{"id":403,"date":"2020-06-08T09:53:17","date_gmt":"2020-06-08T12:53:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/?p=403"},"modified":"2020-06-08T18:48:59","modified_gmt":"2020-06-08T21:48:59","slug":"resenha-da-professora-marina-camara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/2020\/06\/08\/resenha-da-professora-marina-camara\/","title":{"rendered":"Resenha da professora Marina C\u00e2mara"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>O futuro \u00e9 a doen\u00e7a da identidade &#8211; v\u00edrus como poder de transforma\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Provavelmente levaremos pelo resto de nossas vidas reflex\u00f5es n\u00e3o conclusivas acerca da pandemia do COVID-19 que atingiu o mundo em 2020. Certa de que ningu\u00e9m tem respostas definitivas sobre o momento atual, ainda que tantos especulem sobre suas causas, consequ\u00eancias e modos de lidar com ele, gostaria de compartilhar leituras, entendendo que os livros s\u00e3o nossa melhor companhia neste momento em que tanta solid\u00e3o pode se manifestar. Sugiro um autor cuja obra, al\u00e9m de infinitamente rica, oferece tamb\u00e9m textos que podem servir para a cria\u00e7\u00e3o de um arcabou\u00e7o capaz de contribuir na significa\u00e7\u00e3o desse contexto pand\u00eamico e sua complexidade. Trata-se de Emanuele Coccia, um pensador brilhante com quem trabalho h\u00e1 muitos anos em minhas pesquisas e de quem felizmente pude acompanhar as aulas quando tive a oportunidade de fazer o doutorado sandu\u00edche. Coccia \u00e9 um jovem fil\u00f3sofo italiano cujos bel\u00edssimos livros que tem lan\u00e7ado a partir de sua escrita e capacidade de s\u00edntese absolutamente singulares nos ajudam a refletir tamb\u00e9m sobre a arte, j\u00e1 que esta constitui um campo cuja composi\u00e7\u00e3o se da a partir de tudo (sim, tudo), fazendo-nos questionar por exemplo, como sugere Coccia, a utilidade da epistemologia:<\/p>\n<p>As coisas e as ideias s\u00e3o muito menos disciplinadas que os homens: misturam-se umas com as outras sem se preocupar com os interditos ou com as etiquetas; circulam livremente sem esperar a autoriza\u00e7\u00e3o dos pares; estruturam-se segundo formas e for\u00e7as que mais correspondem \u00e0quelas que modelam o corpo social. [&#8230;] No mar do pensamento, tudo comunica com tudo, cada saber penetra e \u00e9 penetrado por todos os outros. Todo e qualquer objeto pode ser conhecido por toda e qualquer disciplina; todo e qualquer conhecimento pode dar acesso a todo e qualquer objeto.<\/p>\n<p>O pensamento de Coccia \u00e9 fundamental tamb\u00e9m para refletirmos sobre a pandemia, pois prop\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 uma sa\u00edda da filosofia humanista e, logo, do antropocentrismo, como uma reflex\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o no Universo, para muito al\u00e9m do homem.<\/p>\n<p>Seus textos dissertam lindamente acerca de quest\u00f5es que v\u00e3o desde a ontologia da imagem, como o faz em \u201cA vida sens\u00edvel\u201d, livro no qual defende ter a imagem uma vida pr\u00f3pria \u2013 imaterial sim, mas t\u00e3o determinante que chega a ser mais normativa que a norma em si, a lei, tese que defende em outro livro, \u201cO bem nas coisas \u2013 A publicidade como discurso moral\u201d*:<\/p>\n<p>Falar hoje de uma normatividade ic\u00f4nica (ou seja, de uma norma baseada e incorporada apenas nas imagens) est\u00e1 longe de construir um mero exerc\u00edcio de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: nas sociedades modernas globalizadas, s\u00e3o as imagens, mais do que as palavras, que s\u00e3o respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o dos costumes e pr\u00e1ticas sociais; O predom\u00ednio da comunica\u00e7\u00e3o ic\u00f4nica em redes sociais, como nos casos do <em>Instagram <\/em>ou do <em>Snapchat<\/em>, \u00e9 disso apenas um dos sintomas. Reciprocamente, as imagens, que tiveram no passado uma fun\u00e7\u00e3o essencialmente est\u00e9tica, decorativa ou, mais raramente, cognitiva, s\u00e3o hoje, forma crescente, os \u00f3rg\u00e3os de uma nova forma de normatividade coletiva [&#8230;[. As mais profundas e mais efetivas normas sociais s\u00e3o agora formuladas de uma maneira ic\u00f4nica.