Desejos De Civilização, Véus Da Barbárie: Um Olhar Sobre A Construção Do Imaginário Urbano Da Belle Époque Caipira No Almanach Illustrado De Ribeirão Preto De 1913
                                                Rodrigo Paziani 1
                                                          Doutor em História - Faculdade de Educação, Ciências e Artes "Dom Bosco"


RESUMO:

A proposta deste trabalho será a de interpretar o imaginário urbano da Belle Époque Caipira através da presença de imagens e discursos sobre Ribeirão Preto no Almanach Illustrado. Por este prisma, acredito que os almanaques possam revelar uma leitura não apenas idealizada, mas, especialmente, desejada das transformações urbanas. Mas, se a escrita produzida em almanaques afinava-se com um imaginário urbano elitista e pela presença de uma incipiente sociedade de consumo na cidade, não era menos verossímil que a cidade-desejo evocada nas suas páginas servisse de carapaça à uma trama ambivalente de mando pessoal, de uso da violência e de poder político entre as principais lideranças municipais operada no lusco-fusco do público/privado e da civilização/barbárie.
PALAVRAS-CHAVE: Almanaque/Ribeirão Preto/Imaginário urbano.

ABSTRACT:

The proposal of this work will be the one of interpret the urban imaginary of the Belle Époque Caipira through the presence of images and speeches about Ribeirão Preto in Almanach Illustrado of 1913. For this prism, I believe that the almanacs can reveal a not just idealized reading, but, especially, wished of the urban transformations. But, if the writing produced in almanacs it tuned with an urban elitist imaginary and by the presence of a consumption incipient society in the city, was not less likely than the city-wish evoked in her pages served of scutcheon to the an woof of personal authority, of violence use and of caning politician among main municipal leaderships operated in the ambiguous mark of the public and private and of the civilization and barbarism.
KEYWORDS: Almanac/Ribeirão Preto/Urban imaginary.


Um elemento privilegiado para uma “leitura” específica das representações e das práticas culturais (CHARTIER, 1990) estabelecidas entre o imaginário urbano e a modernidade (PESAVENTO 1999) talvez seja o almanaque (CORREIA & GUERREIRO, 1986: p. 02). Apesar de suas primeiras versões impressas apareceram pela primeira vez na Alemanha em meados do século XV (1455) na senda de progresso e difusão da imprensa (IDEM: p. 04), o aumento progressivo de sua circulação, o assumido caráter comercial e publicitário e a inserção de imagens fotográficas no decorrer do século XIX – reforçado pela narrativa simples e de caráter pedagógico, composta por um conjunto atualizado de informações gerais, úteis e de fácil compreensão ao leitor (CORREIRA & GUERREIRO: p. 05) –, o almanaque foi investido de um sentido “civilizatório” (ELIAS, 1994), carregado da “idéia de uma grande modernidade” (FERREIRA: p. 19-22 In MEYER, 2001), obra capaz de inserir o “novo”.
Associado a um sistema de idéias e de imagens (textuais e iconográficas) de representação coletiva, ele era capaz de criar o “real” (PESAVENTO, 1999: p. 08), realidade que unia vivências e sonhos, mas que também poderia “ocultar” estratégias discursivas e práticas culturais de uma elite aninhada nos fios tênues que ligavam a civilização e a barbárie: é o caso da construção do imaginário urbano de Ribeirão Preto presente no “Almanach Illustrado” de 1913.
Neste sentido é que a construção do imaginário social sobre o urbano torna-se inseparável dos papéis que os almanaques (sem esquecer os jornais e as revistas) representaram na sociedade brasileira especificamente na Primeira República (MARTINS, 2001; MEYER, 2001). Embora o primeiro almanaque a circular no país tenha sido, provavelmente, o “Almanach Histórico do Rio de Janeiro”, escrito por Duarte Neves e editado por aqui durante o século XVIII (PARK, 1998: p. 52), a presença deste tipo de material impresso intensificou-se a partir da segunda metade do século XIX, coincidindo com a formação de um mercado interno no Brasil, mas também devido ao crescimento demográfico e urbano e à modernização de infra-estrutura.
No Estado de São Paulo, o café e as ferrovias aceleraram os ritmos temporais e os circuitos de trocas mercantis e ampliaram as redes internacionais de negócios, e, com elas, as “maravilhas” do mundo moderno, que chegavam até os rincões mais longínquos do Estado, “civilizando” a caipirada e desenvolvendo ou mesmo “semeando” urbes (MATOS, 1974: p. 152), num “pool” experiências singulares de choque, fantasia e (des)ilusão denominada de “Belle Époque Caipira” (DOIN, 2001: p. 307).
Ribeirão Preto, até o final do Império, era uma vila muito pouco modernizada, e pior, assaltada continuamente por epidemias de febre amarela, varíola e tuberculose. A partir da implantação da ferrovia em 1883, especialmente, nos últimos anos do século XIX, quando o município tornou-se o centro da produção cafeeira do Estado (e por que não do país), a cidade foi alvo de um processo de modernização urbana (CIONE, 1987: p. 59-83; PAZIANI, 2004: p. 124-125)2.
A Câmara Municipal aprovava no início da década de 1910 uma subvenção para a publicação (do primeiro e único número conhecido) do “Almanach Illustrado de Ribeirão Preto” (1913). Dispostos a registrar as diferentes faces do estado de “adiantamento” da cidade, os editores do “Almanach Illustrado” – Sá, Manaia & Cia. – ansiavam destacar o lugar de Ribeirão Preto no cenário paulista, nacional e internacional (PAZIANI: p. 17), dada a sua influência política e a pujança econômica.
O “Almanach Illustrado de Ribeirão Preto” prestava-se ao exercício de um papel “pedagógico” e “lúdico”, na medida em que funcionava como instrumento veiculador de informações úteis e conhecimentos gerais sem jamais dissociar-se das alusões metafóricas – à “Terra de Canaã”, à “Petit Paris”, ao “Oeste”, à “Terra do Café” – que constituíam o manancial por onde se transbordavam os desejos mais latentes e inventavam-se tradições, mitos e biografias em torno da cultura cafeeira.
Dessas representações simbólicas, emergia a tentativa de “institucionalizar” no seio da sociedade ribeirãopretana um imaginário da cidade (e do município) que pretendia “espetacularizar”, “refletir” e mesmo “naturalizar” os ideais de uma elite ávida por afastar as (e afastar-se das) marcas do “atraso” e do “arcaico” e reconhecer-se como portadora, ao mesmo tempo, dos valores herdados do “passado” (mitificado) e das virtudes do mundo “moderno”.

