Projeto oferece alfabetização para adultos em ocupação do bairro Restinga

Integrantes da ocupação Vida Nova na Restinga, buscam na alfabetização uma forma de resistir. Em pesquisa realizada pelo IBGE em 2016, cerca de 12,9 milhões de pessoas são analfabetas

Por Thayse Uchôa

No Rio Grande do Sul, segundo dados da Fundação de Economia e Estatística (FEE), cerca de 366 mil pessoas não sabem ler e escrever. O Estado tem a menor média de analfabetos comparado ao restante da federação, mas em uma democracia todos devem ter os mesmos direitos e oportunidades, e o exercício pleno desses direitos passa pelas possibilidade de receber uma educação de qualidade.

Na intenção de contribuir para a diminuição dos índices de analfabetismo e promover a viabilidade de uma outra perspectiva de vida, um grupo de professores da Rede Emancipa elaborou o projeto Alfabetização de Jovens e Adultos Emancipa (AJA). O trabalho tem como base os ensinamentos do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, que estimulam o aluno iletrado através de seu contexto social e político, exercitando o pensamento crítico.  A equipe Emancipa, que também atua na preparação de jovens para o vestibular e ENEM, abraçou mais essa causa e agora contribui para a alfabetização de jovens e adultos na Ocupação Vida Nova Restinga.

Para Marcus Vianna, um dos idealizadores do projeto:

“A educação é um desafio para qualquer professor, a alfabetização pode ser o grande despertar para o mundo do conhecimento  e esse projeto de alfabetização é uma forma de diversificar a nossa atuação como educadores.  Foi a maneira que nós encontramos de ajudar os movimentos sociais através da própria ação educativa.”

Além das dificuldades de um projeto que está iniciando, o AJA Emancipa precisa cativar o interesse de pessoas que vivem na Ocupação Vida Nova Restinga, para que elas entendam a importância da educação e de saber ler e escrever, tarefa nada fácil. A comunidade que fica no extremo sul de Porto Alegre, é um local de difícil acesso, não tem ruas asfaltadas e fica longe da via principal que dá acesso aos ônibus, mercados escolas e bancos. A maioria das casas são de madeira e as aulas são ministradas em uma brinquedoteca comunitária. O espaço é cedido por Sandra Romero, uma ex-moradora  e membro da equipe de lideranças da comunidade.

O projeto acontece num contexto urbano de vulnerabilidade, violências, pobreza e marginalização. Marcus Viana descreve a iniciativa como “uma atualização das práticas de educação popular que existiam nos anos 60 com as iniciativas de Paulo Freire e trabalhadores do campo.”

Papel pardo, canetas, jogos de alfabetização e vontade de aprender são os elementos que compõem a sala de aula improvisada e rodeada de brinquedos. A criatividade também está presente na forma de utilizar e reutilizar os materiais pedagógicos. A aprendizagem é um exercício muito visual e o resultado surge a partir de inúmeras repetições. Por isso, a paciência também é imprescindível para o sucesso do trabalho.

A maioria das participantes do projeto são mulheres com mais de 30 anos. Muitas delas trabalham em serviços domésticos, como faxineira, lavadeira, e cozinheira, ou dedicam-se exclusivamente ao lar. Elas buscam no projeto uma forma de se integrar na sociedade e de buscar oportunidades de trabalho.  Sandra Romero relata que “tem muitas mulheres que os maridos não deixam ou não querem” deixar que elas estudem.

É possível compreender a importância dessa iniciativa quando percebemos que o projeto AJA  Emancipa contribui diretamente com no mínimo cinco dos 17 Objetivos para transformar o mundo da Organização das Nações Unidas  (ONU). O objetivo número um, que diz respeito à Erradicação da Pobreza, está diretamente ligado à alfabetização, pois pessoas letradas têm maiores oportunidades de emprego e consequentemente maiores oportunidades de sair de uma situação de pobreza. O objetivo número quatro fala em Educação de Qualidade, questão que é muito clara para os professores do projeto que estudaram e se prepararam para o desafio. O objetivo número cinco é sobre Igualdade de Gênero e é possível entender a importância desse projeto quando a maioria dos alunos são mulheres. O objetivo número oito da ONU, visa promover o Trabalho Decente e Desenvolvimento Econômico, e é  possível perceber os resultados, pois os alunos já estão recebendo propostas de trabalho devido ao fato de  estarem estudando.  Por fim, o projeto tem ligação com o objetivo número dez, que pretende Diminuir as Desigualdades em todos os âmbitos sociais e este projeto prova que a educação abre portas, apresenta novos olhares para o mundo e promove oportunidades.

