O folheto popular e as revistas ilustradas: os circuitos de comunicação
cidade / sertão na virada do século XIX para o século XX 1
                                                Sylvia Regina Bastos Nemer 2
                                                          Historiadora e Doutora em Comunicação pela UFRJ
Resumo:
Na literatura de cordel, e em particular na obra de Leandro Gomes de Barros, a mulher, vista na literatura popular tradicional como frágil, ingênua e generosa, passa a ser retratada como uma figura maliciosa, frívola e superficial. O homem, por sua vez, também passa a ser representado segundo novos padrões de comportamento e moralidade: de um ser dotado de força e coragem, ele começa a aparecer como um tipo galante, interesseiro, cheio de artimanhas para conseguir seus objetivos. Tais representações, largamente veiculadas pelas Revistas Ilustradas, começam a chegar ao sertão nordestino junto com os primeiros folhetos que teriam atuado como canal de difusão de uma certa “sensibilidade moderna” em um tipo de sociedade onde as idéias circulantes nos meios mais cosmopolitas do país eram até então muito restritas.
Palavras-chave: literatura de cordel, revistas ilustradas, trocas culturais
Introdução
A partir das relações estabelecidas entre o Rio de Janeiro e o Nordeste, na virada do século XIX para o XX, o objetivo deste trabalho é pensar sobre as imagens da modernidade em circulação nas duas regiões, representadas, respectivamente, pelas revistas ilustradas e a literatura de cordel.
A noção de “trocas culturais”, servirá de referência à análise, permitindo-nos um distanciamento das duas posições comumente adotadas em relação à cultura, como apontou Umberto Eco em “Apocalípticos e integrados” (ECO, 2004).
A partir desse quadro teórico, discutiremos o processo de circulação de idéias entre as cidades e o sertão com ênfase sobre o papel do folheto popular na disseminação, nos meios sertanejos, de uma sensibilidade moderna de que as revistas ilustradas eram as principais porta-vozes.
1. A poesia popular sertaneja na república das letras
Como situar a literatura de folhetos, é uma indagação freqüente e que se deve, entre outros fatores à confusão entre a poesia popular oral corrente no Brasil ao longo do século XIX, e a impressa, no caso o folheto de cordel.
Tendo surgido no final da referida década, a literatura de cordel caracteriza-se pela associação de elementos provenientes de tradições remotas, tipicamente rurais, com outros de traços mais caracteristicamente urbanos.
O folheto se impôs como uma novidade em meio às tradições poéticas em uso no Brasil no final do século XIX. O ano de 1893 constitui um marco nessa área junto com o nome de Leandro Gomes de Barros a quem costuma ser atribuída a autoria do primeiro folheto de cordel publicado no país. A trajetória de Leandro Gomes de Barros, do sertão para a cidade onde iniciou sua produção de folhetos, mostra que o cordel, ao contrário da poesia oral tradicional, é um produto urbano. O fato de seu surgimento ter ocorrido num momento em que o país passava por importantes mudanças é uma das possíveis explicações para a adoção, no lugar das temáticas tradicionais, de temas relacionados aos acontecimentos da época.
Poderíamos, assim, supor que a obra de Leandro Gomes de Barros, produzida em um ambiente propício a circulação de novas idéias (como a cidade de Recife, maior centro intelectual e cultural do Nordeste no período em que esse estudo se concentra), expressasse elementos novos que, por sua vez, chegavam ao interior do estado através de uma ampla rede de distribuição. Essa rede levava o folheto a pontos remotos do país transformando-o em veículo de propagação de idéias entre segmentos carentes de meios convencionais de comunicação e informação.
2. A passagem do oral para o impresso
Pode-se verificar, na passagem da poesia popular oral para a impressa a incorporação, pelos poetas sertanejos, de certos traços estilísticos e temáticos da literatura urbana, em especial da crônica política e de costumes. Essa forma de expressão literária, cujos traços de destaque, eram a ironia e a temática do cotidiano, se manifestavam igualmente no folheto de cordel.
Produto típico da chamada belle époque carioca, a crônica teve nas revistas ilustradas seu principal meio de veiculação. O riso, que refletia o desapontamento dos cronistas em relação à situação política do país, se revela igualmente nos folhetos de Leandro Gomes de Barros para quem a sensação de passagem do antigo para o novo vinha associada a um certo mal estar e a uma grande dose de bom humor.
A maneira jocosa como costumava tratar o cotidiano, traduzia-se em sua temática, voltada para questões da atualidade. A ênfase nesses dois elementos (humor e atualidades) diferenciava sua obra do conjunto das expressões literárias dominantes nos meios sertanejos no século XIX ao mesmo tempo em que abria espaço, nesse meio, para um novo tipo de manifestação cultural.
A literatura de cordel, embora tenha preservado traços da literatura oral, estabeleceu relações com outras modalidades narrativas, entre as quais, o jornalismo ao qual se vincula através do folheto de atualidades.