3. ... e as máscaras da “barbárie”.
Durante a Primeira República, os novos barbaças alocados no interior de São Paulo, além de aventurarem-se com os “negócios públicos”, alimentavam uma sociedade arrivista e plutocrática (DOIN, 2001: p. 169; VIANNA, 1999: p. 138-139) que embaralhava os sentidos da civilização e da barbárie, do rural e do urbano, do arcaico e do moderno: em conseqüência disso, mal as experiências da modernidade eram assimiladas pelas cidades em floração e logo eram convidadas a “desmanchar-se pelo ar” (DOIN: p. 308), tomadas que eram pela pressa ingente da saga do café.
Porém, quem vê pelas fotografias esses homens a trabalhar “arduamente” nos interstícios do poder público, a dar provas de seus “esforços individuais”, a engalanarem-se galhardamente em dias de festas e inaugurações e serem condecorados com títulos da Guarda Nacional (IDEM), talvez não perceba que eles procuravam ofuscar suas expressões de poder pessoal e obscurecer da cena pública os traços de barbárie (HOBSBAWN, 1998) presenciadas no município (JORGE, 1998), hábeis em forjar “máscaras” para acobertar os seus interesses privados – por vezes, sequer escondiam seu gosto pela pilhagem, extração e exploração violenta das terras – por detrás de conceitos abstratos como nação (DOIN; p. 38; MELLO & NOVAES: p. 605-606 In SCHWARCZ, 1998).
Ao contrário das práticas culturais de difusão e leitura dos almanaques pelas cidades européias – que, na esteira das revoluções francesa e industrial, representaram o surgimento de uma “esfera pública” de acesso ao conhecimento (útil e enciclopédico) que, mesmo segmentada e consumista, fomentava uma “sociedade de leitores” – no Brasil tais práticas, não de todo inexistentes (ROCHA, 1998: p. 116 e seguintes), encontravam obstáculos numa das faces perversas da formação social do país: a exigüidade do “público leitor” (IDEM: p. 137).
O “Almanach Illustrado” de 1913 – por seu recurso à “excitação” visual e à “metaforização” do social – não contemplava uma “leitura” das demandas e dos anseios das camadas populares (o que o distanciava dos almanaques europeus), mas o objetivo de incutir na mente dos habitantes uma afinidade eletiva entre o urbano e os interesses da lavoura cafeeira e de “cristalizar” na memória dos “leitores” os desejos da elite ribeirãopretana vinculados a um “processo civilizador” (ELIAS, 1994).
Esse propósito, que aparecia, por exemplo, na (re)invenção do mito do “bandeirante paulista” (FERREIRA, 2002), sujeito de bravura e ávido de riquezas que se embrenhava pelo “sertão” para levar até esse território inóspito e rude as benesses do “progresso” e da “civilização”, encontrava sua justificação histórica num imaginário social construído em torno dos grandes fazendeiros de café (SENNETT, 1998: p. 271):

