{"id":426,"date":"2020-06-20T19:10:45","date_gmt":"2020-06-20T22:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/?p=426"},"modified":"2020-06-20T19:44:48","modified_gmt":"2020-06-20T22:44:48","slug":"texto-da-artista-visual-juliana-gonzalez-processo-criativo-no-desafio-da-quarentena-da-profa-lilian-maus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/2020\/06\/20\/texto-da-artista-visual-juliana-gonzalez-processo-criativo-no-desafio-da-quarentena-da-profa-lilian-maus\/","title":{"rendered":"Texto da artista visual Juliana Gonzalez* &#8211; processo criativo no desafio da quarentena da prof\u00aa Lilian Maus"},"content":{"rendered":"<p id=\"v1m_1766512295423156455m_-2812148124051303657docs-internal-guid-c4274803-7fff-0f34-309a-6f783705ee39\" dir=\"ltr\">O processo art\u00edstico pode surgir de uma pequena centelha criativa que ganha forma aos poucos. Tal centelha pode tornar-se permanente, como as obras de Vicent Van Gogh que, quando encontrou sua pr\u00f3pria centelha, desenvolveu sua pr\u00f3pria maneira de compartilhar suas impress\u00f5es e a manteve at\u00e9 o final da vida. Outras vezes, essa centelha se transforma ao longo do tempo, como os trabalhos de Francis Al\u00ffs, conhecido por uma linha de trabalho multim\u00eddia e interdisciplinar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O processo de cada artista \u00e9 \u00fanico e individual, n\u00e3o importando qual o tipo de centelha que o inspira. Meus esbo\u00e7os e explora\u00e7\u00f5es, costumam surgir de mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia ou de um elemento qualquer do cotidiano. Os gatilhos que me despertam para o processo s\u00e3o mut\u00e1veis e podem ser breves. Em 2018, em meio a um novo relacionamento amoroso e dado o clima pol\u00edtico no Brasil, relembrei minha descoberta sexual, de como ela foi permeada pelo imagin\u00e1rio cat\u00f3lico, sendo que comecei meus estudos de catequese na \u00e9poca. Produzi, ent\u00e3o, uma s\u00e9rie de pinturas e pequenas estatuetas de gesso em cores vibrantes. Parti da ideia de &#8220;bad painting&#8221;,\u00a0 pintando elementos que fazem refer\u00eancia \u00e0 sexualidade em meio \u00e0 simbologia crist\u00e3 com uma ponta de ironia e do sarcasmo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Continuei trabalhando com as santas de gesso at\u00e9 o final de 2019, quando voltei a pintar utilizando, desta vez, a imagem de santinhos de papel distribu\u00eddos em igrejas. Eu os fotografava e editava as imagens em aplicativos de celular, chegando em um resultado que lembra as serigrafias do Movimento Pop. Ao concluir a edi\u00e7\u00e3o, eu reproduzia a imagem na tela de pintura.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Uma lembran\u00e7a da minha inf\u00e2ncia deu origem a uma linha de trabalho que durou um ano e meio, mas percebi nas \u00faltimas pinturas, que elas j\u00e1 n\u00e3o tinham tanta rela\u00e7\u00e3o a minha descoberta sexual, mas me remetiam muito a minha av\u00f3 materna. A maioria dos santinhos fotografados pertenciam \u00e0 cole\u00e7\u00e3o pessoal dela, que havia falecido h\u00e1 poucos meses quando iniciei esses trabalhos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Percebo ent\u00e3o, que a centelha que d\u00e1 in\u00edcio ao meu processo de trabalho tem forte rela\u00e7\u00e3o com o lado materno da minha fam\u00edlia e sobre como eu desde pequena vi minha m\u00e3e e av\u00f3 bordando, costurando, tricotando, ocupada com diversos tipos de fazeres manuais. Voltando um pouco mais no tempo, em 2017 revelei esse meu interesse em um trabalho pela primeira vez fiz, se trata de uma colagem com desenhos e um pequeno bordado