A Cidade e o Dinheiro: Pontes entre Simmel e Dyonélio Machado
                                                Mauro Gaglietti1                                                          
                                                          Doutor em História/PUCRS e Professor e Pesquisador da Universidade de Passo Fundo (UPF)

Analisa-se o romance Os Ratos (1935), de Dyonélio Machado (1895-1985), tendo em vista os traços que caracterizam, de acordo com Georg Simmel (1858-1918), a relação entre a subjetividade dos habitantes da metrópole moderna e o ambiente externo. A escolha dos autores deve-se, sobretudo, ao fato de ambos perceberem que os processos que ocorrem na consciência estão relacionados à velocidade da vida. Assim, a cidade é concebida pelos dois autores como o lugar em que o sujeito se vê defronte a uma variedade incomensurável e fugaz de imagens, que se apresentam, ininterruptamente, à sua consciência, interferindo no funcionamento desta.
Ao desenvolver a idéia de estilo de vida moderno, Simmel aponta para a metrópole como o lugar histórico desse processo. O maior problema da “vida moderna” está no conflito entre a cultura em sua dimensão interior e em sua dimensão exterior ao indivíduo. Trata-se de uma configuração histórica do processo civilizatório, de diferenciação social, de identidade do eu. O que, para o “homem primitivo”, foi a “luta com a natureza” visando à autoconservação, para o homem moderno, como assinala Woodward (1904 e 1905), é a tensão entre o individual e o supra-individual. Desse modo, como destaca Simmel (2006:12), o fundamento psicológico a partir do qual o tipo das individualidades da cidade grande se eleva pode ser caracterizado pela intensificação da vida nervosa, que resulta da mudança rápida e ininterrupta de impressões internas e externas. Além disso, conforme Simmel, mais do que qualquer outro critério, o que caracteriza a cidade grande é a relação que os indivíduos estabelecem com o dinheiro e todos os seus significados.
O habitante da cidade grande aprende a reagir não com o sentimento, mas com o entendimento. Em outras palavras, o racionalismo possui na cidade grande o seu lugar específico, próprio e adequado, lugar este onde a intensidade e a velocidade das imagens e dos impulsos são tão grandes que, sem um mecanismo de defesa, o indivíduo está ameaçado de se desintegrar. Nesses termos, a objetividade, no tratamento das coisas e dos seres humanos, que o entendimento propicia, é adequada a um mundo no qual prevalece a lógica do dinheiro. E essa objetividade do entendimento e do dinheiro deixa as qualidades individuais de lado, submersas na indiferença; contrapõem-se à subjetividade e aos sentimentos que constituem a diferença e a individualidade.
Na metrópole, tudo é feito por desconhecidos e para desconhecidos, o que torna a objetividade das transações muito mais fácil, sem as interferências que as relações pessoais, baseadas no ânimo e nos sentimentos, trazem consigo. Simmel percebe, na cidade grande, uma interação tão perfeita entre o dinheiro e o entendimento que ninguém saberia dizer se a constituição intelectualista e anímica impeliu inicialmente à economia monetária, ou se esta foi o fator determinante para o surgimento daquela. Assim, o estilo de vida da cidade grande propicia e promove a impessoalidade, oportuniza o aparecimento de mecanismos de individualização, fazendo justiça ao duplo papel do dinheiro e à ambigüidade que caracteriza a modernidade.
O dinheiro, então, cria condições para a vida na cidade grande, não apenas condições objetivas, mas também condições subjetivas, como o distanciamento psicológico e funcional. Por outro lado, a vida da metrópole cria condições para a vida do dinheiro. Este possui uma força centrípeta que, como um imã, atrai tudo e todos ao seu redor. Assim, a cidade grande, como ponto de concentração do dinheiro, é também o ponto de maior incremento da divisão do trabalho, da especialização, da criação de novas necessidades e refinamentos, da luta dos indivíduos entre si pela sobrevivência.
