{"id":484,"date":"2020-07-13T22:11:46","date_gmt":"2020-07-14T01:11:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/?p=484"},"modified":"2020-07-14T01:34:28","modified_gmt":"2020-07-14T04:34:28","slug":"pierre-fatumbi-verger-oju-oba-e-o-jardim-dos-orixas-profa-dra-lilian-maus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/2020\/07\/13\/pierre-fatumbi-verger-oju-oba-e-o-jardim-dos-orixas-profa-dra-lilian-maus\/","title":{"rendered":"Pierre Fatumbi Verger Oju Ob\u00e1 e o Jardim dos Orix\u00e1s &#8211; Profa. Lilian Maus"},"content":{"rendered":"<p>Em minha hist\u00f3ria pessoal, as viagens de carro de norte a sul do pa\u00eds sempre estiveram muito presentes. Eu, uma branquela filha de ga\u00fachos, tive a sorte de nascer, junto com meu irm\u00e3o ca\u00e7ula (termo de origem Kimbundu), em Salvador\/Bahia. Passamos parte da inf\u00e2ncia na Meca da Negritude e, durante os anos de 1980 e 1990, part\u00edamos, sem GPS nem telefone, pelas estradas \u00e1ridas e esburacadas do Sert\u00e3o. Experiment\u00e1vamos, nessas viagens, um Brasil profundo, a partir de um conv\u00edvio familiar um tanto for\u00e7ado, dentro de um autom\u00f3vel onde as janelas abriam-se a diversas paisagens e sotaques, trazendo novos cheiros e temperos para o seio familiar. Nesse mundo que passava ao redor da c\u00e1psula automobil\u00edstica, a secura do Sert\u00e3o encontrava o Cerrado mineiro. De repente, a Mata Atl\u00e2ntica brotava em morros exuberantes e, mais ao sul, dilu\u00eda-se na Restinga praieira a perder-se de vista na imensid\u00e3o dos Pampas ga\u00fachos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_495\" aria-describedby=\"caption-attachment-495\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bahia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-495\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bahia-1024x626.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"587\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bahia-1024x626.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bahia-300x183.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bahia-768x469.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bahia.jpg 1123w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-495\" class=\"wp-caption-text\">Fotos de Dora L\u00facia Maus, arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essas viagens me formaram. Sobretudo, elas despertaram um olhar-expedicion\u00e1rio que fundia as paisagens \u00e0s suas gentes e aos seus costumes. At\u00e9 hoje encaro meus trabalhos art\u00edsticos a partir das narrativas de viagem, reais e\/ou imagin\u00e1rias, assumindo, diante dos projetos, certo esp\u00edrito aventureiro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_496\" aria-describedby=\"caption-attachment-496\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/viagens_janela.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-496\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/viagens_janela-1024x661.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/viagens_janela-1024x661.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/viagens_janela-300x194.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/viagens_janela-768x496.