo, onde havia convergência entre o trabalho operário e a veia poética, fez com que Expedito desenvolvesse o impulso criador e o distanciamento crítico, propícios à pujança e qualidade de sua produção, além de poder contar com a edição da mesma e a perspectiva de uma saída certa para seus folhetos. Foi, portanto, em atmosfera de exceção, onde o cordel era atividade permanente, e encorajado pelo estímulo recíproco entre poetas e os valores comuns compartilhados entre si, que o principiante Expedito Sebastião da Silva foi logo integrado. Operário e poeta foram plasmados nessa rede de relações de grande coesão, articulada com a comunidade como um todo, e em que desabrochavam afinidades eletivas literárias.
No conjunto da obra, descobrimos a personalidade do autor. Dois princípios essenciais norteavam a sua produção: o respeito às regras estabelecidas e o cumprimento de uma grande prescrição: agradar ao público. Afirmava o poeta que sem esses preceitos de ordem formal e ética não havia beleza. Estética e moral andavam juntas.
Já vimos que, longe de tolher a dignidade do poeta, a submissão às normas alimentava o orgulho de pertencer a um coletivo. Mas o versejador irrepreensível, o trabalhador especializado em versificação, o profissional da rima não esquecia que, qualquer que seja a competência do poeta, boa poesia é aquela que, antes de tudo, agrada ao público.
De acordo com esse voto de devoção ao gosto popular, valentia e gracejo, religião e amor são temas dominantes na obra de Expedito, e demarcam uma paisagem literária em conformidade com a inspiração tradicional do gênero.
O cabra-macho de Expedito é nordestino e sertanejo, evolui em meio a fazendas e mandacarus. Aos heróis da atualidade, construídos pela mídia, descartáveis e intercambiáveis, o poeta prefere o herói que segue o seu destino com uma constância exemplar, aquele que nunca se aposenta nem se torna enfadonho. Ele come feijão, mas é arquétipo, ele é músculo e abstração. Em Sandoval e Helena ou A fera do Paraná e O Lobo do Amazonas ou Lindomar e Jacira, folhetos de “pura criação”, capas e títulos sugerem que teremos direito a uma bela história de amor. Ledo engano. O macho resplandece de ponta a ponta, não há cenas líricas e, entre estupros e castrações, o erotismo é mais do que rude. O autor notifica um amor à primeira vista numa sextilha concentrada, mais tarde um beijo relâmpago abre o portal da eternidade. O amor é secundário, só serve para insuflar coragem ao herói inabalável que foi levado, condenado pela seca, a viver fora do seu meio de origem. A luta pela sobrevivência passa pelo exílio trágico que vira epopéia, e a glória é perseguida em ritmo de filme de aventura.

Luta, trama, sofrimento
Perseguição, amor, glória
Surpresa, bravura, ódio
Crueza, morte e vitória
Tudo isto o leitor vê
No decorrer desta história. 11

O herói musculoso cede o passo ao anti-herói e Expedito ria ainda quando nos contava As aventuras de Lulu na capital de São Paulo. Nesse folheto, o matuto bobalhão permanece até o fim da história impenetrável a qualquer faísca de inteligência. O seu espírito mergulha na mais profunda indigência. A gesta urbana esquece o épico nas primeiras estrofes. A tipificação farsesca do nosso caipira e a mecânica imutável de sua pobreza mental reforçam o cômico cuja eficácia é assegurada pela repetição do mesmo tipo de bobeira. O fracasso é quase total.

Dizia ele: Mil vezes
Seguir para o cadafalso
Do que viver entre estranho
Cumprindo um destino falso
Sem chapéu e sem dinheiro
Agora por fim, descalço! 12

O riso de Expedito era o riso catártico de moleque cearense que sabia rir da desgraça, inclusive da sua. Um riso mais eufórico que satírico. Mas a voz embargava, o olhar parecia compadecer uma dor alheia se o poeta falasse de O segredo de Verônica, A louca da sepultura ou História de Adriano e Joaninha. Todos, poemas de amor e dor. Não pode haver dúvidas diante das grandes emoções fundamentais que cada um de nós conhece. Os amantes não podem viver um sem o outro e enfrentam por isso uma pletora de tragédias no percurso da vida: separação, exílio, fuga, aprisionamento. Mesmo assim, o amor é soberano.

