As faces do preconceito religioso no Brasil

O quinto artigo da Constituição Brasileira afirma que o direito ao culto é inviolável. Ou seja, todos podem exercer suas crenças livremente, estando assegurado a sua segurança para tal. Porém, apesar de ser lei essa liberdade de culto, os casos de intolerância religiosa no Brasil são preocupantes.

Segundo dados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos baseados no Disque 100, entre 2011 e 2017, houve 1988 denúncias de intolerância religiosa. O Disque 100 passou a receber queixas desse tipo em 2011, quando registrou 15 registros de discriminação de cunho religioso. Com o passar do tempo, o número de denúncias teve altos e baixos e, em 2017, teve uma diminuição de 77,73% de casos registrados em relação a 2016, que computou 759 denúncias.

Cristofobia

O servidor público Flávio Bittencourt de Castro Júnior, de 32 anos, relata já ter sido vítima desse tipo de preconceito. Católico desde a adolescência por estímulo dos pais, diz que estar em contato com a filosofia católica fez com que ele se conectasse mais consigo, experimentando bons sentimentos e uma filosofia positiva ao amor. Flávio declara já ter sofrido com reações intolerantes à sua fé, embora não acreditasse que isso fosse passível de ocorrer — para ele, a noção de cristofobia é muito exagerada. Atualmente, a religião católica é a que possui o maior número de adeptos no Brasil, segundo dados do censo do IBGE de 2010.

Os casos de intolerância são chocantes e, em algumas situações, podem acontecer de maneira mais tensa. Flávio saiu com um homem que aparentava ser interessante. No encontro, o homem contou episódios de homofobia por parte da família, que o expulsou de casa por causa de sua condição sexual. Na sua casa, havia vários elementos budistas, o que despertou sua atenção.

“Eu adoro falar sobre religiões. Ele percebeu meu interesse no assunto, então, perguntou minha religião”

Quando Flávio disse que era católico, o homem começou a agir de maneira ríspida. “Ele me disse que se perguntava como eu poderia fazer parte disso, sob o argumento de que os gays eram perseguidos pela comunidade católica”, relata. Após várias tentativas de argumento, Flávio foi expulso da casa. “Foi irônico para mim. Foi como se ele tivesse tomado para si a intolerância que os pais dele exerceram sobre ele”, finaliza.

O mito da bruxaria

Segundo Clarissa Ferreira, estudante de Publicidade e Propaganda da UFRGS, a religião mudou a sua maneira de ver o mundo e a maneira com que reage às coisas. “Meu templo é a natureza, então eu tento sempre preservá-la e entender seus ciclos e comportamentos”, afirma. A jovem de 23 anos segue a bruxaria tradicional desde 2015, mas seu primeiro contato com esse universo surgiu em 2010, quando se autoiniciou na wicca, a corrente mais famosa na bruxaria. Anteriormente à bruxaria, a estudante frequentou uma igreja evangélica por três anos. “Me dizia evangélica porque era mais confortável, mas nunca me senti 100% conectada, além de não concordar com várias coisas”, explica.

A bruxaria não é uma doutrina tão difundida quanto as de origem cristã e, por conta disso, vem carregada com mais estigma e estereótipos. Clarissa conta que, assim que começou a seguir a bruxaria, sua mãe ficou preocupada, mas quando ela desconstruiu os rótulos que a doutrina carrega, tudo se tornou mais fácil. “Foi tão tranquilo que a minha casa virou o quartel general do coven (grupo de bruxos) do qual eu era membro na época; a gente fazia rituais e preparava tudo lá, sem problemas”, afirma. Embora o processo tenha sido tranquilo em casa, o mesmo não aconteceu com seu círculo de amigos ao saberem da religião que ela começou a seguir. “A maioria dos meus amigos apoiou, mas vários se afastaram e nunca mais falaram comigo”, relata.

O coven de que Clarissa fazia parte realizava os rituais na sua casa. Foto: Arquivo pessoal

Clarissa lamenta não poder realizar os seus rituais em locais abertos, porque além de não integrar nenhum grupo, há o fator da violência — tanto em relação à segurança pública quanto à intolerância religiosa. O preconceito referente às práticas de bruxaria já fez com que a estudante passasse por situações desconfortáveis.

“Quando eu morava no Rio de Janeiro, estava numa van a caminho de casa e, de repente, uma senhora me agarrou e começou a orar por mim, porque eu estava lendo um livro sobre bruxaria. Eu cheguei até mesmo a agredi-la, porque estava me machucando. Também já fui perseguida na rua por um senhor que quis me exorcizar quando me viu com um colar de pentagrama.”