“A admiravel ousadia dos Bandeirantes, de proporções legendarias, tantas e tão variadas vezes enaltecidas pelos nossos historiographos, parece que veiu trazer com os rasgos dum mirifico descortino, a sua seiva fecundante ao Oeste da antiga terra de Martim Afonso [...]” (ALMANACH, 1913: p. 12).

Mas os colaboradores do “Almanach Illustrado” não se satisfaziam em “mitificar” as lideranças municipais: seria importante demonstrar, de maneira “insofismável”, à sociedade ribeirãopretana (e por que não brasileira?) a intimidade daqueles grandes fazendeiros de café com as experiências e os objetos da modernidade e, indo mais além, provar a tese segundo a qual as riquezas e os sucessos no “Eldorado Paulista” eram conquistados por aqueles que desbravavam corajosamente os “sertões paulistas” (FERREIRA, 2002: p. 33-34).
No início do século XX, o Coronel Francisco Schmidt – maior produtor e exportador de café do mundo – era coroado pela imprensa com o título de “Rei do Café” (ALMANACH, 1913: p. 84). Entretanto, algo parecia atrapalhar os planos do milionário coronel. Na capital paulista e em várias localidades do interior, estourara uma série de greves, rurais e urbanas, durante a década de 1910 que movimentaram todo o Estado por causa de suas ações virulentas e influência anarquista (LOPREATO, 1997).
Para demonstrar e provar a face “progressista” de Schmidt, o “Almanach Illustrado” explorou a relação entre a figura do imigrante bem-sucedido e o desenvolvimento da cidade e do município. Além disso, foi publicada uma imagem fotográfica na qual o poderoso coronel posava todo imponente e garboso ao lado do seu automóvel “Ford” (ALMANACH, 1913: p. 85) – a imagem de um homem afinado com o tempo veloz e fremente da modernidade – defronte à entrada da Fazenda “Monte Alegre”. Enfim, uma articulação texto/imagem que enovelava a trajetória e a pujança de Schmidt – barbaça temível – aos progressos de Ribeirão Preto tudo porque

[...] a vida do Cel. Schmidt tem sido de constantes lutas, das quaes sempre sae victorioso, affeiçoando-se por isto, aos grandes emprehendimentos Em Ribeirão Preto nada se faz sem o concurso poderoso de sua assistencia, que tem parte em todos os melhoramentos urbanos, que vela pelos hospitaes e auxilia todas as instituições de caridade [...] Eis em franca synthese o que é o Cel. Francisco Schmidt, a encarnação perfeita do trabalho e do dever, a quem o público deu o justo titulo de “Rei do Café” (IDEM: p. 86-87).

O mesmo poderia ser dito a respeito de Joaquim da Cunha Diniz Junqueira, conhecido pela alcunha de “Quinzinho”. Coronel metido à “linha dura”, Quinzinho era reverenciado pela imprensa do interior paulista por ser um líder inconteste, embora aberto às ações “benfazejas”, que usava do prestígio para tornar Ribeirão Preto um município em estado adiantado de progresso.
Selecionando os detalhes que correspondiam aos de um sujeito, ao mesmo tempo, benemérito, cordato e influente, os editores do “Almanach Illustrado” fabricavam um “retrato” desejado do coronel. Assim era Quinzinho,

“[...] chefe prestigiado, cuja influência política é indiscutível em todo o distrito e o seu nome é rodeado de uma simpatia geral, encontrando somente amigos e admiradores [...]”, e, justamente por esse prestígio e fidelidade à sua pessoa, “[...] Ribeirão Preto deve uma parte de sua situação ao exforço incansável do benemerito e intelligente coronel Joaquim da Cunha Diniz Junqueira” (ALMANACH, 1913: p. 98).