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/viagens_janela.jpg 1063w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-496\" class=\"wp-caption-text\">Aquarelas e autorretrato em fotografia, Lilian Maus, 2016-2020<\/figcaption><\/figure>\n<p>Se para mim as viagens come\u00e7aram em um carro, com a fam\u00edlia, para Pierre Verger (Paris, 1902 \u2014 Salvador, 1996), aos trinta anos, foi a morte da m\u00e3e, ocorrida ap\u00f3s a perda do pai e do irm\u00e3o, o marco inicial de suas andan\u00e7as pelo mundo. Com sua Rolleiflex, Verger fascinava-se pela nitidez do detalhe desse equipamento port\u00e1til que permitia capturar \u201cum lagarto engolindo uma mosca\u201d. \u00a0O fot\u00f3grafo jornal\u00edstico foi correspondente de diversas ag\u00eancias, tendo viajado por v\u00e1rios pa\u00edses e continentes, entre eles: Taiti, Estados Unidos, China, Jap\u00e3o, It\u00e1lia, Espanha, Sud\u00e3o, Mali, N\u00edger, Alto Volta, Togo, Daom\u00e9, \u00cdndia, M\u00e9xico, Filipinas, Indochina (atuais Tail\u00e2ndia, Laos, Camboja, Vietn\u00e3), Guatemala, Equador, Senegal, Argentina, Peru, Bol\u00edvia e Brasil.<\/p>\n<figure id=\"attachment_498\" aria-describedby=\"caption-attachment-498\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger-_autorretrato.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-498\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger-_autorretrato-300x158.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger-_autorretrato-300x158.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger-_autorretrato-768x404.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger-_autorretrato.jpg 950w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-498\" class=\"wp-caption-text\">Autorretrato, Pierre Verger<\/figcaption><\/figure>\n<p>S\u00e3o famosas as s\u00ednteses fotogr\u00e1ficas de Verger realizadas a partir de um olhar preciso que cria composi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas em preto e branco com a beleza dos corpos negros. Durante sua morada na Bahia, alimentou um prof\u00edcuo di\u00e1logo com artistas como Caryb\u00e9 e Mario Cravo, tendo por objetivo documentar, de modo sens\u00edvel, a preserva\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes africanas no \u201cNovo Mundo\u201d. \u00a0Suas fotografias s\u00e3o fascinantes e revelam apenas a ponta do iceberg desse gigante Verger, batizado, ap\u00f3s ser iniciado pelos babala\u00f4s africanos, como \u201cFatumbi\u201d, ou seja, \u201caquele que nasceu de novo pela gra\u00e7a do If\u00e1\u201d. Tamanha import\u00e2ncia teve a sua pesquisa etnogr\u00e1fica, levantamento hist\u00f3rico e vis\u00e3o art\u00edstica de culturas at\u00e9 ent\u00e3o pouco estudadas, que foi intitulado Doutor em Ci\u00eancias no Centre de Recherches Scientifiques da Fran\u00e7a, ao lado de Roger Bastide, mesmo tendo abandonado a escola aos dezessete anos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_500\" aria-describedby=\"caption-attachment-500\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_obra.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-500\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_obra-300x298.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_obra-300x298.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_obra-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_obra-75x75.jpg 75w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_obra.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-500\" class=\"wp-caption-text\">Pierre Verger, fotografia matriz-negativo, 1952<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o foi de imediato, apenas depois de 1948, dois anos ap\u00f3s aportar na Bahia e viajar para Recife, Haiti e Guiana Holandesa, que Verger come\u00e7ou a se dar conta da import\u00e2ncia do Candombl\u00e9 na tradi\u00e7\u00e3o afrodescendente brasileira e latino-americana. Frequentador ass\u00edduo dos terreiros da Bahia, foi batizado \u201cOju Ob\u00e1\u201d, que significa \u201cos olhos de Xang\u00f4\u201d, por M\u00e3e Senhora, no Terreiro de Op\u00f4 Afonj\u00e1. \u00a0O escritor Jorge Amado, por quem cultivou uma profunda amizade, escreveu, no texto de apresenta\u00e7\u00e3o do livro <em>Ew\u00e9<\/em>, o seguinte alerta: &#8220;Cuidado com Verger, ele \u00e9 feiticeiro, tem poderes&#8221;, parafraseando M\u00e3e Senhora.