Cada vida é um destino
De impenetrável sigilo
Não há na terra quem possa
Desvendá-lo ou corrigi-lo
Somente o Divino Mestre
É quem sabe defini-lo. 13

Pairando sobre esse mundo de ciladas e perfídias, o padre Cícero, herói carismático e pacífico, pertence à temática religiosa do poeta, entre episódios bíblicos, profecias e aparições. O padre taumaturgo de Juazeiro do Norte é fonte inesgotável de inspiração em toda a literatura de cordel. Filho de romeiro e devoto do “Padim Ciço”, Expedito não podia deixar de reverenciar o sacerdote.

E sobre os grandes milagres
Que foram por ele obrados
Vou relatar sobre alguns
Que a mim foram contados
Por velhos daquela época
Que os tem memoriados.14

Deixamos Expedito contar seus milagres, através de uma literatura que flui tão naturalmente, que nada parece inventado.

Vamos à procura do poeta das dunas.
José da Rocha Freire nasceu em Canoa Quebrada 15, distrito de Aracati-Ceará, no dia 14 de agosto de 1909. Raras vezes se afastou de sua aldeia, onde faleceu no dia 9 de março de 1977. Ficou conhecido como Zé Melancia. Os pais eram Manuel da Rocha Freire, pescador, e Rosa Nunes Carneiro, labirinteira, parteira, curandeira.
Nascido de Mãe Rosa, o menino veio à luz no roçado. O apelido nasceu junto. Foi assim, diz Raimundo Rocha Freire, do Córrego da Nica-Aracati, ao recordar as histórias que o pessoal da praia contava: a mãe do Zé, grávida do Zé, foi para o roçado plantado de melancias. Quando chegou lá, sentiu as dores, nasceu o Zé. Quem estava com ela, voltou ao povoado para pedir ajuda. Mãe e recém-nascido foram carregados na mesma rede, até a aldeia. E vinha também um saco de melancias. De lá o apelido, que pegou e ficou. Eis o Zé Melancia, a criança alva nascida aos pés de uma planta de origem africana e que chegou ao seu reinado, balouçante, numa carruagem indígena. Acompanhamos o cortejo do futuro pescador, construtor de jangadas, presidente da colônia Z-10 durante quatorze anos, poeta popular e líder inconteste em Canoa Quebrada. Seguimos rastos, dando volta ao tempo de 30 anos atrás. Em 1977, quando o poeta se foi, o lugar, de acesso difícil, contava em torno de 1240 habitantes e 163 casas de taipa, não tinha água encanada, esgotos, nem energia elétrica, e o povoado só possuía como benefícios públicos um chafariz, um televisor a bateria e um pequeno grupo escolar.
Quase todos os homens eram pescadores, jangadeiros e filhos de jangadeiros. Pescar era preciso. Já que quando não se pescava, muita gente não comia. No lugar, amanhecia muito cedo. Homens e mulheres nas suas atividades respectivas, tradicionais, seculares, cujo aprendizado se fazia de geração em geração. Pescadores e labirinteiras, eles no mar, elas na terra. Cada dia, eles partiam, Ulysses anônimos de uma odisséia sem relato. Era um tipo de pesca artesanal, ainda praticada hoje, de linha ou de rede, em jangada de piúba para pescaria maior, fora da risca, e botes a vela, bateira ou paquete para pesca costeira. A jangada era dessas que o carpinteiro Zé Melancia sabia fazer, a madeira vinha do Pará e aportava em Areia Branca, no Rio Grande do Norte. Ontem e hoje, são embarcações frágeis que se movem com a força dos ventos, sem a tecnologia dos barcos que pertencem aos grandes armadores e indústrias de pesca. A sabedoria do jangadeiro permanece um longo diálogo com a natureza.
O pescador Zé Melancia tinha na mente os pontos de pescaria, seu tipo de solo e vegetação submarinhos, as profundidades, os peixes encontráveis e como pegá-los. Sabia onde termina o mar e até onde ir. É a observação que grava a arte de navegar nos gestos e na memória do pescador. É a experiência que permite avaliar a oscilação dos ventos. Sem vento, pode não haver retorno, a vela fica à deriva na calmaria, é a morte mansa. Mas se o vento travar uma luta com o mar, é a morte impetuosa. Peleja rotineira entre o mar que dá o pão e o mar que tira a vida.