de um ramo de folhas. Assim,\u00a0 libertei a minha vontade de usar meios que nem sempre s\u00e3o entendidos como arte. Um ano depois criei um vest\u00edvel com bordados que foi exposto na exposi\u00e7\u00e3o registro n.2 que ocorreu na Casa Baka, na pe\u00e7a em voil, foram\u00a0 bordados pequenos trechos de conhecidas m\u00fasicas brasileiras com letras claramente machistas. Utilizar o bordado, uma t\u00e9cnica vista como &#8220;tradicionalmente feminina&#8221;, para esse trabalho, foi um modo de debater a educa\u00e7\u00e3o machista a qual somos submetidas at\u00e9 que &#8220;costuramos&#8221;, &#8220;bordamos&#8221; e &#8220;vestimos&#8221; o papel social que nos \u00e9 atribu\u00eddo. Tamb\u00e9m cheguei em uma reflex\u00e3o acerca das m\u00fasicas escolhidas e o seu papel no nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Neste momento de isolamento social eu me voltei mais para o artesanato do que para os processos art\u00edsticos, mesmo que andem em conjunto. Aprendi as bases da tape\u00e7aria com minha m\u00e3e e estou prestes a finalizar um tapete que ela iniciou h\u00e1 mais de 15 anos. Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o disso com com o processo criativo? Estou trabalhando novamente com materiais ligados \u00e0s mulheres da minha fam\u00edlia,\u00a0 &#8220;costuro&#8221;\u00a0 possibilidades para a minha futura pesquisa, aguardando atenta pela transforma\u00e7\u00e3o da centelha que tem me direcionado para ideias que, agora percebo, t\u00eam muito em comum.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">* Estudante de Licenciatura em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande Sul, come\u00e7ou a sua gradua\u00e7\u00e3o no ano de 2016 e atualmente cursa o 9\u00ba semestre. Em 2016 teve suas primeiras experi\u00eancias em educa\u00e7\u00e3o, participando do projeto PIBID (2016-2017) e apresentando trabalho no ENALIC em Curitiba (2016). Como artista visual participou de exposi\u00e7\u00f5es na Sala Ado Malagoli, Instituto de Artes UFRGS (2016), Casa Baka (2017), Perestroika (2019) e Centro Cultural \u00c9rico Ver\u00edssimo (2019).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O processo art\u00edstico pode surgir de uma pequena centelha criativa que ganha forma aos poucos. Tal centelha pode tornar-se permanente, como as obras de Vicent Van Gogh que, quando encontrou sua pr\u00f3pria centelha, desenvolveu sua pr\u00f3pria maneira de compartilhar suas impress\u00f5es e a manteve at\u00e9 o final da vida. Outras vezes, essa centelha se transforma ao longo do tempo, como os trabalhos de Francis Al\u00ffs, conhecido por uma linha de trabalho multim\u00eddia e interdisciplinar. O processo de cada artista \u00e9 \u00fanico e individual, n\u00e3o importando qual o tipo de centelha que o inspira. Meus esbo\u00e7os e explora\u00e7\u00f5es, costumam surgir de mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia ou de um elemento qualquer do cotidiano. Os gatilhos que me despertam para o processo s\u00e3o mut\u00e1veis e podem ser breves. Em 2018, em meio a um novo relacionamento amoroso e dado o clima pol\u00edtico no Brasil, relembrei minha descoberta sexual, de como ela foi permeada pelo imagin\u00e1rio cat\u00f3lico, sendo que comecei meus estudos de catequese na \u00e9poca. Produzi, ent\u00e3o, uma s\u00e9rie de pinturas e pequenas estatuetas de gesso em cores vibrantes. Parti da ideia de &#8220;bad painting&#8221;,\u00a0 pintando elementos que fazem refer\u00eancia \u00e0 sexualidade em meio \u00e0 simbologia crist\u00e3 com uma ponta de ironia e do sarcasmo. Continuei trabalhando com as santas de gesso at\u00e9 o final de 2019, quando voltei