Relacionada a essa sensibilidade do habitante da metrópole está um elemento que Simmel julga especialmente característico do homem moderno: a atitude blasé. A quantidade de estímulos com que o indivíduo se vê defrontado, ao viver na cidade, exige-lhe tanto que ele não é mais capaz de responder adequadamente a eles. Sua indiferença a tais estímulos torna-se, então, análoga àquela que o dinheiro promove nas relações interpessoais por ele mediadas. A fim de explicar essa indiferença, Simmel faz uso das categorias “proximidade” e “distância”. A proximidade corporal e a distância espiritual são os fatores que explicam a sensação única de estar só em meio a uma infinidade de pessoas. Nesse sentido, o moderno é ambíguo, e a cidade é o local privilegiado dessa ambigüidade, pois a metrópole, assim como o dinheiro, não conhece fronteiras. É exatamente isso que faz o seu habitante romper as fronteiras interiores e exteriores; em outras palavras, é assim que se constrói a própria idéia de liberdade individual.
É possível encontrar algumas observações muito próximas àquelas feitas por Simmel - acerca da relação entre a metrópole e o espírito de seus habitantes - num romance brasileiro publicado em 1935 que se inspirou em uma cidade, à época, com pouco mais de duzentos mil habitantes. Iberê Camargo (1998:172-173) lembrava como essa cidade era provinciana e conservadora, do ponto de vista dos ideais estéticos modernos. Esses aspectos, no entanto, não impediram que Dyonélio Machado, como destaca Arrigucci (2004:119-207), chegasse a uma forma despojada e inovadora do romance urbano entre nós, em parte pelo modo como tratou o seu personagem Naziazeno Barbosa e a cidade em Os Ratos, obra cujo cenário representa o espaço urbano real da Porto Alegre da década de 1930.
Nesse romance, Naziazeno, o protagonista, precisa de cinqüenta e três mil-réis para pagar a dívida que contraíra com o leiteiro e, por isso, sai pela cidade em busca de dinheiro. Como num lance de jogo, a narração segue, ao longo de 24 horas, as andanças desse pequeno funcionário público, movido por uma das mais básicas necessidades – a garantia de alimento. O retorno à casa, com alguns cobres, já durante a noite, o pagamento da dívida e a entrega do leite, na madrugada, encerram o círculo de uma narrativa cujo centro é um comportamento neurótico e que está marcada pela busca obsessiva do dinheiro. Sobre a cidade de Os Ratos, é oportuno mencionar que, em nenhum momento, o autor afirma tratar-se de Porto Alegre, embora, durante a narrativa, deixe várias pistas de que foi nela que se inspirou. Essa omissão, aliada ao enredo, permite que a novela transponha o regional e adquira um caráter universal, pois um pequeno funcionário público que persegue, obsessivamente, a quantia de que necessita poderia ser encontrado em qualquer cidade moderna em que o valor do dinheiro ultrapassa sua função primitiva de facilitar as trocas de mercadorias e serviços.
Destaca-se, ainda, que o romance representa a realidade por meio das relações entre a interioridade de Naziazeno e o mundo exterior. Já na primeira cena com o leiteiro, nota-se que a história se subjetiviza, na medida em que é contada em terceira pessoa, porém, segundo a perspectiva do protagonista, efeito que o autor obtém recorrendo ao discurso indireto livre. Esse procedimento adotado no relato molda o mundo conforme o prisma de quem o vê. A atitude do protagonista beira à agressividade, pois, vítima da impotência, ele desiste do essencial, para reduzir, provisoriamente, sua penúria. Entretanto, sempre revela o movimento de sua vontade: ora assume em si a realidade em torno, subjetivizando-a, ora se projeta sobre ela, auto-sugestionando-se nos círculos concêntricos da mesma idéia fixa. O fundamental sempre está dado no seu confronto direto com o real (Arrigucci, 2004:199-207). O leitor acompanha a caminhada de Naziazeno por intermédio do olhar do próprio personagem, e a cidade pela qual este transita se mostra deformada por sua visão subjetiva: imagens alucinatórias ou delirantes correspondem às tensões opressivas que ele experimenta em seu íntimo e que se desenham como figuras refletidas num espelho anamórfico.