Nesse mar que não tem cabelos onde se agarrar, mas dentes e bocas abissais, os homens de Canoa Quebrada eram conhecidos como bons pescadores, arriscavam a vida nas águas turvas, mas acertavam a cavala e a serra nas águas claras. A jangada os levava, veloz e dolente, forte e graciosa. Muitos tinham que parar cedo, pois a cegueira ameaçava, pelo sal e pelo sol, pelo fogo e pelo ar no olho nu. Zé Melancia saiu para pescar até o ano de 1959, mas já era praticamente cego desde 1957 e teve que se operar de catarata. Tragédia de pescador que lembra a história simples e bela contada por Gustavo Barroso em Velas Brancas. As mulheres tinham fé no regresso deles. Elas repartiam o tempo entre os afazeres da casa e o labirinto. O tecido desfiado, preso na grade, ficava à espera do bordado, na meia luz dos alpendres silenciosos. Até parar, por causa da vista cansada. Também. Elas tinham os filhos, muitos, e criavam os poucos que sobreviviam. Maria da Rocha Freire, Maria Canoa, tinha casado no dia 15 de outubro de 1932 com o poeta. O casal teve dez filhos. Nove morreram antes de completar dois anos, vitimados de crupe. A única que se salvou foi Hilda Freire dos Santos. Euda, como era conhecida, foi professora de escola primária no povoado e morreu de parto no dia 4 de maio de 1976.
Foi Hilda que começou a transcrever os poemas do pai, após a publicação de seu primeiro folheto, em 1951. Contava a história de Bernardino Fernandes Nascimento, jangadeiro cearense que participou de um raid, em 192816 , e cujo desaparecimento em naufrágio, em 1951, num bote batizado Oriente, inspirou o poeta e amigo.
Embora soubesse ler e escrever, mesmo que com certa dificuldade, Zé Melancia se considerava analfabeto. Não freqüentou escola, a não ser durante dois meses, já com mais de 30 anos de idade. Esse fato, sem dúvida, contribuiu para dificultar o registro e a preservação da obra, assim como a avaliação de sua extensão real. 17 Sem contar que, como geralmente é o caso no tocante a produções populares desse tipo, a má qualidade do papel e o descaso com a conservação dos originais, torna difícil qualquer tentativa de levantamento bibliográfico mais exaustivo. Com certeza, muita coisa se perdeu. Além disso, verificamos uma grande disparidade entre o pouco publicado e a quantidade de poesias inéditas. São vários fatores que teriam dificultado o rompimento da barreira do silêncio editorial: “A circunstância de morar numa região distante de Juazeiro do Norte, maior pólo de cultura popular e de produção da poesia popular oral e escrita do Estado; a asfixiante condição de ter que arcar com os custos e a incerteza do sucesso financeiro da empreitada; a falta de tempo disponível para se dedicar à venda e distribuição dos livros; o desconhecimento dos mecanismos existentes de distribuição entre revendedores”.18
No entanto, em meio às dificuldades evocadas, embora seja impossível para o pesquisador reconstituir na íntegra a trajetória poética do pescador, a comunidade de Canoa Quebrada não hesitava e sabia: Zé Melancia era poeta, e podia de certo modo prescindir da escrita, pois fatos e acontecimentos, estórias em prosa e em verso, tudo era memorizado e transmitido, via de regra, através da palavra oral. Na verdade, recorria-se muito pouco à escrita, a memória e a oralidade reinavam. O bom pescador tinha a memória dos ventos, o bom contador, a memória das estórias que ouvia. Assim era Zé Melancia que, quando jovem, decorava os folhetos de feira para recitá-los a amigos e conhecidos. 19 A oralidade é que assegurava a coesão social quando os homens se reuniam nos botecos para beber aguardente e relembrar cantigas do mar, ou glosar um mote desafiador. Zé Melancia não tocava instrumentos, mas tinha fama de glosador emérito, glosador de improviso, conquanto nunca tenha sido cantador. Francisco das Chagas Batista, conhecedor do assunto, ensinava que “o glosador inspira-se bebendo cachaça, como o cantador inspira-se tocando viola.” 20 Melancia confirma: “Saía daqui para o Córrego com os colega, lá a gente se metia naqueles pagode e eu ia glosar, eles me convidavam pra glosar e eu fazia. Dando o mote, eu fazia.” e mais “eu cantei uns tempos, mas não me dei com a cantoria não, porque num era muito hábil, deixei, também num tocava viola”. É o repentista de boca que, certamente, escreveu esses versos:

Já fui forte e destemido
Cantador de alta classe
Já cantei face a face
Com poeta garantido
Com rima e verso medido,
Na matéria e em repente,
Quem fui eu antigamente,
Quem estou sendo hoje em dia,
Só resta da melancia
A casca e uma semente. 21

Melancia gostava de lembrar que, desde pequeno, açoitava os outros meninos no repente, batendo numa tábua para marcar o ritmo. Mais tarde, uma peleja com Maracaba Chaves, de Limoeiro do Norte, constaria da relação de folhetos publicados. Não encontramos nada impresso, mas a justa poética ficou na memória dos que a presenciaram na época, ou simplesmente ouviram falar dela. 22 Relembraram, três ou quatro décadas depois, trechos da briga, com um entusiasmo que atesta a admiração que a performance deve ter suscitado na ocasião do encontro.