Esses dois campos temáticos (o tradicional e o de atualidades) podem ser encontrados na obra de Leandro Gomes de Barros que tem entre suas publicações títulos inspirados no romanceiro tradicional, como “História da Donzela Theodora”, ao lado de outros menos vinculados àquelas tradições, como os já mencionados folhetos de atualidades. É o caso, por exemplo, do folheto “Discussão de Leandro Gomes de Barros com uma velha de Sergipe” no qual o poeta se vale da estrutura do desafio (uma forma tradicional de poesia oral, improvisada) para discutir o comportamento das mulheres, tema, aliás, recorrente em sua obra. Há, no entanto, entre os dois textos citados uma grande diferença no tratamento do tema.
A “Donzela Theodora” é uma novela de origem oriental que teria vindo, durante a Idade Média, para o ocidente onde foi publicada pela primeira vez no século XV, na Espanha. Ao longo de sua trajetória da Península Ibérica até o Brasil, onde teria chegado em folhetos impressos trazidos pelos colonizadores, ela foi pouco a pouco se afastando de suas raízes eruditas e se transformando em novela popular. Em torno de 1840 a história da donzela começou a circular em impressões brasileiras, mas o seu modo predominante de transmissão continuou sendo oral pelo menos até o final do século XIX, quando foi publicada a versão de Leandro Gomes de Barros (CASCUDO, 1957).
A versão de Leandro, substitui, por versos, a forma original da composição, em prosa, e populariza a sua veiculação pela via impressa no lugar da oral. Nos demais aspectos, a matéria tradicional se mantém intacta. É o caso, por exemplo, da representação da figura feminina, cujos traços heróicos herdados da tradição permanecem como características centrais nessa nova modalidade poética, ou seja, o romance popular em versos.
No folheto, menos ligado às formas tradicionais de representação, o tratamento dado à mulher e às suas experiências é totalmente diferente, como se observa na peleja travada entre Leandro e a velha de Sergipe.
Ao contrário do estilo sério que caracteriza a “História da Donzela Theodora”, a discussão imaginária entre Leandro e a velha é travada num tom de piada que pode ser visto como uma crítica à tradicional divisão de papéis entre o homem e a mulher. Na literatura erudita, o romantismo produziu os melhores exemplos dessa distribuição: força e coragem de um lado, passividade e fragilidade do outro. Na literatura popular, os seus exemplos mais típicos dessa divisão se encontram nos chamados “livros do povo” nos quais, seguindo quase sempre o mesmo esquema, a donzela em perigo era salva por um cavaleiro corajoso que no final a tomava como esposa (CASCUDO, 1957).
Colocando em confronto os pontos de vista do poeta e o da velha, o folheto estabelece novas impressões acerca destes, revelando uma mudança nos padrões de representação que pode, de certa forma, ser associado ao adotado nas crônicas das revistas ilustradas.
3. A representação das figuras masculina e feminina no folheto popular e nas revistas ilustradas
De natureza efêmera e descartável, como sugeriu Antonio Cândido (CÂNDIDO, 1992: 13-23), a crônica mundana não estava preocupada em construir tipos ideais, como a literatura romântica. Sua finalidade era distrair, oferecendo algumas pinceladas de cotidiano ao leitor mais apressado.
Objeto de centenas de crônicas publicadas na época, a temática frívola traduz perfeitamente bem o espírito das revistas ilustradas, em especial o da Fon-fon que confirmava sua linha editorial, assumindo a defesa dos ideais de elegância, e smartismo, que figuravam na ordem do dia dos integrantes da república das letras. Rompendo com antigos padrões morais, a revista, através das figuras da coquette e do dândi, se colocava no compasso dos novos tempos fazendo elogio à falsidade, aos interesses, às extravagâncias, à vaidade e, acima de tudo, à cavação.
Publicada na Fon-fon de 22 de janeiro de 1910, a crônica intitulada “Uma espiga” define a forma mais freqüente de cavação, no caso, a tentativa de subir na vida por meio de um casamento vantajoso.
Aqui o que está em jogo não é o amor, a honestidade da dama, a coragem do cavaleiro. O que interessa é o dinheiro, como se revela na tentativa de Theotonio de conquistar uma viúva rica.
Após informar sobre os passos da conquista, a crônica acaba tendo um desfecho inesperado: ao cometer uma gafe, enganando-se na idade da dama, Theotonio é solenemente dispensado.
Na charge que acompanha o texto, a figura reduzida de Theotonio diante da imagem impassível da viúva é ilustrativa do processo de inversão que incide sobre as formas de representação dos lugares sociais: aqui quem ocupa a posição superior é a mulher (retratada como “uma espiga”, alta, esguia, dominadora) enquanto a Theotonio é reservada uma posição absolutamente subalterna.