O fato de o romance estar centrado na ação de uma única personagem que se desloca pela cidade, ao longo do dia, faz com que esta se torne muito presente para a consciência do leitor. O caráter que a cidade adquire, sua aparência de corpo vivo decorre, em grande medida, de uma peculiaridade da narrativa: as ações têm lugar, em sua maioria, no espaço público. Naziazeno, na verdade, é um pobre homem, não completamente radicado no espaço urbano, pois sente a nostalgia da vida do campo, que ele imagina – e/ou lembra – idílica e farta. A todo momento, o personagem deixa rastros desse sonho que o acompanha, enquanto erra, solitário, no labirinto das ruas, em busca da pequena quantia que parece cada vez mais impossível de se obter, à medida que o tempo se esvai e esgotam-se os seus pequenos expedientes.
Assim, pode-se pensar que uma das bases da estrutura da novela é a relação homem/espaço (Albé, 1983), em que o primeiro termo é representado, principalmente, pelo personagem Naziazeno e o segundo, pela cidade. Porto Alegre inspirou o autor num período em que o poder público e os segmentos privados dedicaram-se, com entusiasmo, a torná-la uma capital moderna, com capacidade para acompanhar os novos tempos de industrialização e progresso. De acordo com Pesavento (2002:277), já em 1910 havia a intenção de promover mudanças no traçado urbano, com o objetivo de alçar a cidade a um patamar de modernidade, o que se deu pela destruição dos marcos da cidade colonial, a começar pela expulsão dos cortiços do centro, que representavam pobreza, sujeira e promiscuidade, num indício de atraso. Nesse ano, ocorreu uma primeira tentativa de transformação modernizadora, na administração do intendente José Montaury - entre 1897 e 1924 -, com a contratação de João Moreira Maciel, engenheiro com larga experiência, para idealizar um projeto de melhoramentos para a capital, o que acabou não se concretizando imediatamente devido a carência de recursos públicos. Foi a partir de 1920 - especialmente nas administrações dos intendentes municipais Otávio Rocha (1924-1928) e Alberto Bins (1928-1934) - que o projeto anterior começou a se materializar. Ocorreu, então, um grande investimento público no embelezamento das áreas centrais, juntamente com a valorização dessas áreas, que deveriam ser destinadas ao segmento de maior poder aquisitivo. A burguesia comercial e industrial residente na região já estava bastante fortalecida nesse tempo, influenciando na política e recebendo com agrado as decisões administrativas que iam ao encontro de suas aspirações culturais de progresso e modernização.
Porto Alegre, em 1934, apresentava-se como uma metrópole regional com bastante importância econômica e uma vida urbana plenamente instalada, apesar de, no Brasil, haver-se desenvolvido um capitalismo tardio. Concretamente, essa é a época dos bondes, dos prédios que se tornam cada vez mais altos, das avenidas largas e das vitrinas atraentes, dos automóveis, dos cafés em que se discute política e amenidades. Todavia, além das mudanças no aspecto material da cidade e em sua economia, há uma nova cultura desenvolvendo-se, cultura essa que transforma o comportamento e as aspirações dos indivíduos aí instalados. Conforme Pesavento, “cabe referir que o embelezamento da capital, tal como era apresentado, ultrapassava, contudo, o foco da estética e imbricava-se com princípios morais e higiênicos, além de atingir o cerne da questão social” (2002:275). Também, é importante ressaltar que a construção da modernidade urbana por parte da elite política e econômica constituía um desafio, pois era muito forte ainda o apelo rural e tradicional na identidade cultural rio-grandense.
Os sinais de transformação modernizadora convivem, na cidade de Os Ratos, com alguns aspectos tradicionais, que ainda persistem. Na cidade ficcional, Naziazeno parece estar perdido em meio a um labirinto, sem conseguir encontrar um ponto de apoio, uma referência identitária; sente-se incapaz de acompanhar a nova realidade que se impõe. A cidade o deixa aturdido, às vezes dando-lhe forças, em outras subjugando-o, como é perceptível nos seguintes fragmentos: “Sente-se outro, tem coragem, quer lutar” (2000:20) e “Um frio, de súbito e que não pode reprimir passeia-lhe por todo o corpo: uma onda de gelo...”(2000:51). Porto Alegre, em pleno processo de expansão capitalista, atua, sob muitos aspectos, como antagonista aos desígnios do pequeno funcionário. Elevada a cidade ao nível de personagem, é natural que ela se apresente ao leitor de maneira bastante intensa.