Maracaba eu admiro
Você com tanto valor
Para querer perseguir
O pobre do pescador
Se eu apanhar não é feio
E sim, você, um cantador.

Conta-se que, na arte de fazer versos, o seu professor foi Raimundo Lopes da Rocha, do Córrego dos Rodrigues-Aracati, um violeiro cantador, boêmio e letrado, que vivia da viola dele. De fato, verificamos que são as inflexões da oralidade e particularmente da cantoria, que marcam a obra de diversas maneiras. De vez em quando, já vimos, o poeta resolve deixar de lado o verso heptassílabo. Influenciado pela liberdade dos cantadores no desafio, quando pulam da sextilha ao martelo, não raro Zé Melancia passa de uma forma estrófica a outra no corpo do mesmo poema. Alguns títulos de folhetos revelam também a circulação de mão dupla entre oralidade e escrita como A embolada da corrupção 23 ou Galope por dentro do Mar nos Peixes nos Pássaros do Mar na Jangada. Na sua concepção, este título alude ao galope à beira-mar e à sua variante elaborada por Simplício Pereira da Silva, cearense de Barreiras, que intitulou o novo gênero criado por ele para tratar de assuntos do sertão, galope por dentro do mato. O poema de Melancia se desenrola como se fosse exame de ciências naturais, lembrando certas modalidades de desafio em que o vencedor é aquele que sabe mais. O poeta-pescador mostra a ciência dele nos peixes. Aqui é seu reduto, ninguém o desaloja, é invencível.

Guaxumba, carapeba, arengue e sardinha
Coró, canguito, bagre e camurupim
Pescada, cururuca, judeu e camurim
Saúna, cauípe, manjuba e tainha
Cabeça-dura, cruvina, barbudo e mocinha
São peixes costeiros p’ra rêde arrastar
Pampo, gerabebel, moré e sanhoar
Lixa, espadarte, arraia e cação
Toda essa família vem de tubarão
Eu faço galope por dentro do mar. 24

Como todos os cantadores e poetas de bancada nordestinos, o poeta pescador tinha consciência e orgulho de sua inteligência, de seu papel de líder e testemunho, de seu prestígio. Ele não palmilhava os caminhos do sertão, atrás de desafios, mas acolhia os “caçadores de duelos” nos botecos de Canoa, e lá mesmo, eles guerreavam, vozes roufenhas e ásperas a correr dunas. Com eles, deve ter aprendido a cantar a história da região, registrar os grandes feitos do homem, tornar-se memória viva. Oralidade e memória não só remetem à tessitura da vida social da pequena vila de então, como constroem a peculiaridade da obra de Zé Melancia, sua marca autoral.
A memória é antes de tudo memória de pescador.
Se levarmos em conta, de um lado, os fatores que dificultam a análise da obra enquanto objeto estético, de outro lado, a idéia segundo a qual a História não é produto exclusivo da academia, mas pode ser escrita sob outras perspectivas culturais, por outros narradores além de historiadores de profissão, então a tentação é grande de circunscrever o estudo da produção literária de Zé Melancia à realidade histórica e social que a determinou, assim como condicionou a trajetória de vida do poeta das dunas. Sendo assim, a obra vira documento, reflexo do universo contemporâneo do líder e pescador. Tudo dá na vista, nos versos e ao redor deles.

Na luta do oceano
O pescador é um criado
Tem que partir obrigado
Vai a remo e vai a pano
Pelo pão cotidiano
Que é alimentação
Saibam bem que a precisão
É a maior disciplina
Por isso ele se destina
Trocar a vida pelo pão. 25