Podemos citar, por último, a fazendeira Iria Alves Ferreira, cunhada do Cel. Quinzinho. A destacada “Rainha do Café” e diretora da “Associação de Proteção e Assistência à Infância” era a mesma senhora que mandara assassinar Alexandre Silva, seu capataz, por questão de “honra” na noite de 21.05.1920: um cruel homicídio conhecido pelos jornais de todo Estado de São Paulo pelo título de “Crime de Cravinhos”. O caso, que se arrastou por mais de um ano na Justiça, foi finalmente “contornado” graças às articulações de Washington Luís, à época Presidente do Estado, homem do escol do Cel. Quinzinho da Cunha (CUELLO, 2005: p. 06), cuja influência política foi decisiva na eleição do próprio Washington.
Nas páginas do “Almanach”, porém, a cruel assassina Iria Alves transformava-se aos olhos do “público” – constituído por leitores “pré-estabelecidos” que, provavelmente, freqüentavam o círculo de relações privadas e de contatos pessoais da “veneranda” mandatária (ROCHA, 1998: p. 141) – numa mulher “empreendedora e incansável” (ALMANACH, 1913: p. 90) que, apesar do título honorífico, primava pela caridade e o benemeritismo. Percebam como de um discurso vibrante e enaltecedor, “proxêmico” em seus apelos sentimentais, poderia emergir sutilmente um estilo ameaçador, intrínseco à conhecida fórmula do você-sabe-com-quem-está-falando? (DAMATTA, 1997: p. 184-192):

[...] Quem não conhecerá, pois, entre os muitos nomes de fazendeiros importantes deste municipio, o da exma. snra. d. Iria Alves Ferreira, a benemerita senhora cuja acção altruísta e caritativa se faz sentir em todas as instituições, em todas as iniciativas que d’essas qualidades necessitam? Quem não terá ouvido falar com respeito e veneração da ‘Rainha do Café’? Quem desconhecerá a importancia de suas propriedades agrícolas em geral, e particularmente das riquezas e confortos da fazenda ‘Pau Alto’? (ALMANACH, 1913: p. 89).

Claro que a transição para o regime republicano possibilitou, ainda que com severas restrições, o acesso de um número maior de pessoas ou setores da população à cultura impressa, conseqüência de um lento processo de alfabetização e de mudanças técnicas que permitiram dotar algumas “vozes” de meios de expressão e representação social (FREYRE, 2000: p. 393). Ou seja, mesmo sob o poder de coronéis iletrados e da presença rarefeita de um “público leitor” (LAJOLO & ZILBERMAN: p. 07-08 Apud ROCHA, 1998: p. 138), a imprensa paradoxalmente alimentava o imaginário da “cidade-desejo”.
Mas não nos enganemos. Os coronéis criavam “tentáculos” na sociedade e na política da localidade (WALKER & BARBOSA, 2000: p. 67), bem como nos interstícios do poder público estadual e federal. Já que todo e qualquer grupo, especialmente nos municípios interioranos, gravitava em torno de um chefe (ROMERO, 1979: p. 191), e o poder político deste não se dissociava do domínio “interno” dos veículos de comunicação (JORGE, 2002: p. 14), a imprensa corroborava e exercia um papel decisivo, especialmente as revistas e os almanaques, pois ambas eram as grandes responsáveis pelos vínculos estreitos e nada discretos entre a coronelada e o progresso.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FONTE DOCUMENTAL:

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NOTAS

  1. Docente do curso de pós-graduação em História da Faculdade de Educação, Ciências e Artes “Dom Bosco” (FAECA) de Monte Aprazível (SP) e membro do CEMUMC (Centro de Estudos da Modernidade e da Urbanização no Mundo do Café).
  2. Nascida de uma série de doações de terras por entrantes mineiros que se deslocaram para essas bandas nas primeiras décadas do século XIX para a construção de uma capela (marco da cidade), Ribeirão Preto torna-se vila em 1871 e somente é reconhecida como cidade em outubro de 1889, próximo à queda da Monarquia. A construção (1890) e o ajardinamento (1902) da Praça XV de Novembro, as primeiras redes de água (1898), iluminação elétrica (1899) e de esgotos (1900), a introdução da rede telegráfica e do primeiro Matadouro (1892), a fundação dos dois jornais de grande tiragem – “Diário da Manhã” de 1898 e “A Cidade” de 1905 – e a edificação do Teatro Carlos Gomes (1897), da Sociedade Recreativa de Esportes (1906), do Cassino Antártica (1914) e do Palácio Rio Branco (1917) – antiga sede da Câmara (atual Prefeitura).