<\/p>\n<p>Sugiro para quem quiser mergulhar nesse oceano nada an\u00eamico de Verger, assistir ao filme \u201cMensageiro entre dois mundos\u201d (Dire\u00e7\u00e3o: Lula Buarque de Hollanda Narra\u00e7\u00e3o e Apresenta\u00e7\u00e3o: Gilberto Gil Produ\u00e7\u00e3o: Conspira\u00e7\u00e3o Filmes, Geg\u00ea Produ\u00e7\u00f5es, GNT Globosat). Como o t\u00edtulo sugere, o document\u00e1rio ressalta a fun\u00e7\u00e3o de &#8220;mensageiro&#8221; ou de \u201cponte de comunica\u00e7\u00e3o\u201d exercida por Verger entre \u00c1frica e Brasil. Suas a\u00e7\u00f5es e pesquisas interromperam um sil\u00eancio imposto pela escravid\u00e3o, embora tenha sido criticado por alguns antrop\u00f3logos mais conservadores por n\u00e3o ter se colocado de modo neutro nas comunidades com as quais convivia em trabalho de campo.<\/p>\n<div id=\"meta\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\">\n<div id=\"meta-contents\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\">\n<div id=\"container\" class=\"style-scope ytd-video-secondary-info-renderer\">\n<div id=\"meta\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\">\n<div id=\"meta-contents\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\">\n<div id=\"container\" class=\"style-scope ytd-video-secondary-info-renderer\">Assista ao filme no Youtube no seguinte link:<\/div>\n<div><a href=\"https:\/\/youtu.be\/tlbomZeH_p4\">https:\/\/youtu.be\/tlbomZeH_p4<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<figure id=\"attachment_506\" aria-describedby=\"caption-attachment-506\" style=\"width: 228px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ewe.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-506\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ewe-228x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ewe-228x300.jpg 228w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ewe.jpg 380w\" sizes=\"(max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-506\" class=\"wp-caption-text\">Capa do livro &#8220;Ew\u00e9: o uso das plantas na cultura iorub\u00e1&#8221;, pela Companhia das Letras.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div id=\"meta-contents\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\">\n<div id=\"container\" class=\"style-scope ytd-video-secondary-info-renderer\">\n<div id=\"ticket-shelf\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Com mil e uma facetas, esse fot\u00f3grafo, pensador e etn\u00f3grafo era tamb\u00e9m feiticeiro, jardineiro e alquimista.\u00a0Pierre Fatumbi Verger Oju Ob\u00e1 tinha por h\u00e1bito pedir \u201cmudinhas\u201d aonde quer que fosse ap\u00f3s ter estudado para ser Babala\u00f4, talvez por esta raz\u00e3o nunca tenha dado por pronto seu horto, mantendo em vida olhos sempre atentos aos p\u00e1tios vizinhos. Publicou\u00a0<em>Ew\u00e9: o uso das plantas na sociedade Iorub\u00e1<\/em>, um cat\u00e1logo de mais de\u00a0 setecentas p\u00e1ginas que registra 3549 plantas usadas pelos iorub\u00e1s, sendo 200 delas reconhecidas pelos nomes africanos no Brasil. O livro traz um levantamento de 447 receitas que se dividem em diversos usos: medicinal, para auxiliar na gravidez e nascimento; para adora\u00e7\u00e3o dos orix\u00e1s, para feiti\u00e7os de uso ben\u00e9fico e mal\u00e9fico e prote\u00e7\u00e3o contra sua atua\u00e7\u00e3o mal\u00e9fica. Fatumbi divide as plantas em dois grandes grupos: estimulantes e calmantes, principais efeitos buscados nos ritos lit\u00fargicos do candombl\u00e9 durante o estado de transe.\u00a0 As plantas n\u00e3o atuam conforme princ\u00edpios ativos isolados, como ocorre na medicina ocidental,\u00a0 pelo contr\u00e1rio, elas costumam ser utilizadas em misturas acompanhadas de palavras vocalizadas nos rituais.