Estudantes da UFRGS buscam tornar o ensino da matemática mais dinâmico e inovador em escola do Bom Fim

Projeto idealizado por estudantes do curso de licenciatura em matemática busca criar um laboratório de aprendizagem para alunos e professores da escola Anne Frank

Por Jean Lucas Nunes

Segundo dados da Prova Brasil de 2015 apenas 16% dos estudantes matriculados no 9ª ano do ensino fundamental da rede pública demonstram ter aprendido corretamente os conteúdos de matemática, quando o adequado segundo a ONG Todos pela Educação seria de 70%. É essa realidade que estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul estão tentando mudar na Escola Estadual de Ensino Médio Anne Frank, localizada no bairro Bom Fim, em Porto Alegre.

Os universitários vinculados ao curso de licenciatura em matemática da UFRGS buscam criar na escola onde trabalham graças ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) do Ministério da Educação, uma abordagem experimental no ensino da matemática. Pelo PIBID, os estudantes participam de uma bolsa que incentiva os alunos a praticarem a docência diretamente nas escolas conveniadas, possibilitando aos estudantes o exercício do magistério na prática, dando aulas e monitorias na rede pública de ensino. O objetivo do programa é preparar os alunos para a vida escolar, graças a isso as instituições acabam também renovando alguns ares em sua pedagogia aplicada.

Participantes do projeto fazem mutirão para tornar o Laboratório uma realidade/ Fonte: Acervo PIBID-Mat-AnneFrank

Na escola Anne Frank, uma das matérias mais temidas pelos alunos agora receberá uma nova abordagem no ensino, graças ao trabalho de 8 estudantes. Seis integrantes do PIBID, mais dois ex-participantes do programa, ao ganharem da escola uma sala de maiores proporções, resolveram colocar em prática uma ideia original, idealizada de bons exemplos do passado: montar um Laboratório de Matemática. Tradicionalmente as escolas possuem espaços como a biblioteca, quadras de futebol e vôlei. Algumas, mais completas, contam com laboratório de física, química e biologia. Todos buscando auxiliar o aluno, de maneira prática a absorver e testar os conhecimentos estudados na teoria da cada matéria. Foi aí que os estudantes de matemática da UFRGS tiveram a ideia: porque não montar um Laboratório de Matemática?

O exemplo vinha de locais como o abandonado Laboratório de Matemática do Instituto Estadual de Educação General Flores da Cunha, e do moderno caso do Colégio Farroupilha, uma das escolas particulares mais conceituadas da capital gaúcha. O grande diferencial do grupo são os objetivos com a montagem deste espaço. Em vez de apenas privilegiar a prática da matemática, o laboratório planejado ajudaria também nas aulas de reforço e no preparo dos professores para atuarem tanto com a matemática como com recursos mais modernos que estavam disponíveis na escola, mas não são utilizados no dia-a-dia das aulas, como a internet, programas computacionais e a lousa digital.

Estudantes utilizaram de materiais como caixotes para confeccionar armários para o Laboratório/Fonte: Acervo PIBID-Mat-AnneFrank

Alguns dos projetos que serão desenvolvidos no Laboratório já foram trabalhados pelos estudantes nas aulas que já ministram na Escola, como tangram, uma espécie de quebra-cabeça que pode formar várias formas geométricas. Outro método para ensinar aos alunos é a utilização de softwares de criação, como os que simulam o desenho arquitetônico de uma casa. Através desse programa, foi trabalhada com os alunos a noção de espaço, área e perímetro. Além dessas metodologias de ensino já aplicadas, os universitários agora podem contar com uma lousa digital na Laboratório de Matemática, uma das coisas que mais anima os futuros professores pelas possibilidades que oferece para o ensino. A lousa, que mais parece um tablet gigante, tem dezenas de programas que possibilitam a interação dos seus usuários com imagem e vídeos, podendo assim o professor interagir com o que aparece na tela. Mesmo a escola já possuindo o equipamento desde 2015, a lousa se manteve encaixotada por falta de instalação e treinamento para o manuseio pelos docentes do Anne Frank.

Apesar da vontade fazer o projeto ganhar vida, os estudantes tiveram um caminho difícil a percorrer para tornar sua ideia realidade. Notadamente, a escola e sua administração foram as primeiras parceiras do grupo, dando a eles a liberdade de montar o laboratório e ajudando no que era possível. Um dos primeiros apoios veio da professora de matemática da escola e supervisora dos alunos do PIBID no local, Teresinha Oliveira Moura. Segundo a ela, a importância do projeto é “minimizar as dificuldades dos alunos, oferecendo recursos didático-pedagógicos que possibilitem uma melhor compreensão dos conteúdos desenvolvidos em sala de aula”.

Com esse apoio, o grupo foi buscar ajuda com a coordenadoria do PIBID e com a UFRGS. Após um esforço coletivo, conseguiram a primeira ajuda financeira para a ideia, por parte do PIBID, e doação de móveis e objetos pela universidade. Graças a emails trocados com a faculdade de arquitetura da federal, o pedido de apoio ao projeto chegou a B’nai B’rith do Brasil, entidade que desde 1932 desenvolve diversos programas de acordo o conceito judaico de Justiça Social Social, o Tzedaká. A entidade entende como parte integrante dos direitos humanos todas ações que favoreçam a inclusão social, e viu no pequeno grupo que atua na escola Anne Frank um projeto que que condiz com estes preceitos. Com isso, após saber da iniciativa  a entidade foi uma que se uniu com apoio financeiro ao estudantes para a colocar o espaço de pé. Além disso, os participantes organizaram uma rifa para ajudar a custear a reforma e a compra de utensílios para o novo ambiente da escola.

O laboratório passou por uma reforma e agora está na fase de estruturação/Fonte: Acervo PIBID-Mat-AnneFrank

Participante do PIBID e uma das idealizadoras do projeto, Caroline Dall’Agnol relata que, no momento, o laboratório está na sua fase de estruturação, mas os materiais idealizados para serem utilizados ainda não estão prontos, porém ela já vislumbra um futuro promissor para o local:

 

“Eu imagino esse laboratório no futuro cheio de matérias, cheios de alunos, com professores da escola de outras disciplinas e outras áreas utilizando o Laboratório de Matemática para fazer atividades interdisciplinares. Podendo assim proporcionar aos alunos uma propostas diferente de ensino.”

 

Esse futuro aguardado pela futura professora é compartilhado também pelos estudantes, como é o caso do aluno do 9º ano Jonathan. -“A gente espera que tenha mais aulas do PIBID, que as aulas sejam mais animadas, e que tenha mais professores para nos ajudar”. E em relação a sala, o aluno da escola é taxativo: “a sala está muito  legal, muito bonita, e com certeza, quando tiver pronta, eu vou ser o primeira a vir”. Caroline se mostra animada: “mesmo que o PIBID acabe, vamos continuar vindo e participando deste projeto, eu quero que a gente construa os materiais, que a gente consiga ajudas financeiras, que este espaço seja montado”.

A inauguração da sala está marcada para o dia 21/12/2017, mas um longo trabalho ainda está por vir, com a montagens dos materiais que serão utilizados, o planejamento das monitorias que serão oferecidas, e o apoio que será fornecido aos docentes que quiserem, juntamente com os estudantes e voluntários, mudar a realidade com a qual trabalham.

O Laboratório de Matemática começará a atender os alunos a partir de 2018/ Foto: Jean Nunes

Jean Lucas Nunes

Estudante de jornalismo da UFRGS com especial interesse nas áreas de política, direito, educação e economia.

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