O trabalho como meio de vida aparece na sua realidade básica, sem requinte de elaboração estética ou simbólica. É a força expressiva de uma sextilha ou décima, que recapitula, sintetiza, estiliza a experiência coletiva. Sabemos que o público ouvinte a que se dirigia Zé Melancia era diretamente envolvido nesse meio de sobrevivência, rondado pela morte e a precariedade, em que o peixe aparece não como recurso metafórico mas como valor nutritivo. Por isso mesmo, comove.
O poeta é a voz dos jangadeiros de poucas falas, que só têm o mar como testemunha do ofício e da coragem.
Essa micro-história de uma vila de pescadores de décadas atrás, torna-se grande quando lembramos o abandono em que se encontra relegada, até hoje, a pesca artesanal do litoral nordestino. De lá para cá, da jangada de piúba de ontem à jangada de tábuas de hoje, a vida do jangadeiro não mudou muito. Ventania e mar revolto, safra ruim, peixe pouco, é a mesma rotina de incertezas ao longo dos 573 kilômetros de costa cearense.
A queda histórica na produção de pesca, devida em grande parte à pesca industrial e à degradação ambiental, atinge principalmente o setor lagosteiro. Há meio século atrás, Zé Melancia já chamava atenção nos seus versos sobre o declínio da lagosta, problema que alcança toda a costa litorânea brasileira, do Amapá ao Espírito Santo. No poema intitulado Primeira história da lagosta, de 1961, o presidente da Colônia Z-10 é o porta-voz da lei do Dr. Jânio e do interesse dos lagosteiros que, nessa época, tinham o crustáceo como principal produto de exportação da pesca extrativista cearense. Já prevendo o declínio do setor e invocando a legislação federal, o líder chama a atenção dos pescadores a fim de que respeitem o período de defeso da lagosta e não pesquem na área da desova:

“Se você mata as miúdas
E as ovadas também
Enfim está acabando
Todo produto que tem
Quando procura nos lares
Pois é somente dos mares
Que este produto vem.”

“Sou presidente da colônia
A todos estou avisando
Quem vai zombar do poder
Sempre termina chorando
Logo assim perde o direito
É um jeito sem ter jeito
Quem errar fica penando.”26

Atualmente, o defeso da lagosta vai de 1° de janeiro até 15 de junho e mesmo assim, dentro ou fora desse período, continua a pesca de pirataria, com barco motorizado, compressores de ar e mergulhadores e a pesca predatória e artesanal com apetrechos de captura inadequados tais como marambaia e rede caçoeira. Por essa razão, importa lembrar aqui os versos do “poeta da lagosta”, como ele mesmo se auto-proclamava nos anos 60, quando o crustáceo estava no auge de seu ciclo econômico, e que Zé Melancia já se esforçava para sensibilizar os pescadores ao problema da sobrepesca e da superexploração dos estoques do crustáceo.
Não é doce viver do mar, nunca foi.
Canta Dorival Caymmi que, o que é doce, é morrer nele. Talvez. Pelo cansaço, a amargura, o enfado. Curioso é que, mesmo assim, o jangadeiro ousa fazer apostas, lançar desafios ao mar e aventurar-se em viagens de protesto de até 6.000 kilômetros, quase todas largadas do Ceará.
Nos seus versos, Zé Melancia evoca grandes nomes dessas travessias épicas, longínquas; gestas marítimas que nem sempre tiveram o sentido da reivindicação associado à empreitada. O poema Raid dos pescadores cearenses. Dia 8 de dezembro de 1967, lembra a viagem da jangada Menino Deus, tripulada por cinco pescadores e com destino a Santos. O objetivo era reivindicar aposentadoria para os pescadores, direito que só viria a ser conquistado em 1972, após a viagem liderada pelo mestre jangadeiro José Eremílson Severiano da Silva, de Fortaleza até Ilhabela, litoral de São Paulo.
No decorrer de seus versos, o poeta evoca outros nomes de jangadeiros heróicos que, naquela época, já tinham encontrado a morte no mar:

Nunca esquece a bravura
De Jerônimo e Jacaré
E do herói Bernardino
Que lutaram pela fé
Esses três heroínos
Dormem dentro da maré. 27