O pentagrama, na magia wicca, representa a terra, o ar, a água, o fogo e o espírito. Foto: Arquivo pessoal

A atitude de Clarissa frente aos episódios de intolerância costumava ser mais agressiva, mas, hoje, ela percebe que não era uma abordagem produtiva. “Eu costumava chegar já na defensiva, mas depois fui brigando menos. Na época em que eu era militante, atacava antes e percebi que isso era bem errado. Eu não faço nada de mal para ninguém, não sacrifico animais nem bebês, não bebo sangue de virgem e nem adoro diabo nenhum”, explica. Hoje, quando se depara com situações de preconceito, sempre tenta desconstruir os estereótipos: “Eu e todos os pagãos só queremos viver na paz do Senhor, seja ele Hórus, Hades, Cernunnos ou Taliesin.”

“Deus é consciência”

A arquiteta Eloise de Brito Mudo tem 40 anos e sempre esteve em contato com algum tipo de doutrina e religião ao longo da vida. Na infância, parte de sua família paterna era da umbanda. Por conta da religião dos pais, batizou-se na igreja católica. “Durante uns quatro anos da minha infância, minha casa era praticamente a extensão da paróquia do bairro, pois meus pais cediam a casa para reuniões e ensaios dos cânticos da missa de domingo”, relembra. Eloise tinha fascínio pelos cânticos da igreja e adorava participar das quermesses. Com o divórcio dos pais, sua mãe se casou novamente. Seu padrasto era ateu, enquanto a mãe era uma evangélica fervorosa de uma igreja neopentecostal. O relacionamento acabou anos depois, por conta da incompatibilidade religiosa.

Eloise já frequentou igreja católica, evangélica, templo budista, templo hare krishna e terreiros de umbanda e candomblé. “Da umbanda e do candomblé eu tinha medo, por causa da minha mãe. Segundo ela, um pai de santo disse que eu era médium e ela resolveu me proteger. Falava para eu respeitar quem gostasse, mas mandava eu ficar longe de terreiro. Só entrei depois de grande e não deu medo depois disso”, conta Eloise.

Apesar de ter transitado entre algumas religiões, Eloise diz não ter se conectado emocionalmente a nenhuma. Hoje, ela não segue religião alguma, por não concordar plenamente com nenhuma.

“Na verdade, não gosto de seguir ninguém, nem acredito que Deus queira isso. Deus é consciência e quem tem consciência não tem necessidade de seguir nada, pode até seguir, mas sabe que não precisa”, afirma.

Segundo a arquiteta, as religiões servem para ajudar a entender o caminho até Deus e, hoje, ela acredita numa energia que une todo o universo, onde cada um é corresponsável por tudo o que nos circunda. Apesar de não seguir nenhuma doutrina, ela acostumou-se a chamar essa energia de Deus e, para ela, essa força está em tudo e se manifesta por qualquer meio. Apesar do costume de chamar essa energia de Deus, Eloise comenta que já foi duramente criticada, com pessoas próximas insistindo que ela deve se converter – ela ressalta que sempre foram as evangélicos. “Acho isso um desrespeito. Quando alguém insiste muito em querer me convencer a seguir sua religião, eu escuto, tento conversar e ficamos de boa, mas admito que me policio para eu mesma não ser intolerante com religiosos que demonstram intolerância”, pondera.

Assim como já foi alvo de intolerância, Eloise também já foi espectadora. “Já vi católicos falando mal de macumbeiros, mas eles não sabem distinguir umbanda de candomblé e espiritismo. Espíritas falando mal de umbandistas e da galera do candomblé. E evangélicos falando mal de todos os outros, por acreditarem que somente sua religião é a verdadeira”. Essa intolerância de pessoas religiosas contra outras doutrinas fez com que a sua mãe, evangélica neopentecostal, se afastasse de coisas e pessoas. “Me dói muito, ver minha mãe se afastar das pessoas e até da música do mundo (que não são cristãs) por causa de pastor. Como se a música, de fato, não fosse do mundo. É um desserviço o que certos religiosos têm feito, cobrando até mesmo entrada no céu”, lamenta.

O que diz a lei

Jesus, Maomé, Xangô, Buda. São vários os nomes de deuses existentes nas religiões. Em linhas gerais, as religiões dão um norte ao ser humano, possibilitando a construção de um sentido de vida, tendo como centro de sua filosofia o amor, tanto por si, quanto pelos outros. Na Constituição brasileira está assegurado o direito a culto através do  artigo 5°, inciso VI. O artigo esclarece o livre exercício de culto e a proteção a esses locais. O Brasil é um Estado laico, ou seja, não possui uma religião oficial. Dessa forma, o Estado é imparcial a qualquer religião, assegurando a governabilidade sem dogmas religiosos.

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