a pintar utilizando, desta vez, a imagem de santinhos de papel distribu\u00eddos em igrejas. Eu os fotografava e editava as imagens em aplicativos de celular, chegando em um resultado que lembra as serigrafias do Movimento Pop. Ao concluir a edi\u00e7\u00e3o, eu reproduzia a imagem na tela de pintura. Uma lembran\u00e7a da minha inf\u00e2ncia deu origem a uma linha de trabalho que durou um ano e meio, mas percebi nas \u00faltimas pinturas, que elas j\u00e1 n\u00e3o tinham tanta rela\u00e7\u00e3o a minha descoberta sexual, mas me remetiam muito a minha av\u00f3 materna. A maioria dos santinhos fotografados pertenciam \u00e0 cole\u00e7\u00e3o pessoal dela, que havia falecido h\u00e1 poucos meses quando iniciei esses trabalhos. Percebo ent\u00e3o, que a centelha que d\u00e1 in\u00edcio ao meu processo de trabalho tem forte rela\u00e7\u00e3o com o lado materno da minha fam\u00edlia e sobre como eu desde pequena vi minha m\u00e3e e av\u00f3 bordando, costurando, tricotando, ocupada com diversos tipos de fazeres manuais. Voltando um pouco mais no tempo, em 2017 revelei esse meu interesse em um trabalho pela primeira vez fiz, se trata de uma colagem com desenhos e um pequeno bordado de um ramo de folhas. Assim,\u00a0 libertei a minha vontade de usar meios que nem sempre s\u00e3o entendidos como arte. Um ano depois criei um vest\u00edvel com bordados que foi exposto na exposi\u00e7\u00e3o registro n.2 que ocorreu na Casa Baka, na pe\u00e7a em voil, foram\u00a0 bordados pequenos trechos de conhecidas m\u00fasicas brasileiras com letras claramente machistas. Utilizar o bordado, uma t\u00e9cnica vista como &#8220;tradicionalmente feminina&#8221;, para esse trabalho, foi um modo de debater a educa\u00e7\u00e3o machista a qual somos submetidas at\u00e9 que &#8220;costuramos&#8221;, &#8220;bordamos&#8221; e &#8220;vestimos&#8221; o papel social que nos \u00e9 atribu\u00eddo. Tamb\u00e9m cheguei em uma reflex\u00e3o acerca das m\u00fasicas escolhidas e o seu papel no nosso imagin\u00e1rio. Neste momento de isolamento social eu me voltei mais para o artesanato do que para os processos art\u00edsticos, mesmo que andem em conjunto. Aprendi as bases da tape\u00e7aria com minha m\u00e3e e estou prestes a finalizar um tapete que ela iniciou h\u00e1 mais de 15 anos. Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o disso com com o processo criativo? Estou trabalhando novamente com materiais ligados \u00e0s mulheres da minha fam\u00edlia,\u00a0 &#8220;costuro&#8221;\u00a0 possibilidades para a minha futura pesquisa, aguardando atenta pela transforma\u00e7\u00e3o da centelha que tem me direcionado para ideias que, agora percebo, t\u00eam muito em comum. * Estudante de Licenciatura em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande Sul, come\u00e7ou a sua gradua\u00e7\u00e3o no ano de 2016 e atualmente cursa o 9\u00ba semestre. Em 2016 teve suas primeiras experi\u00eancias em educa\u00e7\u00e3o, participando do projeto PIBID (2016-2017) e apresentando trabalho no ENALIC em Curitiba (2016). Como artista visual participou de exposi\u00e7\u00f5es na Sala Ado Malagoli, Instituto de Artes UFRGS (2016), Casa Baka (2017), Perestroika (2019) e Centro Cultural \u00c9rico Ver\u00edssimo (2019).<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":427,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[25,44,5],"tags":[29,46,45],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=426"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":431,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions\/431"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/427"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}