O que passa a comandar a relação entre os sexos, como fica claro nessa e nas outras crônicas do gênero, não é mais o código de valores que informava a estética romântica, mas a capacidade de dissimulação para envolver o sexo oposto.
Essa mudança é também visível no campo da literatura de cordel que, se, por um lado, continua ligada à tradição por meio dos heróis e heroínas dos romances de amor e aventuras, por outro, distancia-se dessa mesma tradição adotando, nos folhetos de atualidades, uma postura de desconfiança em relação às “verdadeiras” intenções do homem e da mulher no jogo da conquista.
No folheto que vínhamos anteriormente comentando a posição tomada por Leandro contra os argumentos da velha segue a linha assumida em inúmeros outros folhetos de sua autoria, ou seja, de que a mulher constitui um peso na vida do homem. Retratado como vítima, sua impotência, já revelada na capa do folheto (onde aparece pequeno, acuado, diante da velha que lhe aponta o dedo na cara), define-se logo em seguida quando se vê contestado por sua adversária que afirma que também o homem é um peso para a mulher. O poeta rebate os comentários acusando o jogo da sedução como uma arma nas mãos da mulher para iludir e prender o homem.
No final, o debate entre os dois lados revela, não apenas os pontos fracos da mulher, dissimulada, maliciosa e aproveitadora, segundo palavras de Leandro, mas também os do homem, descrito pela velha como vadio, cachaceiro e ciumento.
Trata-se, evidentemente, de um desafio imaginário, porém, tanto nesse (que se desenrola nas páginas do folheto) quanto no desafio real (improvisado), a razão de ser do embate é o próprio embate, ou seja, a disputa verbal (FERREIRA, 2004: 353-357). O objeto mostra-se, nesse caso, irrelevante, um mero pretexto para que a peleja se desenrole. O que está em jogo, de fato, é a palavra, a maneira como é empregada e, principalmente, o efeito que irá provocar. O objetivo é entreter o leitor; o riso, é o seu elemento chave.
Em relação ao romance popular, é visível, no folheto de atualidades, a descida de tom no modo do poeta lidar com a matéria de seu texto. O mesmo pode ser dito do estilo da crônica mundana, leve, superficial, em relação aos exageros característicos dos autores românticos.
Constitui, portanto, uma marca dos folhetos populares bem como das crônicas publicadas nas revistas ilustradas, a adoção de padrões estilísticos e temáticos novos em relação aos vigentes no século XIX. Que ambas coincidam temporalmente talvez seja mais do que um mero acaso.
A virada do século XIX para o século XX foi marcada por mudanças profundas na estrutura do jornalismo brasileiro. Verifica-se nessa época a passagem de um jornalismo combativo, engajado nas questões políticas e sociais, para uma imprensa de caráter mais comercial (SODRÉ, 1999). As matérias das revistas ilustradas, se inscrevem nesse contexto. No que diz respeito à literatura de cordel há também, na passagem do padrão oral para o impresso, uma mudança de finalidade: aqui a história já não representa um fim por si só; ela é escrita para ser vendida.
Considerando que a linguagem (sobretudo o humor) teria um peso na decisão do leitor adquirir ou não o impresso, nos perguntamos se, a predisposição do público das revistas ilustradas seria, em alguma medida, semelhante à do público consumidor dos folhetos, já que, como se procurou mostrar até aqui, existem pontos de contato entre os dois veículos. A questão agora é pensar como esses contatos se estabelecem.
4. Traços de modernidade no sertão
Quanto às visões sobre a modernidade, não podemos, evidentemente, falar em uma perspectiva comum ligando o centro produtor e consumidor das revistas ilustradas ao dos folhetos de cordel. Mesmo considerando que a literatura de cordel fosse um produto, predominantemente, urbano, uma vez que a sua impressão era feita nas cidades maiores onde também se localizava parte de seu público, a sua base referencial era o sertão de onde provinham os poetas e para onde se dirigia o grosso da produção.
Além disso, mesmo uma cidade como Recife, dificilmente poderia ser equiparada ao Rio de Janeiro em termos de culto às novidades. Nesse sentido, como estabelecer elos de ligação entre as revistas ilustradas (portadoras desses ideais) e os folhetos de cordel?
De imediato esclarecemos que não é essa a nossa proposta. Nem sabemos ainda quais destas publicações circulavam no Nordeste e entre as que circulavam, que abrangência tinham, que regiões alcançavam, que grupos sociais atingiam. Será que um poeta de cordel teria acesso a esse tipo de leitura? Provavelmente não. Por outro lado podemos supor que parte das idéias que ali circulavam estivessem, de alguma forma, disseminadas pelos jornais.
No caso de Leandro sabemos por sua obra que ele era um leitor assíduo de jornais cujas notícias eram traduzidas em versos para os folhetos nos quais sobressai a idéia de “mundo às avessas”, de passagem dos tempos antigos para os novos. Associado a uma