É o mesmo Bernardino citado aqui que motivou o primeiro folheto publicado do Zé Melancia. É sua viagem realizada em 1928, até Belém, para participar das festividades do 7 de Setembro, que inspirará a última viagem de protesto registrada até hoje, e que saiu da Prainha do Canto Verde, no litoral leste cearense, para o Rio de Janeiro, em dezembro de 1992: a jangada SOS Sobrevivência navegou seis meses para protestar contra a pesca predatória, a especulação imobiliária, a indústria do turismo, e a falta de apoio governamental ao pescador artesanal. O líder da tripulação, Edílson, era neto do mesmo Bernardino.
O presente rasteja o passado e a poesia de Melancia revela suas inúmeras articulações com a realidade, demonstra uma ligação privilegiada com a vida social, sem que, por isso, no entanto, o valor literário da obra seja menor.
De acordo com Antonio Candido, quando lembra que a mimese é sempre uma forma de poiese, vejo a produção de Zé Melancia como uma estrutura que, sem ignorar suas conexões com a realidade, acolhe os fatores sociais apontados para integrá-los na economia interna da obra, adquirindo desse modo uma autonomia que autoriza e requer uma reflexão no campo da estética literária.
Zé Melancia era pescador. A sua experiência de trabalhador do mar inspirou a maior parte de seus versos, o que garantiu o impacto emocional de sua obra e proporcionou prazer ao seu público. É um dos maiores objetivos da arte.
Trinta anos após sua morte, Zé Melancia é lembrado por quem o conheceu em Canoa Quebrada ou Aracati, como líder, pescador e poeta. O fato de alguns leitores acharem que, na sua obra, faltou requinte no trabalho artístico sobre a palavra, ou que a marca acentuada da oralidade confere um quê de inacabado ao texto, ou ainda, que não tem a precisão técnica do verso nem os achados filosóficos dos melhores de seus pares, esse fato não invalida o título de poeta atribuído a Zé Melancia, porque é o povo quem diz, ainda hoje.
Há poetas que podem não ser poetas para nós, mas o são para outros, e não há nada de errado nisso. Poderiam ser discutidos sem fim os critérios que visam eleger o pior poeta bom ou o melhor dos ruins.
Não podemos nos debruçar do mesmo modo sobre as inovações formais de Mário de Andrade, Paulo Leminski ou Blaise Cendrars, e as sextilhas de Leandro Gomes de Barros, Expedito Sebastião da Silva ou Zé Melancia. Os conceitos interpretativos têm que ser outros. Cada literatura remete a uma concepção da criação literária que lhe é específica. E nem se pode pensar a obra de Expedito como se pensa a de Melancia. Cada objeto pede seu método próprio de compreensão e exige do pesquisador acadêmico uma disponibilidade intelectual sempre renovada. É preciso cautela quando se trabalha com a categoria poeta popular que já implica em segregação e pode induzir a um tratamento homogêneo, nivelador e empobrecedor da produção de seus integrantes.
Além do questionamento sobre o que é poesia e ser poeta, a trajetória e a obra de Zé Melancia ilustram a idéia do homem como um ser inconcluso, mas consciente de sua inconclusão, e seu permanente movimento de busca do ser mais, como já escreveu Paulo Freire. Em contexto de analfabetismo, marca recorrente das populações tradicionais litorâneas, já que quem pesca mal encontra tempo de ir à escola, o poeta da praia experimentou a terrível e magnífica aventura das palavras. Quis saber o que vivia dentro delas. Com seu verso irregular, sua letra garranchosa ilegível, seus dois meses de escolaridade e seu desconhecimento da língua padrão culta, ele deixou uma obra que integrou o patrimônio cultural comum, pois exprimia aspectos da vida coletiva que interessavam a todos.