<\/p>\n<p>Programado para ter sua tradu\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada no Brasil pela Dantes Editora no segundo semestre deste ano, o \u00faltimo livro de Coccia, Metamorfoses, ilustrado pelo artista Luiz Zerbini, conta, no entanto, com uma esp\u00e9cie de premoni\u00e7\u00e3o do autor. Escrito bem antes do advento da pandemia, o livro teve seu \u00faltimo cap\u00edtulo dedicado a tratar justamente dos v\u00edrus. Enquanto aguardamos ansiosos pelo lan\u00e7amento desta obra, sugiro \u2013 para al\u00e9m dos demais livros aqui citados \u2013 a leitura de uma curta entrevista, publicada originalmente em <em>Philosophie Magazine <\/em>e em<em> la vor\u00e1gine<\/em>, em 26 de mar\u00e7o de 2020 e na N-1 Edi\u00e7\u00f5es, com tradu\u00e7\u00e3o de Damian Kraus, chamada \u201cO v\u00edrus \u00e9 uma for\u00e7a an\u00e1rquica de metamorfose\u201d, dispon\u00edvel no site da editora: <a href=\"https:\/\/n-1edicoes.org\/021\">https:\/\/n-1edicoes.org\/021<\/a>. Espero que este texto possa fornecer a voc\u00eas, como foi pra mim, um deslocamento para uma vis\u00e3o maior, revolucion\u00e1ria mesmo, do contexto pand\u00eamico o qual atravessamos, a partir de m\u00e1ximas como \u2013 na esteira de sua descren\u00e7a sobre a epistemologia \u2013: \u201co futuro \u00e9 a doen\u00e7a da identidade\u201d. \u00a0Boa leitura e fiquem em casa.<\/p>\n<p>* \u201cA vida sens\u00edvel\u201d foi publicado pela editora Cultura e Barb\u00e1rie, respons\u00e1vel tamb\u00e9m pela edi\u00e7\u00e3o de outra obra mais recente deste autor, cuja leitura retenho ser igualmente tanto rica quanto urgente: \u201cA vida das plantas: uma metaf\u00edsica da mistura\u201d. J\u00e1 o livro \u201cO bem nas coisas \u2013 A publicidade como discurso moral\u201d \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o da editora portuguesa Sistema Solar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futuro \u00e9 a doen\u00e7a da identidade &#8211; v\u00edrus como poder de transforma\u00e7\u00e3o Provavelmente levaremos pelo resto de nossas vidas reflex\u00f5es n\u00e3o conclusivas acerca da pandemia do COVID-19 que atingiu o mundo em 2020. Certa de que ningu\u00e9m tem respostas definitivas sobre o momento atual, ainda que tantos especulem sobre suas causas, consequ\u00eancias e modos de lidar com ele, gostaria de compartilhar leituras, entendendo que os livros s\u00e3o nossa melhor companhia neste momento em que tanta solid\u00e3o pode se manifestar. Sugiro um autor cuja obra, al\u00e9m de infinitamente rica, oferece tamb\u00e9m textos que podem servir para a cria\u00e7\u00e3o de um arcabou\u00e7o capaz de contribuir na significa\u00e7\u00e3o desse contexto pand\u00eamico e sua complexidade. Trata-se de Emanuele Coccia, um pensador brilhante com quem trabalho h\u00e1 muitos anos em minhas pesquisas e de quem felizmente pude acompanhar as aulas quando tive a oportunidade de fazer o doutorado sandu\u00edche. Coccia \u00e9 um jovem fil\u00f3sofo italiano cujos bel\u00edssimos livros que tem lan\u00e7ado a partir de sua escrita e capacidade de s\u00edntese absolutamente singulares nos ajudam a refletir tamb\u00e9m sobre a arte, j\u00e1 que esta constitui um campo cuja composi\u00e7\u00e3o se da a partir de tudo (sim, tudo), fazendo-nos questionar por exemplo, como sugere Coccia, a utilidade da epistemologia: As coisas e as ideias s\u00e3o muito menos disciplinadas que os homens: misturam-se umas com as outras sem se preocupar com os interditos ou com as etiquetas; circulam livremente sem esperar a autoriza\u00e7\u00e3o dos pares; estruturam-se segundo formas e for\u00e7as que mais correspondem \u00e0quelas que modelam o corpo social. [&#8230;] No mar do pensamento, tudo comunica com tudo, cada saber penetra e \u00e9 penetrado por todos os outros. Todo e qualquer objeto pode ser conhecido por toda e qualquer disciplina; todo