\u00a0 A transmiss\u00e3o oral desse conhecimento dentro da cultura iorub\u00e1 d\u00e1-se por meio frases curtas, chamadas de \u201cof\u00f2\u201d, que, quando entonados, atuam como \u201cve\u00edculo do ax\u00e9\u201d. Ou seja, para que a &#8220;magia&#8221; aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio que essas palavras sejam pronunciadas junto das medicinas. Abaixo segue ainda um trecho de outro livro do autor, chamado &#8220;Lendas dos Orix\u00e1s&#8221;, em que descreve a est\u00f3ria de Ossain, o senhor das folhas, destacando o poder de encantamento nessa sinergia entre a a\u00e7\u00e3o da palavra e a for\u00e7a das plantas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_505\" aria-describedby=\"caption-attachment-505\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_ossanha.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-505\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_ossanha-300x249.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"249\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_ossanha-300x249.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_ossanha-768x637.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/verger_ossanha.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-505\" class=\"wp-caption-text\">Trecho da lenda de Ossain, do livro &#8220;Lendas Africanas dos Orix\u00e1s&#8221;, de Pierre Fatumbi Verger e ilustra\u00e7\u00f5es de Caryb\u00e9, 1997<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"meta\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\">\n<div id=\"meta-contents\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\">\n<div id=\"container\" class=\"style-scope ytd-video-secondary-info-renderer\">\n<div id=\"ticket-shelf\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\"><\/div>\n<div id=\"merch-shelf\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\"><\/div>\n<div id=\"header\" class=\"style-scope ytd-item-section-renderer\">\n<div id=\"title\" class=\"style-scope ytd-comments-header-renderer\">Refer\u00eancias:<\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>VERGER, Pierre.<strong> Lendas Africanas do Orix\u00e1s<\/strong>, ilustrado por Caryb\u00e9. Salvador: Corrupio, 1985<\/p>\n<p>VERGER, Pierre.<strong> Fluxo e Refluxo do tr\u00e1fco de Escravos entre o Goldo de Benin e a Ba\u00eda de Todos os Santos<\/strong>. Salvador: Corrupio, 1987.<\/p>\n<p>VERGER, Pierre.<strong> Ew\u00e9, o uso das plantas na sociedade ioruba<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1995.<\/p>\n<p>VERGER, Pierre. <strong>Le Messager \u2013 Photographies 1932-1962<\/strong>. Paris: Revue Noire, 1993;<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<h4><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>Site:<\/div>\n<div>https:\/\/www.pierreverger.org\/br\/<\/div>\n<div id=\"merch-shelf\" class=\"style-scope ytd-watch-flexy\"><\/div>\n<div id=\"header\" class=\"style-scope ytd-item-section-renderer\">\n<div id=\"title\" class=\"style-scope ytd-comments-header-renderer\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em minha hist\u00f3ria pessoal, as viagens de carro de norte a sul do pa\u00eds sempre estiveram muito presentes. Eu, uma branquela filha de ga\u00fachos, tive a sorte de nascer, junto com meu irm\u00e3o ca\u00e7ula (termo de origem Kimbundu), em Salvador\/Bahia. Passamos parte da inf\u00e2ncia na Meca da Negritude e, durante os anos de 1980 e 1990, part\u00edamos, sem GPS nem telefone, pelas estradas \u00e1ridas e esburacadas do Sert\u00e3o. Experiment\u00e1vamos, nessas viagens, um Brasil profundo, a partir de um conv\u00edvio familiar um tanto for\u00e7ado, dentro de um autom\u00f3vel onde as janelas abriam-se a diversas paisagens e