Já vimos que o poeta traz na sua formação todo o legado da cantoria: a estrutura estrófica de seus versos, a concepção de certos títulos, a tonalidade de sua inspiração revelam esta influência. A primazia da oralidade explica de certo modo as divergências por vezes constatadas entre várias transcrições de um mesmo texto. É um homem falando que chega até nós. Sua dicção própria, única, efêmera, perdemos. Por certo, não devia corresponder aos imperativos canônicos da norma oficial, mas era sua, era a dicção, o ritmo do poeta. Incontornável, então. Uma dicção cúmplice de seu público de ouvintes. Uma oralidade elo, suporte, âncora, que faz a palavra dependente de suas condições de produção. A palavra que nos chega, portanto, não tem fixidez, o texto parece ainda em movimento. “É porque, na literatura oral, o mergulho na circunstância determina uma estrutura de palavras com menor autonomia. Esta só se desenvolve quando a obra, não dependendo essencialmente para ser criada e comunicada de nenhum ato coletivo, ganha independência em relação às condições de produção.”28
Algumas vezes, Zé Melancia, que não tinha como recorrer a gráfica especializada para imprimir seus versos, recorreu a prelos e máquinas de tipografias pertencentes a jornais. Essa prática era corrente entre poetas e editores do começo do século XX. Foi assim que imprimiu alguns títulos, com tiragem limitada e sem uma rede de distribuição que justificasse outras tiragens. A Tipografia Freire e Andrade de Aracati chegou a atender alguns pedidos do poeta. Olavo Freire que cuidava da publicação se lembra ainda hoje “daqueles cangulos cheios” que Zé Melancia trazia em forma de pagamento. E lembra também que o poeta não admitia nenhuma interferência no seu texto, nenhuma revisão, tinha que ser publicado de acordo com o original.
Quando o poeta preservava seu texto de eventuais intervenções, oriundas de um meio mediático diferente do seu universo relacional, talvez estivesse, por intuição ou lucidez, defendendo a compreensão do que é um poeta no seio de sua comunidade, de sua vila de pescadores. Pois, é quando falava que Zé Melancia era tido como poeta. Não era apenas pela distorção possível do sentido de uma palavra que o poeta temia, era pela sua própria inscrição na linguagem e conseqüentemente na sociedade. “A voz poética assume a função coesiva e estabilizante sem a qual o grupo social não poderia sobreviver.... As vozes cotidianas dispersam as palavras no leito do tempo, ali esmigalham o real; a voz poética os reúne num instante único – o da performance -, tão cedo desvanecido que se cala; ao menos, produz-se essa maravilha de uma presença fugidia mas total. Essa é a função primária da poesia; função de que a escritura, por seu excesso de fixidez, mal dá conta.” 29
Por sua vez, Expedito Sebastião da Silva sabia o desenho da letra em folha branca, e conhecia bem o texto de chumbo preso na matriz. Conviveu mais de perto com a invenção da escrita. Trabalhou com a palavra como poeta, operário tipógrafo, revisor de texto e gerente de uma gráfica especializada em editoração popular. A própria gráfica ratificava os preceitos da estética literária seguida por ele, e cujas regras eram conhecidas pelo seu público leitor e conhecedor da literatura de folhetos.
Mas para um e outro poeta, a palavra certa caía de sua boca, não da máquina. Sua palavra era som.
Expedito Sebastião da Silva em Juazeiro do Norte e Zé Melancia em Canoa Quebrada integram a mesma paisagem literária, em que o coletivo e o individual não se distanciam, a oralidade e a escrita não se excluem uma a outra e os poetas mal se distinguem de seus públicos.
Eram intelectuais no sentido conferido à palavra por Ailton Krenak, brasileiro de origem indígena: “Os intelectuais da cultura ocidental escrevem livros, fazem filmes, dão conferências, dão aulas nas universidades. Um intelectual, na tradição indígena, não tem tantas responsabilidades institucionais, assim tão diversas, mas ele tem uma responsabilidade permanente que é estar no meio do seu povo, narrando a sua história, com seu grupo, suas famílias, os clãs, o sentido permanente dessa herança cultural.” 30