e qualquer conhecimento pode dar acesso a todo e qualquer objeto. O pensamento de Coccia \u00e9 fundamental tamb\u00e9m para refletirmos sobre a pandemia, pois prop\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 uma sa\u00edda da filosofia humanista e, logo, do antropocentrismo, como uma reflex\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o no Universo, para muito al\u00e9m do homem. Seus textos dissertam lindamente acerca de quest\u00f5es que v\u00e3o desde a ontologia da imagem, como o faz em \u201cA vida sens\u00edvel\u201d, livro no qual defende ter a imagem uma vida pr\u00f3pria \u2013 imaterial sim, mas t\u00e3o determinante que chega a ser mais normativa que a norma em si, a lei, tese que defende em outro livro, \u201cO bem nas coisas \u2013 A publicidade como discurso moral\u201d*: Falar hoje de uma normatividade ic\u00f4nica (ou seja, de uma norma baseada e incorporada apenas nas imagens) est\u00e1 longe de construir um mero exerc\u00edcio de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: nas sociedades modernas globalizadas, s\u00e3o as imagens, mais do que as palavras, que s\u00e3o respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o dos costumes e pr\u00e1ticas sociais; O predom\u00ednio da comunica\u00e7\u00e3o ic\u00f4nica em redes sociais, como nos casos do Instagram ou do Snapchat, \u00e9 disso apenas um dos sintomas. Reciprocamente, as imagens, que tiveram no passado uma fun\u00e7\u00e3o essencialmente est\u00e9tica, decorativa ou, mais raramente, cognitiva, s\u00e3o hoje, forma crescente, os \u00f3rg\u00e3os de uma nova forma de normatividade coletiva [&#8230;[. As mais profundas e mais efetivas normas sociais s\u00e3o agora formuladas de uma maneira ic\u00f4nica. Programado para ter sua tradu\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada no Brasil pela Dantes Editora no segundo semestre deste ano, o \u00faltimo livro de Coccia, Metamorfoses, ilustrado pelo artista Luiz Zerbini, conta, no entanto, com uma esp\u00e9cie de premoni\u00e7\u00e3o do autor. Escrito bem antes do advento da pandemia, o livro teve seu \u00faltimo cap\u00edtulo dedicado a tratar justamente dos v\u00edrus. Enquanto aguardamos ansiosos pelo lan\u00e7amento desta obra, sugiro \u2013 para al\u00e9m dos demais livros aqui citados \u2013 a leitura de uma curta entrevista, publicada originalmente em Philosophie Magazine e em la vor\u00e1gine, em 26 de mar\u00e7o de 2020 e na N-1 Edi\u00e7\u00f5es, com tradu\u00e7\u00e3o de Damian Kraus, chamada \u201cO v\u00edrus \u00e9 uma for\u00e7a an\u00e1rquica de metamorfose\u201d, dispon\u00edvel no site da editora: https:\/\/n-1edicoes.org\/021. Espero que este texto possa fornecer a voc\u00eas, como foi pra mim, um deslocamento para uma vis\u00e3o maior, revolucion\u00e1ria mesmo, do contexto pand\u00eamico o qual atravessamos, a partir de m\u00e1ximas como \u2013 na esteira de sua descren\u00e7a sobre a epistemologia \u2013: \u201co futuro \u00e9 a doen\u00e7a da identidade\u201d. \u00a0Boa leitura e fiquem em casa. * \u201cA vida sens\u00edvel\u201d foi publicado pela editora Cultura e Barb\u00e1rie, respons\u00e1vel tamb\u00e9m pela edi\u00e7\u00e3o de outra obra mais recente deste autor, cuja leitura retenho ser igualmente tanto rica quanto urgente: \u201cA vida das plantas: uma metaf\u00edsica da mistura\u201d. J\u00e1 o livro \u201cO bem nas coisas \u2013 A publicidade como discurso moral\u201d \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o da editora portuguesa Sistema Solar. &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":400,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[30],"tags":[33,32],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/403"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=403"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/403\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":404,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/403\/revisions\/404"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/400"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}