Aline Strelow e Antonio Hohlfeldt
Esta exibição online tem como base o verbete Romance-folhetim, publicado no Dicionário Eletrônico da Imprensa Literária em Língua Portuguesa (https://ppgletras.furg.br/r), dos mesmos autores.
Como todas as boas histórias, a dos folhetins também é recheada de intrigas. Seu idealizador foi Émile Girardin, criador do jornal francês La Presse.
Para multiplicar e baratear sua folha, Girardin imaginou uma forma diferente de publicar textos literários – eles passariam a aparecer em capítulos. Assim, cativariam leitores e ajudariam a ampliar a tiragem. Mas ele tinha um sócio, Armand Dutacq, que percebeu o potencial daquilo, separou-se de Girardin e, antecipando-se a ele, lançou o primeiro romance-folhetim no jornal Le Siècle, do qual foi fundador.
No dia 5 de agosto de 1836, foi publicado o primeiro capítulo de Lazarillo de Tormes, narrativa anônima espanhola, cuja primeira edição conhecida data do século XVI. A escolha do texto não foi por acaso: além de não exigir pagamento de direitos autorais, a obra constituía uma espécie de modelo primitivo da narrativa que faria enorme sucesso entre os parisienses, os franceses, em geral, a Europa e, logo, diversos países do mundo: os textos em folhetim.

Mas Èmile Girardin não se abalaria em ver seu concorrente se adiantando a ele e, em 26 de outubro do mesmo ano, iniciaria a publicação seriada do conto inédito La Vieille Fille, de Honoré de Balzac, então já famoso. Foi a primeira novela encomendada para publicação nesse formato. Apenas no jornal La Presse, Balzac teria editado dez romances.


Publicados em partes, a solução dos conflitos dos folhetins exigia vários capítulos, pois o enredo sempre era suspenso no final do espaço, provocando a curiosidade dos potenciais assinantes dos jornais. Seus textos se caracterizavam como narrativas longas, cheias de melodramaticidade e personagens os mais variados possíveis, com ações que se multiplicavam através de seus capítulos, propiciando um enredo complexo. Era um texto literário, por seu maior apuro estilístico, mas que se aproximava do jornalismo, por referenciar, muitas vezes, acontecimentos recentes (Hohlfeldt, 2023).

A publicação sequenciada popularizou a literatura através dos jornais. Essa aproximação entre literatura e imprensa aconteceu devido, principalmente, aos avanços tecnológicos ocorridos em meados do século XIX e aos episódios político-culturais do período. O desenvolvimento das máquinas impressoras permitiu a ampliação das tiragens, chegando, primeiramente, aos 4 mil exemplares e, depois, saltando para os 20 mil exemplares diários. Ao final do século, as tiragens alcançavam uma milhão de exemplares-dia. O problema, então, era que esses jornais precisavam ser distribuídos, conquistar leitores e, principalmente, garantir sua fidelidade (Hohlfeldt, 2003).
Originalmente, o folhetim era o espaço do rés-do-chão da primeira página dos jornais, dedicado a resenhas de livros ou de espetáculos, crônicas políticas e material de variedades. As iniciativas de Girardin e Dutacq apropriaram-se daquele espaço para a publicação de narrativas ficcionais em fragmentos.
Suas características principais eram: enredos complexos, grande número de personagens, ações eletrizantes, detalhes em torno do passado cuidadosamente omitidos pelo narrador até determinado momento da ação, estrutura montada de maneira a fazer coincidir um efeito de suspense com o final do espaço destinado à narrativa, sinais de reconhecimento, etc. São variadas as designações para esse tipo de produção: além de romance-folhetim, esses textos também foram chamados de literatura industrial, paraliteratura, literatura de massa, literatura trivial e romance de apêndice, entre outros.
Como hoje ocorre com as telenovelas, alguns personagens ganhavam maior importância, por imposição do público; histórias de sucesso tinham de ser estendidas, sem esquecer, é claro, o sempre presente entrelaçamento entre ficção e realidade (Meyer, 1996). Dessa maneira, conquistavam-se novos leitores e ampliava-se a abrangência do jornal. A rápida popularização dos folhetins fez com que, logo, os exemplares fossem disputadíssimos e a melhor saída para não perder nenhum capítulo fosse mesmo investir na assinatura do jornal. Em seguida, começaram a ser publicados na forma de livro, tão logo a narrativa concluísse sua circulação pelas páginas do jornal. O mesmo periódico ocupava-se em vender o livro, a que se agregavam ilustrações que valorizassem o volume.
No Brasil
A febre dos folhetins logo chegou ao Brasil. Um dos primeiros romances nessa linha a circular no país foi a tradução de Capitão Paulo, de Alexandre Dumas, publicado em 1838, no Jornal do Comércio,do Rio de Janeiro. No mesmo jornal, outros títulos fizeram sucesso, como O Conde de Monde Cristo, também de Dumas.

Os escritores surgidos na maré do Romantismo brasileiro utilizariam o mesmo princípio para a divulgação de suas obras, e a circulação dos romances através dos jornais permaneceria até meados do século 20, fazendo com que não apenas os textos românticos quanto os autores das tendências que se seguiriam, especialmente o Realismo e o Naturalismo, adotassem o mesmo tipo de veiculação (Hohlfeldt, 2003).
Os leitores multiplicaram-se e a influência sobre os escritores do país seria plenamente reconhecida, bastando citar autores como José de Alencar e Machado de Assis.




No Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, ao longo do século XIX, jornais com diferentes propostas editoriais publicaram romances-folhetim.


O primeiro jornal literário de longa duração do Rio Grande do Sul foi O Guayba, que circulou entre 1856 e 1858. Nesse periódico, os fohetins eram publicados sempre ao final da edição, na seção Romances e Novellas. Algumas edições,
inclusive, trazem mais de um romance, o que não é pouco para uma folha de apenas oito páginas. De modo geral, são publicadas traduções, feitas pela própria redação, de originais estrangeiros. Nos exemplares disponíveis no acervo da HDIRS, encontramos: Os proscriptos (sem identificação de autor); O diario de uma joven espoza (tradução, mas sem identificação de autor); Cherubino e Celestino (tradução dos redatores para o romance do francês Alexandre Dumas); Sem se ver (tradução para o texto do francês Alphonse Karr); Cain, o pirata (tradução do original inglês de Frederick Marryat); Alice (sem identificação de autor) e A donzela pálida (de Reinaldo Carlos, português residente no Brasil).

Uma das publicações emblemáticas do Rio Grande do Sul do século XIX foi a Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário. Embora fosse uma entidade apartidária, o Partenon defendia a libertação dos escravizados, a propaganda republicana e a emancipação da mulher, introduzindo a pesquisa bibliográfica e o estudo de lendas e tradições sul-rio-grandenses (CIBILS, 2004). A revista mensal (raras vezes quinzenal) foi uma “das mais importantes realizações dessa Sociedade”, diz Carlos Alexandre Baumgarten (1997, p. 72). Ao longo de seus dez anos de circulação, publicou muitos folhetins (romances históricos, novelas e também peças teatro).

Em pesquisa sobre os romances-folhetim no Rio Grande do Sul, Hohlfeldt (2003) identifica mais de 200 textos publicados num período de 50 anos ao longo do século XIX. Entre as características gerais encontradas, destacam-se:
- predominância de traduções, sobretudo de autores franceses;
- entre os franceses, destaca-se a narrativa que ficou conhecida como romance sentimental, de autores como Xavier de Montépin e Jules Mary;
- inexistência de relação direta entre a ideologia do jornal e o folhetim publicado (um mesmo romance ocupava, por vezes, as páginas de periódicos com propostas completamente distintas);
- dentre os autores gaúchos, de origem sul-rio-grandense ou fixados no estado, verificam-se os nomes de: Ana Aurora do Amaral Lisboa, Antônio Alvares Pereira Coruja, Ramiro Fortes de Barcellos e Damasceno Vieira, entre outros.

Em outras mídias
Mas não foi só nos jornais que o folhetim atingiu seu ápice de popularidade no Brasil. Isso acontece quando suas histórias passam a ser adaptadas para o rádio, na década de 1940, e para a televisão, na década de 1960. Para se ter uma ideia, em 1956, a Rádio Nacional transmitia 14 radionovelas por dia – elas representavam 50% da programação da emissora (Haussen, 1997).
Na televisão, o gênero se transforma em um dos principais fenômenos de massa – a popularidade da ficção televisual se dá quando as telenovelas descobrem a realidade brasileira e passam a desvendá-la em capítulos diários, oferecidos para o deleite e distração do telespectador (Marques de Melo, 1998). O recente fenômeno das séries, acompanhadas com entusiasmo por espectadores de diferentes lugares, perfis, idades e classes sociais, é um sintoma de que a ficção seriada, com nova roupagem, continua conquistando públicos variados e ocupando espaço importante nos hábitos de consumo cultural contemporâneos.
Referências:
BAUMGARTEN, Carlos Alexandre. A crítica literária no Rio Grande do Sul. Do Romantismo ao Modernismo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.
____. Literatura e crítica na imprensa do Rio Grande do Sul (1868 a 1880), Porto Alegre, EST. 1982.
CIBILS, Luis Alberto. Sociedade Partenon Literário In LIMA Filho, Serafim et DIAS, Nadir Silveira (Orgs.). Coletânea n. 5, Porto Alegre, Sociedade Partenon Literário. 2004.
ECO, Umberto. Lector in fabula. São Paulo: Perspectiva, 1989.
HAUSSEN, Dóris. Rádio e política: tempo de Vargas e Perón. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.
HOHLFELDT, Antonio. Deus escreve direito por linhas tortas: O romance folhetim dos jornais de Porto Alegre entre 1850 e 1900. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
MEYER, Marlyse. Folhetim: Uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
MARQUES DE MELO, José. As telenovelas da Globo. São Paulo: Summus, 1998.
STRELOW, Aline. A conquista dos leitores: Do folhetim ao hipertexto In Mapeamento do ensino de jornalismo digital no Brasil em 2010. São Paulo: Itaú Cultural, 2010.
____, Primórdios da imprensa literária no Rio Grande do Sul – A história do jornal O Guayba. Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 39, n. 2, 2016.
____; GRUSZYNSKI, Ana; HOHLFELDT, Antonio; GOLIN, Cida; CRUZ, Claudio; MARCÍLIO, Daniel; CAMPOS, Deivison. Apontamentos para uma história da imprensa no Rio Grande do Sul do século XIX In BARBOSA, Marialva; RIBEIRO, Ana Paula Goulart; HOHLFELDT, Antonio. História da Imprensa no Brasil do Século XIX. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2024.
Data de publicação: 21/03/2025