Mas por que o espaço urbano pertuba Naziazeno? Pode-se buscar a resposta para essa indagação na abordagem de Simmel sobre a cidade. Em seu entendimento, a cidade é mais do que um espaço físico onde habitam muitas pessoas juntas; é o locus por excelência do consumo, das conseqüências da economia monetária, do aumento do nervosismo e da tensão, do domínio do exterior, das aparências e da indiferença. Aí, o dinheiro nivela a todos, do capitalista ao pequeno funcionário público e deste ao malandro sem posição definida na sociedade, pois todos buscam-no obsessivamente. Essas nuances de modernidade urbana estão presentes na cidade de Naziazeno, em seu cotidiano, em suas reações diante dos demais, em seu desejo de manter-se incógnito, situação bem ilustrada pela cena que ocorre num café, ao avistar um conhecido: “o Carvalho... Mas desvia vivamente a cara, faz que não vê o Carvalho. E esse seu gesto lhe traz a lembrança um gesto semelhante, essa manhã, com o Fraga” (2000:30). O gesto revela o desejo de esquivar-se daqueles que o espreitam, um desejo de anonimato, algo típico do ambiente urbano.
Na cidade, seus habitantes estabelecem uma distância ou uma proximidade planejadas, conforme exige a situação, lógica que produz uma postura de reserva em relação ao outro, uma ligeira aversão, estranheza e repulsão mútuas, sendo nesse lugar que se manifesta a atitude blasé. É exemplar, nesse sentido, o seguinte fragmento do romance em foco: “Agora Justo Soares não o cumprimenta mais: é que certas amizades se extinguem quando se extinguem os negócios que a originaram. E é razoável. Quantos ‘conhecidos’ seus nessas condições ele poderia rememorar!...” (2000:40). A origem desse tipo de relação repousa no poder de sociabilidade do dinheiro, que aproxima, distancia, eleva ou rebaixa os indivíduos, os quais vivem em uma luta incessante a fim de adquiri-lo. Assim, a satisfação ou a frustração dependem de se ter ou não dinheiro, que se constitui, ao mesmo tempo, num meio e num fim. No caso de Naziazeno, toda sua angústia provém da falta, da carência financeira, que o coloca obsessivo e tenso, fazendo-o guiar-se, exclusivamente, pela busca dos cinqüenta e três mil-réis que saldarão sua dívida mais urgente e virão a libertá-lo temporariamente. Em virtude de seu estado de tensão, tudo ao seu redor o lembra do problema que o atormenta; uma idéia leva a outra, que logo é associada ao dinheiro, convertendo-se até mesmo o sol em uma “moeda em brasa”.
Percebe-se que o sofrimento do protagonista não se deve apenas à dificuldade financeira, mas também a um descompasso entre as imposições do ambiente e os sentimentos que experimenta, pois não é capaz de administrar todas as exigências da vida urbana. Numa palavra, ele não é puramente metropolitano; é, sobretudo, um híbrido, pois ainda guarda resquícios da vida interiorana, tradicional. Ao defrontar-se com determinado problema, ele só sabe recorrer a um expediente, “o recurso amigo e a solidariedade”, desconhecendo meios racionais que apresentem uma solução definitiva para a sua situação. Assim, encontra-se dividido entre dois tempos, o antigo e o novo, presididos por lógicas opostas.
Dyonélio Machado, ao construir seu romance, percebeu o momento de transição pelo qual a cidade passava, reflexo da implantação e desenvolvimento do capitalismo, que girava em torno da produção, do mercado, da geração de riquezas. Por outro lado, também captou as conseqüências negativas do sistema para boa parte da população. Naziazeno faz parte da pobreza sem esperanças, que trabalha sem perspectiva de ver melhorarem suas condições de vida, ou de ver-se introduzido no mundo do consumo; apenas sobrevive.


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NOTAS

  1. Doutor em História/PUCRS e Professor e Pesquisador da Universidade de Passo Fundo (UPF), integrante do GT de História Cultural da ANPUH-RS. Autor de vários ensaios, artigos, livros e da obra Dyonélio Machado e Raul Pilla: médicos na política. Porto Alegre: IEL; Edipucrs, 2007, a ser lançada no XXIV Simpósio Nacional da ANPUH.