Bailes da terceira idade oferecem diversão e podem ajudar a manter a saúde

Em busca de diversão, amigos e lazer idosos lotam bailes focados no público mais velho

Por Jean Lucas Nunes

A Lei Nº 10.741, mais conhecida como Estatuto do Idoso, garante às pessoas da terceira idade direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer. O lazer dos idosos, no entanto, muitas vezes é invisível aos olhos da sociedade. Até pouco tempo atrás, idosos eram levados quase ao ostracismo em relação a atividades de lazer, sendo associados ao estereótipo do aposentado que fica em casa até o fim de sua vida. Um exemplo recente deste perfil associado aos mais velhos, foi a fala polêmica do prefeito de São Paulo, João Dória(PSDB) sobre seu colega de partido e ex-governador de São Paulo Alberto Goldman. Segundo Dória, o histórico político tucano “vive de pijamas em sua casa”. Mas este pensamento está mudando. O maior exemplo disso é o grande número de bailes da terceira idade que pipocam pelas grandes e pequenas cidades do país. As matinés dançantes atraem, além de idosos, muitas pessoas de idade média, entre 40 e 60 anos. Esse tipo de evento ocorre em clubes especialmente dedicados, associações militares e de bairros, ou mesmo danceterias que normalmente trabalham com festas voltadas para o público jovem.

Festas reúnem grande número de idosos/Foto: Jean Nunes

A grande diferença na produção das festas voltadas para o público idoso são os dias, horários e estilo musical. Por ser uma população mais voltada ao diurno que o noturno, a preferência entre os mais experientes é por festas que acontecem no meio da tarde, em domingos. Além disso, muitos clubes oferecem petiscos, como salgadinhos e lanches, para os experientes participantes. O aposentado da Brigada Militar, Milton Gonçalves, 76 anos, está sempre pronto para uma festa com seus amigos. Veste seu paletó branco, lustrar seus sapatos e gosta de se perfumar para dançar. Frequentador assíduo do Baile da Maturidade do Clube Geraldo Santana, no bairro Santo Antônio, em Porto Alegre, lá ele diz encontrar música boa, amizades e, claro, suas companheiras de dança, algumas das quais seriam suas namoradas.

Em sua maioria, os “festeiros”, como se chamam, chegam em pares ou em grupos. Amigas, vizinhas, casais e até pais e filhos vem prestigiar domingos dançantes em clubes como o Geraldo Santana. As festas começam em torno das 15h e vão até o anoitecer. A decoração é simples, mas caprichada, para um público que, apesar da idade, não deixa nem um pouco de ser vaidoso.  As regras na maioria das casas de baile são conhecidas pelos participantes: ser cortês, gentil e simpático é o maior lema entre os dançarinos. Outro ponto sensível é o de consumo de bebidas alcoólicas, sendo solicitado aos presentes que não exagerem, para assim aproveitarem mais a festa.

Café é uma das bebidas mais consumidas na festa, até mais que cerveja/ Foto: Jean Nunes

Por algumas se inspirarem em festas antigas, os eventos acabam trazendo a nostalgia aos frequentadores, e servem como um catalisador de boas energias. Vera Lúcia Lima, de 69 anos, frequenta o baile do Geraldo Santana há quatro anos e encara esse tipo de evento como uma terapia. “Meu marido faleceu há sete anos, fiquei por mais de três anos trancada em casa, não vivendo, até que me redescobri nos bailes”, relata dona Vera, como prefere ser chamada. Além de trazer benefícios psíquicos significativos, os bailes também podem ajudar a saúde física. O médico geriatra Aldo Carvalho afirma que muitos estudos e experiências de vida comprovam que a dança e a interação social ajudam a revigorar a energia nos mais velhos:

– Os idosos, principalmente após a aposentadoria, começam a se descuidar nos hábitos saudáveis e acabam reduzindo as atividades físicas, até por reduzirem sua jornada laboral. Muitos acabam entrando em depressão, perdem o contato diário com outras pessoas. Os bailes ajudam muito nessa reconquista, revigorando o corpo e a mente.  

Outra testemunha dos benefícios dessa atividade é a professora de dança Iessa Rovena, para quem não só o movimento, mas também a música e a socialização contribuem para uma melhor condição mental e física dos idosos. Como um grande catalisador de emoções, o baile movimenta toda uma nova geração da terceira idade, mais preocupada com a saúde e que não quer ficar parada na tradicional imagem dos avós caseiros. Os idosos hoje buscam se movimentar, sair, rir. Eles olham para os jovens, assistem programas na TV de competições dança, de cozinha, de canto e pensam: ‘por que não eu?’”, explica Rovena.

Iolanda do Carmo, 72 anos, é frequentadora dos bailes semanais há oito anos. Morando sozinha após a morte do marido, revigorou seus hábitos de vida após a descoberta da dança e ainda incentivou as irmãs a também frequentarem as festas. “A gente não pode parar. Eu descobri que amo dançar com mais de 60 de idade, sem nunca ter dançado. Tenho orgulho, hoje, de olhar para os meus filhos e netos e às vezes ter mais energia e força que eles. A dança, as amigas e até os namorados que a gente se relaciona são legais para fazerem a gente ser mais feliz”, conta Iolanda, que afirma já ter arranjado  três namorados nestes anos de participação nos bailes.

Jean Lucas Nunes

Estudante de jornalismo da UFRGS com especial interesse nas áreas de política, direito, educação e economia.

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