NOTAS

  1. Uma versão abreviada deste texto foi apresentada no XXIV Simpósio Nacional de História -2007, no Simpósio Temático “A História Cultural e suas Interfaces: Literatura e Artes”, coordenado por Sandra Jatahy Pesavento e Antonio Herculano Lopes.
  2. CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. Rio de janeiro: Ouro sobre Azul, 2006, p. 86.
  3. KUNZ, Martine. Expedito Sebastião da Silva. São Paulo: Hedra, 2000. Zé Melancia. São Paulo: Hedra, 2005.
  4. Depoimento de Zé Melancia em entrevista realizada por Oswald Barroso e Edvar Costa, Canoa Quebrada, maio de 1976 (acervo do Museu da Imagem e do Som, em Fortaleza: fitas-cassete 7000430 e 431 e respectivas transcrições). Daqui para frente, qualquer depoimento de Zé Melancia remete a essa única entrevista do poeta de que dispomos, não havendo mais necessidade de uma nota de referência. O grifo é nosso.
  5. Todas as declarações de Expedito Sebastião da Silva foram extraídas de entrevistas realizadas pela autora, em Juazeiro do Norte, de 1986 a 1992. O grifo é sempre nosso.
  6. JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Editora Ática, 1994. p. 26.
  7. Juazeiro do Norte fica a 563 quilômetros de Fortaleza, na região do Cariri, ao sul do estado do Ceará. Centro de romaria, Juazeiro é a terra do Padre Cícero, eleito o Cearense do Século em 2001 e em vias de reabilitação sacerdotal pela Igreja Católica, mas venerado como santo, desde sempre, pelos seus devotos.
  8. ALMEIDA, Átila Augusto F. de & ALVES SOBRINHO, José. Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada. João Pessoa/Campina Grande: Editora Universitária & Centro de Ciências e Tecnologia, 1978. p. 276.
  9. SILVA, Expedito Sebastião da . Resumo biográfico de José Bernardo da Silva. Juazeiro do Norte: Tipografia São Francisco, sem data, 16 páginas, p.9.
  10. CARVALHO, Gilmar de. Publicidade em cordel. São Paulo: Maltese, 1994. p. 68.
  11. SILVA, Expedito Sebastião da. Sandoval e Helena ou A Fera do Paraná. Juazeiro do Norte: Tipografia São Francisco, 1976 (?), 16 páginas. p.1.
  12. SILVA, Expedito Sebastião da. As aventuras de Lulu na capital de São Paulo. Juazeiro do Norte: Tipografia São Francisco, 1978. 16 páginas. p.6.
  13. SILVA, Expedito Sebastião da. O segredo de Verônica. Juazeiro do Norte: Tipografia São Francisco, 1978. 40 páginas. p.1.
  14. SILVA, Expedito Sebastião da. Os milagres do padre Cícero. Juazeiro do Norte: Tipografia Lira Nordestina, 1986. 16 páginas. p.2.
  15. A praia de Canoa Quebrada pertence ao município de Aracati e fica situada a 164 quilômetros de Fortaleza. A aldeia de pescadores tornou-se ponto turístico a partir dos anos 70, até ser considerada, hoje, a mais famosa praia da costa leste cearense.
  16. Cf. CARUSO, Raimundo C. Aventuras dos Jangadeiros do Nordeste. Florianópolis: Panam Edições Culturais, 2004 & CASTRO NEVES, Berenice Abreu de. Do mar ao Museu. A saga da jangada São Pedro. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará. Coleção Outras Histórias – 4. 2001.
  17. ANTOLOGIA DE LITERATURA DE CORDEL. Fortaleza: Secretaria de Cultura, Desporto e Promoção Social.. 1980. Vol.2: José da Rocha Freire - Zé Melancia. p.47-63: Relação dos folhetos de Zé Melancia, 11 publicados, 21 não publicados: p.50-51. Além dessa produção repertoriada, tem todo um conjunto de versos cuja existência é atestada por Julio Bravo, Antônio Figueirêdo Monteiro, João Dimas da Silva, sobrinho de Zé Melancia e Eurilene Campanella, neta do poeta, radicada na França. Trata-se de poemas inéditos, cuja estrutura não corresponde às regras de editoração do folheto de 8 páginas, ou múltiplo de 8, algumas peças sendo constituídas de uma sextilha apenas.
  18. COSTA, Edvar. Zé Melancia – poeta popular. In: Caderno de Cultura. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará. Ano I, n. 1, Jun.1979, p. 19-23.
  19. Conforme declaração do poeta na entrevista já citada (cf. nota 4), encontrava-se folhetos à venda no mercado de Aracati, mas não eram de autores de lá, pois não havia quem escrevesse cordel no município, só ele.
  20. CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.], p.126.
  21. CAMPOS, Eduardo. O cantador José da Rocha Freire, vulgo Zé Melancia In: Cantador Musa e Viola. Rio de Janeiro: Ed.Americana; Brasília: INL, 1973. p.49-58. Versos citados em epígrafe, p.49.
  22. Cf. José Santana de Lima, Aracati (11/08/2002) e Raimundo Rocha Freire, Córrego da Nica – Aracati (07/07/2002), entrevistados pela autora.
  23. FREIRE, José da Rocha. A embolada da corrupção, dos escândalos, da carestia, do uso que vem prejudicando a pobreza e o mundo inteiro, já é o começo das dores. Acervo Roberto Gaspar. Conjunto de poemas datilografados, inéditos, s/d.
  24. FREIRE, José da Rocha . Galope por dentro do Mar nos Peixes nos Pássaros do Mar na Jangada. Aracati: Gráfica Freire, [s.d.]. 6 p. Acervo do Instituto José Freire d’Andrade, Aracati – CE.
  25. FREIRE, José da Rocha. Búzios e conchas de um poema. Fortaleza: Gráfica Editorial Cearense, 1978. Coletânea de poemas de Zé Melancia, organizada por Julio Bravo, amigo da família. A edição póstuma visava arrecadar recursos para ajudar a viúva do poeta que estava passando necessidades. Os títulos dos poemas são da responsabilidade do organizador. O poema citado é “Ganha-pão”, p.11.
  26. FREIRE, José da Rocha. Primeira História da Lagosta. Acervo Roberto Gaspar. Conjunto de poemas datilografados, inéditos, s/d.
  27. FREIRE, José da Rocha. Raid dos pescadores cearenses. Dia 08 de dezembro de 1967. Acervo do MIS / CEARÁ, fita 7000430, s/d.
  28. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. op.cit., p. 60.
  29. ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz. A “ literatura” medieval. Título original: La lettre et la voix De la « littérature » médiévale. Tradução : Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo : Companhia das Letras, 1993. p.139.
  30. KRENAK, Ailton. Antes, o mundo não existia. In: Tempo e História (Org. Adauto Novaes). São Paulo: Companhia das Letras: Secretaria Municipal da Cultura, 1992. p. 201-204.