sotaques, trazendo novos cheiros e temperos para o seio familiar. Nesse mundo que passava ao redor da c\u00e1psula automobil\u00edstica, a secura do Sert\u00e3o encontrava o Cerrado mineiro. De repente, a Mata Atl\u00e2ntica brotava em morros exuberantes e, mais ao sul, dilu\u00eda-se na Restinga praieira a perder-se de vista na imensid\u00e3o dos Pampas ga\u00fachos. Essas viagens me formaram. Sobretudo, elas despertaram um olhar-expedicion\u00e1rio que fundia as paisagens \u00e0s suas gentes e aos seus costumes. At\u00e9 hoje encaro meus trabalhos art\u00edsticos a partir das narrativas de viagem, reais e\/ou imagin\u00e1rias, assumindo, diante dos projetos, certo esp\u00edrito aventureiro. Se para mim as viagens come\u00e7aram em um carro, com a fam\u00edlia, para Pierre Verger (Paris, 1902 \u2014 Salvador, 1996), aos trinta anos, foi a morte da m\u00e3e, ocorrida ap\u00f3s a perda do pai e do irm\u00e3o, o marco inicial de suas andan\u00e7as pelo mundo. Com sua Rolleiflex, Verger fascinava-se pela nitidez do detalhe desse equipamento port\u00e1til que permitia capturar \u201cum lagarto engolindo uma mosca\u201d. \u00a0O fot\u00f3grafo jornal\u00edstico foi correspondente de diversas ag\u00eancias, tendo viajado por v\u00e1rios pa\u00edses e continentes, entre eles: Taiti, Estados Unidos, China, Jap\u00e3o, It\u00e1lia, Espanha, Sud\u00e3o, Mali, N\u00edger, Alto Volta, Togo, Daom\u00e9, \u00cdndia, M\u00e9xico, Filipinas, Indochina (atuais Tail\u00e2ndia, Laos, Camboja, Vietn\u00e3), Guatemala, Equador, Senegal, Argentina, Peru, Bol\u00edvia e Brasil. S\u00e3o famosas as s\u00ednteses fotogr\u00e1ficas de Verger realizadas a partir de um olhar preciso que cria composi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas em preto e branco com a beleza dos corpos negros. Durante sua morada na Bahia, alimentou um prof\u00edcuo di\u00e1logo com artistas como Caryb\u00e9 e Mario Cravo, tendo por objetivo documentar, de modo sens\u00edvel, a preserva\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes africanas no \u201cNovo Mundo\u201d. \u00a0Suas fotografias s\u00e3o fascinantes e revelam apenas a ponta do iceberg desse gigante Verger, batizado, ap\u00f3s ser iniciado pelos babala\u00f4s africanos, como \u201cFatumbi\u201d, ou seja, \u201caquele que nasceu de novo pela gra\u00e7a do If\u00e1\u201d. Tamanha import\u00e2ncia teve a sua pesquisa etnogr\u00e1fica, levantamento hist\u00f3rico e vis\u00e3o art\u00edstica de culturas at\u00e9 ent\u00e3o pouco estudadas, que foi intitulado Doutor em Ci\u00eancias no Centre de Recherches Scientifiques da Fran\u00e7a, ao lado de Roger Bastide, mesmo tendo abandonado a escola aos dezessete anos. N\u00e3o foi de imediato, apenas depois de 1948, dois anos ap\u00f3s aportar na Bahia e viajar para Recife, Haiti e Guiana Holandesa, que Verger come\u00e7ou a se dar conta da import\u00e2ncia do Candombl\u00e9 na tradi\u00e7\u00e3o afrodescendente brasileira e latino-americana. Frequentador ass\u00edduo dos terreiros da Bahia, foi batizado \u201cOju Ob\u00e1\u201d, que significa \u201cos olhos de Xang\u00f4\u201d, por M\u00e3e Senhora, no Terreiro de Op\u00f4 Afonj\u00e1. \u00a0O escritor Jorge Amado, por quem cultivou uma profunda amizade, escreveu, no texto de apresenta\u00e7\u00e3o do livro Ew\u00e9, o seguinte alerta: &#8220;Cuidado com Verger, ele \u00e9 feiticeiro, tem poderes&#8221;, parafraseando M\u00e3e Senhora. Sugiro para quem quiser mergulhar nesse oceano nada an\u00eamico de Verger, assistir ao filme \u201cMensageiro entre dois mundos\u201d (Dire\u00e7\u00e3o: Lula Buarque de Hollanda Narra\u00e7\u00e3o e Apresenta\u00e7\u00e3o: Gilberto Gil Produ\u00e7\u00e3o: Conspira\u00e7\u00e3o Filmes, Geg\u00ea Produ\u00e7\u00f5es, GNT Globosat). Como o t\u00edtulo