A professora Dayane Ribeiro busca, em suas aulas, passar valores relacionados ao mundo além da sala de aula. “É importante valorizar cada ação dos estudantes. Valorizá-los como pessoas na sua singularidade. Quanto às mulheres, é preciso mostrar à elas a importância de ser mulher, de resistir. Realçamos o valor de cada saber que elas possuem.”

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Os encontros do projeto AJA Emancipa acontecem aos sábados, durante cerca de duas horas. Os professores trabalham junto às lideranças da comunidade e as aulas são abertas a quem tiver interesse. Algumas vezes, nenhum aluno aparece. Os motivos são diversos. A vergonha de não saber ler é um dos fatores que mais provocam a evasão.

Eliane Oliveira, 54 anos, é uma das alunas mais frequentes nas aulas do AJA. Ela tem muita dificuldade de aprender, mas entende a importância dessa iniciativa. Ela gosta de trabalhar com vendas e quer abrir uma loja, por isso precisa aprender a ler e escrever. Além disso, ela encoraja outras mulheres a participarem do projeto. Nos sábados, Eliane leva o seu caderno e caneta, às vezes também outras vizinhas interessadas. Mesmo tendo uma vida  familiar e financeira difícil, ela mantém seus seis filhos na escola. Quer que o futuro deles seja melhor que o seu.

 

Analfabetismo é resultado de diversos males

O tema alfabetização tem grande relevância e aborda toda a população por ser a base para o exercício pleno da cidadania. No Brasil, durante muito tempo, os iletrados foram proibidos de votar nas eleições, adquirindo esse direito apenas em novembro de 1985, na primeira eleição municipal após a ditadura, fato que aconteceu há apenas 31 anos.

Mundialmente, a alfabetização teve espaço privilegiado no Congresso de Teerã (1965). O contexto era fim da Segunda Guerra Mundial, onde grandes chefes de estado reuniram-se para formularem propostas de paz com a colaboração de todas as nações. No texto oficial da Conferência foi firmado que “O ensino da alfabetização deve ser decididamente orientado para o desenvolvimento, e deve ser parte integral não somente de planos nacionais de educação, mas também de planos e projetos para o desenvolvimento de todos os setores da vida nacional. Tendo em vista as necessidades da humanidade hoje, a educação não pode mais se limitar a escola. […] O alfabetismo funcional de adultos deve, além disso, envolver toda a sociedade e não somente governos.”

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO), atualmente 758 milhões de adultos têm baixa alfabetização no mundo. Desse total, 63% são mulheres, dado que fortalece a desigualdade de gênero, causada pelo machismo. As razões para que as mulheres sejam as mais afetadas nesse contexto são diversas: desde falta de oportunidades, religião, filhos, responsabilidades domésticas e a até mesmo a falta de políticas públicas que se comprometam a mudar essa realidade.

O Brasil tem avançado consideravelmente na diminuição das taxas de analfabetismo. No ano de 2016, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 8% dos brasileiros eram analfabetos. Em números, essa porcentagem corresponde a 12,9 milhões de pessoas. Mais da metade delas são mulheres e possuem mais de 60 anos.

O artigo 214 da Constituição brasileira de 1988 determina a eliminação do analfabetismo no País. Na intenção enfrentar esse problema, padronizar e acelerar esse processo, o governo federal sancionou em 2014 o Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece 20 metas a serem atingidas, abrangendo desde a alfabetização até o ensino superior. O analfabetismo dos pais é também uma das principais causas de mortalidade infantil, segundo o Estadão Dados.

A Rede Emancipa completou em 2017, dez anos de ativismo na luta por direitos humanos. Presente em seis Estados, possui mais de 50 cursinhos pré-vestibulares, além de projetos que envolvem esporte, alfabetização, cultura e discussões de gênero. Os projetos  acontecem a partir de doações de empresas que apoiam e acreditam em uma educação popular de qualidade.

É possível conhecer mais sobre o projeto AJA Emancipa e também contribuir com as iniciativas entrando em contato através do site  e redes sociais.

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