sugere, o document\u00e1rio ressalta a fun\u00e7\u00e3o de &#8220;mensageiro&#8221; ou de \u201cponte de comunica\u00e7\u00e3o\u201d exercida por Verger entre \u00c1frica e Brasil. Suas a\u00e7\u00f5es e pesquisas interromperam um sil\u00eancio imposto pela escravid\u00e3o, embora tenha sido criticado por alguns antrop\u00f3logos mais conservadores por n\u00e3o ter se colocado de modo neutro nas comunidades com as quais convivia em trabalho de campo. Assista ao filme no Youtube no seguinte link: https:\/\/youtu.be\/tlbomZeH_p4 Com mil e uma facetas, esse fot\u00f3grafo, pensador e etn\u00f3grafo era tamb\u00e9m feiticeiro, jardineiro e alquimista.\u00a0Pierre Fatumbi Verger Oju Ob\u00e1 tinha por h\u00e1bito pedir \u201cmudinhas\u201d aonde quer que fosse ap\u00f3s ter estudado para ser Babala\u00f4, talvez por esta raz\u00e3o nunca tenha dado por pronto seu horto, mantendo em vida olhos sempre atentos aos p\u00e1tios vizinhos. Publicou\u00a0Ew\u00e9: o uso das plantas na sociedade Iorub\u00e1, um cat\u00e1logo de mais de\u00a0 setecentas p\u00e1ginas que registra 3549 plantas usadas pelos iorub\u00e1s, sendo 200 delas reconhecidas pelos nomes africanos no Brasil. O livro traz um levantamento de 447 receitas que se dividem em diversos usos: medicinal, para auxiliar na gravidez e nascimento; para adora\u00e7\u00e3o dos orix\u00e1s, para feiti\u00e7os de uso ben\u00e9fico e mal\u00e9fico e prote\u00e7\u00e3o contra sua atua\u00e7\u00e3o mal\u00e9fica. Fatumbi divide as plantas em dois grandes grupos: estimulantes e calmantes, principais efeitos buscados nos ritos lit\u00fargicos do candombl\u00e9 durante o estado de transe.\u00a0 As plantas n\u00e3o atuam conforme princ\u00edpios ativos isolados, como ocorre na medicina ocidental,\u00a0 pelo contr\u00e1rio, elas costumam ser utilizadas em misturas acompanhadas de palavras vocalizadas nos rituais.\u00a0 A transmiss\u00e3o oral desse conhecimento dentro da cultura iorub\u00e1 d\u00e1-se por meio frases curtas, chamadas de \u201cof\u00f2\u201d, que, quando entonados, atuam como \u201cve\u00edculo do ax\u00e9\u201d. Ou seja, para que a &#8220;magia&#8221; aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio que essas palavras sejam pronunciadas junto das medicinas. Abaixo segue ainda um trecho de outro livro do autor, chamado &#8220;Lendas dos Orix\u00e1s&#8221;, em que descreve a est\u00f3ria de Ossain, o senhor das folhas, destacando o poder de encantamento nessa sinergia entre a a\u00e7\u00e3o da palavra e a for\u00e7a das plantas. &nbsp; &nbsp; Refer\u00eancias: &nbsp; VERGER, Pierre. Lendas Africanas do Orix\u00e1s, ilustrado por Caryb\u00e9. Salvador: Corrupio, 1985 VERGER, Pierre. Fluxo e Refluxo do tr\u00e1fco de Escravos entre o Goldo de Benin e a Ba\u00eda de Todos os Santos. Salvador: Corrupio, 1987. VERGER, Pierre. Ew\u00e9, o uso das plantas na sociedade ioruba. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1995. VERGER, Pierre. Le Messager \u2013 Photographies 1932-1962. Paris: Revue Noire, 1993; Site: https:\/\/www.pierreverger.org\/br\/<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":506,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[34,30,1],"tags":[76,29,86,80,81,83,78,82,87,79,77,84,85],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/484"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=484"}],"version-history":[{"count":46,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/484\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":547,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/484\/revisions\/547"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/506"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/historiasepraticasartisticas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}